Podemos todos ir mais devagar, foi o Obama que disse
#Motivação
Opinião

Há uns dias, em Lisboa, um homem que já teve nas mãos as decisões do país mais poderoso do mundo disse a mais de dez mil pessoas uma frase que eu não esperava ouvir num evento de negócios: "we can all go slower". Barack Obama disse-o com a calma de quem já não tem nada a provar, e a sala aplaudiu.
Dentro das empresas, esta frase continua a ser uma opinião impopular. A pressa ganhou um estatuto que nunca teve de merecer: quem responde às onze da noite parece mais empenhado do que quem responde na manhã seguinte, quem aceita a reunião marcada em cima da hora parece mais disponível do que quem pede um dia para pensar, e a palavra "urgente" aparece em tantos assuntos que já ninguém sabe o que é, de facto, urgente.
Os números ajudam a perceber a que ponto chegámos. A Microsoft analisou a atividade de mais de trinta mil trabalhadores em 31 países e concluiu que somos interrompidos, em média, de dois em dois minutos, cerca de 275 vezes por dia, entre reuniões, e-mails e mensagens. As reuniões depois das oito da noite aumentaram 16 por cento num só ano. A Microsoft chamou-lhe o dia de trabalho infinito. Eu chamar-lhe-ia um dia em que ninguém tem tempo para pensar naquilo que está a fazer.
Não acredito que alguém corra por gosto. Corremos porque, algures pelo caminho, abrandar passou a parecer suspeito. Quem vai devagar arrisca-se a parecer pouco ambicioso, pouco comprometido ou, pior ainda, dispensável. E, assim, todos aceleramos para que ninguém pense que estamos parados, mesmo quando a velocidade não nos leva a lado nenhum.
O curioso é que as decisões que mais pesam numa equipa raramente se tomam bem a correr. A conversa difícil que se adia por falta de agenda, o feedback dado no corredor entre duas chamadas, a contratação feita à pressa para tapar um buraco: tudo isto se paga, e quase sempre mais tarde, com juros. Ir mais devagar nunca quis dizer fazer menos; quer dizer dar às coisas importantes o tempo de que elas precisam para ficarem bem feitas à primeira.
O Obama sabe-o melhor do que a maioria de nós. Durante os oito anos em que esteve na Casa Branca, ficou conhecido pela forma demorada como decidia, a ouvir todas as partes antes de escolher, e foi muitas vezes criticado por isso. Ouvi-lo, agora, defender a lentidão, depois de ter conhecido de perto a pressa do mundo inteiro, dá à frase um peso que nenhum livro de produtividade consegue ter.
Se alguém no escritório estranhar que o e-mail de hoje só tenha resposta amanhã, fique tranquilo: tem cobertura ao mais alto nível. Está apenas a seguir as indicações de um antigo inquilino da Casa Branca.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
"Os chefes só atrapalham"
A inteligência artificial tem as costas largas
Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão
Podemos todos ir mais devagar, foi o Obama que disse
#Motivação
Opinião

Há uns dias, em Lisboa, um homem que já teve nas mãos as decisões do país mais poderoso do mundo disse a mais de dez mil pessoas uma frase que eu não esperava ouvir num evento de negócios: "we can all go slower". Barack Obama disse-o com a calma de quem já não tem nada a provar, e a sala aplaudiu.
Dentro das empresas, esta frase continua a ser uma opinião impopular. A pressa ganhou um estatuto que nunca teve de merecer: quem responde às onze da noite parece mais empenhado do que quem responde na manhã seguinte, quem aceita a reunião marcada em cima da hora parece mais disponível do que quem pede um dia para pensar, e a palavra "urgente" aparece em tantos assuntos que já ninguém sabe o que é, de facto, urgente.
