Improvisação permanente

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Autora e consultora de D&I para a deficiência

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10 de ago. de 2026, 19:11

#Protagonistas
Opinião

Há quem já tenha sido confrontado com o estereótipo de que uma pessoa que improvisa é alguém descontraído, espontâneo ou pouco organizado, para não assinalar conotações piores. Em contexto de trabalho, eu, que sempre me recusei a ter um guião escrito e decorado quando falo em público, o que faz com que todas as minhas palestras sejam únicas, já cheguei a pensar que o melhor era passar a fazer de conta que o improviso estava fora do meu cardápio. Isto porque os clientes precisam da segurança do planeamento ao milímetro, como garantia de sucesso. Tive essa prova dos nove aquando da véspera de abrir um importante congresso de tecnologia, que ia acontecer no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. A produção ficou incrédula (e aflita) por eu não querer ensaiar a minha apresentação. Podia ter dado a volta à questão, mas tive a infeliz ideia de ser honesta e afirmar que ainda não tinha nada preparado, pois ainda faltava muito… Ninguém se riu, só eu, ainda hoje, quando me lembro dos nervos que causei por nem ter um powepointzinho para testar na multimédia.

Podia ter passado por prepotente, ser acusada de excesso de auto-confiança,  preguiça ou alienação da responsabilidade que me estava a ser confiada, mas, naquela altura, não contra-argumentei nem fui além da promessa do “vai correr tudo bem”. E correu! Não tive sorte nem acredito que foi consequência da minha inteligência. É, sim, experiência, isto de, no meu estado natural, tratar o improviso por tu. Afinal, para quem vive com deficiência, improvisar na maior parte do tempo não significa não ter planeado. Significa ter planeado muito e, ainda assim, estar preparado para que o plano falhe.


Se improvisar é fazer no momento aquilo que não estava previsto, na minha realidade, improvisar começa onde termina o planeamento.


Quando chega o verão, esta realidade é sublinhada com marcador fluorescente. A evidência é que, para mim, sair de casa envolve uma quantidade enorme de antecipação: acessibilidade do espaço para onde vou, transporte, estacionamento, horários, temperatura, disponibilidade de equipamento balneário acessível, casa de banho adaptada, assistência necessária complementar, ter possibilidade de uma alternativa, etc. Agora, imaginem depois de tudo isto preparado… basta uma variável mudar: o transporte não aparece, o elevador avaria, o restaurante afinal não tem acesso, a rampa está bloqueada, o lugar reservado de estacionamento está ocupado, alguém diz: “não há problema”, sem perceber qual é o problema, outro alguém diz: “eu dou uma ajudinha”, sem fazer ideia de que uma cadeira de rodas eléctrica é um peso bruto, uma condição meteorológica altera completamente aquilo que estava previsto e não dá para dar uma “corridinha” até ao carro.

Se calhar não é preciso aprender a improvisar. É preciso aprender a não ficar frustrado quando somos obrigados a improvisar. Porque a condição da deficiência pode exigir uma espécie de improvisação permanente, ela não é uma opção. É sobrevivência logística. E isso, consecutivamente, pode tornar-se cansativo do ponto de vista mental. 

Improvisar no verão não é melhor, nem pior, do que improvisar no inverno. Mas, por culpa da expectativa cultural da espontaneidade, nesta época do ano, e do tempo livre para desenvolver uma vida social mais intensa, a dimensão do verão pode ser um acelerador do problema. Para algumas pessoas, usar as expressões “vamos”, “depois vemos”, “logo se vê quando lá chegarmos”, “sei lá, logo se arranja”, “vamos à praia e depois decidimos o resto”, “tem uma esplanada, não é preciso mais nada!”, é viver a liberdade que o verão traduz. Para mim, como a regra é deparar-me com surpresas desagradáveis, o meu improviso tem de ter uma reunião de produção antes.


Contudo, o meu equilíbrio está em existir entre a leveza, que quero exercitar nesta altura do ano, e a improvisação permanente.


Chegada esta estação do ano, a forma como encaro a minha preparação mental, enquanto competência, é a seguinte: planear tem de significar deixar de controlar, para passar a ser preparar-me para ser capaz de não controlar. Aplicar isto, também, na vida profissional é um antídoto contra a frustração, ela não é o fim da história, apenas faz parte do custo do improviso. Aceitar tudo não significa não nos importarmos. Às vezes, a maior preparação não é ter um plano B. É ter a cabeça limpa e entusiasmada para construir um plano C quando o B também falha.



