#Protagonistas

JONATHAN GOTTSCHALL: “As histórias são a melhor e a pior coisa do mundo”

As histórias ajudam-nos a compreender o mundo, a imaginar outras vidas e a construir sentido. Mas, para Jonathan Gottschall, autor do livro Storytelling, essa mesma força também pode alimentar polarização, teorias da conspiração e desinformação. Em entrevista ao MOTIVO, o investigador explica porque as narrativas continuam a ser uma das tecnologias humanas mais poderosas e perigosas.

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18 de mai. de 2026, 13:13

Em Storytelling, descreve as histórias como uma espécie de “simulador social”, que nos permite ensaiar dilemas da vida real. No ambiente digital atual, em que o conteúdo é consumido em grande escala e velocidade, essa simulação continua a servir-nos ou está a tornar-se distorcida?

JONATHAN GOTTSCHALL — As histórias continuam a servir-nos. Vão servir sempre. Mas o ambiente mudou radicalmente. Estamos a viver aquilo a que chamo o "big bang do storytelling": redes sociais, entretenimento em streaming, notícias 24 horas por dia e feeds algorítmicos que nos deixam isolados em “realidades” curadas. O volume e a velocidade da narrativa não têm comparação com qualquer outro momento da história humana. O problema é que a mesma maquinaria psicológica que, em tempos, ajudou pequenas tribos a cooperar está, agora, a ser capturada à escala industrial. As histórias são incrivelmente eficazes porque nos transportam. Reduzem o ceticismo. Puxam-nos emocionalmente para mundos simulados. Isso é maravilhoso quando a história alarga a nossa humanidade. É perigoso quando a história é manipuladora, conspirativa ou movida pela raiva. Portanto, a simulação continua a funcionar. Talvez funcione demasiado bem. Criámos tecnologias capazes de inundar o sistema nervoso humano com narrativas, e a nossa psicologia ancestral do storytelling simplesmente não foi desenhada para este ambiente.



O seu trabalho sugere que as histórias moldam crenças, comportamentos e até decisões coletivas. Numa época de crescente polarização e desinformação, estamos a subestimar o poder político da narrativa?

J.G. — Acho que o subestimamos radicalmente. Temos tendência para imaginar a política como uma disputa de factos e políticas públicas. Mas grande parte do conflito político é, na verdade, um conflito entre histórias rivais sobre a realidade. Quem são os heróis? Quem são os vilões? Quem são as vítimas? Quem merece culpa? Quem merece redenção? Essa é a gramática da narrativa, e domina a vida política. A esquerda e a direita vivem, muitas vezes, dentro de mundos narrativos completamente diferentes. E, quando uma narrativa coloniza a mente, as pessoas não a usam apenas para interpretar factos. A narrativa começa a selecionar que factos contam, sequer, como reais. É por isso que discutir apenas com estatísticas falha tantas vezes. Os seres humanos não são, acima de tudo, processadores racionais de evidência. Somos dramatizadores. Pensamos em histórias. Criamos laços através de histórias. Vamos para a guerra através de histórias.

Defende que a mente humana tem uma profunda aversão ao acaso e procura constantemente padrões narrativos. Isto ajuda a explicar o crescimento das teorias da conspiração e a necessidade de impor sentido a realidades complexas?

J.G. — A mente humana é uma máquina de deteção de padrões. Sentimo-nos profundamente desconfortáveis com o caos, a ambiguidade e o acaso. Queremos que os acontecimentos signifiquem alguma coisa. Queremos causas escondidas. Queremos que todas as coisas más sejam culpa de pessoas más. Talvez, acima de tudo, queiramos drama. A teoria da conspiração é um género de storytelling criativo, dramático e colaborativo, forjado a partir de ligas de facto e ficção. Pega na desordem da realidade e martela-a até se transformar numa estrutura narrativa dramática: boas pessoas, conspiradores maléficos, motivos ocultos, riscos existenciais. O problema é que estas histórias são emocionalmente satisfatórias. Parecem clarificadoras. Substituem a incerteza pela certeza. Transformam a confusão em drama profundamente significativo e carregado de emoção. Em contraste, as histórias verdadeiras são, muitas vezes, aborrecidas, acidentais, moralmente ambíguas e emocionalmente planas. Isso torna difícil que a realidade consiga competir com a conspiração no mercado da narrativa. Dito de outra forma, quase todas as narrativas de desinformação e informação falsa com grande adesão dariam filmes de Hollywood de enorme sucesso. A maioria das refutações daria apenas documentários razoáveis para a PBS.


Jonathan Gottschall é investigador e autor norte-americano conhecido pelo seu trabalho sobre o poder das histórias (Foto © Jared White)


No livro, sugere que a ficção pode aumentar a empatia. Continua a acreditar nisso numa era de storytelling fragmentado, acelerado e de scroll infinito?

