Maria patrão, Maria empregada
#Protagonistas
Opinião

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Convém recordá-lo, sobretudo quando se fala de empresas. Um empregado e um patrão não ocupam o mesmo lugar, não carregam o mesmo tipo de responsabilidade e, por isso, também não são julgados da mesma forma.
Sei-o por experiência. Durante muitos anos tive uma empresa e nunca vivi na ilusão romântica de que somos todos amigos. Não somos. Quando uma empresa atravessa o seu momento mais difícil, a responsabilidade deixa de ser difusa. Tem um rosto e um nome: o do patrão.
Lembrei-me disso há dias, quando me cruzei com alguém que passou vinte minutos a maldizer o patrão para concluir, quase em tom de inveja: "Deve ser muito bom ser-se patrão".
Sim, há coisas boas. A principal é a liberdade de organizar o próprio tempo. Pelo menos na teoria.
Na prática, és tu quem abre a porta ao fornecedor num sábado de manhã, quem recebe o telefonema do contabilista com más notícias, quem enfrenta o cliente insatisfeito, quem responde perante o Estado por uma lista interminável de obrigações. Ser patrão está muito longe da caricatura dourada que tantas vezes se faz dele.
Mas também já estive do outro lado.
Ser empregado significa, demasiadas vezes, viver com menos informação do que seria desejável, depender de lideranças que nem sempre lideram e aceitar horários que se prolongam muito além do razoável sem que isso se reflita no salário. Também aqui há insegurança, frustração e desgaste.
É precisamente por conhecer os dois lados que desconfio das generalizações. Nem todos os patrões exploram. Nem todos os empregados se desresponsabilizam. Há excelentes e péssimos exemplos em ambos os lugares.
O problema começa quando deixamos de ver pessoas e passamos a ver categorias. "Os patrões". "Os empregados". Como se bastasse pertencer a um grupo para explicar comportamentos, intenções ou culpas.
Conheço quem prefira atacar a construir, tanto entre empregados como entre empregadores. E conheço também quem faça exatamente o contrário.
A diferença nunca esteve no lugar que ocupa na hierarquia, mas sim na forma como entende a relação com o outro.
A falta de comunicação continua a ser um dos maiores dramas das organizações. Instala-se devagar, alimenta mal-entendidos, cria ressentimentos e acaba por produzir conflitos que poderiam ter sido evitados. Ainda assim, continua a haver quem considere uma aproximação um sinal de fraqueza ou quase um crime de lesa-majestade.
Se queremos empresas mais saudáveis, teremos de reaprender a conversar. O futuro do tecido empresarial depende tanto da capacidade de criar riqueza como da capacidade de criar confiança. Porque o dia em que o único interlocutor for uma inteligência artificial talvez seja o dia em que descubramos que a eficiência nunca conseguiu substituir aquilo que torna possível qualquer comunidade de trabalho: a humanidade das relações.
Patrícia Reis assina, mensalmente, a rubrica Instruções para o teu chefe no MOTIVO.
OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:
Maria patrão, Maria empregada
#Protagonistas
Opinião

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Convém recordá-lo, sobretudo quando se fala de empresas. Um empregado e um patrão não ocupam o mesmo lugar, não carregam o mesmo tipo de responsabilidade e, por isso, também não são julgados da mesma forma.
Sei-o por experiência. Durante muitos anos tive uma empresa e nunca vivi na ilusão romântica de que somos todos amigos. Não somos. Quando uma empresa atravessa o seu momento mais difícil, a responsabilidade deixa de ser difusa. Tem um rosto e um nome: o do patrão.
Lembrei-me disso há dias, quando me cruzei com alguém que passou vinte minutos a maldizer o patrão para concluir, quase em tom de inveja: "Deve ser muito bom ser-se patrão".
Sim, há coisas boas. A principal é a liberdade de organizar o próprio tempo. Pelo menos na teoria.
