
#Conhecimento
Do scroll aos encontros presenciais: porque estão a crescer as comunidades offline?
Correm juntos. Leem juntos. Provam vinho e discutem livros. Encontram-se para falar de negócios, cozinhar ou simplesmente passar algumas horas com outras pessoas. Quanto mais permanentemente ligados estamos, mais sinais aparecem de uma procura pelo encontro presencial. Neste artigo do MOTIVO, conversámos com quem participa em diversas comunidades e com especialistas que nos ajudam a explicar o fenómeno.
Comunidades presenciais sempre existiram. O que parece estar a ganhar força é a vontade intencional de voltar a criá-las num quotidiano cada vez mais mediado por ecrãs. Em 21 países europeus da OCDE, a percentagem de pessoas que encontravam amigos presencialmente, todos os dias, caiu de 21% em 2006 para 12% em 2022; no mesmo período, o contacto diário à distância aumentou. Os dados não provam, por si só, um regresso às comunidades offline, embora ajudem a perceber o contexto em que este movimento acontece: comunicamos mais à distância e encontramo-nos menos vezes frente a frente.
Para Joana Sepúlveda, Head of Strategy da Dentsu Creative Portugal, parte da explicação está no desaparecimento gradual dos chamados “terceiros lugares”: os espaços entre casa e trabalho onde aconteciam encontros pouco planeados. Ir ao banco, aos correios, às compras, passar pelo café ou deslocar-se diariamente criava oportunidades para cruzar pessoas e ocupar a cidade. A digitalização trouxe conveniência e retirou algumas dessas ocasiões ao quotidiano. Daí a provocação da estratega: “o offline é o novo luxo”. É mais escasso, irrepetível e menos disponível do que qualquer conteúdo que possamos consumir quando queremos.
A questão vai além do cansaço dos ecrãs
Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, explica: "Vivemos num estado de permanente possibilidade de acesso aos outros, mas esse acesso é, muitas vezes, rápido, unidimensional, sem corpo, sem espessura e sem a entrega necessária para que exista verdadeiro contacto". É aqui que o interesse comum ganha importância: um livro, uma corrida ou um trabalho manual dão às pessoas uma razão para estar ali, facilitam a aproximação e retiram pressão ao encontro entre desconhecidos. A atividade leva-nos até ao grupo; mas aquilo que acontece entre as pessoas pode acabar por ser bastante maior.
Eis alguns exemplos
No Setúbal Running Club, esse processo tornou-se evidente. António Joaquim criou o clube com a intenção de tornar a corrida acessível a pessoas com diferentes idades, níveis de condição física e experiência. Entretanto, os treinos deram origem a amizades, entreajuda, convívios e membros que passaram a participar ativamente na própria comunidade. “A corrida acaba por ser o motivo do encontro, mas é a comunidade que faz as pessoas continuar a aparecer”, resume.
O Clube do Livro Literacidades, dinamizado por Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, mostra outra forma de chegar ao mesmo lugar. Criado para ler, divulgar e conversar sobre autores de língua portuguesa, recusa a lógica de aula e assume-se como espaço onde leitores comuns podem discordar e trocar perspetivas. A comunidade já se prolongou para apresentações de autores e festivais, retirando a leitura do território exclusivamente individual. “Continuamos a precisar de nos juntar em torno de algo que nos é comum”, dizem os responsáveis, que veem também nestes encontros uma forma de abrandar perante um quotidiano vivido cada vez mais depressa.
Nos encontros Beba Esse Livro, promovidos Carla Leidens, o interesse comum é, afinal, a combinação de vários: literatura, vinho e gastronomia. A fundadora já tinha testado no Brasil a força de experiências partilhadas através do Chef Surpresa, um jantar em que os participantes se inscrevem sem saber antecipadamente o menu ou quem irá cozinhar. Para Leidens, uma comunidade também serve para sair daquilo que já conhecemos: “é uma forma de encontrar o diferente, o inesperado, o intenso”. No fundo, como se a afinidade criasse o ponto de partida, e a descoberta acrescentasse uma razão para participar.
