Do tamanho do que vejo

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Autora e consultora de D&I para a deficiência

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13 de abr. de 2026, 16:53

#Protagonistas
Opinião

Apollo 8 foi a primeira missão a orbitar a Lua. Na véspera de natal de 1968, os três astronautas tripulantes leram os primeiros dez versículos do livro de Génesis, relembrando a majestade e beleza da Criação, durante uma transmissão televisiva ao vivo para a Terra. O Homem só viria a pisar a Lua no ano seguinte, mas este foi o "era uma vez" daquilo que foi visto e o arranque para o nosso presente. 

Se naquela altura eu nem existia, nos últimos dias foi com espanto e devoção que acompanhei aquilo que a missão Artemis II viu e nos deu a ver. Principalmente, pelas palavras, que se tornaram virais, do piloto Victor Glover, e que vêm reforçar a minha perspetiva de rendição e maravilha perante o Criador de todas as coisas. "Quando leio a Bíblia e observo todas as coisas incríveis que foram feitas por nós, que fomos criados, percebo que vocês têm esse lugar incrível, essa nave espacial. Vocês estão a falar connosco porque estamos numa nave espacial muito distante da Terra, mas vocês estão numa nave espacial chamada Terra, que foi criada para nos dar um lugar para viver no universo e no cosmos. Talvez a distância entre nós vos faça pensar que o que estamos a fazer é especial, mas estamos à mesma distância. E estou a tentar dizer-vos — apenas confiem em mim —, vocês são especiais. No meio de todo esse vazio — esse nada absoluto, essa coisa que chamamos de universo — temos esse oásis, esse belo lugar onde podemos coexistir. Acho que, ao nos aproximarmos do Domingo de Páscoa, pensando em todas as culturas ao redor do mundo, independentemente de celebrarem ou não, de acreditarem em Deus ou não, esta é uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais, e que precisamos superar isso juntos”. 

Assim como a Apollo 8, a Artemis II não pousou na superfície lunar. Mas ambas têm mais isto em comum: reduziram-nos à nossa insignificância perante a imensidão, ao mesmo tempo que nos encorajaram a continuar a explorar, ativando e aplicando os nossos dons para o bem comum. O que reforça um sentimento simultâneo de humildade e pertença. Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen parecem ter sido escolhidos a dedo para esta missão. Feitos únicos à parte, que se tornarão inesquecíveis e já os inscreveram na História, não são os records ultrapassados nem os números absolutamente espantosos, desta viagem de ida e volta à Lua, que me fazem afirmar que eles são os meus novos super-heróis. Esta tripulação soube viver e contar a história em tempo real. Aproveitá-la naquilo que era o seu objetivo profissional e foram mais longe… Falaram de cooperação, de responsabilidade partilhada e da consciência de que, no espaço, a sobrevivência depende sempre dos outros. A sua integridade, sacrifício, alegria, simplicidade com reverência pela oportunidade, plenitude no tempo e comunhão levou-os a interpretar esta história de uma maneira que uniu no entusiasmo quem esteve perto desta aventura. E fomos muitos…

O meu Pastor e amigo Tiago Alves viveu também estes dias da expedição Artemis II com especial interesse. Fomos trocando mensagens, como quem comenta um reality show (só que decente e inspirador). No fuso horário dos EUA, assistimos à não ficção a acontecer em direto com o regresso dos 4 incríveis à Terra, como se fosse uma ante-estreia muito esperada de um filme épico. Aquilo que nos interpelou, não foi apenas a inovação e a evolução científicas, foi a humanidade. A deles que achocalhou a nossa. A nossa que, tantas vezes, carece de ser reconfigurada nos pensamentos, atos e omissões. E isto aconteceu por causa do efeito de perspetiva… Parafraseando-o: “As fronteiras e diferenças, os poderosos e os fracos, os abastados e os necessitados, tudo assume um pouco mais o seu devido lugar quando confrontados com a grande (infinita) escala da criação (…) A vida pela fé fica cientificamente evidente”.

É que do espaço, a fé surge não como evasão, mas como um modo mais profundo de compreender a realidade — unindo criação, humanidade e propósito.

