O seu chefe não é responsável pela sua felicidade
#Protagonistas
Opinião

Numa formação de liderança, este ano, um diretor perguntou-me, com toda a sinceridade do mundo, o que podia fazer para que a equipa fosse feliz. Não estava a fingir preocupação para impressionar ninguém. Estava mesmo aflito.
Respondi-lhe a única coisa que me pareceu honesta: que não é trabalho dele.
Sei bem o peso que esta frase tem, vinda de quem passa a vida a falar de bem-estar, de empatia e de cultura organizacional. Mas passei a dizê-la porque vejo o estrago que a ideia contrária anda a fazer, dos dois lados da mesa.
Nos últimos anos, as empresas assumiram uma responsabilidade que nunca foi delas. Passaram a organizar o convívio, a promover o propósito, a medir a felicidade das pessoas em inquéritos trimestrais, a oferecer aulas de meditação à hora de almoço. A intenção é boa. O resultado é estranho: chefias esgotadas a tentar gerir o estado emocional de adultos, e equipas cada vez mais convencidas de que, se não se sentem realizadas, alguém lhes falhou.
Uma empresa é responsável por muita coisa e nada disto é pouco. É responsável por pagar com justiça e a horas. Por dar clareza sobre o que se espera de cada pessoa. Por garantir respeito, segurança e condições dignas de trabalho. Por não roubar às pessoas o tempo que é delas. Por afastar quem humilha, mesmo quando essa pessoa dá resultados. Uma organização que cumpre isto está a fazer muito mais do que a maioria.
O que ela não pode fazer é dar sentido à vida de alguém. Isso pertence a cada um.
E aqui está a parte incómoda: quando entregamos ao trabalho toda a nossa realização, damos-lhe um poder sobre nós que nenhum empregador devia ter. A pessoa que só se sente alguém quando é elogiada numa reunião fica refém dessa reunião. Aceita o que não devia aceitar, fica onde já não faz sentido ficar, adia conversas difíceis, tem medo de sair. A dependência emocional do trabalho é a forma mais eficaz de nos tornarmos negociadores fracos da nossa própria vida.
Costumo fazer um exercício simples nas sessões que dou. Peço a cada pessoa que escreva cinco coisas que lhe dão sentido à vida. Depois peço que assinale quais dependem do trabalho. Vejo, com frequência, folhas onde estão assinaladas quatro. Às vezes as cinco. E, depois, vem a segunda pergunta, que é a que interessa: e se amanhã perdesse este emprego, quantas dessas cinco perdia também?
Nunca ninguém sai dessa sala igual.
Não é para ninguém se descomprometer do trabalho. Passo os meus dias a defender exatamente o contrário, e continuo a acreditar que se pode ser profundamente feliz a trabalhar. O que digo é outra coisa: a felicidade que se constrói só num sítio não é felicidade, é exposição.
Aos líderes, o que peço é que troquem uma preocupação por outra. Em vez de perguntarem como tornar a equipa feliz, perguntem se estão a criar condições para que cada pessoa possa ter uma vida inteira. Se as reuniões acabam a horas de alguém ir buscar um filho. Se um pedido feito às sete da tarde pode esperar por amanhã. Se quem tira férias volta a encontrar o trabalho feito ou o caos à espera.
É menos bonito do que uma iniciativa de bem-estar, e faz incomparavelmente mais diferença.
Às pessoas, o que peço é mais difícil ainda, porque exige uma honestidade que custa. Reparar quanto do nosso valor próprio está guardado num sítio só. Ter amigos que não são colegas. Ter uma conversa por semana que não seja sobre trabalho. Cultivar alguma coisa em que se seja mediano e feliz, sem métricas nem objetivos. Isto não é fugir ao trabalho. É o que nos permite estar nele com liberdade, e a liberdade é a melhor coisa que se leva para dentro de uma empresa.
O melhor chefe que teve na vida não o fez feliz. Deu-lhe condições, respeito e espaço para ser quem é. A felicidade fez-se ali dentro, mas não foi ele que a fez.
Se amanhã perdesse este trabalho, quanto é que perdia de si?
