#Protagonistas

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO: “A minha ideia final é dar vida a espaços”

O seu percurso cruza música, eventos, espaços urbanos, gastronomia e programação cultural. Esteve ligado à dinamização do Cais do Sodré, passou pelo LX Factory, criou o OutJazz, o Mercado de Fusão no Martim Moniz e, mais recentemente, esteve por trás do 8 Marvila. Ao longo das últimas duas décadas, o seu trabalho tem partido muitas vezes de uma mesma intuição: olhar para zonas ou edifícios subaproveitados e perceber que ali pode nascer outra vida. Nesta entrevista ao MOTIVO, José Filipe Rebelo Pinto fala sobre Lisboa, cultura, negócio, risco, intuição e a responsabilidade de intervir em espaços urbanos.

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10 de jul. de 2026, 12:26

O seu percurso cruza muitas áreas. Quando olha para trás, qual foi o primeiro projeto em que percebeu que podia transformar uma zona da cidade através de uma ideia?

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO — O primeiro projeto em que me apercebo de que posso realmente transformar uma zona da cidade tem a ver com a reabilitação do Cais do Sodré, na Rua Nova do Carvalho, em 2004. Na altura, eu queria um espaço que pudesse dar casa a artistas da música com quem queria trabalhar. Era esse o objetivo da NCS, a empresa que fundei, também em 2004. Queria ter um espaço onde esses artistas pudessem atuar. Estamos a falar de uma zona que, nessa altura, estava um pouco esquecida da cidade, a cinco minutos a pé do Bairro Alto, com espaços com licenças muito boas, mas muitos deles com pouca dinâmica. Começámos com as quintas-feiras no Jamaica, com música negra. Depois passámos para o Texas, onde levámos música eletrónica. Mais tarde, dinamizámos também o Europa e fizemos várias festas e homenagens. Foi aí que começou a transformação do Cais do Sodré.

O José é muitas vezes descrito como alguém que recupera espaços e lhes dá uma nova vida. O que vê num lugar antes de ele se tornar óbvio para os outros?

J.F.R.P. — Procuro sempre espaços que estão um pouco ao abandono, que não estão muito utilizados, onde há margem para criar e fazer algo diferente. O primeiro passo é entender a zona onde estou a atuar e perceber a envolvente. O Cais do Sodré, por exemplo, era um projeto muito mais noturno. Tinha aquela onda da prostituição, era uma zona mais underground, quase uma red light [district],. Por isso, os projetos foram também pensados dentro dessa ideia de noite e de festa. Já o Mercado de Fusão, na Praça do Martim Moniz, foi completamente diferente. Nasceu de entender aquela zona, de perceber a sua multiculturalidade. É preciso viver o espaço, senti-lo e perceber o que pode vir dali. Depois, vem o processo criativo: perceber o que faz falta à cidade, o que pode ter impacto, como é que as pessoas podem viver aquele lugar.


Um dos espaços em que José interveio foi o 8 Marvila


Também passou pelo LX Factory e, mais recentemente, está por trás do 8 Marvila. O que é que estes projetos dizem sobre a forma como Lisboa mudou nas últimas décadas?

J.F.R.P. — São anos muito distintos. Cais do Sodré em 2004, LX Factory em 2007, Mercado de Fusão no Martim Moniz em 2012 e 8 Marvila em 2023. Estamos a falar de grandes mudanças ao longo das últimas décadas na cidade. Em 2004, o Cais do Sodré estava realmente meio parado. Tinha o Jamaica e o Tóquio, que faziam alguma programação, sobretudo ao fim de semana, mas de resto era uma zona muito ao abandono. Essa altura coincide também com o Euro 2004 e com o aparecimento de uma cidade diferente. O projeto do Manuel Reis, em Santa Apolónia, com o Lux, a Bica do Sapato, trouxe uma frescura enorme à cidade. De repente, havia ali uma dinâmica nova e um espaço para muitos músicos aparecerem. Depois, em 2006, entra também o OutJazz, que dá palco a uma série de músicos e ocupa espaços verdes da cidade que não eram muito utilizados. Hoje, há quiosques por todos esses jardins, há programação, há novos promotores. Há miúdos de 18, 20 ou 30 anos a promoverem eventos de grande dimensão, coisa que na altura não existia. O LX Factory também foi um projeto que transformou completamente a cidade. Foi um projeto do engenheiro Queiroz, da Mainside, que comprou aquele espaço e trouxe uma vertente cultural muito interessante. Mais tarde, com o Mercado de Fusão no Martim Moniz, em 2012, houve também todo o trabalho de renovação da Mouraria, do Intendente e, mais recentemente, de Anjos e Arroios. Ao longo deste período, Lisboa recebeu um público mais internacional e teve um investimento muito forte em restauração, hotelaria e em projetos muito interessantes. Por um lado, tornou-se uma cidade mais cosmopolita. Por outro, algumas zonas, sobretudo em termos de noite, também sofreram com isso. Bairros que não tinham grande dinâmica começaram a ganhar vida própria.

O 8 Marvila nasce num antigo conjunto de armazéns e junta cultura, restauração, comércio, eventos e comunidade. Que visão levou para aquele espaço e que papel acredita que ele pode ter na afirmação de Marvila?

J.F.R.P. — O 8 Marvila nasce de um convite feito pelo proprietário dos armazéns Abel Pereira da Fonseca, que tem um projeto residencial para aquele espaço. O que me foi pedido foi que, durante o período até ao início das obras, se criasse ali um projeto intermédio. Estamos a falar de uma área total de 22 mil metros quadrados. A ideia foi criar algo efémero, que pudesse dar vida aos espaços, gerar alguma rentabilidade e, ao mesmo tempo, ter continuidade no futuro. Foi preciso perceber Marvila: uma zona industrial, fora do circuito turístico da cidade, com muitas galerias de arte e uma relação forte com a cultura. O que quis fazer naquele espaço foi entender a zona e perceber de que forma aquilo que fosse implementado nesta fase poderia continuar depois. Como se trata de um projeto residencial com componente de comércio e serviços, pensei em como valorizar o espaço, dar lugar a novos artistas e novos projetos, e criar quase uma nova cidade ali. Trabalhar com 22 mil metros quadrados é uma responsabilidade grande. É preciso pensar o espaço como um todo e perceber que tudo o que está a ser desenhado tem impacto no futuro de Marvila. Pessoalmente, já não estou no projeto desde março de 2025, mas foi muito interessante e deu vida à zona de Marvila.

