#Protagonistas

Martim Mariano sobre IA: "As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça"

Escrever bem exige prática, pensamento crítico e capacidade para dizer à inteligência artificial quando o resultado é “uma valente trampa”. Em Escrita 2.0, o novo livro de Martim Mariano, o autor propõe exercícios, técnicas e prompts para treinar a escrita num tempo marcado pela produção automática de texto. Em entrevista ao MOTIVO, o autor fala de disciplina, autenticidade, medo de ter voz e do risco de começarmos a delegar à IA também o trabalho de pensar.

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11 de ago. de 2026, 17:33

O Martim começa o livro por falar logo da questão da prática, com a teoria das 10 mil horas. A escrita precisa de prática. A questão é: como é que uma pessoa sem prática — e, por isso, insegura, apreensiva, resistente —, começa a praticar?

MARTIM MARIANO — Escrevendo para si. Muito. Sem o medo e o receio inerente a ter de publicar o que está a escrever. Antes de qualquer outra coisa, eu diria que é preciso dar voz aos nossos próprios pensamentos e começar a perceber como é que eles soam quando são escritos e lidos por nós. E isso, naturalmente, vai implicar uma grande dose de verdade, de honestidade e de disponibilidade da parte de quem escreve. Em especial, neste tempo particularmente nefasto e exigente para a escrita, em que as pessoas, para saltarem esta parte, vão ter com a IA e pedem-lhe que o faça por elas. 

E aí perde-se, precisamente, a tão necessária prática.

M.M. — A prática centra-se na escrita e no escrever. Como disse William Faulkner, “não sejas um escritor, escreve!”. Por isso, é preciso praticar e fazê-lo sem que ninguém veja. Pois isso liberta-nos da pressão adicional do “será que vai ficar bom?", "será que alguém vai gostar disto?”.  Eliminando essa pressão, torna-se mais fácil treinar. O livro tem esse objetivo: facilitar o treino. Eu, por exemplo, não tive livro algum que me ensinasse isto. Tive de passar anos na clandestinidade, a escrever cadernos e cadernos e cadernos de pensamentos, sentimentos, desejos, frustrações até que, de repente, comecei a sentir-me confortável a fazê-lo. 



Para quem quer escrever, mas não consegue ter 8 horas para o fazer, como o Martim, o que aconselha como primeiro passo, antes de se atirar aos exercícios que o livro sugere?

M.M. — Comece por arranjar um pedaço de tempo, todos os dias, para escrever, sem deixar que as desculpas mais típicas se intrometam entre a pessoa e o objetivo. Esse é o maior dos desafios: fazer disto uma prioridade. Se só tem 30 minutos para escrever, então bloqueiam-se esses 30 minutos e escreve-se. Sugiro uma variação da técnica do Jerry Seinfeld: bloqueiam-se esses 30 minutos para escrever. Até pode não escrever, mas não pode fazer rigorosamente mais nada nesse período. A escrita é um músculo que precisa de ser alimentado e treinado. Dia após dia, após dia. Por isso, se começamos a arranjar desculpas para não escrever, depois não podemos espantar-nos porque não conseguimos os resultados que queríamos alcançar. 

O Martim defende sempre a ideia da escrita como ofício.

M.M. — É um ofício muito punitivo e responsabilizador. Não podemos culpar alguém pelo fracasso da nossa escrita a não ser a nossa própria falta de disciplina e entrega. Depois, os exercícios são mesmo uma ótima forma de começar. Há milhares de exercícios online para se fazer, sem que isso obrigue a publicar seja o que for. O que é preciso é querer escrever e querer melhorar. Ninguém diz a um miúdo para ir jogar mais futebol. Ele vai porque é bom e porque gosta. A escrita tem de ser assim. Tem de ser alimentada pela nossa própria vontade de dizer coisas, de contar coisas, de falar sobre coisas, de pensar alto sobre o mundo. Sobre a vida. 

A verdade é que a escrita preenche um imaginário literário, mas está presente em muitas outras áreas. E não é só a escrita de e-mails ou publicações no LinkedIn. Falamos de storytellingcopywriting, jornalismo, guionismo, entre outras. Este seu livro mais recente foi pensado para todos?

M.M. — Este livro foi pensado para quem quer elevar a qualidade da sua escrita. Para quem sente que pode dar mais, fazer mais, ser mais, comunicar melhor aquilo que pensa, sente, faz ou quer fazer. E olhem que eu já escrevi, e ainda escrevo muitas vezes, para todos esses formatos. Ao contrário do livro anterior, o Dar a Volta ao Texto, este é mais abrangente, mais focado no ofício e menos na especificação de disciplinas concretas da escrita. Ou seja, é um livro para se dar o salto na solidez daquilo que se escreve. Acima de tudo, porque tem dicas práticas, conselhos e técnicas que a esmagadora maioria das pessoas que escreve nunca ouviu ou com os quais nunca se cruzou.



Qual foi o maior desafio de definir um plano de um ano de exercícios tão abrangente e, ao mesmo tempo, tão específico?

M.M. — O maior desafio foi pensar de forma evolutiva e contínua, sem perder de vista a ideia de ter pela frente alguém que quer seguir um caminho linear e progressivo. Tive sempre em mente um leitor particular: alguém que está a começar, que se quer dedicar, mas que vai ter de lidar com as dificuldades mundanas que todos enfrentamos. Em especial, a sempre presente e dificilmente esquecível preguiça. O “escrevo amanhã”, “não estou a sentir”, “não estou inspirada”. Aquilo que disse várias vezes e que escrevi no livro, também, é a mais pura das verdades: não prometo nada com este livro a não ser uma única coisa — quem tiver a coragem de o ler, de fazer todos os exercícios e de usar a IA para ajudar a treinar, vai melhorar de forma muito significativa a forma como escreve. Disso não tenho a mais pequena dúvida. E, claro, com isso virão muitas outras coisas. A começar pela auto-confiança. Está tudo ligado.

Como é que se explica a uma equipa de comunicação ou marketing que tem de aprender a usar o Chat GPT, em vez de se limitar a pedir textos e colá-los sem edição ou critério?

M.M. — Da forma mais simples possível. Mostrando a diferença de resultados entre as duas formas de pedir. Mostrando que será sempre preciso ter alguém que sabe o que está a fazer para que o resultado saia cada vez melhor. E, claro, que é preciso haver alguém com sentido crítico treinado e que saiba avaliar o que é “cuspido” pela máquina com o poder e a confiança para dizer: “isto está uma valente trampa”. Se pensarmos em alguém que acaba de chegar à empresa e à equipa, não podemos agarrar na pessoa, espetar-lhe um computador nas mãos e dizer-lhe: “agora trabalha”. Certo? Temos a certeza que isto vai correr mal. Então, não podemos esperar que uma máquina entenda e acerte no que queremos apenas e tão-só com um pedido do género: “Escreve-me um texto de 500 palavras sobre Marketing Direto”. É só estúpido pensar assim. É o cúmulo da preguiça. 

