Lugar Reservado ao Humor

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Autora e consultora de D&I para a deficiência

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10 de jun. de 2026, 12:01

#Protagonistas
Opinião

Chego a uma sala, que me espera para uma mensagem de motivação feita de receita instantânea de como viver melhor, apesar das adversidades, e do alto da minha cadeira de rodas aviso:

— Não vos venho trazer os sete passos para a felicidade porque, como já devem ter reparado, eu não dou passos. 

O segundo seguinte é muitas vezes de desconforto em vez da previsível gargalha. A minha teoria confirma-se: continua a existir desconforto em rir de, e com, uma pessoa com deficiência, mesmo que seja ela a fazer a piada.

A sociedade tende a pôr as pessoas na minha condição em dois extremos igualmente redutores: o do “coitadinho” ou o do “super-herói inspirador”. O humor rebenta com essas duas caixas de uma vez só. Claro que isto não significa aceitar desrespeito. Nem romantizar a discriminação. O humor não substitui a acessibilidade, a inclusão ou a educação. Mas ajuda-nos a sobreviver emocionalmente enquanto o mundo ainda aprende a olhar para a diferença sem estranheza e cerimonial. O humor não é acionado como fuga ou negação da dor, mas como ferramenta de inteligência social e autonomia emocional. Essa perspetiva é a que desmonta o preconceito persistente de que as pessoas com deficiência têm obrigatoriamente de ocupar um lugar de fragilidade permanente ou solenidade.

O humor, para mim, é um lugar reservado ao exercício da liberdade, do controlo da narrativa, de desarme, de resistência e de humanidade. Rir também é uma forma de não deixar que os outros decidam quem sou.

Esta minha propensão para ter acesso a poder rir de tudo e fazer os outros rir, para a vida pesar menos, sei que herdei do meu pai. O sorriso, como marca pessoal visível, a escancarar a boca, independentemente das emoções, é a genética materna em todo o seu esplendor. Só que isto não é comum a toda a gente, portanto para os que defendem que há limites para o humor (e eu não sou essa pessoa!), ele é visto como incompatível com uma limitação física. Como se a fragilidade tivesse obrigatoriamente de vir acompanhada de olhar paternalista, silêncio ou terreno interdito à expansão da alegria. No meu caso, assumo que foi o humor que, tantas vezes, me salvou, e não a autocomiseração ou a pena dos outros.

Ser bem-disposta e deixar que o humor tome o seu lugar é uma forma de entrar numa sala antes que os preconceitos tenham acesso prioritário. Uma pessoa com deficiência aprende cedo, por experiência, que os outros a olham. Às vezes por curiosidade, às vezes por desconforto, às vezes com excesso de cuidado, outras com uma crueldade infantil que nem sempre desaparece na idade adulta. Há quem ache que o bullying só existe nas escolas, mas a marginalização pode ser sofisticada: está no silêncio estranho, no constrangimento, na infantilização, na condescendência disfarçada de simpatia. E é precisamente aí que o humor pode tornar-se uma arma extraordinária contra o capacitismo em vigor.

Na época em que fiz um curso de escrita humorística com o Ricardo Araujo Pereira (promovido pela editora Tinta da China), partilhei com ele uma dúvida que mantenho desde que subo a um palco ou tenho uma plateia à frente. É certo que não faço stand-up comedy (até porque também não consigo ficar de pé), mas o humor vai comigo para as formações, palestras e conferências. E eu raramente consigo avaliar a reação das pessoas. Se se riem, estão a rir-se porque eu tenho graça ou por condescendência? Porque querem aliviar o desconforto? Porque acham “fofinho” uma pessoa em cadeira de rodas fazer piadas? E se não se riem? É porque a piada falhou ou porque acham que não é suposto rir quando há uma deficiência envolvida?