Há uma linha comum nos seus projetos: juntar pessoas em espaços que, muitas vezes, estavam subaproveitados. O que é que uma cidade ganha quando estes lugares passam a ser pontos de encontro?

J.F.R.P. Venho de uma altura em que me recordo de ver muitos espaços na cidade ao abandono, muitos prédios fechados, outros abandonados. Esse tipo de espaços não serve ninguém. Para os artistas, são, muitas vezes, espaços mais acessíveis em termos de renda e de valor, ainda que normalmente durante um período curto. A partir do momento em que ganham vida, também valorizam. É o circuito normal: os artistas vão para espaços mais acessíveis e mais abandonados, depois esses espaços ganham valor e eles acabam por procurar outros lugares. É um ciclo que se repete e vai continuar a repetir-se, em Lisboa e em qualquer parte do mundo. O que é que os espaços ganham? Ganham uma nova vida. Os artistas ganham um lugar para criar, desenvolver trabalho e estabelecer ligações com outros artistas. Há uma energia que começa ali e que depois perdura noutros sítios.

"Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos"

Como descreveria o seu perfil de empresário e empreendedor?

J.F.R.P. — Na realidade, não me vejo como empresário no verdadeiro sentido da palavra, apesar de ter tido várias empresas ao longo da vida, umas com alguma dimensão. Nunca foi numa ótica puramente de negócio ou de lucro. Considero-me muito mais uma pessoa que tem sonhos e vai à procura de realizar esses sonhos. Gosto de criar, de pensar projetos interessantes que me façam sentido. Tem sempre a ver com juntar pessoas e ligar pessoas através da música, da cultura e da arte. Esse é o meu sonho e o meu desejo. Considero-me uma pessoa persistente. Tenho muita força nos projetos em que acredito. Quando quero fazer alguma coisa, não há nada que me possam dizer para me convencer de que não vai funcionar. Também sou bastante agregador. Consigo juntar pessoas de várias áreas e isso interessa-me. A minha ideia final é mesmo dar vida a espaços. Dar vida, no geral. Esse tem sido muito mais o meu papel.

O seu trabalho parece viver entre o planeamento e a intuição. Quando está a criar um novo projeto, o que pesa mais?

J.F.R.P. — A intuição é aquilo que me guia ao longo da vida. Deixo-me levar. Tenho muitos momentos de não fazer nada, e esse "não fazer nada" começa a acumular uma energia que, depois, precisa de criar: o que vou fazer a seguir, o que me apetece fazer? A intuição leva-me sempre a esses lugares. Depois, obviamente, o planeamento é fundamental, porque são projetos com alguma dimensão e que precisam de estrutura. Muitas vezes, são projetos que parecem uma loucura. Avançar para um Mercado de Fusão na Praça do Martim Moniz, investir meio milhão de euros a título privado, hipotecar casas… Essa loucura só alguém com uma paixão, e uma vontade enorme de fazer e criar, é que assume. O que me pesa mais não é o trabalho em si. Quando estou num projeto de raiz, como aconteceu com o 8 Marvila, posso trabalhar 16 ou 20 horas por dia, seis dias por semana, e isso não é um problema. Estimula-me. Quando estou lá, nem dou pelo tempo passar. O que pesa mais é a falta de resposta. A burocracia. As dificuldades de licenciamento. O tempo perdido à espera de respostas. Sou uma pessoa muito pontual, gosto de trabalhar de forma certa, e pesa-me a displicência de algumas pessoas envolvidas em projetos, quando as coisas demoram e demoram.

Lisboa tornou-se uma cidade muito mais internacional, turística e competitiva. Isso tornou mais fácil ou mais difícil criar projetos culturais com identidade própria?

J.F.R.P. — Na minha opinião, isso não dificulta os projetos culturais com identidade própria. É preciso perceber que a cidade evoluiu. De alguma forma, perdeu-se autenticidade e identidade própria em muitos espaços. Isso é um facto. Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos. Sinto que há falta de regulação, e isso tem um impacto forte a nível local. Na habitação, no poder de compra e na vida de quem cá vive. Naquilo que me compete, os projetos que desenho mantêm sempre uma identidade minha e uma ligação ao espaço onde estou a intervir.


Apesar do trabalho na cidade de Lisboa, e de assumir precisar do "caos", José também diz necessitar de regressar com frequência à Natureza


Ainda existe resistência, em Portugal, a olhar para a cultura como motor económico e urbano?

J.F.R.P. — Sim. Há pouco investimento na cultura. No meu caso, sempre quis financiar os meus projetos e encontrar um equilíbrio. Nunca quis depender totalmente de fundos ou subsídios para levantar projetos culturais. A minha ideia foi sempre alavancar-me num modelo de negócio que me permitisse trazer cultura, tendo uma base económica por trás. Não queria ficar 100% refém de subsídios públicos, porque, na minha opinião, isso acaba muitas vezes por ser um entrave ao crescimento da cultura em Portugal.

Depois de tantos projetos, o que continua a interessar-lhe?

J.F.R.P. — Faço projetos para ligar pessoas. Gosto de ver o mundo de mãos dadas, gosto de ver o mundo em harmonia, gosto de paz, gosto de silêncio. Todos os projetos que desenho vêm de um lado criativo e artístico, da vontade de pensar algo para um espaço e de juntar pessoas de alguma maneira. Meter a máquina a rolar, montar toda essa operação, continua a interessar-me. Tenho, também, outros projetos paralelos. Tenho uma casa nos Açores, que comprei há uns anos, e que é um local de retiro de natureza que faço há mais de 30 anos. Também comprei um espaço em Monchique, que servirá para um centro de retiros de natureza, levando as pessoas da cidade para um momento de conexão. Há sempre um equilíbrio no meio disto. Sempre estive ligado à natureza, mas também gosto da componente urbana, de um certo caos e de uma certa desordem. Percebi, ao longo da vida, que isto não é uma dualidade. Há um equilíbrio. Se vivesse isolado no meio das montanhas, também me faltaria toda esta cultura para me alimentar. Quem sonha tem de criar, de alguma forma. E essa criação ajuda-me, também, no meu processo de evolução pessoal.