Volto ao piloto Victor Glover desta missão da NASA porque o vi a ser fiel a esta fé, em declarações sempre consistentes na preparação, na partida, nos 10 dias de duração e na chegada. Não foi statement nem uma imposição, foi a sua linguagem de amor para se comunicar com o mundo. À medida que a nave Orion se aproximava da face oculta da Lua, prestes a entrar no silêncio total de cerca de 40 minutos sem comunicação com a Terra, Victor usou o momento não para falar de tecnologia, mas para recordar algo essencial sobre a nossa condição humana e espiritual. Ele disse à equipa de controlo: “Enquanto nos aproximamos do ponto mais próximo da Lua e mais distante da Terra, gostaria de vos lembrar de um dos mistérios mais importantes aqui na Terra, e esse é o amor. Cristo disse, em resposta ao que é o maior mandamento, que é amar a Deus com tudo o que és… e Ele também, sendo um grande mestre, disse que o segundo é igual a esse — amar o teu próximo como a ti mesmo”. Na incógnita da escuridão e do silêncio estas palavras trouxeram o peso simbólico daquilo que nos devia ligar a todos, contrariamente ao que a religião tem feito por cá. Glover prosseguiu, afirmando que a tripulação sentia “o amor da Terra” e que, de volta ao planeta, eles também “amavam todos ali do lado oculto da Lua”. E sim, como prometido, voltámos a vê-los do outro lado.  

Este amor é praticado sobre outra perspetiva quando decidimos amar aproximando-nos da medida do Amor que nos amou primeiro. Este amor, que devia ser o suficiente para nenhuma guerra sequer começar, é o amor que é do tamanho daquilo que não vemos. E que ainda assim escolhemos crer. Este é o único tipo de amor capaz de nos salvar aqui e conduzir-nos à esperança partilhada e a lugares que estão à nossa espera. 

O nosso Fernando Pessoa escreveu: “sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”. Eu sempre vi o mundo a partir de baixo. A minha altura — noventa e sete centímetros — não é apenas uma medida física; é também uma forma de olhar. Desde sempre sentada, numa cadeira de rodas, e por isso a minha perspetiva é em contra-picado: vejo o mundo a erguer-se diante de mim, vejo as pessoas de baixo para cima, vejo os edifícios como estruturas que se impõem. O horizonte raramente está ao nível dos meus olhos. E há mesmo muitas coisas que nunca chego a ver. Podia pensar que ver assim era ver menos. Que havia um limite imposto pelo ângulo, pela posição, pela altura. Mas acredito que a minha perspetiva é ver mais, em olhar estreito e profundo: não é a altura que define o que vemos, é a capacidade de olhar. Esse mover de perspetiva não é instantâneo. Ela transforma-se, mas também demora a ser compreendida. Ver mais não é apenas um privilégio, é um processo.

A visão da única mulher a bordo da Artemis II sublinha isto: “O que me impressionou não foi necessariamente só a Terra, foi toda a escuridão em torno dela. A Terra era só um bote salva-vidas a navegar sem ser incomodada no universo”. A missão da tripulação a bordo da Integrity (o nome de batismo da cápsula), foi concluída com sucesso! Então, se no planeta Terra, somos nós a tripulação, como temos vivido a missão que nos foi confiada? Será que refletimos a luz com a qual fomos abençoados? O que andamos realmente a fazer com tudo o que nos foi dado para cuidar? 

A resposta a estas questões talvez se escreva a partir do meu desejo profundo de que este quarteto tenha sido visto pelo mundo como verdadeiros influencers. Pode ser que as crianças de hoje mudem a sua perspetiva, em matéria de sonhos, e queiram ser astronautas outra vez. 

Do tamanho do que vejo

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13 de abr. de 2026, 16:53

#Protagonistas

Opinião

Apollo 8 foi a primeira missão a orbitar a Lua. Na véspera de natal de 1968, os três astronautas tripulantes leram os primeiros dez versículos do livro de Génesis, relembrando a majestade e beleza da Criação, durante uma transmissão televisiva ao vivo para a Terra. O Homem só viria a pisar a Lua no ano seguinte, mas este foi o "era uma vez" daquilo que foi visto e o arranque para o nosso presente. 