Ele ouviu tudo isto com aquele ar de quem já percebeu a mecânica absurda dos humanos e deu-me um conselho simples:

— Faz logo um disclaimer no início e diz: podem rir-se de tudo, eu dou-vos autorização.

Aquela sugestão veio validar aquilo que sempre considerei: o humor dá-nos controlo sobre a narrativa. O problema nunca foi o humor, mas a resistência que o não normativo ainda provoca. O humor encurta a distância, quebra a tensão, aproxima, humaniza e mistura-nos a todos no mesmo grupo. Quando alguém ri connosco, deixa de nos tratar como um símbolo observado, passa a tratar-nos como gente a relacionar-se. Quando isso acontece não se trata de fingir que a deficiência não existe ou a camuflar o preconceito com entretenimento. A questão é, se há um elefante na sala, então vamos encará-lo e gargalhar com os seus movimentos. Porque há uma diferença enorme entre incluir alguém e colocá-lo numa redoma moral.

É como se tivéssemos autorização para ser exemplo de coragem, mas não para ser sarcásticos, ridículos, irónicos, até mordazes, divertidos ou absurdamente humanos.

Por isso é que acolhi com grande entusiasmo o convite da Joana Marques para ser a sua convidada surpresa, aquando dos espectáculos Desconfia. Significava que alguém que fazia do humor profissão me tinha tirado uma boa radiografia. Ela não só me deu autorização, como generosamente estendeu o palco dela para que eu autorizasse os outros a rir. Connosco, foi de certeza. De quê? Fica ao critério de cada um.

Houve naquelas quatro sessões (que fiz entre a MEO Arena e a Super Book Arena) qualquer coisa de deliciosamente libertador e inesquecível. Estar ali, no meio do humor, enquanto se desmontava com ironia fina a ideia que sempre me pareceu sagrada: a de que não se pode brincar com pessoas com deficiência (pode não dar cadeia mas dar acesso direto ao inferno!). O que eu me diverti naquele cenário não me agigantou, reduziu-me à minha significância humana e normalidade imperfeita. Mas a Joana esticou mais a corda e pôs o dedo na outra ferida e versão da mesma armadilha: aquela em que nos transformam em posters motivacionais com rodas. Como se existíssemos apenas para inspirar pessoas sem deficiência a “dar valor à vida”. Como se acordar, trabalhar, apaixonarmo-nos ou simplesmente existir já tivesse obrigatoriamente música épica por trás. O tom entre a auto-ajuda e a idolatria, reservada aos “guerreiros”, não é a linguagem da aceitação. Desconfiem, sempre!

Da minha parte, vou continuar a cultivar o humor, não como terapia para curar, mas como uma forma de resistência preventiva. Uma espécie de músculo invisível contra a vergonha, o isolamento e o medo do olhar dos outros. Não porque a realidade deixe de ser o que é, mas porque o humor cria espaço para respirar dentro dela. No fundo, rir de mim nunca significou diminuir-me. Rir de tudo e de nada não mexe com a minha dignidade, sublinha a minha identidade. Ainda que partir-me a rir não dê muito jeito à minha “doença dos ossos de vidro”, o humor continuará a ser ponte no caminho que me faz sentir inteira. 


LER TAMBÉM:


Mafalda Ribeiro assina mensalmente o espaço Acesso Prioritário no MOTIVO.

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Chego a uma sala, que me espera para uma mensagem de motivação feita de receita instantânea de como viver melhor, apesar das adversidades, e do alto da minha cadeira de rodas aviso:

— Não vos venho trazer os sete passos para a felicidade porque, como já devem ter reparado, eu não dou passos. 

O segundo seguinte é muitas vezes de desconforto em vez da previsível gargalha. A minha teoria confirma-se: continua a existir desconforto em rir de, e com, uma pessoa com deficiência, mesmo que seja ela a fazer a piada.

