A inteligência artificial tem as costas largas
#Protagonistas
Opinião

«Foi a IA.»
Desde o início do ano, esta frase aparece em quase todos os comunicados de despedimento que nos chegam dos Estados Unidos. Durante quatro meses seguidos, a inteligência artificial foi o motivo mais apontado pelas empresas americanas para dispensar pessoas, segundo a consultora Challenger, Gray & Christmas. O curioso é que muitas dessas empresas davam lucro e estavam a crescer. A Block, por exemplo, despediu cerca de 40% dos trabalhadores e viu as ações subir logo a seguir.
Os americanos já arranjaram um nome para isto, AI-washing, que é primo direito do greenwashing. Em vez de se pintar de verde o que não é sustentável, pinta-se de futuro uma decisão que já estava tomada por outras razões, muitas vezes porque se contratou demais ou porque as vendas não correram como se esperava. E quem o admite não são só os críticos do costume. O próprio Sam Altman, da OpenAI, que teria todo o interesse em alimentar a lenda, reconheceu que há empresas a pôr na conta da IA despedimentos que fariam de qualquer maneira. Num inquérito do National Bureau of Economic Research a mais de seis mil gestores de topo, quase nove em cada dez disseram que a IA não mexeu no emprego das suas empresas nos últimos três anos.
Consigo perceber quem cai na tentação. Anunciar «contratámos mais do que devíamos» obriga a admitir um erro em público, e ninguém gosta de o fazer. Anunciar «estamos a preparar a empresa para o futuro» é bem mais confortável e, pelos vistos, os acionistas até aplaudem. Não é preciso ser mau líder para escolher a segunda versão; basta estar cansado de dar más notícias.
O problema é que esta frase chega a outras pessoas antes de chegar aos acionistas. Quem sai, leva para casa a ideia de que foi trocado por uma máquina, o que nem sequer é verdade, e começa a duvidar daquilo que sabe fazer logo na altura em que mais precisa de acreditar nisso para procurar trabalho. Quem fica, olha para a secretária vazia do colega e pergunta-se, com toda a legitimidade, se será o próximo. Segundo a Mercer, 40% das pessoas já vivem com esse receio, e 62% acham que os seus líderes não fazem ideia do peso que ele tem. Se, daqui a um ano, a empresa perceber que, afinal, a máquina não fazia aquele trabalho e tiver de voltar a contratar, vai descobrir que a confiança demora muito mais a voltar do que um anúncio de emprego a ser publicado.
Em Portugal ainda não ouvimos muito a expressão, mas as modas americanas costumam chegar cá com uns meses de atraso e sem legendas.
Entretanto, a inteligência artificial vai escrevendo relatórios, resumindo reuniões e traduzindo contratos. E ganhou uma função que não vinha no manual, a de carregar com as decisões dos outros sem nunca pedir para falar com os recursos humanos.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
A inteligência artificial tem as costas largas
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«Foi a IA.»
Desde o início do ano, esta frase aparece em quase todos os comunicados de despedimento que nos chegam dos Estados Unidos. Durante quatro meses seguidos, a inteligência artificial foi o motivo mais apontado pelas empresas americanas para dispensar pessoas, segundo a consultora Challenger, Gray & Christmas. O curioso é que muitas dessas empresas davam lucro e estavam a crescer. A Block, por exemplo, despediu cerca de 40% dos trabalhadores e viu as ações subir logo a seguir.
Os americanos já arranjaram um nome para isto, AI-washing, que é primo direito do greenwashing. Em vez de se pintar de verde o que não é sustentável, pinta-se de futuro uma decisão que já estava tomada por outras razões, muitas vezes porque se contratou demais ou porque as vendas não correram como se esperava. E quem o admite não são só os críticos do costume. O próprio Sam Altman, da OpenAI, que teria todo o interesse em alimentar a lenda, reconheceu que há empresas a pôr na conta da IA despedimentos que fariam de qualquer maneira. Num inquérito do National Bureau of Economic Research a mais de seis mil gestores de topo, quase nove em cada dez disseram que a IA não mexeu no emprego das suas empresas nos últimos três anos.
Consigo perceber quem cai na tentação. Anunciar «contratámos mais do que devíamos» obriga a admitir um erro em público, e ninguém gosta de o fazer. Anunciar «estamos a preparar a empresa para o futuro» é bem mais confortável e, pelos vistos, os acionistas até aplaudem. Não é preciso ser mau líder para escolher a segunda versão; basta estar cansado de dar más notícias.
O problema é que esta frase chega a outras pessoas antes de chegar aos acionistas. Quem sai, leva para casa a ideia de que foi trocado por uma máquina, o que nem sequer é verdade, e começa a duvidar daquilo que sabe fazer logo na altura em que mais precisa de acreditar nisso para procurar trabalho. Quem fica, olha para a secretária vazia do colega e pergunta-se, com toda a legitimidade, se será o próximo. Segundo a Mercer, 40% das pessoas já vivem com esse receio, e 62% acham que os seus líderes não fazem ideia do peso que ele tem. Se, daqui a um ano, a empresa perceber que, afinal, a máquina não fazia aquele trabalho e tiver de voltar a contratar, vai descobrir que a confiança demora muito mais a voltar do que um anúncio de emprego a ser publicado.
Em Portugal ainda não ouvimos muito a expressão, mas as modas americanas costumam chegar cá com uns meses de atraso e sem legendas.
Entretanto, a inteligência artificial vai escrevendo relatórios, resumindo reuniões e traduzindo contratos. E ganhou uma função que não vinha no manual, a de carregar com as decisões dos outros sem nunca pedir para falar com os recursos humanos.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
A inteligência artificial tem as costas largas
#Protagonistas
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«Foi a IA.»