Na sua opinião, o que tem sido mais gritante de assistir na escrita e comunicação profissional nesta era da IA? 

M.M. — A substituição dos designers é algo que me causa calafrios diariamente. As pessoas acharem que basta pedir algo e que, do outro lado, está uma lâmpada de Aladino que tem 1000 génios lá dentro e que vai deitar cá para fora algo… genial. Depois, outra coisa que me assusta é a cópia descarada de conteúdos. A falta de autenticidade. As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça e estão a delegar tudo para a IA porque são preguiçosas e, no fundo, querem poder passar mais tempo sem fazer nada. Não as censuro, na verdade. Muitas delas trabalham em empregos que odeiam, a fazer coisas que abominam, com ordenados miseráveis e uma vontade enorme de se despedirem, mas… há contas para pagar, famílias, casas, obrigações, etc., etc., etc. que fazem com que isso não seja possível. Conheço vários casos de pessoas que já usam a versão grátis do ChatGPT como psicólogo, como amigo, como conselheiro diário de alimentação ou nutrição, como assistente pessoal, ou alguém que escreve coisas para ele ou ela enviarem à pessoa amada. 

Imagine que um CEO, sempre ocupado, lhe pedia apenas um exercício para melhorar a escrita. Qual seria e porquê?

M.M. — Fácil. Dizia-lhe apenas que fizesse um exercício diário, ao longo de 15 semanas, para o ajudar a encontrar a sua própria voz enquanto comunicador. Podia ser perfeitamente o exercício 10: Porque estou a escrever isto. A maioria das pessoas não faz a mínima ideia do porquê de ter de fazer o que faz, ou escrever o que escreve. Encontrar essa resposta traz clareza e uma noção exata da razão pela qual se vai comunicar. Ora, a partir daqui torna-se possível falar para alguém com a certeza de que temos de ser claros e explicar a quem está do lado de lá o que quer que seja que queremos que essa pessoa saiba. Uma alternativa pode ser, também, o exercício 20: Cortar as palavras que estão a mais. Por norma, pessoas que estão neste tipo de cargos tendem a ser demasiado palavrosas, e a dizer muito quando podem dizer a mesma coisa, mas em muito menos palavras. Sei-o bem porque trabalho com eles e esta é uma das grandes dificuldades destes líderes.




A escrita também é um território de liberdade e as pessoas parecem esquecer-se disso. O Martim tem alguns exercícios que nos lembram de que as regras gramaticais são importantes, mas não são leis. O medo de errar afasta muita gente da escrita? 

M.M. — Diria que é o medo de serem julgadas. O medo da opinião dos outros e não tanto o medo de errar. É o medo do que vão dizer, pensar, falar, comentar, revelar, etc. É uma sociedade tramada, esta em que vivemos. Toda a gente se compara com o vizinho do lado e isso faz com que a pressão para sermos perfeitos seja tremenda. As redes sociais prestaram-nos um péssimo serviço, nesse sentido. Ninguém quer escrever algo que incomoda, que irrita, que “ofende”, que faz pensar, que provoca. As pessoas têm medo de ter voz e de assumir essa voz.

Sempre o medo.

M.M. — As pessoas têm medo de ter opinião e de ir contra a norma e contra a corrente. E é isso, sim, que as afasta de escrever. E, claro, porque escrever dá uma trabalheira desgraçada. E depois, há também a incapacidade que a maioria das pessoas tem em aceitar que é preciso não ter medo de fazer figura de parvo quando se está a aprender alguma coisa nova. Esta semana, tropecei numa frase de Bento de Jesus Caraça que diz “… se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo”. Esta tem de ser a mentalidade de quem quer escrever. Vamos errar. Vamos falhar. Vamos achar sempre que podíamos ter feito melhor, mas o que é preciso é ter a consciência plena de que o melhor trabalho que fazemos é nunca parar e nunca desistir. Quem não desiste, não perde.

O verão é uma boa altura para começar a treinar a escrita? 

M.M. — Diria que o verão é uma excelente altura, quanto mais não seja, porque estamos mais livres, soltos, com um humor mais positivo e capazes de pensar em coisas mais agradáveis. Ao mesmo tempo, há qualquer coisa no verão, nas noites quentes, no sangue a fervilhar que nos faz ter uma maior predisposição para coisas novas, para ideias novas, para sensações novas. Por isso, e também por coincidir com o período de férias, há mais tempo livre e tempo livro (tempo para ler… livros). Pois bem, esta conjugação de fatores é uma receita muito interessante para oferecermos a nós próprios essa prenda que é a escrita. Começar a desbravar e a ver onde é que isso nos leva.

E depois?

M.M. — Depois, seguir por esses caminhos sem ficar constantemente à procura da melhor versão possível, ou a ceder ao medo. Os cemitérios estão cheios de gente que tinha muito talento, ideias incríveis, mas que nunca escreveram uma linha que fosse.  Acredito que publicar o que escrevemos é outra parte fundamental do treino. Dá-nos a capacidade de lidar com a crítica, com argumentos contrários, com visões diferentes e opostas às nossas. E também nos dá a possibilidade de conhecer os anormais que ofendem e atacam quem tem opiniões diferentes. São uma espécie curiosa e que, acredito piamente, vale a pena conhecer. 



Para terminar, diga-nos: o que o tem escrito, ultimamente?

M.M. — Tenho continuado a escrever as minhas duas primeiras ideias de romances que estão bem guardadas no meu computador. Tenho escrito para os líderes e Executivos para quem trabalho. Estamos quase a terminar o 2º livro do ano para um 2º empresário diferente, e isto é algo que me dá um prazer enorme. Tenho escrito processos da minha empresa, reflexões diárias (ou quase) no LinkedIn, escrevi as respostas a esta entrevista sem recorrer a nenhum software de gravação e transcrição (o que, em 2026, é um facto que deve ser assinalado), e tenho estado a trabalhar num livrão de ficção policial com um amigo. Escrevo todos os dias, sem exceção! E é também por isso que sou muito bom naquilo que faço. Porque me dedico, porque me sacrifico, porque me entrego, porque a missão é bem maior do que eu, do que a minha vontade, ou do que a minha limitação. É preciso não parar. É preciso nunca esquecer as palavras do Jorge Palma e incorporá-las no sangue e na alma, sabendo sempre que “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.

