BEM-VINDOS A HAA-LA-LAND

|

Consultora de Comunicação

|

27 de jul. de 2026, 09:00

#Protagonistas
Opinião

Vamos por partes. 


1ª Parte — nunca tinha ouvido falar de Haaland 

Até ao início do mundial – que terminou no passado dia 19 de julho, nunca me tinha cruzado com o norueguês de 26 anos, camisola número 9 e avançado-centro da Noruega (tampouco sei o que faz um avançado-centro, mas eu e o meu filho fazemos anos num dia 9, por isso simpatizo com o número). De qualquer forma, depois da vitória da seleção norueguesa frente ao Brasil, nos oitavos de final, a internet explodiu, Haaland tornou-se um meme (ainda maior do que aparentemente já era) e o meu algoritmo não teve outra hipótese senão apresentar-me este Viking de quase 2 metros de altura (mede 1,95m). 

Mas se o tamanho impressiona, o currículo não fica atrás. O que salta à vista da enorme lista de recordes batidos – e que ajuda a explicar a alcunha de Cometa ou Terminator -, é isto: este homem marca golos mais depressa do que eu consigo dizer o seu nome completo: Erling Braut Haaland. Só pela Noruega, já marcou qualquer coisa como 60 golos. Alcançou números que o Messi ou o Ronaldo levaram décadas, ou vidas inteiras a construir. Para pôr a coisa em perspetiva, aos 25 anos, Messi tinha um total de 279 golos marcados. Ronaldo, tinha 160. Haaland vai em 355. Não percebo nada de futebol, mas diria que ele joga, claramente, noutro campeonato.


Intervalo – mas é o que faz fora das quatro linhas que fez com que me juntasse ao enorme clube de fãs e passasse a ser (orgulhosamente) uma Haalander

Como eu, há 71,3 milhões de pessoas a segui-lo no Instagram, e outras 8,7 milhões no Snapchat. E se estes números podiam ser justificados pela forma curiosa e algo excêntrica como cultiva o seu porte de atleta – dorme dez horas por noite, come umas 6 mil calorias diárias entre carnes e vísceras, medita e ainda arranja tempo para sauna e terapia de luz vermelha – foi o humor e a personalidade deste gigante que verdadeiramente nos desarmaram. 

Porque o resultado que importa é este: um coro de vozes que canta e trauteia o seu nome (tem um hino dedicado a si: The Haaland Song), uma legião de fãs que suspira pelo seu man bun (a sua imagem de marca) ou, a melhor de todas, há quem tenha batizado os filhos em sua homenagem (no Peru, há agora mais de 400 Haalands, quase 100 Erlings e quatro novos Erling Braut Haaland completos). 

O que nos prende? A frase não é minha, deparei-me com ela algures num post do Instagram de uma adepta brasileira convertida à Haalandmania, mas parece resumir bem o sentimento: “Gente bonita a gente já viu de sobra. Gente de verdade é que tá em falta”.

De facto, o norueguês não parece encaixar em nenhum molde. Inicialmente descrito como feio, estranho ou pouco atraente, não precisou de nenhum feitiço para passar de Shrek (com quem chegou a autocomparar-se na sua conta de Snapchat) a Príncipe Encantado. Bastou-lhe ser autêntico – essa palavra cada vez mais cara, e que ao contrário das malas de luxo que adora e coleciona (é conhecido pelas suas Hermès ou Louis Vuitton) ninguém consegue comprar ou falsificar. 

Haaland sai fora do 'guião' típico de um futebolista. Como o leite que gosta de beber, é cru. Nada ali é filtrado ou encenado. Zero media training. Cem por cento de eficácia. Além dos elásticos, nada lhe parece subir à cabeça. Por mais fama que tenha, mantém-se humilde. É um tipo indecentemente decente.


2ª Parte – a reviravolta: todos os títulos são provisórios

Haaland sabe exatamente o que quer fazer quando arrumar as chuteiras. Vai trocá-las por botas de borracha. Deixar o relvado por prados igualmente verdejantes. Passar o dia numa quinta, em cima do trator, a cuidar das suas vacas, em vez de fintar adversários. 

