A viagem é agora

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Escritor

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2 de ago. de 2026, 14:14

#Motivação
Opinião

No momento em que estamos, é essencial repensar a viagem. O mundo transformou-se radicalmente desde que foram moldados os lugares-comuns daquilo que é viajar. O arquétipo do viajante é tão antigo que, em contornos determinantes, diverge da realidade que nos rodeia, ao ponto de não coincidir sequer nos mínimos fundamentos estruturais. Perante as novas formas de viajar, perante o que implica viajar no presente, é essencial repensar a viagem. Quais as razões profundas que, hoje, continuam a justificar a viagem? Esta é uma pergunta filosófica, que obriga a considerar muito mais dimensões do que parece. 



Esta reflexão é um dos pilares que sustenta Mais Além, o livro mais recente de Gonçalo Cadilhe. Vindo da imprensa e desde que, há mais de vinte anos, chegou à publicação de livros, Cadilhe tem escrito sobre múltiplas viagens, transitando entre continentes e culturas. Seria fácil classificá-lo com “viajante incansável”, com bastante probabilidade já muita gente o fez. No entanto, o que aqui encontramos é um balanço. Constituídas essencialmente por memória, estas páginas propõem um olhar sobre um grande número de viagens feitas, geografias diversas, e tentam conclusões, decantam o que ficou de todas essas milhas. Tanto a um nível individual, como a um grau muito mais amplo. 

Assim, tanto na progressão dos capítulos, como no interior de cada um deles, somos conduzidos num caminho que, com regularidade, circula por momentos de errância. Essas derivas, no entanto, nunca se perdem, nunca vão dar a becos; pelo contrário, são elas próprias uma espécie de manifesto sobre a viagem e a sobre a literatura, os seus tempos e os seus propósitos.

Em certos detalhes, o narrador parece rejeitar intenções teóricas, programáticas, reconhecendo coincidências e aceitando circunstâncias que transcenderam a sua escolha. Ainda assim, na leitura de Mais Além, reconheci uma sólida construção literária que, a meu ver, é justamente o esqueleto que suporta a diversidade que constitui este livro

O protagonista-aventureiro distrai-nos do narrador, mas ele está sempre lá, atento e correto. A empatia criada pelo uso da primeira pessoa, aliada a momentos em que intuímos desarmante sinceridade, levam o leitor para o território de uma não-ficção que rejeita o estereótipo da convenção literária. A sinceridade é notória nos momentos em que, por exemplo, o narrador assume que já não viaja com o mesmo fascínio natural de outros tempos, precisa agora de trabalhar muito mais para chegar a ele. Ou, também, na aberta ironia, sem filtros, com que descreve a realidade altamente mitificada de Khaosan Road, em Banguecoque, para dar um exemplo concreto. Lê-se na página 26: “Mochileiros, neo-hippies, instagramers, bloggers, sabáticos e outras tribos fazem base em Khaosan Road para preparar circuitos no Sudoeste Asiático, tal como turistas seniores esperam no convés de um cruzeiro das Caraíbas a sua vez para desembarcar na escala turística do dia".

A construção deste Mais Além é feita de histórias, muitas, com diversos sabores, e considerações, também abundantes, como se houvesse sede de retirar aprendizagem de tanta experiência acumulada. Entre histórias e considerações, encontramos ora o “eu”, ora toda a humanidade. O contraste permanente entre estas duas dimensões é, também ela, uma marca da reflexão literária e humanista incluída neste livro. Somos levados à origem do autor e somos levados à origem da humanidade, tanto o autor como a humanidade aí iniciaram a sua longa viagem. Ainda não sabemos onde essa travessia os levará.

Não é inocente a escolha do momento atual para se propor esta pausa e, a partir dela, se tentar um balanço e uma estimativa. Há decisões que precisam de ser tomadas no momento em que estamos. Agora, precisamos de repensar a viagem, é essencial. A viagem é tudo o que temos

Neste livro de Gonçalo Cadilhe, a viagem é considerada como um ser, tem corpo e personalidade. Ao ler estas páginas, necessariamente, relacionamo-nos com a viagem, divergimos dela e coincidimos com ela, tentamos saber quem ela é. Ainda assim, é inevitável concluirmos que, na viagem, existe um mistério inultrapassável, uma busca sem fim. A viagem é o outro e, ao mesmo tempo, a viagem somos nós próprios


Gonçalo Cadilhe, Mais Além, Contraponto Editores, 2026


José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.

