A diferença entre ingenuidade e pureza
#Protagonistas
Opinião

“Este é um livro ingénuo”. A autora faz esta afirmação logo na introdução, como um lema. Em si mesma, a afirmação parece denotar alguma ingenuidade e, ao mesmo tempo, desperta algumas considerações: é possível ingenuidade se há consciência da própria ingenuidade? É possível a ingenuidade por escolha?

Uma coisa é certa, num livro sobre leitura e literatura, é necessária muita coragem para afirmar ingenuidade. De modo implícito, como se dispensasse debate, são inúmeros os que consideram cinismo como sinónimo de inteligência. Partem do princípio de que a inteligência tem de ser cruel. Esse é um preconceito, um não-dito, com enorme presença em diversas áreas do conhecimento e da academia, nomeadamente nas que são tocadas pelo tema deste livro. Seguindo esse silogismo tão entranhado, se cinismo é sinónimo de inteligência, ingenuidade é antónima de inteligência. A autora demonstra entendimento disso mesmo quando refere o “medo de parecer tontaça”. Por isso, a coragem desta escolha é especialmente assinalável.
Estamos em presença de um livro que fala de como a leitura e a literatura se misturam com a vida até serem inseparáveis. Bruna Martiolli refere elementos das suas leituras, citações, personagens, cenas de romances, e relaciona-os de modo direto e absolutamente natural com reflexões, pessoas, momentos da sua vida. Assim, dá conta de um mundo autobiográfico que transita com igual verdade entre o vivido e o lido. Essa elevação a “vida” é a mais bela homenagem que pode ser feita à leitura.
Num mundo em que ensaístas e académicos se tentam autocaracterizar pelo elitismo dos autores que nomeiam, Bruna Martiolli refere todo o tipo de autores e de autoras, mais e menos reconhecidos, com mais e menos obra, certezas da literatura universal e nomes com um longo caminho pela frente. No capítulo “A elite literária”, e noutras passagens, fica claro que Bruna Martiolli percebe como funciona esse jogo, seria fácil jogá-lo, mas escolhe não o fazer.
Esta ingenuidade, a existir, trata-se de uma proclamação da vida, do humano e do real valor da literatura. A coragem desta ingenuidade recompensa a autora e recompensa quem ler estas páginas e quem ler outras, tantas páginas, que existem antes e depois destas.
Com o título emprestado de Clarice, É Tempo de Morangos deixou-me a pensar na diferença entre ingenuidade e pureza. Neste livro, essa diferença é ínfima. Este é um livro puro, sou eu que o afirmo, da mesma maneira que é pura a pulsão da leitura que aqui se descreve: puro fascínio, puro respeito, pura vontade de viver.
Bruna Martiolli, É Tempo de Morangos, Intrínseca, 2026
José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.
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“Este é um livro ingénuo”. A autora faz esta afirmação logo na introdução, como um lema. Em si mesma, a afirmação parece denotar alguma ingenuidade e, ao mesmo tempo, desperta algumas considerações: é possível ingenuidade se há consciência da própria ingenuidade? É possível a ingenuidade por escolha?

Uma coisa é certa, num livro sobre leitura e literatura, é necessária muita coragem para afirmar ingenuidade. De modo implícito, como se dispensasse debate, são inúmeros os que consideram cinismo como sinónimo de inteligência. Partem do princípio de que a inteligência tem de ser cruel. Esse é um preconceito, um não-dito, com enorme presença em diversas áreas do conhecimento e da academia, nomeadamente nas que são tocadas pelo tema deste livro. Seguindo esse silogismo tão entranhado, se cinismo é sinónimo de inteligência, ingenuidade é antónima de inteligência. A autora demonstra entendimento disso mesmo quando refere o “medo de parecer tontaça”. Por isso, a coragem desta escolha é especialmente assinalável.
Estamos em presença de um livro que fala de como a leitura e a literatura se misturam com a vida até serem inseparáveis. Bruna Martiolli refere elementos das suas leituras, citações, personagens, cenas de romances, e relaciona-os de modo direto e absolutamente natural com reflexões, pessoas, momentos da sua vida. Assim, dá conta de um mundo autobiográfico que transita com igual verdade entre o vivido e o lido. Essa elevação a “vida” é a mais bela homenagem que pode ser feita à leitura.
Num mundo em que ensaístas e académicos se tentam autocaracterizar pelo elitismo dos autores que nomeiam, Bruna Martiolli refere todo o tipo de autores e de autoras, mais e menos reconhecidos, com mais e menos obra, certezas da literatura universal e nomes com um longo caminho pela frente. No capítulo “A elite literária”, e noutras passagens, fica claro que Bruna Martiolli percebe como funciona esse jogo, seria fácil jogá-lo, mas escolhe não o fazer.
Esta ingenuidade, a existir, trata-se de uma proclamação da vida, do humano e do real valor da literatura. A coragem desta ingenuidade recompensa a autora e recompensa quem ler estas páginas e quem ler outras, tantas páginas, que existem antes e depois destas.
Com o título emprestado de Clarice, É Tempo de Morangos deixou-me a pensar na diferença entre ingenuidade e pureza. Neste livro, essa diferença é ínfima. Este é um livro puro, sou eu que o afirmo, da mesma maneira que é pura a pulsão da leitura que aqui se descreve: puro fascínio, puro respeito, pura vontade de viver.
Bruna Martiolli, É Tempo de Morangos, Intrínseca, 2026
José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.
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“Este é um livro ingénuo”. A autora faz esta afirmação logo na introdução, como um lema. Em si mesma, a afirmação parece denotar alguma ingenuidade e, ao mesmo tempo, desperta algumas considerações: é possível ingenuidade se há consciência da própria ingenuidade? É possível a ingenuidade por escolha?