#Protagonistas

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO: “A minha ideia final é dar vida a espaços”

O seu percurso cruza música, eventos, espaços urbanos, gastronomia e programação cultural. Esteve ligado à dinamização do Cais do Sodré, passou pelo LX Factory, criou o OutJazz, o Mercado de Fusão no Martim Moniz e, mais recentemente, esteve por trás do 8 Marvila. Ao longo das últimas duas décadas, o seu trabalho tem partido muitas vezes de uma mesma intuição: olhar para zonas ou edifícios subaproveitados e perceber que ali pode nascer outra vida. Nesta entrevista ao MOTIVO, José Filipe Rebelo Pinto fala sobre Lisboa, cultura, negócio, risco, intuição e a responsabilidade de intervir em espaços urbanos.

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10 de jul. de 2026, 12:26

O seu percurso cruza muitas áreas. Quando olha para trás, qual foi o primeiro projeto em que percebeu que podia transformar uma zona da cidade através de uma ideia?

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO — O primeiro projeto em que me apercebo de que posso realmente transformar uma zona da cidade tem a ver com a reabilitação do Cais do Sodré, na Rua Nova do Carvalho, em 2004. Na altura, eu queria um espaço que pudesse dar casa a artistas da música com quem queria trabalhar. Era esse o objetivo da NCS, a empresa que fundei, também em 2004. Queria ter um espaço onde esses artistas pudessem atuar. Estamos a falar de uma zona que, nessa altura, estava um pouco esquecida da cidade, a cinco minutos a pé do Bairro Alto, com espaços com licenças muito boas, mas muitos deles com pouca dinâmica. Começámos com as quintas-feiras no Jamaica, com música negra. Depois passámos para o Texas, onde levámos música eletrónica. Mais tarde, dinamizámos também o Europa e fizemos várias festas e homenagens. Foi aí que começou a transformação do Cais do Sodré.

O José é muitas vezes descrito como alguém que recupera espaços e lhes dá uma nova vida. O que vê num lugar antes de ele se tornar óbvio para os outros?

J.F.R.P. — Procuro sempre espaços que estão um pouco ao abandono, que não estão muito utilizados, onde há margem para criar e fazer algo diferente. O primeiro passo é entender a zona onde estou a atuar e perceber a envolvente. O Cais do Sodré, por exemplo, era um projeto muito mais noturno. Tinha aquela onda da prostituição, era uma zona mais underground, quase uma red light [district],. Por isso, os projetos foram também pensados dentro dessa ideia de noite e de festa. Já o Mercado de Fusão, na Praça do Martim Moniz, foi completamente diferente. Nasceu de entender aquela zona, de perceber a sua multiculturalidade. É preciso viver o espaço, senti-lo e perceber o que pode vir dali. Depois, vem o processo criativo: perceber o que faz falta à cidade, o que pode ter impacto, como é que as pessoas podem viver aquele lugar.


Um dos espaços em que José interveio foi o 8 Marvila


Também passou pelo LX Factory e, mais recentemente, está por trás do 8 Marvila. O que é que estes projetos dizem sobre a forma como Lisboa mudou nas últimas décadas?

J.F.R.P. — São anos muito distintos. Cais do Sodré em 2004, LX Factory em 2007, Mercado de Fusão no Martim Moniz em 2012 e 8 Marvila em 2023. Estamos a falar de grandes mudanças ao longo das últimas décadas na cidade. Em 2004, o Cais do Sodré estava realmente meio parado. Tinha o Jamaica e o Tóquio, que faziam alguma programação, sobretudo ao fim de semana, mas de resto era uma zona muito ao abandono. Essa altura coincide também com o Euro 2004 e com o aparecimento de uma cidade diferente. O projeto do Manuel Reis, em Santa Apolónia, com o Lux, a Bica do Sapato, trouxe uma frescura enorme à cidade. De repente, havia ali uma dinâmica nova e um espaço para muitos músicos aparecerem. Depois, em 2006, entra também o OutJazz, que dá palco a uma série de músicos e ocupa espaços verdes da cidade que não eram muito utilizados. Hoje, há quiosques por todos esses jardins, há programação, há novos promotores. Há miúdos de 18, 20 ou 30 anos a promoverem eventos de grande dimensão, coisa que na altura não existia. O LX Factory também foi um projeto que transformou completamente a cidade. Foi um projeto do engenheiro Queiroz, da Mainside, que comprou aquele espaço e trouxe uma vertente cultural muito interessante. Mais tarde, com o Mercado de Fusão no Martim Moniz, em 2012, houve também todo o trabalho de renovação da Mouraria, do Intendente e, mais recentemente, de Anjos e Arroios. Ao longo deste período, Lisboa recebeu um público mais internacional e teve um investimento muito forte em restauração, hotelaria e em projetos muito interessantes. Por um lado, tornou-se uma cidade mais cosmopolita. Por outro, algumas zonas, sobretudo em termos de noite, também sofreram com isso. Bairros que não tinham grande dinâmica começaram a ganhar vida própria.

O 8 Marvila nasce num antigo conjunto de armazéns e junta cultura, restauração, comércio, eventos e comunidade. Que visão levou para aquele espaço e que papel acredita que ele pode ter na afirmação de Marvila?

J.F.R.P. — O 8 Marvila nasce de um convite feito pelo proprietário dos armazéns Abel Pereira da Fonseca, que tem um projeto residencial para aquele espaço. O que me foi pedido foi que, durante o período até ao início das obras, se criasse ali um projeto intermédio. Estamos a falar de uma área total de 22 mil metros quadrados. A ideia foi criar algo efémero, que pudesse dar vida aos espaços, gerar alguma rentabilidade e, ao mesmo tempo, ter continuidade no futuro. Foi preciso perceber Marvila: uma zona industrial, fora do circuito turístico da cidade, com muitas galerias de arte e uma relação forte com a cultura. O que quis fazer naquele espaço foi entender a zona e perceber de que forma aquilo que fosse implementado nesta fase poderia continuar depois. Como se trata de um projeto residencial com componente de comércio e serviços, pensei em como valorizar o espaço, dar lugar a novos artistas e novos projetos, e criar quase uma nova cidade ali. Trabalhar com 22 mil metros quadrados é uma responsabilidade grande. É preciso pensar o espaço como um todo e perceber que tudo o que está a ser desenhado tem impacto no futuro de Marvila. Pessoalmente, já não estou no projeto desde março de 2025, mas foi muito interessante e deu vida à zona de Marvila.