A viagem é agora

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2 de ago. de 2026, 14:14

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No momento em que estamos, é essencial repensar a viagem. O mundo transformou-se radicalmente desde que foram moldados os lugares-comuns daquilo que é viajar. O arquétipo do viajante é tão antigo que, em contornos determinantes, diverge da realidade que nos rodeia, ao ponto de não coincidir sequer nos mínimos fundamentos estruturais. Perante as novas formas de viajar, perante o que implica viajar no presente, é essencial repensar a viagem. Quais as razões profundas que, hoje, continuam a justificar a viagem? Esta é uma pergunta filosófica, que obriga a considerar muito mais dimensões do que parece. 



Esta reflexão é um dos pilares que sustenta Mais Além, o livro mais recente de Gonçalo Cadilhe. Vindo da imprensa e desde que, há mais de vinte anos, chegou à publicação de livros, Cadilhe tem escrito sobre múltiplas viagens, transitando entre continentes e culturas. Seria fácil classificá-lo com “viajante incansável”, com bastante probabilidade já muita gente o fez. No entanto, o que aqui encontramos é um balanço. Constituídas essencialmente por memória, estas páginas propõem um olhar sobre um grande número de viagens feitas, geografias diversas, e tentam conclusões, decantam o que ficou de todas essas milhas. Tanto a um nível individual, como a um grau muito mais amplo. 

Assim, tanto na progressão dos capítulos, como no interior de cada um deles, somos conduzidos num caminho que, com regularidade, circula por momentos de errância. Essas derivas, no entanto, nunca se perdem, nunca vão dar a becos; pelo contrário, são elas próprias uma espécie de manifesto sobre a viagem e a sobre a literatura, os seus tempos e os seus propósitos.

Em certos detalhes, o narrador parece rejeitar intenções teóricas, programáticas, reconhecendo coincidências e aceitando circunstâncias que transcenderam a sua escolha. Ainda assim, na leitura de Mais Além, reconheci uma sólida construção literária que, a meu ver, é justamente o esqueleto que suporta a diversidade que constitui este livro

O protagonista-aventureiro distrai-nos do narrador, mas ele está sempre lá, atento e correto. A empatia criada pelo uso da primeira pessoa, aliada a momentos em que intuímos desarmante sinceridade, levam o leitor para o território de uma não-ficção que rejeita o estereótipo da convenção literária. A sinceridade é notória nos momentos em que, por exemplo, o narrador assume que já não viaja com o mesmo fascínio natural de outros tempos, precisa agora de trabalhar muito mais para chegar a ele. Ou, também, na aberta ironia, sem filtros, com que descreve a realidade altamente mitificada de Khaosan Road, em Banguecoque, para dar um exemplo concreto. Lê-se na página 26: “Mochileiros, neo-hippies, instagramers, bloggers, sabáticos e outras tribos fazem base em Khaosan Road para preparar circuitos no Sudoeste Asiático, tal como turistas seniores esperam no convés de um cruzeiro das Caraíbas a sua vez para desembarcar na escala turística do dia".

A construção deste Mais Além é feita de histórias, muitas, com diversos sabores, e considerações, também abundantes, como se houvesse sede de retirar aprendizagem de tanta experiência acumulada. Entre histórias e considerações, encontramos ora o “eu”, ora toda a humanidade. O contraste permanente entre estas duas dimensões é, também ela, uma marca da reflexão literária e humanista incluída neste livro. Somos levados à origem do autor e somos levados à origem da humanidade, tanto o autor como a humanidade aí iniciaram a sua longa viagem. Ainda não sabemos onde essa travessia os levará.

Não é inocente a escolha do momento atual para se propor esta pausa e, a partir dela, se tentar um balanço e uma estimativa. Há decisões que precisam de ser tomadas no momento em que estamos. Agora, precisamos de repensar a viagem, é essencial. A viagem é tudo o que temos

Neste livro de Gonçalo Cadilhe, a viagem é considerada como um ser, tem corpo e personalidade. Ao ler estas páginas, necessariamente, relacionamo-nos com a viagem, divergimos dela e coincidimos com ela, tentamos saber quem ela é. Ainda assim, é inevitável concluirmos que, na viagem, existe um mistério inultrapassável, uma busca sem fim. A viagem é o outro e, ao mesmo tempo, a viagem somos nós próprios


Gonçalo Cadilhe, Mais Além, Contraponto Editores, 2026


José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.