Se naquela altura eu nem existia, nos últimos dias foi com espanto e devoção que acompanhei aquilo que a missão Artemis II viu e nos deu a ver. Principalmente, pelas palavras, que se tornaram virais, do piloto Victor Glover, e que vêm reforçar a minha perspetiva de rendição e maravilha perante o Criador de todas as coisas. "Quando leio a Bíblia e observo todas as coisas incríveis que foram feitas por nós, que fomos criados, percebo que vocês têm esse lugar incrível, essa nave espacial. Vocês estão a falar connosco porque estamos numa nave espacial muito distante da Terra, mas vocês estão numa nave espacial chamada Terra, que foi criada para nos dar um lugar para viver no universo e no cosmos. Talvez a distância entre nós vos faça pensar que o que estamos a fazer é especial, mas estamos à mesma distância. E estou a tentar dizer-vos — apenas confiem em mim —, vocês são especiais. No meio de todo esse vazio — esse nada absoluto, essa coisa que chamamos de universo — temos esse oásis, esse belo lugar onde podemos coexistir. Acho que, ao nos aproximarmos do Domingo de Páscoa, pensando em todas as culturas ao redor do mundo, independentemente de celebrarem ou não, de acreditarem em Deus ou não, esta é uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais, e que precisamos superar isso juntos”. 

Assim como a Apollo 8, a Artemis II não pousou na superfície lunar. Mas ambas têm mais isto em comum: reduziram-nos à nossa insignificância perante a imensidão, ao mesmo tempo que nos encorajaram a continuar a explorar, ativando e aplicando os nossos dons para o bem comum. O que reforça um sentimento simultâneo de humildade e pertença. Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen parecem ter sido escolhidos a dedo para esta missão. Feitos únicos à parte, que se tornarão inesquecíveis e já os inscreveram na História, não são os records ultrapassados nem os números absolutamente espantosos, desta viagem de ida e volta à Lua, que me fazem afirmar que eles são os meus novos super-heróis. Esta tripulação soube viver e contar a história em tempo real. Aproveitá-la naquilo que era o seu objetivo profissional e foram mais longe… Falaram de cooperação, de responsabilidade partilhada e da consciência de que, no espaço, a sobrevivência depende sempre dos outros. A sua integridade, sacrifício, alegria, simplicidade com reverência pela oportunidade, plenitude no tempo e comunhão levou-os a interpretar esta história de uma maneira que uniu no entusiasmo quem esteve perto desta aventura. E fomos muitos…

O meu Pastor e amigo Tiago Alves viveu também estes dias da expedição Artemis II com especial interesse. Fomos trocando mensagens, como quem comenta um reality show (só que decente e inspirador). No fuso horário dos EUA, assistimos à não ficção a acontecer em direto com o regresso dos 4 incríveis à Terra, como se fosse uma ante-estreia muito esperada de um filme épico. Aquilo que nos interpelou, não foi apenas a inovação e a evolução científicas, foi a humanidade. A deles que achocalhou a nossa. A nossa que, tantas vezes, carece de ser reconfigurada nos pensamentos, atos e omissões. E isto aconteceu por causa do efeito de perspetiva… Parafraseando-o: “As fronteiras e diferenças, os poderosos e os fracos, os abastados e os necessitados, tudo assume um pouco mais o seu devido lugar quando confrontados com a grande (infinita) escala da criação (…) A vida pela fé fica cientificamente evidente”.

É que do espaço, a fé surge não como evasão, mas como um modo mais profundo de compreender a realidade — unindo criação, humanidade e propósito.

