#Protagonistas

human.kind quer prevenir burnout atuando sobre a cultura das empresas

Durante anos, muitas empresas responderam aos desafios da saúde mental com benefícios, workshops de gestão de stress ou iniciativas pontuais de bem-estar. A human.kind, projeto português lançado este mês, quer começar noutro ponto: nas condições de trabalho que podem contribuir para o sofrimento psicológico antes de este se instalar.

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26 de out. de 2026, 12:37

A ideia pode ser simples de formular, mas mais desafiante de executar. A intenção é olhar para a organização e não apenas para a capacidade individual de cada pessoa para aguentar aquilo que nela acontece.

Fundada por Francisca M. Soares, psicóloga e psicoterapeuta, Margarida Soares, Madalena Freitas e Maria Moura, a human.kind junta saúde mental e desenvolvimento humano, sustentabilidade e comunicação, expressão criativa e pensamento aplicado. O projeto dirige-se sobretudo a organizações e parte de uma lógica de prevenção: atuar sobre contextos e relações, aumentar a literacia em saúde mental, reconhecer sinais de alerta e, quando necessário, apoiar situações de sofrimento já instalado.


As fundadoras da human.kind


A origem do projeto está, também, na experiência clínica de Francisca M. Soares. “Acompanho, no consultório, pessoas em situações de sofrimento psicológico, exaustão e burnout. E comecei a questionar-me: quantas destas pessoas poderiam ter sido ajudadas antes? O que poderia ter sido diferente nos seus contextos de trabalho?”, explica ao MOTIVO. A pergunta levou-a a olhar para comportamentos que muitas organizações passaram a considerar normais: “a disponibilidade permanente, a urgência constante, a dificuldade em desligar, a falta de autonomia ou o receio de errar”.


É nesse diagnóstico que a human.kind quer trabalhar

Em vez de chegar com um programa fechado, começa por ouvir a liderança e as equipas, compreender cultura, relações e desafios e, a partir daí, desenhar a intervenção. Os formatos podem ir de uma talk ou experiência curta a acompanhamento individual, LABS com pequenos grupos ou jornadas de vários meses, com diagnóstico, intervenção e avaliação. Entre os temas possíveis estão liderança, colaboração entre gerações, parentalidade, menopausa, longevidade, ambientes de trabalho, economia da atenção ou estilos de vida saudáveis.

“Não acreditamos em receitas universais quando falamos de pessoas”, diz Francisca. A fundadora recusa, igualmente, a ideia de que o objetivo seja acrescentar mais informação a equipas já saturadas dela: “Não existimos para acrescentar mais teoria a quem já está saturado de informação. Partimos do que está realmente a acontecer nas equipas e nas decisões do dia a dia”. O desafio passa por fazer com que uma intervenção deixe consequências na rotina da organização depois de terminar. “Uma experiência inspiradora pode ser um excelente ponto de partida, mas a mudança acontece sobretudo naquilo que fazemos depois”.

É aqui que o projeto toca numa das discussões mais relevantes em torno da saúde mental no trabalho: até onde chega a responsabilidade do indivíduo? Para Francisca, ela tem de ser partilhada. “Podemos incentivar as pessoas a cuidar de si, a gerir o stress ou a estabelecer limites, mas não podemos pedir-lhes que meditem para aguentar aquilo que a organização não está disposta a mudar”. A diferença está naquilo que as empresas fazem com temas como carga de trabalho, autonomia, segurança psicológica, comunicação ou liderança, e não apenas nos recursos que oferecem para lidar com as consequências.

A própria ausência de conflito ou de queixas pode ser enganadora. “As pessoas sentem-se ouvidas? Podem discordar? Têm espaço para errar? Podem dizer que não estão bem?”, questiona a psicóloga. “Nem sempre a ausência de queixas significa que está tudo bem. Às vezes, significa apenas que ninguém se sente à vontade para falar”. São este tipo de sinais que a human.kind pretende cruzar com fatores de risco psicossocial e elementos de proteção, como qualidade das relações, apoio social, autonomia ou sentimento de pertença.



