As pessoas continuam a dar tudo, só deixaram de acreditar

|

Autora, Keynote Speaker e Consultora

|

29 de out. de 2026, 15:01

#Protagonistas
Opinião

«As pessoas já não vestem a camisola». Ouve-se esta frase nos corredores, nas reuniões de direção e, com especial frequência, nos almoços em que se fala dos mais novos com a mesma resignação com que se fala do trânsito. Diz-se, com um suspiro e com a segurança de quem descreve um facto. Os números deste outono contam outra história, e confesso que me deixaram mais otimista do que esperava.

O estudo anual da PwC sobre as esperanças e os medos dos trabalhadores, publicado há poucas semanas, traz um paradoxo curioso. Nos resultados já divulgados para a Austrália, o orgulho no trabalho, a vontade de ir além do que é pedido e o entusiasmo com o dia que começa subiram em relação ao ano passado, e sete em cada dez pessoas dizem que gostam de ir trabalhar. No mesmo inquérito, a confiança na gestão de topo caiu de 50 para 41 por cento, e a confiança no chefe direto, aquele com quem se partilha o café e a sala de reuniões, desceu de 61 para 50 por cento. À escala global, a confiança nas chefias perdeu sete pontos num só ano.

Ou seja, as pessoas continuam a vestir a camisola, e vestem-na com gosto; o que se foi perdendo pelo caminho foi a confiança em quem a desenhou.

E a confiança raramente se perde com um escândalo. Vai-se gastando com pequenas coisas que, sozinhas, parecem não ter importância: a reorganização anunciada por email numa sexta-feira ao fim da tarde, o "falamos sobre isso em janeiro" que nunca mais volta à conversa, a sessão de perguntas e respostas em que as perguntas chegam filtradas, a decisão que todos conheciam pelos corredores antes de ser comunicada. Nenhuma delas é grave, mas, juntas, ensinam às pessoas que aquilo que se diz não é bem aquilo que vai acontecer. E as pessoas, que são inteligentes, adaptam-se: continuam a dar o melhor ao trabalho, aos clientes e aos colegas, e deixam de dar à liderança o benefício da dúvida.

Convém dizer, em defesa dos chefes, que muitos perdem a confiança da equipa sem darem por isso e sem qualquer má-fé. Prometem em nome de decisões que não lhes pertencem, defendem em reunião aquilo que não escolheram e ficam com a conta de promessas que outros fizeram por eles. Também eles merecem que alguém lhes explique o porquê das coisas antes de terem de o explicar aos outros.

A boa notícia é que esta é a crise mais fácil de resolver.

Uma equipa desmotivada dá muito trabalho a recuperar, enquanto uma equipa que ainda quer dar tudo está apenas à espera de uma razão para voltar a acreditar. E essa razão vale muito: na edição anterior do mesmo estudo, quem mais confiava no chefe direto mostrava-se 72 por cento mais motivado do que quem menos confiava. A confiança não se reconstrói com uma campanha de valores nem com um cartaz no elevador. Reconstrói-se devagar, com promessas pequenas que se cumprem, com decisões explicadas antes de chegarem pelos corredores e com a coragem de dizer "ainda não sei" quando não se sabe. Nos programas de liderança, há um exercício que custa sempre muito e que é, ao mesmo tempo, o mais simples de todos: escrever as promessas feitas à equipa nos últimos três meses e marcar as que foram cumpridas. Raramente alguém acaba a lista com vontade de a mostrar.

Quanto à camisola, continua vestida, e bem vestida. O que deixou de convencer foi a etiqueta, aquela que garantia que não encolhia na lavagem.


Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:

As pessoas continuam a dar tudo, só deixaram de acreditar

Autora, Keynote Speaker e Consultora

29 de out. de 2026, 15:01

#Protagonistas

Opinião

«As pessoas já não vestem a camisola». Ouve-se esta frase nos corredores, nas reuniões de direção e, com especial frequência, nos almoços em que se fala dos mais novos com a mesma resignação com que se fala do trânsito. Diz-se, com um suspiro e com a segurança de quem descreve um facto. Os números deste outono contam outra história, e confesso que me deixaram mais otimista do que esperava.

O estudo anual da PwC sobre as esperanças e os medos dos trabalhadores, publicado há poucas semanas, traz um paradoxo curioso. Nos resultados já divulgados para a Austrália, o orgulho no trabalho, a vontade de ir além do que é pedido e o entusiasmo com o dia que começa subiram em relação ao ano passado, e sete em cada dez pessoas dizem que gostam de ir trabalhar. No mesmo inquérito, a confiança na gestão de topo caiu de 50 para 41 por cento, e a confiança no chefe direto, aquele com quem se partilha o café e a sala de reuniões, desceu de 61 para 50 por cento. À escala global, a confiança nas chefias perdeu sete pontos num só ano.

Ou seja, as pessoas continuam a vestir a camisola, e vestem-na com gosto; o que se foi perdendo pelo caminho foi a confiança em quem a desenhou.