Há uma linha comum nos seus projetos: juntar pessoas em espaços que, muitas vezes, estavam subaproveitados. O que é que uma cidade ganha quando estes lugares passam a ser pontos de encontro?

J.F.R.P. Venho de uma altura em que me recordo de ver muitos espaços na cidade ao abandono, muitos prédios fechados, outros abandonados. Esse tipo de espaços não serve ninguém. Para os artistas, são, muitas vezes, espaços mais acessíveis em termos de renda e de valor, ainda que normalmente durante um período curto. A partir do momento em que ganham vida, também valorizam. É o circuito normal: os artistas vão para espaços mais acessíveis e mais abandonados, depois esses espaços ganham valor e eles acabam por procurar outros lugares. É um ciclo que se repete e vai continuar a repetir-se, em Lisboa e em qualquer parte do mundo. O que é que os espaços ganham? Ganham uma nova vida. Os artistas ganham um lugar para criar, desenvolver trabalho e estabelecer ligações com outros artistas. Há uma energia que começa ali e que depois perdura noutros sítios.

"Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos"

Como descreveria o seu perfil de empresário e empreendedor?

J.F.R.P. — Na realidade, não me vejo como empresário no verdadeiro sentido da palavra, apesar de ter tido várias empresas ao longo da vida, umas com alguma dimensão. Nunca foi numa ótica puramente de negócio ou de lucro. Considero-me muito mais uma pessoa que tem sonhos e vai à procura de realizar esses sonhos. Gosto de criar, de pensar projetos interessantes que me façam sentido. Tem sempre a ver com juntar pessoas e ligar pessoas através da música, da cultura e da arte. Esse é o meu sonho e o meu desejo. Considero-me uma pessoa persistente. Tenho muita força nos projetos em que acredito. Quando quero fazer alguma coisa, não há nada que me possam dizer para me convencer de que não vai funcionar. Também sou bastante agregador. Consigo juntar pessoas de várias áreas e isso interessa-me. A minha ideia final é mesmo dar vida a espaços. Dar vida, no geral. Esse tem sido muito mais o meu papel.

O seu trabalho parece viver entre o planeamento e a intuição. Quando está a criar um novo projeto, o que pesa mais?

J.F.R.P. — A intuição é aquilo que me guia ao longo da vida. Deixo-me levar. Tenho muitos momentos de não fazer nada, e esse "não fazer nada" começa a acumular uma energia que, depois, precisa de criar: o que vou fazer a seguir, o que me apetece fazer? A intuição leva-me sempre a esses lugares. Depois, obviamente, o planeamento é fundamental, porque são projetos com alguma dimensão e que precisam de estrutura. Muitas vezes, são projetos que parecem uma loucura. Avançar para um Mercado de Fusão na Praça do Martim Moniz, investir meio milhão de euros a título privado, hipotecar casas… Essa loucura só alguém com uma paixão, e uma vontade enorme de fazer e criar, é que assume. O que me pesa mais não é o trabalho em si. Quando estou num projeto de raiz, como aconteceu com o 8 Marvila, posso trabalhar 16 ou 20 horas por dia, seis dias por semana, e isso não é um problema. Estimula-me. Quando estou lá, nem dou pelo tempo passar. O que pesa mais é a falta de resposta. A burocracia. As dificuldades de licenciamento. O tempo perdido à espera de respostas. Sou uma pessoa muito pontual, gosto de trabalhar de forma certa, e pesa-me a displicência de algumas pessoas envolvidas em projetos, quando as coisas demoram e demoram.

Lisboa tornou-se uma cidade muito mais internacional, turística e competitiva. Isso tornou mais fácil ou mais difícil criar projetos culturais com identidade própria?

J.F.R.P. — Na minha opinião, isso não dificulta os projetos culturais com identidade própria. É preciso perceber que a cidade evoluiu. De alguma forma, perdeu-se autenticidade e identidade própria em muitos espaços. Isso é um facto. Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos. Sinto que há falta de regulação, e isso tem um impacto forte a nível local. Na habitação, no poder de compra e na vida de quem cá vive. Naquilo que me compete, os projetos que desenho mantêm sempre uma identidade minha e uma ligação ao espaço onde estou a intervir.


Apesar do trabalho na cidade de Lisboa, e de assumir precisar do "caos", José também diz necessitar de regressar com frequência à Natureza


Ainda existe resistência, em Portugal, a olhar para a cultura como motor económico e urbano?

J.F.R.P. — Sim. Há pouco investimento na cultura. No meu caso, sempre quis financiar os meus projetos e encontrar um equilíbrio. Nunca quis depender totalmente de fundos ou subsídios para levantar projetos culturais. A minha ideia foi sempre alavancar-me num modelo de negócio que me permitisse trazer cultura, tendo uma base económica por trás. Não queria ficar 100% refém de subsídios públicos, porque, na minha opinião, isso acaba muitas vezes por ser um entrave ao crescimento da cultura em Portugal.

Depois de tantos projetos, o que continua a interessar-lhe?

J.F.R.P. — Faço projetos para ligar pessoas. Gosto de ver o mundo de mãos dadas, gosto de ver o mundo em harmonia, gosto de paz, gosto de silêncio. Todos os projetos que desenho vêm de um lado criativo e artístico, da vontade de pensar algo para um espaço e de juntar pessoas de alguma maneira. Meter a máquina a rolar, montar toda essa operação, continua a interessar-me. Tenho, também, outros projetos paralelos. Tenho uma casa nos Açores, que comprei há uns anos, e que é um local de retiro de natureza que faço há mais de 30 anos. Também comprei um espaço em Monchique, que servirá para um centro de retiros de natureza, levando as pessoas da cidade para um momento de conexão. Há sempre um equilíbrio no meio disto. Sempre estive ligado à natureza, mas também gosto da componente urbana, de um certo caos e de uma certa desordem. Percebi, ao longo da vida, que isto não é uma dualidade. Há um equilíbrio. Se vivesse isolado no meio das montanhas, também me faltaria toda esta cultura para me alimentar. Quem sonha tem de criar, de alguma forma. E essa criação ajuda-me, também, no meu processo de evolução pessoal.