Francisca M. Soares é psicóloga e psicoterapeuta e foi a partir da experiência em consulta que partiu para a criação da human-kind


Como?

O projeto introduz metodologias menos convencionais para trabalhar estes temas. A equipa recorre, por exemplo, a ferramentas criativas e participativas como LEGO® Serious Play®, desenho ou construção coletiva. O objetivo não é apresentar a criatividade como tratamento (uma distinção que Francisca faz questão de sublinhar), mas alterar as dinâmicas habituais das equipas e criar condições para que outras pessoas e perspetivas entrem na discussão. “Claro que não estamos a sugerir que brincar com LEGO resolve problemas de saúde mental”, diz. “Acreditamos no potencial da criatividade para estimular a reflexão, fortalecer relações e descobrir novas possibilidades”.

A eficácia destas intervenções levanta, porém, uma questão difícil: como se mede aquilo que se conseguiu prevenir? “Sabemos quanto custam os problemas de saúde mental; temos dados sobre o impacto da ansiedade e da depressão, do absentismo, do presentismo e da perda de produtividade. Mas como calculamos o valor de um burnout que não chegou a acontecer?”, pergunta Francisca. A proposta passa por definir indicadores à partida e cruzar métricas tradicionais — como absentismo, rotatividade e fatores de risco psicossocial — com outras relacionadas com colaboração, segurança psicológica, pertença ou práticas de liderança, comparando resultados antes e depois da intervenção.

Esse acompanhamento é, também, importante para evitar outro problema comum neste mercado: confundir satisfação imediata com mudança. Uma equipa pode sair motivada de um workshop e regressar rapidamente às mesmas práticas. “O que nos interessa é perceber o que mudou efetivamente no dia a dia e como podemos ajudar a consolidar essa mudança”, explica Francisca. É aí que se concentra a ambição da human.kind: fazer com que saúde mental deixe de aparecer apenas quando alguém já não consegue continuar. “Talvez esteja na altura de darmos tanta atenção àquilo que ajuda as pessoas a estar bem como àquilo que as faz adoecer”.


(C) Foto de Total Shape na Unsplash
#Protagonistas

human.kind quer prevenir burnout atuando sobre a cultura das empresas

Durante anos, muitas empresas responderam aos desafios da saúde mental com benefícios, workshops de gestão de stress ou iniciativas pontuais de bem-estar. A human.kind, projeto português lançado este mês, quer começar noutro ponto: nas condições de trabalho que podem contribuir para o sofrimento psicológico antes de este se instalar.

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26 de out. de 2026, 12:37

A ideia pode ser simples de formular, mas mais desafiante de executar. A intenção é olhar para a organização e não apenas para a capacidade individual de cada pessoa para aguentar aquilo que nela acontece.

Fundada por Francisca M. Soares, psicóloga e psicoterapeuta, Margarida Soares, Madalena Freitas e Maria Moura, a human.kind junta saúde mental e desenvolvimento humano, sustentabilidade e comunicação, expressão criativa e pensamento aplicado. O projeto dirige-se sobretudo a organizações e parte de uma lógica de prevenção: atuar sobre contextos e relações, aumentar a literacia em saúde mental, reconhecer sinais de alerta e, quando necessário, apoiar situações de sofrimento já instalado.


As fundadoras da human.kind


A origem do projeto está, também, na experiência clínica de Francisca M. Soares. “Acompanho, no consultório, pessoas em situações de sofrimento psicológico, exaustão e burnout. E comecei a questionar-me: quantas destas pessoas poderiam ter sido ajudadas antes? O que poderia ter sido diferente nos seus contextos de trabalho?”, explica ao MOTIVO. A pergunta levou-a a olhar para comportamentos que muitas organizações passaram a considerar normais: “a disponibilidade permanente, a urgência constante, a dificuldade em desligar, a falta de autonomia ou o receio de errar”.