Os números ajudam a perceber a que ponto chegámos. A Microsoft analisou a atividade de mais de trinta mil trabalhadores em 31 países e concluiu que somos interrompidos, em média, de dois em dois minutos, cerca de 275 vezes por dia, entre reuniões, e-mails e mensagens. As reuniões depois das oito da noite aumentaram 16 por cento num só ano. A Microsoft chamou-lhe o dia de trabalho infinito. Eu chamar-lhe-ia um dia em que ninguém tem tempo para pensar naquilo que está a fazer.
Não acredito que alguém corra por gosto. Corremos porque, algures pelo caminho, abrandar passou a parecer suspeito. Quem vai devagar arrisca-se a parecer pouco ambicioso, pouco comprometido ou, pior ainda, dispensável. E, assim, todos aceleramos para que ninguém pense que estamos parados, mesmo quando a velocidade não nos leva a lado nenhum.
O curioso é que as decisões que mais pesam numa equipa raramente se tomam bem a correr. A conversa difícil que se adia por falta de agenda, o feedback dado no corredor entre duas chamadas, a contratação feita à pressa para tapar um buraco: tudo isto se paga, e quase sempre mais tarde, com juros. Ir mais devagar nunca quis dizer fazer menos; quer dizer dar às coisas importantes o tempo de que elas precisam para ficarem bem feitas à primeira.
O Obama sabe-o melhor do que a maioria de nós. Durante os oito anos em que esteve na Casa Branca, ficou conhecido pela forma demorada como decidia, a ouvir todas as partes antes de escolher, e foi muitas vezes criticado por isso. Ouvi-lo, agora, defender a lentidão, depois de ter conhecido de perto a pressa do mundo inteiro, dá à frase um peso que nenhum livro de produtividade consegue ter.
Se alguém no escritório estranhar que o e-mail de hoje só tenha resposta amanhã, fique tranquilo: tem cobertura ao mais alto nível. Está apenas a seguir as indicações de um antigo inquilino da Casa Branca.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
"Os chefes só atrapalham"
A inteligência artificial tem as costas largas
Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão
Podemos todos ir mais devagar, foi o Obama que disse
#Motivação
Opinião

Há uns dias, em Lisboa, um homem que já teve nas mãos as decisões do país mais poderoso do mundo disse a mais de dez mil pessoas uma frase que eu não esperava ouvir num evento de negócios: "we can all go slower". Barack Obama disse-o com a calma de quem já não tem nada a provar, e a sala aplaudiu.
Dentro das empresas, esta frase continua a ser uma opinião impopular. A pressa ganhou um estatuto que nunca teve de merecer: quem responde às onze da noite parece mais empenhado do que quem responde na manhã seguinte, quem aceita a reunião marcada em cima da hora parece mais disponível do que quem pede um dia para pensar, e a palavra "urgente" aparece em tantos assuntos que já ninguém sabe o que é, de facto, urgente.
Os números ajudam a perceber a que ponto chegámos. A Microsoft analisou a atividade de mais de trinta mil trabalhadores em 31 países e concluiu que somos interrompidos, em média, de dois em dois minutos, cerca de 275 vezes por dia, entre reuniões, e-mails e mensagens. As reuniões depois das oito da noite aumentaram 16 por cento num só ano. A Microsoft chamou-lhe o dia de trabalho infinito. Eu chamar-lhe-ia um dia em que ninguém tem tempo para pensar naquilo que está a fazer.
Não acredito que alguém corra por gosto. Corremos porque, algures pelo caminho, abrandar passou a parecer suspeito. Quem vai devagar arrisca-se a parecer pouco ambicioso, pouco comprometido ou, pior ainda, dispensável. E, assim, todos aceleramos para que ninguém pense que estamos parados, mesmo quando a velocidade não nos leva a lado nenhum.
O curioso é que as decisões que mais pesam numa equipa raramente se tomam bem a correr. A conversa difícil que se adia por falta de agenda, o feedback dado no corredor entre duas chamadas, a contratação feita à pressa para tapar um buraco: tudo isto se paga, e quase sempre mais tarde, com juros. Ir mais devagar nunca quis dizer fazer menos; quer dizer dar às coisas importantes o tempo de que elas precisam para ficarem bem feitas à primeira.