#Protagonistas

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO: “A minha ideia final é dar vida a espaços”

O seu percurso cruza música, eventos, espaços urbanos, gastronomia e programação cultural. Esteve ligado à dinamização do Cais do Sodré, passou pelo LX Factory, criou o OutJazz, o Mercado de Fusão no Martim Moniz e, mais recentemente, esteve por trás do 8 Marvila. Ao longo das últimas duas décadas, o seu trabalho tem partido muitas vezes de uma mesma intuição: olhar para zonas ou edifícios subaproveitados e perceber que ali pode nascer outra vida. Nesta entrevista ao MOTIVO, José Filipe Rebelo Pinto fala sobre Lisboa, cultura, negócio, risco, intuição e a responsabilidade de intervir em espaços urbanos.

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10 de jul. de 2026, 12:26

O seu percurso cruza muitas áreas. Quando olha para trás, qual foi o primeiro projeto em que percebeu que podia transformar uma zona da cidade através de uma ideia?

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO — O primeiro projeto em que me apercebo de que posso realmente transformar uma zona da cidade tem a ver com a reabilitação do Cais do Sodré, na Rua Nova do Carvalho, em 2004. Na altura, eu queria um espaço que pudesse dar casa a artistas da música com quem queria trabalhar. Era esse o objetivo da NCS, a empresa que fundei, também em 2004. Queria ter um espaço onde esses artistas pudessem atuar. Estamos a falar de uma zona que, nessa altura, estava um pouco esquecida da cidade, a cinco minutos a pé do Bairro Alto, com espaços com licenças muito boas, mas muitos deles com pouca dinâmica. Começámos com as quintas-feiras no Jamaica, com música negra. Depois passámos para o Texas, onde levámos música eletrónica. Mais tarde, dinamizámos também o Europa e fizemos várias festas e homenagens. Foi aí que começou a transformação do Cais do Sodré.

O José é muitas vezes descrito como alguém que recupera espaços e lhes dá uma nova vida. O que vê num lugar antes de ele se tornar óbvio para os outros?

J.F.R.P. — Procuro sempre espaços que estão um pouco ao abandono, que não estão muito utilizados, onde há margem para criar e fazer algo diferente. O primeiro passo é entender a zona onde estou a atuar e perceber a envolvente. O Cais do Sodré, por exemplo, era um projeto muito mais noturno. Tinha aquela onda da prostituição, era uma zona mais underground, quase uma red light [district],. Por isso, os projetos foram também pensados dentro dessa ideia de noite e de festa. Já o Mercado de Fusão, na Praça do Martim Moniz, foi completamente diferente. Nasceu de entender aquela zona, de perceber a sua multiculturalidade. É preciso viver o espaço, senti-lo e perceber o que pode vir dali. Depois, vem o processo criativo: perceber o que faz falta à cidade, o que pode ter impacto, como é que as pessoas podem viver aquele lugar.


Um dos espaços em que José interveio foi o 8 Marvila


Também passou pelo LX Factory e, mais recentemente, está por trás do 8 Marvila. O que é que estes projetos dizem sobre a forma como Lisboa mudou nas últimas décadas?

J.F.R.P. — São anos muito distintos. Cais do Sodré em 2004, LX Factory em 2007, Mercado de Fusão no Martim Moniz em 2012 e 8 Marvila em 2023. Estamos a falar de grandes mudanças ao longo das últimas décadas na cidade. Em 2004, o Cais do Sodré estava realmente meio parado. Tinha o Jamaica e o Tóquio, que faziam alguma programação, sobretudo ao fim de semana, mas de resto era uma zona muito ao abandono. Essa altura coincide também com o Euro 2004 e com o aparecimento de uma cidade diferente. O projeto do Manuel Reis, em Santa Apolónia, com o Lux, a Bica do Sapato, trouxe uma frescura enorme à cidade. De repente, havia ali uma dinâmica nova e um espaço para muitos músicos aparecerem. Depois, em 2006, entra também o OutJazz, que dá palco a uma série de músicos e ocupa espaços verdes da cidade que não eram muito utilizados. Hoje, há quiosques por todos esses jardins, há programação, há novos promotores. Há miúdos de 18, 20 ou 30 anos a promoverem eventos de grande dimensão, coisa que na altura não existia. O LX Factory também foi um projeto que transformou completamente a cidade. Foi um projeto do engenheiro Queiroz, da Mainside, que comprou aquele espaço e trouxe uma vertente cultural muito interessante. Mais tarde, com o Mercado de Fusão no Martim Moniz, em 2012, houve também todo o trabalho de renovação da Mouraria, do Intendente e, mais recentemente, de Anjos e Arroios. Ao longo deste período, Lisboa recebeu um público mais internacional e teve um investimento muito forte em restauração, hotelaria e em projetos muito interessantes. Por um lado, tornou-se uma cidade mais cosmopolita. Por outro, algumas zonas, sobretudo em termos de noite, também sofreram com isso. Bairros que não tinham grande dinâmica começaram a ganhar vida própria.

O 8 Marvila nasce num antigo conjunto de armazéns e junta cultura, restauração, comércio, eventos e comunidade. Que visão levou para aquele espaço e que papel acredita que ele pode ter na afirmação de Marvila?

J.F.R.P. — O 8 Marvila nasce de um convite feito pelo proprietário dos armazéns Abel Pereira da Fonseca, que tem um projeto residencial para aquele espaço. O que me foi pedido foi que, durante o período até ao início das obras, se criasse ali um projeto intermédio. Estamos a falar de uma área total de 22 mil metros quadrados. A ideia foi criar algo efémero, que pudesse dar vida aos espaços, gerar alguma rentabilidade e, ao mesmo tempo, ter continuidade no futuro. Foi preciso perceber Marvila: uma zona industrial, fora do circuito turístico da cidade, com muitas galerias de arte e uma relação forte com a cultura. O que quis fazer naquele espaço foi entender a zona e perceber de que forma aquilo que fosse implementado nesta fase poderia continuar depois. Como se trata de um projeto residencial com componente de comércio e serviços, pensei em como valorizar o espaço, dar lugar a novos artistas e novos projetos, e criar quase uma nova cidade ali. Trabalhar com 22 mil metros quadrados é uma responsabilidade grande. É preciso pensar o espaço como um todo e perceber que tudo o que está a ser desenhado tem impacto no futuro de Marvila. Pessoalmente, já não estou no projeto desde março de 2025, mas foi muito interessante e deu vida à zona de Marvila.