É nesse diagnóstico que a human.kind quer trabalhar

Em vez de chegar com um programa fechado, começa por ouvir a liderança e as equipas, compreender cultura, relações e desafios e, a partir daí, desenhar a intervenção. Os formatos podem ir de uma talk ou experiência curta a acompanhamento individual, LABS com pequenos grupos ou jornadas de vários meses, com diagnóstico, intervenção e avaliação. Entre os temas possíveis estão liderança, colaboração entre gerações, parentalidade, menopausa, longevidade, ambientes de trabalho, economia da atenção ou estilos de vida saudáveis.

“Não acreditamos em receitas universais quando falamos de pessoas”, diz Francisca. A fundadora recusa, igualmente, a ideia de que o objetivo seja acrescentar mais informação a equipas já saturadas dela: “Não existimos para acrescentar mais teoria a quem já está saturado de informação. Partimos do que está realmente a acontecer nas equipas e nas decisões do dia a dia”. O desafio passa por fazer com que uma intervenção deixe consequências na rotina da organização depois de terminar. “Uma experiência inspiradora pode ser um excelente ponto de partida, mas a mudança acontece sobretudo naquilo que fazemos depois”.

É aqui que o projeto toca numa das discussões mais relevantes em torno da saúde mental no trabalho: até onde chega a responsabilidade do indivíduo? Para Francisca, ela tem de ser partilhada. “Podemos incentivar as pessoas a cuidar de si, a gerir o stress ou a estabelecer limites, mas não podemos pedir-lhes que meditem para aguentar aquilo que a organização não está disposta a mudar”. A diferença está naquilo que as empresas fazem com temas como carga de trabalho, autonomia, segurança psicológica, comunicação ou liderança, e não apenas nos recursos que oferecem para lidar com as consequências.

A própria ausência de conflito ou de queixas pode ser enganadora. “As pessoas sentem-se ouvidas? Podem discordar? Têm espaço para errar? Podem dizer que não estão bem?”, questiona a psicóloga. “Nem sempre a ausência de queixas significa que está tudo bem. Às vezes, significa apenas que ninguém se sente à vontade para falar”. São este tipo de sinais que a human.kind pretende cruzar com fatores de risco psicossocial e elementos de proteção, como qualidade das relações, apoio social, autonomia ou sentimento de pertença.



Francisca M. Soares é psicóloga e psicoterapeuta e foi a partir da experiência em consulta que partiu para a criação da human-kind


Como?

O projeto introduz metodologias menos convencionais para trabalhar estes temas. A equipa recorre, por exemplo, a ferramentas criativas e participativas como LEGO® Serious Play®, desenho ou construção coletiva. O objetivo não é apresentar a criatividade como tratamento (uma distinção que Francisca faz questão de sublinhar), mas alterar as dinâmicas habituais das equipas e criar condições para que outras pessoas e perspetivas entrem na discussão. “Claro que não estamos a sugerir que brincar com LEGO resolve problemas de saúde mental”, diz. “Acreditamos no potencial da criatividade para estimular a reflexão, fortalecer relações e descobrir novas possibilidades”.

A eficácia destas intervenções levanta, porém, uma questão difícil: como se mede aquilo que se conseguiu prevenir? “Sabemos quanto custam os problemas de saúde mental; temos dados sobre o impacto da ansiedade e da depressão, do absentismo, do presentismo e da perda de produtividade. Mas como calculamos o valor de um burnout que não chegou a acontecer?”, pergunta Francisca. A proposta passa por definir indicadores à partida e cruzar métricas tradicionais — como absentismo, rotatividade e fatores de risco psicossocial — com outras relacionadas com colaboração, segurança psicológica, pertença ou práticas de liderança, comparando resultados antes e depois da intervenção.

Esse acompanhamento é, também, importante para evitar outro problema comum neste mercado: confundir satisfação imediata com mudança. Uma equipa pode sair motivada de um workshop e regressar rapidamente às mesmas práticas. “O que nos interessa é perceber o que mudou efetivamente no dia a dia e como podemos ajudar a consolidar essa mudança”, explica Francisca. É aí que se concentra a ambição da human.kind: fazer com que saúde mental deixe de aparecer apenas quando alguém já não consegue continuar. “Talvez esteja na altura de darmos tanta atenção àquilo que ajuda as pessoas a estar bem como àquilo que as faz adoecer”.


