#Protagonistas

AGÊNCIA DO MÊS: AS - Agência de Marketing e Comunicação para Autores

Do turismo à mentoria literária, de Portimão para o mundo, Analita Santos, fundadora da AS, construiu aquilo que o mercado português ainda não tinha: uma agência pensada exclusivamente para acompanhar autores desde o manuscrito até ao leitor, com rigor, estratégia e o cuidado de quem sabe que cada livro carrega mais do que palavras. 

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29 de mai. de 2026, 11:47

Contar a história desta agência é, também, contar um pouco da história de Analita Santos. A fundadora da AS - Agência de Marketing e Comunicação para Autores não chegou até aqui por um caminho linear. Chegou depois de um burnout, de uma crise económica global, de uma reinvenção forçada e de uma pergunta simples que a ajudou a encontrar o caminho: “O que é que nunca saiu da minha vida?”. A resposta estava nos livros e na escrita. Hoje, a AS é uma agência sediada em Portimão que acompanha autores desde o manuscrito, com uma visão que combina rigor editorial, estratégia de comunicação e uma relação próxima com cada projeto literário. 


Analita Santos mudou de área profissional e seguiu uma das maiores paixões: a escrita


A crise que abriu o caminho

Analita Santos vinha da área do turismo. Era responsável pelo departamento de marketing e comunicação de uma cadeia hoteleira, um universo de muita exigência, onde cada detalhe da comunicação era polido ao milímetro. Quando a crise económica, em 2011, obrigou a despedimentos, viu a sua equipa ser reduzida e as responsabilidades acumuladas. Sofreu um esgotamento que a forçou a parar, a fazer uma pausa longa o suficiente para olhar com clareza para aquilo que queria fazer.

"Olhei para trás e percebi que existia um denominador comum, aquilo que fez parte da minha vida, desde sempre, que foi a leitura e a escrita", conta. A partir daí, vieram as formações, uma pós-graduação, um mestrado e uma reconversão gradual para o mundo das palavras, da mentoria literária e da formação de autores. Quando a pandemia fechou os espaços presenciais, a digitalização abriu outros lugares, de escala nacional, com uma comunidade que crescia à medida que Analita produzia conteúdo nas redes sociais.

A AS viria depois, como consequência natural de uma observação que ia acumulando, há anos, junto dos autores com quem trabalhava. O problema não era a falta de vontade de escrever ou o talento, era tudo o que vinha depois.


A questão a que a agência veio dar resposta

"É cada vez mais fácil publicar um livro", diz Analita. E esse é precisamente o paradoxo que está na raiz da AS. Nunca foi tão simples colocar um livro no mercado. E nunca foi tão difícil fazer com que ele chegue aos leitores com qualidade, consistência e uma estratégia que lhe faça justiça.

Em Portugal, existem revisores, designers, paginadores, profissionais de marketing digital, editoras tradicionais e prestadores de serviços editoriais. O que faltava era uma estrutura pensada exclusivamente para o autor, que olhasse para o livro como projeto literário, editorial, comunicacional e estratégico ao mesmo tempo. "Fui-me apercebendo, ao falar com os autores, dessas dificuldades, e foi então que decidi criar a agência com foco no marketing e na comunicação dos autores e dos seus trabalhos".


Ao longo dos últimos meses, vários projetos acompanhados pela AS têm chegado às mãos dos leitores


Como funciona, na prática?

Cada projeto que chega à AS começa com um diagnóstico. Antes de qualquer proposta de serviço, é preciso perceber o que o autor procura, o que o autor escreveu, em que fase está o manuscrito, quais são os seus objetivos e que caminho editorial faz mais sentido. Há autores que chegam com uma ideia, outros com um manuscrito completo, outros ainda com um livro já publicado que não teve a visibilidade esperada.

"Depende muito da especificidade e das próprias necessidades do autor", explica. "Quando surge um projeto, aquilo que faço é, em função da sua especificidade, ver com quem é que poderemos trabalhar". A agência apoia-se numa rede de parceiros, selecionados com critério, e com quem Analita mantém uma relação de confiança construída ao longo do tempo. 

O percurso típico começa, muitas vezes, por uma leitura crítica, que avalia a estrutura, a coerência narrativa e aquilo que precisa de ser melhorado. A seguir, e dependendo do caminho escolhido, o processo pode incluir revisão de texto, criação de capa, paginação, preparação para distribuição, estratégia de comunicação, gestão de redes sociais, criação de website, newsletters e, em alguns casos, presença na Amazon através do modelo de print on demand.

A agência trabalha tanto com autores que pretendem seguir a via da autopublicação, como com autores que querem apresentar os seus projetos a editoras tradicionais. 


As ilusões mais comuns

Quando perguntamos a Analita Santos qual é a maior ilusão que encontra nos autores que chegam até si, a resposta é imediata: "A maior ilusão é pensarem que, quando o livro está escrito, está o processo feito”. A responsável reconhece que escrever um livro é uma conquista enorme, mas alerta que um manuscrito terminado não é, necessariamente, um manuscrito pronto para publicação. E um livro publicado não se vende sozinho, mesmo quando existe uma editora por trás. "Os autores, hoje em dia, também têm de se promover, têm de estar presentes nas redes sociais, precisam de ter um papel muito ativo na divulgação e na promoção dos seus livros".

