
#Protagonistas
Seis perguntas a Susana Amaro Velho
A escritora lançou recentemente o seu quinto livro, no qual volta a mergulhar no quotidiano, na violência e numa protagonista feminina. Foi esse o ponto de partida para as seis respostas que se seguem.
Em Sou Uma Multidão Minúscula, a violência atravessa diferentes gerações. O que te interessava perceber sobre aquilo que herdamos, mesmo quando passamos a vida a tentar fugir?
SUSANA AMARO VELHO — A ideia de que se foge de uma casa quando se sai dela é bastante otimista e, com toda a honestidade, não acredito nisso. Aliás, toda a ideia de fuga é ilusória, porque o que está enterrado na pele, na memória, permanece lá. A Margarida sai do casarão, trabalha em três sítios, cria dois filhos, e, quando a violência lhe volta a entrar em casa, reage com o que aprendeu em criança: tem de medir as consequências, avaliar os julgamentos terceiros, ponderar os passos, esperar pelo momento certo. Foi isso que me interessou, esta ideia de transmissão entre gerações. A violência é só o veículo, porque a mãe que diz à filha para não responder, não denunciar, está a protegê-la e está a prepará-la para uma vida inteira de silêncios. E, muitas vezes, fá-lo por amor. Não gosto de usar a palavra trauma neste contexto, porque remete para um consultório, e o que aqui está é educação, transmissão de valores, de anseios, um certo conservadorismo e submissão. É por isso que parte da ação se situa nos anos 70, porque há quem permaneça lá. Basta ouvir o que muitos miúdos de quinze anos consideram normal numa relação, atualmente, para perceber que tudo é volátil, e que cinquenta anos em busca de evolução podem perder-se entre as notificações do telemóvel. Não conseguimos fugir.

O que encontras nas vidas comuns que continua a interessar-te tanto?
S.A.V. — Uma mulher com três empregos e dois filhos não tem tempo para uma crise interior de trezentas páginas, tem de decidir, até às nove da manhã, quem fica com o miúdo que acordou com febre. Interessa-me essa banalidade, as rotinas, o desassossego. E não acredito na ideia de que só as vidas muito articuladas merecem um romance. Há livros brilhantes sobre pessoas banais, lembro-me imediatamente de Stoner. E estas pessoas que menos falam de si, são, muitas vezes, as que mais sabem sobre o que aconteceu numa casa, porque estavam lá a limpar, a servir à mesa, a ouvir do corredor, ou a existir, simplesmente, sem grandes manifestações. A empregada, a vizinha, a tia que ficou solteira, o viúvo discreto que compra carcaças todas as segundas-feiras. São eles quem guarda o arquivo de um quotidiano que pode ser riquíssimo.
Quando escreves, a estrutura nasce contigo desde o início ou vais descobrindo a história, à medida que as personagens avançam?
S.A.V. — Um livro em dois tempos precisa de uma estrutura bem delineada desde o começo, ou desmorona-se ao terceiro capítulo. Sabia que os anos de 1971 e 1994 se tinham de ir espelhando, e que o leitor devia chegar a certas coisas no passado antes de as reconhecer no presente. Foi difícil a montagem, sem perder o ritmo, e exigiu meses de tentativa e erro. Há capítulos que escrevi para dizer uma coisa e que acabaram a dizer outra; outros que cortei porque deixaram de fazer sentido ou atrasavam a leitura já numa fase em crescendo. Com várias vozes, e uma que se destaca, é preciso trabalhar isto com muito rigor. Cada personagem sabe menos do que o leitor, e gerir essa distância foi o que me deu mais trabalho, mas também mais prazer.
Este livro acaba por revelar, também, muitas referências literárias. Quem és tu enquanto leitora e que livros leste recentemente que te marcaram?
S.A.V. — Os versos que abrem as partes do livro, e o próprio título, são de António Ramos Rosa, e isso deve-se à minha necessidade de ir à poesia buscar a capacidade de dizer muito com quase nada, que a prosa esquece com facilidade, que eu esqueço com facilidade. Costumo dizer que não tenho capacidade de síntese. E a poesia dá-nos isso, um verso dá-nos isso. Sou uma multidão minúscula é um exemplo perfeito. Além disso, e dos poetas referidos, a que recorro muitas vezes, durante o processo de escrita, li infâncias difíceis, livros que geram desconforto, lembro-me da Neige Sinno, Camille Laurens, Hector Abad Faciolince e Javier Marías, por exemplo. E, claro, li muitos autores portugueses, sobretudo aqueles que escrevem a província sem romantização — Carlos Campaniço, Susana Moreira Marques, Hugo Gonçalves, mais pelas questões coloniais e anos 70, Vergílio Ferreira, Dulce Maria Cardoso. A Rosa Montero acompanha-me há anos pela forma como liga histórias, pela inteligência com que trata a estrutura, para lá do brilhantismo da prosa.