A sociedade tende a pôr as pessoas na minha condição em dois extremos igualmente redutores: o do “coitadinho” ou o do “super-herói inspirador”. O humor rebenta com essas duas caixas de uma vez só. Claro que isto não significa aceitar desrespeito. Nem romantizar a discriminação. O humor não substitui a acessibilidade, a inclusão ou a educação. Mas ajuda-nos a sobreviver emocionalmente enquanto o mundo ainda aprende a olhar para a diferença sem estranheza e cerimonial. O humor não é acionado como fuga ou negação da dor, mas como ferramenta de inteligência social e autonomia emocional. Essa perspetiva é a que desmonta o preconceito persistente de que as pessoas com deficiência têm obrigatoriamente de ocupar um lugar de fragilidade permanente ou solenidade.

O humor, para mim, é um lugar reservado ao exercício da liberdade, do controlo da narrativa, de desarme, de resistência e de humanidade. Rir também é uma forma de não deixar que os outros decidam quem sou.

Esta minha propensão para ter acesso a poder rir de tudo e fazer os outros rir, para a vida pesar menos, sei que herdei do meu pai. O sorriso, como marca pessoal visível, a escancarar a boca, independentemente das emoções, é a genética materna em todo o seu esplendor. Só que isto não é comum a toda a gente, portanto para os que defendem que há limites para o humor (e eu não sou essa pessoa!), ele é visto como incompatível com uma limitação física. Como se a fragilidade tivesse obrigatoriamente de vir acompanhada de olhar paternalista, silêncio ou terreno interdito à expansão da alegria. No meu caso, assumo que foi o humor que, tantas vezes, me salvou, e não a autocomiseração ou a pena dos outros.

Ser bem-disposta e deixar que o humor tome o seu lugar é uma forma de entrar numa sala antes que os preconceitos tenham acesso prioritário. Uma pessoa com deficiência aprende cedo, por experiência, que os outros a olham. Às vezes por curiosidade, às vezes por desconforto, às vezes com excesso de cuidado, outras com uma crueldade infantil que nem sempre desaparece na idade adulta. Há quem ache que o bullying só existe nas escolas, mas a marginalização pode ser sofisticada: está no silêncio estranho, no constrangimento, na infantilização, na condescendência disfarçada de simpatia. E é precisamente aí que o humor pode tornar-se uma arma extraordinária contra o capacitismo em vigor.

Na época em que fiz um curso de escrita humorística com o Ricardo Araujo Pereira (promovido pela editora Tinta da China), partilhei com ele uma dúvida que mantenho desde que subo a um palco ou tenho uma plateia à frente. É certo que não faço stand-up comedy (até porque também não consigo ficar de pé), mas o humor vai comigo para as formações, palestras e conferências. E eu raramente consigo avaliar a reação das pessoas. Se se riem, estão a rir-se porque eu tenho graça ou por condescendência? Porque querem aliviar o desconforto? Porque acham “fofinho” uma pessoa em cadeira de rodas fazer piadas? E se não se riem? É porque a piada falhou ou porque acham que não é suposto rir quando há uma deficiência envolvida?

Ele ouviu tudo isto com aquele ar de quem já percebeu a mecânica absurda dos humanos e deu-me um conselho simples:

— Faz logo um disclaimer no início e diz: podem rir-se de tudo, eu dou-vos autorização.

Aquela sugestão veio validar aquilo que sempre considerei: o humor dá-nos controlo sobre a narrativa. O problema nunca foi o humor, mas a resistência que o não normativo ainda provoca. O humor encurta a distância, quebra a tensão, aproxima, humaniza e mistura-nos a todos no mesmo grupo. Quando alguém ri connosco, deixa de nos tratar como um símbolo observado, passa a tratar-nos como gente a relacionar-se. Quando isso acontece não se trata de fingir que a deficiência não existe ou a camuflar o preconceito com entretenimento. A questão é, se há um elefante na sala, então vamos encará-lo e gargalhar com os seus movimentos. Porque há uma diferença enorme entre incluir alguém e colocá-lo numa redoma moral.