Há ainda outra ilusão que Analita considera especialmente prejudicial: a ideia de que a única forma de publicar um livro é pagar por isso. As editoras vanity, como são conhecidas aquelas que cobram ao autor pela publicação, são um fenómeno crescente em Portugal e nem sempre o serviço prestado corresponde ao investimento realizado. "O interesse dessas editoras não é tanto chegar aos leitores. O mercado-alvo das editoras vanity são os autores que querem publicar os seus livros".

E cita exemplos que provam que o caminho da edição de autor, quando bem trabalhado, pode ser igualmente legítimo e eficaz. Pedro Freitas (@opoetadacidade) começou com edições de autor e chegou a uma editora tradicional pela qualidade e consistência do trabalho. O próprio José Saramago financiou um dos seus primeiros livros, recorda-nos Analita para depois completar: "Quando o trabalho tem qualidade, surgem as oportunidades”.


Analita Santos começou por criar conteúdos digitais relacionados com livros, escreveu o livro Erros de Português Nunca Mais, publicado pela Manuscrito Editora, e mais recentemente fundou a AS


Redes sociais: oportunidade com método

A presença digital dos autores é um dos temas centrais no trabalho da AS, e Analita Santos não tem dúvidas sobre a sua importância, nem sobre os seus riscos. "Para já, aquilo que falo com os autores com quem trabalho é que precisamos de estar presentes nas redes sociais, mas não sermos dependentes delas".

Na perspetiva da profissional, as redes são uma ferramenta poderosa para criar proximidade com leitores, dar visibilidade a obras que, de outra forma, passariam despercebidas e construir uma identidade autoral consistente. Acrescenta ainda que os fenómenos do BookTok, Bookstagram e os influenciadores literários são movimentos extraordinários para fazer os livros chegar a novos leitores. "As redes sociais têm os seus problemas, mas também têm esse lado de proximidade, e de ajudar a criar novos leitores, ou pelo menos, de fazer com que os livros estejam na mão das pessoas".

A dependência exclusiva das plataformas, no entanto, é um risco que não deve ser ignorado. "Se algo acontece, deixamos de ter com quem comunicar". É por isso que Analita defende, de forma consistente, que o autor deve complementar a presença nas redes sociais com um website próprio, um blogue, uma newsletter. Ferramentas que se podem controlar, que não desaparecem com uma mudança de algoritmo e que constroem uma relação mais duradoura com os leitores. 


Empreender num nicho e fora das grandes cidades

Criar uma microempresa em Portugal não é fácil, e Analita di-lo sem romantismos. "Parece muito glamouroso trabalhar com os livros, há uma conceção quase romântica. Mas depois, é complicado por tudo o que envolve ter um negócio, ter uma microempresa". O marido trata das finanças da agência, é o "diretor financeiro”, e assegura a parte do negócio que está mais longe da criatividade, mas que, ainda assim, não pode ser ignorada.

Quanto à localização, em Portimão, é, em simultâneo, um desafio e um fator de diferenciação. "Acaba por ser uma afirmação, no sentido em que prova que é possível não estar em Lisboa, ou no Porto, para fazer acontecer". O digital permite-lhe trabalhar com autores de todo o país, realizar sessões de mentoria por Zoom, acompanhar projetos à distância e estar presente em eventos nacionais, sempre que necessário. Há custos logísticos que não existiriam se estivesse numa grande cidade, como as deslocações frequentes para Lisboa ou Porto, mas a empresária acredita que compensa, pelo facto de ter uma ligação real às regiões e provar que a cultura literária não tem de ser apenas um assunto da capital. 


A inteligência artificial e a voz autoral

É impossível falar de escrita e edição, em 2026, sem tocar no tema que está em todo o lado. Analita Santos não rejeita a inteligência artificial, mas tem posições firmes sobre como deve ser utilizada. "Vejo a inteligência artificial como algo que veio para ficar, mas quando falamos numa componente criativa como a escrita, há várias camadas a considerar".

O que preocupa a fundadora da AS é a perda de autenticidade. "Parece que estão a escrever todos de forma igual. Estamos a perder completamente a autenticidade". O uso do ChatGPT e de outras ferramentas para criar textos em vez de os apoiar é, na sua ótica, um problema que está a homogeneizar a escrita e a diluir as vozes próprias dos autores.

Porém, não a descarta na totalidade. Analita utiliza a inteligência artificial como apoio a certas componentes do processo, como na pesquisa, mas nunca como substituta da escrita. "Os meus textos são criados por mim, é a minha voz. E a revisão é sempre humana". 




O que ainda está por construir

De olhos no futuro, Analita Santos quer que a AS seja reconhecida como uma referência no acompanhamento profissional de autores em Portugal. Mais do que como uma prestadora de serviços, quer afirmar-se enquanto estrutura relevante, que ajudou a mudar a forma como os autores portugueses pensam a publicação, a comunicação e a construção de uma carreira literária.

"Quero mais parcerias, quero criar mais conteúdos de literacia editorial, porque penso que faz muita falta". A newsletter mensal que criou vai nesse sentido, assim como o blogue, onde aborda temas como leitura crítica, estratégia de marketing para livros, presença digital de autores ou a diferença entre um manuscrito terminado e um manuscrito pronto para publicação.

Não perde a convicção de que o mercado precisa de olhar de forma diferente para os autores portugueses. "A AS nasceu para ocupar esse lugar entre a escrita e o leitor, entre o sonho e o método, entre a obra e a sua possibilidade real de chegar ao mundo".