Uma coisa é certa, num livro sobre leitura e literatura, é necessária muita coragem para afirmar ingenuidade. De modo implícito, como se dispensasse debate, são inúmeros os que consideram cinismo como sinónimo de inteligência. Partem do princípio de que a inteligência tem de ser cruel. Esse é um preconceito, um não-dito, com enorme presença em diversas áreas do conhecimento e da academia, nomeadamente nas que são tocadas pelo tema deste livro. Seguindo esse silogismo tão entranhado, se cinismo é sinónimo de inteligência, ingenuidade é antónima de inteligência. A autora demonstra entendimento disso mesmo quando refere o “medo de parecer tontaça”. Por isso, a coragem desta escolha é especialmente assinalável.
Estamos em presença de um livro que fala de como a leitura e a literatura se misturam com a vida até serem inseparáveis. Bruna Martiolli refere elementos das suas leituras, citações, personagens, cenas de romances, e relaciona-os de modo direto e absolutamente natural com reflexões, pessoas, momentos da sua vida. Assim, dá conta de um mundo autobiográfico que transita com igual verdade entre o vivido e o lido. Essa elevação a “vida” é a mais bela homenagem que pode ser feita à leitura.
Num mundo em que ensaístas e académicos se tentam autocaracterizar pelo elitismo dos autores que nomeiam, Bruna Martiolli refere todo o tipo de autores e de autoras, mais e menos reconhecidos, com mais e menos obra, certezas da literatura universal e nomes com um longo caminho pela frente. No capítulo “A elite literária”, e noutras passagens, fica claro que Bruna Martiolli percebe como funciona esse jogo, seria fácil jogá-lo, mas escolhe não o fazer.
Esta ingenuidade, a existir, trata-se de uma proclamação da vida, do humano e do real valor da literatura. A coragem desta ingenuidade recompensa a autora e recompensa quem ler estas páginas e quem ler outras, tantas páginas, que existem antes e depois destas.
Com o título emprestado de Clarice, É Tempo de Morangos deixou-me a pensar na diferença entre ingenuidade e pureza. Neste livro, essa diferença é ínfima. Este é um livro puro, sou eu que o afirmo, da mesma maneira que é pura a pulsão da leitura que aqui se descreve: puro fascínio, puro respeito, pura vontade de viver.
Bruna Martiolli, É Tempo de Morangos, Intrínseca, 2026
José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.
A diferença entre ingenuidade e pureza
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“Este é um livro ingénuo”. A autora faz esta afirmação logo na introdução, como um lema. Em si mesma, a afirmação parece denotar alguma ingenuidade e, ao mesmo tempo, desperta algumas considerações: é possível ingenuidade se há consciência da própria ingenuidade? É possível a ingenuidade por escolha?

Uma coisa é certa, num livro sobre leitura e literatura, é necessária muita coragem para afirmar ingenuidade. De modo implícito, como se dispensasse debate, são inúmeros os que consideram cinismo como sinónimo de inteligência. Partem do princípio de que a inteligência tem de ser cruel. Esse é um preconceito, um não-dito, com enorme presença em diversas áreas do conhecimento e da academia, nomeadamente nas que são tocadas pelo tema deste livro. Seguindo esse silogismo tão entranhado, se cinismo é sinónimo de inteligência, ingenuidade é antónima de inteligência. A autora demonstra entendimento disso mesmo quando refere o “medo de parecer tontaça”. Por isso, a coragem desta escolha é especialmente assinalável.
Estamos em presença de um livro que fala de como a leitura e a literatura se misturam com a vida até serem inseparáveis. Bruna Martiolli refere elementos das suas leituras, citações, personagens, cenas de romances, e relaciona-os de modo direto e absolutamente natural com reflexões, pessoas, momentos da sua vida. Assim, dá conta de um mundo autobiográfico que transita com igual verdade entre o vivido e o lido. Essa elevação a “vida” é a mais bela homenagem que pode ser feita à leitura.
Num mundo em que ensaístas e académicos se tentam autocaracterizar pelo elitismo dos autores que nomeiam, Bruna Martiolli refere todo o tipo de autores e de autoras, mais e menos reconhecidos, com mais e menos obra, certezas da literatura universal e nomes com um longo caminho pela frente. No capítulo “A elite literária”, e noutras passagens, fica claro que Bruna Martiolli percebe como funciona esse jogo, seria fácil jogá-lo, mas escolhe não o fazer.
Esta ingenuidade, a existir, trata-se de uma proclamação da vida, do humano e do real valor da literatura. A coragem desta ingenuidade recompensa a autora e recompensa quem ler estas páginas e quem ler outras, tantas páginas, que existem antes e depois destas.
Com o título emprestado de Clarice, É Tempo de Morangos deixou-me a pensar na diferença entre ingenuidade e pureza. Neste livro, essa diferença é ínfima. Este é um livro puro, sou eu que o afirmo, da mesma maneira que é pura a pulsão da leitura que aqui se descreve: puro fascínio, puro respeito, pura vontade de viver.
Bruna Martiolli, É Tempo de Morangos, Intrínseca, 2026