Como encaraste a escrita deste livro depois do sucesso de Descansos — e apesar de, pelo meio, teres tido a reedição de As Últimas Linhas Destas Mãos —, sentiste maior pressão?
S.A.V. — Pressão no sentido de medo, não. Descansos trouxe-me novos leitores, e esses leitores foram à procura do que havia publicado o que também alavanca os restantes livros. A pressão que existe é mais prosaica, porque em Portugal um livro sobrevive durante uns meses de montra e, depois, tem de defender-se sozinho, pelas mãos do seu autor. O bom desempenho do anterior não compra leitores, ou prémios, ou reconhecimento. Não podemos ter essa ilusão, e vivo tranquilamente com isso, com a necessidade de começar de novo a cada obra publicada. O que mais me preocupa, sempre, é a forma como posso trabalhar os temas, porque, no fundo, mexemos todos na mesma massa, é a mesma matéria. Não quero escrever o mesmo livro com outros nomes, quero desafiar-me, e ao leitor, a inovar na estrutura, no enredo, na construção das personagens, até secundárias. A Margarida é a minha primeira protagonista com filhos, e isso mudou tudo, porque uma mulher sozinha pode fugir, mas uma mãe pensa sempre em levar os filhos consigo. A partir daqui, o caminho já seria outro.

Daqui a um ano, celebras 10 anos de livros editados. O que dirias, hoje, à Susana que, em 2016, sonhava lançar o primeiro livro?
S.A.V. — Diria que escrever é um trabalho com horários, prazos, compromisso e negociações, e que é assim que deve ser encarado, sem o romantismo dos autores eremitas e sofridos. Que o dia em que o livro chega às livrarias é um dia normal e, à noite, há jantar para fazer. Que a solicitadoria não foi um desvio, não posso encará-la como um erro, porque foi uma experiência riquíssima que me trouxe imensas histórias, a maioria com protagonistas pouco felizes. E diria, principalmente, que as mulheres que escrevem sobre casa e família não podem ser arrumadas numa prateleira à parte. Diria que devo continuar a acreditar que o trabalho e a persistência acabam sempre por dar os seus frutos. A Susana de 2026 é muito paciente.

#Protagonistas
Seis perguntas a Susana Amaro Velho
A escritora lançou recentemente o seu quinto livro, no qual volta a mergulhar no quotidiano, na violência e numa protagonista feminina. Foi esse o ponto de partida para as seis respostas que se seguem.
Em Sou Uma Multidão Minúscula, a violência atravessa diferentes gerações. O que te interessava perceber sobre aquilo que herdamos, mesmo quando passamos a vida a tentar fugir?
SUSANA AMARO VELHO — A ideia de que se foge de uma casa quando se sai dela é bastante otimista e, com toda a honestidade, não acredito nisso. Aliás, toda a ideia de fuga é ilusória, porque o que está enterrado na pele, na memória, permanece lá. A Margarida sai do casarão, trabalha em três sítios, cria dois filhos, e, quando a violência lhe volta a entrar em casa, reage com o que aprendeu em criança: tem de medir as consequências, avaliar os julgamentos terceiros, ponderar os passos, esperar pelo momento certo. Foi isso que me interessou, esta ideia de transmissão entre gerações. A violência é só o veículo, porque a mãe que diz à filha para não responder, não denunciar, está a protegê-la e está a prepará-la para uma vida inteira de silêncios. E, muitas vezes, fá-lo por amor. Não gosto de usar a palavra trauma neste contexto, porque remete para um consultório, e o que aqui está é educação, transmissão de valores, de anseios, um certo conservadorismo e submissão. É por isso que parte da ação se situa nos anos 70, porque há quem permaneça lá. Basta ouvir o que muitos miúdos de quinze anos consideram normal numa relação, atualmente, para perceber que tudo é volátil, e que cinquenta anos em busca de evolução podem perder-se entre as notificações do telemóvel. Não conseguimos fugir.