É um projeto de pequena dimensão, ainda jovem, mas construído com a clareza de quem sabe exatamente o que falta, e com vontade de criar mais estrutura, de chegar a mais lugares, e de fazer diferente do que o mercado tem feito. Página a página. Livro a livro.


LER TAMBÉM:

#Protagonistas

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Do turismo à mentoria literária, de Portimão para o mundo, Analita Santos, fundadora da AS, construiu aquilo que o mercado português ainda não tinha: uma agência pensada exclusivamente para acompanhar autores desde o manuscrito até ao leitor, com rigor, estratégia e o cuidado de quem sabe que cada livro carrega mais do que palavras. 

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29 de mai. de 2026, 11:47

Contar a história desta agência é, também, contar um pouco da história de Analita Santos. A fundadora da AS - Agência de Marketing e Comunicação para Autores não chegou até aqui por um caminho linear. Chegou depois de um burnout, de uma crise económica global, de uma reinvenção forçada e de uma pergunta simples que a ajudou a encontrar o caminho: “O que é que nunca saiu da minha vida?”. A resposta estava nos livros e na escrita. Hoje, a AS é uma agência sediada em Portimão que acompanha autores desde o manuscrito, com uma visão que combina rigor editorial, estratégia de comunicação e uma relação próxima com cada projeto literário. 


Analita Santos mudou de área profissional e seguiu uma das maiores paixões: a escrita


A crise que abriu o caminho

Analita Santos vinha da área do turismo. Era responsável pelo departamento de marketing e comunicação de uma cadeia hoteleira, um universo de muita exigência, onde cada detalhe da comunicação era polido ao milímetro. Quando a crise económica, em 2011, obrigou a despedimentos, viu a sua equipa ser reduzida e as responsabilidades acumuladas. Sofreu um esgotamento que a forçou a parar, a fazer uma pausa longa o suficiente para olhar com clareza para aquilo que queria fazer.

"Olhei para trás e percebi que existia um denominador comum, aquilo que fez parte da minha vida, desde sempre, que foi a leitura e a escrita", conta. A partir daí, vieram as formações, uma pós-graduação, um mestrado e uma reconversão gradual para o mundo das palavras, da mentoria literária e da formação de autores. Quando a pandemia fechou os espaços presenciais, a digitalização abriu outros lugares, de escala nacional, com uma comunidade que crescia à medida que Analita produzia conteúdo nas redes sociais.

A AS viria depois, como consequência natural de uma observação que ia acumulando, há anos, junto dos autores com quem trabalhava. O problema não era a falta de vontade de escrever ou o talento, era tudo o que vinha depois.


A questão a que a agência veio dar resposta

"É cada vez mais fácil publicar um livro", diz Analita. E esse é precisamente o paradoxo que está na raiz da AS. Nunca foi tão simples colocar um livro no mercado. E nunca foi tão difícil fazer com que ele chegue aos leitores com qualidade, consistência e uma estratégia que lhe faça justiça.

Em Portugal, existem revisores, designers, paginadores, profissionais de marketing digital, editoras tradicionais e prestadores de serviços editoriais. O que faltava era uma estrutura pensada exclusivamente para o autor, que olhasse para o livro como projeto literário, editorial, comunicacional e estratégico ao mesmo tempo. "Fui-me apercebendo, ao falar com os autores, dessas dificuldades, e foi então que decidi criar a agência com foco no marketing e na comunicação dos autores e dos seus trabalhos".


Ao longo dos últimos meses, vários projetos acompanhados pela AS têm chegado às mãos dos leitores


Como funciona, na prática?

Cada projeto que chega à AS começa com um diagnóstico. Antes de qualquer proposta de serviço, é preciso perceber o que o autor procura, o que o autor escreveu, em que fase está o manuscrito, quais são os seus objetivos e que caminho editorial faz mais sentido. Há autores que chegam com uma ideia, outros com um manuscrito completo, outros ainda com um livro já publicado que não teve a visibilidade esperada.

"Depende muito da especificidade e das próprias necessidades do autor", explica. "Quando surge um projeto, aquilo que faço é, em função da sua especificidade, ver com quem é que poderemos trabalhar". A agência apoia-se numa rede de parceiros, selecionados com critério, e com quem Analita mantém uma relação de confiança construída ao longo do tempo. 

O percurso típico começa, muitas vezes, por uma leitura crítica, que avalia a estrutura, a coerência narrativa e aquilo que precisa de ser melhorado. A seguir, e dependendo do caminho escolhido, o processo pode incluir revisão de texto, criação de capa, paginação, preparação para distribuição, estratégia de comunicação, gestão de redes sociais, criação de website, newsletters e, em alguns casos, presença na Amazon através do modelo de print on demand.

A agência trabalha tanto com autores que pretendem seguir a via da autopublicação, como com autores que querem apresentar os seus projetos a editoras tradicionais. 


As ilusões mais comuns

Quando perguntamos a Analita Santos qual é a maior ilusão que encontra nos autores que chegam até si, a resposta é imediata: "A maior ilusão é pensarem que, quando o livro está escrito, está o processo feito”. A responsável reconhece que escrever um livro é uma conquista enorme, mas alerta que um manuscrito terminado não é, necessariamente, um manuscrito pronto para publicação. E um livro publicado não se vende sozinho, mesmo quando existe uma editora por trás. "Os autores, hoje em dia, também têm de se promover, têm de estar presentes nas redes sociais, precisam de ter um papel muito ativo na divulgação e na promoção dos seus livros".

