Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão

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Autora, Keynote Speaker e Consultora

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24 de set. de 2026, 10:01

#Protagonistas
Opinião

«Em setembro começo». A frase não precisa de dono, já foi de toda a gente. Disse-se em junho, ao espelho ou na esplanada, a propósito do exercício físico, do curso adiado, do livro por escrever, da conversa por ter, dos fins de semana sem computador. Setembro chegou, trouxe a agenda cheia, e a promessa passou para outubro sem que ninguém desse pelo funeral.

O diagnóstico que fazemos a seguir é sempre o mesmo: falta de disciplina. Compramos a agenda nova, instalamos a aplicação, lemos o livro sobre hábitos, prometemos outra vez com mais força. A opinião impopular desta semana é que o diagnóstico está errado. Não lhe falta disciplina; sobra-lhe perdão.

Repare na diferença entre as duas famílias de promessas com que vive. As que faz aos outros têm um credor com rosto: o cliente que espera a proposta, o chefe que pergunta pelo relatório, o colega que precisa da sua parte para avançar. Falhar tem um custo imediato, visível, com nome próprio, e é por isso que quase nunca falha. As promessas que faz a si próprio funcionam ao contrário: o devedor e o credor são a mesma pessoa, e esse credor é o mais tolerante do mundo. Aceita qualquer justificação, renegoceia qualquer prazo sem cobrar juros e nunca, em circunstância alguma, corta o crédito. Com um credor assim, qualquer pessoa falha; a surpresa seria cumprir.

O problema é que este perdão barato tem um custo discreto e cumulativo. A confiança que temos em nós próprios constrói-se exatamente como a outra: com palavra dada e palavra cumprida. Cada promessa que deixamos cair sem consequência ensina-nos a não acreditar na seguinte, e chega um ponto em que prometemos a nós próprios por cerimónia, como quem diz «havemos de almoçar» a um conhecido que encontra na rua. Conheço muitos profissionais com uma palavra impecável para os outros e permanentemente adiados na sua: pessoas em quem toda a gente pode confiar, menos elas.

Trabalho este tema muitas vezes em mentoria, e o exercício que proponho é pequeno de propósito. Peço à pessoa que escolha uma promessa, uma só; a lista completa é outra forma de adiamento, porque quem promete tudo ao mesmo tempo já escolheu não cumprir nada. Depois, peço-lhe que dê a essa promessa o tratamento que daria a um cliente: uma hora com data na agenda, em seu nome, com o mesmo estatuto de qualquer reunião de trabalho. E uma única regra, a regra do cliente: a hora pode remarcar-se, nunca pode cancelar-se. Ao fim de um mês, o que a pessoa ganhou vale menos pelo resultado do que pelo precedente: passou a saber que a sua palavra também funciona quando é dada a si própria.

E se, ao chegar ao fim desta crónica, estiver a prometer a si próprio que começa na segunda-feira, faça-me um favor: marque a hora antes de mudar de página. Eu prometi a mim própria que este texto ficava pronto esta semana. Como vê, com data marcada, até as promessas que fazemos a nós próprios se cumprem.



Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:

Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão

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24 de set. de 2026, 10:01

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Opinião

«Em setembro começo». A frase não precisa de dono, já foi de toda a gente. Disse-se em junho, ao espelho ou na esplanada, a propósito do exercício físico, do curso adiado, do livro por escrever, da conversa por ter, dos fins de semana sem computador. Setembro chegou, trouxe a agenda cheia, e a promessa passou para outubro sem que ninguém desse pelo funeral.

O diagnóstico que fazemos a seguir é sempre o mesmo: falta de disciplina. Compramos a agenda nova, instalamos a aplicação, lemos o livro sobre hábitos, prometemos outra vez com mais força. A opinião impopular desta semana é que o diagnóstico está errado. Não lhe falta disciplina; sobra-lhe perdão.