J.G. — Acredito, embora com ressalvas importantes. Uma história continua a ser uma das melhores tecnologias de empatia alguma vez inventadas. Quando a ficção funciona, deixamos temporariamente de estar presos a nós próprios. Entramos noutra consciência. A neurociência mostra que o nosso cérebro espelha as emoções que as personagens estão a sentir. Isso importa porque é difícil odiar pessoas depois de termos habitado imaginativamente as suas vidas interiores. Mas existe uma complicação. As histórias geram empatia de forma seletiva. Alargam a compaixão em relação a quem ocupa o papel de protagonista, ao mesmo tempo que podem endurecer-nos contra quem é colocado no papel de vilão. As histórias produzem empatia, mas também podem produzir aquilo a que poderíamos chamar tribalismo empático. Na medida em que as histórias clássicas dividem o mundo entre pessoas boas, os protagonistas, e pessoas más, os antagonistas, geram uma unidade de insensibilidade por cada unidade de empatia. No próprio ato de gerar empatia, as histórias podem também gerar o seu inverso: uma espécie de cegueira moral perante a humanidade de quem é empurrado para o papel de vilão. Isto faz do storytelling uma ferramenta ideal, não só para nos aproximar, mas também para nos afastar.

Se as histórias têm o poder de contornar o pensamento crítico e influenciar atitudes, isso aumenta a responsabilidade ética de quem as cria: escritores, media ou marcas?

J.G. — Os contadores de histórias exercem um poder extraordinário, muitas vezes sem terem plena consciência disso. As histórias não se limitam a entreter-nos. Moldam perceção, emoção, memória e crença. E, porque as histórias funcionam abaixo do nível da consciência, podem contornar defesas que normalmente seriam ativadas perante um argumento direto. As emoções fortes geradas por uma história podem funcionar como solventes do ceticismo. Isso cria obrigações éticas. Se conseguimos comover profundamente as pessoas, também temos capacidade para as enganar profundamente. Pensamos nas histórias como uma das melhores coisas da vida, lá em cima, ao lado de cachorrinhos brincalhões e bebés a rir. Mas, como diz um psicólogo, “não há nada menos inocente do que uma história”. Contar histórias não nos põe automaticamente do lado dos bons. As histórias não são eticamente boas ou más. São apenas poderosas, com igual potencial para causar dano ou fazer bem.


"O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas"


Sugere que vivemos constantemente dentro de histórias, incluindo as que contamos sobre nós próprios. Até que ponto estas narrativas pessoais podem limitar ou expandir o nosso comportamento?

J.G. — Todos transportamos uma autobiografia interna, uma história que explica quem somos, o que nos aconteceu, que tipo de pessoa nos tornámos e que possibilidades continuam abertas para nós. O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas. A memória humana parece-se menos com um dispositivo de gravação e mais com um romancista que está constantemente a rever rascunhos. Uma história pessoal destrutiva pode prender as pessoas em identidades construídas em torno do fracasso, da vitimização, do ressentimento ou do medo. Mas histórias mais saudáveis podem alargar possibilidades. A psicoterapia, pelo menos em parte, é muitas vezes um processo de ajudar as pessoas a rever as histórias das suas vidas. Somos as nossas histórias num grau surpreendente. A parte esperançosa é que, por vezes, as histórias podem ser reescritas.

No seu trabalho mais recente, The Story Paradox, explora a forma como as histórias podem construir e desestabilizar sociedades. O que mudou no seu pensamento desde Storytelling?

J.G. Storytelling era, em grande medida, uma celebração das histórias. The Story Paradox é mais ambivalente. Continuo a acreditar que as histórias são essenciais ao florescimento humano. As histórias elevaram-nos enquanto espécie. Ligam sociedades. Promovem empatia. Criam sentido. Mas, ao longo da última década, fiquei cada vez mais alarmado com o potencial destrutivo das histórias. Estamos a ver narrativas a alimentar extremismo político, pensamento conspirativo, fragmentação social e histeria moral em larga escala. A ideia central por trás de The Story Paradox é que tudo o que há de bom nas histórias é também aquilo que as torna perigosas. As mesmas propriedades psicológicas que permitem às histórias unir-nos também podem dividir-nos, radicalizar-nos e desligar-nos da realidade. As histórias são a melhor coisa do mundo e também a pior. Esse é o paradoxo.

Se tivesse de aconselhar líderes, empreendedores ou comunicadores hoje, qual é a competência narrativa mais importante que deveriam desenvolver?

J.G. — A capacidade de contar histórias envolventes sem transformar outros seres humanos em vilões caricaturais. Parece simples, mas é incrivelmente difícil, porque as histórias gravitam naturalmente em direção à simplificação moral. Desejam heróis e monstros. As narrativas mais perigosas são, muitas vezes, as mais emocionalmente satisfatórias, porque dividem o mundo entre os puros e os condenados. Por isso, penso que a competência narrativa mais importante, hoje, é manter força dramática preservando a complexidade moral. Contar histórias que comovam as pessoas sem as encorajar a desumanizar quem está fora da sua tribo. Isto é, hoje, um desafio civilizacional, não apenas artístico.