Há ainda outra ilusão que Analita considera especialmente prejudicial: a ideia de que a única forma de publicar um livro é pagar por isso. As editoras vanity, como são conhecidas aquelas que cobram ao autor pela publicação, são um fenómeno crescente em Portugal e nem sempre o serviço prestado corresponde ao investimento realizado. "O interesse dessas editoras não é tanto chegar aos leitores. O mercado-alvo das editoras vanity são os autores que querem publicar os seus livros".

E cita exemplos que provam que o caminho da edição de autor, quando bem trabalhado, pode ser igualmente legítimo e eficaz. Pedro Freitas (@opoetadacidade) começou com edições de autor e chegou a uma editora tradicional pela qualidade e consistência do trabalho. O próprio José Saramago financiou um dos seus primeiros livros, recorda-nos Analita para depois completar: "Quando o trabalho tem qualidade, surgem as oportunidades”.


Analita Santos começou por criar conteúdos digitais relacionados com livros, escreveu o livro Erros de Português Nunca Mais, publicado pela Manuscrito Editora, e mais recentemente fundou a AS


Redes sociais: oportunidade com método

A presença digital dos autores é um dos temas centrais no trabalho da AS, e Analita Santos não tem dúvidas sobre a sua importância, nem sobre os seus riscos. "Para já, aquilo que falo com os autores com quem trabalho é que precisamos de estar presentes nas redes sociais, mas não sermos dependentes delas".

Na perspetiva da profissional, as redes são uma ferramenta poderosa para criar proximidade com leitores, dar visibilidade a obras que, de outra forma, passariam despercebidas e construir uma identidade autoral consistente. Acrescenta ainda que os fenómenos do BookTok, Bookstagram e os influenciadores literários são movimentos extraordinários para fazer os livros chegar a novos leitores. "As redes sociais têm os seus problemas, mas também têm esse lado de proximidade, e de ajudar a criar novos leitores, ou pelo menos, de fazer com que os livros estejam na mão das pessoas".

A dependência exclusiva das plataformas, no entanto, é um risco que não deve ser ignorado. "Se algo acontece, deixamos de ter com quem comunicar". É por isso que Analita defende, de forma consistente, que o autor deve complementar a presença nas redes sociais com um website próprio, um blogue, uma newsletter. Ferramentas que se podem controlar, que não desaparecem com uma mudança de algoritmo e que constroem uma relação mais duradoura com os leitores. 


Empreender num nicho e fora das grandes cidades

Criar uma microempresa em Portugal não é fácil, e Analita di-lo sem romantismos. "Parece muito glamouroso trabalhar com os livros, há uma conceção quase romântica. Mas depois, é complicado por tudo o que envolve ter um negócio, ter uma microempresa". O marido trata das finanças da agência, é o "diretor financeiro”, e assegura a parte do negócio que está mais longe da criatividade, mas que, ainda assim, não pode ser ignorada.

Quanto à localização, em Portimão, é, em simultâneo, um desafio e um fator de diferenciação. "Acaba por ser uma afirmação, no sentido em que prova que é possível não estar em Lisboa, ou no Porto, para fazer acontecer". O digital permite-lhe trabalhar com autores de todo o país, realizar sessões de mentoria por Zoom, acompanhar projetos à distância e estar presente em eventos nacionais, sempre que necessário. Há custos logísticos que não existiriam se estivesse numa grande cidade, como as deslocações frequentes para Lisboa ou Porto, mas a empresária acredita que compensa, pelo facto de ter uma ligação real às regiões e provar que a cultura literária não tem de ser apenas um assunto da capital. 


A inteligência artificial e a voz autoral

É impossível falar de escrita e edição, em 2026, sem tocar no tema que está em todo o lado. Analita Santos não rejeita a inteligência artificial, mas tem posições firmes sobre como deve ser utilizada. "Vejo a inteligência artificial como algo que veio para ficar, mas quando falamos numa componente criativa como a escrita, há várias camadas a considerar".

O que preocupa a fundadora da AS é a perda de autenticidade. "Parece que estão a escrever todos de forma igual. Estamos a perder completamente a autenticidade". O uso do ChatGPT e de outras ferramentas para criar textos em vez de os apoiar é, na sua ótica, um problema que está a homogeneizar a escrita e a diluir as vozes próprias dos autores.

Porém, não a descarta na totalidade. Analita utiliza a inteligência artificial como apoio a certas componentes do processo, como na pesquisa, mas nunca como substituta da escrita. "Os meus textos são criados por mim, é a minha voz. E a revisão é sempre humana". 




O que ainda está por construir

De olhos no futuro, Analita Santos quer que a AS seja reconhecida como uma referência no acompanhamento profissional de autores em Portugal. Mais do que como uma prestadora de serviços, quer afirmar-se enquanto estrutura relevante, que ajudou a mudar a forma como os autores portugueses pensam a publicação, a comunicação e a construção de uma carreira literária.

"Quero mais parcerias, quero criar mais conteúdos de literacia editorial, porque penso que faz muita falta". A newsletter mensal que criou vai nesse sentido, assim como o blogue, onde aborda temas como leitura crítica, estratégia de marketing para livros, presença digital de autores ou a diferença entre um manuscrito terminado e um manuscrito pronto para publicação.

Não perde a convicção de que o mercado precisa de olhar de forma diferente para os autores portugueses. "A AS nasceu para ocupar esse lugar entre a escrita e o leitor, entre o sonho e o método, entre a obra e a sua possibilidade real de chegar ao mundo".