Outras crónicas de Sofia Castro Fernandes no MOTIVO:
O seu chefe não é responsável pela sua felicidade
#Protagonistas
Opinião

Numa formação de liderança, este ano, um diretor perguntou-me, com toda a sinceridade do mundo, o que podia fazer para que a equipa fosse feliz. Não estava a fingir preocupação para impressionar ninguém. Estava mesmo aflito.
Respondi-lhe a única coisa que me pareceu honesta: que não é trabalho dele.
Sei bem o peso que esta frase tem, vinda de quem passa a vida a falar de bem-estar, de empatia e de cultura organizacional. Mas passei a dizê-la porque vejo o estrago que a ideia contrária anda a fazer, dos dois lados da mesa.
Nos últimos anos, as empresas assumiram uma responsabilidade que nunca foi delas. Passaram a organizar o convívio, a promover o propósito, a medir a felicidade das pessoas em inquéritos trimestrais, a oferecer aulas de meditação à hora de almoço. A intenção é boa. O resultado é estranho: chefias esgotadas a tentar gerir o estado emocional de adultos, e equipas cada vez mais convencidas de que, se não se sentem realizadas, alguém lhes falhou.
Uma empresa é responsável por muita coisa e nada disto é pouco. É responsável por pagar com justiça e a horas. Por dar clareza sobre o que se espera de cada pessoa. Por garantir respeito, segurança e condições dignas de trabalho. Por não roubar às pessoas o tempo que é delas. Por afastar quem humilha, mesmo quando essa pessoa dá resultados. Uma organização que cumpre isto está a fazer muito mais do que a maioria.
O que ela não pode fazer é dar sentido à vida de alguém. Isso pertence a cada um.
E aqui está a parte incómoda: quando entregamos ao trabalho toda a nossa realização, damos-lhe um poder sobre nós que nenhum empregador devia ter. A pessoa que só se sente alguém quando é elogiada numa reunião fica refém dessa reunião. Aceita o que não devia aceitar, fica onde já não faz sentido ficar, adia conversas difíceis, tem medo de sair. A dependência emocional do trabalho é a forma mais eficaz de nos tornarmos negociadores fracos da nossa própria vida.
Costumo fazer um exercício simples nas sessões que dou. Peço a cada pessoa que escreva cinco coisas que lhe dão sentido à vida. Depois peço que assinale quais dependem do trabalho. Vejo, com frequência, folhas onde estão assinaladas quatro. Às vezes as cinco. E, depois, vem a segunda pergunta, que é a que interessa: e se amanhã perdesse este emprego, quantas dessas cinco perdia também?
Nunca ninguém sai dessa sala igual.
Não é para ninguém se descomprometer do trabalho. Passo os meus dias a defender exatamente o contrário, e continuo a acreditar que se pode ser profundamente feliz a trabalhar. O que digo é outra coisa: a felicidade que se constrói só num sítio não é felicidade, é exposição.
Aos líderes, o que peço é que troquem uma preocupação por outra. Em vez de perguntarem como tornar a equipa feliz, perguntem se estão a criar condições para que cada pessoa possa ter uma vida inteira. Se as reuniões acabam a horas de alguém ir buscar um filho. Se um pedido feito às sete da tarde pode esperar por amanhã. Se quem tira férias volta a encontrar o trabalho feito ou o caos à espera.
É menos bonito do que uma iniciativa de bem-estar, e faz incomparavelmente mais diferença.
Às pessoas, o que peço é mais difícil ainda, porque exige uma honestidade que custa. Reparar quanto do nosso valor próprio está guardado num sítio só. Ter amigos que não são colegas. Ter uma conversa por semana que não seja sobre trabalho. Cultivar alguma coisa em que se seja mediano e feliz, sem métricas nem objetivos. Isto não é fugir ao trabalho. É o que nos permite estar nele com liberdade, e a liberdade é a melhor coisa que se leva para dentro de uma empresa.
O melhor chefe que teve na vida não o fez feliz. Deu-lhe condições, respeito e espaço para ser quem é. A felicidade fez-se ali dentro, mas não foi ele que a fez.
Se amanhã perdesse este trabalho, quanto é que perdia de si?