Confesso que por esta não estava à espera. Voltar às origens parece absurdo, depois de tanto sucesso. Achei que fosse seguir o típico guião futebolístico e abrir um negócio (talvez de malas?), ser treinador, selecionador ou comentador desportivo. Mas também não estava à espera de o ver regressar a casa com um guaxinim embalsamado a segurar uma garrafa de whiskey, e, no entanto, encaixa. 

Haaland já imaginou a vida depois de Haaland. 

Não tem medo de "nos confundir" ao mudar de direção – não se esgota nos títulos que acumulou, nem deixa que isso o defina.

E a verdade é que não há nada mais pessoal do que a forma como definimos sucesso. Para muitos, é ter dinheiro, um cargo pomposo que fique bem no LinkedIn. Para outros é ter tempo. Poder trabalhar de casa, sem filas de trânsito – o único para-arranca é o das máquinas a lavar. Ir buscar os filhos à escola sem pressa. Mas pode ser empreender. Deixar uma marca ou legado. Construir uma cultura que ainda se sinta à mesa de um almoço com mais de 200 ex-colaboradores, vinte anos depois. Para mim são as slow mornings

Certo é que ao longo da vida podemos usar muitos chapéus. E o futuro encaminha-se para que usemos cada vez mais, e vários – ao mesmo tempo ou uns depois dos outros (Portfolio Careers). Em Haaland cabem um Viking, um cowboy, um ex-rapper, um fashionista e, um dia, um agricultor.

Passamos o tempo a correr atrás de respostas. Onde quero estar daqui a 5 anos? Qual é o meu valor de mercado? O que me diferencia? Mas a pergunta mais relevante é esta: Quem sou eu além do meu cargo ou trabalho? 

Seja qual for o veredicto, aqui fica um conselho de Haaland: “Treat life like a game. Have fun, play more, smile more. Stop acting like every mistake defines you. Life feels much lighter when you stop trying to control how everyone sees you”.

Não percebo nada de futebol, mas mudar de campo também faz parte do jogo. 


Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO.

BEM-VINDOS A HAA-LA-LAND

Consultora de Comunicação

27 de jul. de 2026, 09:00

#Protagonistas

Opinião

Vamos por partes. 


1ª Parte — nunca tinha ouvido falar de Haaland 

Até ao início do mundial – que terminou no passado dia 19 de julho, nunca me tinha cruzado com o norueguês de 26 anos, camisola número 9 e avançado-centro da Noruega (tampouco sei o que faz um avançado-centro, mas eu e o meu filho fazemos anos num dia 9, por isso simpatizo com o número). De qualquer forma, depois da vitória da seleção norueguesa frente ao Brasil, nos oitavos de final, a internet explodiu, Haaland tornou-se um meme (ainda maior do que aparentemente já era) e o meu algoritmo não teve outra hipótese senão apresentar-me este Viking de quase 2 metros de altura (mede 1,95m). 

Mas se o tamanho impressiona, o currículo não fica atrás. O que salta à vista da enorme lista de recordes batidos – e que ajuda a explicar a alcunha de Cometa ou Terminator -, é isto: este homem marca golos mais depressa do que eu consigo dizer o seu nome completo: Erling Braut Haaland. Só pela Noruega, já marcou qualquer coisa como 60 golos. Alcançou números que o Messi ou o Ronaldo levaram décadas, ou vidas inteiras a construir. Para pôr a coisa em perspetiva, aos 25 anos, Messi tinha um total de 279 golos marcados. Ronaldo, tinha 160. Haaland vai em 355. Não percebo nada de futebol, mas diria que ele joga, claramente, noutro campeonato.


Intervalo – mas é o que faz fora das quatro linhas que fez com que me juntasse ao enorme clube de fãs e passasse a ser (orgulhosamente) uma Haalander

Como eu, há 71,3 milhões de pessoas a segui-lo no Instagram, e outras 8,7 milhões no Snapchat. E se estes números podiam ser justificados pela forma curiosa e algo excêntrica como cultiva o seu porte de atleta – dorme dez horas por noite, come umas 6 mil calorias diárias entre carnes e vísceras, medita e ainda arranja tempo para sauna e terapia de luz vermelha – foi o humor e a personalidade deste gigante que verdadeiramente nos desarmaram. 