Foto de abertura © Jared White


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As histórias ajudam-nos a compreender o mundo, a imaginar outras vidas e a construir sentido. Mas, para Jonathan Gottschall, autor do livro Storytelling, essa mesma força também pode alimentar polarização, teorias da conspiração e desinformação. Em entrevista ao MOTIVO, o investigador explica porque as narrativas continuam a ser uma das tecnologias humanas mais poderosas e perigosas.

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18 de mai. de 2026, 13:13

Em Storytelling, descreve as histórias como uma espécie de “simulador social”, que nos permite ensaiar dilemas da vida real. No ambiente digital atual, em que o conteúdo é consumido em grande escala e velocidade, essa simulação continua a servir-nos ou está a tornar-se distorcida?

JONATHAN GOTTSCHALL — As histórias continuam a servir-nos. Vão servir sempre. Mas o ambiente mudou radicalmente. Estamos a viver aquilo a que chamo o "big bang do storytelling": redes sociais, entretenimento em streaming, notícias 24 horas por dia e feeds algorítmicos que nos deixam isolados em “realidades” curadas. O volume e a velocidade da narrativa não têm comparação com qualquer outro momento da história humana. O problema é que a mesma maquinaria psicológica que, em tempos, ajudou pequenas tribos a cooperar está, agora, a ser capturada à escala industrial. As histórias são incrivelmente eficazes porque nos transportam. Reduzem o ceticismo. Puxam-nos emocionalmente para mundos simulados. Isso é maravilhoso quando a história alarga a nossa humanidade. É perigoso quando a história é manipuladora, conspirativa ou movida pela raiva. Portanto, a simulação continua a funcionar. Talvez funcione demasiado bem. Criámos tecnologias capazes de inundar o sistema nervoso humano com narrativas, e a nossa psicologia ancestral do storytelling simplesmente não foi desenhada para este ambiente.



O seu trabalho sugere que as histórias moldam crenças, comportamentos e até decisões coletivas. Numa época de crescente polarização e desinformação, estamos a subestimar o poder político da narrativa?

J.G. — Acho que o subestimamos radicalmente. Temos tendência para imaginar a política como uma disputa de factos e políticas públicas. Mas grande parte do conflito político é, na verdade, um conflito entre histórias rivais sobre a realidade. Quem são os heróis? Quem são os vilões? Quem são as vítimas? Quem merece culpa? Quem merece redenção? Essa é a gramática da narrativa, e domina a vida política. A esquerda e a direita vivem, muitas vezes, dentro de mundos narrativos completamente diferentes. E, quando uma narrativa coloniza a mente, as pessoas não a usam apenas para interpretar factos. A narrativa começa a selecionar que factos contam, sequer, como reais. É por isso que discutir apenas com estatísticas falha tantas vezes. Os seres humanos não são, acima de tudo, processadores racionais de evidência. Somos dramatizadores. Pensamos em histórias. Criamos laços através de histórias. Vamos para a guerra através de histórias.

Defende que a mente humana tem uma profunda aversão ao acaso e procura constantemente padrões narrativos. Isto ajuda a explicar o crescimento das teorias da conspiração e a necessidade de impor sentido a realidades complexas?

J.G. — A mente humana é uma máquina de deteção de padrões. Sentimo-nos profundamente desconfortáveis com o caos, a ambiguidade e o acaso. Queremos que os acontecimentos signifiquem alguma coisa. Queremos causas escondidas. Queremos que todas as coisas más sejam culpa de pessoas más. Talvez, acima de tudo, queiramos drama. A teoria da conspiração é um género de storytelling criativo, dramático e colaborativo, forjado a partir de ligas de facto e ficção. Pega na desordem da realidade e martela-a até se transformar numa estrutura narrativa dramática: boas pessoas, conspiradores maléficos, motivos ocultos, riscos existenciais. O problema é que estas histórias são emocionalmente satisfatórias. Parecem clarificadoras. Substituem a incerteza pela certeza. Transformam a confusão em drama profundamente significativo e carregado de emoção. Em contraste, as histórias verdadeiras são, muitas vezes, aborrecidas, acidentais, moralmente ambíguas e emocionalmente planas. Isso torna difícil que a realidade consiga competir com a conspiração no mercado da narrativa. Dito de outra forma, quase todas as narrativas de desinformação e informação falsa com grande adesão dariam filmes de Hollywood de enorme sucesso. A maioria das refutações daria apenas documentários razoáveis para a PBS.


Jonathan Gottschall é investigador e autor norte-americano conhecido pelo seu trabalho sobre o poder das histórias (Foto © Jared White)


No livro, sugere que a ficção pode aumentar a empatia. Continua a acreditar nisso numa era de storytelling fragmentado, acelerado e de scroll infinito?