É um projeto de pequena dimensão, ainda jovem, mas construído com a clareza de quem sabe exatamente o que falta, e com vontade de criar mais estrutura, de chegar a mais lugares, e de fazer diferente do que o mercado tem feito. Página a página. Livro a livro.


LER TAMBÉM:

#Protagonistas

AGÊNCIA DO MÊS: AS - Agência de Marketing e Comunicação para Autores

Do turismo à mentoria literária, de Portimão para o mundo, Analita Santos, fundadora da AS, construiu aquilo que o mercado português ainda não tinha: uma agência pensada exclusivamente para acompanhar autores desde o manuscrito até ao leitor, com rigor, estratégia e o cuidado de quem sabe que cada livro carrega mais do que palavras. 

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29 de mai. de 2026, 11:47

Contar a história desta agência é, também, contar um pouco da história de Analita Santos. A fundadora da AS - Agência de Marketing e Comunicação para Autores não chegou até aqui por um caminho linear. Chegou depois de um burnout, de uma crise económica global, de uma reinvenção forçada e de uma pergunta simples que a ajudou a encontrar o caminho: “O que é que nunca saiu da minha vida?”. A resposta estava nos livros e na escrita. Hoje, a AS é uma agência sediada em Portimão que acompanha autores desde o manuscrito, com uma visão que combina rigor editorial, estratégia de comunicação e uma relação próxima com cada projeto literário. 


Analita Santos mudou de área profissional e seguiu uma das maiores paixões: a escrita


A crise que abriu o caminho

Analita Santos vinha da área do turismo. Era responsável pelo departamento de marketing e comunicação de uma cadeia hoteleira, um universo de muita exigência, onde cada detalhe da comunicação era polido ao milímetro. Quando a crise económica, em 2011, obrigou a despedimentos, viu a sua equipa ser reduzida e as responsabilidades acumuladas. Sofreu um esgotamento que a forçou a parar, a fazer uma pausa longa o suficiente para olhar com clareza para aquilo que queria fazer.

"Olhei para trás e percebi que existia um denominador comum, aquilo que fez parte da minha vida, desde sempre, que foi a leitura e a escrita", conta. A partir daí, vieram as formações, uma pós-graduação, um mestrado e uma reconversão gradual para o mundo das palavras, da mentoria literária e da formação de autores. Quando a pandemia fechou os espaços presenciais, a digitalização abriu outros lugares, de escala nacional, com uma comunidade que crescia à medida que Analita produzia conteúdo nas redes sociais.

A AS viria depois, como consequência natural de uma observação que ia acumulando, há anos, junto dos autores com quem trabalhava. O problema não era a falta de vontade de escrever ou o talento, era tudo o que vinha depois.


A questão a que a agência veio dar resposta

"É cada vez mais fácil publicar um livro", diz Analita. E esse é precisamente o paradoxo que está na raiz da AS. Nunca foi tão simples colocar um livro no mercado. E nunca foi tão difícil fazer com que ele chegue aos leitores com qualidade, consistência e uma estratégia que lhe faça justiça.

Em Portugal, existem revisores, designers, paginadores, profissionais de marketing digital, editoras tradicionais e prestadores de serviços editoriais. O que faltava era uma estrutura pensada exclusivamente para o autor, que olhasse para o livro como projeto literário, editorial, comunicacional e estratégico ao mesmo tempo. "Fui-me apercebendo, ao falar com os autores, dessas dificuldades, e foi então que decidi criar a agência com foco no marketing e na comunicação dos autores e dos seus trabalhos".


Ao longo dos últimos meses, vários projetos acompanhados pela AS têm chegado às mãos dos leitores


Como funciona, na prática?

Cada projeto que chega à AS começa com um diagnóstico. Antes de qualquer proposta de serviço, é preciso perceber o que o autor procura, o que o autor escreveu, em que fase está o manuscrito, quais são os seus objetivos e que caminho editorial faz mais sentido. Há autores que chegam com uma ideia, outros com um manuscrito completo, outros ainda com um livro já publicado que não teve a visibilidade esperada.

"Depende muito da especificidade e das próprias necessidades do autor", explica. "Quando surge um projeto, aquilo que faço é, em função da sua especificidade, ver com quem é que poderemos trabalhar". A agência apoia-se numa rede de parceiros, selecionados com critério, e com quem Analita mantém uma relação de confiança construída ao longo do tempo. 

O percurso típico começa, muitas vezes, por uma leitura crítica, que avalia a estrutura, a coerência narrativa e aquilo que precisa de ser melhorado. A seguir, e dependendo do caminho escolhido, o processo pode incluir revisão de texto, criação de capa, paginação, preparação para distribuição, estratégia de comunicação, gestão de redes sociais, criação de website, newsletters e, em alguns casos, presença na Amazon através do modelo de print on demand.

A agência trabalha tanto com autores que pretendem seguir a via da autopublicação, como com autores que querem apresentar os seus projetos a editoras tradicionais. 


As ilusões mais comuns

Quando perguntamos a Analita Santos qual é a maior ilusão que encontra nos autores que chegam até si, a resposta é imediata: "A maior ilusão é pensarem que, quando o livro está escrito, está o processo feito”. A responsável reconhece que escrever um livro é uma conquista enorme, mas alerta que um manuscrito terminado não é, necessariamente, um manuscrito pronto para publicação. E um livro publicado não se vende sozinho, mesmo quando existe uma editora por trás. "Os autores, hoje em dia, também têm de se promover, têm de estar presentes nas redes sociais, precisam de ter um papel muito ativo na divulgação e na promoção dos seus livros".