Até o networking, tantas vezes associado à troca rápida de contactos, está a procurar outros códigos. O Executive Tea Club, cofundado por Raquel Mota Pinto, reúne empresárias, empreendedoras e executivas e coloca deliberadamente as relações antes da concretização imediata de negócios. O chá funciona como ritual e pausa; e os encontros repetidos procuram criar confiança entre pares que reconhecem desafios semelhantes. A experiência da fundadora noutras redes deixou-lhe uma convicção: “uma comunidade só vive com investimento nos laços de confiança e na qualidade das conexões”. Criado há três anos, o clube está presente em Lisboa, Porto e Aveiro e expandiu-se também para o Dubai e Bahrein.
O que têm em comum?
Corrida, literatura, vinho, gastronomia e liderança parecem universos distantes, no entanto, há algo partilhado: interesse, repetição, identificação e pertença. Uma atividade comum resolve uma das partes mais difíceis de conhecer pessoas, porque expressa imediatamente uma afinidade e algo sobre o qual conversar. Regressar, sessão após sessão, começa a criar familiaridade, códigos, memória e reconhecimento. Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, acrescenta que o encontro presencial também exige permanecer naquele espaço e naquele tempo, sujeito à presença do outro e ao imprevisível da relação.
As marcas estão atentas
Joana Sepúlveda recorda que criar experiências de marca está longe de ser novidade; o que muda é a possibilidade de a marca deixar de se limitar a organizar uma grande ativação e passar a facilitar comportamentos que as pessoas já querem partilhar: correr, cozinhar, ler, caminhar ou treinar. O digital continua a ser fundamental para dar alcance, encontrar pessoas e manter a ligação entre encontros. Já o presencial pode acrescentar ritual, proximidade e uma relação mais profunda.
Convém, ainda assim, não chamar comunidade a tudo. Uma audiência não é uma comunidade. Uma base de dados não é uma comunidade. Cinquenta pessoas numa ativação também não formam automaticamente uma comunidade. Para existir pertença, alguma relação tem de se estabelecer entre os próprios membros, é necessária continuidade e o grupo precisa de conservar valor para quem participa mesmo quando a marca deixa de ocupar o centro. Se o objetivo principal é recolher contactos, gerar conteúdo ou conseguir exposição de produto, podemos estar perante uma boa ação de marketing. Comunidade é outra coisa.
Joana Sepúlveda propõe, por isso, uma pergunta mais para as marcas: em vez de começar por “que experiência podemos criar?”, pensar “que sentimento de pertença podemos ajudar a criar?”. Essa poderá ser a melhor forma de entender o que está a acontecer fora do universo de cada marca.
Construímos ferramentas extraordinárias para encontrar pessoas com os mesmos interesses e manter relações à distância; agora, usamos muitas dessas ferramentas para marcar uma corrida, escolher um livro, combinar um jantar ou sentar-nos à volta de uma chávena de chá. O interesse aproxima-nos e faz-nos aparecer, mas é a pertença que nos faz voltar.
(c) Foto de Chang Duong na Unsplash

#Conhecimento
Do scroll aos encontros presenciais: porque estão a crescer as comunidades offline?
Correm juntos. Leem juntos. Provam vinho e discutem livros. Encontram-se para falar de negócios, cozinhar ou simplesmente passar algumas horas com outras pessoas. Quanto mais permanentemente ligados estamos, mais sinais aparecem de uma procura pelo encontro presencial. Neste artigo do MOTIVO, conversámos com quem participa em diversas comunidades e com especialistas que nos ajudam a explicar o fenómeno.
Comunidades presenciais sempre existiram. O que parece estar a ganhar força é a vontade intencional de voltar a criá-las num quotidiano cada vez mais mediado por ecrãs. Em 21 países europeus da OCDE, a percentagem de pessoas que encontravam amigos presencialmente, todos os dias, caiu de 21% em 2006 para 12% em 2022; no mesmo período, o contacto diário à distância aumentou. Os dados não provam, por si só, um regresso às comunidades offline, embora ajudem a perceber o contexto em que este movimento acontece: comunicamos mais à distância e encontramo-nos menos vezes frente a frente.
