Por favor, (queira pagar e) não incomodar
#Motivação
Opinião

Todos temos um tipo. O meu é este: pequeno, interessante, ou antes, com charme, idealmente no campo, com piscina ou água por perto, com bolos caseiros à fatia e fruta fresca à disposição, que não custe os olhos da cara, mas ainda assim me proporcione vistas desafogadas.
Quando encontro, digo que sim! Mas não sem antes submeter o pedido ao “processo”.
Depois de ver as fotos todas e analisar se a beleza interior condiz com a exterior, abro a caixa de comentários. Esmiúço-os a todos. Sempre da mesma forma. Do pior, para o melhor.
Quero saber logo os podres. Saber com o que posso contar (dizem que há ar condicionado, mas não há ou não funciona – típico). Daquilo com que não me importo e até passa (mesmo quando “no passa nada” e a televisão só tem canais espanhóis). Ou aquilo que não estou mesmo para tolerar (Rottweilers e Dobermans à solta, colados à minha perna, a babarem o meu jantar) – sobretudo estando eu a pagar.
Mas “o processo” obedece a critérios. Filtro sempre o que me parece exagero. Ou o que não tem qualquer tipo de sentido porque não é algo que se possa controlar – como por exemplo, quem se queixa que no campo há mosquitos, vespas, formigas ou outros bichos a infernizar a estadia.
Problema: desta vez desvalorizei o processo. Ignorei parte dos comentários. Ou por outra, categorizei-os dentro do filtro “que exagero”. Não era.
Longe de me querer rever num: “sinta-se em casa”, porque, afinal, é precisamente para fugir da minha que gosto de ir para outras, há algo que prezo e valorizo e que me faz voltar ou recomendar a outros a visita: a hospitalidade.
Por outras palavras, a forma como sou recebida. Aliás, peço perdão, a forma como sou servida.
A palavra "servir" tornou-se quase ofensiva. Parece sinónimo de subserviência. Mas não é. Um cirurgião de renome serve. Um hotel de cinco estrelas também. O serviço (e quem o presta) é, na maioria das vezes, precisamente aquilo que justifica o preço.
Mas parece que caminhamos todos para uma sociedade que cada vez mais quer consumidores, e não pessoas. Uma sociedade que não está para servir ninguém.
Eliminam-se as questões. Desaparecem todas as dúvidas, reduz-se isso de pedir conselhos, e aquela coisa (tão rica) do estou “só” a fazer conversa. Que (neste caso) até podemos estar no Alentejo, mas já ninguém tem vagar para isto e aquilo.
É por isso que ali, e por toda a parte, vemos lojas que reduzem funcionários, mas mantêm preços. Restaurantes com QR code, pedidos automáticos, em regime de self-service – onde já só falta sermos nós a fazer a comida. Ou hotéis onde ninguém nos diz “bem-vindos” porque quase não existe receção. Tudo a fazer uma só coisa: reduzir o contacto humano.
Chamam-lhe conveniência.
Não vou mentir. Até fico feliz quando chego a um destes hotéis e não está lá ninguém (outros clientes ou funcionários à vista). Parece que é tudo nosso. A piscina só para mim. As espreguiçadeiras também. Ninguém nos chateia, e entre um mergulho e outro, substituem-nos as garrafas de água, fazem-nos a cama e o quarto ainda aparece limpo.
Mas incomoda-me quando isso não é fruto do acaso e passa a estratégia deliberada. Quando o mote é “queremos o seu dinheiro, não o seu tempo”. Quando se mercantiliza a atenção, como se a relação entre cliente e prestador terminasse no pagamento. Depois disso, comprou o serviço? Ótimo, agora não faça perguntas, não peça alterações, não exija disponibilidade.
Mas disponibilidade deveria ser o nome do meio de quem decide fazer vida na área da hospitalidade. E que, por definição, pressupõe receber e cuidar dos outros com gentileza e generosidade.
Não foi o caso da minha anfitriã. E os comentários “avisaram-me”.
Apesar dos seus cabelos loiros nórdicos e dos seus olhos azuis alemães, tinha um dos nomes mais portugueses de todos: Maria. Mas não só não queria ir com as outras, como não ia com mais ninguém.
Exceto se esse alguém fosse estrangeiro e lhe permitisse conversar sobre o que ela tinha estado “doing” ao invés do que estava “pra ali fazendo”. Aí a Maria arranjava tempo. Recebia. Entretinha. Recordava os tempos em que geria multinacionais. Justificava as reviews que classificavam o atendimento como cinco estrelas.