Há uma linha comum nos seus projetos: juntar pessoas em espaços que, muitas vezes, estavam subaproveitados. O que é que uma cidade ganha quando estes lugares passam a ser pontos de encontro?

J.F.R.P. Venho de uma altura em que me recordo de ver muitos espaços na cidade ao abandono, muitos prédios fechados, outros abandonados. Esse tipo de espaços não serve ninguém. Para os artistas, são, muitas vezes, espaços mais acessíveis em termos de renda e de valor, ainda que normalmente durante um período curto. A partir do momento em que ganham vida, também valorizam. É o circuito normal: os artistas vão para espaços mais acessíveis e mais abandonados, depois esses espaços ganham valor e eles acabam por procurar outros lugares. É um ciclo que se repete e vai continuar a repetir-se, em Lisboa e em qualquer parte do mundo. O que é que os espaços ganham? Ganham uma nova vida. Os artistas ganham um lugar para criar, desenvolver trabalho e estabelecer ligações com outros artistas. Há uma energia que começa ali e que depois perdura noutros sítios.

"Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos"

Como descreveria o seu perfil de empresário e empreendedor?

J.F.R.P. — Na realidade, não me vejo como empresário no verdadeiro sentido da palavra, apesar de ter tido várias empresas ao longo da vida, umas com alguma dimensão. Nunca foi numa ótica puramente de negócio ou de lucro. Considero-me muito mais uma pessoa que tem sonhos e vai à procura de realizar esses sonhos. Gosto de criar, de pensar projetos interessantes que me façam sentido. Tem sempre a ver com juntar pessoas e ligar pessoas através da música, da cultura e da arte. Esse é o meu sonho e o meu desejo. Considero-me uma pessoa persistente. Tenho muita força nos projetos em que acredito. Quando quero fazer alguma coisa, não há nada que me possam dizer para me convencer de que não vai funcionar. Também sou bastante agregador. Consigo juntar pessoas de várias áreas e isso interessa-me. A minha ideia final é mesmo dar vida a espaços. Dar vida, no geral. Esse tem sido muito mais o meu papel.

O seu trabalho parece viver entre o planeamento e a intuição. Quando está a criar um novo projeto, o que pesa mais?

J.F.R.P. — A intuição é aquilo que me guia ao longo da vida. Deixo-me levar. Tenho muitos momentos de não fazer nada, e esse "não fazer nada" começa a acumular uma energia que, depois, precisa de criar: o que vou fazer a seguir, o que me apetece fazer? A intuição leva-me sempre a esses lugares. Depois, obviamente, o planeamento é fundamental, porque são projetos com alguma dimensão e que precisam de estrutura. Muitas vezes, são projetos que parecem uma loucura. Avançar para um Mercado de Fusão na Praça do Martim Moniz, investir meio milhão de euros a título privado, hipotecar casas… Essa loucura só alguém com uma paixão, e uma vontade enorme de fazer e criar, é que assume. O que me pesa mais não é o trabalho em si. Quando estou num projeto de raiz, como aconteceu com o 8 Marvila, posso trabalhar 16 ou 20 horas por dia, seis dias por semana, e isso não é um problema. Estimula-me. Quando estou lá, nem dou pelo tempo passar. O que pesa mais é a falta de resposta. A burocracia. As dificuldades de licenciamento. O tempo perdido à espera de respostas. Sou uma pessoa muito pontual, gosto de trabalhar de forma certa, e pesa-me a displicência de algumas pessoas envolvidas em projetos, quando as coisas demoram e demoram.

Lisboa tornou-se uma cidade muito mais internacional, turística e competitiva. Isso tornou mais fácil ou mais difícil criar projetos culturais com identidade própria?

J.F.R.P. — Na minha opinião, isso não dificulta os projetos culturais com identidade própria. É preciso perceber que a cidade evoluiu. De alguma forma, perdeu-se autenticidade e identidade própria em muitos espaços. Isso é um facto. Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos. Sinto que há falta de regulação, e isso tem um impacto forte a nível local. Na habitação, no poder de compra e na vida de quem cá vive. Naquilo que me compete, os projetos que desenho mantêm sempre uma identidade minha e uma ligação ao espaço onde estou a intervir.


Apesar do trabalho na cidade de Lisboa, e de assumir precisar do "caos", José também diz necessitar de regressar com frequência à Natureza


Ainda existe resistência, em Portugal, a olhar para a cultura como motor económico e urbano?

J.F.R.P. — Sim. Há pouco investimento na cultura. No meu caso, sempre quis financiar os meus projetos e encontrar um equilíbrio. Nunca quis depender totalmente de fundos ou subsídios para levantar projetos culturais. A minha ideia foi sempre alavancar-me num modelo de negócio que me permitisse trazer cultura, tendo uma base económica por trás. Não queria ficar 100% refém de subsídios públicos, porque, na minha opinião, isso acaba muitas vezes por ser um entrave ao crescimento da cultura em Portugal.

Depois de tantos projetos, o que continua a interessar-lhe?

J.F.R.P. — Faço projetos para ligar pessoas. Gosto de ver o mundo de mãos dadas, gosto de ver o mundo em harmonia, gosto de paz, gosto de silêncio. Todos os projetos que desenho vêm de um lado criativo e artístico, da vontade de pensar algo para um espaço e de juntar pessoas de alguma maneira. Meter a máquina a rolar, montar toda essa operação, continua a interessar-me. Tenho, também, outros projetos paralelos. Tenho uma casa nos Açores, que comprei há uns anos, e que é um local de retiro de natureza que faço há mais de 30 anos. Também comprei um espaço em Monchique, que servirá para um centro de retiros de natureza, levando as pessoas da cidade para um momento de conexão. Há sempre um equilíbrio no meio disto. Sempre estive ligado à natureza, mas também gosto da componente urbana, de um certo caos e de uma certa desordem. Percebi, ao longo da vida, que isto não é uma dualidade. Há um equilíbrio. Se vivesse isolado no meio das montanhas, também me faltaria toda esta cultura para me alimentar. Quem sonha tem de criar, de alguma forma. E essa criação ajuda-me, também, no meu processo de evolução pessoal.