O que encontras nas vidas comuns que continua a interessar-te tanto?
S.A.V. — Uma mulher com três empregos e dois filhos não tem tempo para uma crise interior de trezentas páginas, tem de decidir, até às nove da manhã, quem fica com o miúdo que acordou com febre. Interessa-me essa banalidade, as rotinas, o desassossego. E não acredito na ideia de que só as vidas muito articuladas merecem um romance. Há livros brilhantes sobre pessoas banais, lembro-me imediatamente de Stoner. E estas pessoas que menos falam de si, são, muitas vezes, as que mais sabem sobre o que aconteceu numa casa, porque estavam lá a limpar, a servir à mesa, a ouvir do corredor, ou a existir, simplesmente, sem grandes manifestações. A empregada, a vizinha, a tia que ficou solteira, o viúvo discreto que compra carcaças todas as segundas-feiras. São eles quem guarda o arquivo de um quotidiano que pode ser riquíssimo.
Quando escreves, a estrutura nasce contigo desde o início ou vais descobrindo a história, à medida que as personagens avançam?
S.A.V. — Um livro em dois tempos precisa de uma estrutura bem delineada desde o começo, ou desmorona-se ao terceiro capítulo. Sabia que os anos de 1971 e 1994 se tinham de ir espelhando, e que o leitor devia chegar a certas coisas no passado antes de as reconhecer no presente. Foi difícil a montagem, sem perder o ritmo, e exigiu meses de tentativa e erro. Há capítulos que escrevi para dizer uma coisa e que acabaram a dizer outra; outros que cortei porque deixaram de fazer sentido ou atrasavam a leitura já numa fase em crescendo. Com várias vozes, e uma que se destaca, é preciso trabalhar isto com muito rigor. Cada personagem sabe menos do que o leitor, e gerir essa distância foi o que me deu mais trabalho, mas também mais prazer.
Este livro acaba por revelar, também, muitas referências literárias. Quem és tu enquanto leitora e que livros leste recentemente que te marcaram?
S.A.V. — Os versos que abrem as partes do livro, e o próprio título, são de António Ramos Rosa, e isso deve-se à minha necessidade de ir à poesia buscar a capacidade de dizer muito com quase nada, que a prosa esquece com facilidade, que eu esqueço com facilidade. Costumo dizer que não tenho capacidade de síntese. E a poesia dá-nos isso, um verso dá-nos isso. Sou uma multidão minúscula é um exemplo perfeito. Além disso, e dos poetas referidos, a que recorro muitas vezes, durante o processo de escrita, li infâncias difíceis, livros que geram desconforto, lembro-me da Neige Sinno, Camille Laurens, Hector Abad Faciolince e Javier Marías, por exemplo. E, claro, li muitos autores portugueses, sobretudo aqueles que escrevem a província sem romantização — Carlos Campaniço, Susana Moreira Marques, Hugo Gonçalves, mais pelas questões coloniais e anos 70, Vergílio Ferreira, Dulce Maria Cardoso. A Rosa Montero acompanha-me há anos pela forma como liga histórias, pela inteligência com que trata a estrutura, para lá do brilhantismo da prosa.