J.G. — Acredito, embora com ressalvas importantes. Uma história continua a ser uma das melhores tecnologias de empatia alguma vez inventadas. Quando a ficção funciona, deixamos temporariamente de estar presos a nós próprios. Entramos noutra consciência. A neurociência mostra que o nosso cérebro espelha as emoções que as personagens estão a sentir. Isso importa porque é difícil odiar pessoas depois de termos habitado imaginativamente as suas vidas interiores. Mas existe uma complicação. As histórias geram empatia de forma seletiva. Alargam a compaixão em relação a quem ocupa o papel de protagonista, ao mesmo tempo que podem endurecer-nos contra quem é colocado no papel de vilão. As histórias produzem empatia, mas também podem produzir aquilo a que poderíamos chamar tribalismo empático. Na medida em que as histórias clássicas dividem o mundo entre pessoas boas, os protagonistas, e pessoas más, os antagonistas, geram uma unidade de insensibilidade por cada unidade de empatia. No próprio ato de gerar empatia, as histórias podem também gerar o seu inverso: uma espécie de cegueira moral perante a humanidade de quem é empurrado para o papel de vilão. Isto faz do storytelling uma ferramenta ideal, não só para nos aproximar, mas também para nos afastar.

Se as histórias têm o poder de contornar o pensamento crítico e influenciar atitudes, isso aumenta a responsabilidade ética de quem as cria: escritores, media ou marcas?

J.G. — Os contadores de histórias exercem um poder extraordinário, muitas vezes sem terem plena consciência disso. As histórias não se limitam a entreter-nos. Moldam perceção, emoção, memória e crença. E, porque as histórias funcionam abaixo do nível da consciência, podem contornar defesas que normalmente seriam ativadas perante um argumento direto. As emoções fortes geradas por uma história podem funcionar como solventes do ceticismo. Isso cria obrigações éticas. Se conseguimos comover profundamente as pessoas, também temos capacidade para as enganar profundamente. Pensamos nas histórias como uma das melhores coisas da vida, lá em cima, ao lado de cachorrinhos brincalhões e bebés a rir. Mas, como diz um psicólogo, “não há nada menos inocente do que uma história”. Contar histórias não nos põe automaticamente do lado dos bons. As histórias não são eticamente boas ou más. São apenas poderosas, com igual potencial para causar dano ou fazer bem.


"O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas"


Sugere que vivemos constantemente dentro de histórias, incluindo as que contamos sobre nós próprios. Até que ponto estas narrativas pessoais podem limitar ou expandir o nosso comportamento?

J.G. — Todos transportamos uma autobiografia interna, uma história que explica quem somos, o que nos aconteceu, que tipo de pessoa nos tornámos e que possibilidades continuam abertas para nós. O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas. A memória humana parece-se menos com um dispositivo de gravação e mais com um romancista que está constantemente a rever rascunhos. Uma história pessoal destrutiva pode prender as pessoas em identidades construídas em torno do fracasso, da vitimização, do ressentimento ou do medo. Mas histórias mais saudáveis podem alargar possibilidades. A psicoterapia, pelo menos em parte, é muitas vezes um processo de ajudar as pessoas a rever as histórias das suas vidas. Somos as nossas histórias num grau surpreendente. A parte esperançosa é que, por vezes, as histórias podem ser reescritas.

No seu trabalho mais recente, The Story Paradox, explora a forma como as histórias podem construir e desestabilizar sociedades. O que mudou no seu pensamento desde Storytelling?

J.G. Storytelling era, em grande medida, uma celebração das histórias. The Story Paradox é mais ambivalente. Continuo a acreditar que as histórias são essenciais ao florescimento humano. As histórias elevaram-nos enquanto espécie. Ligam sociedades. Promovem empatia. Criam sentido. Mas, ao longo da última década, fiquei cada vez mais alarmado com o potencial destrutivo das histórias. Estamos a ver narrativas a alimentar extremismo político, pensamento conspirativo, fragmentação social e histeria moral em larga escala. A ideia central por trás de The Story Paradox é que tudo o que há de bom nas histórias é também aquilo que as torna perigosas. As mesmas propriedades psicológicas que permitem às histórias unir-nos também podem dividir-nos, radicalizar-nos e desligar-nos da realidade. As histórias são a melhor coisa do mundo e também a pior. Esse é o paradoxo.

Se tivesse de aconselhar líderes, empreendedores ou comunicadores hoje, qual é a competência narrativa mais importante que deveriam desenvolver?

J.G. — A capacidade de contar histórias envolventes sem transformar outros seres humanos em vilões caricaturais. Parece simples, mas é incrivelmente difícil, porque as histórias gravitam naturalmente em direção à simplificação moral. Desejam heróis e monstros. As narrativas mais perigosas são, muitas vezes, as mais emocionalmente satisfatórias, porque dividem o mundo entre os puros e os condenados. Por isso, penso que a competência narrativa mais importante, hoje, é manter força dramática preservando a complexidade moral. Contar histórias que comovam as pessoas sem as encorajar a desumanizar quem está fora da sua tribo. Isto é, hoje, um desafio civilizacional, não apenas artístico.