Porque o resultado que importa é este: um coro de vozes que canta e trauteia o seu nome (tem um hino dedicado a si: The Haaland Song), uma legião de fãs que suspira pelo seu man bun (a sua imagem de marca) ou, a melhor de todas, há quem tenha batizado os filhos em sua homenagem (no Peru, há agora mais de 400 Haalands, quase 100 Erlings e quatro novos Erling Braut Haaland completos). 

O que nos prende? A frase não é minha, deparei-me com ela algures num post do Instagram de uma adepta brasileira convertida à Haalandmania, mas parece resumir bem o sentimento: “Gente bonita a gente já viu de sobra. Gente de verdade é que tá em falta”.

De facto, o norueguês não parece encaixar em nenhum molde. Inicialmente descrito como feio, estranho ou pouco atraente, não precisou de nenhum feitiço para passar de Shrek (com quem chegou a autocomparar-se na sua conta de Snapchat) a Príncipe Encantado. Bastou-lhe ser autêntico – essa palavra cada vez mais cara, e que ao contrário das malas de luxo que adora e coleciona (é conhecido pelas suas Hermès ou Louis Vuitton) ninguém consegue comprar ou falsificar. 

Haaland sai fora do 'guião' típico de um futebolista. Como o leite que gosta de beber, é cru. Nada ali é filtrado ou encenado. Zero media training. Cem por cento de eficácia. Além dos elásticos, nada lhe parece subir à cabeça. Por mais fama que tenha, mantém-se humilde. É um tipo indecentemente decente.


2ª Parte – a reviravolta: todos os títulos são provisórios

Haaland sabe exatamente o que quer fazer quando arrumar as chuteiras. Vai trocá-las por botas de borracha. Deixar o relvado por prados igualmente verdejantes. Passar o dia numa quinta, em cima do trator, a cuidar das suas vacas, em vez de fintar adversários. 

Confesso que por esta não estava à espera. Voltar às origens parece absurdo, depois de tanto sucesso. Achei que fosse seguir o típico guião futebolístico e abrir um negócio (talvez de malas?), ser treinador, selecionador ou comentador desportivo. Mas também não estava à espera de o ver regressar a casa com um guaxinim embalsamado a segurar uma garrafa de whiskey, e, no entanto, encaixa. 

Haaland já imaginou a vida depois de Haaland. 

Não tem medo de "nos confundir" ao mudar de direção – não se esgota nos títulos que acumulou, nem deixa que isso o defina.

E a verdade é que não há nada mais pessoal do que a forma como definimos sucesso. Para muitos, é ter dinheiro, um cargo pomposo que fique bem no LinkedIn. Para outros é ter tempo. Poder trabalhar de casa, sem filas de trânsito – o único para-arranca é o das máquinas a lavar. Ir buscar os filhos à escola sem pressa. Mas pode ser empreender. Deixar uma marca ou legado. Construir uma cultura que ainda se sinta à mesa de um almoço com mais de 200 ex-colaboradores, vinte anos depois. Para mim são as slow mornings

Certo é que ao longo da vida podemos usar muitos chapéus. E o futuro encaminha-se para que usemos cada vez mais, e vários – ao mesmo tempo ou uns depois dos outros (Portfolio Careers). Em Haaland cabem um Viking, um cowboy, um ex-rapper, um fashionista e, um dia, um agricultor.

Passamos o tempo a correr atrás de respostas. Onde quero estar daqui a 5 anos? Qual é o meu valor de mercado? O que me diferencia? Mas a pergunta mais relevante é esta: Quem sou eu além do meu cargo ou trabalho? 

Seja qual for o veredicto, aqui fica um conselho de Haaland: “Treat life like a game. Have fun, play more, smile more. Stop acting like every mistake defines you. Life feels much lighter when you stop trying to control how everyone sees you”.

Não percebo nada de futebol, mas mudar de campo também faz parte do jogo. 


Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO.