Talvez fosse o sotaque a soar-lhe a dinheiro. Talvez fosse porque só entre eles se sentia entre iguais. Em casa.
Aos outros, reservava apenas o serviço mínimo. Denunciando uma clara atitude de “Pague-me, mas não me obrigue a servi-lo”.
O mesmo desdém guardava para quem trabalhava com e para ela. Obrigados a trabalhar sem um único obrigada.
Só com os cães a Maria parecia genuína. Deixava-os fazer o que bem entendiam. Leais, seguiam-na para todo o lado. Peço perdão, servindo-a para todo o lado.
Parti com uma dúvida: porque é que alguém com este perfil escolhe a hospitalidade como forma de vida?
Pelo sim, pelo não, por causa desta Maria, acrescentei uma nova categoria ao meu processo.
Da próxima vez, antes de pagar, vou querer saber se quem me recebe gosta de receber. Se, para além de hóspedes, também aceita pessoas.
Por favor, (queira pagar e) não incomodar
#Motivação
Opinião

Todos temos um tipo. O meu é este: pequeno, interessante, ou antes, com charme, idealmente no campo, com piscina ou água por perto, com bolos caseiros à fatia e fruta fresca à disposição, que não custe os olhos da cara, mas ainda assim me proporcione vistas desafogadas.
Quando encontro, digo que sim! Mas não sem antes submeter o pedido ao “processo”.
Depois de ver as fotos todas e analisar se a beleza interior condiz com a exterior, abro a caixa de comentários. Esmiúço-os a todos. Sempre da mesma forma. Do pior, para o melhor.
Quero saber logo os podres. Saber com o que posso contar (dizem que há ar condicionado, mas não há ou não funciona – típico). Daquilo com que não me importo e até passa (mesmo quando “no passa nada” e a televisão só tem canais espanhóis). Ou aquilo que não estou mesmo para tolerar (Rottweilers e Dobermans à solta, colados à minha perna, a babarem o meu jantar) – sobretudo estando eu a pagar.
Mas “o processo” obedece a critérios. Filtro sempre o que me parece exagero. Ou o que não tem qualquer tipo de sentido porque não é algo que se possa controlar – como por exemplo, quem se queixa que no campo há mosquitos, vespas, formigas ou outros bichos a infernizar a estadia.
Problema: desta vez desvalorizei o processo. Ignorei parte dos comentários. Ou por outra, categorizei-os dentro do filtro “que exagero”. Não era.
Longe de me querer rever num: “sinta-se em casa”, porque, afinal, é precisamente para fugir da minha que gosto de ir para outras, há algo que prezo e valorizo e que me faz voltar ou recomendar a outros a visita: a hospitalidade.
Por outras palavras, a forma como sou recebida. Aliás, peço perdão, a forma como sou servida.
A palavra "servir" tornou-se quase ofensiva. Parece sinónimo de subserviência. Mas não é. Um cirurgião de renome serve. Um hotel de cinco estrelas também. O serviço (e quem o presta) é, na maioria das vezes, precisamente aquilo que justifica o preço.
Mas parece que caminhamos todos para uma sociedade que cada vez mais quer consumidores, e não pessoas. Uma sociedade que não está para servir ninguém.
Eliminam-se as questões. Desaparecem todas as dúvidas, reduz-se isso de pedir conselhos, e aquela coisa (tão rica) do estou “só” a fazer conversa. Que (neste caso) até podemos estar no Alentejo, mas já ninguém tem vagar para isto e aquilo.
É por isso que ali, e por toda a parte, vemos lojas que reduzem funcionários, mas mantêm preços. Restaurantes com QR code, pedidos automáticos, em regime de self-service – onde já só falta sermos nós a fazer a comida. Ou hotéis onde ninguém nos diz “bem-vindos” porque quase não existe receção. Tudo a fazer uma só coisa: reduzir o contacto humano.
Chamam-lhe conveniência.
Não vou mentir. Até fico feliz quando chego a um destes hotéis e não está lá ninguém (outros clientes ou funcionários à vista). Parece que é tudo nosso. A piscina só para mim. As espreguiçadeiras também. Ninguém nos chateia, e entre um mergulho e outro, substituem-nos as garrafas de água, fazem-nos a cama e o quarto ainda aparece limpo.