Para Joana Sepúlveda, Head of Strategy da Dentsu Creative Portugal, parte da explicação está no desaparecimento gradual dos chamados “terceiros lugares”: os espaços entre casa e trabalho onde aconteciam encontros pouco planeados. Ir ao banco, aos correios, às compras, passar pelo café ou deslocar-se diariamente criava oportunidades para cruzar pessoas e ocupar a cidade. A digitalização trouxe conveniência e retirou algumas dessas ocasiões ao quotidiano. Daí a provocação da estratega: “o offline é o novo luxo”. É mais escasso, irrepetível e menos disponível do que qualquer conteúdo que possamos consumir quando queremos.
A questão vai além do cansaço dos ecrãs
Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, explica: "Vivemos num estado de permanente possibilidade de acesso aos outros, mas esse acesso é, muitas vezes, rápido, unidimensional, sem corpo, sem espessura e sem a entrega necessária para que exista verdadeiro contacto". É aqui que o interesse comum ganha importância: um livro, uma corrida ou um trabalho manual dão às pessoas uma razão para estar ali, facilitam a aproximação e retiram pressão ao encontro entre desconhecidos. A atividade leva-nos até ao grupo; mas aquilo que acontece entre as pessoas pode acabar por ser bastante maior.
Eis alguns exemplos
No Setúbal Running Club, esse processo tornou-se evidente. António Joaquim criou o clube com a intenção de tornar a corrida acessível a pessoas com diferentes idades, níveis de condição física e experiência. Entretanto, os treinos deram origem a amizades, entreajuda, convívios e membros que passaram a participar ativamente na própria comunidade. “A corrida acaba por ser o motivo do encontro, mas é a comunidade que faz as pessoas continuar a aparecer”, resume.
O Clube do Livro Literacidades, dinamizado por Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, mostra outra forma de chegar ao mesmo lugar. Criado para ler, divulgar e conversar sobre autores de língua portuguesa, recusa a lógica de aula e assume-se como espaço onde leitores comuns podem discordar e trocar perspetivas. A comunidade já se prolongou para apresentações de autores e festivais, retirando a leitura do território exclusivamente individual. “Continuamos a precisar de nos juntar em torno de algo que nos é comum”, dizem os responsáveis, que veem também nestes encontros uma forma de abrandar perante um quotidiano vivido cada vez mais depressa.
Nos encontros Beba Esse Livro, promovidos Carla Leidens, o interesse comum é, afinal, a combinação de vários: literatura, vinho e gastronomia. A fundadora já tinha testado no Brasil a força de experiências partilhadas através do Chef Surpresa, um jantar em que os participantes se inscrevem sem saber antecipadamente o menu ou quem irá cozinhar. Para Leidens, uma comunidade também serve para sair daquilo que já conhecemos: “é uma forma de encontrar o diferente, o inesperado, o intenso”. No fundo, como se a afinidade criasse o ponto de partida, e a descoberta acrescentasse uma razão para participar.
Até o networking, tantas vezes associado à troca rápida de contactos, está a procurar outros códigos. O Executive Tea Club, cofundado por Raquel Mota Pinto, reúne empresárias, empreendedoras e executivas e coloca deliberadamente as relações antes da concretização imediata de negócios. O chá funciona como ritual e pausa; e os encontros repetidos procuram criar confiança entre pares que reconhecem desafios semelhantes. A experiência da fundadora noutras redes deixou-lhe uma convicção: “uma comunidade só vive com investimento nos laços de confiança e na qualidade das conexões”. Criado há três anos, o clube está presente em Lisboa, Porto e Aveiro e expandiu-se também para o Dubai e Bahrein.
O que têm em comum?
Corrida, literatura, vinho, gastronomia e liderança parecem universos distantes, no entanto, há algo partilhado: interesse, repetição, identificação e pertença. Uma atividade comum resolve uma das partes mais difíceis de conhecer pessoas, porque expressa imediatamente uma afinidade e algo sobre o qual conversar. Regressar, sessão após sessão, começa a criar familiaridade, códigos, memória e reconhecimento. Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, acrescenta que o encontro presencial também exige permanecer naquele espaço e naquele tempo, sujeito à presença do outro e ao imprevisível da relação.