Foto de abertura © Jared White


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#Protagonistas

JONATHAN GOTTSCHALL: “As histórias são a melhor e a pior coisa do mundo”

As histórias ajudam-nos a compreender o mundo, a imaginar outras vidas e a construir sentido. Mas, para Jonathan Gottschall, autor do livro Storytelling, essa mesma força também pode alimentar polarização, teorias da conspiração e desinformação. Em entrevista ao MOTIVO, o investigador explica porque as narrativas continuam a ser uma das tecnologias humanas mais poderosas e perigosas.

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18 de mai. de 2026, 13:13

Em Storytelling, descreve as histórias como uma espécie de “simulador social”, que nos permite ensaiar dilemas da vida real. No ambiente digital atual, em que o conteúdo é consumido em grande escala e velocidade, essa simulação continua a servir-nos ou está a tornar-se distorcida?

JONATHAN GOTTSCHALL — As histórias continuam a servir-nos. Vão servir sempre. Mas o ambiente mudou radicalmente. Estamos a viver aquilo a que chamo o "big bang do storytelling": redes sociais, entretenimento em streaming, notícias 24 horas por dia e feeds algorítmicos que nos deixam isolados em “realidades” curadas. O volume e a velocidade da narrativa não têm comparação com qualquer outro momento da história humana. O problema é que a mesma maquinaria psicológica que, em tempos, ajudou pequenas tribos a cooperar está, agora, a ser capturada à escala industrial. As histórias são incrivelmente eficazes porque nos transportam. Reduzem o ceticismo. Puxam-nos emocionalmente para mundos simulados. Isso é maravilhoso quando a história alarga a nossa humanidade. É perigoso quando a história é manipuladora, conspirativa ou movida pela raiva. Portanto, a simulação continua a funcionar. Talvez funcione demasiado bem. Criámos tecnologias capazes de inundar o sistema nervoso humano com narrativas, e a nossa psicologia ancestral do storytelling simplesmente não foi desenhada para este ambiente.



O seu trabalho sugere que as histórias moldam crenças, comportamentos e até decisões coletivas. Numa época de crescente polarização e desinformação, estamos a subestimar o poder político da narrativa?

J.G. — Acho que o subestimamos radicalmente. Temos tendência para imaginar a política como uma disputa de factos e políticas públicas. Mas grande parte do conflito político é, na verdade, um conflito entre histórias rivais sobre a realidade. Quem são os heróis? Quem são os vilões? Quem são as vítimas? Quem merece culpa? Quem merece redenção? Essa é a gramática da narrativa, e domina a vida política. A esquerda e a direita vivem, muitas vezes, dentro de mundos narrativos completamente diferentes. E, quando uma narrativa coloniza a mente, as pessoas não a usam apenas para interpretar factos. A narrativa começa a selecionar que factos contam, sequer, como reais. É por isso que discutir apenas com estatísticas falha tantas vezes. Os seres humanos não são, acima de tudo, processadores racionais de evidência. Somos dramatizadores. Pensamos em histórias. Criamos laços através de histórias. Vamos para a guerra através de histórias.

Defende que a mente humana tem uma profunda aversão ao acaso e procura constantemente padrões narrativos. Isto ajuda a explicar o crescimento das teorias da conspiração e a necessidade de impor sentido a realidades complexas?

J.G. — A mente humana é uma máquina de deteção de padrões. Sentimo-nos profundamente desconfortáveis com o caos, a ambiguidade e o acaso. Queremos que os acontecimentos signifiquem alguma coisa. Queremos causas escondidas. Queremos que todas as coisas más sejam culpa de pessoas más. Talvez, acima de tudo, queiramos drama. A teoria da conspiração é um género de storytelling criativo, dramático e colaborativo, forjado a partir de ligas de facto e ficção. Pega na desordem da realidade e martela-a até se transformar numa estrutura narrativa dramática: boas pessoas, conspiradores maléficos, motivos ocultos, riscos existenciais. O problema é que estas histórias são emocionalmente satisfatórias. Parecem clarificadoras. Substituem a incerteza pela certeza. Transformam a confusão em drama profundamente significativo e carregado de emoção. Em contraste, as histórias verdadeiras são, muitas vezes, aborrecidas, acidentais, moralmente ambíguas e emocionalmente planas. Isso torna difícil que a realidade consiga competir com a conspiração no mercado da narrativa. Dito de outra forma, quase todas as narrativas de desinformação e informação falsa com grande adesão dariam filmes de Hollywood de enorme sucesso. A maioria das refutações daria apenas documentários razoáveis para a PBS.


Jonathan Gottschall é investigador e autor norte-americano conhecido pelo seu trabalho sobre o poder das histórias (Foto © Jared White)


No livro, sugere que a ficção pode aumentar a empatia. Continua a acreditar nisso numa era de storytelling fragmentado, acelerado e de scroll infinito?