Mas incomoda-me quando isso não é fruto do acaso e passa a estratégia deliberada. Quando o mote é “queremos o seu dinheiro, não o seu tempo”. Quando se mercantiliza a atenção, como se a relação entre cliente e prestador terminasse no pagamento. Depois disso, comprou o serviço? Ótimo, agora não faça perguntas, não peça alterações, não exija disponibilidade.
Mas disponibilidade deveria ser o nome do meio de quem decide fazer vida na área da hospitalidade. E que, por definição, pressupõe receber e cuidar dos outros com gentileza e generosidade.
Não foi o caso da minha anfitriã. E os comentários “avisaram-me”.
Apesar dos seus cabelos loiros nórdicos e dos seus olhos azuis alemães, tinha um dos nomes mais portugueses de todos: Maria. Mas não só não queria ir com as outras, como não ia com mais ninguém.
Exceto se esse alguém fosse estrangeiro e lhe permitisse conversar sobre o que ela tinha estado “doing” ao invés do que estava “pra ali fazendo”. Aí a Maria arranjava tempo. Recebia. Entretinha. Recordava os tempos em que geria multinacionais. Justificava as reviews que classificavam o atendimento como cinco estrelas.
Talvez fosse o sotaque a soar-lhe a dinheiro. Talvez fosse porque só entre eles se sentia entre iguais. Em casa.
Aos outros, reservava apenas o serviço mínimo. Denunciando uma clara atitude de “Pague-me, mas não me obrigue a servi-lo”.
O mesmo desdém guardava para quem trabalhava com e para ela. Obrigados a trabalhar sem um único obrigada.
Só com os cães a Maria parecia genuína. Deixava-os fazer o que bem entendiam. Leais, seguiam-na para todo o lado. Peço perdão, servindo-a para todo o lado.
Parti com uma dúvida: porque é que alguém com este perfil escolhe a hospitalidade como forma de vida?
Pelo sim, pelo não, por causa desta Maria, acrescentei uma nova categoria ao meu processo.
Da próxima vez, antes de pagar, vou querer saber se quem me recebe gosta de receber. Se, para além de hóspedes, também aceita pessoas.
Por favor, (queira pagar e) não incomodar
#Motivação
Opinião

Todos temos um tipo. O meu é este: pequeno, interessante, ou antes, com charme, idealmente no campo, com piscina ou água por perto, com bolos caseiros à fatia e fruta fresca à disposição, que não custe os olhos da cara, mas ainda assim me proporcione vistas desafogadas.
Quando encontro, digo que sim! Mas não sem antes submeter o pedido ao “processo”.
Depois de ver as fotos todas e analisar se a beleza interior condiz com a exterior, abro a caixa de comentários. Esmiúço-os a todos. Sempre da mesma forma. Do pior, para o melhor.
Quero saber logo os podres. Saber com o que posso contar (dizem que há ar condicionado, mas não há ou não funciona – típico). Daquilo com que não me importo e até passa (mesmo quando “no passa nada” e a televisão só tem canais espanhóis). Ou aquilo que não estou mesmo para tolerar (Rottweilers e Dobermans à solta, colados à minha perna, a babarem o meu jantar) – sobretudo estando eu a pagar.
Mas “o processo” obedece a critérios. Filtro sempre o que me parece exagero. Ou o que não tem qualquer tipo de sentido porque não é algo que se possa controlar – como por exemplo, quem se queixa que no campo há mosquitos, vespas, formigas ou outros bichos a infernizar a estadia.
Problema: desta vez desvalorizei o processo. Ignorei parte dos comentários. Ou por outra, categorizei-os dentro do filtro “que exagero”. Não era.
Longe de me querer rever num: “sinta-se em casa”, porque, afinal, é precisamente para fugir da minha que gosto de ir para outras, há algo que prezo e valorizo e que me faz voltar ou recomendar a outros a visita: a hospitalidade.
Por outras palavras, a forma como sou recebida. Aliás, peço perdão, a forma como sou servida.
A palavra "servir" tornou-se quase ofensiva. Parece sinónimo de subserviência. Mas não é. Um cirurgião de renome serve. Um hotel de cinco estrelas também. O serviço (e quem o presta) é, na maioria das vezes, precisamente aquilo que justifica o preço.
Mas parece que caminhamos todos para uma sociedade que cada vez mais quer consumidores, e não pessoas. Uma sociedade que não está para servir ninguém.