As marcas estão atentas
Joana Sepúlveda recorda que criar experiências de marca está longe de ser novidade; o que muda é a possibilidade de a marca deixar de se limitar a organizar uma grande ativação e passar a facilitar comportamentos que as pessoas já querem partilhar: correr, cozinhar, ler, caminhar ou treinar. O digital continua a ser fundamental para dar alcance, encontrar pessoas e manter a ligação entre encontros. Já o presencial pode acrescentar ritual, proximidade e uma relação mais profunda.
Convém, ainda assim, não chamar comunidade a tudo. Uma audiência não é uma comunidade. Uma base de dados não é uma comunidade. Cinquenta pessoas numa ativação também não formam automaticamente uma comunidade. Para existir pertença, alguma relação tem de se estabelecer entre os próprios membros, é necessária continuidade e o grupo precisa de conservar valor para quem participa mesmo quando a marca deixa de ocupar o centro. Se o objetivo principal é recolher contactos, gerar conteúdo ou conseguir exposição de produto, podemos estar perante uma boa ação de marketing. Comunidade é outra coisa.
Joana Sepúlveda propõe, por isso, uma pergunta mais para as marcas: em vez de começar por “que experiência podemos criar?”, pensar “que sentimento de pertença podemos ajudar a criar?”. Essa poderá ser a melhor forma de entender o que está a acontecer fora do universo de cada marca.
Construímos ferramentas extraordinárias para encontrar pessoas com os mesmos interesses e manter relações à distância; agora, usamos muitas dessas ferramentas para marcar uma corrida, escolher um livro, combinar um jantar ou sentar-nos à volta de uma chávena de chá. O interesse aproxima-nos e faz-nos aparecer, mas é a pertença que nos faz voltar.
(c) Foto de Chang Duong na Unsplash

#Conhecimento
Do scroll aos encontros presenciais: porque estão a crescer as comunidades offline?
Correm juntos. Leem juntos. Provam vinho e discutem livros. Encontram-se para falar de negócios, cozinhar ou simplesmente passar algumas horas com outras pessoas. Quanto mais permanentemente ligados estamos, mais sinais aparecem de uma procura pelo encontro presencial. Neste artigo do MOTIVO, conversámos com quem participa em diversas comunidades e com especialistas que nos ajudam a explicar o fenómeno.
Comunidades presenciais sempre existiram. O que parece estar a ganhar força é a vontade intencional de voltar a criá-las num quotidiano cada vez mais mediado por ecrãs. Em 21 países europeus da OCDE, a percentagem de pessoas que encontravam amigos presencialmente, todos os dias, caiu de 21% em 2006 para 12% em 2022; no mesmo período, o contacto diário à distância aumentou. Os dados não provam, por si só, um regresso às comunidades offline, embora ajudem a perceber o contexto em que este movimento acontece: comunicamos mais à distância e encontramo-nos menos vezes frente a frente.
Para Joana Sepúlveda, Head of Strategy da Dentsu Creative Portugal, parte da explicação está no desaparecimento gradual dos chamados “terceiros lugares”: os espaços entre casa e trabalho onde aconteciam encontros pouco planeados. Ir ao banco, aos correios, às compras, passar pelo café ou deslocar-se diariamente criava oportunidades para cruzar pessoas e ocupar a cidade. A digitalização trouxe conveniência e retirou algumas dessas ocasiões ao quotidiano. Daí a provocação da estratega: “o offline é o novo luxo”. É mais escasso, irrepetível e menos disponível do que qualquer conteúdo que possamos consumir quando queremos.
A questão vai além do cansaço dos ecrãs
Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, explica: "Vivemos num estado de permanente possibilidade de acesso aos outros, mas esse acesso é, muitas vezes, rápido, unidimensional, sem corpo, sem espessura e sem a entrega necessária para que exista verdadeiro contacto". É aqui que o interesse comum ganha importância: um livro, uma corrida ou um trabalho manual dão às pessoas uma razão para estar ali, facilitam a aproximação e retiram pressão ao encontro entre desconhecidos. A atividade leva-nos até ao grupo; mas aquilo que acontece entre as pessoas pode acabar por ser bastante maior.