J.G. — Acredito, embora com ressalvas importantes. Uma história continua a ser uma das melhores tecnologias de empatia alguma vez inventadas. Quando a ficção funciona, deixamos temporariamente de estar presos a nós próprios. Entramos noutra consciência. A neurociência mostra que o nosso cérebro espelha as emoções que as personagens estão a sentir. Isso importa porque é difícil odiar pessoas depois de termos habitado imaginativamente as suas vidas interiores. Mas existe uma complicação. As histórias geram empatia de forma seletiva. Alargam a compaixão em relação a quem ocupa o papel de protagonista, ao mesmo tempo que podem endurecer-nos contra quem é colocado no papel de vilão. As histórias produzem empatia, mas também podem produzir aquilo a que poderíamos chamar tribalismo empático. Na medida em que as histórias clássicas dividem o mundo entre pessoas boas, os protagonistas, e pessoas más, os antagonistas, geram uma unidade de insensibilidade por cada unidade de empatia. No próprio ato de gerar empatia, as histórias podem também gerar o seu inverso: uma espécie de cegueira moral perante a humanidade de quem é empurrado para o papel de vilão. Isto faz do storytelling uma ferramenta ideal, não só para nos aproximar, mas também para nos afastar.

Se as histórias têm o poder de contornar o pensamento crítico e influenciar atitudes, isso aumenta a responsabilidade ética de quem as cria: escritores, media ou marcas?

J.G. — Os contadores de histórias exercem um poder extraordinário, muitas vezes sem terem plena consciência disso. As histórias não se limitam a entreter-nos. Moldam perceção, emoção, memória e crença. E, porque as histórias funcionam abaixo do nível da consciência, podem contornar defesas que normalmente seriam ativadas perante um argumento direto. As emoções fortes geradas por uma história podem funcionar como solventes do ceticismo. Isso cria obrigações éticas. Se conseguimos comover profundamente as pessoas, também temos capacidade para as enganar profundamente. Pensamos nas histórias como uma das melhores coisas da vida, lá em cima, ao lado de cachorrinhos brincalhões e bebés a rir. Mas, como diz um psicólogo, “não há nada menos inocente do que uma história”. Contar histórias não nos põe automaticamente do lado dos bons. As histórias não são eticamente boas ou más. São apenas poderosas, com igual potencial para causar dano ou fazer bem.


"O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas"


Sugere que vivemos constantemente dentro de histórias, incluindo as que contamos sobre nós próprios. Até que ponto estas narrativas pessoais podem limitar ou expandir o nosso comportamento?

J.G. — Todos transportamos uma autobiografia interna, uma história que explica quem somos, o que nos aconteceu, que tipo de pessoa nos tornámos e que possibilidades continuam abertas para nós. O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas. A memória humana parece-se menos com um dispositivo de gravação e mais com um romancista que está constantemente a rever rascunhos. Uma história pessoal destrutiva pode prender as pessoas em identidades construídas em torno do fracasso, da vitimização, do ressentimento ou do medo. Mas histórias mais saudáveis podem alargar possibilidades. A psicoterapia, pelo menos em parte, é muitas vezes um processo de ajudar as pessoas a rever as histórias das suas vidas. Somos as nossas histórias num grau surpreendente. A parte esperançosa é que, por vezes, as histórias podem ser reescritas.

No seu trabalho mais recente, The Story Paradox, explora a forma como as histórias podem construir e desestabilizar sociedades. O que mudou no seu pensamento desde Storytelling?

J.G. Storytelling era, em grande medida, uma celebração das histórias. The Story Paradox é mais ambivalente. Continuo a acreditar que as histórias são essenciais ao florescimento humano. As histórias elevaram-nos enquanto espécie. Ligam sociedades. Promovem empatia. Criam sentido. Mas, ao longo da última década, fiquei cada vez mais alarmado com o potencial destrutivo das histórias. Estamos a ver narrativas a alimentar extremismo político, pensamento conspirativo, fragmentação social e histeria moral em larga escala. A ideia central por trás de The Story Paradox é que tudo o que há de bom nas histórias é também aquilo que as torna perigosas. As mesmas propriedades psicológicas que permitem às histórias unir-nos também podem dividir-nos, radicalizar-nos e desligar-nos da realidade. As histórias são a melhor coisa do mundo e também a pior. Esse é o paradoxo.

Se tivesse de aconselhar líderes, empreendedores ou comunicadores hoje, qual é a competência narrativa mais importante que deveriam desenvolver?

J.G. — A capacidade de contar histórias envolventes sem transformar outros seres humanos em vilões caricaturais. Parece simples, mas é incrivelmente difícil, porque as histórias gravitam naturalmente em direção à simplificação moral. Desejam heróis e monstros. As narrativas mais perigosas são, muitas vezes, as mais emocionalmente satisfatórias, porque dividem o mundo entre os puros e os condenados. Por isso, penso que a competência narrativa mais importante, hoje, é manter força dramática preservando a complexidade moral. Contar histórias que comovam as pessoas sem as encorajar a desumanizar quem está fora da sua tribo. Isto é, hoje, um desafio civilizacional, não apenas artístico.