O Obama sabe-o melhor do que a maioria de nós. Durante os oito anos em que esteve na Casa Branca, ficou conhecido pela forma demorada como decidia, a ouvir todas as partes antes de escolher, e foi muitas vezes criticado por isso. Ouvi-lo, agora, defender a lentidão, depois de ter conhecido de perto a pressa do mundo inteiro, dá à frase um peso que nenhum livro de produtividade consegue ter.
Se alguém no escritório estranhar que o e-mail de hoje só tenha resposta amanhã, fique tranquilo: tem cobertura ao mais alto nível. Está apenas a seguir as indicações de um antigo inquilino da Casa Branca.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
"Os chefes só atrapalham"
A inteligência artificial tem as costas largas
Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão
Podemos todos ir mais devagar, foi o Obama que disse
#Motivação
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Há uns dias, em Lisboa, um homem que já teve nas mãos as decisões do país mais poderoso do mundo disse a mais de dez mil pessoas uma frase que eu não esperava ouvir num evento de negócios: "we can all go slower". Barack Obama disse-o com a calma de quem já não tem nada a provar, e a sala aplaudiu.
Dentro das empresas, esta frase continua a ser uma opinião impopular. A pressa ganhou um estatuto que nunca teve de merecer: quem responde às onze da noite parece mais empenhado do que quem responde na manhã seguinte, quem aceita a reunião marcada em cima da hora parece mais disponível do que quem pede um dia para pensar, e a palavra "urgente" aparece em tantos assuntos que já ninguém sabe o que é, de facto, urgente.
Os números ajudam a perceber a que ponto chegámos. A Microsoft analisou a atividade de mais de trinta mil trabalhadores em 31 países e concluiu que somos interrompidos, em média, de dois em dois minutos, cerca de 275 vezes por dia, entre reuniões, e-mails e mensagens. As reuniões depois das oito da noite aumentaram 16 por cento num só ano. A Microsoft chamou-lhe o dia de trabalho infinito. Eu chamar-lhe-ia um dia em que ninguém tem tempo para pensar naquilo que está a fazer.
Não acredito que alguém corra por gosto. Corremos porque, algures pelo caminho, abrandar passou a parecer suspeito. Quem vai devagar arrisca-se a parecer pouco ambicioso, pouco comprometido ou, pior ainda, dispensável. E, assim, todos aceleramos para que ninguém pense que estamos parados, mesmo quando a velocidade não nos leva a lado nenhum.
O curioso é que as decisões que mais pesam numa equipa raramente se tomam bem a correr. A conversa difícil que se adia por falta de agenda, o feedback dado no corredor entre duas chamadas, a contratação feita à pressa para tapar um buraco: tudo isto se paga, e quase sempre mais tarde, com juros. Ir mais devagar nunca quis dizer fazer menos; quer dizer dar às coisas importantes o tempo de que elas precisam para ficarem bem feitas à primeira.
O Obama sabe-o melhor do que a maioria de nós. Durante os oito anos em que esteve na Casa Branca, ficou conhecido pela forma demorada como decidia, a ouvir todas as partes antes de escolher, e foi muitas vezes criticado por isso. Ouvi-lo, agora, defender a lentidão, depois de ter conhecido de perto a pressa do mundo inteiro, dá à frase um peso que nenhum livro de produtividade consegue ter.
Se alguém no escritório estranhar que o e-mail de hoje só tenha resposta amanhã, fique tranquilo: tem cobertura ao mais alto nível. Está apenas a seguir as indicações de um antigo inquilino da Casa Branca.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
"Os chefes só atrapalham"
A inteligência artificial tem as costas largas
Não lhe falta disciplina, sobra-lhe perdão