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#Motivação

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No momento em que estamos, é essencial repensar a viagem. O mundo transformou-se radicalmente desde que foram moldados os lugares-comuns daquilo que é viajar. O arquétipo do viajante é tão antigo que, em contornos determinantes, diverge da realidade que nos rodeia, ao ponto de não coincidir sequer nos mínimos fundamentos estruturais. Perante as novas formas de viajar, perante o que implica viajar no presente, é essencial repensar a viagem. Quais as razões profundas que, hoje, continuam a justificar a viagem? Esta é uma pergunta filosófica, que obriga a considerar muito mais dimensões do que parece. 



Esta reflexão é um dos pilares que sustenta Mais Além, o livro mais recente de Gonçalo Cadilhe. Vindo da imprensa e desde que, há mais de vinte anos, chegou à publicação de livros, Cadilhe tem escrito sobre múltiplas viagens, transitando entre continentes e culturas. Seria fácil classificá-lo com “viajante incansável”, com bastante probabilidade já muita gente o fez. No entanto, o que aqui encontramos é um balanço. Constituídas essencialmente por memória, estas páginas propõem um olhar sobre um grande número de viagens feitas, geografias diversas, e tentam conclusões, decantam o que ficou de todas essas milhas. Tanto a um nível individual, como a um grau muito mais amplo. 

Assim, tanto na progressão dos capítulos, como no interior de cada um deles, somos conduzidos num caminho que, com regularidade, circula por momentos de errância. Essas derivas, no entanto, nunca se perdem, nunca vão dar a becos; pelo contrário, são elas próprias uma espécie de manifesto sobre a viagem e a sobre a literatura, os seus tempos e os seus propósitos.

Em certos detalhes, o narrador parece rejeitar intenções teóricas, programáticas, reconhecendo coincidências e aceitando circunstâncias que transcenderam a sua escolha. Ainda assim, na leitura de Mais Além, reconheci uma sólida construção literária que, a meu ver, é justamente o esqueleto que suporta a diversidade que constitui este livro

O protagonista-aventureiro distrai-nos do narrador, mas ele está sempre lá, atento e correto. A empatia criada pelo uso da primeira pessoa, aliada a momentos em que intuímos desarmante sinceridade, levam o leitor para o território de uma não-ficção que rejeita o estereótipo da convenção literária. A sinceridade é notória nos momentos em que, por exemplo, o narrador assume que já não viaja com o mesmo fascínio natural de outros tempos, precisa agora de trabalhar muito mais para chegar a ele. Ou, também, na aberta ironia, sem filtros, com que descreve a realidade altamente mitificada de Khaosan Road, em Banguecoque, para dar um exemplo concreto. Lê-se na página 26: “Mochileiros, neo-hippies, instagramers, bloggers, sabáticos e outras tribos fazem base em Khaosan Road para preparar circuitos no Sudoeste Asiático, tal como turistas seniores esperam no convés de um cruzeiro das Caraíbas a sua vez para desembarcar na escala turística do dia".

A construção deste Mais Além é feita de histórias, muitas, com diversos sabores, e considerações, também abundantes, como se houvesse sede de retirar aprendizagem de tanta experiência acumulada. Entre histórias e considerações, encontramos ora o “eu”, ora toda a humanidade. O contraste permanente entre estas duas dimensões é, também ela, uma marca da reflexão literária e humanista incluída neste livro. Somos levados à origem do autor e somos levados à origem da humanidade, tanto o autor como a humanidade aí iniciaram a sua longa viagem. Ainda não sabemos onde essa travessia os levará.

