"Não tenho estudos para isso"

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Jornalista e escritora

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29 de jun. de 2026, 15:08

#Protagonistas
Opinião

Há uma ideia miserável, e pouco inteligente, segundo a qual devemos saber de tudo, ou pelo menos fingir que sabemos. Como se fosse uma falha gigantesca pronunciar uma frase tão simples como: "Não sei".

A maioria dos comentadores e influencers que pululam pelas redes sociais e pelos órgãos de comunicação fala com a mesma segurança sobre o Irão e sobre a melhor forma de fazer maionese caseira. Não têm estudos para isso. Sim, eu sou da opinião de que o estudo faz alguma diferença. Admito que exigir formação específica para fazer maionese possa ser um exagero, mas sobre o Irão? Convenhamos.

A maioria das pessoas à minha volta não saberia localizar Freixo de Espada à Cinta num mapa de Portugal, quanto mais Teerão num mapa do mundo. Ainda assim, opinamos sobre geopolítica, medicina, educação, alterações climáticas e conflitos internacionais com uma confiança enternecedora. A simplificação, e diria mesmo a infantilização do consumo de informação, é profundamente nociva. Não contribui para um debate mais interessante nem para uma cidadania mais exigente. Apenas produz ruído.

Talvez por isso seja tão curioso assistir ao regresso dos livros. Multiplicam-se os clubes de leitura, as tertúlias, os encontros improvisados em bibliotecas e livrarias. Pequenas e médias empresas começam a organizar conversas à volta de romances, ensaios ou biografias. Os livros passam de mão em mão. Nas redes sociais, um número crescente de figuras públicas faz questão de mostrar o que lê e de conversar sobre essas leituras. De Dua Lipa a Reese Witherspoon, percebeu-se que ler continua a ser uma das formas mais eficazes de pensar.

Porque é precisamente isso que a leitura faz: obriga-nos a desacelerar, a escutar outras vozes, a rever posições, a testar convicções. Ler é um maravilhoso bilhete de viagem, mas é também um exercício de humildade. Quanto mais lemos, mais percebemos a dimensão do que ignoramos.

As empresas começam igualmente a descobrir que nem só de produtividade vive uma organização. Equipas mais coesas não se constroem apenas com reuniões e folhas de Excel. Precisam de espaços de encontro, de conversa e de descoberta. Partilhar livros é partilhar experiências, dúvidas, conhecimento, estudos e até desacordos. Uma boa liderança também se mede pela capacidade de resistir ao caminho fácil da simplificação.

Caso contrário, corremos o risco de formar profissionais que parecem saber de tudo e não dominam verdadeiramente coisa nenhuma. Os eternos tudólogos. O futuro das empresas, como o futuro das sociedades, não se desenha apenas a picar o ponto. Desenha-se através do desenvolvimento pessoal e coletivo, da curiosidade e da capacidade de fazer perguntas melhores.

E talvez tudo comece por recuperar a coragem de dizer, sem vergonha e até com algum entusiasmo: "Não sei. Explica-me".

 

OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:

"Não tenho estudos para isso"

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29 de jun. de 2026, 15:08

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Há uma ideia miserável, e pouco inteligente, segundo a qual devemos saber de tudo, ou pelo menos fingir que sabemos. Como se fosse uma falha gigantesca pronunciar uma frase tão simples como: "Não sei".

A maioria dos comentadores e influencers que pululam pelas redes sociais e pelos órgãos de comunicação fala com a mesma segurança sobre o Irão e sobre a melhor forma de fazer maionese caseira. Não têm estudos para isso. Sim, eu sou da opinião de que o estudo faz alguma diferença. Admito que exigir formação específica para fazer maionese possa ser um exagero, mas sobre o Irão? Convenhamos.

A maioria das pessoas à minha volta não saberia localizar Freixo de Espada à Cinta num mapa de Portugal, quanto mais Teerão num mapa do mundo. Ainda assim, opinamos sobre geopolítica, medicina, educação, alterações climáticas e conflitos internacionais com uma confiança enternecedora. A simplificação, e diria mesmo a infantilização do consumo de informação, é profundamente nociva. Não contribui para um debate mais interessante nem para uma cidadania mais exigente. Apenas produz ruído.

Talvez por isso seja tão curioso assistir ao regresso dos livros. Multiplicam-se os clubes de leitura, as tertúlias, os encontros improvisados em bibliotecas e livrarias. Pequenas e médias empresas começam a organizar conversas à volta de romances, ensaios ou biografias. Os livros passam de mão em mão. Nas redes sociais, um número crescente de figuras públicas faz questão de mostrar o que lê e de conversar sobre essas leituras. De Dua Lipa a Reese Witherspoon, percebeu-se que ler continua a ser uma das formas mais eficazes de pensar.

Porque é precisamente isso que a leitura faz: obriga-nos a desacelerar, a escutar outras vozes, a rever posições, a testar convicções. Ler é um maravilhoso bilhete de viagem, mas é também um exercício de humildade. Quanto mais lemos, mais percebemos a dimensão do que ignoramos.

As empresas começam igualmente a descobrir que nem só de produtividade vive uma organização. Equipas mais coesas não se constroem apenas com reuniões e folhas de Excel. Precisam de espaços de encontro, de conversa e de descoberta. Partilhar livros é partilhar experiências, dúvidas, conhecimento, estudos e até desacordos. Uma boa liderança também se mede pela capacidade de resistir ao caminho fácil da simplificação.

Caso contrário, corremos o risco de formar profissionais que parecem saber de tudo e não dominam verdadeiramente coisa nenhuma. Os eternos tudólogos. O futuro das empresas, como o futuro das sociedades, não se desenha apenas a picar o ponto. Desenha-se através do desenvolvimento pessoal e coletivo, da curiosidade e da capacidade de fazer perguntas melhores.