#Protagonistas

Martim Mariano sobre IA: "As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça"

Escrever bem exige prática, pensamento crítico e capacidade para dizer à inteligência artificial quando o resultado é “uma valente trampa”. Em Escrita 2.0, o novo livro de Martim Mariano, o autor propõe exercícios, técnicas e prompts para treinar a escrita num tempo marcado pela produção automática de texto. Em entrevista ao MOTIVO, o autor fala de disciplina, autenticidade, medo de ter voz e do risco de começarmos a delegar à IA também o trabalho de pensar.

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11 de ago. de 2026, 17:33

O Martim começa o livro por falar logo da questão da prática, com a teoria das 10 mil horas. A escrita precisa de prática. A questão é: como é que uma pessoa sem prática — e, por isso, insegura, apreensiva, resistente —, começa a praticar?

MARTIM MARIANO — Escrevendo para si. Muito. Sem o medo e o receio inerente a ter de publicar o que está a escrever. Antes de qualquer outra coisa, eu diria que é preciso dar voz aos nossos próprios pensamentos e começar a perceber como é que eles soam quando são escritos e lidos por nós. E isso, naturalmente, vai implicar uma grande dose de verdade, de honestidade e de disponibilidade da parte de quem escreve. Em especial, neste tempo particularmente nefasto e exigente para a escrita, em que as pessoas, para saltarem esta parte, vão ter com a IA e pedem-lhe que o faça por elas. 

E aí perde-se, precisamente, a tão necessária prática.

M.M. — A prática centra-se na escrita e no escrever. Como disse William Faulkner, “não sejas um escritor, escreve!”. Por isso, é preciso praticar e fazê-lo sem que ninguém veja. Pois isso liberta-nos da pressão adicional do “será que vai ficar bom?", "será que alguém vai gostar disto?”.  Eliminando essa pressão, torna-se mais fácil treinar. O livro tem esse objetivo: facilitar o treino. Eu, por exemplo, não tive livro algum que me ensinasse isto. Tive de passar anos na clandestinidade, a escrever cadernos e cadernos e cadernos de pensamentos, sentimentos, desejos, frustrações até que, de repente, comecei a sentir-me confortável a fazê-lo. 



Para quem quer escrever, mas não consegue ter 8 horas para o fazer, como o Martim, o que aconselha como primeiro passo, antes de se atirar aos exercícios que o livro sugere?

M.M. — Comece por arranjar um pedaço de tempo, todos os dias, para escrever, sem deixar que as desculpas mais típicas se intrometam entre a pessoa e o objetivo. Esse é o maior dos desafios: fazer disto uma prioridade. Se só tem 30 minutos para escrever, então bloqueiam-se esses 30 minutos e escreve-se. Sugiro uma variação da técnica do Jerry Seinfeld: bloqueiam-se esses 30 minutos para escrever. Até pode não escrever, mas não pode fazer rigorosamente mais nada nesse período. A escrita é um músculo que precisa de ser alimentado e treinado. Dia após dia, após dia. Por isso, se começamos a arranjar desculpas para não escrever, depois não podemos espantar-nos porque não conseguimos os resultados que queríamos alcançar. 

O Martim defende sempre a ideia da escrita como ofício.

M.M. — É um ofício muito punitivo e responsabilizador. Não podemos culpar alguém pelo fracasso da nossa escrita a não ser a nossa própria falta de disciplina e entrega. Depois, os exercícios são mesmo uma ótima forma de começar. Há milhares de exercícios online para se fazer, sem que isso obrigue a publicar seja o que for. O que é preciso é querer escrever e querer melhorar. Ninguém diz a um miúdo para ir jogar mais futebol. Ele vai porque é bom e porque gosta. A escrita tem de ser assim. Tem de ser alimentada pela nossa própria vontade de dizer coisas, de contar coisas, de falar sobre coisas, de pensar alto sobre o mundo. Sobre a vida. 

A verdade é que a escrita preenche um imaginário literário, mas está presente em muitas outras áreas. E não é só a escrita de e-mails ou publicações no LinkedIn. Falamos de storytellingcopywriting, jornalismo, guionismo, entre outras. Este seu livro mais recente foi pensado para todos?

M.M. — Este livro foi pensado para quem quer elevar a qualidade da sua escrita. Para quem sente que pode dar mais, fazer mais, ser mais, comunicar melhor aquilo que pensa, sente, faz ou quer fazer. E olhem que eu já escrevi, e ainda escrevo muitas vezes, para todos esses formatos. Ao contrário do livro anterior, o Dar a Volta ao Texto, este é mais abrangente, mais focado no ofício e menos na especificação de disciplinas concretas da escrita. Ou seja, é um livro para se dar o salto na solidez daquilo que se escreve. Acima de tudo, porque tem dicas práticas, conselhos e técnicas que a esmagadora maioria das pessoas que escreve nunca ouviu ou com os quais nunca se cruzou.



Qual foi o maior desafio de definir um plano de um ano de exercícios tão abrangente e, ao mesmo tempo, tão específico?

M.M. — O maior desafio foi pensar de forma evolutiva e contínua, sem perder de vista a ideia de ter pela frente alguém que quer seguir um caminho linear e progressivo. Tive sempre em mente um leitor particular: alguém que está a começar, que se quer dedicar, mas que vai ter de lidar com as dificuldades mundanas que todos enfrentamos. Em especial, a sempre presente e dificilmente esquecível preguiça. O “escrevo amanhã”, “não estou a sentir”, “não estou inspirada”. Aquilo que disse várias vezes e que escrevi no livro, também, é a mais pura das verdades: não prometo nada com este livro a não ser uma única coisa — quem tiver a coragem de o ler, de fazer todos os exercícios e de usar a IA para ajudar a treinar, vai melhorar de forma muito significativa a forma como escreve. Disso não tenho a mais pequena dúvida. E, claro, com isso virão muitas outras coisas. A começar pela auto-confiança. Está tudo ligado.

Como é que se explica a uma equipa de comunicação ou marketing que tem de aprender a usar o Chat GPT, em vez de se limitar a pedir textos e colá-los sem edição ou critério?

M.M. — Da forma mais simples possível. Mostrando a diferença de resultados entre as duas formas de pedir. Mostrando que será sempre preciso ter alguém que sabe o que está a fazer para que o resultado saia cada vez melhor. E, claro, que é preciso haver alguém com sentido crítico treinado e que saiba avaliar o que é “cuspido” pela máquina com o poder e a confiança para dizer: “isto está uma valente trampa”. Se pensarmos em alguém que acaba de chegar à empresa e à equipa, não podemos agarrar na pessoa, espetar-lhe um computador nas mãos e dizer-lhe: “agora trabalha”. Certo? Temos a certeza que isto vai correr mal. Então, não podemos esperar que uma máquina entenda e acerte no que queremos apenas e tão-só com um pedido do género: “Escreve-me um texto de 500 palavras sobre Marketing Direto”. É só estúpido pensar assim. É o cúmulo da preguiça. 