(C) Foto de Total Shape na Unsplash

#Protagonistas

human.kind quer prevenir burnout atuando sobre a cultura das empresas

Durante anos, muitas empresas responderam aos desafios da saúde mental com benefícios, workshops de gestão de stress ou iniciativas pontuais de bem-estar. A human.kind, projeto português lançado este mês, quer começar noutro ponto: nas condições de trabalho que podem contribuir para o sofrimento psicológico antes de este se instalar.

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26 de out. de 2026, 12:37

A ideia pode ser simples de formular, mas mais desafiante de executar. A intenção é olhar para a organização e não apenas para a capacidade individual de cada pessoa para aguentar aquilo que nela acontece.

Fundada por Francisca M. Soares, psicóloga e psicoterapeuta, Margarida Soares, Madalena Freitas e Maria Moura, a human.kind junta saúde mental e desenvolvimento humano, sustentabilidade e comunicação, expressão criativa e pensamento aplicado. O projeto dirige-se sobretudo a organizações e parte de uma lógica de prevenção: atuar sobre contextos e relações, aumentar a literacia em saúde mental, reconhecer sinais de alerta e, quando necessário, apoiar situações de sofrimento já instalado.


As fundadoras da human.kind


A origem do projeto está, também, na experiência clínica de Francisca M. Soares. “Acompanho, no consultório, pessoas em situações de sofrimento psicológico, exaustão e burnout. E comecei a questionar-me: quantas destas pessoas poderiam ter sido ajudadas antes? O que poderia ter sido diferente nos seus contextos de trabalho?”, explica ao MOTIVO. A pergunta levou-a a olhar para comportamentos que muitas organizações passaram a considerar normais: “a disponibilidade permanente, a urgência constante, a dificuldade em desligar, a falta de autonomia ou o receio de errar”.


É nesse diagnóstico que a human.kind quer trabalhar

Em vez de chegar com um programa fechado, começa por ouvir a liderança e as equipas, compreender cultura, relações e desafios e, a partir daí, desenhar a intervenção. Os formatos podem ir de uma talk ou experiência curta a acompanhamento individual, LABS com pequenos grupos ou jornadas de vários meses, com diagnóstico, intervenção e avaliação. Entre os temas possíveis estão liderança, colaboração entre gerações, parentalidade, menopausa, longevidade, ambientes de trabalho, economia da atenção ou estilos de vida saudáveis.

“Não acreditamos em receitas universais quando falamos de pessoas”, diz Francisca. A fundadora recusa, igualmente, a ideia de que o objetivo seja acrescentar mais informação a equipas já saturadas dela: “Não existimos para acrescentar mais teoria a quem já está saturado de informação. Partimos do que está realmente a acontecer nas equipas e nas decisões do dia a dia”. O desafio passa por fazer com que uma intervenção deixe consequências na rotina da organização depois de terminar. “Uma experiência inspiradora pode ser um excelente ponto de partida, mas a mudança acontece sobretudo naquilo que fazemos depois”.

É aqui que o projeto toca numa das discussões mais relevantes em torno da saúde mental no trabalho: até onde chega a responsabilidade do indivíduo? Para Francisca, ela tem de ser partilhada. “Podemos incentivar as pessoas a cuidar de si, a gerir o stress ou a estabelecer limites, mas não podemos pedir-lhes que meditem para aguentar aquilo que a organização não está disposta a mudar”. A diferença está naquilo que as empresas fazem com temas como carga de trabalho, autonomia, segurança psicológica, comunicação ou liderança, e não apenas nos recursos que oferecem para lidar com as consequências.

A própria ausência de conflito ou de queixas pode ser enganadora. “As pessoas sentem-se ouvidas? Podem discordar? Têm espaço para errar? Podem dizer que não estão bem?”, questiona a psicóloga. “Nem sempre a ausência de queixas significa que está tudo bem. Às vezes, significa apenas que ninguém se sente à vontade para falar”. São este tipo de sinais que a human.kind pretende cruzar com fatores de risco psicossocial e elementos de proteção, como qualidade das relações, apoio social, autonomia ou sentimento de pertença.