Volto ao piloto Victor Glover desta missão da NASA porque o vi a ser fiel a esta fé, em declarações sempre consistentes na preparação, na partida, nos 10 dias de duração e na chegada. Não foi statement nem uma imposição, foi a sua linguagem de amor para se comunicar com o mundo. À medida que a nave Orion se aproximava da face oculta da Lua, prestes a entrar no silêncio total de cerca de 40 minutos sem comunicação com a Terra, Victor usou o momento não para falar de tecnologia, mas para recordar algo essencial sobre a nossa condição humana e espiritual. Ele disse à equipa de controlo: “Enquanto nos aproximamos do ponto mais próximo da Lua e mais distante da Terra, gostaria de vos lembrar de um dos mistérios mais importantes aqui na Terra, e esse é o amor. Cristo disse, em resposta ao que é o maior mandamento, que é amar a Deus com tudo o que és… e Ele também, sendo um grande mestre, disse que o segundo é igual a esse — amar o teu próximo como a ti mesmo”. Na incógnita da escuridão e do silêncio estas palavras trouxeram o peso simbólico daquilo que nos devia ligar a todos, contrariamente ao que a religião tem feito por cá. Glover prosseguiu, afirmando que a tripulação sentia “o amor da Terra” e que, de volta ao planeta, eles também “amavam todos ali do lado oculto da Lua”. E sim, como prometido, voltámos a vê-los do outro lado.  

Este amor é praticado sobre outra perspetiva quando decidimos amar aproximando-nos da medida do Amor que nos amou primeiro. Este amor, que devia ser o suficiente para nenhuma guerra sequer começar, é o amor que é do tamanho daquilo que não vemos. E que ainda assim escolhemos crer. Este é o único tipo de amor capaz de nos salvar aqui e conduzir-nos à esperança partilhada e a lugares que estão à nossa espera. 

O nosso Fernando Pessoa escreveu: “sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”. Eu sempre vi o mundo a partir de baixo. A minha altura — noventa e sete centímetros — não é apenas uma medida física; é também uma forma de olhar. Desde sempre sentada, numa cadeira de rodas, e por isso a minha perspetiva é em contra-picado: vejo o mundo a erguer-se diante de mim, vejo as pessoas de baixo para cima, vejo os edifícios como estruturas que se impõem. O horizonte raramente está ao nível dos meus olhos. E há mesmo muitas coisas que nunca chego a ver. Podia pensar que ver assim era ver menos. Que havia um limite imposto pelo ângulo, pela posição, pela altura. Mas acredito que a minha perspetiva é ver mais, em olhar estreito e profundo: não é a altura que define o que vemos, é a capacidade de olhar. Esse mover de perspetiva não é instantâneo. Ela transforma-se, mas também demora a ser compreendida. Ver mais não é apenas um privilégio, é um processo.

A visão da única mulher a bordo da Artemis II sublinha isto: “O que me impressionou não foi necessariamente só a Terra, foi toda a escuridão em torno dela. A Terra era só um bote salva-vidas a navegar sem ser incomodada no universo”. A missão da tripulação a bordo da Integrity (o nome de batismo da cápsula), foi concluída com sucesso! Então, se no planeta Terra, somos nós a tripulação, como temos vivido a missão que nos foi confiada? Será que refletimos a luz com a qual fomos abençoados? O que andamos realmente a fazer com tudo o que nos foi dado para cuidar? 

A resposta a estas questões talvez se escreva a partir do meu desejo profundo de que este quarteto tenha sido visto pelo mundo como verdadeiros influencers. Pode ser que as crianças de hoje mudem a sua perspetiva, em matéria de sonhos, e queiram ser astronautas outra vez. 

Do tamanho do que vejo

Autora e consultora de D&I para a deficiência

13 de abr. de 2026, 16:53

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Opinião

Apollo 8 foi a primeira missão a orbitar a Lua. Na véspera de natal de 1968, os três astronautas tripulantes leram os primeiros dez versículos do livro de Génesis, relembrando a majestade e beleza da Criação, durante uma transmissão televisiva ao vivo para a Terra. O Homem só viria a pisar a Lua no ano seguinte, mas este foi o "era uma vez" daquilo que foi visto e o arranque para o nosso presente. 