É como se tivéssemos autorização para ser exemplo de coragem, mas não para ser sarcásticos, ridículos, irónicos, até mordazes, divertidos ou absurdamente humanos.

Por isso é que acolhi com grande entusiasmo o convite da Joana Marques para ser a sua convidada surpresa, aquando dos espectáculos Desconfia. Significava que alguém que fazia do humor profissão me tinha tirado uma boa radiografia. Ela não só me deu autorização, como generosamente estendeu o palco dela para que eu autorizasse os outros a rir. Connosco, foi de certeza. De quê? Fica ao critério de cada um.

Houve naquelas quatro sessões (que fiz entre a MEO Arena e a Super Book Arena) qualquer coisa de deliciosamente libertador e inesquecível. Estar ali, no meio do humor, enquanto se desmontava com ironia fina a ideia que sempre me pareceu sagrada: a de que não se pode brincar com pessoas com deficiência (pode não dar cadeia mas dar acesso direto ao inferno!). O que eu me diverti naquele cenário não me agigantou, reduziu-me à minha significância humana e normalidade imperfeita. Mas a Joana esticou mais a corda e pôs o dedo na outra ferida e versão da mesma armadilha: aquela em que nos transformam em posters motivacionais com rodas. Como se existíssemos apenas para inspirar pessoas sem deficiência a “dar valor à vida”. Como se acordar, trabalhar, apaixonarmo-nos ou simplesmente existir já tivesse obrigatoriamente música épica por trás. O tom entre a auto-ajuda e a idolatria, reservada aos “guerreiros”, não é a linguagem da aceitação. Desconfiem, sempre!

Da minha parte, vou continuar a cultivar o humor, não como terapia para curar, mas como uma forma de resistência preventiva. Uma espécie de músculo invisível contra a vergonha, o isolamento e o medo do olhar dos outros. Não porque a realidade deixe de ser o que é, mas porque o humor cria espaço para respirar dentro dela. No fundo, rir de mim nunca significou diminuir-me. Rir de tudo e de nada não mexe com a minha dignidade, sublinha a minha identidade. Ainda que partir-me a rir não dê muito jeito à minha “doença dos ossos de vidro”, o humor continuará a ser ponte no caminho que me faz sentir inteira. 


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Chego a uma sala, que me espera para uma mensagem de motivação feita de receita instantânea de como viver melhor, apesar das adversidades, e do alto da minha cadeira de rodas aviso:

— Não vos venho trazer os sete passos para a felicidade porque, como já devem ter reparado, eu não dou passos. 

O segundo seguinte é muitas vezes de desconforto em vez da previsível gargalha. A minha teoria confirma-se: continua a existir desconforto em rir de, e com, uma pessoa com deficiência, mesmo que seja ela a fazer a piada.

A sociedade tende a pôr as pessoas na minha condição em dois extremos igualmente redutores: o do “coitadinho” ou o do “super-herói inspirador”. O humor rebenta com essas duas caixas de uma vez só. Claro que isto não significa aceitar desrespeito. Nem romantizar a discriminação. O humor não substitui a acessibilidade, a inclusão ou a educação. Mas ajuda-nos a sobreviver emocionalmente enquanto o mundo ainda aprende a olhar para a diferença sem estranheza e cerimonial. O humor não é acionado como fuga ou negação da dor, mas como ferramenta de inteligência social e autonomia emocional. Essa perspetiva é a que desmonta o preconceito persistente de que as pessoas com deficiência têm obrigatoriamente de ocupar um lugar de fragilidade permanente ou solenidade.

O humor, para mim, é um lugar reservado ao exercício da liberdade, do controlo da narrativa, de desarme, de resistência e de humanidade. Rir também é uma forma de não deixar que os outros decidam quem sou.