Francisca M. Soares é psicóloga e psicoterapeuta e foi a partir da experiência em consulta que partiu para a criação da human-kind


Como?

O projeto introduz metodologias menos convencionais para trabalhar estes temas. A equipa recorre, por exemplo, a ferramentas criativas e participativas como LEGO® Serious Play®, desenho ou construção coletiva. O objetivo não é apresentar a criatividade como tratamento (uma distinção que Francisca faz questão de sublinhar), mas alterar as dinâmicas habituais das equipas e criar condições para que outras pessoas e perspetivas entrem na discussão. “Claro que não estamos a sugerir que brincar com LEGO resolve problemas de saúde mental”, diz. “Acreditamos no potencial da criatividade para estimular a reflexão, fortalecer relações e descobrir novas possibilidades”.

A eficácia destas intervenções levanta, porém, uma questão difícil: como se mede aquilo que se conseguiu prevenir? “Sabemos quanto custam os problemas de saúde mental; temos dados sobre o impacto da ansiedade e da depressão, do absentismo, do presentismo e da perda de produtividade. Mas como calculamos o valor de um burnout que não chegou a acontecer?”, pergunta Francisca. A proposta passa por definir indicadores à partida e cruzar métricas tradicionais — como absentismo, rotatividade e fatores de risco psicossocial — com outras relacionadas com colaboração, segurança psicológica, pertença ou práticas de liderança, comparando resultados antes e depois da intervenção.

Esse acompanhamento é, também, importante para evitar outro problema comum neste mercado: confundir satisfação imediata com mudança. Uma equipa pode sair motivada de um workshop e regressar rapidamente às mesmas práticas. “O que nos interessa é perceber o que mudou efetivamente no dia a dia e como podemos ajudar a consolidar essa mudança”, explica Francisca. É aí que se concentra a ambição da human.kind: fazer com que saúde mental deixe de aparecer apenas quando alguém já não consegue continuar. “Talvez esteja na altura de darmos tanta atenção àquilo que ajuda as pessoas a estar bem como àquilo que as faz adoecer”.


(C) Foto de Total Shape na Unsplash
#Protagonistas

human.kind quer prevenir burnout atuando sobre a cultura das empresas

Durante anos, muitas empresas responderam aos desafios da saúde mental com benefícios, workshops de gestão de stress ou iniciativas pontuais de bem-estar. A human.kind, projeto português lançado este mês, quer começar noutro ponto: nas condições de trabalho que podem contribuir para o sofrimento psicológico antes de este se instalar.

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26 de out. de 2026, 12:37

A ideia pode ser simples de formular, mas mais desafiante de executar. A intenção é olhar para a organização e não apenas para a capacidade individual de cada pessoa para aguentar aquilo que nela acontece.

Fundada por Francisca M. Soares, psicóloga e psicoterapeuta, Margarida Soares, Madalena Freitas e Maria Moura, a human.kind junta saúde mental e desenvolvimento humano, sustentabilidade e comunicação, expressão criativa e pensamento aplicado. O projeto dirige-se sobretudo a organizações e parte de uma lógica de prevenção: atuar sobre contextos e relações, aumentar a literacia em saúde mental, reconhecer sinais de alerta e, quando necessário, apoiar situações de sofrimento já instalado.


As fundadoras da human.kind


A origem do projeto está, também, na experiência clínica de Francisca M. Soares. “Acompanho, no consultório, pessoas em situações de sofrimento psicológico, exaustão e burnout. E comecei a questionar-me: quantas destas pessoas poderiam ter sido ajudadas antes? O que poderia ter sido diferente nos seus contextos de trabalho?”, explica ao MOTIVO. A pergunta levou-a a olhar para comportamentos que muitas organizações passaram a considerar normais: “a disponibilidade permanente, a urgência constante, a dificuldade em desligar, a falta de autonomia ou o receio de errar”.