Eliminam-se as questões. Desaparecem todas as dúvidas, reduz-se isso de pedir conselhos, e aquela coisa (tão rica) do estou “só” a fazer conversa. Que (neste caso) até podemos estar no Alentejo, mas já ninguém tem vagar para isto e aquilo.
É por isso que ali, e por toda a parte, vemos lojas que reduzem funcionários, mas mantêm preços. Restaurantes com QR code, pedidos automáticos, em regime de self-service – onde já só falta sermos nós a fazer a comida. Ou hotéis onde ninguém nos diz “bem-vindos” porque quase não existe receção. Tudo a fazer uma só coisa: reduzir o contacto humano.
Chamam-lhe conveniência.
Não vou mentir. Até fico feliz quando chego a um destes hotéis e não está lá ninguém (outros clientes ou funcionários à vista). Parece que é tudo nosso. A piscina só para mim. As espreguiçadeiras também. Ninguém nos chateia, e entre um mergulho e outro, substituem-nos as garrafas de água, fazem-nos a cama e o quarto ainda aparece limpo.
Mas incomoda-me quando isso não é fruto do acaso e passa a estratégia deliberada. Quando o mote é “queremos o seu dinheiro, não o seu tempo”. Quando se mercantiliza a atenção, como se a relação entre cliente e prestador terminasse no pagamento. Depois disso, comprou o serviço? Ótimo, agora não faça perguntas, não peça alterações, não exija disponibilidade.
Mas disponibilidade deveria ser o nome do meio de quem decide fazer vida na área da hospitalidade. E que, por definição, pressupõe receber e cuidar dos outros com gentileza e generosidade.
Não foi o caso da minha anfitriã. E os comentários “avisaram-me”.
Apesar dos seus cabelos loiros nórdicos e dos seus olhos azuis alemães, tinha um dos nomes mais portugueses de todos: Maria. Mas não só não queria ir com as outras, como não ia com mais ninguém.
Exceto se esse alguém fosse estrangeiro e lhe permitisse conversar sobre o que ela tinha estado “doing” ao invés do que estava “pra ali fazendo”. Aí a Maria arranjava tempo. Recebia. Entretinha. Recordava os tempos em que geria multinacionais. Justificava as reviews que classificavam o atendimento como cinco estrelas.
Talvez fosse o sotaque a soar-lhe a dinheiro. Talvez fosse porque só entre eles se sentia entre iguais. Em casa.
Aos outros, reservava apenas o serviço mínimo. Denunciando uma clara atitude de “Pague-me, mas não me obrigue a servi-lo”.
O mesmo desdém guardava para quem trabalhava com e para ela. Obrigados a trabalhar sem um único obrigada.
Só com os cães a Maria parecia genuína. Deixava-os fazer o que bem entendiam. Leais, seguiam-na para todo o lado. Peço perdão, servindo-a para todo o lado.
Parti com uma dúvida: porque é que alguém com este perfil escolhe a hospitalidade como forma de vida?
Pelo sim, pelo não, por causa desta Maria, acrescentei uma nova categoria ao meu processo.
Da próxima vez, antes de pagar, vou querer saber se quem me recebe gosta de receber. Se, para além de hóspedes, também aceita pessoas.
Por favor, (queira pagar e) não incomodar
#Motivação
Opinião

Todos temos um tipo. O meu é este: pequeno, interessante, ou antes, com charme, idealmente no campo, com piscina ou água por perto, com bolos caseiros à fatia e fruta fresca à disposição, que não custe os olhos da cara, mas ainda assim me proporcione vistas desafogadas.
Quando encontro, digo que sim! Mas não sem antes submeter o pedido ao “processo”.
Depois de ver as fotos todas e analisar se a beleza interior condiz com a exterior, abro a caixa de comentários. Esmiúço-os a todos. Sempre da mesma forma. Do pior, para o melhor.
Quero saber logo os podres. Saber com o que posso contar (dizem que há ar condicionado, mas não há ou não funciona – típico). Daquilo com que não me importo e até passa (mesmo quando “no passa nada” e a televisão só tem canais espanhóis). Ou aquilo que não estou mesmo para tolerar (Rottweilers e Dobermans à solta, colados à minha perna, a babarem o meu jantar) – sobretudo estando eu a pagar.
