Quem vê rótulos não vê intenções
#Protagonistas
Opinião

Peço perdão. Voltei a comprar mirtilos do Peru.
Enganei-me na caixa. Era a do lado. Mas, com a pressa, e no meio de tantas, nem reparei.
Neste caso, não posso dizer que a culpa tenha sido do rótulo me ter seduzido. Por norma sou do mais fútil e leviana nisto de escolher embalagens. Basta que seja bonita, ou que tenha um rótulo engraçado, com humor e sarcasmo, que salta para dentro do carrinho.
Mas esta embalagem era simples. Não prometia mais do que entregava. Nem sequer tinha nada de novo para me contar. Como aqueles amigos que passamos meses sem ver e quando os encontramos nos dizem, olha aqui amiga: “agora com menos açúcar;” “agora com mais 50ml de produto”; “agora com novo visual, o mesmo sabor”. Promessas vazias em que fingimos acreditar.
Também não foi uma daquelas resoluções que fazemos a nós próprios, quando, ali entre o corredor das massas e dos enlatados, nos deixamos iludir e decidimos que - independentemente do mês do calendário – ainda vamos a tempo de mudar de vida. Sermos uma pessoa nova (cheia de antioxidantes).
A mim acontece-me normalmente no corredor dos congelados. Só esta semana já comprei um pacote de batata duchesse porque gostei da forma como o nome soa, e imaginei que fizesse um empratamento bonito nos inúmeros jantares imaginários que dou em minha casa. E depois, duas prateleiras à frente, peguei num puré de beterraba, porque crua não há maneira de a comer, mas sei que é rica em ferro e assim mostro (finalmente) à minha mãe que consigo cuidar bem de mim.
É só uma caixa de mirtilos. Mas tenho os meus próprios rótulos. E apesar de não virem colados à testa, são uma espécie de segunda pele. Um deles diz, havendo alternativas, sê sustentável: “compra local, come da época”. Acho exagerado que aquela caixinha tenha de fazer mais de dez mil quilómetros para depois acabar numa prateleira do meu frigorífico.
Agora temos opções. Para o bem e para o mal, muitas. Demasiadas. Não admira que tenham surgido os personal shoppers até para o supermercado. Para nos ajudar a filtrar. E a ler as letras miudinhas da lista interminável de ingredientes. A decifrar as percentagens, os símbolos, as advertências. Um inferno! Aposto que já nem o pão é amassado pelo diabo. Ele não deve ter à mão farinha tipo-qualquer-coisa, emulsionantes e conservantes.
Mas continua a estar nos detalhes.
Nos citrinos, por exemplo. Descobri esta semana, em letra pequena, depois da variedade e da origem (e antes das instruções práticas: mantenha no frigorífico, lave antes de usar) a indicação explícita: descascar antes de consumir porque foram tratados após a colheita. Parece desnecessário, ou cautela excessiva. Não conheço ninguém que coma laranjas com casca. Até me lembrar de quem bebe água quente com limão de manhã, ou dos bolos com raspa de laranja.
Ninguém lê. Parece um detalhe. E nós cheios de pressa.
A caminho de outro corredor: o do skincare.
Onde achamos que estamos a salvo. Porque ali a única coisa que nos preocupa é encontrar um creme que nos resolva a cara, enquanto nós tratamos da vida. Mas os rótulos que procuramos para nós não são só uma segunda pele, fundem-se com ela. Para alguns, de forma muito perigosa.
Há dias, ouvi a fundadora de uma startup contar como descobriu que um creme tinha óleo de macadâmia, a que é gravemente alérgica. Estava no rótulo. Atrás, em letra no tamanho 6.
Esse episódio levou-a a criar uma app que lê os rótulos por nós. Uma espécie de personal shopper de bolso que, graças à inteligência artificial, nos ajuda a identificar aquilo que não nos podemos dar ao luxo de ignorar.
Às marcas cabe cumprir a lei – referir os ingredientes. A quem desenha a embalagem, pede-se foco no benefício.
O resto é por nossa conta.
Não conseguimos prestar atenção a tudo. Eu que o diga. Ainda tenho uma caixa de mirtilos do Peru no frigorífico.
Mas se até as máquinas estão a aprender a ler por nós, não estará na altura de repensarmos a forma como escrevemos para as pessoas?
Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO. Leia também:
Quem vê rótulos não vê intenções
#Protagonistas
Opinião

Peço perdão. Voltei a comprar mirtilos do Peru.
Enganei-me na caixa. Era a do lado. Mas, com a pressa, e no meio de tantas, nem reparei.
Neste caso, não posso dizer que a culpa tenha sido do rótulo me ter seduzido. Por norma sou do mais fútil e leviana nisto de escolher embalagens. Basta que seja bonita, ou que tenha um rótulo engraçado, com humor e sarcasmo, que salta para dentro do carrinho.
Mas esta embalagem era simples. Não prometia mais do que entregava. Nem sequer tinha nada de novo para me contar. Como aqueles amigos que passamos meses sem ver e quando os encontramos nos dizem, olha aqui amiga: “agora com menos açúcar;” “agora com mais 50ml de produto”; “agora com novo visual, o mesmo sabor”. Promessas vazias em que fingimos acreditar.
Também não foi uma daquelas resoluções que fazemos a nós próprios, quando, ali entre o corredor das massas e dos enlatados, nos deixamos iludir e decidimos que - independentemente do mês do calendário – ainda vamos a tempo de mudar de vida. Sermos uma pessoa nova (cheia de antioxidantes).
A mim acontece-me normalmente no corredor dos congelados. Só esta semana já comprei um pacote de batata duchesse porque gostei da forma como o nome soa, e imaginei que fizesse um empratamento bonito nos inúmeros jantares imaginários que dou em minha casa. E depois, duas prateleiras à frente, peguei num puré de beterraba, porque crua não há maneira de a comer, mas sei que é rica em ferro e assim mostro (finalmente) à minha mãe que consigo cuidar bem de mim.
É só uma caixa de mirtilos. Mas tenho os meus próprios rótulos. E apesar de não virem colados à testa, são uma espécie de segunda pele. Um deles diz, havendo alternativas, sê sustentável: “compra local, come da época”. Acho exagerado que aquela caixinha tenha de fazer mais de dez mil quilómetros para depois acabar numa prateleira do meu frigorífico.
Agora temos opções. Para o bem e para o mal, muitas. Demasiadas. Não admira que tenham surgido os personal shoppers até para o supermercado. Para nos ajudar a filtrar. E a ler as letras miudinhas da lista interminável de ingredientes. A decifrar as percentagens, os símbolos, as advertências. Um inferno! Aposto que já nem o pão é amassado pelo diabo. Ele não deve ter à mão farinha tipo-qualquer-coisa, emulsionantes e conservantes.
Mas continua a estar nos detalhes.
Nos citrinos, por exemplo. Descobri esta semana, em letra pequena, depois da variedade e da origem (e antes das instruções práticas: mantenha no frigorífico, lave antes de usar) a indicação explícita: descascar antes de consumir porque foram tratados após a colheita. Parece desnecessário, ou cautela excessiva. Não conheço ninguém que coma laranjas com casca. Até me lembrar de quem bebe água quente com limão de manhã, ou dos bolos com raspa de laranja.
Ninguém lê. Parece um detalhe. E nós cheios de pressa.
A caminho de outro corredor: o do skincare.
Onde achamos que estamos a salvo. Porque ali a única coisa que nos preocupa é encontrar um creme que nos resolva a cara, enquanto nós tratamos da vida. Mas os rótulos que procuramos para nós não são só uma segunda pele, fundem-se com ela. Para alguns, de forma muito perigosa.
Há dias, ouvi a fundadora de uma startup contar como descobriu que um creme tinha óleo de macadâmia, a que é gravemente alérgica. Estava no rótulo. Atrás, em letra no tamanho 6.
Esse episódio levou-a a criar uma app que lê os rótulos por nós. Uma espécie de personal shopper de bolso que, graças à inteligência artificial, nos ajuda a identificar aquilo que não nos podemos dar ao luxo de ignorar.
Às marcas cabe cumprir a lei – referir os ingredientes. A quem desenha a embalagem, pede-se foco no benefício.
O resto é por nossa conta.
Não conseguimos prestar atenção a tudo. Eu que o diga. Ainda tenho uma caixa de mirtilos do Peru no frigorífico.
Mas se até as máquinas estão a aprender a ler por nós, não estará na altura de repensarmos a forma como escrevemos para as pessoas?
Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO. Leia também:
Quem vê rótulos não vê intenções
#Protagonistas
Opinião

Peço perdão. Voltei a comprar mirtilos do Peru.
Enganei-me na caixa. Era a do lado. Mas, com a pressa, e no meio de tantas, nem reparei.
Neste caso, não posso dizer que a culpa tenha sido do rótulo me ter seduzido. Por norma sou do mais fútil e leviana nisto de escolher embalagens. Basta que seja bonita, ou que tenha um rótulo engraçado, com humor e sarcasmo, que salta para dentro do carrinho.
Mas esta embalagem era simples. Não prometia mais do que entregava. Nem sequer tinha nada de novo para me contar. Como aqueles amigos que passamos meses sem ver e quando os encontramos nos dizem, olha aqui amiga: “agora com menos açúcar;” “agora com mais 50ml de produto”; “agora com novo visual, o mesmo sabor”. Promessas vazias em que fingimos acreditar.
Também não foi uma daquelas resoluções que fazemos a nós próprios, quando, ali entre o corredor das massas e dos enlatados, nos deixamos iludir e decidimos que - independentemente do mês do calendário – ainda vamos a tempo de mudar de vida. Sermos uma pessoa nova (cheia de antioxidantes).
A mim acontece-me normalmente no corredor dos congelados. Só esta semana já comprei um pacote de batata duchesse porque gostei da forma como o nome soa, e imaginei que fizesse um empratamento bonito nos inúmeros jantares imaginários que dou em minha casa. E depois, duas prateleiras à frente, peguei num puré de beterraba, porque crua não há maneira de a comer, mas sei que é rica em ferro e assim mostro (finalmente) à minha mãe que consigo cuidar bem de mim.
É só uma caixa de mirtilos. Mas tenho os meus próprios rótulos. E apesar de não virem colados à testa, são uma espécie de segunda pele. Um deles diz, havendo alternativas, sê sustentável: “compra local, come da época”. Acho exagerado que aquela caixinha tenha de fazer mais de dez mil quilómetros para depois acabar numa prateleira do meu frigorífico.
Agora temos opções. Para o bem e para o mal, muitas. Demasiadas. Não admira que tenham surgido os personal shoppers até para o supermercado. Para nos ajudar a filtrar. E a ler as letras miudinhas da lista interminável de ingredientes. A decifrar as percentagens, os símbolos, as advertências. Um inferno! Aposto que já nem o pão é amassado pelo diabo. Ele não deve ter à mão farinha tipo-qualquer-coisa, emulsionantes e conservantes.
Mas continua a estar nos detalhes.
Nos citrinos, por exemplo. Descobri esta semana, em letra pequena, depois da variedade e da origem (e antes das instruções práticas: mantenha no frigorífico, lave antes de usar) a indicação explícita: descascar antes de consumir porque foram tratados após a colheita. Parece desnecessário, ou cautela excessiva. Não conheço ninguém que coma laranjas com casca. Até me lembrar de quem bebe água quente com limão de manhã, ou dos bolos com raspa de laranja.
Ninguém lê. Parece um detalhe. E nós cheios de pressa.
A caminho de outro corredor: o do skincare.
Onde achamos que estamos a salvo. Porque ali a única coisa que nos preocupa é encontrar um creme que nos resolva a cara, enquanto nós tratamos da vida. Mas os rótulos que procuramos para nós não são só uma segunda pele, fundem-se com ela. Para alguns, de forma muito perigosa.
Há dias, ouvi a fundadora de uma startup contar como descobriu que um creme tinha óleo de macadâmia, a que é gravemente alérgica. Estava no rótulo. Atrás, em letra no tamanho 6.
Esse episódio levou-a a criar uma app que lê os rótulos por nós. Uma espécie de personal shopper de bolso que, graças à inteligência artificial, nos ajuda a identificar aquilo que não nos podemos dar ao luxo de ignorar.
Às marcas cabe cumprir a lei – referir os ingredientes. A quem desenha a embalagem, pede-se foco no benefício.
O resto é por nossa conta.
Não conseguimos prestar atenção a tudo. Eu que o diga. Ainda tenho uma caixa de mirtilos do Peru no frigorífico.
Mas se até as máquinas estão a aprender a ler por nós, não estará na altura de repensarmos a forma como escrevemos para as pessoas?
Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO. Leia também:
Quem vê rótulos não vê intenções
#Protagonistas
Opinião

Peço perdão. Voltei a comprar mirtilos do Peru.
Enganei-me na caixa. Era a do lado. Mas, com a pressa, e no meio de tantas, nem reparei.
Neste caso, não posso dizer que a culpa tenha sido do rótulo me ter seduzido. Por norma sou do mais fútil e leviana nisto de escolher embalagens. Basta que seja bonita, ou que tenha um rótulo engraçado, com humor e sarcasmo, que salta para dentro do carrinho.
Mas esta embalagem era simples. Não prometia mais do que entregava. Nem sequer tinha nada de novo para me contar. Como aqueles amigos que passamos meses sem ver e quando os encontramos nos dizem, olha aqui amiga: “agora com menos açúcar;” “agora com mais 50ml de produto”; “agora com novo visual, o mesmo sabor”. Promessas vazias em que fingimos acreditar.
Também não foi uma daquelas resoluções que fazemos a nós próprios, quando, ali entre o corredor das massas e dos enlatados, nos deixamos iludir e decidimos que - independentemente do mês do calendário – ainda vamos a tempo de mudar de vida. Sermos uma pessoa nova (cheia de antioxidantes).
A mim acontece-me normalmente no corredor dos congelados. Só esta semana já comprei um pacote de batata duchesse porque gostei da forma como o nome soa, e imaginei que fizesse um empratamento bonito nos inúmeros jantares imaginários que dou em minha casa. E depois, duas prateleiras à frente, peguei num puré de beterraba, porque crua não há maneira de a comer, mas sei que é rica em ferro e assim mostro (finalmente) à minha mãe que consigo cuidar bem de mim.
É só uma caixa de mirtilos. Mas tenho os meus próprios rótulos. E apesar de não virem colados à testa, são uma espécie de segunda pele. Um deles diz, havendo alternativas, sê sustentável: “compra local, come da época”. Acho exagerado que aquela caixinha tenha de fazer mais de dez mil quilómetros para depois acabar numa prateleira do meu frigorífico.
Agora temos opções. Para o bem e para o mal, muitas. Demasiadas. Não admira que tenham surgido os personal shoppers até para o supermercado. Para nos ajudar a filtrar. E a ler as letras miudinhas da lista interminável de ingredientes. A decifrar as percentagens, os símbolos, as advertências. Um inferno! Aposto que já nem o pão é amassado pelo diabo. Ele não deve ter à mão farinha tipo-qualquer-coisa, emulsionantes e conservantes.
Mas continua a estar nos detalhes.
Nos citrinos, por exemplo. Descobri esta semana, em letra pequena, depois da variedade e da origem (e antes das instruções práticas: mantenha no frigorífico, lave antes de usar) a indicação explícita: descascar antes de consumir porque foram tratados após a colheita. Parece desnecessário, ou cautela excessiva. Não conheço ninguém que coma laranjas com casca. Até me lembrar de quem bebe água quente com limão de manhã, ou dos bolos com raspa de laranja.
Ninguém lê. Parece um detalhe. E nós cheios de pressa.
A caminho de outro corredor: o do skincare.
Onde achamos que estamos a salvo. Porque ali a única coisa que nos preocupa é encontrar um creme que nos resolva a cara, enquanto nós tratamos da vida. Mas os rótulos que procuramos para nós não são só uma segunda pele, fundem-se com ela. Para alguns, de forma muito perigosa.
Há dias, ouvi a fundadora de uma startup contar como descobriu que um creme tinha óleo de macadâmia, a que é gravemente alérgica. Estava no rótulo. Atrás, em letra no tamanho 6.
Esse episódio levou-a a criar uma app que lê os rótulos por nós. Uma espécie de personal shopper de bolso que, graças à inteligência artificial, nos ajuda a identificar aquilo que não nos podemos dar ao luxo de ignorar.
Às marcas cabe cumprir a lei – referir os ingredientes. A quem desenha a embalagem, pede-se foco no benefício.
O resto é por nossa conta.
Não conseguimos prestar atenção a tudo. Eu que o diga. Ainda tenho uma caixa de mirtilos do Peru no frigorífico.
Mas se até as máquinas estão a aprender a ler por nós, não estará na altura de repensarmos a forma como escrevemos para as pessoas?