É nesse diagnóstico que a human.kind quer trabalhar

Em vez de chegar com um programa fechado, começa por ouvir a liderança e as equipas, compreender cultura, relações e desafios e, a partir daí, desenhar a intervenção. Os formatos podem ir de uma talk ou experiência curta a acompanhamento individual, LABS com pequenos grupos ou jornadas de vários meses, com diagnóstico, intervenção e avaliação. Entre os temas possíveis estão liderança, colaboração entre gerações, parentalidade, menopausa, longevidade, ambientes de trabalho, economia da atenção ou estilos de vida saudáveis.

“Não acreditamos em receitas universais quando falamos de pessoas”, diz Francisca. A fundadora recusa, igualmente, a ideia de que o objetivo seja acrescentar mais informação a equipas já saturadas dela: “Não existimos para acrescentar mais teoria a quem já está saturado de informação. Partimos do que está realmente a acontecer nas equipas e nas decisões do dia a dia”. O desafio passa por fazer com que uma intervenção deixe consequências na rotina da organização depois de terminar. “Uma experiência inspiradora pode ser um excelente ponto de partida, mas a mudança acontece sobretudo naquilo que fazemos depois”.

É aqui que o projeto toca numa das discussões mais relevantes em torno da saúde mental no trabalho: até onde chega a responsabilidade do indivíduo? Para Francisca, ela tem de ser partilhada. “Podemos incentivar as pessoas a cuidar de si, a gerir o stress ou a estabelecer limites, mas não podemos pedir-lhes que meditem para aguentar aquilo que a organização não está disposta a mudar”. A diferença está naquilo que as empresas fazem com temas como carga de trabalho, autonomia, segurança psicológica, comunicação ou liderança, e não apenas nos recursos que oferecem para lidar com as consequências.

A própria ausência de conflito ou de queixas pode ser enganadora. “As pessoas sentem-se ouvidas? Podem discordar? Têm espaço para errar? Podem dizer que não estão bem?”, questiona a psicóloga. “Nem sempre a ausência de queixas significa que está tudo bem. Às vezes, significa apenas que ninguém se sente à vontade para falar”. São este tipo de sinais que a human.kind pretende cruzar com fatores de risco psicossocial e elementos de proteção, como qualidade das relações, apoio social, autonomia ou sentimento de pertença.



Francisca M. Soares é psicóloga e psicoterapeuta e foi a partir da experiência em consulta que partiu para a criação da human-kind


Como?

O projeto introduz metodologias menos convencionais para trabalhar estes temas. A equipa recorre, por exemplo, a ferramentas criativas e participativas como LEGO® Serious Play®, desenho ou construção coletiva. O objetivo não é apresentar a criatividade como tratamento (uma distinção que Francisca faz questão de sublinhar), mas alterar as dinâmicas habituais das equipas e criar condições para que outras pessoas e perspetivas entrem na discussão. “Claro que não estamos a sugerir que brincar com LEGO resolve problemas de saúde mental”, diz. “Acreditamos no potencial da criatividade para estimular a reflexão, fortalecer relações e descobrir novas possibilidades”.

A eficácia destas intervenções levanta, porém, uma questão difícil: como se mede aquilo que se conseguiu prevenir? “Sabemos quanto custam os problemas de saúde mental; temos dados sobre o impacto da ansiedade e da depressão, do absentismo, do presentismo e da perda de produtividade. Mas como calculamos o valor de um burnout que não chegou a acontecer?”, pergunta Francisca. A proposta passa por definir indicadores à partida e cruzar métricas tradicionais — como absentismo, rotatividade e fatores de risco psicossocial — com outras relacionadas com colaboração, segurança psicológica, pertença ou práticas de liderança, comparando resultados antes e depois da intervenção.

Esse acompanhamento é, também, importante para evitar outro problema comum neste mercado: confundir satisfação imediata com mudança. Uma equipa pode sair motivada de um workshop e regressar rapidamente às mesmas práticas. “O que nos interessa é perceber o que mudou efetivamente no dia a dia e como podemos ajudar a consolidar essa mudança”, explica Francisca. É aí que se concentra a ambição da human.kind: fazer com que saúde mental deixe de aparecer apenas quando alguém já não consegue continuar. “Talvez esteja na altura de darmos tanta atenção àquilo que ajuda as pessoas a estar bem como àquilo que as faz adoecer”.


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