#Motivação

Guerra e Paz faz 20 anos: a editora que sobreviveu quando lhe disseram para desistir

Abrir um livro pela primeira vez continua a ser um gesto poderoso. O peso nas mãos, o som da lombada a ceder, o cheiro do papel. Antes de qualquer leitura, há sempre um instante de expectativa, como se ainda fosse possível que ali dentro estivesse algo que nos mude. Foi com essa ideia, a de que um livro pode ser mais do que um objeto, que a Guerra e Paz começou. E, vinte anos depois, é também por aí que a história se conta.

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13 de mai. de 2026, 10:32

A editora assinala duas décadas de existência com um percurso que atravessa entusiasmo, risco e sobrevivência. Num texto enviado aos jornalistas para marcar a data, Manuel S. Fonseca escreve com a frontalidade de quem conhece o negócio por dentro: “Devíamos ter desistido. Vivamente nos recomendaram que desistíssemos”. A frase tem pouco de retórica. Remete para 2011, quando a insolvência de um distribuidor quase arrastou a editora.

O episódio tornou-se uma espécie de linha de fractura. Para trás ficava a ideia de crescimento contínuo; para a frente, um trabalho diário de resistência. “Dia a dia, mês a mês, durante 12 anos”, escreve o editor, houve uma equipa reduzida (seis, sete, oito pessoas), a manter a estrutura viva. Um esforço feito com poucos meios e alguma imaginação: “Batemo-nos com armas desiguais: só tínhamos sinais de fumo, machetes e catanas onde outros tinham radares, satélites e mísseis”.

Essa fase é descrita como uma “trincheira da luta”, onde a escassez era constante e as decisões tinham consequências imediatas. Ainda assim, há um traço que atravessa o relato: a recusa em abandonar a ideia de que os livros valiam o esforço.


"Houve um ano em que tivemos o livro mais vendido do ano, houve outro em que uma insolvência pareceu trucidar-nos"


O editor Manuel S. Fonseca assume a função de Administrador Editorial da Guerra e Paz (Foto: Alfredo Cunha)


Na conversa com o MOTIVO, Manuel S. Fonseca escolhe um momento para condensar o que entende ser a identidade da editora. Uma apresentação na Casa Fernando Pessoa, com um livro cuja capa em madeira, trabalhada a laser, parecia contrariar a lógica industrial do setor. “Inventávamos os próprios livros”, diz. A sala cheia, os aplausos, uma emoção que ainda hoje guarda “numa garrafa de lágrimas persa”. O episódio serve menos como memória nostálgica e mais como definição de método: experimentar, arriscar, dar forma física a uma ideia editorial.

A sobrevivência exigiu, porém, pragmatismo. A editora procurou parcerias, diversificou formatos, saiu do circuito tradicional das livrarias e ocupou quiosques, papelarias, hipermercados. Produziu edições especiais para empresas e instituições. “A mão direita sempre a dizer à mão esquerda o que fazia”, resume. Num mercado onde a escala dita muitas vezes a relevância, a flexibilidade tornou-se uma vantagem competitiva.


Alguns dos lançamentos da Guerra e Paz


Duas décadas depois, o catálogo ajuda a perceber o caminho feito. Há coleções estruturadas com intenção clara: pensamento contemporâneo em “Os Livros Não se Rendem”, os “Atlas Históricos”, os “Clássicos Guerra e Paz”, a série “A Minha Estante”. Fonseca insiste que esta construção não foi acidental: “Foi feita devagar, passo a passo, ao longo dos últimos dez anos. Sem um grão de acaso”.

A posição da editora no mercado também mudou. A fase de instabilidade deu lugar a um modelo mais estruturado, suportado por dados, controlo de vendas e diversificação de receitas. “A atividade editorial é hoje uma atividade sofisticada”, diz. A leitura do negócio tornou-se tão importante quanto a leitura dos livros.

O crescimento recente tem um nome próprio: euforia. A chancela dedicada à literatura new adult e dark romance surgiu pequena e depressa ganhou dimensão, com avanços que Fonseca descreve como “saltos hercúleos”. O projeto é liderado por Rita Fonseca e aponta a um território onde a editora não tinha presença, o das novas tendências e novos públicos.