Outras crónicas de Mafalda Ribeiro no MOTIVO:

Improvisação permanente

Autora e consultora de D&I para a deficiência

10 de ago. de 2026, 19:11

#Protagonistas

Opinião

Há quem já tenha sido confrontado com o estereótipo de que uma pessoa que improvisa é alguém descontraído, espontâneo ou pouco organizado, para não assinalar conotações piores. Em contexto de trabalho, eu, que sempre me recusei a ter um guião escrito e decorado quando falo em público, o que faz com que todas as minhas palestras sejam únicas, já cheguei a pensar que o melhor era passar a fazer de conta que o improviso estava fora do meu cardápio. Isto porque os clientes precisam da segurança do planeamento ao milímetro, como garantia de sucesso. Tive essa prova dos nove aquando da véspera de abrir um importante congresso de tecnologia, que ia acontecer no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. A produção ficou incrédula (e aflita) por eu não querer ensaiar a minha apresentação. Podia ter dado a volta à questão, mas tive a infeliz ideia de ser honesta e afirmar que ainda não tinha nada preparado, pois ainda faltava muito… Ninguém se riu, só eu, ainda hoje, quando me lembro dos nervos que causei por nem ter um powepointzinho para testar na multimédia.

Podia ter passado por prepotente, ser acusada de excesso de auto-confiança,  preguiça ou alienação da responsabilidade que me estava a ser confiada, mas, naquela altura, não contra-argumentei nem fui além da promessa do “vai correr tudo bem”. E correu! Não tive sorte nem acredito que foi consequência da minha inteligência. É, sim, experiência, isto de, no meu estado natural, tratar o improviso por tu. Afinal, para quem vive com deficiência, improvisar na maior parte do tempo não significa não ter planeado. Significa ter planeado muito e, ainda assim, estar preparado para que o plano falhe.


Se improvisar é fazer no momento aquilo que não estava previsto, na minha realidade, improvisar começa onde termina o planeamento.


Quando chega o verão, esta realidade é sublinhada com marcador fluorescente. A evidência é que, para mim, sair de casa envolve uma quantidade enorme de antecipação: acessibilidade do espaço para onde vou, transporte, estacionamento, horários, temperatura, disponibilidade de equipamento balneário acessível, casa de banho adaptada, assistência necessária complementar, ter possibilidade de uma alternativa, etc. Agora, imaginem depois de tudo isto preparado… basta uma variável mudar: o transporte não aparece, o elevador avaria, o restaurante afinal não tem acesso, a rampa está bloqueada, o lugar reservado de estacionamento está ocupado, alguém diz: “não há problema”, sem perceber qual é o problema, outro alguém diz: “eu dou uma ajudinha”, sem fazer ideia de que uma cadeira de rodas eléctrica é um peso bruto, uma condição meteorológica altera completamente aquilo que estava previsto e não dá para dar uma “corridinha” até ao carro.

Se calhar não é preciso aprender a improvisar. É preciso aprender a não ficar frustrado quando somos obrigados a improvisar. Porque a condição da deficiência pode exigir uma espécie de improvisação permanente, ela não é uma opção. É sobrevivência logística. E isso, consecutivamente, pode tornar-se cansativo do ponto de vista mental. 

Improvisar no verão não é melhor, nem pior, do que improvisar no inverno. Mas, por culpa da expectativa cultural da espontaneidade, nesta época do ano, e do tempo livre para desenvolver uma vida social mais intensa, a dimensão do verão pode ser um acelerador do problema. Para algumas pessoas, usar as expressões “vamos”, “depois vemos”, “logo se vê quando lá chegarmos”, “sei lá, logo se arranja”, “vamos à praia e depois decidimos o resto”, “tem uma esplanada, não é preciso mais nada!”, é viver a liberdade que o verão traduz. Para mim, como a regra é deparar-me com surpresas desagradáveis, o meu improviso tem de ter uma reunião de produção antes.


Contudo, o meu equilíbrio está em existir entre a leveza, que quero exercitar nesta altura do ano, e a improvisação permanente.


Chegada esta estação do ano, a forma como encaro a minha preparação mental, enquanto competência, é a seguinte: planear tem de significar deixar de controlar, para passar a ser preparar-me para ser capaz de não controlar. Aplicar isto, também, na vida profissional é um antídoto contra a frustração, ela não é o fim da história, apenas faz parte do custo do improviso. Aceitar tudo não significa não nos importarmos. Às vezes, a maior preparação não é ter um plano B. É ter a cabeça limpa e entusiasmada para construir um plano C quando o B também falha.