Há ainda outra ilusão que Analita considera especialmente prejudicial: a ideia de que a única forma de publicar um livro é pagar por isso. As editoras vanity, como são conhecidas aquelas que cobram ao autor pela publicação, são um fenómeno crescente em Portugal e nem sempre o serviço prestado corresponde ao investimento realizado. "O interesse dessas editoras não é tanto chegar aos leitores. O mercado-alvo das editoras vanity são os autores que querem publicar os seus livros".

E cita exemplos que provam que o caminho da edição de autor, quando bem trabalhado, pode ser igualmente legítimo e eficaz. Pedro Freitas (@opoetadacidade) começou com edições de autor e chegou a uma editora tradicional pela qualidade e consistência do trabalho. O próprio José Saramago financiou um dos seus primeiros livros, recorda-nos Analita para depois completar: "Quando o trabalho tem qualidade, surgem as oportunidades”.


Analita Santos começou por criar conteúdos digitais relacionados com livros, escreveu o livro Erros de Português Nunca Mais, publicado pela Manuscrito Editora, e mais recentemente fundou a AS


Redes sociais: oportunidade com método

A presença digital dos autores é um dos temas centrais no trabalho da AS, e Analita Santos não tem dúvidas sobre a sua importância, nem sobre os seus riscos. "Para já, aquilo que falo com os autores com quem trabalho é que precisamos de estar presentes nas redes sociais, mas não sermos dependentes delas".

Na perspetiva da profissional, as redes são uma ferramenta poderosa para criar proximidade com leitores, dar visibilidade a obras que, de outra forma, passariam despercebidas e construir uma identidade autoral consistente. Acrescenta ainda que os fenómenos do BookTok, Bookstagram e os influenciadores literários são movimentos extraordinários para fazer os livros chegar a novos leitores. "As redes sociais têm os seus problemas, mas também têm esse lado de proximidade, e de ajudar a criar novos leitores, ou pelo menos, de fazer com que os livros estejam na mão das pessoas".

A dependência exclusiva das plataformas, no entanto, é um risco que não deve ser ignorado. "Se algo acontece, deixamos de ter com quem comunicar". É por isso que Analita defende, de forma consistente, que o autor deve complementar a presença nas redes sociais com um website próprio, um blogue, uma newsletter. Ferramentas que se podem controlar, que não desaparecem com uma mudança de algoritmo e que constroem uma relação mais duradoura com os leitores. 


Empreender num nicho e fora das grandes cidades

Criar uma microempresa em Portugal não é fácil, e Analita di-lo sem romantismos. "Parece muito glamouroso trabalhar com os livros, há uma conceção quase romântica. Mas depois, é complicado por tudo o que envolve ter um negócio, ter uma microempresa". O marido trata das finanças da agência, é o "diretor financeiro”, e assegura a parte do negócio que está mais longe da criatividade, mas que, ainda assim, não pode ser ignorada.

Quanto à localização, em Portimão, é, em simultâneo, um desafio e um fator de diferenciação. "Acaba por ser uma afirmação, no sentido em que prova que é possível não estar em Lisboa, ou no Porto, para fazer acontecer". O digital permite-lhe trabalhar com autores de todo o país, realizar sessões de mentoria por Zoom, acompanhar projetos à distância e estar presente em eventos nacionais, sempre que necessário. Há custos logísticos que não existiriam se estivesse numa grande cidade, como as deslocações frequentes para Lisboa ou Porto, mas a empresária acredita que compensa, pelo facto de ter uma ligação real às regiões e provar que a cultura literária não tem de ser apenas um assunto da capital. 


A inteligência artificial e a voz autoral

É impossível falar de escrita e edição, em 2026, sem tocar no tema que está em todo o lado. Analita Santos não rejeita a inteligência artificial, mas tem posições firmes sobre como deve ser utilizada. "Vejo a inteligência artificial como algo que veio para ficar, mas quando falamos numa componente criativa como a escrita, há várias camadas a considerar".

O que preocupa a fundadora da AS é a perda de autenticidade. "Parece que estão a escrever todos de forma igual. Estamos a perder completamente a autenticidade". O uso do ChatGPT e de outras ferramentas para criar textos em vez de os apoiar é, na sua ótica, um problema que está a homogeneizar a escrita e a diluir as vozes próprias dos autores.

Porém, não a descarta na totalidade. Analita utiliza a inteligência artificial como apoio a certas componentes do processo, como na pesquisa, mas nunca como substituta da escrita. "Os meus textos são criados por mim, é a minha voz. E a revisão é sempre humana". 




O que ainda está por construir

De olhos no futuro, Analita Santos quer que a AS seja reconhecida como uma referência no acompanhamento profissional de autores em Portugal. Mais do que como uma prestadora de serviços, quer afirmar-se enquanto estrutura relevante, que ajudou a mudar a forma como os autores portugueses pensam a publicação, a comunicação e a construção de uma carreira literária.

"Quero mais parcerias, quero criar mais conteúdos de literacia editorial, porque penso que faz muita falta". A newsletter mensal que criou vai nesse sentido, assim como o blogue, onde aborda temas como leitura crítica, estratégia de marketing para livros, presença digital de autores ou a diferença entre um manuscrito terminado e um manuscrito pronto para publicação.