Na sua opinião, o que tem sido mais gritante de assistir na escrita e comunicação profissional nesta era da IA? 

M.M. — A substituição dos designers é algo que me causa calafrios diariamente. As pessoas acharem que basta pedir algo e que, do outro lado, está uma lâmpada de Aladino que tem 1000 génios lá dentro e que vai deitar cá para fora algo… genial. Depois, outra coisa que me assusta é a cópia descarada de conteúdos. A falta de autenticidade. As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça e estão a delegar tudo para a IA porque são preguiçosas e, no fundo, querem poder passar mais tempo sem fazer nada. Não as censuro, na verdade. Muitas delas trabalham em empregos que odeiam, a fazer coisas que abominam, com ordenados miseráveis e uma vontade enorme de se despedirem, mas… há contas para pagar, famílias, casas, obrigações, etc., etc., etc. que fazem com que isso não seja possível. Conheço vários casos de pessoas que já usam a versão grátis do ChatGPT como psicólogo, como amigo, como conselheiro diário de alimentação ou nutrição, como assistente pessoal, ou alguém que escreve coisas para ele ou ela enviarem à pessoa amada. 

Imagine que um CEO, sempre ocupado, lhe pedia apenas um exercício para melhorar a escrita. Qual seria e porquê?

M.M. — Fácil. Dizia-lhe apenas que fizesse um exercício diário, ao longo de 15 semanas, para o ajudar a encontrar a sua própria voz enquanto comunicador. Podia ser perfeitamente o exercício 10: Porque estou a escrever isto. A maioria das pessoas não faz a mínima ideia do porquê de ter de fazer o que faz, ou escrever o que escreve. Encontrar essa resposta traz clareza e uma noção exata da razão pela qual se vai comunicar. Ora, a partir daqui torna-se possível falar para alguém com a certeza de que temos de ser claros e explicar a quem está do lado de lá o que quer que seja que queremos que essa pessoa saiba. Uma alternativa pode ser, também, o exercício 20: Cortar as palavras que estão a mais. Por norma, pessoas que estão neste tipo de cargos tendem a ser demasiado palavrosas, e a dizer muito quando podem dizer a mesma coisa, mas em muito menos palavras. Sei-o bem porque trabalho com eles e esta é uma das grandes dificuldades destes líderes.




A escrita também é um território de liberdade e as pessoas parecem esquecer-se disso. O Martim tem alguns exercícios que nos lembram de que as regras gramaticais são importantes, mas não são leis. O medo de errar afasta muita gente da escrita? 

M.M. — Diria que é o medo de serem julgadas. O medo da opinião dos outros e não tanto o medo de errar. É o medo do que vão dizer, pensar, falar, comentar, revelar, etc. É uma sociedade tramada, esta em que vivemos. Toda a gente se compara com o vizinho do lado e isso faz com que a pressão para sermos perfeitos seja tremenda. As redes sociais prestaram-nos um péssimo serviço, nesse sentido. Ninguém quer escrever algo que incomoda, que irrita, que “ofende”, que faz pensar, que provoca. As pessoas têm medo de ter voz e de assumir essa voz.

Sempre o medo.

M.M. — As pessoas têm medo de ter opinião e de ir contra a norma e contra a corrente. E é isso, sim, que as afasta de escrever. E, claro, porque escrever dá uma trabalheira desgraçada. E depois, há também a incapacidade que a maioria das pessoas tem em aceitar que é preciso não ter medo de fazer figura de parvo quando se está a aprender alguma coisa nova. Esta semana, tropecei numa frase de Bento de Jesus Caraça que diz “… se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo”. Esta tem de ser a mentalidade de quem quer escrever. Vamos errar. Vamos falhar. Vamos achar sempre que podíamos ter feito melhor, mas o que é preciso é ter a consciência plena de que o melhor trabalho que fazemos é nunca parar e nunca desistir. Quem não desiste, não perde.

O verão é uma boa altura para começar a treinar a escrita? 

M.M. — Diria que o verão é uma excelente altura, quanto mais não seja, porque estamos mais livres, soltos, com um humor mais positivo e capazes de pensar em coisas mais agradáveis. Ao mesmo tempo, há qualquer coisa no verão, nas noites quentes, no sangue a fervilhar que nos faz ter uma maior predisposição para coisas novas, para ideias novas, para sensações novas. Por isso, e também por coincidir com o período de férias, há mais tempo livre e tempo livro (tempo para ler… livros). Pois bem, esta conjugação de fatores é uma receita muito interessante para oferecermos a nós próprios essa prenda que é a escrita. Começar a desbravar e a ver onde é que isso nos leva.

E depois?

M.M. — Depois, seguir por esses caminhos sem ficar constantemente à procura da melhor versão possível, ou a ceder ao medo. Os cemitérios estão cheios de gente que tinha muito talento, ideias incríveis, mas que nunca escreveram uma linha que fosse.  Acredito que publicar o que escrevemos é outra parte fundamental do treino. Dá-nos a capacidade de lidar com a crítica, com argumentos contrários, com visões diferentes e opostas às nossas. E também nos dá a possibilidade de conhecer os anormais que ofendem e atacam quem tem opiniões diferentes. São uma espécie curiosa e que, acredito piamente, vale a pena conhecer. 



Para terminar, diga-nos: o que o tem escrito, ultimamente?

M.M. — Tenho continuado a escrever as minhas duas primeiras ideias de romances que estão bem guardadas no meu computador. Tenho escrito para os líderes e Executivos para quem trabalho. Estamos quase a terminar o 2º livro do ano para um 2º empresário diferente, e isto é algo que me dá um prazer enorme. Tenho escrito processos da minha empresa, reflexões diárias (ou quase) no LinkedIn, escrevi as respostas a esta entrevista sem recorrer a nenhum software de gravação e transcrição (o que, em 2026, é um facto que deve ser assinalado), e tenho estado a trabalhar num livrão de ficção policial com um amigo. Escrevo todos os dias, sem exceção! E é também por isso que sou muito bom naquilo que faço. Porque me dedico, porque me sacrifico, porque me entrego, porque a missão é bem maior do que eu, do que a minha vontade, ou do que a minha limitação. É preciso não parar. É preciso nunca esquecer as palavras do Jorge Palma e incorporá-las no sangue e na alma, sabendo sempre que “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.