Outras crónicas de Mafalda Ribeiro no MOTIVO:

Improvisação permanente

Autora e consultora de D&I para a deficiência

10 de ago. de 2026, 19:11

#Protagonistas

Opinião

Há quem já tenha sido confrontado com o estereótipo de que uma pessoa que improvisa é alguém descontraído, espontâneo ou pouco organizado, para não assinalar conotações piores. Em contexto de trabalho, eu, que sempre me recusei a ter um guião escrito e decorado quando falo em público, o que faz com que todas as minhas palestras sejam únicas, já cheguei a pensar que o melhor era passar a fazer de conta que o improviso estava fora do meu cardápio. Isto porque os clientes precisam da segurança do planeamento ao milímetro, como garantia de sucesso. Tive essa prova dos nove aquando da véspera de abrir um importante congresso de tecnologia, que ia acontecer no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. A produção ficou incrédula (e aflita) por eu não querer ensaiar a minha apresentação. Podia ter dado a volta à questão, mas tive a infeliz ideia de ser honesta e afirmar que ainda não tinha nada preparado, pois ainda faltava muito… Ninguém se riu, só eu, ainda hoje, quando me lembro dos nervos que causei por nem ter um powepointzinho para testar na multimédia.

Podia ter passado por prepotente, ser acusada de excesso de auto-confiança,  preguiça ou alienação da responsabilidade que me estava a ser confiada, mas, naquela altura, não contra-argumentei nem fui além da promessa do “vai correr tudo bem”. E correu! Não tive sorte nem acredito que foi consequência da minha inteligência. É, sim, experiência, isto de, no meu estado natural, tratar o improviso por tu. Afinal, para quem vive com deficiência, improvisar na maior parte do tempo não significa não ter planeado. Significa ter planeado muito e, ainda assim, estar preparado para que o plano falhe.


Se improvisar é fazer no momento aquilo que não estava previsto, na minha realidade, improvisar começa onde termina o planeamento.


Quando chega o verão, esta realidade é sublinhada com marcador fluorescente. A evidência é que, para mim, sair de casa envolve uma quantidade enorme de antecipação: acessibilidade do espaço para onde vou, transporte, estacionamento, horários, temperatura, disponibilidade de equipamento balneário acessível, casa de banho adaptada, assistência necessária complementar, ter possibilidade de uma alternativa, etc. Agora, imaginem depois de tudo isto preparado… basta uma variável mudar: o transporte não aparece, o elevador avaria, o restaurante afinal não tem acesso, a rampa está bloqueada, o lugar reservado de estacionamento está ocupado, alguém diz: “não há problema”, sem perceber qual é o problema, outro alguém diz: “eu dou uma ajudinha”, sem fazer ideia de que uma cadeira de rodas eléctrica é um peso bruto, uma condição meteorológica altera completamente aquilo que estava previsto e não dá para dar uma “corridinha” até ao carro.

Se calhar não é preciso aprender a improvisar. É preciso aprender a não ficar frustrado quando somos obrigados a improvisar. Porque a condição da deficiência pode exigir uma espécie de improvisação permanente, ela não é uma opção. É sobrevivência logística. E isso, consecutivamente, pode tornar-se cansativo do ponto de vista mental. 

Improvisar no verão não é melhor, nem pior, do que improvisar no inverno. Mas, por culpa da expectativa cultural da espontaneidade, nesta época do ano, e do tempo livre para desenvolver uma vida social mais intensa, a dimensão do verão pode ser um acelerador do problema. Para algumas pessoas, usar as expressões “vamos”, “depois vemos”, “logo se vê quando lá chegarmos”, “sei lá, logo se arranja”, “vamos à praia e depois decidimos o resto”, “tem uma esplanada, não é preciso mais nada!”, é viver a liberdade que o verão traduz. Para mim, como a regra é deparar-me com surpresas desagradáveis, o meu improviso tem de ter uma reunião de produção antes.


Contudo, o meu equilíbrio está em existir entre a leveza, que quero exercitar nesta altura do ano, e a improvisação permanente.


Chegada esta estação do ano, a forma como encaro a minha preparação mental, enquanto competência, é a seguinte: planear tem de significar deixar de controlar, para passar a ser preparar-me para ser capaz de não controlar. Aplicar isto, também, na vida profissional é um antídoto contra a frustração, ela não é o fim da história, apenas faz parte do custo do improviso. Aceitar tudo não significa não nos importarmos. Às vezes, a maior preparação não é ter um plano B. É ter a cabeça limpa e entusiasmada para construir um plano C quando o B também falha.