Repare na diferença entre as duas famílias de promessas com que vive. As que faz aos outros têm um credor com rosto: o cliente que espera a proposta, o chefe que pergunta pelo relatório, o colega que precisa da sua parte para avançar. Falhar tem um custo imediato, visível, com nome próprio, e é por isso que quase nunca falha. As promessas que faz a si próprio funcionam ao contrário: o devedor e o credor são a mesma pessoa, e esse credor é o mais tolerante do mundo. Aceita qualquer justificação, renegoceia qualquer prazo sem cobrar juros e nunca, em circunstância alguma, corta o crédito. Com um credor assim, qualquer pessoa falha; a surpresa seria cumprir.

O problema é que este perdão barato tem um custo discreto e cumulativo. A confiança que temos em nós próprios constrói-se exatamente como a outra: com palavra dada e palavra cumprida. Cada promessa que deixamos cair sem consequência ensina-nos a não acreditar na seguinte, e chega um ponto em que prometemos a nós próprios por cerimónia, como quem diz «havemos de almoçar» a um conhecido que encontra na rua. Conheço muitos profissionais com uma palavra impecável para os outros e permanentemente adiados na sua: pessoas em quem toda a gente pode confiar, menos elas.

Trabalho este tema muitas vezes em mentoria, e o exercício que proponho é pequeno de propósito. Peço à pessoa que escolha uma promessa, uma só; a lista completa é outra forma de adiamento, porque quem promete tudo ao mesmo tempo já escolheu não cumprir nada. Depois, peço-lhe que dê a essa promessa o tratamento que daria a um cliente: uma hora com data na agenda, em seu nome, com o mesmo estatuto de qualquer reunião de trabalho. E uma única regra, a regra do cliente: a hora pode remarcar-se, nunca pode cancelar-se. Ao fim de um mês, o que a pessoa ganhou vale menos pelo resultado do que pelo precedente: passou a saber que a sua palavra também funciona quando é dada a si própria.

E se, ao chegar ao fim desta crónica, estiver a prometer a si próprio que começa na segunda-feira, faça-me um favor: marque a hora antes de mudar de página. Eu prometi a mim própria que este texto ficava pronto esta semana. Como vê, com data marcada, até as promessas que fazemos a nós próprios se cumprem.



Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:

Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão

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24 de set. de 2026, 10:01

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«Em setembro começo». A frase não precisa de dono, já foi de toda a gente. Disse-se em junho, ao espelho ou na esplanada, a propósito do exercício físico, do curso adiado, do livro por escrever, da conversa por ter, dos fins de semana sem computador. Setembro chegou, trouxe a agenda cheia, e a promessa passou para outubro sem que ninguém desse pelo funeral.

O diagnóstico que fazemos a seguir é sempre o mesmo: falta de disciplina. Compramos a agenda nova, instalamos a aplicação, lemos o livro sobre hábitos, prometemos outra vez com mais força. A opinião impopular desta semana é que o diagnóstico está errado. Não lhe falta disciplina; sobra-lhe perdão.

Repare na diferença entre as duas famílias de promessas com que vive. As que faz aos outros têm um credor com rosto: o cliente que espera a proposta, o chefe que pergunta pelo relatório, o colega que precisa da sua parte para avançar. Falhar tem um custo imediato, visível, com nome próprio, e é por isso que quase nunca falha. As promessas que faz a si próprio funcionam ao contrário: o devedor e o credor são a mesma pessoa, e esse credor é o mais tolerante do mundo. Aceita qualquer justificação, renegoceia qualquer prazo sem cobrar juros e nunca, em circunstância alguma, corta o crédito. Com um credor assim, qualquer pessoa falha; a surpresa seria cumprir.

O problema é que este perdão barato tem um custo discreto e cumulativo. A confiança que temos em nós próprios constrói-se exatamente como a outra: com palavra dada e palavra cumprida. Cada promessa que deixamos cair sem consequência ensina-nos a não acreditar na seguinte, e chega um ponto em que prometemos a nós próprios por cerimónia, como quem diz «havemos de almoçar» a um conhecido que encontra na rua. Conheço muitos profissionais com uma palavra impecável para os outros e permanentemente adiados na sua: pessoas em quem toda a gente pode confiar, menos elas.