Em paralelo, a integração da Gradiva, em outubro do ano passado, abriu uma nova frente. O objetivo imediato passa por criar "complementaridades" e uma estrutura comum. A médio prazo, admite a possibilidade de consolidação num grupo único.



O discurso do editor recusa a ideia de ambição como motor principal. Prefere falar de “gestão básica”. Ainda assim, há uma ambição que não abdica: publicar grandes livros, encontrar grandes autores, criar algo que surpreenda e acrescente. Cita um exemplo que marca o catálogo: a correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, e coloca-os lado a lado com referências da Gradiva, como Carl Sagan ou Kazuo Ishiguro.


Um dos últimos lançamentos da Guerra e Paz foi o livro A Conta que Deus Fez, de Maria Cláudia Rodrigues, e a sessão decorreu na livraria Ler Devagar, no Lx Factory


A história da Guerra e Paz é muito mais do que sobrevivência. É visão, dedicação, trabalho, e há uma ideia de continuidade que atravessa os diferentes momentos. No mesmo texto enviado para assinalar os 20 anos, Fonseca escreve que a editora é hoje “uma empresa limpa, competitiva, com relações de amizade com todo o universo do livro”. A expressão pode soar simples, mas carrega um subtexto importante: num setor onde o crescimento, a distribuição e a visibilidade são determinantes, a reputação constrói-se também na forma como se trabalha com autores, livreiros e leitores.

Hoje, a Guerra e Paz tem uma equipa de 14 pessoas. Algumas estão desde o início. Outras chegaram mais tarde, acompanhando a transformação da editora. Há novas chancelas em preparação, novos projetos em curso e uma atenção permanente ao que está a mudar no mercado.

No final da entrevista ao MOTIVO, Manuel S. Fonseca evita qualquer tentativa de síntese inspiracional. Recusa a ideia de lição. Prefere uma recomendação prática: conhecer o negócio por dentro, das gráficas aos armazéns, e, acima de tudo, continuar a ler.

Vinte anos depois, a estrutura é outra, o contexto também, mas a lógica mantém-se: encontrar livros que justifiquem existir.


LER TAMBÉM:



#Motivação

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Abrir um livro pela primeira vez continua a ser um gesto poderoso. O peso nas mãos, o som da lombada a ceder, o cheiro do papel. Antes de qualquer leitura, há sempre um instante de expectativa, como se ainda fosse possível que ali dentro estivesse algo que nos mude. Foi com essa ideia, a de que um livro pode ser mais do que um objeto, que a Guerra e Paz começou. E, vinte anos depois, é também por aí que a história se conta.

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13 de mai. de 2026, 10:32

A editora assinala duas décadas de existência com um percurso que atravessa entusiasmo, risco e sobrevivência. Num texto enviado aos jornalistas para marcar a data, Manuel S. Fonseca escreve com a frontalidade de quem conhece o negócio por dentro: “Devíamos ter desistido. Vivamente nos recomendaram que desistíssemos”. A frase tem pouco de retórica. Remete para 2011, quando a insolvência de um distribuidor quase arrastou a editora.

O episódio tornou-se uma espécie de linha de fractura. Para trás ficava a ideia de crescimento contínuo; para a frente, um trabalho diário de resistência. “Dia a dia, mês a mês, durante 12 anos”, escreve o editor, houve uma equipa reduzida (seis, sete, oito pessoas), a manter a estrutura viva. Um esforço feito com poucos meios e alguma imaginação: “Batemo-nos com armas desiguais: só tínhamos sinais de fumo, machetes e catanas onde outros tinham radares, satélites e mísseis”.

Essa fase é descrita como uma “trincheira da luta”, onde a escassez era constante e as decisões tinham consequências imediatas. Ainda assim, há um traço que atravessa o relato: a recusa em abandonar a ideia de que os livros valiam o esforço.