Como encaraste a escrita deste livro depois do sucesso de Descansos — e apesar de, pelo meio, teres tido a reedição de As Últimas Linhas Destas Mãos —, sentiste maior pressão?
S.A.V. — Pressão no sentido de medo, não. Descansos trouxe-me novos leitores, e esses leitores foram à procura do que havia publicado o que também alavanca os restantes livros. A pressão que existe é mais prosaica, porque em Portugal um livro sobrevive durante uns meses de montra e, depois, tem de defender-se sozinho, pelas mãos do seu autor. O bom desempenho do anterior não compra leitores, ou prémios, ou reconhecimento. Não podemos ter essa ilusão, e vivo tranquilamente com isso, com a necessidade de começar de novo a cada obra publicada. O que mais me preocupa, sempre, é a forma como posso trabalhar os temas, porque, no fundo, mexemos todos na mesma massa, é a mesma matéria. Não quero escrever o mesmo livro com outros nomes, quero desafiar-me, e ao leitor, a inovar na estrutura, no enredo, na construção das personagens, até secundárias. A Margarida é a minha primeira protagonista com filhos, e isso mudou tudo, porque uma mulher sozinha pode fugir, mas uma mãe pensa sempre em levar os filhos consigo. A partir daqui, o caminho já seria outro.

Daqui a um ano, celebras 10 anos de livros editados. O que dirias, hoje, à Susana que, em 2016, sonhava lançar o primeiro livro?
S.A.V. — Diria que escrever é um trabalho com horários, prazos, compromisso e negociações, e que é assim que deve ser encarado, sem o romantismo dos autores eremitas e sofridos. Que o dia em que o livro chega às livrarias é um dia normal e, à noite, há jantar para fazer. Que a solicitadoria não foi um desvio, não posso encará-la como um erro, porque foi uma experiência riquíssima que me trouxe imensas histórias, a maioria com protagonistas pouco felizes. E diria, principalmente, que as mulheres que escrevem sobre casa e família não podem ser arrumadas numa prateleira à parte. Diria que devo continuar a acreditar que o trabalho e a persistência acabam sempre por dar os seus frutos. A Susana de 2026 é muito paciente.

#Protagonistas
Seis perguntas a Susana Amaro Velho
A escritora lançou recentemente o seu quinto livro, no qual volta a mergulhar no quotidiano, na violência e numa protagonista feminina. Foi esse o ponto de partida para as seis respostas que se seguem.
Em Sou Uma Multidão Minúscula, a violência atravessa diferentes gerações. O que te interessava perceber sobre aquilo que herdamos, mesmo quando passamos a vida a tentar fugir?
SUSANA AMARO VELHO — A ideia de que se foge de uma casa quando se sai dela é bastante otimista e, com toda a honestidade, não acredito nisso. Aliás, toda a ideia de fuga é ilusória, porque o que está enterrado na pele, na memória, permanece lá. A Margarida sai do casarão, trabalha em três sítios, cria dois filhos, e, quando a violência lhe volta a entrar em casa, reage com o que aprendeu em criança: tem de medir as consequências, avaliar os julgamentos terceiros, ponderar os passos, esperar pelo momento certo. Foi isso que me interessou, esta ideia de transmissão entre gerações. A violência é só o veículo, porque a mãe que diz à filha para não responder, não denunciar, está a protegê-la e está a prepará-la para uma vida inteira de silêncios. E, muitas vezes, fá-lo por amor. Não gosto de usar a palavra trauma neste contexto, porque remete para um consultório, e o que aqui está é educação, transmissão de valores, de anseios, um certo conservadorismo e submissão. É por isso que parte da ação se situa nos anos 70, porque há quem permaneça lá. Basta ouvir o que muitos miúdos de quinze anos consideram normal numa relação, atualmente, para perceber que tudo é volátil, e que cinquenta anos em busca de evolução podem perder-se entre as notificações do telemóvel. Não conseguimos fugir.