E a confiança raramente se perde com um escândalo. Vai-se gastando com pequenas coisas que, sozinhas, parecem não ter importância: a reorganização anunciada por email numa sexta-feira ao fim da tarde, o "falamos sobre isso em janeiro" que nunca mais volta à conversa, a sessão de perguntas e respostas em que as perguntas chegam filtradas, a decisão que todos conheciam pelos corredores antes de ser comunicada. Nenhuma delas é grave, mas, juntas, ensinam às pessoas que aquilo que se diz não é bem aquilo que vai acontecer. E as pessoas, que são inteligentes, adaptam-se: continuam a dar o melhor ao trabalho, aos clientes e aos colegas, e deixam de dar à liderança o benefício da dúvida.

Convém dizer, em defesa dos chefes, que muitos perdem a confiança da equipa sem darem por isso e sem qualquer má-fé. Prometem em nome de decisões que não lhes pertencem, defendem em reunião aquilo que não escolheram e ficam com a conta de promessas que outros fizeram por eles. Também eles merecem que alguém lhes explique o porquê das coisas antes de terem de o explicar aos outros.

A boa notícia é que esta é a crise mais fácil de resolver.

Uma equipa desmotivada dá muito trabalho a recuperar, enquanto uma equipa que ainda quer dar tudo está apenas à espera de uma razão para voltar a acreditar. E essa razão vale muito: na edição anterior do mesmo estudo, quem mais confiava no chefe direto mostrava-se 72 por cento mais motivado do que quem menos confiava. A confiança não se reconstrói com uma campanha de valores nem com um cartaz no elevador. Reconstrói-se devagar, com promessas pequenas que se cumprem, com decisões explicadas antes de chegarem pelos corredores e com a coragem de dizer "ainda não sei" quando não se sabe. Nos programas de liderança, há um exercício que custa sempre muito e que é, ao mesmo tempo, o mais simples de todos: escrever as promessas feitas à equipa nos últimos três meses e marcar as que foram cumpridas. Raramente alguém acaba a lista com vontade de a mostrar.

Quanto à camisola, continua vestida, e bem vestida. O que deixou de convencer foi a etiqueta, aquela que garantia que não encolhia na lavagem.


Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:

As pessoas continuam a dar tudo, só deixaram de acreditar

Autora, Keynote Speaker e Consultora

29 de out. de 2026, 15:01

#Protagonistas

Opinião

«As pessoas já não vestem a camisola». Ouve-se esta frase nos corredores, nas reuniões de direção e, com especial frequência, nos almoços em que se fala dos mais novos com a mesma resignação com que se fala do trânsito. Diz-se, com um suspiro e com a segurança de quem descreve um facto. Os números deste outono contam outra história, e confesso que me deixaram mais otimista do que esperava.

O estudo anual da PwC sobre as esperanças e os medos dos trabalhadores, publicado há poucas semanas, traz um paradoxo curioso. Nos resultados já divulgados para a Austrália, o orgulho no trabalho, a vontade de ir além do que é pedido e o entusiasmo com o dia que começa subiram em relação ao ano passado, e sete em cada dez pessoas dizem que gostam de ir trabalhar. No mesmo inquérito, a confiança na gestão de topo caiu de 50 para 41 por cento, e a confiança no chefe direto, aquele com quem se partilha o café e a sala de reuniões, desceu de 61 para 50 por cento. À escala global, a confiança nas chefias perdeu sete pontos num só ano.

Ou seja, as pessoas continuam a vestir a camisola, e vestem-na com gosto; o que se foi perdendo pelo caminho foi a confiança em quem a desenhou.

E a confiança raramente se perde com um escândalo. Vai-se gastando com pequenas coisas que, sozinhas, parecem não ter importância: a reorganização anunciada por email numa sexta-feira ao fim da tarde, o "falamos sobre isso em janeiro" que nunca mais volta à conversa, a sessão de perguntas e respostas em que as perguntas chegam filtradas, a decisão que todos conheciam pelos corredores antes de ser comunicada. Nenhuma delas é grave, mas, juntas, ensinam às pessoas que aquilo que se diz não é bem aquilo que vai acontecer. E as pessoas, que são inteligentes, adaptam-se: continuam a dar o melhor ao trabalho, aos clientes e aos colegas, e deixam de dar à liderança o benefício da dúvida.

Convém dizer, em defesa dos chefes, que muitos perdem a confiança da equipa sem darem por isso e sem qualquer má-fé. Prometem em nome de decisões que não lhes pertencem, defendem em reunião aquilo que não escolheram e ficam com a conta de promessas que outros fizeram por eles. Também eles merecem que alguém lhes explique o porquê das coisas antes de terem de o explicar aos outros.

A boa notícia é que esta é a crise mais fácil de resolver.