"Houve um ano em que tivemos o livro mais vendido do ano, houve outro em que uma insolvência pareceu trucidar-nos"


O editor Manuel S. Fonseca assume a função de Administrador Editorial da Guerra e Paz (Foto: Alfredo Cunha)


Na conversa com o MOTIVO, Manuel S. Fonseca escolhe um momento para condensar o que entende ser a identidade da editora. Uma apresentação na Casa Fernando Pessoa, com um livro cuja capa em madeira, trabalhada a laser, parecia contrariar a lógica industrial do setor. “Inventávamos os próprios livros”, diz. A sala cheia, os aplausos, uma emoção que ainda hoje guarda “numa garrafa de lágrimas persa”. O episódio serve menos como memória nostálgica e mais como definição de método: experimentar, arriscar, dar forma física a uma ideia editorial.

A sobrevivência exigiu, porém, pragmatismo. A editora procurou parcerias, diversificou formatos, saiu do circuito tradicional das livrarias e ocupou quiosques, papelarias, hipermercados. Produziu edições especiais para empresas e instituições. “A mão direita sempre a dizer à mão esquerda o que fazia”, resume. Num mercado onde a escala dita muitas vezes a relevância, a flexibilidade tornou-se uma vantagem competitiva.


Alguns dos lançamentos da Guerra e Paz


Duas décadas depois, o catálogo ajuda a perceber o caminho feito. Há coleções estruturadas com intenção clara: pensamento contemporâneo em “Os Livros Não se Rendem”, os “Atlas Históricos”, os “Clássicos Guerra e Paz”, a série “A Minha Estante”. Fonseca insiste que esta construção não foi acidental: “Foi feita devagar, passo a passo, ao longo dos últimos dez anos. Sem um grão de acaso”.

A posição da editora no mercado também mudou. A fase de instabilidade deu lugar a um modelo mais estruturado, suportado por dados, controlo de vendas e diversificação de receitas. “A atividade editorial é hoje uma atividade sofisticada”, diz. A leitura do negócio tornou-se tão importante quanto a leitura dos livros.

O crescimento recente tem um nome próprio: euforia. A chancela dedicada à literatura new adult e dark romance surgiu pequena e depressa ganhou dimensão, com avanços que Fonseca descreve como “saltos hercúleos”. O projeto é liderado por Rita Fonseca e aponta a um território onde a editora não tinha presença, o das novas tendências e novos públicos.

Em paralelo, a integração da Gradiva, em outubro do ano passado, abriu uma nova frente. O objetivo imediato passa por criar "complementaridades" e uma estrutura comum. A médio prazo, admite a possibilidade de consolidação num grupo único.



O discurso do editor recusa a ideia de ambição como motor principal. Prefere falar de “gestão básica”. Ainda assim, há uma ambição que não abdica: publicar grandes livros, encontrar grandes autores, criar algo que surpreenda e acrescente. Cita um exemplo que marca o catálogo: a correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, e coloca-os lado a lado com referências da Gradiva, como Carl Sagan ou Kazuo Ishiguro.


Um dos últimos lançamentos da Guerra e Paz foi o livro A Conta que Deus Fez, de Maria Cláudia Rodrigues, e a sessão decorreu na livraria Ler Devagar, no Lx Factory


A história da Guerra e Paz é muito mais do que sobrevivência. É visão, dedicação, trabalho, e há uma ideia de continuidade que atravessa os diferentes momentos. No mesmo texto enviado para assinalar os 20 anos, Fonseca escreve que a editora é hoje “uma empresa limpa, competitiva, com relações de amizade com todo o universo do livro”. A expressão pode soar simples, mas carrega um subtexto importante: num setor onde o crescimento, a distribuição e a visibilidade são determinantes, a reputação constrói-se também na forma como se trabalha com autores, livreiros e leitores.

Hoje, a Guerra e Paz tem uma equipa de 14 pessoas. Algumas estão desde o início. Outras chegaram mais tarde, acompanhando a transformação da editora. Há novas chancelas em preparação, novos projetos em curso e uma atenção permanente ao que está a mudar no mercado.

No final da entrevista ao MOTIVO, Manuel S. Fonseca evita qualquer tentativa de síntese inspiracional. Recusa a ideia de lição. Prefere uma recomendação prática: conhecer o negócio por dentro, das gráficas aos armazéns, e, acima de tudo, continuar a ler.

Vinte anos depois, a estrutura é outra, o contexto também, mas a lógica mantém-se: encontrar livros que justifiquem existir.