Trabalho este tema muitas vezes em mentoria, e o exercício que proponho é pequeno de propósito. Peço à pessoa que escolha uma promessa, uma só; a lista completa é outra forma de adiamento, porque quem promete tudo ao mesmo tempo já escolheu não cumprir nada. Depois, peço-lhe que dê a essa promessa o tratamento que daria a um cliente: uma hora com data na agenda, em seu nome, com o mesmo estatuto de qualquer reunião de trabalho. E uma única regra, a regra do cliente: a hora pode remarcar-se, nunca pode cancelar-se. Ao fim de um mês, o que a pessoa ganhou vale menos pelo resultado do que pelo precedente: passou a saber que a sua palavra também funciona quando é dada a si própria.

E se, ao chegar ao fim desta crónica, estiver a prometer a si próprio que começa na segunda-feira, faça-me um favor: marque a hora antes de mudar de página. Eu prometi a mim própria que este texto ficava pronto esta semana. Como vê, com data marcada, até as promessas que fazemos a nós próprios se cumprem.



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«Em setembro começo». A frase não precisa de dono, já foi de toda a gente. Disse-se em junho, ao espelho ou na esplanada, a propósito do exercício físico, do curso adiado, do livro por escrever, da conversa por ter, dos fins de semana sem computador. Setembro chegou, trouxe a agenda cheia, e a promessa passou para outubro sem que ninguém desse pelo funeral.

O diagnóstico que fazemos a seguir é sempre o mesmo: falta de disciplina. Compramos a agenda nova, instalamos a aplicação, lemos o livro sobre hábitos, prometemos outra vez com mais força. A opinião impopular desta semana é que o diagnóstico está errado. Não lhe falta disciplina; sobra-lhe perdão.

Repare na diferença entre as duas famílias de promessas com que vive. As que faz aos outros têm um credor com rosto: o cliente que espera a proposta, o chefe que pergunta pelo relatório, o colega que precisa da sua parte para avançar. Falhar tem um custo imediato, visível, com nome próprio, e é por isso que quase nunca falha. As promessas que faz a si próprio funcionam ao contrário: o devedor e o credor são a mesma pessoa, e esse credor é o mais tolerante do mundo. Aceita qualquer justificação, renegoceia qualquer prazo sem cobrar juros e nunca, em circunstância alguma, corta o crédito. Com um credor assim, qualquer pessoa falha; a surpresa seria cumprir.

O problema é que este perdão barato tem um custo discreto e cumulativo. A confiança que temos em nós próprios constrói-se exatamente como a outra: com palavra dada e palavra cumprida. Cada promessa que deixamos cair sem consequência ensina-nos a não acreditar na seguinte, e chega um ponto em que prometemos a nós próprios por cerimónia, como quem diz «havemos de almoçar» a um conhecido que encontra na rua. Conheço muitos profissionais com uma palavra impecável para os outros e permanentemente adiados na sua: pessoas em quem toda a gente pode confiar, menos elas.

Trabalho este tema muitas vezes em mentoria, e o exercício que proponho é pequeno de propósito. Peço à pessoa que escolha uma promessa, uma só; a lista completa é outra forma de adiamento, porque quem promete tudo ao mesmo tempo já escolheu não cumprir nada. Depois, peço-lhe que dê a essa promessa o tratamento que daria a um cliente: uma hora com data na agenda, em seu nome, com o mesmo estatuto de qualquer reunião de trabalho. E uma única regra, a regra do cliente: a hora pode remarcar-se, nunca pode cancelar-se. Ao fim de um mês, o que a pessoa ganhou vale menos pelo resultado do que pelo precedente: passou a saber que a sua palavra também funciona quando é dada a si própria.

E se, ao chegar ao fim desta crónica, estiver a prometer a si próprio que começa na segunda-feira, faça-me um favor: marque a hora antes de mudar de página. Eu prometi a mim própria que este texto ficava pronto esta semana. Como vê, com data marcada, até as promessas que fazemos a nós próprios se cumprem.



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