Eis alguns exemplos
No Setúbal Running Club, esse processo tornou-se evidente. António Joaquim criou o clube com a intenção de tornar a corrida acessível a pessoas com diferentes idades, níveis de condição física e experiência. Entretanto, os treinos deram origem a amizades, entreajuda, convívios e membros que passaram a participar ativamente na própria comunidade. “A corrida acaba por ser o motivo do encontro, mas é a comunidade que faz as pessoas continuar a aparecer”, resume.
O Clube do Livro Literacidades, dinamizado por Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, mostra outra forma de chegar ao mesmo lugar. Criado para ler, divulgar e conversar sobre autores de língua portuguesa, recusa a lógica de aula e assume-se como espaço onde leitores comuns podem discordar e trocar perspetivas. A comunidade já se prolongou para apresentações de autores e festivais, retirando a leitura do território exclusivamente individual. “Continuamos a precisar de nos juntar em torno de algo que nos é comum”, dizem os responsáveis, que veem também nestes encontros uma forma de abrandar perante um quotidiano vivido cada vez mais depressa.
Nos encontros Beba Esse Livro, promovidos Carla Leidens, o interesse comum é, afinal, a combinação de vários: literatura, vinho e gastronomia. A fundadora já tinha testado no Brasil a força de experiências partilhadas através do Chef Surpresa, um jantar em que os participantes se inscrevem sem saber antecipadamente o menu ou quem irá cozinhar. Para Leidens, uma comunidade também serve para sair daquilo que já conhecemos: “é uma forma de encontrar o diferente, o inesperado, o intenso”. No fundo, como se a afinidade criasse o ponto de partida, e a descoberta acrescentasse uma razão para participar.
Até o networking, tantas vezes associado à troca rápida de contactos, está a procurar outros códigos. O Executive Tea Club, cofundado por Raquel Mota Pinto, reúne empresárias, empreendedoras e executivas e coloca deliberadamente as relações antes da concretização imediata de negócios. O chá funciona como ritual e pausa; e os encontros repetidos procuram criar confiança entre pares que reconhecem desafios semelhantes. A experiência da fundadora noutras redes deixou-lhe uma convicção: “uma comunidade só vive com investimento nos laços de confiança e na qualidade das conexões”. Criado há três anos, o clube está presente em Lisboa, Porto e Aveiro e expandiu-se também para o Dubai e Bahrein.
O que têm em comum?
Corrida, literatura, vinho, gastronomia e liderança parecem universos distantes, no entanto, há algo partilhado: interesse, repetição, identificação e pertença. Uma atividade comum resolve uma das partes mais difíceis de conhecer pessoas, porque expressa imediatamente uma afinidade e algo sobre o qual conversar. Regressar, sessão após sessão, começa a criar familiaridade, códigos, memória e reconhecimento. Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, acrescenta que o encontro presencial também exige permanecer naquele espaço e naquele tempo, sujeito à presença do outro e ao imprevisível da relação.
As marcas estão atentas
Joana Sepúlveda recorda que criar experiências de marca está longe de ser novidade; o que muda é a possibilidade de a marca deixar de se limitar a organizar uma grande ativação e passar a facilitar comportamentos que as pessoas já querem partilhar: correr, cozinhar, ler, caminhar ou treinar. O digital continua a ser fundamental para dar alcance, encontrar pessoas e manter a ligação entre encontros. Já o presencial pode acrescentar ritual, proximidade e uma relação mais profunda.
Convém, ainda assim, não chamar comunidade a tudo. Uma audiência não é uma comunidade. Uma base de dados não é uma comunidade. Cinquenta pessoas numa ativação também não formam automaticamente uma comunidade. Para existir pertença, alguma relação tem de se estabelecer entre os próprios membros, é necessária continuidade e o grupo precisa de conservar valor para quem participa mesmo quando a marca deixa de ocupar o centro. Se o objetivo principal é recolher contactos, gerar conteúdo ou conseguir exposição de produto, podemos estar perante uma boa ação de marketing. Comunidade é outra coisa.
Joana Sepúlveda propõe, por isso, uma pergunta mais para as marcas: em vez de começar por “que experiência podemos criar?”, pensar “que sentimento de pertença podemos ajudar a criar?”. Essa poderá ser a melhor forma de entender o que está a acontecer fora do universo de cada marca.