#Protagonistas

Martim Mariano sobre IA: "As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça"

Escrever bem exige prática, pensamento crítico e capacidade para dizer à inteligência artificial quando o resultado é “uma valente trampa”. Em Escrita 2.0, o novo livro de Martim Mariano, o autor propõe exercícios, técnicas e prompts para treinar a escrita num tempo marcado pela produção automática de texto. Em entrevista ao MOTIVO, o autor fala de disciplina, autenticidade, medo de ter voz e do risco de começarmos a delegar à IA também o trabalho de pensar.

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11 de ago. de 2026, 17:33

O Martim começa o livro por falar logo da questão da prática, com a teoria das 10 mil horas. A escrita precisa de prática. A questão é: como é que uma pessoa sem prática — e, por isso, insegura, apreensiva, resistente —, começa a praticar?

MARTIM MARIANO — Escrevendo para si. Muito. Sem o medo e o receio inerente a ter de publicar o que está a escrever. Antes de qualquer outra coisa, eu diria que é preciso dar voz aos nossos próprios pensamentos e começar a perceber como é que eles soam quando são escritos e lidos por nós. E isso, naturalmente, vai implicar uma grande dose de verdade, de honestidade e de disponibilidade da parte de quem escreve. Em especial, neste tempo particularmente nefasto e exigente para a escrita, em que as pessoas, para saltarem esta parte, vão ter com a IA e pedem-lhe que o faça por elas. 

E aí perde-se, precisamente, a tão necessária prática.

M.M. — A prática centra-se na escrita e no escrever. Como disse William Faulkner, “não sejas um escritor, escreve!”. Por isso, é preciso praticar e fazê-lo sem que ninguém veja. Pois isso liberta-nos da pressão adicional do “será que vai ficar bom?", "será que alguém vai gostar disto?”.  Eliminando essa pressão, torna-se mais fácil treinar. O livro tem esse objetivo: facilitar o treino. Eu, por exemplo, não tive livro algum que me ensinasse isto. Tive de passar anos na clandestinidade, a escrever cadernos e cadernos e cadernos de pensamentos, sentimentos, desejos, frustrações até que, de repente, comecei a sentir-me confortável a fazê-lo. 



Para quem quer escrever, mas não consegue ter 8 horas para o fazer, como o Martim, o que aconselha como primeiro passo, antes de se atirar aos exercícios que o livro sugere?

M.M. — Comece por arranjar um pedaço de tempo, todos os dias, para escrever, sem deixar que as desculpas mais típicas se intrometam entre a pessoa e o objetivo. Esse é o maior dos desafios: fazer disto uma prioridade. Se só tem 30 minutos para escrever, então bloqueiam-se esses 30 minutos e escreve-se. Sugiro uma variação da técnica do Jerry Seinfeld: bloqueiam-se esses 30 minutos para escrever. Até pode não escrever, mas não pode fazer rigorosamente mais nada nesse período. A escrita é um músculo que precisa de ser alimentado e treinado. Dia após dia, após dia. Por isso, se começamos a arranjar desculpas para não escrever, depois não podemos espantar-nos porque não conseguimos os resultados que queríamos alcançar. 

O Martim defende sempre a ideia da escrita como ofício.

M.M. — É um ofício muito punitivo e responsabilizador. Não podemos culpar alguém pelo fracasso da nossa escrita a não ser a nossa própria falta de disciplina e entrega. Depois, os exercícios são mesmo uma ótima forma de começar. Há milhares de exercícios online para se fazer, sem que isso obrigue a publicar seja o que for. O que é preciso é querer escrever e querer melhorar. Ninguém diz a um miúdo para ir jogar mais futebol. Ele vai porque é bom e porque gosta. A escrita tem de ser assim. Tem de ser alimentada pela nossa própria vontade de dizer coisas, de contar coisas, de falar sobre coisas, de pensar alto sobre o mundo. Sobre a vida. 

A verdade é que a escrita preenche um imaginário literário, mas está presente em muitas outras áreas. E não é só a escrita de e-mails ou publicações no LinkedIn. Falamos de storytellingcopywriting, jornalismo, guionismo, entre outras. Este seu livro mais recente foi pensado para todos?

M.M. — Este livro foi pensado para quem quer elevar a qualidade da sua escrita. Para quem sente que pode dar mais, fazer mais, ser mais, comunicar melhor aquilo que pensa, sente, faz ou quer fazer. E olhem que eu já escrevi, e ainda escrevo muitas vezes, para todos esses formatos. Ao contrário do livro anterior, o Dar a Volta ao Texto, este é mais abrangente, mais focado no ofício e menos na especificação de disciplinas concretas da escrita. Ou seja, é um livro para se dar o salto na solidez daquilo que se escreve. Acima de tudo, porque tem dicas práticas, conselhos e técnicas que a esmagadora maioria das pessoas que escreve nunca ouviu ou com os quais nunca se cruzou.



Qual foi o maior desafio de definir um plano de um ano de exercícios tão abrangente e, ao mesmo tempo, tão específico?

M.M. — O maior desafio foi pensar de forma evolutiva e contínua, sem perder de vista a ideia de ter pela frente alguém que quer seguir um caminho linear e progressivo. Tive sempre em mente um leitor particular: alguém que está a começar, que se quer dedicar, mas que vai ter de lidar com as dificuldades mundanas que todos enfrentamos. Em especial, a sempre presente e dificilmente esquecível preguiça. O “escrevo amanhã”, “não estou a sentir”, “não estou inspirada”. Aquilo que disse várias vezes e que escrevi no livro, também, é a mais pura das verdades: não prometo nada com este livro a não ser uma única coisa — quem tiver a coragem de o ler, de fazer todos os exercícios e de usar a IA para ajudar a treinar, vai melhorar de forma muito significativa a forma como escreve. Disso não tenho a mais pequena dúvida. E, claro, com isso virão muitas outras coisas. A começar pela auto-confiança. Está tudo ligado.

Como é que se explica a uma equipa de comunicação ou marketing que tem de aprender a usar o Chat GPT, em vez de se limitar a pedir textos e colá-los sem edição ou critério?

M.M. — Da forma mais simples possível. Mostrando a diferença de resultados entre as duas formas de pedir. Mostrando que será sempre preciso ter alguém que sabe o que está a fazer para que o resultado saia cada vez melhor. E, claro, que é preciso haver alguém com sentido crítico treinado e que saiba avaliar o que é “cuspido” pela máquina com o poder e a confiança para dizer: “isto está uma valente trampa”. Se pensarmos em alguém que acaba de chegar à empresa e à equipa, não podemos agarrar na pessoa, espetar-lhe um computador nas mãos e dizer-lhe: “agora trabalha”. Certo? Temos a certeza que isto vai correr mal. Então, não podemos esperar que uma máquina entenda e acerte no que queremos apenas e tão-só com um pedido do género: “Escreve-me um texto de 500 palavras sobre Marketing Direto”. É só estúpido pensar assim. É o cúmulo da preguiça. 