Se naquela altura eu nem existia, nos últimos dias foi com espanto e devoção que acompanhei aquilo que a missão Artemis II viu e nos deu a ver. Principalmente, pelas palavras, que se tornaram virais, do piloto Victor Glover, e que vêm reforçar a minha perspetiva de rendição e maravilha perante o Criador de todas as coisas. "Quando leio a Bíblia e observo todas as coisas incríveis que foram feitas por nós, que fomos criados, percebo que vocês têm esse lugar incrível, essa nave espacial. Vocês estão a falar connosco porque estamos numa nave espacial muito distante da Terra, mas vocês estão numa nave espacial chamada Terra, que foi criada para nos dar um lugar para viver no universo e no cosmos. Talvez a distância entre nós vos faça pensar que o que estamos a fazer é especial, mas estamos à mesma distância. E estou a tentar dizer-vos — apenas confiem em mim —, vocês são especiais. No meio de todo esse vazio — esse nada absoluto, essa coisa que chamamos de universo — temos esse oásis, esse belo lugar onde podemos coexistir. Acho que, ao nos aproximarmos do Domingo de Páscoa, pensando em todas as culturas ao redor do mundo, independentemente de celebrarem ou não, de acreditarem em Deus ou não, esta é uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais, e que precisamos superar isso juntos”. 

Assim como a Apollo 8, a Artemis II não pousou na superfície lunar. Mas ambas têm mais isto em comum: reduziram-nos à nossa insignificância perante a imensidão, ao mesmo tempo que nos encorajaram a continuar a explorar, ativando e aplicando os nossos dons para o bem comum. O que reforça um sentimento simultâneo de humildade e pertença. Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen parecem ter sido escolhidos a dedo para esta missão. Feitos únicos à parte, que se tornarão inesquecíveis e já os inscreveram na História, não são os records ultrapassados nem os números absolutamente espantosos, desta viagem de ida e volta à Lua, que me fazem afirmar que eles são os meus novos super-heróis. Esta tripulação soube viver e contar a história em tempo real. Aproveitá-la naquilo que era o seu objetivo profissional e foram mais longe… Falaram de cooperação, de responsabilidade partilhada e da consciência de que, no espaço, a sobrevivência depende sempre dos outros. A sua integridade, sacrifício, alegria, simplicidade com reverência pela oportunidade, plenitude no tempo e comunhão levou-os a interpretar esta história de uma maneira que uniu no entusiasmo quem esteve perto desta aventura. E fomos muitos…

O meu Pastor e amigo Tiago Alves viveu também estes dias da expedição Artemis II com especial interesse. Fomos trocando mensagens, como quem comenta um reality show (só que decente e inspirador). No fuso horário dos EUA, assistimos à não ficção a acontecer em direto com o regresso dos 4 incríveis à Terra, como se fosse uma ante-estreia muito esperada de um filme épico. Aquilo que nos interpelou, não foi apenas a inovação e a evolução científicas, foi a humanidade. A deles que achocalhou a nossa. A nossa que, tantas vezes, carece de ser reconfigurada nos pensamentos, atos e omissões. E isto aconteceu por causa do efeito de perspetiva… Parafraseando-o: “As fronteiras e diferenças, os poderosos e os fracos, os abastados e os necessitados, tudo assume um pouco mais o seu devido lugar quando confrontados com a grande (infinita) escala da criação (…) A vida pela fé fica cientificamente evidente”.

É que do espaço, a fé surge não como evasão, mas como um modo mais profundo de compreender a realidade — unindo criação, humanidade e propósito.

Volto ao piloto Victor Glover desta missão da NASA porque o vi a ser fiel a esta fé, em declarações sempre consistentes na preparação, na partida, nos 10 dias de duração e na chegada. Não foi statement nem uma imposição, foi a sua linguagem de amor para se comunicar com o mundo. À medida que a nave Orion se aproximava da face oculta da Lua, prestes a entrar no silêncio total de cerca de 40 minutos sem comunicação com a Terra, Victor usou o momento não para falar de tecnologia, mas para recordar algo essencial sobre a nossa condição humana e espiritual. Ele disse à equipa de controlo: “Enquanto nos aproximamos do ponto mais próximo da Lua e mais distante da Terra, gostaria de vos lembrar de um dos mistérios mais importantes aqui na Terra, e esse é o amor. Cristo disse, em resposta ao que é o maior mandamento, que é amar a Deus com tudo o que és… e Ele também, sendo um grande mestre, disse que o segundo é igual a esse — amar o teu próximo como a ti mesmo”. Na incógnita da escuridão e do silêncio estas palavras trouxeram o peso simbólico daquilo que nos devia ligar a todos, contrariamente ao que a religião tem feito por cá. Glover prosseguiu, afirmando que a tripulação sentia “o amor da Terra” e que, de volta ao planeta, eles também “amavam todos ali do lado oculto da Lua”. E sim, como prometido, voltámos a vê-los do outro lado.  