BEM-VINDOS A HAA-LA-LAND

Consultora de Comunicação

27 de jul. de 2026, 09:00

#Protagonistas

Opinião

Vamos por partes. 


1ª Parte — nunca tinha ouvido falar de Haaland 

Até ao início do mundial – que terminou no passado dia 19 de julho, nunca me tinha cruzado com o norueguês de 26 anos, camisola número 9 e avançado-centro da Noruega (tampouco sei o que faz um avançado-centro, mas eu e o meu filho fazemos anos num dia 9, por isso simpatizo com o número). De qualquer forma, depois da vitória da seleção norueguesa frente ao Brasil, nos oitavos de final, a internet explodiu, Haaland tornou-se um meme (ainda maior do que aparentemente já era) e o meu algoritmo não teve outra hipótese senão apresentar-me este Viking de quase 2 metros de altura (mede 1,95m). 

Mas se o tamanho impressiona, o currículo não fica atrás. O que salta à vista da enorme lista de recordes batidos – e que ajuda a explicar a alcunha de Cometa ou Terminator -, é isto: este homem marca golos mais depressa do que eu consigo dizer o seu nome completo: Erling Braut Haaland. Só pela Noruega, já marcou qualquer coisa como 60 golos. Alcançou números que o Messi ou o Ronaldo levaram décadas, ou vidas inteiras a construir. Para pôr a coisa em perspetiva, aos 25 anos, Messi tinha um total de 279 golos marcados. Ronaldo, tinha 160. Haaland vai em 355. Não percebo nada de futebol, mas diria que ele joga, claramente, noutro campeonato.


Intervalo – mas é o que faz fora das quatro linhas que fez com que me juntasse ao enorme clube de fãs e passasse a ser (orgulhosamente) uma Haalander

Como eu, há 71,3 milhões de pessoas a segui-lo no Instagram, e outras 8,7 milhões no Snapchat. E se estes números podiam ser justificados pela forma curiosa e algo excêntrica como cultiva o seu porte de atleta – dorme dez horas por noite, come umas 6 mil calorias diárias entre carnes e vísceras, medita e ainda arranja tempo para sauna e terapia de luz vermelha – foi o humor e a personalidade deste gigante que verdadeiramente nos desarmaram. 

Porque o resultado que importa é este: um coro de vozes que canta e trauteia o seu nome (tem um hino dedicado a si: The Haaland Song), uma legião de fãs que suspira pelo seu man bun (a sua imagem de marca) ou, a melhor de todas, há quem tenha batizado os filhos em sua homenagem (no Peru, há agora mais de 400 Haalands, quase 100 Erlings e quatro novos Erling Braut Haaland completos). 

O que nos prende? A frase não é minha, deparei-me com ela algures num post do Instagram de uma adepta brasileira convertida à Haalandmania, mas parece resumir bem o sentimento: “Gente bonita a gente já viu de sobra. Gente de verdade é que tá em falta”.

De facto, o norueguês não parece encaixar em nenhum molde. Inicialmente descrito como feio, estranho ou pouco atraente, não precisou de nenhum feitiço para passar de Shrek (com quem chegou a autocomparar-se na sua conta de Snapchat) a Príncipe Encantado. Bastou-lhe ser autêntico – essa palavra cada vez mais cara, e que ao contrário das malas de luxo que adora e coleciona (é conhecido pelas suas Hermès ou Louis Vuitton) ninguém consegue comprar ou falsificar. 

Haaland sai fora do 'guião' típico de um futebolista. Como o leite que gosta de beber, é cru. Nada ali é filtrado ou encenado. Zero media training. Cem por cento de eficácia. Além dos elásticos, nada lhe parece subir à cabeça. Por mais fama que tenha, mantém-se humilde. É um tipo indecentemente decente.


2ª Parte – a reviravolta: todos os títulos são provisórios

Haaland sabe exatamente o que quer fazer quando arrumar as chuteiras. Vai trocá-las por botas de borracha. Deixar o relvado por prados igualmente verdejantes. Passar o dia numa quinta, em cima do trator, a cuidar das suas vacas, em vez de fintar adversários. 