Desde o início do ano, esta frase aparece em quase todos os comunicados de despedimento que nos chegam dos Estados Unidos. Durante quatro meses seguidos, a inteligência artificial foi o motivo mais apontado pelas empresas americanas para dispensar pessoas, segundo a consultora Challenger, Gray & Christmas. O curioso é que muitas dessas empresas davam lucro e estavam a crescer. A Block, por exemplo, despediu cerca de 40% dos trabalhadores e viu as ações subir logo a seguir.
Os americanos já arranjaram um nome para isto, AI-washing, que é primo direito do greenwashing. Em vez de se pintar de verde o que não é sustentável, pinta-se de futuro uma decisão que já estava tomada por outras razões, muitas vezes porque se contratou demais ou porque as vendas não correram como se esperava. E quem o admite não são só os críticos do costume. O próprio Sam Altman, da OpenAI, que teria todo o interesse em alimentar a lenda, reconheceu que há empresas a pôr na conta da IA despedimentos que fariam de qualquer maneira. Num inquérito do National Bureau of Economic Research a mais de seis mil gestores de topo, quase nove em cada dez disseram que a IA não mexeu no emprego das suas empresas nos últimos três anos.
Consigo perceber quem cai na tentação. Anunciar «contratámos mais do que devíamos» obriga a admitir um erro em público, e ninguém gosta de o fazer. Anunciar «estamos a preparar a empresa para o futuro» é bem mais confortável e, pelos vistos, os acionistas até aplaudem. Não é preciso ser mau líder para escolher a segunda versão; basta estar cansado de dar más notícias.
O problema é que esta frase chega a outras pessoas antes de chegar aos acionistas. Quem sai, leva para casa a ideia de que foi trocado por uma máquina, o que nem sequer é verdade, e começa a duvidar daquilo que sabe fazer logo na altura em que mais precisa de acreditar nisso para procurar trabalho. Quem fica, olha para a secretária vazia do colega e pergunta-se, com toda a legitimidade, se será o próximo. Segundo a Mercer, 40% das pessoas já vivem com esse receio, e 62% acham que os seus líderes não fazem ideia do peso que ele tem. Se, daqui a um ano, a empresa perceber que, afinal, a máquina não fazia aquele trabalho e tiver de voltar a contratar, vai descobrir que a confiança demora muito mais a voltar do que um anúncio de emprego a ser publicado.
Em Portugal ainda não ouvimos muito a expressão, mas as modas americanas costumam chegar cá com uns meses de atraso e sem legendas.
Entretanto, a inteligência artificial vai escrevendo relatórios, resumindo reuniões e traduzindo contratos. E ganhou uma função que não vinha no manual, a de carregar com as decisões dos outros sem nunca pedir para falar com os recursos humanos.
Sofia Castro Fernandes assina, semanalmente, o espaço Opinião Impopular no MOTIVO. Leia também:
A inteligência artificial tem as costas largas
#Protagonistas
Opinião

«Foi a IA.»
Desde o início do ano, esta frase aparece em quase todos os comunicados de despedimento que nos chegam dos Estados Unidos. Durante quatro meses seguidos, a inteligência artificial foi o motivo mais apontado pelas empresas americanas para dispensar pessoas, segundo a consultora Challenger, Gray & Christmas. O curioso é que muitas dessas empresas davam lucro e estavam a crescer. A Block, por exemplo, despediu cerca de 40% dos trabalhadores e viu as ações subir logo a seguir.
Os americanos já arranjaram um nome para isto, AI-washing, que é primo direito do greenwashing. Em vez de se pintar de verde o que não é sustentável, pinta-se de futuro uma decisão que já estava tomada por outras razões, muitas vezes porque se contratou demais ou porque as vendas não correram como se esperava. E quem o admite não são só os críticos do costume. O próprio Sam Altman, da OpenAI, que teria todo o interesse em alimentar a lenda, reconheceu que há empresas a pôr na conta da IA despedimentos que fariam de qualquer maneira. Num inquérito do National Bureau of Economic Research a mais de seis mil gestores de topo, quase nove em cada dez disseram que a IA não mexeu no emprego das suas empresas nos últimos três anos.
Consigo perceber quem cai na tentação. Anunciar «contratámos mais do que devíamos» obriga a admitir um erro em público, e ninguém gosta de o fazer. Anunciar «estamos a preparar a empresa para o futuro» é bem mais confortável e, pelos vistos, os acionistas até aplaudem. Não é preciso ser mau líder para escolher a segunda versão; basta estar cansado de dar más notícias.
O problema é que esta frase chega a outras pessoas antes de chegar aos acionistas. Quem sai, leva para casa a ideia de que foi trocado por uma máquina, o que nem sequer é verdade, e começa a duvidar daquilo que sabe fazer logo na altura em que mais precisa de acreditar nisso para procurar trabalho. Quem fica, olha para a secretária vazia do colega e pergunta-se, com toda a legitimidade, se será o próximo. Segundo a Mercer, 40% das pessoas já vivem com esse receio, e 62% acham que os seus líderes não fazem ideia do peso que ele tem. Se, daqui a um ano, a empresa perceber que, afinal, a máquina não fazia aquele trabalho e tiver de voltar a contratar, vai descobrir que a confiança demora muito mais a voltar do que um anúncio de emprego a ser publicado.
Em Portugal ainda não ouvimos muito a expressão, mas as modas americanas costumam chegar cá com uns meses de atraso e sem legendas.
Entretanto, a inteligência artificial vai escrevendo relatórios, resumindo reuniões e traduzindo contratos. E ganhou uma função que não vinha no manual, a de carregar com as decisões dos outros sem nunca pedir para falar com os recursos humanos.