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Guerra e Paz faz 20 anos: a editora que sobreviveu quando lhe disseram para desistir

Abrir um livro pela primeira vez continua a ser um gesto poderoso. O peso nas mãos, o som da lombada a ceder, o cheiro do papel. Antes de qualquer leitura, há sempre um instante de expectativa, como se ainda fosse possível que ali dentro estivesse algo que nos mude. Foi com essa ideia, a de que um livro pode ser mais do que um objeto, que a Guerra e Paz começou. E, vinte anos depois, é também por aí que a história se conta.

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13 de mai. de 2026, 10:32

A editora assinala duas décadas de existência com um percurso que atravessa entusiasmo, risco e sobrevivência. Num texto enviado aos jornalistas para marcar a data, Manuel S. Fonseca escreve com a frontalidade de quem conhece o negócio por dentro: “Devíamos ter desistido. Vivamente nos recomendaram que desistíssemos”. A frase tem pouco de retórica. Remete para 2011, quando a insolvência de um distribuidor quase arrastou a editora.

O episódio tornou-se uma espécie de linha de fractura. Para trás ficava a ideia de crescimento contínuo; para a frente, um trabalho diário de resistência. “Dia a dia, mês a mês, durante 12 anos”, escreve o editor, houve uma equipa reduzida (seis, sete, oito pessoas), a manter a estrutura viva. Um esforço feito com poucos meios e alguma imaginação: “Batemo-nos com armas desiguais: só tínhamos sinais de fumo, machetes e catanas onde outros tinham radares, satélites e mísseis”.

Essa fase é descrita como uma “trincheira da luta”, onde a escassez era constante e as decisões tinham consequências imediatas. Ainda assim, há um traço que atravessa o relato: a recusa em abandonar a ideia de que os livros valiam o esforço.


"Houve um ano em que tivemos o livro mais vendido do ano, houve outro em que uma insolvência pareceu trucidar-nos"


O editor Manuel S. Fonseca assume a função de Administrador Editorial da Guerra e Paz (Foto: Alfredo Cunha)


Na conversa com o MOTIVO, Manuel S. Fonseca escolhe um momento para condensar o que entende ser a identidade da editora. Uma apresentação na Casa Fernando Pessoa, com um livro cuja capa em madeira, trabalhada a laser, parecia contrariar a lógica industrial do setor. “Inventávamos os próprios livros”, diz. A sala cheia, os aplausos, uma emoção que ainda hoje guarda “numa garrafa de lágrimas persa”. O episódio serve menos como memória nostálgica e mais como definição de método: experimentar, arriscar, dar forma física a uma ideia editorial.

A sobrevivência exigiu, porém, pragmatismo. A editora procurou parcerias, diversificou formatos, saiu do circuito tradicional das livrarias e ocupou quiosques, papelarias, hipermercados. Produziu edições especiais para empresas e instituições. “A mão direita sempre a dizer à mão esquerda o que fazia”, resume. Num mercado onde a escala dita muitas vezes a relevância, a flexibilidade tornou-se uma vantagem competitiva.


Alguns dos lançamentos da Guerra e Paz


Duas décadas depois, o catálogo ajuda a perceber o caminho feito. Há coleções estruturadas com intenção clara: pensamento contemporâneo em “Os Livros Não se Rendem”, os “Atlas Históricos”, os “Clássicos Guerra e Paz”, a série “A Minha Estante”. Fonseca insiste que esta construção não foi acidental: “Foi feita devagar, passo a passo, ao longo dos últimos dez anos. Sem um grão de acaso”.

A posição da editora no mercado também mudou. A fase de instabilidade deu lugar a um modelo mais estruturado, suportado por dados, controlo de vendas e diversificação de receitas. “A atividade editorial é hoje uma atividade sofisticada”, diz. A leitura do negócio tornou-se tão importante quanto a leitura dos livros.

O crescimento recente tem um nome próprio: euforia. A chancela dedicada à literatura new adult e dark romance surgiu pequena e depressa ganhou dimensão, com avanços que Fonseca descreve como “saltos hercúleos”. O projeto é liderado por Rita Fonseca e aponta a um território onde a editora não tinha presença, o das novas tendências e novos públicos.