Foto de abertura © Jared White


VER TAMBÉM:

#Protagonistas

JONATHAN GOTTSCHALL: “As histórias são a melhor e a pior coisa do mundo”

As histórias ajudam-nos a compreender o mundo, a imaginar outras vidas e a construir sentido. Mas, para Jonathan Gottschall, autor do livro Storytelling, essa mesma força também pode alimentar polarização, teorias da conspiração e desinformação. Em entrevista ao MOTIVO, o investigador explica porque as narrativas continuam a ser uma das tecnologias humanas mais poderosas e perigosas.

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18 de mai. de 2026, 13:13

Em Storytelling, descreve as histórias como uma espécie de “simulador social”, que nos permite ensaiar dilemas da vida real. No ambiente digital atual, em que o conteúdo é consumido em grande escala e velocidade, essa simulação continua a servir-nos ou está a tornar-se distorcida?

JONATHAN GOTTSCHALL — As histórias continuam a servir-nos. Vão servir sempre. Mas o ambiente mudou radicalmente. Estamos a viver aquilo a que chamo o "big bang do storytelling": redes sociais, entretenimento em streaming, notícias 24 horas por dia e feeds algorítmicos que nos deixam isolados em “realidades” curadas. O volume e a velocidade da narrativa não têm comparação com qualquer outro momento da história humana. O problema é que a mesma maquinaria psicológica que, em tempos, ajudou pequenas tribos a cooperar está, agora, a ser capturada à escala industrial. As histórias são incrivelmente eficazes porque nos transportam. Reduzem o ceticismo. Puxam-nos emocionalmente para mundos simulados. Isso é maravilhoso quando a história alarga a nossa humanidade. É perigoso quando a história é manipuladora, conspirativa ou movida pela raiva. Portanto, a simulação continua a funcionar. Talvez funcione demasiado bem. Criámos tecnologias capazes de inundar o sistema nervoso humano com narrativas, e a nossa psicologia ancestral do storytelling simplesmente não foi desenhada para este ambiente.



O seu trabalho sugere que as histórias moldam crenças, comportamentos e até decisões coletivas. Numa época de crescente polarização e desinformação, estamos a subestimar o poder político da narrativa?

J.G. — Acho que o subestimamos radicalmente. Temos tendência para imaginar a política como uma disputa de factos e políticas públicas. Mas grande parte do conflito político é, na verdade, um conflito entre histórias rivais sobre a realidade. Quem são os heróis? Quem são os vilões? Quem são as vítimas? Quem merece culpa? Quem merece redenção? Essa é a gramática da narrativa, e domina a vida política. A esquerda e a direita vivem, muitas vezes, dentro de mundos narrativos completamente diferentes. E, quando uma narrativa coloniza a mente, as pessoas não a usam apenas para interpretar factos. A narrativa começa a selecionar que factos contam, sequer, como reais. É por isso que discutir apenas com estatísticas falha tantas vezes. Os seres humanos não são, acima de tudo, processadores racionais de evidência. Somos dramatizadores. Pensamos em histórias. Criamos laços através de histórias. Vamos para a guerra através de histórias.

Defende que a mente humana tem uma profunda aversão ao acaso e procura constantemente padrões narrativos. Isto ajuda a explicar o crescimento das teorias da conspiração e a necessidade de impor sentido a realidades complexas?

J.G. — A mente humana é uma máquina de deteção de padrões. Sentimo-nos profundamente desconfortáveis com o caos, a ambiguidade e o acaso. Queremos que os acontecimentos signifiquem alguma coisa. Queremos causas escondidas. Queremos que todas as coisas más sejam culpa de pessoas más. Talvez, acima de tudo, queiramos drama. A teoria da conspiração é um género de storytelling criativo, dramático e colaborativo, forjado a partir de ligas de facto e ficção. Pega na desordem da realidade e martela-a até se transformar numa estrutura narrativa dramática: boas pessoas, conspiradores maléficos, motivos ocultos, riscos existenciais. O problema é que estas histórias são emocionalmente satisfatórias. Parecem clarificadoras. Substituem a incerteza pela certeza. Transformam a confusão em drama profundamente significativo e carregado de emoção. Em contraste, as histórias verdadeiras são, muitas vezes, aborrecidas, acidentais, moralmente ambíguas e emocionalmente planas. Isso torna difícil que a realidade consiga competir com a conspiração no mercado da narrativa. Dito de outra forma, quase todas as narrativas de desinformação e informação falsa com grande adesão dariam filmes de Hollywood de enorme sucesso. A maioria das refutações daria apenas documentários razoáveis para a PBS.


Jonathan Gottschall é investigador e autor norte-americano conhecido pelo seu trabalho sobre o poder das histórias (Foto © Jared White)


No livro, sugere que a ficção pode aumentar a empatia. Continua a acreditar nisso numa era de storytelling fragmentado, acelerado e de scroll infinito?