Este amor é praticado sobre outra perspetiva quando decidimos amar aproximando-nos da medida do Amor que nos amou primeiro. Este amor, que devia ser o suficiente para nenhuma guerra sequer começar, é o amor que é do tamanho daquilo que não vemos. E que ainda assim escolhemos crer. Este é o único tipo de amor capaz de nos salvar aqui e conduzir-nos à esperança partilhada e a lugares que estão à nossa espera. 

O nosso Fernando Pessoa escreveu: “sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”. Eu sempre vi o mundo a partir de baixo. A minha altura — noventa e sete centímetros — não é apenas uma medida física; é também uma forma de olhar. Desde sempre sentada, numa cadeira de rodas, e por isso a minha perspetiva é em contra-picado: vejo o mundo a erguer-se diante de mim, vejo as pessoas de baixo para cima, vejo os edifícios como estruturas que se impõem. O horizonte raramente está ao nível dos meus olhos. E há mesmo muitas coisas que nunca chego a ver. Podia pensar que ver assim era ver menos. Que havia um limite imposto pelo ângulo, pela posição, pela altura. Mas acredito que a minha perspetiva é ver mais, em olhar estreito e profundo: não é a altura que define o que vemos, é a capacidade de olhar. Esse mover de perspetiva não é instantâneo. Ela transforma-se, mas também demora a ser compreendida. Ver mais não é apenas um privilégio, é um processo.

A visão da única mulher a bordo da Artemis II sublinha isto: “O que me impressionou não foi necessariamente só a Terra, foi toda a escuridão em torno dela. A Terra era só um bote salva-vidas a navegar sem ser incomodada no universo”. A missão da tripulação a bordo da Integrity (o nome de batismo da cápsula), foi concluída com sucesso! Então, se no planeta Terra, somos nós a tripulação, como temos vivido a missão que nos foi confiada? Será que refletimos a luz com a qual fomos abençoados? O que andamos realmente a fazer com tudo o que nos foi dado para cuidar? 

A resposta a estas questões talvez se escreva a partir do meu desejo profundo de que este quarteto tenha sido visto pelo mundo como verdadeiros influencers. Pode ser que as crianças de hoje mudem a sua perspetiva, em matéria de sonhos, e queiram ser astronautas outra vez. 

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13 de abr. de 2026, 16:53

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Apollo 8 foi a primeira missão a orbitar a Lua. Na véspera de natal de 1968, os três astronautas tripulantes leram os primeiros dez versículos do livro de Génesis, relembrando a majestade e beleza da Criação, durante uma transmissão televisiva ao vivo para a Terra. O Homem só viria a pisar a Lua no ano seguinte, mas este foi o "era uma vez" daquilo que foi visto e o arranque para o nosso presente. 

Se naquela altura eu nem existia, nos últimos dias foi com espanto e devoção que acompanhei aquilo que a missão Artemis II viu e nos deu a ver. Principalmente, pelas palavras, que se tornaram virais, do piloto Victor Glover, e que vêm reforçar a minha perspetiva de rendição e maravilha perante o Criador de todas as coisas. "Quando leio a Bíblia e observo todas as coisas incríveis que foram feitas por nós, que fomos criados, percebo que vocês têm esse lugar incrível, essa nave espacial. Vocês estão a falar connosco porque estamos numa nave espacial muito distante da Terra, mas vocês estão numa nave espacial chamada Terra, que foi criada para nos dar um lugar para viver no universo e no cosmos. Talvez a distância entre nós vos faça pensar que o que estamos a fazer é especial, mas estamos à mesma distância. E estou a tentar dizer-vos — apenas confiem em mim —, vocês são especiais. No meio de todo esse vazio — esse nada absoluto, essa coisa que chamamos de universo — temos esse oásis, esse belo lugar onde podemos coexistir. Acho que, ao nos aproximarmos do Domingo de Páscoa, pensando em todas as culturas ao redor do mundo, independentemente de celebrarem ou não, de acreditarem em Deus ou não, esta é uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais, e que precisamos superar isso juntos”. 