Na sua opinião, o que tem sido mais gritante de assistir na escrita e comunicação profissional nesta era da IA? 

M.M. — A substituição dos designers é algo que me causa calafrios diariamente. As pessoas acharem que basta pedir algo e que, do outro lado, está uma lâmpada de Aladino que tem 1000 génios lá dentro e que vai deitar cá para fora algo… genial. Depois, outra coisa que me assusta é a cópia descarada de conteúdos. A falta de autenticidade. As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça e estão a delegar tudo para a IA porque são preguiçosas e, no fundo, querem poder passar mais tempo sem fazer nada. Não as censuro, na verdade. Muitas delas trabalham em empregos que odeiam, a fazer coisas que abominam, com ordenados miseráveis e uma vontade enorme de se despedirem, mas… há contas para pagar, famílias, casas, obrigações, etc., etc., etc. que fazem com que isso não seja possível. Conheço vários casos de pessoas que já usam a versão grátis do ChatGPT como psicólogo, como amigo, como conselheiro diário de alimentação ou nutrição, como assistente pessoal, ou alguém que escreve coisas para ele ou ela enviarem à pessoa amada. 

Imagine que um CEO, sempre ocupado, lhe pedia apenas um exercício para melhorar a escrita. Qual seria e porquê?

M.M. — Fácil. Dizia-lhe apenas que fizesse um exercício diário, ao longo de 15 semanas, para o ajudar a encontrar a sua própria voz enquanto comunicador. Podia ser perfeitamente o exercício 10: Porque estou a escrever isto. A maioria das pessoas não faz a mínima ideia do porquê de ter de fazer o que faz, ou escrever o que escreve. Encontrar essa resposta traz clareza e uma noção exata da razão pela qual se vai comunicar. Ora, a partir daqui torna-se possível falar para alguém com a certeza de que temos de ser claros e explicar a quem está do lado de lá o que quer que seja que queremos que essa pessoa saiba. Uma alternativa pode ser, também, o exercício 20: Cortar as palavras que estão a mais. Por norma, pessoas que estão neste tipo de cargos tendem a ser demasiado palavrosas, e a dizer muito quando podem dizer a mesma coisa, mas em muito menos palavras. Sei-o bem porque trabalho com eles e esta é uma das grandes dificuldades destes líderes.




A escrita também é um território de liberdade e as pessoas parecem esquecer-se disso. O Martim tem alguns exercícios que nos lembram de que as regras gramaticais são importantes, mas não são leis. O medo de errar afasta muita gente da escrita? 

M.M. — Diria que é o medo de serem julgadas. O medo da opinião dos outros e não tanto o medo de errar. É o medo do que vão dizer, pensar, falar, comentar, revelar, etc. É uma sociedade tramada, esta em que vivemos. Toda a gente se compara com o vizinho do lado e isso faz com que a pressão para sermos perfeitos seja tremenda. As redes sociais prestaram-nos um péssimo serviço, nesse sentido. Ninguém quer escrever algo que incomoda, que irrita, que “ofende”, que faz pensar, que provoca. As pessoas têm medo de ter voz e de assumir essa voz.

Sempre o medo.

M.M. — As pessoas têm medo de ter opinião e de ir contra a norma e contra a corrente. E é isso, sim, que as afasta de escrever. E, claro, porque escrever dá uma trabalheira desgraçada. E depois, há também a incapacidade que a maioria das pessoas tem em aceitar que é preciso não ter medo de fazer figura de parvo quando se está a aprender alguma coisa nova. Esta semana, tropecei numa frase de Bento de Jesus Caraça que diz “… se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo”. Esta tem de ser a mentalidade de quem quer escrever. Vamos errar. Vamos falhar. Vamos achar sempre que podíamos ter feito melhor, mas o que é preciso é ter a consciência plena de que o melhor trabalho que fazemos é nunca parar e nunca desistir. Quem não desiste, não perde.

O verão é uma boa altura para começar a treinar a escrita? 

M.M. — Diria que o verão é uma excelente altura, quanto mais não seja, porque estamos mais livres, soltos, com um humor mais positivo e capazes de pensar em coisas mais agradáveis. Ao mesmo tempo, há qualquer coisa no verão, nas noites quentes, no sangue a fervilhar que nos faz ter uma maior predisposição para coisas novas, para ideias novas, para sensações novas. Por isso, e também por coincidir com o período de férias, há mais tempo livre e tempo livro (tempo para ler… livros). Pois bem, esta conjugação de fatores é uma receita muito interessante para oferecermos a nós próprios essa prenda que é a escrita. Começar a desbravar e a ver onde é que isso nos leva.

E depois?

M.M. — Depois, seguir por esses caminhos sem ficar constantemente à procura da melhor versão possível, ou a ceder ao medo. Os cemitérios estão cheios de gente que tinha muito talento, ideias incríveis, mas que nunca escreveram uma linha que fosse.  Acredito que publicar o que escrevemos é outra parte fundamental do treino. Dá-nos a capacidade de lidar com a crítica, com argumentos contrários, com visões diferentes e opostas às nossas. E também nos dá a possibilidade de conhecer os anormais que ofendem e atacam quem tem opiniões diferentes. São uma espécie curiosa e que, acredito piamente, vale a pena conhecer. 



Para terminar, diga-nos: o que o tem escrito, ultimamente?

M.M. — Tenho continuado a escrever as minhas duas primeiras ideias de romances que estão bem guardadas no meu computador. Tenho escrito para os líderes e Executivos para quem trabalho. Estamos quase a terminar o 2º livro do ano para um 2º empresário diferente, e isto é algo que me dá um prazer enorme. Tenho escrito processos da minha empresa, reflexões diárias (ou quase) no LinkedIn, escrevi as respostas a esta entrevista sem recorrer a nenhum software de gravação e transcrição (o que, em 2026, é um facto que deve ser assinalado), e tenho estado a trabalhar num livrão de ficção policial com um amigo. Escrevo todos os dias, sem exceção! E é também por isso que sou muito bom naquilo que faço. Porque me dedico, porque me sacrifico, porque me entrego, porque a missão é bem maior do que eu, do que a minha vontade, ou do que a minha limitação. É preciso não parar. É preciso nunca esquecer as palavras do Jorge Palma e incorporá-las no sangue e na alma, sabendo sempre que “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.