O que encontras nas vidas comuns que continua a interessar-te tanto?
S.A.V. — Uma mulher com três empregos e dois filhos não tem tempo para uma crise interior de trezentas páginas, tem de decidir, até às nove da manhã, quem fica com o miúdo que acordou com febre. Interessa-me essa banalidade, as rotinas, o desassossego. E não acredito na ideia de que só as vidas muito articuladas merecem um romance. Há livros brilhantes sobre pessoas banais, lembro-me imediatamente de Stoner. E estas pessoas que menos falam de si, são, muitas vezes, as que mais sabem sobre o que aconteceu numa casa, porque estavam lá a limpar, a servir à mesa, a ouvir do corredor, ou a existir, simplesmente, sem grandes manifestações. A empregada, a vizinha, a tia que ficou solteira, o viúvo discreto que compra carcaças todas as segundas-feiras. São eles quem guarda o arquivo de um quotidiano que pode ser riquíssimo.
Quando escreves, a estrutura nasce contigo desde o início ou vais descobrindo a história, à medida que as personagens avançam?
S.A.V. — Um livro em dois tempos precisa de uma estrutura bem delineada desde o começo, ou desmorona-se ao terceiro capítulo. Sabia que os anos de 1971 e 1994 se tinham de ir espelhando, e que o leitor devia chegar a certas coisas no passado antes de as reconhecer no presente. Foi difícil a montagem, sem perder o ritmo, e exigiu meses de tentativa e erro. Há capítulos que escrevi para dizer uma coisa e que acabaram a dizer outra; outros que cortei porque deixaram de fazer sentido ou atrasavam a leitura já numa fase em crescendo. Com várias vozes, e uma que se destaca, é preciso trabalhar isto com muito rigor. Cada personagem sabe menos do que o leitor, e gerir essa distância foi o que me deu mais trabalho, mas também mais prazer.
Este livro acaba por revelar, também, muitas referências literárias. Quem és tu enquanto leitora e que livros leste recentemente que te marcaram?
S.A.V. — Os versos que abrem as partes do livro, e o próprio título, são de António Ramos Rosa, e isso deve-se à minha necessidade de ir à poesia buscar a capacidade de dizer muito com quase nada, que a prosa esquece com facilidade, que eu esqueço com facilidade. Costumo dizer que não tenho capacidade de síntese. E a poesia dá-nos isso, um verso dá-nos isso. Sou uma multidão minúscula é um exemplo perfeito. Além disso, e dos poetas referidos, a que recorro muitas vezes, durante o processo de escrita, li infâncias difíceis, livros que geram desconforto, lembro-me da Neige Sinno, Camille Laurens, Hector Abad Faciolince e Javier Marías, por exemplo. E, claro, li muitos autores portugueses, sobretudo aqueles que escrevem a província sem romantização — Carlos Campaniço, Susana Moreira Marques, Hugo Gonçalves, mais pelas questões coloniais e anos 70, Vergílio Ferreira, Dulce Maria Cardoso. A Rosa Montero acompanha-me há anos pela forma como liga histórias, pela inteligência com que trata a estrutura, para lá do brilhantismo da prosa.

Como encaraste a escrita deste livro depois do sucesso de Descansos — e apesar de, pelo meio, teres tido a reedição de As Últimas Linhas Destas Mãos —, sentiste maior pressão?
S.A.V. — Pressão no sentido de medo, não. Descansos trouxe-me novos leitores, e esses leitores foram à procura do que havia publicado o que também alavanca os restantes livros. A pressão que existe é mais prosaica, porque em Portugal um livro sobrevive durante uns meses de montra e, depois, tem de defender-se sozinho, pelas mãos do seu autor. O bom desempenho do anterior não compra leitores, ou prémios, ou reconhecimento. Não podemos ter essa ilusão, e vivo tranquilamente com isso, com a necessidade de começar de novo a cada obra publicada. O que mais me preocupa, sempre, é a forma como posso trabalhar os temas, porque, no fundo, mexemos todos na mesma massa, é a mesma matéria. Não quero escrever o mesmo livro com outros nomes, quero desafiar-me, e ao leitor, a inovar na estrutura, no enredo, na construção das personagens, até secundárias. A Margarida é a minha primeira protagonista com filhos, e isso mudou tudo, porque uma mulher sozinha pode fugir, mas uma mãe pensa sempre em levar os filhos consigo. A partir daqui, o caminho já seria outro.