Não perde a convicção de que o mercado precisa de olhar de forma diferente para os autores portugueses. "A AS nasceu para ocupar esse lugar entre a escrita e o leitor, entre o sonho e o método, entre a obra e a sua possibilidade real de chegar ao mundo".

É um projeto de pequena dimensão, ainda jovem, mas construído com a clareza de quem sabe exatamente o que falta, e com vontade de criar mais estrutura, de chegar a mais lugares, e de fazer diferente do que o mercado tem feito. Página a página. Livro a livro.


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Do turismo à mentoria literária, de Portimão para o mundo, Analita Santos, fundadora da AS, construiu aquilo que o mercado português ainda não tinha: uma agência pensada exclusivamente para acompanhar autores desde o manuscrito até ao leitor, com rigor, estratégia e o cuidado de quem sabe que cada livro carrega mais do que palavras. 

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29 de mai. de 2026, 11:47

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Analita Santos mudou de área profissional e seguiu uma das maiores paixões: a escrita


A crise que abriu o caminho

Analita Santos vinha da área do turismo. Era responsável pelo departamento de marketing e comunicação de uma cadeia hoteleira, um universo de muita exigência, onde cada detalhe da comunicação era polido ao milímetro. Quando a crise económica, em 2011, obrigou a despedimentos, viu a sua equipa ser reduzida e as responsabilidades acumuladas. Sofreu um esgotamento que a forçou a parar, a fazer uma pausa longa o suficiente para olhar com clareza para aquilo que queria fazer.

"Olhei para trás e percebi que existia um denominador comum, aquilo que fez parte da minha vida, desde sempre, que foi a leitura e a escrita", conta. A partir daí, vieram as formações, uma pós-graduação, um mestrado e uma reconversão gradual para o mundo das palavras, da mentoria literária e da formação de autores. Quando a pandemia fechou os espaços presenciais, a digitalização abriu outros lugares, de escala nacional, com uma comunidade que crescia à medida que Analita produzia conteúdo nas redes sociais.

A AS viria depois, como consequência natural de uma observação que ia acumulando, há anos, junto dos autores com quem trabalhava. O problema não era a falta de vontade de escrever ou o talento, era tudo o que vinha depois.


A questão a que a agência veio dar resposta

"É cada vez mais fácil publicar um livro", diz Analita. E esse é precisamente o paradoxo que está na raiz da AS. Nunca foi tão simples colocar um livro no mercado. E nunca foi tão difícil fazer com que ele chegue aos leitores com qualidade, consistência e uma estratégia que lhe faça justiça.

Em Portugal, existem revisores, designers, paginadores, profissionais de marketing digital, editoras tradicionais e prestadores de serviços editoriais. O que faltava era uma estrutura pensada exclusivamente para o autor, que olhasse para o livro como projeto literário, editorial, comunicacional e estratégico ao mesmo tempo. "Fui-me apercebendo, ao falar com os autores, dessas dificuldades, e foi então que decidi criar a agência com foco no marketing e na comunicação dos autores e dos seus trabalhos".


Ao longo dos últimos meses, vários projetos acompanhados pela AS têm chegado às mãos dos leitores


Como funciona, na prática?

Cada projeto que chega à AS começa com um diagnóstico. Antes de qualquer proposta de serviço, é preciso perceber o que o autor procura, o que o autor escreveu, em que fase está o manuscrito, quais são os seus objetivos e que caminho editorial faz mais sentido. Há autores que chegam com uma ideia, outros com um manuscrito completo, outros ainda com um livro já publicado que não teve a visibilidade esperada.

"Depende muito da especificidade e das próprias necessidades do autor", explica. "Quando surge um projeto, aquilo que faço é, em função da sua especificidade, ver com quem é que poderemos trabalhar". A agência apoia-se numa rede de parceiros, selecionados com critério, e com quem Analita mantém uma relação de confiança construída ao longo do tempo. 

O percurso típico começa, muitas vezes, por uma leitura crítica, que avalia a estrutura, a coerência narrativa e aquilo que precisa de ser melhorado. A seguir, e dependendo do caminho escolhido, o processo pode incluir revisão de texto, criação de capa, paginação, preparação para distribuição, estratégia de comunicação, gestão de redes sociais, criação de website, newsletters e, em alguns casos, presença na Amazon através do modelo de print on demand.

A agência trabalha tanto com autores que pretendem seguir a via da autopublicação, como com autores que querem apresentar os seus projetos a editoras tradicionais. 


As ilusões mais comuns

Quando perguntamos a Analita Santos qual é a maior ilusão que encontra nos autores que chegam até si, a resposta é imediata: "A maior ilusão é pensarem que, quando o livro está escrito, está o processo feito”. A responsável reconhece que escrever um livro é uma conquista enorme, mas alerta que um manuscrito terminado não é, necessariamente, um manuscrito pronto para publicação. E um livro publicado não se vende sozinho, mesmo quando existe uma editora por trás. "Os autores, hoje em dia, também têm de se promover, têm de estar presentes nas redes sociais, precisam de ter um papel muito ativo na divulgação e na promoção dos seus livros".

Há ainda outra ilusão que Analita considera especialmente prejudicial: a ideia de que a única forma de publicar um livro é pagar por isso. As editoras vanity, como são conhecidas aquelas que cobram ao autor pela publicação, são um fenómeno crescente em Portugal e nem sempre o serviço prestado corresponde ao investimento realizado. "O interesse dessas editoras não é tanto chegar aos leitores. O mercado-alvo das editoras vanity são os autores que querem publicar os seus livros".