#Protagonistas

Martim Mariano sobre IA: "As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça"

Escrever bem exige prática, pensamento crítico e capacidade para dizer à inteligência artificial quando o resultado é “uma valente trampa”. Em Escrita 2.0, o novo livro de Martim Mariano, o autor propõe exercícios, técnicas e prompts para treinar a escrita num tempo marcado pela produção automática de texto. Em entrevista ao MOTIVO, o autor fala de disciplina, autenticidade, medo de ter voz e do risco de começarmos a delegar à IA também o trabalho de pensar.

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11 de ago. de 2026, 17:33

O Martim começa o livro por falar logo da questão da prática, com a teoria das 10 mil horas. A escrita precisa de prática. A questão é: como é que uma pessoa sem prática — e, por isso, insegura, apreensiva, resistente —, começa a praticar?

MARTIM MARIANO — Escrevendo para si. Muito. Sem o medo e o receio inerente a ter de publicar o que está a escrever. Antes de qualquer outra coisa, eu diria que é preciso dar voz aos nossos próprios pensamentos e começar a perceber como é que eles soam quando são escritos e lidos por nós. E isso, naturalmente, vai implicar uma grande dose de verdade, de honestidade e de disponibilidade da parte de quem escreve. Em especial, neste tempo particularmente nefasto e exigente para a escrita, em que as pessoas, para saltarem esta parte, vão ter com a IA e pedem-lhe que o faça por elas. 

E aí perde-se, precisamente, a tão necessária prática.

M.M. — A prática centra-se na escrita e no escrever. Como disse William Faulkner, “não sejas um escritor, escreve!”. Por isso, é preciso praticar e fazê-lo sem que ninguém veja. Pois isso liberta-nos da pressão adicional do “será que vai ficar bom?", "será que alguém vai gostar disto?”.  Eliminando essa pressão, torna-se mais fácil treinar. O livro tem esse objetivo: facilitar o treino. Eu, por exemplo, não tive livro algum que me ensinasse isto. Tive de passar anos na clandestinidade, a escrever cadernos e cadernos e cadernos de pensamentos, sentimentos, desejos, frustrações até que, de repente, comecei a sentir-me confortável a fazê-lo. 



Para quem quer escrever, mas não consegue ter 8 horas para o fazer, como o Martim, o que aconselha como primeiro passo, antes de se atirar aos exercícios que o livro sugere?

M.M. — Comece por arranjar um pedaço de tempo, todos os dias, para escrever, sem deixar que as desculpas mais típicas se intrometam entre a pessoa e o objetivo. Esse é o maior dos desafios: fazer disto uma prioridade. Se só tem 30 minutos para escrever, então bloqueiam-se esses 30 minutos e escreve-se. Sugiro uma variação da técnica do Jerry Seinfeld: bloqueiam-se esses 30 minutos para escrever. Até pode não escrever, mas não pode fazer rigorosamente mais nada nesse período. A escrita é um músculo que precisa de ser alimentado e treinado. Dia após dia, após dia. Por isso, se começamos a arranjar desculpas para não escrever, depois não podemos espantar-nos porque não conseguimos os resultados que queríamos alcançar. 

O Martim defende sempre a ideia da escrita como ofício.

M.M. — É um ofício muito punitivo e responsabilizador. Não podemos culpar alguém pelo fracasso da nossa escrita a não ser a nossa própria falta de disciplina e entrega. Depois, os exercícios são mesmo uma ótima forma de começar. Há milhares de exercícios online para se fazer, sem que isso obrigue a publicar seja o que for. O que é preciso é querer escrever e querer melhorar. Ninguém diz a um miúdo para ir jogar mais futebol. Ele vai porque é bom e porque gosta. A escrita tem de ser assim. Tem de ser alimentada pela nossa própria vontade de dizer coisas, de contar coisas, de falar sobre coisas, de pensar alto sobre o mundo. Sobre a vida. 

A verdade é que a escrita preenche um imaginário literário, mas está presente em muitas outras áreas. E não é só a escrita de e-mails ou publicações no LinkedIn. Falamos de storytellingcopywriting, jornalismo, guionismo, entre outras. Este seu livro mais recente foi pensado para todos?

M.M. — Este livro foi pensado para quem quer elevar a qualidade da sua escrita. Para quem sente que pode dar mais, fazer mais, ser mais, comunicar melhor aquilo que pensa, sente, faz ou quer fazer. E olhem que eu já escrevi, e ainda escrevo muitas vezes, para todos esses formatos. Ao contrário do livro anterior, o Dar a Volta ao Texto, este é mais abrangente, mais focado no ofício e menos na especificação de disciplinas concretas da escrita. Ou seja, é um livro para se dar o salto na solidez daquilo que se escreve. Acima de tudo, porque tem dicas práticas, conselhos e técnicas que a esmagadora maioria das pessoas que escreve nunca ouviu ou com os quais nunca se cruzou.



Qual foi o maior desafio de definir um plano de um ano de exercícios tão abrangente e, ao mesmo tempo, tão específico?

M.M. — O maior desafio foi pensar de forma evolutiva e contínua, sem perder de vista a ideia de ter pela frente alguém que quer seguir um caminho linear e progressivo. Tive sempre em mente um leitor particular: alguém que está a começar, que se quer dedicar, mas que vai ter de lidar com as dificuldades mundanas que todos enfrentamos. Em especial, a sempre presente e dificilmente esquecível preguiça. O “escrevo amanhã”, “não estou a sentir”, “não estou inspirada”. Aquilo que disse várias vezes e que escrevi no livro, também, é a mais pura das verdades: não prometo nada com este livro a não ser uma única coisa — quem tiver a coragem de o ler, de fazer todos os exercícios e de usar a IA para ajudar a treinar, vai melhorar de forma muito significativa a forma como escreve. Disso não tenho a mais pequena dúvida. E, claro, com isso virão muitas outras coisas. A começar pela auto-confiança. Está tudo ligado.

Como é que se explica a uma equipa de comunicação ou marketing que tem de aprender a usar o Chat GPT, em vez de se limitar a pedir textos e colá-los sem edição ou critério?

M.M. — Da forma mais simples possível. Mostrando a diferença de resultados entre as duas formas de pedir. Mostrando que será sempre preciso ter alguém que sabe o que está a fazer para que o resultado saia cada vez melhor. E, claro, que é preciso haver alguém com sentido crítico treinado e que saiba avaliar o que é “cuspido” pela máquina com o poder e a confiança para dizer: “isto está uma valente trampa”. Se pensarmos em alguém que acaba de chegar à empresa e à equipa, não podemos agarrar na pessoa, espetar-lhe um computador nas mãos e dizer-lhe: “agora trabalha”. Certo? Temos a certeza que isto vai correr mal. Então, não podemos esperar que uma máquina entenda e acerte no que queremos apenas e tão-só com um pedido do género: “Escreve-me um texto de 500 palavras sobre Marketing Direto”. É só estúpido pensar assim. É o cúmulo da preguiça. 