Assim como a Apollo 8, a Artemis II não pousou na superfície lunar. Mas ambas têm mais isto em comum: reduziram-nos à nossa insignificância perante a imensidão, ao mesmo tempo que nos encorajaram a continuar a explorar, ativando e aplicando os nossos dons para o bem comum. O que reforça um sentimento simultâneo de humildade e pertença. Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen parecem ter sido escolhidos a dedo para esta missão. Feitos únicos à parte, que se tornarão inesquecíveis e já os inscreveram na História, não são os records ultrapassados nem os números absolutamente espantosos, desta viagem de ida e volta à Lua, que me fazem afirmar que eles são os meus novos super-heróis. Esta tripulação soube viver e contar a história em tempo real. Aproveitá-la naquilo que era o seu objetivo profissional e foram mais longe… Falaram de cooperação, de responsabilidade partilhada e da consciência de que, no espaço, a sobrevivência depende sempre dos outros. A sua integridade, sacrifício, alegria, simplicidade com reverência pela oportunidade, plenitude no tempo e comunhão levou-os a interpretar esta história de uma maneira que uniu no entusiasmo quem esteve perto desta aventura. E fomos muitos…

O meu Pastor e amigo Tiago Alves viveu também estes dias da expedição Artemis II com especial interesse. Fomos trocando mensagens, como quem comenta um reality show (só que decente e inspirador). No fuso horário dos EUA, assistimos à não ficção a acontecer em direto com o regresso dos 4 incríveis à Terra, como se fosse uma ante-estreia muito esperada de um filme épico. Aquilo que nos interpelou, não foi apenas a inovação e a evolução científicas, foi a humanidade. A deles que achocalhou a nossa. A nossa que, tantas vezes, carece de ser reconfigurada nos pensamentos, atos e omissões. E isto aconteceu por causa do efeito de perspetiva… Parafraseando-o: “As fronteiras e diferenças, os poderosos e os fracos, os abastados e os necessitados, tudo assume um pouco mais o seu devido lugar quando confrontados com a grande (infinita) escala da criação (…) A vida pela fé fica cientificamente evidente”.

É que do espaço, a fé surge não como evasão, mas como um modo mais profundo de compreender a realidade — unindo criação, humanidade e propósito.

Volto ao piloto Victor Glover desta missão da NASA porque o vi a ser fiel a esta fé, em declarações sempre consistentes na preparação, na partida, nos 10 dias de duração e na chegada. Não foi statement nem uma imposição, foi a sua linguagem de amor para se comunicar com o mundo. À medida que a nave Orion se aproximava da face oculta da Lua, prestes a entrar no silêncio total de cerca de 40 minutos sem comunicação com a Terra, Victor usou o momento não para falar de tecnologia, mas para recordar algo essencial sobre a nossa condição humana e espiritual. Ele disse à equipa de controlo: “Enquanto nos aproximamos do ponto mais próximo da Lua e mais distante da Terra, gostaria de vos lembrar de um dos mistérios mais importantes aqui na Terra, e esse é o amor. Cristo disse, em resposta ao que é o maior mandamento, que é amar a Deus com tudo o que és… e Ele também, sendo um grande mestre, disse que o segundo é igual a esse — amar o teu próximo como a ti mesmo”. Na incógnita da escuridão e do silêncio estas palavras trouxeram o peso simbólico daquilo que nos devia ligar a todos, contrariamente ao que a religião tem feito por cá. Glover prosseguiu, afirmando que a tripulação sentia “o amor da Terra” e que, de volta ao planeta, eles também “amavam todos ali do lado oculto da Lua”. E sim, como prometido, voltámos a vê-los do outro lado.  

Este amor é praticado sobre outra perspetiva quando decidimos amar aproximando-nos da medida do Amor que nos amou primeiro. Este amor, que devia ser o suficiente para nenhuma guerra sequer começar, é o amor que é do tamanho daquilo que não vemos. E que ainda assim escolhemos crer. Este é o único tipo de amor capaz de nos salvar aqui e conduzir-nos à esperança partilhada e a lugares que estão à nossa espera. 

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