Confesso que por esta não estava à espera. Voltar às origens parece absurdo, depois de tanto sucesso. Achei que fosse seguir o típico guião futebolístico e abrir um negócio (talvez de malas?), ser treinador, selecionador ou comentador desportivo. Mas também não estava à espera de o ver regressar a casa com um guaxinim embalsamado a segurar uma garrafa de whiskey, e, no entanto, encaixa. 

Haaland já imaginou a vida depois de Haaland. 

Não tem medo de "nos confundir" ao mudar de direção – não se esgota nos títulos que acumulou, nem deixa que isso o defina.

E a verdade é que não há nada mais pessoal do que a forma como definimos sucesso. Para muitos, é ter dinheiro, um cargo pomposo que fique bem no LinkedIn. Para outros é ter tempo. Poder trabalhar de casa, sem filas de trânsito – o único para-arranca é o das máquinas a lavar. Ir buscar os filhos à escola sem pressa. Mas pode ser empreender. Deixar uma marca ou legado. Construir uma cultura que ainda se sinta à mesa de um almoço com mais de 200 ex-colaboradores, vinte anos depois. Para mim são as slow mornings

Certo é que ao longo da vida podemos usar muitos chapéus. E o futuro encaminha-se para que usemos cada vez mais, e vários – ao mesmo tempo ou uns depois dos outros (Portfolio Careers). Em Haaland cabem um Viking, um cowboy, um ex-rapper, um fashionista e, um dia, um agricultor.

Passamos o tempo a correr atrás de respostas. Onde quero estar daqui a 5 anos? Qual é o meu valor de mercado? O que me diferencia? Mas a pergunta mais relevante é esta: Quem sou eu além do meu cargo ou trabalho? 

Seja qual for o veredicto, aqui fica um conselho de Haaland: “Treat life like a game. Have fun, play more, smile more. Stop acting like every mistake defines you. Life feels much lighter when you stop trying to control how everyone sees you”.

Não percebo nada de futebol, mas mudar de campo também faz parte do jogo. 


Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO.

BEM-VINDOS A HAA-LA-LAND

|

Consultora de Comunicação

|

27 de jul. de 2026, 09:00

#Protagonistas

Opinião

Vamos por partes. 


1ª Parte — nunca tinha ouvido falar de Haaland 

Até ao início do mundial – que terminou no passado dia 19 de julho, nunca me tinha cruzado com o norueguês de 26 anos, camisola número 9 e avançado-centro da Noruega (tampouco sei o que faz um avançado-centro, mas eu e o meu filho fazemos anos num dia 9, por isso simpatizo com o número). De qualquer forma, depois da vitória da seleção norueguesa frente ao Brasil, nos oitavos de final, a internet explodiu, Haaland tornou-se um meme (ainda maior do que aparentemente já era) e o meu algoritmo não teve outra hipótese senão apresentar-me este Viking de quase 2 metros de altura (mede 1,95m). 

Mas se o tamanho impressiona, o currículo não fica atrás. O que salta à vista da enorme lista de recordes batidos – e que ajuda a explicar a alcunha de Cometa ou Terminator -, é isto: este homem marca golos mais depressa do que eu consigo dizer o seu nome completo: Erling Braut Haaland. Só pela Noruega, já marcou qualquer coisa como 60 golos. Alcançou números que o Messi ou o Ronaldo levaram décadas, ou vidas inteiras a construir. Para pôr a coisa em perspetiva, aos 25 anos, Messi tinha um total de 279 golos marcados. Ronaldo, tinha 160. Haaland vai em 355. Não percebo nada de futebol, mas diria que ele joga, claramente, noutro campeonato.


Intervalo – mas é o que faz fora das quatro linhas que fez com que me juntasse ao enorme clube de fãs e passasse a ser (orgulhosamente) uma Haalander

Como eu, há 71,3 milhões de pessoas a segui-lo no Instagram, e outras 8,7 milhões no Snapchat. E se estes números podiam ser justificados pela forma curiosa e algo excêntrica como cultiva o seu porte de atleta – dorme dez horas por noite, come umas 6 mil calorias diárias entre carnes e vísceras, medita e ainda arranja tempo para sauna e terapia de luz vermelha – foi o humor e a personalidade deste gigante que verdadeiramente nos desarmaram. 