Na sua opinião, o que tem sido mais gritante de assistir na escrita e comunicação profissional nesta era da IA? 

M.M. — A substituição dos designers é algo que me causa calafrios diariamente. As pessoas acharem que basta pedir algo e que, do outro lado, está uma lâmpada de Aladino que tem 1000 génios lá dentro e que vai deitar cá para fora algo… genial. Depois, outra coisa que me assusta é a cópia descarada de conteúdos. A falta de autenticidade. As pessoas estão a deixar de pensar pela própria cabeça e estão a delegar tudo para a IA porque são preguiçosas e, no fundo, querem poder passar mais tempo sem fazer nada. Não as censuro, na verdade. Muitas delas trabalham em empregos que odeiam, a fazer coisas que abominam, com ordenados miseráveis e uma vontade enorme de se despedirem, mas… há contas para pagar, famílias, casas, obrigações, etc., etc., etc. que fazem com que isso não seja possível. Conheço vários casos de pessoas que já usam a versão grátis do ChatGPT como psicólogo, como amigo, como conselheiro diário de alimentação ou nutrição, como assistente pessoal, ou alguém que escreve coisas para ele ou ela enviarem à pessoa amada. 

Imagine que um CEO, sempre ocupado, lhe pedia apenas um exercício para melhorar a escrita. Qual seria e porquê?

M.M. — Fácil. Dizia-lhe apenas que fizesse um exercício diário, ao longo de 15 semanas, para o ajudar a encontrar a sua própria voz enquanto comunicador. Podia ser perfeitamente o exercício 10: Porque estou a escrever isto. A maioria das pessoas não faz a mínima ideia do porquê de ter de fazer o que faz, ou escrever o que escreve. Encontrar essa resposta traz clareza e uma noção exata da razão pela qual se vai comunicar. Ora, a partir daqui torna-se possível falar para alguém com a certeza de que temos de ser claros e explicar a quem está do lado de lá o que quer que seja que queremos que essa pessoa saiba. Uma alternativa pode ser, também, o exercício 20: Cortar as palavras que estão a mais. Por norma, pessoas que estão neste tipo de cargos tendem a ser demasiado palavrosas, e a dizer muito quando podem dizer a mesma coisa, mas em muito menos palavras. Sei-o bem porque trabalho com eles e esta é uma das grandes dificuldades destes líderes.




A escrita também é um território de liberdade e as pessoas parecem esquecer-se disso. O Martim tem alguns exercícios que nos lembram de que as regras gramaticais são importantes, mas não são leis. O medo de errar afasta muita gente da escrita? 

M.M. — Diria que é o medo de serem julgadas. O medo da opinião dos outros e não tanto o medo de errar. É o medo do que vão dizer, pensar, falar, comentar, revelar, etc. É uma sociedade tramada, esta em que vivemos. Toda a gente se compara com o vizinho do lado e isso faz com que a pressão para sermos perfeitos seja tremenda. As redes sociais prestaram-nos um péssimo serviço, nesse sentido. Ninguém quer escrever algo que incomoda, que irrita, que “ofende”, que faz pensar, que provoca. As pessoas têm medo de ter voz e de assumir essa voz.

Sempre o medo.

M.M. — As pessoas têm medo de ter opinião e de ir contra a norma e contra a corrente. E é isso, sim, que as afasta de escrever. E, claro, porque escrever dá uma trabalheira desgraçada. E depois, há também a incapacidade que a maioria das pessoas tem em aceitar que é preciso não ter medo de fazer figura de parvo quando se está a aprender alguma coisa nova. Esta semana, tropecei numa frase de Bento de Jesus Caraça que diz “… se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo”. Esta tem de ser a mentalidade de quem quer escrever. Vamos errar. Vamos falhar. Vamos achar sempre que podíamos ter feito melhor, mas o que é preciso é ter a consciência plena de que o melhor trabalho que fazemos é nunca parar e nunca desistir. Quem não desiste, não perde.

O verão é uma boa altura para começar a treinar a escrita? 

M.M. — Diria que o verão é uma excelente altura, quanto mais não seja, porque estamos mais livres, soltos, com um humor mais positivo e capazes de pensar em coisas mais agradáveis. Ao mesmo tempo, há qualquer coisa no verão, nas noites quentes, no sangue a fervilhar que nos faz ter uma maior predisposição para coisas novas, para ideias novas, para sensações novas. Por isso, e também por coincidir com o período de férias, há mais tempo livre e tempo livro (tempo para ler… livros). Pois bem, esta conjugação de fatores é uma receita muito interessante para oferecermos a nós próprios essa prenda que é a escrita. Começar a desbravar e a ver onde é que isso nos leva.

E depois?

M.M. — Depois, seguir por esses caminhos sem ficar constantemente à procura da melhor versão possível, ou a ceder ao medo. Os cemitérios estão cheios de gente que tinha muito talento, ideias incríveis, mas que nunca escreveram uma linha que fosse.  Acredito que publicar o que escrevemos é outra parte fundamental do treino. Dá-nos a capacidade de lidar com a crítica, com argumentos contrários, com visões diferentes e opostas às nossas. E também nos dá a possibilidade de conhecer os anormais que ofendem e atacam quem tem opiniões diferentes. São uma espécie curiosa e que, acredito piamente, vale a pena conhecer. 



Para terminar, diga-nos: o que o tem escrito, ultimamente?

M.M. — Tenho continuado a escrever as minhas duas primeiras ideias de romances que estão bem guardadas no meu computador. Tenho escrito para os líderes e Executivos para quem trabalho. Estamos quase a terminar o 2º livro do ano para um 2º empresário diferente, e isto é algo que me dá um prazer enorme. Tenho escrito processos da minha empresa, reflexões diárias (ou quase) no LinkedIn, escrevi as respostas a esta entrevista sem recorrer a nenhum software de gravação e transcrição (o que, em 2026, é um facto que deve ser assinalado), e tenho estado a trabalhar num livrão de ficção policial com um amigo. Escrevo todos os dias, sem exceção! E é também por isso que sou muito bom naquilo que faço. Porque me dedico, porque me sacrifico, porque me entrego, porque a missão é bem maior do que eu, do que a minha vontade, ou do que a minha limitação. É preciso não parar. É preciso nunca esquecer as palavras do Jorge Palma e incorporá-las no sangue e na alma, sabendo sempre que “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.

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