Uma equipa desmotivada dá muito trabalho a recuperar, enquanto uma equipa que ainda quer dar tudo está apenas à espera de uma razão para voltar a acreditar. E essa razão vale muito: na edição anterior do mesmo estudo, quem mais confiava no chefe direto mostrava-se 72 por cento mais motivado do que quem menos confiava. A confiança não se reconstrói com uma campanha de valores nem com um cartaz no elevador. Reconstrói-se devagar, com promessas pequenas que se cumprem, com decisões explicadas antes de chegarem pelos corredores e com a coragem de dizer "ainda não sei" quando não se sabe. Nos programas de liderança, há um exercício que custa sempre muito e que é, ao mesmo tempo, o mais simples de todos: escrever as promessas feitas à equipa nos últimos três meses e marcar as que foram cumpridas. Raramente alguém acaba a lista com vontade de a mostrar.

Quanto à camisola, continua vestida, e bem vestida. O que deixou de convencer foi a etiqueta, aquela que garantia que não encolhia na lavagem.


Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:

As pessoas continuam a dar tudo, só deixaram de acreditar

|

Autora, Keynote Speaker e Consultora

|

29 de out. de 2026, 15:01

#Protagonistas

Opinião

«As pessoas já não vestem a camisola». Ouve-se esta frase nos corredores, nas reuniões de direção e, com especial frequência, nos almoços em que se fala dos mais novos com a mesma resignação com que se fala do trânsito. Diz-se, com um suspiro e com a segurança de quem descreve um facto. Os números deste outono contam outra história, e confesso que me deixaram mais otimista do que esperava.

O estudo anual da PwC sobre as esperanças e os medos dos trabalhadores, publicado há poucas semanas, traz um paradoxo curioso. Nos resultados já divulgados para a Austrália, o orgulho no trabalho, a vontade de ir além do que é pedido e o entusiasmo com o dia que começa subiram em relação ao ano passado, e sete em cada dez pessoas dizem que gostam de ir trabalhar. No mesmo inquérito, a confiança na gestão de topo caiu de 50 para 41 por cento, e a confiança no chefe direto, aquele com quem se partilha o café e a sala de reuniões, desceu de 61 para 50 por cento. À escala global, a confiança nas chefias perdeu sete pontos num só ano.

Ou seja, as pessoas continuam a vestir a camisola, e vestem-na com gosto; o que se foi perdendo pelo caminho foi a confiança em quem a desenhou.

E a confiança raramente se perde com um escândalo. Vai-se gastando com pequenas coisas que, sozinhas, parecem não ter importância: a reorganização anunciada por email numa sexta-feira ao fim da tarde, o "falamos sobre isso em janeiro" que nunca mais volta à conversa, a sessão de perguntas e respostas em que as perguntas chegam filtradas, a decisão que todos conheciam pelos corredores antes de ser comunicada. Nenhuma delas é grave, mas, juntas, ensinam às pessoas que aquilo que se diz não é bem aquilo que vai acontecer. E as pessoas, que são inteligentes, adaptam-se: continuam a dar o melhor ao trabalho, aos clientes e aos colegas, e deixam de dar à liderança o benefício da dúvida.

Convém dizer, em defesa dos chefes, que muitos perdem a confiança da equipa sem darem por isso e sem qualquer má-fé. Prometem em nome de decisões que não lhes pertencem, defendem em reunião aquilo que não escolheram e ficam com a conta de promessas que outros fizeram por eles. Também eles merecem que alguém lhes explique o porquê das coisas antes de terem de o explicar aos outros.

A boa notícia é que esta é a crise mais fácil de resolver.

Uma equipa desmotivada dá muito trabalho a recuperar, enquanto uma equipa que ainda quer dar tudo está apenas à espera de uma razão para voltar a acreditar. E essa razão vale muito: na edição anterior do mesmo estudo, quem mais confiava no chefe direto mostrava-se 72 por cento mais motivado do que quem menos confiava. A confiança não se reconstrói com uma campanha de valores nem com um cartaz no elevador. Reconstrói-se devagar, com promessas pequenas que se cumprem, com decisões explicadas antes de chegarem pelos corredores e com a coragem de dizer "ainda não sei" quando não se sabe. Nos programas de liderança, há um exercício que custa sempre muito e que é, ao mesmo tempo, o mais simples de todos: escrever as promessas feitas à equipa nos últimos três meses e marcar as que foram cumpridas. Raramente alguém acaba a lista com vontade de a mostrar.

Quanto à camisola, continua vestida, e bem vestida. O que deixou de convencer foi a etiqueta, aquela que garantia que não encolhia na lavagem.


Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:

Newsletter

Inscreva-se para receber a Newsletter do MOTIVO, com todas as novidades e conteúdos exclusivos. Deixe o seu e-mail.

Newsletter

Inscreva-se para receber a Newsletter do MOTIVO, com todas as novidades e conteúdos exclusivos. Deixe o seu e-mail.

Newsletter

Inscreva-se para receber a Newsletter do MOTIVO, com todas as novidades e conteúdos exclusivos. Deixe o seu e-mail.

Newsletter

Inscreva-se para receber a Newsletter do MOTIVO, com todas as novidades e conteúdos exclusivos. Deixe o seu e-mail.