Na prática, és tu quem abre a porta ao fornecedor num sábado de manhã, quem recebe o telefonema do contabilista com más notícias, quem enfrenta o cliente insatisfeito, quem responde perante o Estado por uma lista interminável de obrigações. Ser patrão está muito longe da caricatura dourada que tantas vezes se faz dele.
Mas também já estive do outro lado.
Ser empregado significa, demasiadas vezes, viver com menos informação do que seria desejável, depender de lideranças que nem sempre lideram e aceitar horários que se prolongam muito além do razoável sem que isso se reflita no salário. Também aqui há insegurança, frustração e desgaste.
É precisamente por conhecer os dois lados que desconfio das generalizações. Nem todos os patrões exploram. Nem todos os empregados se desresponsabilizam. Há excelentes e péssimos exemplos em ambos os lugares.
O problema começa quando deixamos de ver pessoas e passamos a ver categorias. "Os patrões". "Os empregados". Como se bastasse pertencer a um grupo para explicar comportamentos, intenções ou culpas.
Conheço quem prefira atacar a construir, tanto entre empregados como entre empregadores. E conheço também quem faça exatamente o contrário.
A diferença nunca esteve no lugar que ocupa na hierarquia, mas sim na forma como entende a relação com o outro.
A falta de comunicação continua a ser um dos maiores dramas das organizações. Instala-se devagar, alimenta mal-entendidos, cria ressentimentos e acaba por produzir conflitos que poderiam ter sido evitados. Ainda assim, continua a haver quem considere uma aproximação um sinal de fraqueza ou quase um crime de lesa-majestade.
Se queremos empresas mais saudáveis, teremos de reaprender a conversar. O futuro do tecido empresarial depende tanto da capacidade de criar riqueza como da capacidade de criar confiança. Porque o dia em que o único interlocutor for uma inteligência artificial talvez seja o dia em que descubramos que a eficiência nunca conseguiu substituir aquilo que torna possível qualquer comunidade de trabalho: a humanidade das relações.
Patrícia Reis assina, mensalmente, a rubrica Instruções para o teu chefe no MOTIVO.
OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:
Maria patrão, Maria empregada
#Protagonistas
Opinião

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Convém recordá-lo, sobretudo quando se fala de empresas. Um empregado e um patrão não ocupam o mesmo lugar, não carregam o mesmo tipo de responsabilidade e, por isso, também não são julgados da mesma forma.
Sei-o por experiência. Durante muitos anos tive uma empresa e nunca vivi na ilusão romântica de que somos todos amigos. Não somos. Quando uma empresa atravessa o seu momento mais difícil, a responsabilidade deixa de ser difusa. Tem um rosto e um nome: o do patrão.
Lembrei-me disso há dias, quando me cruzei com alguém que passou vinte minutos a maldizer o patrão para concluir, quase em tom de inveja: "Deve ser muito bom ser-se patrão".
Sim, há coisas boas. A principal é a liberdade de organizar o próprio tempo. Pelo menos na teoria.
Na prática, és tu quem abre a porta ao fornecedor num sábado de manhã, quem recebe o telefonema do contabilista com más notícias, quem enfrenta o cliente insatisfeito, quem responde perante o Estado por uma lista interminável de obrigações. Ser patrão está muito longe da caricatura dourada que tantas vezes se faz dele.
Mas também já estive do outro lado.
Ser empregado significa, demasiadas vezes, viver com menos informação do que seria desejável, depender de lideranças que nem sempre lideram e aceitar horários que se prolongam muito além do razoável sem que isso se reflita no salário. Também aqui há insegurança, frustração e desgaste.
É precisamente por conhecer os dois lados que desconfio das generalizações. Nem todos os patrões exploram. Nem todos os empregados se desresponsabilizam. Há excelentes e péssimos exemplos em ambos os lugares.
O problema começa quando deixamos de ver pessoas e passamos a ver categorias. "Os patrões". "Os empregados". Como se bastasse pertencer a um grupo para explicar comportamentos, intenções ou culpas.
Conheço quem prefira atacar a construir, tanto entre empregados como entre empregadores. E conheço também quem faça exatamente o contrário.