Outras crónicas de Mafalda Ribeiro no MOTIVO:

Improvisação permanente

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Autora e consultora de D&I para a deficiência

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10 de ago. de 2026, 19:11

#Protagonistas

Opinião

Há quem já tenha sido confrontado com o estereótipo de que uma pessoa que improvisa é alguém descontraído, espontâneo ou pouco organizado, para não assinalar conotações piores. Em contexto de trabalho, eu, que sempre me recusei a ter um guião escrito e decorado quando falo em público, o que faz com que todas as minhas palestras sejam únicas, já cheguei a pensar que o melhor era passar a fazer de conta que o improviso estava fora do meu cardápio. Isto porque os clientes precisam da segurança do planeamento ao milímetro, como garantia de sucesso. Tive essa prova dos nove aquando da véspera de abrir um importante congresso de tecnologia, que ia acontecer no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. A produção ficou incrédula (e aflita) por eu não querer ensaiar a minha apresentação. Podia ter dado a volta à questão, mas tive a infeliz ideia de ser honesta e afirmar que ainda não tinha nada preparado, pois ainda faltava muito… Ninguém se riu, só eu, ainda hoje, quando me lembro dos nervos que causei por nem ter um powepointzinho para testar na multimédia.

Podia ter passado por prepotente, ser acusada de excesso de auto-confiança,  preguiça ou alienação da responsabilidade que me estava a ser confiada, mas, naquela altura, não contra-argumentei nem fui além da promessa do “vai correr tudo bem”. E correu! Não tive sorte nem acredito que foi consequência da minha inteligência. É, sim, experiência, isto de, no meu estado natural, tratar o improviso por tu. Afinal, para quem vive com deficiência, improvisar na maior parte do tempo não significa não ter planeado. Significa ter planeado muito e, ainda assim, estar preparado para que o plano falhe.


Se improvisar é fazer no momento aquilo que não estava previsto, na minha realidade, improvisar começa onde termina o planeamento.


Quando chega o verão, esta realidade é sublinhada com marcador fluorescente. A evidência é que, para mim, sair de casa envolve uma quantidade enorme de antecipação: acessibilidade do espaço para onde vou, transporte, estacionamento, horários, temperatura, disponibilidade de equipamento balneário acessível, casa de banho adaptada, assistência necessária complementar, ter possibilidade de uma alternativa, etc. Agora, imaginem depois de tudo isto preparado… basta uma variável mudar: o transporte não aparece, o elevador avaria, o restaurante afinal não tem acesso, a rampa está bloqueada, o lugar reservado de estacionamento está ocupado, alguém diz: “não há problema”, sem perceber qual é o problema, outro alguém diz: “eu dou uma ajudinha”, sem fazer ideia de que uma cadeira de rodas eléctrica é um peso bruto, uma condição meteorológica altera completamente aquilo que estava previsto e não dá para dar uma “corridinha” até ao carro.

Se calhar não é preciso aprender a improvisar. É preciso aprender a não ficar frustrado quando somos obrigados a improvisar. Porque a condição da deficiência pode exigir uma espécie de improvisação permanente, ela não é uma opção. É sobrevivência logística. E isso, consecutivamente, pode tornar-se cansativo do ponto de vista mental. 

Improvisar no verão não é melhor, nem pior, do que improvisar no inverno. Mas, por culpa da expectativa cultural da espontaneidade, nesta época do ano, e do tempo livre para desenvolver uma vida social mais intensa, a dimensão do verão pode ser um acelerador do problema. Para algumas pessoas, usar as expressões “vamos”, “depois vemos”, “logo se vê quando lá chegarmos”, “sei lá, logo se arranja”, “vamos à praia e depois decidimos o resto”, “tem uma esplanada, não é preciso mais nada!”, é viver a liberdade que o verão traduz. Para mim, como a regra é deparar-me com surpresas desagradáveis, o meu improviso tem de ter uma reunião de produção antes.


Contudo, o meu equilíbrio está em existir entre a leveza, que quero exercitar nesta altura do ano, e a improvisação permanente.


Chegada esta estação do ano, a forma como encaro a minha preparação mental, enquanto competência, é a seguinte: planear tem de significar deixar de controlar, para passar a ser preparar-me para ser capaz de não controlar. Aplicar isto, também, na vida profissional é um antídoto contra a frustração, ela não é o fim da história, apenas faz parte do custo do improviso. Aceitar tudo não significa não nos importarmos. Às vezes, a maior preparação não é ter um plano B. É ter a cabeça limpa e entusiasmada para construir um plano C quando o B também falha.



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