#Protagonistas

Do nickname à marca: quando os nomes digitais se tornam negócios

Um nome escolhido para iniciar um blogue, um canal de YouTube ou uma conta de Instagram pode acabar impresso na capa de livros, associado a produtos e anunciado em cartazes e palcos. O que começa como uma identidade digital improvisada transforma-se, por vezes, no ativo mais reconhecido de um criador. No entanto, o que acontece quando o tag deixou de representar tudo aquilo que essa pessoa é ou quer ser?

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6 de ago. de 2026, 12:21

Se pedirmos a alguém para decorar um nome, ‘Pipoca Mais Doce’ é provavelmente mais recordável do que ‘Ana Garcia Martins’”, observa, para arranque de conversa, Gonçalo das Neves, diretor criativo digital. Como este, há dezenas de outros exemplos.

A maioria destes nomes nasceu antes de existirem contratos publicitários, equipas de gestão, planos editoriais ou preocupações com propriedade intelectual. Era preciso um nome para entrar na internet, distinguir uma conta das restantes e criar uma personagem com espaço para experimentar.

‘Pipoca Mais Doce’, ‘Bumba na Fofinha’, ‘Kiko is Hot’, ‘Wuant’, ‘RicFazeres’ ou ‘Mafalda Creative’ são hoje marcas que chegam a milhares de pessoas, mas não foram pensadas para viverem 10, 15 ou 20 anos”, indica Gonçalo das Neves. “Aconteceram simplesmente. Foram nomes criados pelos próprios, sem saberem ainda qual seria a sua metamorfose”.

Essa espontaneidade é parte da sua eficácia. Os nicknames tendem a ser visuais, descritivos, bem-humorados ou suficientemente estranhos para permanecerem na memória. Um estudo da Universidade Católica do Porto, publicado no Journal of Business Research, concluiu que a dimensão figurativa dos nomes e dos logótipos influencia as respostas cognitivas e a capacidade de criar associações. A investigação também deixa um aviso: um nome figurativo, por si só, está longe de garantir uma identidade eficaz; o resultado depende da relação entre o nome, a imagem e o significado construído em seu redor.


Mariana Cabral anunciou recentemente um novo espetáculo e o nome que aparece impresso continua a ser Bumba na Fofinha, a persona digital que criou


Outros exemplos, dos mais antigos aos mais recentes

  • O Arrumadinho refere-se ao jornalista Ricardo Martins Pereira, e parte de uma espécie de pseudónimo da blogosfera que ganhou autonomia face ao nome civil e permanece reconhecível no espaço mediático.

  • Stylista nasceu como o blogue de Maria Guedes. O blogue já não existe, embora o nome continue no Instagram e como marca responsável pelo Mercado Stylista, e pela curadoria dedicada a marcas nacionais.

  • A Maria Vaidosa foi o nome escolhido por Mafalda Sampaio para o seu canal de YouTube, lançado em 2014, antes de se prolongar por outros formatos, nomeadamente uma revista com o mesmo nome.

  • Owhana começou a fazer vídeos para o YouTube em 2016, enquanto estudava Direito. Chama-se Ana Catarina Ribeiro, e alargou a sua presença digital para o Instagram, TikTok e, mais recentemente na plataforma Twitch.

  • Maria Morango chama-se Francisca Cabral, mas apresentou-se ao mundo durante a pandemia com um nickname que faz referência a uma alcunha familiar. Tornou-se uma referência ligada à música, à direção criativa, à televisão e à rádio, onde tem um programa que se chama… Maria Morango.

  • Cátia Creator transportou o vocabulário dos conteúdos para o próprio nome e para o Estúdio Creator, dando origem a um ecosistema que gira em torno da criação com recurso a diversas ferramentas de IA.

São nomes com origens, públicos e percursos diferentes. Partilham a capacidade de condensar uma personalidade numa expressão curta, reconhecível e pesquisável. O username funciona como porta de entrada, diz rapidamente ao público quem está do outro lado ou, pelo menos, que tipo de universo pode encontrar.


Maria Guedes criou a Stylista que, de blogue, se tornou uma marca com parcerias comerciais e um mercado sazonal


Mas… e quando o nome deixa de refletir a pessoa?

A verdade é que o problema surge quando a carreira cresce para territórios que aquele primeiro nome já não consegue acomodar. Humor, beleza, desporto, moda ou videojogos podem ser excelentes pontos de partida, mas tornam-se algo limitados quando o criador pretende afirmar-se como empresário, autor, apresentador ou especialista. “Quando estas marcas crescem e querem voar, o tag pode prender-lhes as asas”, resume Gonçalo das Neves.