Esta minha propensão para ter acesso a poder rir de tudo e fazer os outros rir, para a vida pesar menos, sei que herdei do meu pai. O sorriso, como marca pessoal visível, a escancarar a boca, independentemente das emoções, é a genética materna em todo o seu esplendor. Só que isto não é comum a toda a gente, portanto para os que defendem que há limites para o humor (e eu não sou essa pessoa!), ele é visto como incompatível com uma limitação física. Como se a fragilidade tivesse obrigatoriamente de vir acompanhada de olhar paternalista, silêncio ou terreno interdito à expansão da alegria. No meu caso, assumo que foi o humor que, tantas vezes, me salvou, e não a autocomiseração ou a pena dos outros.

Ser bem-disposta e deixar que o humor tome o seu lugar é uma forma de entrar numa sala antes que os preconceitos tenham acesso prioritário. Uma pessoa com deficiência aprende cedo, por experiência, que os outros a olham. Às vezes por curiosidade, às vezes por desconforto, às vezes com excesso de cuidado, outras com uma crueldade infantil que nem sempre desaparece na idade adulta. Há quem ache que o bullying só existe nas escolas, mas a marginalização pode ser sofisticada: está no silêncio estranho, no constrangimento, na infantilização, na condescendência disfarçada de simpatia. E é precisamente aí que o humor pode tornar-se uma arma extraordinária contra o capacitismo em vigor.

Na época em que fiz um curso de escrita humorística com o Ricardo Araujo Pereira (promovido pela editora Tinta da China), partilhei com ele uma dúvida que mantenho desde que subo a um palco ou tenho uma plateia à frente. É certo que não faço stand-up comedy (até porque também não consigo ficar de pé), mas o humor vai comigo para as formações, palestras e conferências. E eu raramente consigo avaliar a reação das pessoas. Se se riem, estão a rir-se porque eu tenho graça ou por condescendência? Porque querem aliviar o desconforto? Porque acham “fofinho” uma pessoa em cadeira de rodas fazer piadas? E se não se riem? É porque a piada falhou ou porque acham que não é suposto rir quando há uma deficiência envolvida?

Ele ouviu tudo isto com aquele ar de quem já percebeu a mecânica absurda dos humanos e deu-me um conselho simples:

— Faz logo um disclaimer no início e diz: podem rir-se de tudo, eu dou-vos autorização.

Aquela sugestão veio validar aquilo que sempre considerei: o humor dá-nos controlo sobre a narrativa. O problema nunca foi o humor, mas a resistência que o não normativo ainda provoca. O humor encurta a distância, quebra a tensão, aproxima, humaniza e mistura-nos a todos no mesmo grupo. Quando alguém ri connosco, deixa de nos tratar como um símbolo observado, passa a tratar-nos como gente a relacionar-se. Quando isso acontece não se trata de fingir que a deficiência não existe ou a camuflar o preconceito com entretenimento. A questão é, se há um elefante na sala, então vamos encará-lo e gargalhar com os seus movimentos. Porque há uma diferença enorme entre incluir alguém e colocá-lo numa redoma moral.

É como se tivéssemos autorização para ser exemplo de coragem, mas não para ser sarcásticos, ridículos, irónicos, até mordazes, divertidos ou absurdamente humanos.

Por isso é que acolhi com grande entusiasmo o convite da Joana Marques para ser a sua convidada surpresa, aquando dos espectáculos Desconfia. Significava que alguém que fazia do humor profissão me tinha tirado uma boa radiografia. Ela não só me deu autorização, como generosamente estendeu o palco dela para que eu autorizasse os outros a rir. Connosco, foi de certeza. De quê? Fica ao critério de cada um.