Mas “o processo” obedece a critérios. Filtro sempre o que me parece exagero. Ou o que não tem qualquer tipo de sentido porque não é algo que se possa controlar – como por exemplo, quem se queixa que no campo há mosquitos, vespas, formigas ou outros bichos a infernizar a estadia.
Problema: desta vez desvalorizei o processo. Ignorei parte dos comentários. Ou por outra, categorizei-os dentro do filtro “que exagero”. Não era.
Longe de me querer rever num: “sinta-se em casa”, porque, afinal, é precisamente para fugir da minha que gosto de ir para outras, há algo que prezo e valorizo e que me faz voltar ou recomendar a outros a visita: a hospitalidade.
Por outras palavras, a forma como sou recebida. Aliás, peço perdão, a forma como sou servida.
A palavra "servir" tornou-se quase ofensiva. Parece sinónimo de subserviência. Mas não é. Um cirurgião de renome serve. Um hotel de cinco estrelas também. O serviço (e quem o presta) é, na maioria das vezes, precisamente aquilo que justifica o preço.
Mas parece que caminhamos todos para uma sociedade que cada vez mais quer consumidores, e não pessoas. Uma sociedade que não está para servir ninguém.
Eliminam-se as questões. Desaparecem todas as dúvidas, reduz-se isso de pedir conselhos, e aquela coisa (tão rica) do estou “só” a fazer conversa. Que (neste caso) até podemos estar no Alentejo, mas já ninguém tem vagar para isto e aquilo.
É por isso que ali, e por toda a parte, vemos lojas que reduzem funcionários, mas mantêm preços. Restaurantes com QR code, pedidos automáticos, em regime de self-service – onde já só falta sermos nós a fazer a comida. Ou hotéis onde ninguém nos diz “bem-vindos” porque quase não existe receção. Tudo a fazer uma só coisa: reduzir o contacto humano.
Chamam-lhe conveniência.
Não vou mentir. Até fico feliz quando chego a um destes hotéis e não está lá ninguém (outros clientes ou funcionários à vista). Parece que é tudo nosso. A piscina só para mim. As espreguiçadeiras também. Ninguém nos chateia, e entre um mergulho e outro, substituem-nos as garrafas de água, fazem-nos a cama e o quarto ainda aparece limpo.
Mas incomoda-me quando isso não é fruto do acaso e passa a estratégia deliberada. Quando o mote é “queremos o seu dinheiro, não o seu tempo”. Quando se mercantiliza a atenção, como se a relação entre cliente e prestador terminasse no pagamento. Depois disso, comprou o serviço? Ótimo, agora não faça perguntas, não peça alterações, não exija disponibilidade.
Mas disponibilidade deveria ser o nome do meio de quem decide fazer vida na área da hospitalidade. E que, por definição, pressupõe receber e cuidar dos outros com gentileza e generosidade.
Não foi o caso da minha anfitriã. E os comentários “avisaram-me”.
Apesar dos seus cabelos loiros nórdicos e dos seus olhos azuis alemães, tinha um dos nomes mais portugueses de todos: Maria. Mas não só não queria ir com as outras, como não ia com mais ninguém.
Exceto se esse alguém fosse estrangeiro e lhe permitisse conversar sobre o que ela tinha estado “doing” ao invés do que estava “pra ali fazendo”. Aí a Maria arranjava tempo. Recebia. Entretinha. Recordava os tempos em que geria multinacionais. Justificava as reviews que classificavam o atendimento como cinco estrelas.
Talvez fosse o sotaque a soar-lhe a dinheiro. Talvez fosse porque só entre eles se sentia entre iguais. Em casa.
Aos outros, reservava apenas o serviço mínimo. Denunciando uma clara atitude de “Pague-me, mas não me obrigue a servi-lo”.
O mesmo desdém guardava para quem trabalhava com e para ela. Obrigados a trabalhar sem um único obrigada.
Só com os cães a Maria parecia genuína. Deixava-os fazer o que bem entendiam. Leais, seguiam-na para todo o lado. Peço perdão, servindo-a para todo o lado.
Parti com uma dúvida: porque é que alguém com este perfil escolhe a hospitalidade como forma de vida?
Pelo sim, pelo não, por causa desta Maria, acrescentei uma nova categoria ao meu processo.
Da próxima vez, antes de pagar, vou querer saber se quem me recebe gosta de receber. Se, para além de hóspedes, também aceita pessoas.