#Protagonistas

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO: “A minha ideia final é dar vida a espaços”

O seu percurso cruza música, eventos, espaços urbanos, gastronomia e programação cultural. Esteve ligado à dinamização do Cais do Sodré, passou pelo LX Factory, criou o OutJazz, o Mercado de Fusão no Martim Moniz e, mais recentemente, esteve por trás do 8 Marvila. Ao longo das últimas duas décadas, o seu trabalho tem partido muitas vezes de uma mesma intuição: olhar para zonas ou edifícios subaproveitados e perceber que ali pode nascer outra vida. Nesta entrevista ao MOTIVO, José Filipe Rebelo Pinto fala sobre Lisboa, cultura, negócio, risco, intuição e a responsabilidade de intervir em espaços urbanos.

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10 de jul. de 2026, 12:26

O seu percurso cruza muitas áreas. Quando olha para trás, qual foi o primeiro projeto em que percebeu que podia transformar uma zona da cidade através de uma ideia?

JOSÉ FILIPE REBELO PINTO — O primeiro projeto em que me apercebo de que posso realmente transformar uma zona da cidade tem a ver com a reabilitação do Cais do Sodré, na Rua Nova do Carvalho, em 2004. Na altura, eu queria um espaço que pudesse dar casa a artistas da música com quem queria trabalhar. Era esse o objetivo da NCS, a empresa que fundei, também em 2004. Queria ter um espaço onde esses artistas pudessem atuar. Estamos a falar de uma zona que, nessa altura, estava um pouco esquecida da cidade, a cinco minutos a pé do Bairro Alto, com espaços com licenças muito boas, mas muitos deles com pouca dinâmica. Começámos com as quintas-feiras no Jamaica, com música negra. Depois passámos para o Texas, onde levámos música eletrónica. Mais tarde, dinamizámos também o Europa e fizemos várias festas e homenagens. Foi aí que começou a transformação do Cais do Sodré.

O José é muitas vezes descrito como alguém que recupera espaços e lhes dá uma nova vida. O que vê num lugar antes de ele se tornar óbvio para os outros?

J.F.R.P. — Procuro sempre espaços que estão um pouco ao abandono, que não estão muito utilizados, onde há margem para criar e fazer algo diferente. O primeiro passo é entender a zona onde estou a atuar e perceber a envolvente. O Cais do Sodré, por exemplo, era um projeto muito mais noturno. Tinha aquela onda da prostituição, era uma zona mais underground, quase uma red light [district],. Por isso, os projetos foram também pensados dentro dessa ideia de noite e de festa. Já o Mercado de Fusão, na Praça do Martim Moniz, foi completamente diferente. Nasceu de entender aquela zona, de perceber a sua multiculturalidade. É preciso viver o espaço, senti-lo e perceber o que pode vir dali. Depois, vem o processo criativo: perceber o que faz falta à cidade, o que pode ter impacto, como é que as pessoas podem viver aquele lugar.


Um dos espaços em que José interveio foi o 8 Marvila


Também passou pelo LX Factory e, mais recentemente, está por trás do 8 Marvila. O que é que estes projetos dizem sobre a forma como Lisboa mudou nas últimas décadas?

J.F.R.P. — São anos muito distintos. Cais do Sodré em 2004, LX Factory em 2007, Mercado de Fusão no Martim Moniz em 2012 e 8 Marvila em 2023. Estamos a falar de grandes mudanças ao longo das últimas décadas na cidade. Em 2004, o Cais do Sodré estava realmente meio parado. Tinha o Jamaica e o Tóquio, que faziam alguma programação, sobretudo ao fim de semana, mas de resto era uma zona muito ao abandono. Essa altura coincide também com o Euro 2004 e com o aparecimento de uma cidade diferente. O projeto do Manuel Reis, em Santa Apolónia, com o Lux, a Bica do Sapato, trouxe uma frescura enorme à cidade. De repente, havia ali uma dinâmica nova e um espaço para muitos músicos aparecerem. Depois, em 2006, entra também o OutJazz, que dá palco a uma série de músicos e ocupa espaços verdes da cidade que não eram muito utilizados. Hoje, há quiosques por todos esses jardins, há programação, há novos promotores. Há miúdos de 18, 20 ou 30 anos a promoverem eventos de grande dimensão, coisa que na altura não existia. O LX Factory também foi um projeto que transformou completamente a cidade. Foi um projeto do engenheiro Queiroz, da Mainside, que comprou aquele espaço e trouxe uma vertente cultural muito interessante. Mais tarde, com o Mercado de Fusão no Martim Moniz, em 2012, houve também todo o trabalho de renovação da Mouraria, do Intendente e, mais recentemente, de Anjos e Arroios. Ao longo deste período, Lisboa recebeu um público mais internacional e teve um investimento muito forte em restauração, hotelaria e em projetos muito interessantes. Por um lado, tornou-se uma cidade mais cosmopolita. Por outro, algumas zonas, sobretudo em termos de noite, também sofreram com isso. Bairros que não tinham grande dinâmica começaram a ganhar vida própria.

O 8 Marvila nasce num antigo conjunto de armazéns e junta cultura, restauração, comércio, eventos e comunidade. Que visão levou para aquele espaço e que papel acredita que ele pode ter na afirmação de Marvila?

J.F.R.P. — O 8 Marvila nasce de um convite feito pelo proprietário dos armazéns Abel Pereira da Fonseca, que tem um projeto residencial para aquele espaço. O que me foi pedido foi que, durante o período até ao início das obras, se criasse ali um projeto intermédio. Estamos a falar de uma área total de 22 mil metros quadrados. A ideia foi criar algo efémero, que pudesse dar vida aos espaços, gerar alguma rentabilidade e, ao mesmo tempo, ter continuidade no futuro. Foi preciso perceber Marvila: uma zona industrial, fora do circuito turístico da cidade, com muitas galerias de arte e uma relação forte com a cultura. O que quis fazer naquele espaço foi entender a zona e perceber de que forma aquilo que fosse implementado nesta fase poderia continuar depois. Como se trata de um projeto residencial com componente de comércio e serviços, pensei em como valorizar o espaço, dar lugar a novos artistas e novos projetos, e criar quase uma nova cidade ali. Trabalhar com 22 mil metros quadrados é uma responsabilidade grande. É preciso pensar o espaço como um todo e perceber que tudo o que está a ser desenhado tem impacto no futuro de Marvila. Pessoalmente, já não estou no projeto desde março de 2025, mas foi muito interessante e deu vida à zona de Marvila.