Outras crónicas de Sofia Castro Fernandes no MOTIVO:
O seu chefe não é responsável pela sua felicidade
#Protagonistas
Opinião

Numa formação de liderança, este ano, um diretor perguntou-me, com toda a sinceridade do mundo, o que podia fazer para que a equipa fosse feliz. Não estava a fingir preocupação para impressionar ninguém. Estava mesmo aflito.
Respondi-lhe a única coisa que me pareceu honesta: que não é trabalho dele.
Sei bem o peso que esta frase tem, vinda de quem passa a vida a falar de bem-estar, de empatia e de cultura organizacional. Mas passei a dizê-la porque vejo o estrago que a ideia contrária anda a fazer, dos dois lados da mesa.
Nos últimos anos, as empresas assumiram uma responsabilidade que nunca foi delas. Passaram a organizar o convívio, a promover o propósito, a medir a felicidade das pessoas em inquéritos trimestrais, a oferecer aulas de meditação à hora de almoço. A intenção é boa. O resultado é estranho: chefias esgotadas a tentar gerir o estado emocional de adultos, e equipas cada vez mais convencidas de que, se não se sentem realizadas, alguém lhes falhou.
Uma empresa é responsável por muita coisa e nada disto é pouco. É responsável por pagar com justiça e a horas. Por dar clareza sobre o que se espera de cada pessoa. Por garantir respeito, segurança e condições dignas de trabalho. Por não roubar às pessoas o tempo que é delas. Por afastar quem humilha, mesmo quando essa pessoa dá resultados. Uma organização que cumpre isto está a fazer muito mais do que a maioria.
O que ela não pode fazer é dar sentido à vida de alguém. Isso pertence a cada um.
E aqui está a parte incómoda: quando entregamos ao trabalho toda a nossa realização, damos-lhe um poder sobre nós que nenhum empregador devia ter. A pessoa que só se sente alguém quando é elogiada numa reunião fica refém dessa reunião. Aceita o que não devia aceitar, fica onde já não faz sentido ficar, adia conversas difíceis, tem medo de sair. A dependência emocional do trabalho é a forma mais eficaz de nos tornarmos negociadores fracos da nossa própria vida.
Costumo fazer um exercício simples nas sessões que dou. Peço a cada pessoa que escreva cinco coisas que lhe dão sentido à vida. Depois peço que assinale quais dependem do trabalho. Vejo, com frequência, folhas onde estão assinaladas quatro. Às vezes as cinco. E, depois, vem a segunda pergunta, que é a que interessa: e se amanhã perdesse este emprego, quantas dessas cinco perdia também?
Nunca ninguém sai dessa sala igual.
Não é para ninguém se descomprometer do trabalho. Passo os meus dias a defender exatamente o contrário, e continuo a acreditar que se pode ser profundamente feliz a trabalhar. O que digo é outra coisa: a felicidade que se constrói só num sítio não é felicidade, é exposição.
Aos líderes, o que peço é que troquem uma preocupação por outra. Em vez de perguntarem como tornar a equipa feliz, perguntem se estão a criar condições para que cada pessoa possa ter uma vida inteira. Se as reuniões acabam a horas de alguém ir buscar um filho. Se um pedido feito às sete da tarde pode esperar por amanhã. Se quem tira férias volta a encontrar o trabalho feito ou o caos à espera.
É menos bonito do que uma iniciativa de bem-estar, e faz incomparavelmente mais diferença.
Às pessoas, o que peço é mais difícil ainda, porque exige uma honestidade que custa. Reparar quanto do nosso valor próprio está guardado num sítio só. Ter amigos que não são colegas. Ter uma conversa por semana que não seja sobre trabalho. Cultivar alguma coisa em que se seja mediano e feliz, sem métricas nem objetivos. Isto não é fugir ao trabalho. É o que nos permite estar nele com liberdade, e a liberdade é a melhor coisa que se leva para dentro de uma empresa.
O melhor chefe que teve na vida não o fez feliz. Deu-lhe condições, respeito e espaço para ser quem é. A felicidade fez-se ali dentro, mas não foi ele que a fez.
Se amanhã perdesse este trabalho, quanto é que perdia de si?