E cita exemplos que provam que o caminho da edição de autor, quando bem trabalhado, pode ser igualmente legítimo e eficaz. Pedro Freitas (@opoetadacidade) começou com edições de autor e chegou a uma editora tradicional pela qualidade e consistência do trabalho. O próprio José Saramago financiou um dos seus primeiros livros, recorda-nos Analita para depois completar: "Quando o trabalho tem qualidade, surgem as oportunidades”.


Analita Santos começou por criar conteúdos digitais relacionados com livros, escreveu o livro Erros de Português Nunca Mais, publicado pela Manuscrito Editora, e mais recentemente fundou a AS


Redes sociais: oportunidade com método

A presença digital dos autores é um dos temas centrais no trabalho da AS, e Analita Santos não tem dúvidas sobre a sua importância, nem sobre os seus riscos. "Para já, aquilo que falo com os autores com quem trabalho é que precisamos de estar presentes nas redes sociais, mas não sermos dependentes delas".

Na perspetiva da profissional, as redes são uma ferramenta poderosa para criar proximidade com leitores, dar visibilidade a obras que, de outra forma, passariam despercebidas e construir uma identidade autoral consistente. Acrescenta ainda que os fenómenos do BookTok, Bookstagram e os influenciadores literários são movimentos extraordinários para fazer os livros chegar a novos leitores. "As redes sociais têm os seus problemas, mas também têm esse lado de proximidade, e de ajudar a criar novos leitores, ou pelo menos, de fazer com que os livros estejam na mão das pessoas".

A dependência exclusiva das plataformas, no entanto, é um risco que não deve ser ignorado. "Se algo acontece, deixamos de ter com quem comunicar". É por isso que Analita defende, de forma consistente, que o autor deve complementar a presença nas redes sociais com um website próprio, um blogue, uma newsletter. Ferramentas que se podem controlar, que não desaparecem com uma mudança de algoritmo e que constroem uma relação mais duradoura com os leitores. 


Empreender num nicho e fora das grandes cidades

Criar uma microempresa em Portugal não é fácil, e Analita di-lo sem romantismos. "Parece muito glamouroso trabalhar com os livros, há uma conceção quase romântica. Mas depois, é complicado por tudo o que envolve ter um negócio, ter uma microempresa". O marido trata das finanças da agência, é o "diretor financeiro”, e assegura a parte do negócio que está mais longe da criatividade, mas que, ainda assim, não pode ser ignorada.

Quanto à localização, em Portimão, é, em simultâneo, um desafio e um fator de diferenciação. "Acaba por ser uma afirmação, no sentido em que prova que é possível não estar em Lisboa, ou no Porto, para fazer acontecer". O digital permite-lhe trabalhar com autores de todo o país, realizar sessões de mentoria por Zoom, acompanhar projetos à distância e estar presente em eventos nacionais, sempre que necessário. Há custos logísticos que não existiriam se estivesse numa grande cidade, como as deslocações frequentes para Lisboa ou Porto, mas a empresária acredita que compensa, pelo facto de ter uma ligação real às regiões e provar que a cultura literária não tem de ser apenas um assunto da capital. 


A inteligência artificial e a voz autoral

É impossível falar de escrita e edição, em 2026, sem tocar no tema que está em todo o lado. Analita Santos não rejeita a inteligência artificial, mas tem posições firmes sobre como deve ser utilizada. "Vejo a inteligência artificial como algo que veio para ficar, mas quando falamos numa componente criativa como a escrita, há várias camadas a considerar".

O que preocupa a fundadora da AS é a perda de autenticidade. "Parece que estão a escrever todos de forma igual. Estamos a perder completamente a autenticidade". O uso do ChatGPT e de outras ferramentas para criar textos em vez de os apoiar é, na sua ótica, um problema que está a homogeneizar a escrita e a diluir as vozes próprias dos autores.

Porém, não a descarta na totalidade. Analita utiliza a inteligência artificial como apoio a certas componentes do processo, como na pesquisa, mas nunca como substituta da escrita. "Os meus textos são criados por mim, é a minha voz. E a revisão é sempre humana". 




O que ainda está por construir

De olhos no futuro, Analita Santos quer que a AS seja reconhecida como uma referência no acompanhamento profissional de autores em Portugal. Mais do que como uma prestadora de serviços, quer afirmar-se enquanto estrutura relevante, que ajudou a mudar a forma como os autores portugueses pensam a publicação, a comunicação e a construção de uma carreira literária.

"Quero mais parcerias, quero criar mais conteúdos de literacia editorial, porque penso que faz muita falta". A newsletter mensal que criou vai nesse sentido, assim como o blogue, onde aborda temas como leitura crítica, estratégia de marketing para livros, presença digital de autores ou a diferença entre um manuscrito terminado e um manuscrito pronto para publicação.

Não perde a convicção de que o mercado precisa de olhar de forma diferente para os autores portugueses. "A AS nasceu para ocupar esse lugar entre a escrita e o leitor, entre o sonho e o método, entre a obra e a sua possibilidade real de chegar ao mundo".

É um projeto de pequena dimensão, ainda jovem, mas construído com a clareza de quem sabe exatamente o que falta, e com vontade de criar mais estrutura, de chegar a mais lugares, e de fazer diferente do que o mercado tem feito. Página a página. Livro a livro.


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