Houve naquelas quatro sessões (que fiz entre a MEO Arena e a Super Book Arena) qualquer coisa de deliciosamente libertador e inesquecível. Estar ali, no meio do humor, enquanto se desmontava com ironia fina a ideia que sempre me pareceu sagrada: a de que não se pode brincar com pessoas com deficiência (pode não dar cadeia mas dar acesso direto ao inferno!). O que eu me diverti naquele cenário não me agigantou, reduziu-me à minha significância humana e normalidade imperfeita. Mas a Joana esticou mais a corda e pôs o dedo na outra ferida e versão da mesma armadilha: aquela em que nos transformam em posters motivacionais com rodas. Como se existíssemos apenas para inspirar pessoas sem deficiência a “dar valor à vida”. Como se acordar, trabalhar, apaixonarmo-nos ou simplesmente existir já tivesse obrigatoriamente música épica por trás. O tom entre a auto-ajuda e a idolatria, reservada aos “guerreiros”, não é a linguagem da aceitação. Desconfiem, sempre!

Da minha parte, vou continuar a cultivar o humor, não como terapia para curar, mas como uma forma de resistência preventiva. Uma espécie de músculo invisível contra a vergonha, o isolamento e o medo do olhar dos outros. Não porque a realidade deixe de ser o que é, mas porque o humor cria espaço para respirar dentro dela. No fundo, rir de mim nunca significou diminuir-me. Rir de tudo e de nada não mexe com a minha dignidade, sublinha a minha identidade. Ainda que partir-me a rir não dê muito jeito à minha “doença dos ossos de vidro”, o humor continuará a ser ponte no caminho que me faz sentir inteira. 


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Mafalda Ribeiro assina mensalmente o espaço Acesso Prioritário no MOTIVO.

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10 de jun. de 2026, 12:01

#Protagonistas

Opinião

Chego a uma sala, que me espera para uma mensagem de motivação feita de receita instantânea de como viver melhor, apesar das adversidades, e do alto da minha cadeira de rodas aviso:

— Não vos venho trazer os sete passos para a felicidade porque, como já devem ter reparado, eu não dou passos. 

O segundo seguinte é muitas vezes de desconforto em vez da previsível gargalha. A minha teoria confirma-se: continua a existir desconforto em rir de, e com, uma pessoa com deficiência, mesmo que seja ela a fazer a piada.

A sociedade tende a pôr as pessoas na minha condição em dois extremos igualmente redutores: o do “coitadinho” ou o do “super-herói inspirador”. O humor rebenta com essas duas caixas de uma vez só. Claro que isto não significa aceitar desrespeito. Nem romantizar a discriminação. O humor não substitui a acessibilidade, a inclusão ou a educação. Mas ajuda-nos a sobreviver emocionalmente enquanto o mundo ainda aprende a olhar para a diferença sem estranheza e cerimonial. O humor não é acionado como fuga ou negação da dor, mas como ferramenta de inteligência social e autonomia emocional. Essa perspetiva é a que desmonta o preconceito persistente de que as pessoas com deficiência têm obrigatoriamente de ocupar um lugar de fragilidade permanente ou solenidade.

O humor, para mim, é um lugar reservado ao exercício da liberdade, do controlo da narrativa, de desarme, de resistência e de humanidade. Rir também é uma forma de não deixar que os outros decidam quem sou.

Esta minha propensão para ter acesso a poder rir de tudo e fazer os outros rir, para a vida pesar menos, sei que herdei do meu pai. O sorriso, como marca pessoal visível, a escancarar a boca, independentemente das emoções, é a genética materna em todo o seu esplendor. Só que isto não é comum a toda a gente, portanto para os que defendem que há limites para o humor (e eu não sou essa pessoa!), ele é visto como incompatível com uma limitação física. Como se a fragilidade tivesse obrigatoriamente de vir acompanhada de olhar paternalista, silêncio ou terreno interdito à expansão da alegria. No meu caso, assumo que foi o humor que, tantas vezes, me salvou, e não a autocomiseração ou a pena dos outros.