Outras crónicas de Sofia Castro Fernandes no MOTIVO:
O seu chefe não é responsável pela sua felicidade
#Protagonistas
Opinião

Numa formação de liderança, este ano, um diretor perguntou-me, com toda a sinceridade do mundo, o que podia fazer para que a equipa fosse feliz. Não estava a fingir preocupação para impressionar ninguém. Estava mesmo aflito.
Respondi-lhe a única coisa que me pareceu honesta: que não é trabalho dele.
Sei bem o peso que esta frase tem, vinda de quem passa a vida a falar de bem-estar, de empatia e de cultura organizacional. Mas passei a dizê-la porque vejo o estrago que a ideia contrária anda a fazer, dos dois lados da mesa.
Nos últimos anos, as empresas assumiram uma responsabilidade que nunca foi delas. Passaram a organizar o convívio, a promover o propósito, a medir a felicidade das pessoas em inquéritos trimestrais, a oferecer aulas de meditação à hora de almoço. A intenção é boa. O resultado é estranho: chefias esgotadas a tentar gerir o estado emocional de adultos, e equipas cada vez mais convencidas de que, se não se sentem realizadas, alguém lhes falhou.
Uma empresa é responsável por muita coisa e nada disto é pouco. É responsável por pagar com justiça e a horas. Por dar clareza sobre o que se espera de cada pessoa. Por garantir respeito, segurança e condições dignas de trabalho. Por não roubar às pessoas o tempo que é delas. Por afastar quem humilha, mesmo quando essa pessoa dá resultados. Uma organização que cumpre isto está a fazer muito mais do que a maioria.
O que ela não pode fazer é dar sentido à vida de alguém. Isso pertence a cada um.
E aqui está a parte incómoda: quando entregamos ao trabalho toda a nossa realização, damos-lhe um poder sobre nós que nenhum empregador devia ter. A pessoa que só se sente alguém quando é elogiada numa reunião fica refém dessa reunião. Aceita o que não devia aceitar, fica onde já não faz sentido ficar, adia conversas difíceis, tem medo de sair. A dependência emocional do trabalho é a forma mais eficaz de nos tornarmos negociadores fracos da nossa própria vida.
Costumo fazer um exercício simples nas sessões que dou. Peço a cada pessoa que escreva cinco coisas que lhe dão sentido à vida. Depois peço que assinale quais dependem do trabalho. Vejo, com frequência, folhas onde estão assinaladas quatro. Às vezes as cinco. E, depois, vem a segunda pergunta, que é a que interessa: e se amanhã perdesse este emprego, quantas dessas cinco perdia também?
Nunca ninguém sai dessa sala igual.
Não é para ninguém se descomprometer do trabalho. Passo os meus dias a defender exatamente o contrário, e continuo a acreditar que se pode ser profundamente feliz a trabalhar. O que digo é outra coisa: a felicidade que se constrói só num sítio não é felicidade, é exposição.
Aos líderes, o que peço é que troquem uma preocupação por outra. Em vez de perguntarem como tornar a equipa feliz, perguntem se estão a criar condições para que cada pessoa possa ter uma vida inteira. Se as reuniões acabam a horas de alguém ir buscar um filho. Se um pedido feito às sete da tarde pode esperar por amanhã. Se quem tira férias volta a encontrar o trabalho feito ou o caos à espera.
É menos bonito do que uma iniciativa de bem-estar, e faz incomparavelmente mais diferença.
Às pessoas, o que peço é mais difícil ainda, porque exige uma honestidade que custa. Reparar quanto do nosso valor próprio está guardado num sítio só. Ter amigos que não são colegas. Ter uma conversa por semana que não seja sobre trabalho. Cultivar alguma coisa em que se seja mediano e feliz, sem métricas nem objetivos. Isto não é fugir ao trabalho. É o que nos permite estar nele com liberdade, e a liberdade é a melhor coisa que se leva para dentro de uma empresa.
O melhor chefe que teve na vida não o fez feliz. Deu-lhe condições, respeito e espaço para ser quem é. A felicidade fez-se ali dentro, mas não foi ele que a fez.
Se amanhã perdesse este trabalho, quanto é que perdia de si?




