Precisamos de saber parar

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Jornalista e escritora

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26 de mai. de 2026, 10:38

#Protagonistas
Opinião

Sou da geração que se validou pelas conquistas profissionais. O importante era provar que éramos capazes. Trabalhar até à exaustão, ignorar horários, achar quase deselegante falar de dinheiro porque, supostamente, o objetivo era outro: reconhecimento. A ideia de conquista. O resto vinha depois. Férias? Descanso? Tempo livre? Pareciam coisas para pessoas menos ambiciosas.

Tudo isto, convém dizê-lo, é uma grande mentira.

Viver para trabalhar é uma proposta indecente da qual devemos fugir o mais depressa possível, embora eu própria tenha levado anos a perceber isso. Trabalhar para ter uma vida, isso sim, parece-me um objetivo sensato. E dentro dessa vida existe uma coisa essencial a que durante demasiado tempo chamámos luxo: descanso.

Precisamos de saber parar.

Depois de semanas de excesso, de noitadas, de fins de semana passados diante do computador para entregar tudo a tempo, o descanso não deveria ser um prémio nem uma extravagância. É crucial que possa ser entendido como uma questão de dignidade, porque o corpo precisa de pausa e a cabeça também.

Criámos uma cultura profissional profundamente desequilibrada.

O chefe que liga fora de horas; a colega que manda emails às duas da manhã para provar dedicação; o cliente indignado porque alguém trabalha “apenas” oito horas por dia. Oito horas. Já pensaram bem nisso? É mesmo assim que queremos viver?

A vida organizada exclusivamente em torno do trabalho torna-se inevitavelmente mais pobre. Falta tempo para o silêncio, para caminhar, para almoços demorados, para livros que exigem dedicação e tempo, para estar verdadeiramente presente. Não somos melhores profissionais porque levamos o computador de férias e não somos mais importantes porque nunca desligamos.

E talvez exista aqui uma forma contemporânea de servidão que aceitamos sem resistência suficiente: uma escravatura moderna mascarada de ambição, desempenho e sucesso.

Digo muitas vezes que vamos morrer e não sabemos quando. Parece uma frase brutal, mas talvez seja apenas uma forma honesta de lembrar que importa escolher onde gastamos a nossa energia. Eu adoro trabalhar. Sou aquela pessoa que dificilmente recusa um projecto, uma tarefa ou um pedido. E talvez precisamente por isso tenha aprendido, tarde, que dizer “não” mais vezes não nos torna menos competentes, pelo contrário: talvez nos permita fazer melhor aquilo que realmente importa.

Não tenho grandes conclusões para oferecer, resta-me uma pergunta: o vosso trabalho melhora a vossa vida ou limita-se a ocupar todas as trincheiras dela?


OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:


Patrícia Reis assina a crónica Instruções para o teu chefe, todos os meses, no MOTIVO.

Precisamos de saber parar

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26 de mai. de 2026, 10:38

#Protagonistas

Opinião

Sou da geração que se validou pelas conquistas profissionais. O importante era provar que éramos capazes. Trabalhar até à exaustão, ignorar horários, achar quase deselegante falar de dinheiro porque, supostamente, o objetivo era outro: reconhecimento. A ideia de conquista. O resto vinha depois. Férias? Descanso? Tempo livre? Pareciam coisas para pessoas menos ambiciosas.

Tudo isto, convém dizê-lo, é uma grande mentira.

Viver para trabalhar é uma proposta indecente da qual devemos fugir o mais depressa possível, embora eu própria tenha levado anos a perceber isso. Trabalhar para ter uma vida, isso sim, parece-me um objetivo sensato. E dentro dessa vida existe uma coisa essencial a que durante demasiado tempo chamámos luxo: descanso.

Precisamos de saber parar.

Depois de semanas de excesso, de noitadas, de fins de semana passados diante do computador para entregar tudo a tempo, o descanso não deveria ser um prémio nem uma extravagância. É crucial que possa ser entendido como uma questão de dignidade, porque o corpo precisa de pausa e a cabeça também.

Criámos uma cultura profissional profundamente desequilibrada.

O chefe que liga fora de horas; a colega que manda emails às duas da manhã para provar dedicação; o cliente indignado porque alguém trabalha “apenas” oito horas por dia. Oito horas. Já pensaram bem nisso? É mesmo assim que queremos viver?

A vida organizada exclusivamente em torno do trabalho torna-se inevitavelmente mais pobre. Falta tempo para o silêncio, para caminhar, para almoços demorados, para livros que exigem dedicação e tempo, para estar verdadeiramente presente. Não somos melhores profissionais porque levamos o computador de férias e não somos mais importantes porque nunca desligamos.

E talvez exista aqui uma forma contemporânea de servidão que aceitamos sem resistência suficiente: uma escravatura moderna mascarada de ambição, desempenho e sucesso.

Digo muitas vezes que vamos morrer e não sabemos quando. Parece uma frase brutal, mas talvez seja apenas uma forma honesta de lembrar que importa escolher onde gastamos a nossa energia. Eu adoro trabalhar. Sou aquela pessoa que dificilmente recusa um projecto, uma tarefa ou um pedido. E talvez precisamente por isso tenha aprendido, tarde, que dizer “não” mais vezes não nos torna menos competentes, pelo contrário: talvez nos permita fazer melhor aquilo que realmente importa.