Daqui a um ano, celebras 10 anos de livros editados. O que dirias, hoje, à Susana que, em 2016, sonhava lançar o primeiro livro?
S.A.V. — Diria que escrever é um trabalho com horários, prazos, compromisso e negociações, e que é assim que deve ser encarado, sem o romantismo dos autores eremitas e sofridos. Que o dia em que o livro chega às livrarias é um dia normal e, à noite, há jantar para fazer. Que a solicitadoria não foi um desvio, não posso encará-la como um erro, porque foi uma experiência riquíssima que me trouxe imensas histórias, a maioria com protagonistas pouco felizes. E diria, principalmente, que as mulheres que escrevem sobre casa e família não podem ser arrumadas numa prateleira à parte. Diria que devo continuar a acreditar que o trabalho e a persistência acabam sempre por dar os seus frutos. A Susana de 2026 é muito paciente.

#Protagonistas
Seis perguntas a Susana Amaro Velho
A escritora lançou recentemente o seu quinto livro, no qual volta a mergulhar no quotidiano, na violência e numa protagonista feminina. Foi esse o ponto de partida para as seis respostas que se seguem.
Em Sou Uma Multidão Minúscula, a violência atravessa diferentes gerações. O que te interessava perceber sobre aquilo que herdamos, mesmo quando passamos a vida a tentar fugir?
SUSANA AMARO VELHO — A ideia de que se foge de uma casa quando se sai dela é bastante otimista e, com toda a honestidade, não acredito nisso. Aliás, toda a ideia de fuga é ilusória, porque o que está enterrado na pele, na memória, permanece lá. A Margarida sai do casarão, trabalha em três sítios, cria dois filhos, e, quando a violência lhe volta a entrar em casa, reage com o que aprendeu em criança: tem de medir as consequências, avaliar os julgamentos terceiros, ponderar os passos, esperar pelo momento certo. Foi isso que me interessou, esta ideia de transmissão entre gerações. A violência é só o veículo, porque a mãe que diz à filha para não responder, não denunciar, está a protegê-la e está a prepará-la para uma vida inteira de silêncios. E, muitas vezes, fá-lo por amor. Não gosto de usar a palavra trauma neste contexto, porque remete para um consultório, e o que aqui está é educação, transmissão de valores, de anseios, um certo conservadorismo e submissão. É por isso que parte da ação se situa nos anos 70, porque há quem permaneça lá. Basta ouvir o que muitos miúdos de quinze anos consideram normal numa relação, atualmente, para perceber que tudo é volátil, e que cinquenta anos em busca de evolução podem perder-se entre as notificações do telemóvel. Não conseguimos fugir.