J.G. — Acredito, embora com ressalvas importantes. Uma história continua a ser uma das melhores tecnologias de empatia alguma vez inventadas. Quando a ficção funciona, deixamos temporariamente de estar presos a nós próprios. Entramos noutra consciência. A neurociência mostra que o nosso cérebro espelha as emoções que as personagens estão a sentir. Isso importa porque é difícil odiar pessoas depois de termos habitado imaginativamente as suas vidas interiores. Mas existe uma complicação. As histórias geram empatia de forma seletiva. Alargam a compaixão em relação a quem ocupa o papel de protagonista, ao mesmo tempo que podem endurecer-nos contra quem é colocado no papel de vilão. As histórias produzem empatia, mas também podem produzir aquilo a que poderíamos chamar tribalismo empático. Na medida em que as histórias clássicas dividem o mundo entre pessoas boas, os protagonistas, e pessoas más, os antagonistas, geram uma unidade de insensibilidade por cada unidade de empatia. No próprio ato de gerar empatia, as histórias podem também gerar o seu inverso: uma espécie de cegueira moral perante a humanidade de quem é empurrado para o papel de vilão. Isto faz do storytelling uma ferramenta ideal, não só para nos aproximar, mas também para nos afastar.

Se as histórias têm o poder de contornar o pensamento crítico e influenciar atitudes, isso aumenta a responsabilidade ética de quem as cria: escritores, media ou marcas?

J.G. — Os contadores de histórias exercem um poder extraordinário, muitas vezes sem terem plena consciência disso. As histórias não se limitam a entreter-nos. Moldam perceção, emoção, memória e crença. E, porque as histórias funcionam abaixo do nível da consciência, podem contornar defesas que normalmente seriam ativadas perante um argumento direto. As emoções fortes geradas por uma história podem funcionar como solventes do ceticismo. Isso cria obrigações éticas. Se conseguimos comover profundamente as pessoas, também temos capacidade para as enganar profundamente. Pensamos nas histórias como uma das melhores coisas da vida, lá em cima, ao lado de cachorrinhos brincalhões e bebés a rir. Mas, como diz um psicólogo, “não há nada menos inocente do que uma história”. Contar histórias não nos põe automaticamente do lado dos bons. As histórias não são eticamente boas ou más. São apenas poderosas, com igual potencial para causar dano ou fazer bem.


"O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas"


Sugere que vivemos constantemente dentro de histórias, incluindo as que contamos sobre nós próprios. Até que ponto estas narrativas pessoais podem limitar ou expandir o nosso comportamento?

J.G. — Todos transportamos uma autobiografia interna, uma história que explica quem somos, o que nos aconteceu, que tipo de pessoa nos tornámos e que possibilidades continuam abertas para nós. O problema é que estas histórias pessoais são, muitas vezes, profundamente distorcidas. A memória humana parece-se menos com um dispositivo de gravação e mais com um romancista que está constantemente a rever rascunhos. Uma história pessoal destrutiva pode prender as pessoas em identidades construídas em torno do fracasso, da vitimização, do ressentimento ou do medo. Mas histórias mais saudáveis podem alargar possibilidades. A psicoterapia, pelo menos em parte, é muitas vezes um processo de ajudar as pessoas a rever as histórias das suas vidas. Somos as nossas histórias num grau surpreendente. A parte esperançosa é que, por vezes, as histórias podem ser reescritas.

No seu trabalho mais recente, The Story Paradox, explora a forma como as histórias podem construir e desestabilizar sociedades. O que mudou no seu pensamento desde Storytelling?

J.G. Storytelling era, em grande medida, uma celebração das histórias. The Story Paradox é mais ambivalente. Continuo a acreditar que as histórias são essenciais ao florescimento humano. As histórias elevaram-nos enquanto espécie. Ligam sociedades. Promovem empatia. Criam sentido. Mas, ao longo da última década, fiquei cada vez mais alarmado com o potencial destrutivo das histórias. Estamos a ver narrativas a alimentar extremismo político, pensamento conspirativo, fragmentação social e histeria moral em larga escala. A ideia central por trás de The Story Paradox é que tudo o que há de bom nas histórias é também aquilo que as torna perigosas. As mesmas propriedades psicológicas que permitem às histórias unir-nos também podem dividir-nos, radicalizar-nos e desligar-nos da realidade. As histórias são a melhor coisa do mundo e também a pior. Esse é o paradoxo.

Se tivesse de aconselhar líderes, empreendedores ou comunicadores hoje, qual é a competência narrativa mais importante que deveriam desenvolver?

J.G. — A capacidade de contar histórias envolventes sem transformar outros seres humanos em vilões caricaturais. Parece simples, mas é incrivelmente difícil, porque as histórias gravitam naturalmente em direção à simplificação moral. Desejam heróis e monstros. As narrativas mais perigosas são, muitas vezes, as mais emocionalmente satisfatórias, porque dividem o mundo entre os puros e os condenados. Por isso, penso que a competência narrativa mais importante, hoje, é manter força dramática preservando a complexidade moral. Contar histórias que comovam as pessoas sem as encorajar a desumanizar quem está fora da sua tribo. Isto é, hoje, um desafio civilizacional, não apenas artístico.


Foto de abertura © Jared White


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