Em paralelo, a integração da Gradiva, em outubro do ano passado, abriu uma nova frente. O objetivo imediato passa por criar "complementaridades" e uma estrutura comum. A médio prazo, admite a possibilidade de consolidação num grupo único.



O discurso do editor recusa a ideia de ambição como motor principal. Prefere falar de “gestão básica”. Ainda assim, há uma ambição que não abdica: publicar grandes livros, encontrar grandes autores, criar algo que surpreenda e acrescente. Cita um exemplo que marca o catálogo: a correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, e coloca-os lado a lado com referências da Gradiva, como Carl Sagan ou Kazuo Ishiguro.


Um dos últimos lançamentos da Guerra e Paz foi o livro A Conta que Deus Fez, de Maria Cláudia Rodrigues, e a sessão decorreu na livraria Ler Devagar, no Lx Factory


A história da Guerra e Paz é muito mais do que sobrevivência. É visão, dedicação, trabalho, e há uma ideia de continuidade que atravessa os diferentes momentos. No mesmo texto enviado para assinalar os 20 anos, Fonseca escreve que a editora é hoje “uma empresa limpa, competitiva, com relações de amizade com todo o universo do livro”. A expressão pode soar simples, mas carrega um subtexto importante: num setor onde o crescimento, a distribuição e a visibilidade são determinantes, a reputação constrói-se também na forma como se trabalha com autores, livreiros e leitores.

Hoje, a Guerra e Paz tem uma equipa de 14 pessoas. Algumas estão desde o início. Outras chegaram mais tarde, acompanhando a transformação da editora. Há novas chancelas em preparação, novos projetos em curso e uma atenção permanente ao que está a mudar no mercado.

No final da entrevista ao MOTIVO, Manuel S. Fonseca evita qualquer tentativa de síntese inspiracional. Recusa a ideia de lição. Prefere uma recomendação prática: conhecer o negócio por dentro, das gráficas aos armazéns, e, acima de tudo, continuar a ler.

Vinte anos depois, a estrutura é outra, o contexto também, mas a lógica mantém-se: encontrar livros que justifiquem existir.


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#Motivação

Guerra e Paz faz 20 anos: a editora que sobreviveu quando lhe disseram para desistir

Abrir um livro pela primeira vez continua a ser um gesto poderoso. O peso nas mãos, o som da lombada a ceder, o cheiro do papel. Antes de qualquer leitura, há sempre um instante de expectativa, como se ainda fosse possível que ali dentro estivesse algo que nos mude. Foi com essa ideia, a de que um livro pode ser mais do que um objeto, que a Guerra e Paz começou. E, vinte anos depois, é também por aí que a história se conta.

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13 de mai. de 2026, 10:32

A editora assinala duas décadas de existência com um percurso que atravessa entusiasmo, risco e sobrevivência. Num texto enviado aos jornalistas para marcar a data, Manuel S. Fonseca escreve com a frontalidade de quem conhece o negócio por dentro: “Devíamos ter desistido. Vivamente nos recomendaram que desistíssemos”. A frase tem pouco de retórica. Remete para 2011, quando a insolvência de um distribuidor quase arrastou a editora.

O episódio tornou-se uma espécie de linha de fractura. Para trás ficava a ideia de crescimento contínuo; para a frente, um trabalho diário de resistência. “Dia a dia, mês a mês, durante 12 anos”, escreve o editor, houve uma equipa reduzida (seis, sete, oito pessoas), a manter a estrutura viva. Um esforço feito com poucos meios e alguma imaginação: “Batemo-nos com armas desiguais: só tínhamos sinais de fumo, machetes e catanas onde outros tinham radares, satélites e mísseis”.

Essa fase é descrita como uma “trincheira da luta”, onde a escassez era constante e as decisões tinham consequências imediatas. Ainda assim, há um traço que atravessa o relato: a recusa em abandonar a ideia de que os livros valiam o esforço.