Isto porque o nome nunca é completamente neutro. Transporta um tom, uma expectativa e uma determinada perceção de autoridade. Uma investigação publicada no Journal of Marketing analisou o uso, por empresas, de alcunhas inicialmente criadas pelos consumidores e concluiu que essa adoção podia reduzir a perceção de poder da marca. O contexto é diferente, nestes criadores, o pseudónimo costuma ser escolhido pelo próprio, embora a conclusão ajude a compreender um princípio maior: a informalidade inscrita num nome influencia a maneira como o público interpreta quem o utiliza.

Isso também explica por que razão alguns criadores começam, a determinada altura, a dar maior visibilidade ao nome próprio, colocando-o na biografia, na assinatura de livros ou na apresentação de novos projetos. A transição raramente exige o desaparecimento imediato da identidade anterior. Pode fazer-se por associação, repetição e convivência entre os dois nomes, até que o público transfira gradualmente o reconhecimento de um para o outro.

Para Gonçalo das Neves, “o mais importante é que a marca esteja ajustada ao posicionamento que quer ocupar naquele determinado momento”. Um nickname pode, portanto, continuar a ser a escolha certa durante décadas. A questão começa quando a ambição muda e a identidade permanece parada.


Wuant é um dos primeiros e mais mediáticos criadores do YouTube, mas a maioria talvez não saiba que se chama Paulo Borges


Mudar o nome é a parte mais fácil

Abandonar um pseudónimo com anos de notoriedade significa mexer em pesquisa, memória, confiança, contratos, presença mediática e relação emocional com a comunidade. O público precisa de perceber que a pessoa continua ali, mesmo quando a placa à porta muda. “Fazer um rebranding não passa apenas por mudar de nome”, sublinha Gonçalo das Neves. “Para mudarmos marcas, precisamos sempre de estratégia, dinheiro e tempo”, conclui.

O verdadeiro desafio está em preservar o valor acumulado e abrir espaço para o futuro. Afinal, um nickname pode ser uma excelente maneira de começar. Convém apenas perceber, a tempo, se continua a ser o melhor nome para chegar onde se quer ir.


LER TAMBÉM:

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Um nome escolhido para iniciar um blogue, um canal de YouTube ou uma conta de Instagram pode acabar impresso na capa de livros, associado a produtos e anunciado em cartazes e palcos. O que começa como uma identidade digital improvisada transforma-se, por vezes, no ativo mais reconhecido de um criador. No entanto, o que acontece quando o tag deixou de representar tudo aquilo que essa pessoa é ou quer ser?

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6 de ago. de 2026, 12:21

Se pedirmos a alguém para decorar um nome, ‘Pipoca Mais Doce’ é provavelmente mais recordável do que ‘Ana Garcia Martins’”, observa, para arranque de conversa, Gonçalo das Neves, diretor criativo digital. Como este, há dezenas de outros exemplos.

A maioria destes nomes nasceu antes de existirem contratos publicitários, equipas de gestão, planos editoriais ou preocupações com propriedade intelectual. Era preciso um nome para entrar na internet, distinguir uma conta das restantes e criar uma personagem com espaço para experimentar.

‘Pipoca Mais Doce’, ‘Bumba na Fofinha’, ‘Kiko is Hot’, ‘Wuant’, ‘RicFazeres’ ou ‘Mafalda Creative’ são hoje marcas que chegam a milhares de pessoas, mas não foram pensadas para viverem 10, 15 ou 20 anos”, indica Gonçalo das Neves. “Aconteceram simplesmente. Foram nomes criados pelos próprios, sem saberem ainda qual seria a sua metamorfose”.

Essa espontaneidade é parte da sua eficácia. Os nicknames tendem a ser visuais, descritivos, bem-humorados ou suficientemente estranhos para permanecerem na memória. Um estudo da Universidade Católica do Porto, publicado no Journal of Business Research, concluiu que a dimensão figurativa dos nomes e dos logótipos influencia as respostas cognitivas e a capacidade de criar associações. A investigação também deixa um aviso: um nome figurativo, por si só, está longe de garantir uma identidade eficaz; o resultado depende da relação entre o nome, a imagem e o significado construído em seu redor.