Porque o resultado que importa é este: um coro de vozes que canta e trauteia o seu nome (tem um hino dedicado a si: The Haaland Song), uma legião de fãs que suspira pelo seu man bun (a sua imagem de marca) ou, a melhor de todas, há quem tenha batizado os filhos em sua homenagem (no Peru, há agora mais de 400 Haalands, quase 100 Erlings e quatro novos Erling Braut Haaland completos). 

O que nos prende? A frase não é minha, deparei-me com ela algures num post do Instagram de uma adepta brasileira convertida à Haalandmania, mas parece resumir bem o sentimento: “Gente bonita a gente já viu de sobra. Gente de verdade é que tá em falta”.

De facto, o norueguês não parece encaixar em nenhum molde. Inicialmente descrito como feio, estranho ou pouco atraente, não precisou de nenhum feitiço para passar de Shrek (com quem chegou a autocomparar-se na sua conta de Snapchat) a Príncipe Encantado. Bastou-lhe ser autêntico – essa palavra cada vez mais cara, e que ao contrário das malas de luxo que adora e coleciona (é conhecido pelas suas Hermès ou Louis Vuitton) ninguém consegue comprar ou falsificar. 

Haaland sai fora do 'guião' típico de um futebolista. Como o leite que gosta de beber, é cru. Nada ali é filtrado ou encenado. Zero media training. Cem por cento de eficácia. Além dos elásticos, nada lhe parece subir à cabeça. Por mais fama que tenha, mantém-se humilde. É um tipo indecentemente decente.


2ª Parte – a reviravolta: todos os títulos são provisórios

Haaland sabe exatamente o que quer fazer quando arrumar as chuteiras. Vai trocá-las por botas de borracha. Deixar o relvado por prados igualmente verdejantes. Passar o dia numa quinta, em cima do trator, a cuidar das suas vacas, em vez de fintar adversários. 

Confesso que por esta não estava à espera. Voltar às origens parece absurdo, depois de tanto sucesso. Achei que fosse seguir o típico guião futebolístico e abrir um negócio (talvez de malas?), ser treinador, selecionador ou comentador desportivo. Mas também não estava à espera de o ver regressar a casa com um guaxinim embalsamado a segurar uma garrafa de whiskey, e, no entanto, encaixa. 

Haaland já imaginou a vida depois de Haaland. 

Não tem medo de "nos confundir" ao mudar de direção – não se esgota nos títulos que acumulou, nem deixa que isso o defina.

E a verdade é que não há nada mais pessoal do que a forma como definimos sucesso. Para muitos, é ter dinheiro, um cargo pomposo que fique bem no LinkedIn. Para outros é ter tempo. Poder trabalhar de casa, sem filas de trânsito – o único para-arranca é o das máquinas a lavar. Ir buscar os filhos à escola sem pressa. Mas pode ser empreender. Deixar uma marca ou legado. Construir uma cultura que ainda se sinta à mesa de um almoço com mais de 200 ex-colaboradores, vinte anos depois. Para mim são as slow mornings

Certo é que ao longo da vida podemos usar muitos chapéus. E o futuro encaminha-se para que usemos cada vez mais, e vários – ao mesmo tempo ou uns depois dos outros (Portfolio Careers). Em Haaland cabem um Viking, um cowboy, um ex-rapper, um fashionista e, um dia, um agricultor.

Passamos o tempo a correr atrás de respostas. Onde quero estar daqui a 5 anos? Qual é o meu valor de mercado? O que me diferencia? Mas a pergunta mais relevante é esta: Quem sou eu além do meu cargo ou trabalho? 

Seja qual for o veredicto, aqui fica um conselho de Haaland: “Treat life like a game. Have fun, play more, smile more. Stop acting like every mistake defines you. Life feels much lighter when you stop trying to control how everyone sees you”.

Não percebo nada de futebol, mas mudar de campo também faz parte do jogo. 


Helena Pereira assina mensalmente o espaço A Escriturária, no MOTIVO.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.