Não é inocente a escolha do momento atual para se propor esta pausa e, a partir dela, se tentar um balanço e uma estimativa. Há decisões que precisam de ser tomadas no momento em que estamos. Agora, precisamos de repensar a viagem, é essencial. A viagem é tudo o que temos

Neste livro de Gonçalo Cadilhe, a viagem é considerada como um ser, tem corpo e personalidade. Ao ler estas páginas, necessariamente, relacionamo-nos com a viagem, divergimos dela e coincidimos com ela, tentamos saber quem ela é. Ainda assim, é inevitável concluirmos que, na viagem, existe um mistério inultrapassável, uma busca sem fim. A viagem é o outro e, ao mesmo tempo, a viagem somos nós próprios


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No momento em que estamos, é essencial repensar a viagem. O mundo transformou-se radicalmente desde que foram moldados os lugares-comuns daquilo que é viajar. O arquétipo do viajante é tão antigo que, em contornos determinantes, diverge da realidade que nos rodeia, ao ponto de não coincidir sequer nos mínimos fundamentos estruturais. Perante as novas formas de viajar, perante o que implica viajar no presente, é essencial repensar a viagem. Quais as razões profundas que, hoje, continuam a justificar a viagem? Esta é uma pergunta filosófica, que obriga a considerar muito mais dimensões do que parece. 



Esta reflexão é um dos pilares que sustenta Mais Além, o livro mais recente de Gonçalo Cadilhe. Vindo da imprensa e desde que, há mais de vinte anos, chegou à publicação de livros, Cadilhe tem escrito sobre múltiplas viagens, transitando entre continentes e culturas. Seria fácil classificá-lo com “viajante incansável”, com bastante probabilidade já muita gente o fez. No entanto, o que aqui encontramos é um balanço. Constituídas essencialmente por memória, estas páginas propõem um olhar sobre um grande número de viagens feitas, geografias diversas, e tentam conclusões, decantam o que ficou de todas essas milhas. Tanto a um nível individual, como a um grau muito mais amplo. 

Assim, tanto na progressão dos capítulos, como no interior de cada um deles, somos conduzidos num caminho que, com regularidade, circula por momentos de errância. Essas derivas, no entanto, nunca se perdem, nunca vão dar a becos; pelo contrário, são elas próprias uma espécie de manifesto sobre a viagem e a sobre a literatura, os seus tempos e os seus propósitos.

Em certos detalhes, o narrador parece rejeitar intenções teóricas, programáticas, reconhecendo coincidências e aceitando circunstâncias que transcenderam a sua escolha. Ainda assim, na leitura de Mais Além, reconheci uma sólida construção literária que, a meu ver, é justamente o esqueleto que suporta a diversidade que constitui este livro

O protagonista-aventureiro distrai-nos do narrador, mas ele está sempre lá, atento e correto. A empatia criada pelo uso da primeira pessoa, aliada a momentos em que intuímos desarmante sinceridade, levam o leitor para o território de uma não-ficção que rejeita o estereótipo da convenção literária. A sinceridade é notória nos momentos em que, por exemplo, o narrador assume que já não viaja com o mesmo fascínio natural de outros tempos, precisa agora de trabalhar muito mais para chegar a ele. Ou, também, na aberta ironia, sem filtros, com que descreve a realidade altamente mitificada de Khaosan Road, em Banguecoque, para dar um exemplo concreto. Lê-se na página 26: “Mochileiros, neo-hippies, instagramers, bloggers, sabáticos e outras tribos fazem base em Khaosan Road para preparar circuitos no Sudoeste Asiático, tal como turistas seniores esperam no convés de um cruzeiro das Caraíbas a sua vez para desembarcar na escala turística do dia".

A construção deste Mais Além é feita de histórias, muitas, com diversos sabores, e considerações, também abundantes, como se houvesse sede de retirar aprendizagem de tanta experiência acumulada. Entre histórias e considerações, encontramos ora o “eu”, ora toda a humanidade. O contraste permanente entre estas duas dimensões é, também ela, uma marca da reflexão literária e humanista incluída neste livro. Somos levados à origem do autor e somos levados à origem da humanidade, tanto o autor como a humanidade aí iniciaram a sua longa viagem. Ainda não sabemos onde essa travessia os levará.

Não é inocente a escolha do momento atual para se propor esta pausa e, a partir dela, se tentar um balanço e uma estimativa. Há decisões que precisam de ser tomadas no momento em que estamos. Agora, precisamos de repensar a viagem, é essencial. A viagem é tudo o que temos

Neste livro de Gonçalo Cadilhe, a viagem é considerada como um ser, tem corpo e personalidade. Ao ler estas páginas, necessariamente, relacionamo-nos com a viagem, divergimos dela e coincidimos com ela, tentamos saber quem ela é. Ainda assim, é inevitável concluirmos que, na viagem, existe um mistério inultrapassável, uma busca sem fim. A viagem é o outro e, ao mesmo tempo, a viagem somos nós próprios


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