Mariana Cabral anunciou recentemente um novo espetáculo e o nome que aparece impresso continua a ser Bumba na Fofinha, a persona digital que criou


Outros exemplos, dos mais antigos aos mais recentes

  • O Arrumadinho refere-se ao jornalista Ricardo Martins Pereira, e parte de uma espécie de pseudónimo da blogosfera que ganhou autonomia face ao nome civil e permanece reconhecível no espaço mediático.

  • Stylista nasceu como o blogue de Maria Guedes. O blogue já não existe, embora o nome continue no Instagram e como marca responsável pelo Mercado Stylista, e pela curadoria dedicada a marcas nacionais.

  • A Maria Vaidosa foi o nome escolhido por Mafalda Sampaio para o seu canal de YouTube, lançado em 2014, antes de se prolongar por outros formatos, nomeadamente uma revista com o mesmo nome.

  • Owhana começou a fazer vídeos para o YouTube em 2016, enquanto estudava Direito. Chama-se Ana Catarina Ribeiro, e alargou a sua presença digital para o Instagram, TikTok e, mais recentemente na plataforma Twitch.

  • Maria Morango chama-se Francisca Cabral, mas apresentou-se ao mundo durante a pandemia com um nickname que faz referência a uma alcunha familiar. Tornou-se uma referência ligada à música, à direção criativa, à televisão e à rádio, onde tem um programa que se chama… Maria Morango.

  • Cátia Creator transportou o vocabulário dos conteúdos para o próprio nome e para o Estúdio Creator, dando origem a um ecosistema que gira em torno da criação com recurso a diversas ferramentas de IA.

São nomes com origens, públicos e percursos diferentes. Partilham a capacidade de condensar uma personalidade numa expressão curta, reconhecível e pesquisável. O username funciona como porta de entrada, diz rapidamente ao público quem está do outro lado ou, pelo menos, que tipo de universo pode encontrar.


Maria Guedes criou a Stylista que, de blogue, se tornou uma marca com parcerias comerciais e um mercado sazonal


Mas… e quando o nome deixa de refletir a pessoa?

A verdade é que o problema surge quando a carreira cresce para territórios que aquele primeiro nome já não consegue acomodar. Humor, beleza, desporto, moda ou videojogos podem ser excelentes pontos de partida, mas tornam-se algo limitados quando o criador pretende afirmar-se como empresário, autor, apresentador ou especialista. “Quando estas marcas crescem e querem voar, o tag pode prender-lhes as asas”, resume Gonçalo das Neves.

Isto porque o nome nunca é completamente neutro. Transporta um tom, uma expectativa e uma determinada perceção de autoridade. Uma investigação publicada no Journal of Marketing analisou o uso, por empresas, de alcunhas inicialmente criadas pelos consumidores e concluiu que essa adoção podia reduzir a perceção de poder da marca. O contexto é diferente, nestes criadores, o pseudónimo costuma ser escolhido pelo próprio, embora a conclusão ajude a compreender um princípio maior: a informalidade inscrita num nome influencia a maneira como o público interpreta quem o utiliza.

Isso também explica por que razão alguns criadores começam, a determinada altura, a dar maior visibilidade ao nome próprio, colocando-o na biografia, na assinatura de livros ou na apresentação de novos projetos. A transição raramente exige o desaparecimento imediato da identidade anterior. Pode fazer-se por associação, repetição e convivência entre os dois nomes, até que o público transfira gradualmente o reconhecimento de um para o outro.

Para Gonçalo das Neves, “o mais importante é que a marca esteja ajustada ao posicionamento que quer ocupar naquele determinado momento”. Um nickname pode, portanto, continuar a ser a escolha certa durante décadas. A questão começa quando a ambição muda e a identidade permanece parada.


Wuant é um dos primeiros e mais mediáticos criadores do YouTube, mas a maioria talvez não saiba que se chama Paulo Borges


Mudar o nome é a parte mais fácil

Abandonar um pseudónimo com anos de notoriedade significa mexer em pesquisa, memória, confiança, contratos, presença mediática e relação emocional com a comunidade. O público precisa de perceber que a pessoa continua ali, mesmo quando a placa à porta muda. “Fazer um rebranding não passa apenas por mudar de nome”, sublinha Gonçalo das Neves. “Para mudarmos marcas, precisamos sempre de estratégia, dinheiro e tempo”, conclui.