O que encontras nas vidas comuns que continua a interessar-te tanto?
S.A.V. — Uma mulher com três empregos e dois filhos não tem tempo para uma crise interior de trezentas páginas, tem de decidir, até às nove da manhã, quem fica com o miúdo que acordou com febre. Interessa-me essa banalidade, as rotinas, o desassossego. E não acredito na ideia de que só as vidas muito articuladas merecem um romance. Há livros brilhantes sobre pessoas banais, lembro-me imediatamente de Stoner. E estas pessoas que menos falam de si, são, muitas vezes, as que mais sabem sobre o que aconteceu numa casa, porque estavam lá a limpar, a servir à mesa, a ouvir do corredor, ou a existir, simplesmente, sem grandes manifestações. A empregada, a vizinha, a tia que ficou solteira, o viúvo discreto que compra carcaças todas as segundas-feiras. São eles quem guarda o arquivo de um quotidiano que pode ser riquíssimo.
Quando escreves, a estrutura nasce contigo desde o início ou vais descobrindo a história, à medida que as personagens avançam?
S.A.V. — Um livro em dois tempos precisa de uma estrutura bem delineada desde o começo, ou desmorona-se ao terceiro capítulo. Sabia que os anos de 1971 e 1994 se tinham de ir espelhando, e que o leitor devia chegar a certas coisas no passado antes de as reconhecer no presente. Foi difícil a montagem, sem perder o ritmo, e exigiu meses de tentativa e erro. Há capítulos que escrevi para dizer uma coisa e que acabaram a dizer outra; outros que cortei porque deixaram de fazer sentido ou atrasavam a leitura já numa fase em crescendo. Com várias vozes, e uma que se destaca, é preciso trabalhar isto com muito rigor. Cada personagem sabe menos do que o leitor, e gerir essa distância foi o que me deu mais trabalho, mas também mais prazer.
Este livro acaba por revelar, também, muitas referências literárias. Quem és tu enquanto leitora e que livros leste recentemente que te marcaram?
S.A.V. — Os versos que abrem as partes do livro, e o próprio título, são de António Ramos Rosa, e isso deve-se à minha necessidade de ir à poesia buscar a capacidade de dizer muito com quase nada, que a prosa esquece com facilidade, que eu esqueço com facilidade. Costumo dizer que não tenho capacidade de síntese. E a poesia dá-nos isso, um verso dá-nos isso. Sou uma multidão minúscula é um exemplo perfeito. Além disso, e dos poetas referidos, a que recorro muitas vezes, durante o processo de escrita, li infâncias difíceis, livros que geram desconforto, lembro-me da Neige Sinno, Camille Laurens, Hector Abad Faciolince e Javier Marías, por exemplo. E, claro, li muitos autores portugueses, sobretudo aqueles que escrevem a província sem romantização — Carlos Campaniço, Susana Moreira Marques, Hugo Gonçalves, mais pelas questões coloniais e anos 70, Vergílio Ferreira, Dulce Maria Cardoso. A Rosa Montero acompanha-me há anos pela forma como liga histórias, pela inteligência com que trata a estrutura, para lá do brilhantismo da prosa.

Como encaraste a escrita deste livro depois do sucesso de Descansos — e apesar de, pelo meio, teres tido a reedição de As Últimas Linhas Destas Mãos —, sentiste maior pressão?
S.A.V. — Pressão no sentido de medo, não. Descansos trouxe-me novos leitores, e esses leitores foram à procura do que havia publicado o que também alavanca os restantes livros. A pressão que existe é mais prosaica, porque em Portugal um livro sobrevive durante uns meses de montra e, depois, tem de defender-se sozinho, pelas mãos do seu autor. O bom desempenho do anterior não compra leitores, ou prémios, ou reconhecimento. Não podemos ter essa ilusão, e vivo tranquilamente com isso, com a necessidade de começar de novo a cada obra publicada. O que mais me preocupa, sempre, é a forma como posso trabalhar os temas, porque, no fundo, mexemos todos na mesma massa, é a mesma matéria. Não quero escrever o mesmo livro com outros nomes, quero desafiar-me, e ao leitor, a inovar na estrutura, no enredo, na construção das personagens, até secundárias. A Margarida é a minha primeira protagonista com filhos, e isso mudou tudo, porque uma mulher sozinha pode fugir, mas uma mãe pensa sempre em levar os filhos consigo. A partir daqui, o caminho já seria outro.

Daqui a um ano, celebras 10 anos de livros editados. O que dirias, hoje, à Susana que, em 2016, sonhava lançar o primeiro livro?
S.A.V. — Diria que escrever é um trabalho com horários, prazos, compromisso e negociações, e que é assim que deve ser encarado, sem o romantismo dos autores eremitas e sofridos. Que o dia em que o livro chega às livrarias é um dia normal e, à noite, há jantar para fazer. Que a solicitadoria não foi um desvio, não posso encará-la como um erro, porque foi uma experiência riquíssima que me trouxe imensas histórias, a maioria com protagonistas pouco felizes. E diria, principalmente, que as mulheres que escrevem sobre casa e família não podem ser arrumadas numa prateleira à parte. Diria que devo continuar a acreditar que o trabalho e a persistência acabam sempre por dar os seus frutos. A Susana de 2026 é muito paciente.