Há uma linha comum nos seus projetos: juntar pessoas em espaços que, muitas vezes, estavam subaproveitados. O que é que uma cidade ganha quando estes lugares passam a ser pontos de encontro?

J.F.R.P. Venho de uma altura em que me recordo de ver muitos espaços na cidade ao abandono, muitos prédios fechados, outros abandonados. Esse tipo de espaços não serve ninguém. Para os artistas, são, muitas vezes, espaços mais acessíveis em termos de renda e de valor, ainda que normalmente durante um período curto. A partir do momento em que ganham vida, também valorizam. É o circuito normal: os artistas vão para espaços mais acessíveis e mais abandonados, depois esses espaços ganham valor e eles acabam por procurar outros lugares. É um ciclo que se repete e vai continuar a repetir-se, em Lisboa e em qualquer parte do mundo. O que é que os espaços ganham? Ganham uma nova vida. Os artistas ganham um lugar para criar, desenvolver trabalho e estabelecer ligações com outros artistas. Há uma energia que começa ali e que depois perdura noutros sítios.

"Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos"

Como descreveria o seu perfil de empresário e empreendedor?

J.F.R.P. — Na realidade, não me vejo como empresário no verdadeiro sentido da palavra, apesar de ter tido várias empresas ao longo da vida, umas com alguma dimensão. Nunca foi numa ótica puramente de negócio ou de lucro. Considero-me muito mais uma pessoa que tem sonhos e vai à procura de realizar esses sonhos. Gosto de criar, de pensar projetos interessantes que me façam sentido. Tem sempre a ver com juntar pessoas e ligar pessoas através da música, da cultura e da arte. Esse é o meu sonho e o meu desejo. Considero-me uma pessoa persistente. Tenho muita força nos projetos em que acredito. Quando quero fazer alguma coisa, não há nada que me possam dizer para me convencer de que não vai funcionar. Também sou bastante agregador. Consigo juntar pessoas de várias áreas e isso interessa-me. A minha ideia final é mesmo dar vida a espaços. Dar vida, no geral. Esse tem sido muito mais o meu papel.

O seu trabalho parece viver entre o planeamento e a intuição. Quando está a criar um novo projeto, o que pesa mais?

J.F.R.P. — A intuição é aquilo que me guia ao longo da vida. Deixo-me levar. Tenho muitos momentos de não fazer nada, e esse "não fazer nada" começa a acumular uma energia que, depois, precisa de criar: o que vou fazer a seguir, o que me apetece fazer? A intuição leva-me sempre a esses lugares. Depois, obviamente, o planeamento é fundamental, porque são projetos com alguma dimensão e que precisam de estrutura. Muitas vezes, são projetos que parecem uma loucura. Avançar para um Mercado de Fusão na Praça do Martim Moniz, investir meio milhão de euros a título privado, hipotecar casas… Essa loucura só alguém com uma paixão, e uma vontade enorme de fazer e criar, é que assume. O que me pesa mais não é o trabalho em si. Quando estou num projeto de raiz, como aconteceu com o 8 Marvila, posso trabalhar 16 ou 20 horas por dia, seis dias por semana, e isso não é um problema. Estimula-me. Quando estou lá, nem dou pelo tempo passar. O que pesa mais é a falta de resposta. A burocracia. As dificuldades de licenciamento. O tempo perdido à espera de respostas. Sou uma pessoa muito pontual, gosto de trabalhar de forma certa, e pesa-me a displicência de algumas pessoas envolvidas em projetos, quando as coisas demoram e demoram.

Lisboa tornou-se uma cidade muito mais internacional, turística e competitiva. Isso tornou mais fácil ou mais difícil criar projetos culturais com identidade própria?

J.F.R.P. — Na minha opinião, isso não dificulta os projetos culturais com identidade própria. É preciso perceber que a cidade evoluiu. De alguma forma, perdeu-se autenticidade e identidade própria em muitos espaços. Isso é um facto. Na minha opinião, Lisboa foi longe demais em alguns aspetos. Sinto que há falta de regulação, e isso tem um impacto forte a nível local. Na habitação, no poder de compra e na vida de quem cá vive. Naquilo que me compete, os projetos que desenho mantêm sempre uma identidade minha e uma ligação ao espaço onde estou a intervir.


Apesar do trabalho na cidade de Lisboa, e de assumir precisar do "caos", José também diz necessitar de regressar com frequência à Natureza


Ainda existe resistência, em Portugal, a olhar para a cultura como motor económico e urbano?

J.F.R.P. — Sim. Há pouco investimento na cultura. No meu caso, sempre quis financiar os meus projetos e encontrar um equilíbrio. Nunca quis depender totalmente de fundos ou subsídios para levantar projetos culturais. A minha ideia foi sempre alavancar-me num modelo de negócio que me permitisse trazer cultura, tendo uma base económica por trás. Não queria ficar 100% refém de subsídios públicos, porque, na minha opinião, isso acaba muitas vezes por ser um entrave ao crescimento da cultura em Portugal.

Depois de tantos projetos, o que continua a interessar-lhe?

J.F.R.P. — Faço projetos para ligar pessoas. Gosto de ver o mundo de mãos dadas, gosto de ver o mundo em harmonia, gosto de paz, gosto de silêncio. Todos os projetos que desenho vêm de um lado criativo e artístico, da vontade de pensar algo para um espaço e de juntar pessoas de alguma maneira. Meter a máquina a rolar, montar toda essa operação, continua a interessar-me. Tenho, também, outros projetos paralelos. Tenho uma casa nos Açores, que comprei há uns anos, e que é um local de retiro de natureza que faço há mais de 30 anos. Também comprei um espaço em Monchique, que servirá para um centro de retiros de natureza, levando as pessoas da cidade para um momento de conexão. Há sempre um equilíbrio no meio disto. Sempre estive ligado à natureza, mas também gosto da componente urbana, de um certo caos e de uma certa desordem. Percebi, ao longo da vida, que isto não é uma dualidade. Há um equilíbrio. Se vivesse isolado no meio das montanhas, também me faltaria toda esta cultura para me alimentar. Quem sonha tem de criar, de alguma forma. E essa criação ajuda-me, também, no meu processo de evolução pessoal.

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