O verdadeiro desafio está em preservar o valor acumulado e abrir espaço para o futuro. Afinal, um nickname pode ser uma excelente maneira de começar. Convém apenas perceber, a tempo, se continua a ser o melhor nome para chegar onde se quer ir.


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Um nome escolhido para iniciar um blogue, um canal de YouTube ou uma conta de Instagram pode acabar impresso na capa de livros, associado a produtos e anunciado em cartazes e palcos. O que começa como uma identidade digital improvisada transforma-se, por vezes, no ativo mais reconhecido de um criador. No entanto, o que acontece quando o tag deixou de representar tudo aquilo que essa pessoa é ou quer ser?

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6 de ago. de 2026, 12:21

Se pedirmos a alguém para decorar um nome, ‘Pipoca Mais Doce’ é provavelmente mais recordável do que ‘Ana Garcia Martins’”, observa, para arranque de conversa, Gonçalo das Neves, diretor criativo digital. Como este, há dezenas de outros exemplos.

A maioria destes nomes nasceu antes de existirem contratos publicitários, equipas de gestão, planos editoriais ou preocupações com propriedade intelectual. Era preciso um nome para entrar na internet, distinguir uma conta das restantes e criar uma personagem com espaço para experimentar.

‘Pipoca Mais Doce’, ‘Bumba na Fofinha’, ‘Kiko is Hot’, ‘Wuant’, ‘RicFazeres’ ou ‘Mafalda Creative’ são hoje marcas que chegam a milhares de pessoas, mas não foram pensadas para viverem 10, 15 ou 20 anos”, indica Gonçalo das Neves. “Aconteceram simplesmente. Foram nomes criados pelos próprios, sem saberem ainda qual seria a sua metamorfose”.

Essa espontaneidade é parte da sua eficácia. Os nicknames tendem a ser visuais, descritivos, bem-humorados ou suficientemente estranhos para permanecerem na memória. Um estudo da Universidade Católica do Porto, publicado no Journal of Business Research, concluiu que a dimensão figurativa dos nomes e dos logótipos influencia as respostas cognitivas e a capacidade de criar associações. A investigação também deixa um aviso: um nome figurativo, por si só, está longe de garantir uma identidade eficaz; o resultado depende da relação entre o nome, a imagem e o significado construído em seu redor.


Mariana Cabral anunciou recentemente um novo espetáculo e o nome que aparece impresso continua a ser Bumba na Fofinha, a persona digital que criou


Outros exemplos, dos mais antigos aos mais recentes

  • O Arrumadinho refere-se ao jornalista Ricardo Martins Pereira, e parte de uma espécie de pseudónimo da blogosfera que ganhou autonomia face ao nome civil e permanece reconhecível no espaço mediático.

  • Stylista nasceu como o blogue de Maria Guedes. O blogue já não existe, embora o nome continue no Instagram e como marca responsável pelo Mercado Stylista, e pela curadoria dedicada a marcas nacionais.

  • A Maria Vaidosa foi o nome escolhido por Mafalda Sampaio para o seu canal de YouTube, lançado em 2014, antes de se prolongar por outros formatos, nomeadamente uma revista com o mesmo nome.

  • Owhana começou a fazer vídeos para o YouTube em 2016, enquanto estudava Direito. Chama-se Ana Catarina Ribeiro, e alargou a sua presença digital para o Instagram, TikTok e, mais recentemente na plataforma Twitch.

  • Maria Morango chama-se Francisca Cabral, mas apresentou-se ao mundo durante a pandemia com um nickname que faz referência a uma alcunha familiar. Tornou-se uma referência ligada à música, à direção criativa, à televisão e à rádio, onde tem um programa que se chama… Maria Morango.

  • Cátia Creator transportou o vocabulário dos conteúdos para o próprio nome e para o Estúdio Creator, dando origem a um ecosistema que gira em torno da criação com recurso a diversas ferramentas de IA.

São nomes com origens, públicos e percursos diferentes. Partilham a capacidade de condensar uma personalidade numa expressão curta, reconhecível e pesquisável. O username funciona como porta de entrada, diz rapidamente ao público quem está do outro lado ou, pelo menos, que tipo de universo pode encontrar.


Maria Guedes criou a Stylista que, de blogue, se tornou uma marca com parcerias comerciais e um mercado sazonal


Mas… e quando o nome deixa de refletir a pessoa?