"Houve um ano em que tivemos o livro mais vendido do ano, houve outro em que uma insolvência pareceu trucidar-nos"


O editor Manuel S. Fonseca assume a função de Administrador Editorial da Guerra e Paz (Foto: Alfredo Cunha)


Na conversa com o MOTIVO, Manuel S. Fonseca escolhe um momento para condensar o que entende ser a identidade da editora. Uma apresentação na Casa Fernando Pessoa, com um livro cuja capa em madeira, trabalhada a laser, parecia contrariar a lógica industrial do setor. “Inventávamos os próprios livros”, diz. A sala cheia, os aplausos, uma emoção que ainda hoje guarda “numa garrafa de lágrimas persa”. O episódio serve menos como memória nostálgica e mais como definição de método: experimentar, arriscar, dar forma física a uma ideia editorial.

A sobrevivência exigiu, porém, pragmatismo. A editora procurou parcerias, diversificou formatos, saiu do circuito tradicional das livrarias e ocupou quiosques, papelarias, hipermercados. Produziu edições especiais para empresas e instituições. “A mão direita sempre a dizer à mão esquerda o que fazia”, resume. Num mercado onde a escala dita muitas vezes a relevância, a flexibilidade tornou-se uma vantagem competitiva.


Alguns dos lançamentos da Guerra e Paz


Duas décadas depois, o catálogo ajuda a perceber o caminho feito. Há coleções estruturadas com intenção clara: pensamento contemporâneo em “Os Livros Não se Rendem”, os “Atlas Históricos”, os “Clássicos Guerra e Paz”, a série “A Minha Estante”. Fonseca insiste que esta construção não foi acidental: “Foi feita devagar, passo a passo, ao longo dos últimos dez anos. Sem um grão de acaso”.

A posição da editora no mercado também mudou. A fase de instabilidade deu lugar a um modelo mais estruturado, suportado por dados, controlo de vendas e diversificação de receitas. “A atividade editorial é hoje uma atividade sofisticada”, diz. A leitura do negócio tornou-se tão importante quanto a leitura dos livros.

O crescimento recente tem um nome próprio: euforia. A chancela dedicada à literatura new adult e dark romance surgiu pequena e depressa ganhou dimensão, com avanços que Fonseca descreve como “saltos hercúleos”. O projeto é liderado por Rita Fonseca e aponta a um território onde a editora não tinha presença, o das novas tendências e novos públicos.

Em paralelo, a integração da Gradiva, em outubro do ano passado, abriu uma nova frente. O objetivo imediato passa por criar "complementaridades" e uma estrutura comum. A médio prazo, admite a possibilidade de consolidação num grupo único.



O discurso do editor recusa a ideia de ambição como motor principal. Prefere falar de “gestão básica”. Ainda assim, há uma ambição que não abdica: publicar grandes livros, encontrar grandes autores, criar algo que surpreenda e acrescente. Cita um exemplo que marca o catálogo: a correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, e coloca-os lado a lado com referências da Gradiva, como Carl Sagan ou Kazuo Ishiguro.


Um dos últimos lançamentos da Guerra e Paz foi o livro A Conta que Deus Fez, de Maria Cláudia Rodrigues, e a sessão decorreu na livraria Ler Devagar, no Lx Factory


A história da Guerra e Paz é muito mais do que sobrevivência. É visão, dedicação, trabalho, e há uma ideia de continuidade que atravessa os diferentes momentos. No mesmo texto enviado para assinalar os 20 anos, Fonseca escreve que a editora é hoje “uma empresa limpa, competitiva, com relações de amizade com todo o universo do livro”. A expressão pode soar simples, mas carrega um subtexto importante: num setor onde o crescimento, a distribuição e a visibilidade são determinantes, a reputação constrói-se também na forma como se trabalha com autores, livreiros e leitores.

Hoje, a Guerra e Paz tem uma equipa de 14 pessoas. Algumas estão desde o início. Outras chegaram mais tarde, acompanhando a transformação da editora. Há novas chancelas em preparação, novos projetos em curso e uma atenção permanente ao que está a mudar no mercado.

No final da entrevista ao MOTIVO, Manuel S. Fonseca evita qualquer tentativa de síntese inspiracional. Recusa a ideia de lição. Prefere uma recomendação prática: conhecer o negócio por dentro, das gráficas aos armazéns, e, acima de tudo, continuar a ler.

Vinte anos depois, a estrutura é outra, o contexto também, mas a lógica mantém-se: encontrar livros que justifiquem existir.


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