Ser bem-disposta e deixar que o humor tome o seu lugar é uma forma de entrar numa sala antes que os preconceitos tenham acesso prioritário. Uma pessoa com deficiência aprende cedo, por experiência, que os outros a olham. Às vezes por curiosidade, às vezes por desconforto, às vezes com excesso de cuidado, outras com uma crueldade infantil que nem sempre desaparece na idade adulta. Há quem ache que o bullying só existe nas escolas, mas a marginalização pode ser sofisticada: está no silêncio estranho, no constrangimento, na infantilização, na condescendência disfarçada de simpatia. E é precisamente aí que o humor pode tornar-se uma arma extraordinária contra o capacitismo em vigor.

Na época em que fiz um curso de escrita humorística com o Ricardo Araujo Pereira (promovido pela editora Tinta da China), partilhei com ele uma dúvida que mantenho desde que subo a um palco ou tenho uma plateia à frente. É certo que não faço stand-up comedy (até porque também não consigo ficar de pé), mas o humor vai comigo para as formações, palestras e conferências. E eu raramente consigo avaliar a reação das pessoas. Se se riem, estão a rir-se porque eu tenho graça ou por condescendência? Porque querem aliviar o desconforto? Porque acham “fofinho” uma pessoa em cadeira de rodas fazer piadas? E se não se riem? É porque a piada falhou ou porque acham que não é suposto rir quando há uma deficiência envolvida?

Ele ouviu tudo isto com aquele ar de quem já percebeu a mecânica absurda dos humanos e deu-me um conselho simples:

— Faz logo um disclaimer no início e diz: podem rir-se de tudo, eu dou-vos autorização.

Aquela sugestão veio validar aquilo que sempre considerei: o humor dá-nos controlo sobre a narrativa. O problema nunca foi o humor, mas a resistência que o não normativo ainda provoca. O humor encurta a distância, quebra a tensão, aproxima, humaniza e mistura-nos a todos no mesmo grupo. Quando alguém ri connosco, deixa de nos tratar como um símbolo observado, passa a tratar-nos como gente a relacionar-se. Quando isso acontece não se trata de fingir que a deficiência não existe ou a camuflar o preconceito com entretenimento. A questão é, se há um elefante na sala, então vamos encará-lo e gargalhar com os seus movimentos. Porque há uma diferença enorme entre incluir alguém e colocá-lo numa redoma moral.

É como se tivéssemos autorização para ser exemplo de coragem, mas não para ser sarcásticos, ridículos, irónicos, até mordazes, divertidos ou absurdamente humanos.

Por isso é que acolhi com grande entusiasmo o convite da Joana Marques para ser a sua convidada surpresa, aquando dos espectáculos Desconfia. Significava que alguém que fazia do humor profissão me tinha tirado uma boa radiografia. Ela não só me deu autorização, como generosamente estendeu o palco dela para que eu autorizasse os outros a rir. Connosco, foi de certeza. De quê? Fica ao critério de cada um.

Houve naquelas quatro sessões (que fiz entre a MEO Arena e a Super Book Arena) qualquer coisa de deliciosamente libertador e inesquecível. Estar ali, no meio do humor, enquanto se desmontava com ironia fina a ideia que sempre me pareceu sagrada: a de que não se pode brincar com pessoas com deficiência (pode não dar cadeia mas dar acesso direto ao inferno!). O que eu me diverti naquele cenário não me agigantou, reduziu-me à minha significância humana e normalidade imperfeita. Mas a Joana esticou mais a corda e pôs o dedo na outra ferida e versão da mesma armadilha: aquela em que nos transformam em posters motivacionais com rodas. Como se existíssemos apenas para inspirar pessoas sem deficiência a “dar valor à vida”. Como se acordar, trabalhar, apaixonarmo-nos ou simplesmente existir já tivesse obrigatoriamente música épica por trás. O tom entre a auto-ajuda e a idolatria, reservada aos “guerreiros”, não é a linguagem da aceitação. Desconfiem, sempre!

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