A verdade é que o problema surge quando a carreira cresce para territórios que aquele primeiro nome já não consegue acomodar. Humor, beleza, desporto, moda ou videojogos podem ser excelentes pontos de partida, mas tornam-se algo limitados quando o criador pretende afirmar-se como empresário, autor, apresentador ou especialista. “Quando estas marcas crescem e querem voar, o tag pode prender-lhes as asas”, resume Gonçalo das Neves.

Isto porque o nome nunca é completamente neutro. Transporta um tom, uma expectativa e uma determinada perceção de autoridade. Uma investigação publicada no Journal of Marketing analisou o uso, por empresas, de alcunhas inicialmente criadas pelos consumidores e concluiu que essa adoção podia reduzir a perceção de poder da marca. O contexto é diferente, nestes criadores, o pseudónimo costuma ser escolhido pelo próprio, embora a conclusão ajude a compreender um princípio maior: a informalidade inscrita num nome influencia a maneira como o público interpreta quem o utiliza.

Isso também explica por que razão alguns criadores começam, a determinada altura, a dar maior visibilidade ao nome próprio, colocando-o na biografia, na assinatura de livros ou na apresentação de novos projetos. A transição raramente exige o desaparecimento imediato da identidade anterior. Pode fazer-se por associação, repetição e convivência entre os dois nomes, até que o público transfira gradualmente o reconhecimento de um para o outro.

Para Gonçalo das Neves, “o mais importante é que a marca esteja ajustada ao posicionamento que quer ocupar naquele determinado momento”. Um nickname pode, portanto, continuar a ser a escolha certa durante décadas. A questão começa quando a ambição muda e a identidade permanece parada.


Wuant é um dos primeiros e mais mediáticos criadores do YouTube, mas a maioria talvez não saiba que se chama Paulo Borges


Mudar o nome é a parte mais fácil

Abandonar um pseudónimo com anos de notoriedade significa mexer em pesquisa, memória, confiança, contratos, presença mediática e relação emocional com a comunidade. O público precisa de perceber que a pessoa continua ali, mesmo quando a placa à porta muda. “Fazer um rebranding não passa apenas por mudar de nome”, sublinha Gonçalo das Neves. “Para mudarmos marcas, precisamos sempre de estratégia, dinheiro e tempo”, conclui.

O verdadeiro desafio está em preservar o valor acumulado e abrir espaço para o futuro. Afinal, um nickname pode ser uma excelente maneira de começar. Convém apenas perceber, a tempo, se continua a ser o melhor nome para chegar onde se quer ir.


LER TAMBÉM:

#Protagonistas

Do nickname à marca: quando os nomes digitais se tornam negócios

Um nome escolhido para iniciar um blogue, um canal de YouTube ou uma conta de Instagram pode acabar impresso na capa de livros, associado a produtos e anunciado em cartazes e palcos. O que começa como uma identidade digital improvisada transforma-se, por vezes, no ativo mais reconhecido de um criador. No entanto, o que acontece quando o tag deixou de representar tudo aquilo que essa pessoa é ou quer ser?

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6 de ago. de 2026, 12:21

Se pedirmos a alguém para decorar um nome, ‘Pipoca Mais Doce’ é provavelmente mais recordável do que ‘Ana Garcia Martins’”, observa, para arranque de conversa, Gonçalo das Neves, diretor criativo digital. Como este, há dezenas de outros exemplos.

A maioria destes nomes nasceu antes de existirem contratos publicitários, equipas de gestão, planos editoriais ou preocupações com propriedade intelectual. Era preciso um nome para entrar na internet, distinguir uma conta das restantes e criar uma personagem com espaço para experimentar.

‘Pipoca Mais Doce’, ‘Bumba na Fofinha’, ‘Kiko is Hot’, ‘Wuant’, ‘RicFazeres’ ou ‘Mafalda Creative’ são hoje marcas que chegam a milhares de pessoas, mas não foram pensadas para viverem 10, 15 ou 20 anos”, indica Gonçalo das Neves. “Aconteceram simplesmente. Foram nomes criados pelos próprios, sem saberem ainda qual seria a sua metamorfose”.

Essa espontaneidade é parte da sua eficácia. Os nicknames tendem a ser visuais, descritivos, bem-humorados ou suficientemente estranhos para permanecerem na memória. Um estudo da Universidade Católica do Porto, publicado no Journal of Business Research, concluiu que a dimensão figurativa dos nomes e dos logótipos influencia as respostas cognitivas e a capacidade de criar associações. A investigação também deixa um aviso: um nome figurativo, por si só, está longe de garantir uma identidade eficaz; o resultado depende da relação entre o nome, a imagem e o significado construído em seu redor.