A diferença nunca esteve no lugar que ocupa na hierarquia, mas sim na forma como entende a relação com o outro.
A falta de comunicação continua a ser um dos maiores dramas das organizações. Instala-se devagar, alimenta mal-entendidos, cria ressentimentos e acaba por produzir conflitos que poderiam ter sido evitados. Ainda assim, continua a haver quem considere uma aproximação um sinal de fraqueza ou quase um crime de lesa-majestade.
Se queremos empresas mais saudáveis, teremos de reaprender a conversar. O futuro do tecido empresarial depende tanto da capacidade de criar riqueza como da capacidade de criar confiança. Porque o dia em que o único interlocutor for uma inteligência artificial talvez seja o dia em que descubramos que a eficiência nunca conseguiu substituir aquilo que torna possível qualquer comunidade de trabalho: a humanidade das relações.
Patrícia Reis assina, mensalmente, a rubrica Instruções para o teu chefe no MOTIVO.
OUTRAS CRÓNICAS DE PATRÍCIA REIS NO MOTIVO:
Maria patrão, Maria empregada
#Protagonistas
Opinião

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Convém recordá-lo, sobretudo quando se fala de empresas. Um empregado e um patrão não ocupam o mesmo lugar, não carregam o mesmo tipo de responsabilidade e, por isso, também não são julgados da mesma forma.
Sei-o por experiência. Durante muitos anos tive uma empresa e nunca vivi na ilusão romântica de que somos todos amigos. Não somos. Quando uma empresa atravessa o seu momento mais difícil, a responsabilidade deixa de ser difusa. Tem um rosto e um nome: o do patrão.
Lembrei-me disso há dias, quando me cruzei com alguém que passou vinte minutos a maldizer o patrão para concluir, quase em tom de inveja: "Deve ser muito bom ser-se patrão".
Sim, há coisas boas. A principal é a liberdade de organizar o próprio tempo. Pelo menos na teoria.
Na prática, és tu quem abre a porta ao fornecedor num sábado de manhã, quem recebe o telefonema do contabilista com más notícias, quem enfrenta o cliente insatisfeito, quem responde perante o Estado por uma lista interminável de obrigações. Ser patrão está muito longe da caricatura dourada que tantas vezes se faz dele.
Mas também já estive do outro lado.
Ser empregado significa, demasiadas vezes, viver com menos informação do que seria desejável, depender de lideranças que nem sempre lideram e aceitar horários que se prolongam muito além do razoável sem que isso se reflita no salário. Também aqui há insegurança, frustração e desgaste.
É precisamente por conhecer os dois lados que desconfio das generalizações. Nem todos os patrões exploram. Nem todos os empregados se desresponsabilizam. Há excelentes e péssimos exemplos em ambos os lugares.
O problema começa quando deixamos de ver pessoas e passamos a ver categorias. "Os patrões". "Os empregados". Como se bastasse pertencer a um grupo para explicar comportamentos, intenções ou culpas.
Conheço quem prefira atacar a construir, tanto entre empregados como entre empregadores. E conheço também quem faça exatamente o contrário.
A diferença nunca esteve no lugar que ocupa na hierarquia, mas sim na forma como entende a relação com o outro.
A falta de comunicação continua a ser um dos maiores dramas das organizações. Instala-se devagar, alimenta mal-entendidos, cria ressentimentos e acaba por produzir conflitos que poderiam ter sido evitados. Ainda assim, continua a haver quem considere uma aproximação um sinal de fraqueza ou quase um crime de lesa-majestade.
Se queremos empresas mais saudáveis, teremos de reaprender a conversar. O futuro do tecido empresarial depende tanto da capacidade de criar riqueza como da capacidade de criar confiança. Porque o dia em que o único interlocutor for uma inteligência artificial talvez seja o dia em que descubramos que a eficiência nunca conseguiu substituir aquilo que torna possível qualquer comunidade de trabalho: a humanidade das relações.