E talvez tudo comece por recuperar a coragem de dizer, sem vergonha e até com algum entusiasmo: "Não sei. Explica-me".

 

OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:

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Há uma ideia miserável, e pouco inteligente, segundo a qual devemos saber de tudo, ou pelo menos fingir que sabemos. Como se fosse uma falha gigantesca pronunciar uma frase tão simples como: "Não sei".

A maioria dos comentadores e influencers que pululam pelas redes sociais e pelos órgãos de comunicação fala com a mesma segurança sobre o Irão e sobre a melhor forma de fazer maionese caseira. Não têm estudos para isso. Sim, eu sou da opinião de que o estudo faz alguma diferença. Admito que exigir formação específica para fazer maionese possa ser um exagero, mas sobre o Irão? Convenhamos.

A maioria das pessoas à minha volta não saberia localizar Freixo de Espada à Cinta num mapa de Portugal, quanto mais Teerão num mapa do mundo. Ainda assim, opinamos sobre geopolítica, medicina, educação, alterações climáticas e conflitos internacionais com uma confiança enternecedora. A simplificação, e diria mesmo a infantilização do consumo de informação, é profundamente nociva. Não contribui para um debate mais interessante nem para uma cidadania mais exigente. Apenas produz ruído.

Talvez por isso seja tão curioso assistir ao regresso dos livros. Multiplicam-se os clubes de leitura, as tertúlias, os encontros improvisados em bibliotecas e livrarias. Pequenas e médias empresas começam a organizar conversas à volta de romances, ensaios ou biografias. Os livros passam de mão em mão. Nas redes sociais, um número crescente de figuras públicas faz questão de mostrar o que lê e de conversar sobre essas leituras. De Dua Lipa a Reese Witherspoon, percebeu-se que ler continua a ser uma das formas mais eficazes de pensar.

Porque é precisamente isso que a leitura faz: obriga-nos a desacelerar, a escutar outras vozes, a rever posições, a testar convicções. Ler é um maravilhoso bilhete de viagem, mas é também um exercício de humildade. Quanto mais lemos, mais percebemos a dimensão do que ignoramos.

As empresas começam igualmente a descobrir que nem só de produtividade vive uma organização. Equipas mais coesas não se constroem apenas com reuniões e folhas de Excel. Precisam de espaços de encontro, de conversa e de descoberta. Partilhar livros é partilhar experiências, dúvidas, conhecimento, estudos e até desacordos. Uma boa liderança também se mede pela capacidade de resistir ao caminho fácil da simplificação.

Caso contrário, corremos o risco de formar profissionais que parecem saber de tudo e não dominam verdadeiramente coisa nenhuma. Os eternos tudólogos. O futuro das empresas, como o futuro das sociedades, não se desenha apenas a picar o ponto. Desenha-se através do desenvolvimento pessoal e coletivo, da curiosidade e da capacidade de fazer perguntas melhores.

E talvez tudo comece por recuperar a coragem de dizer, sem vergonha e até com algum entusiasmo: "Não sei. Explica-me".

 

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A maioria dos comentadores e influencers que pululam pelas redes sociais e pelos órgãos de comunicação fala com a mesma segurança sobre o Irão e sobre a melhor forma de fazer maionese caseira. Não têm estudos para isso. Sim, eu sou da opinião de que o estudo faz alguma diferença. Admito que exigir formação específica para fazer maionese possa ser um exagero, mas sobre o Irão? Convenhamos.

A maioria das pessoas à minha volta não saberia localizar Freixo de Espada à Cinta num mapa de Portugal, quanto mais Teerão num mapa do mundo. Ainda assim, opinamos sobre geopolítica, medicina, educação, alterações climáticas e conflitos internacionais com uma confiança enternecedora. A simplificação, e diria mesmo a infantilização do consumo de informação, é profundamente nociva. Não contribui para um debate mais interessante nem para uma cidadania mais exigente. Apenas produz ruído.

Talvez por isso seja tão curioso assistir ao regresso dos livros. Multiplicam-se os clubes de leitura, as tertúlias, os encontros improvisados em bibliotecas e livrarias. Pequenas e médias empresas começam a organizar conversas à volta de romances, ensaios ou biografias. Os livros passam de mão em mão. Nas redes sociais, um número crescente de figuras públicas faz questão de mostrar o que lê e de conversar sobre essas leituras. De Dua Lipa a Reese Witherspoon, percebeu-se que ler continua a ser uma das formas mais eficazes de pensar.

Porque é precisamente isso que a leitura faz: obriga-nos a desacelerar, a escutar outras vozes, a rever posições, a testar convicções. Ler é um maravilhoso bilhete de viagem, mas é também um exercício de humildade. Quanto mais lemos, mais percebemos a dimensão do que ignoramos.

As empresas começam igualmente a descobrir que nem só de produtividade vive uma organização. Equipas mais coesas não se constroem apenas com reuniões e folhas de Excel. Precisam de espaços de encontro, de conversa e de descoberta. Partilhar livros é partilhar experiências, dúvidas, conhecimento, estudos e até desacordos. Uma boa liderança também se mede pela capacidade de resistir ao caminho fácil da simplificação.

Caso contrário, corremos o risco de formar profissionais que parecem saber de tudo e não dominam verdadeiramente coisa nenhuma. Os eternos tudólogos. O futuro das empresas, como o futuro das sociedades, não se desenha apenas a picar o ponto. Desenha-se através do desenvolvimento pessoal e coletivo, da curiosidade e da capacidade de fazer perguntas melhores.

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