Mariana Cabral anunciou recentemente um novo espetáculo e o nome que aparece impresso continua a ser Bumba na Fofinha, a persona digital que criou


Outros exemplos, dos mais antigos aos mais recentes

  • O Arrumadinho refere-se ao jornalista Ricardo Martins Pereira, e parte de uma espécie de pseudónimo da blogosfera que ganhou autonomia face ao nome civil e permanece reconhecível no espaço mediático.

  • Stylista nasceu como o blogue de Maria Guedes. O blogue já não existe, embora o nome continue no Instagram e como marca responsável pelo Mercado Stylista, e pela curadoria dedicada a marcas nacionais.

  • A Maria Vaidosa foi o nome escolhido por Mafalda Sampaio para o seu canal de YouTube, lançado em 2014, antes de se prolongar por outros formatos, nomeadamente uma revista com o mesmo nome.

  • Owhana começou a fazer vídeos para o YouTube em 2016, enquanto estudava Direito. Chama-se Ana Catarina Ribeiro, e alargou a sua presença digital para o Instagram, TikTok e, mais recentemente na plataforma Twitch.

  • Maria Morango chama-se Francisca Cabral, mas apresentou-se ao mundo durante a pandemia com um nickname que faz referência a uma alcunha familiar. Tornou-se uma referência ligada à música, à direção criativa, à televisão e à rádio, onde tem um programa que se chama… Maria Morango.

  • Cátia Creator transportou o vocabulário dos conteúdos para o próprio nome e para o Estúdio Creator, dando origem a um ecosistema que gira em torno da criação com recurso a diversas ferramentas de IA.

São nomes com origens, públicos e percursos diferentes. Partilham a capacidade de condensar uma personalidade numa expressão curta, reconhecível e pesquisável. O username funciona como porta de entrada, diz rapidamente ao público quem está do outro lado ou, pelo menos, que tipo de universo pode encontrar.


Maria Guedes criou a Stylista que, de blogue, se tornou uma marca com parcerias comerciais e um mercado sazonal


Mas… e quando o nome deixa de refletir a pessoa?

A verdade é que o problema surge quando a carreira cresce para territórios que aquele primeiro nome já não consegue acomodar. Humor, beleza, desporto, moda ou videojogos podem ser excelentes pontos de partida, mas tornam-se algo limitados quando o criador pretende afirmar-se como empresário, autor, apresentador ou especialista. “Quando estas marcas crescem e querem voar, o tag pode prender-lhes as asas”, resume Gonçalo das Neves.

Isto porque o nome nunca é completamente neutro. Transporta um tom, uma expectativa e uma determinada perceção de autoridade. Uma investigação publicada no Journal of Marketing analisou o uso, por empresas, de alcunhas inicialmente criadas pelos consumidores e concluiu que essa adoção podia reduzir a perceção de poder da marca. O contexto é diferente, nestes criadores, o pseudónimo costuma ser escolhido pelo próprio, embora a conclusão ajude a compreender um princípio maior: a informalidade inscrita num nome influencia a maneira como o público interpreta quem o utiliza.

Isso também explica por que razão alguns criadores começam, a determinada altura, a dar maior visibilidade ao nome próprio, colocando-o na biografia, na assinatura de livros ou na apresentação de novos projetos. A transição raramente exige o desaparecimento imediato da identidade anterior. Pode fazer-se por associação, repetição e convivência entre os dois nomes, até que o público transfira gradualmente o reconhecimento de um para o outro.

Para Gonçalo das Neves, “o mais importante é que a marca esteja ajustada ao posicionamento que quer ocupar naquele determinado momento”. Um nickname pode, portanto, continuar a ser a escolha certa durante décadas. A questão começa quando a ambição muda e a identidade permanece parada.


Wuant é um dos primeiros e mais mediáticos criadores do YouTube, mas a maioria talvez não saiba que se chama Paulo Borges


Mudar o nome é a parte mais fácil

Abandonar um pseudónimo com anos de notoriedade significa mexer em pesquisa, memória, confiança, contratos, presença mediática e relação emocional com a comunidade. O público precisa de perceber que a pessoa continua ali, mesmo quando a placa à porta muda. “Fazer um rebranding não passa apenas por mudar de nome”, sublinha Gonçalo das Neves. “Para mudarmos marcas, precisamos sempre de estratégia, dinheiro e tempo”, conclui.

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