Não tenho grandes conclusões para oferecer, resta-me uma pergunta: o vosso trabalho melhora a vossa vida ou limita-se a ocupar todas as trincheiras dela?


OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:


Patrícia Reis assina a crónica Instruções para o teu chefe, todos os meses, no MOTIVO.

Precisamos de saber parar

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26 de mai. de 2026, 10:38

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Sou da geração que se validou pelas conquistas profissionais. O importante era provar que éramos capazes. Trabalhar até à exaustão, ignorar horários, achar quase deselegante falar de dinheiro porque, supostamente, o objetivo era outro: reconhecimento. A ideia de conquista. O resto vinha depois. Férias? Descanso? Tempo livre? Pareciam coisas para pessoas menos ambiciosas.

Tudo isto, convém dizê-lo, é uma grande mentira.

Viver para trabalhar é uma proposta indecente da qual devemos fugir o mais depressa possível, embora eu própria tenha levado anos a perceber isso. Trabalhar para ter uma vida, isso sim, parece-me um objetivo sensato. E dentro dessa vida existe uma coisa essencial a que durante demasiado tempo chamámos luxo: descanso.

Precisamos de saber parar.

Depois de semanas de excesso, de noitadas, de fins de semana passados diante do computador para entregar tudo a tempo, o descanso não deveria ser um prémio nem uma extravagância. É crucial que possa ser entendido como uma questão de dignidade, porque o corpo precisa de pausa e a cabeça também.

Criámos uma cultura profissional profundamente desequilibrada.

O chefe que liga fora de horas; a colega que manda emails às duas da manhã para provar dedicação; o cliente indignado porque alguém trabalha “apenas” oito horas por dia. Oito horas. Já pensaram bem nisso? É mesmo assim que queremos viver?

A vida organizada exclusivamente em torno do trabalho torna-se inevitavelmente mais pobre. Falta tempo para o silêncio, para caminhar, para almoços demorados, para livros que exigem dedicação e tempo, para estar verdadeiramente presente. Não somos melhores profissionais porque levamos o computador de férias e não somos mais importantes porque nunca desligamos.

E talvez exista aqui uma forma contemporânea de servidão que aceitamos sem resistência suficiente: uma escravatura moderna mascarada de ambição, desempenho e sucesso.

Digo muitas vezes que vamos morrer e não sabemos quando. Parece uma frase brutal, mas talvez seja apenas uma forma honesta de lembrar que importa escolher onde gastamos a nossa energia. Eu adoro trabalhar. Sou aquela pessoa que dificilmente recusa um projecto, uma tarefa ou um pedido. E talvez precisamente por isso tenha aprendido, tarde, que dizer “não” mais vezes não nos torna menos competentes, pelo contrário: talvez nos permita fazer melhor aquilo que realmente importa.

Não tenho grandes conclusões para oferecer, resta-me uma pergunta: o vosso trabalho melhora a vossa vida ou limita-se a ocupar todas as trincheiras dela?


OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:


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Sou da geração que se validou pelas conquistas profissionais. O importante era provar que éramos capazes. Trabalhar até à exaustão, ignorar horários, achar quase deselegante falar de dinheiro porque, supostamente, o objetivo era outro: reconhecimento. A ideia de conquista. O resto vinha depois. Férias? Descanso? Tempo livre? Pareciam coisas para pessoas menos ambiciosas.

Tudo isto, convém dizê-lo, é uma grande mentira.

Viver para trabalhar é uma proposta indecente da qual devemos fugir o mais depressa possível, embora eu própria tenha levado anos a perceber isso. Trabalhar para ter uma vida, isso sim, parece-me um objetivo sensato. E dentro dessa vida existe uma coisa essencial a que durante demasiado tempo chamámos luxo: descanso.

Precisamos de saber parar.

Depois de semanas de excesso, de noitadas, de fins de semana passados diante do computador para entregar tudo a tempo, o descanso não deveria ser um prémio nem uma extravagância. É crucial que possa ser entendido como uma questão de dignidade, porque o corpo precisa de pausa e a cabeça também.

Criámos uma cultura profissional profundamente desequilibrada.

O chefe que liga fora de horas; a colega que manda emails às duas da manhã para provar dedicação; o cliente indignado porque alguém trabalha “apenas” oito horas por dia. Oito horas. Já pensaram bem nisso? É mesmo assim que queremos viver?

A vida organizada exclusivamente em torno do trabalho torna-se inevitavelmente mais pobre. Falta tempo para o silêncio, para caminhar, para almoços demorados, para livros que exigem dedicação e tempo, para estar verdadeiramente presente. Não somos melhores profissionais porque levamos o computador de férias e não somos mais importantes porque nunca desligamos.

E talvez exista aqui uma forma contemporânea de servidão que aceitamos sem resistência suficiente: uma escravatura moderna mascarada de ambição, desempenho e sucesso.

Digo muitas vezes que vamos morrer e não sabemos quando. Parece uma frase brutal, mas talvez seja apenas uma forma honesta de lembrar que importa escolher onde gastamos a nossa energia. Eu adoro trabalhar. Sou aquela pessoa que dificilmente recusa um projecto, uma tarefa ou um pedido. E talvez precisamente por isso tenha aprendido, tarde, que dizer “não” mais vezes não nos torna menos competentes, pelo contrário: talvez nos permita fazer melhor aquilo que realmente importa.

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