Construímos ferramentas extraordinárias para encontrar pessoas com os mesmos interesses e manter relações à distância; agora, usamos muitas dessas ferramentas para marcar uma corrida, escolher um livro, combinar um jantar ou sentar-nos à volta de uma chávena de chá. O interesse aproxima-nos e faz-nos aparecer, mas é a pertença que nos faz voltar.
(c) Foto de Chang Duong na Unsplash

#Conhecimento
Do scroll aos encontros presenciais: porque estão a crescer as comunidades offline?
Correm juntos. Leem juntos. Provam vinho e discutem livros. Encontram-se para falar de negócios, cozinhar ou simplesmente passar algumas horas com outras pessoas. Quanto mais permanentemente ligados estamos, mais sinais aparecem de uma procura pelo encontro presencial. Neste artigo do MOTIVO, conversámos com quem participa em diversas comunidades e com especialistas que nos ajudam a explicar o fenómeno.
Comunidades presenciais sempre existiram. O que parece estar a ganhar força é a vontade intencional de voltar a criá-las num quotidiano cada vez mais mediado por ecrãs. Em 21 países europeus da OCDE, a percentagem de pessoas que encontravam amigos presencialmente, todos os dias, caiu de 21% em 2006 para 12% em 2022; no mesmo período, o contacto diário à distância aumentou. Os dados não provam, por si só, um regresso às comunidades offline, embora ajudem a perceber o contexto em que este movimento acontece: comunicamos mais à distância e encontramo-nos menos vezes frente a frente.
Para Joana Sepúlveda, Head of Strategy da Dentsu Creative Portugal, parte da explicação está no desaparecimento gradual dos chamados “terceiros lugares”: os espaços entre casa e trabalho onde aconteciam encontros pouco planeados. Ir ao banco, aos correios, às compras, passar pelo café ou deslocar-se diariamente criava oportunidades para cruzar pessoas e ocupar a cidade. A digitalização trouxe conveniência e retirou algumas dessas ocasiões ao quotidiano. Daí a provocação da estratega: “o offline é o novo luxo”. É mais escasso, irrepetível e menos disponível do que qualquer conteúdo que possamos consumir quando queremos.
A questão vai além do cansaço dos ecrãs
Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, explica: "Vivemos num estado de permanente possibilidade de acesso aos outros, mas esse acesso é, muitas vezes, rápido, unidimensional, sem corpo, sem espessura e sem a entrega necessária para que exista verdadeiro contacto". É aqui que o interesse comum ganha importância: um livro, uma corrida ou um trabalho manual dão às pessoas uma razão para estar ali, facilitam a aproximação e retiram pressão ao encontro entre desconhecidos. A atividade leva-nos até ao grupo; mas aquilo que acontece entre as pessoas pode acabar por ser bastante maior.
Eis alguns exemplos
No Setúbal Running Club, esse processo tornou-se evidente. António Joaquim criou o clube com a intenção de tornar a corrida acessível a pessoas com diferentes idades, níveis de condição física e experiência. Entretanto, os treinos deram origem a amizades, entreajuda, convívios e membros que passaram a participar ativamente na própria comunidade. “A corrida acaba por ser o motivo do encontro, mas é a comunidade que faz as pessoas continuar a aparecer”, resume.
O Clube do Livro Literacidades, dinamizado por Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, mostra outra forma de chegar ao mesmo lugar. Criado para ler, divulgar e conversar sobre autores de língua portuguesa, recusa a lógica de aula e assume-se como espaço onde leitores comuns podem discordar e trocar perspetivas. A comunidade já se prolongou para apresentações de autores e festivais, retirando a leitura do território exclusivamente individual. “Continuamos a precisar de nos juntar em torno de algo que nos é comum”, dizem os responsáveis, que veem também nestes encontros uma forma de abrandar perante um quotidiano vivido cada vez mais depressa.
Nos encontros Beba Esse Livro, promovidos Carla Leidens, o interesse comum é, afinal, a combinação de vários: literatura, vinho e gastronomia. A fundadora já tinha testado no Brasil a força de experiências partilhadas através do Chef Surpresa, um jantar em que os participantes se inscrevem sem saber antecipadamente o menu ou quem irá cozinhar. Para Leidens, uma comunidade também serve para sair daquilo que já conhecemos: “é uma forma de encontrar o diferente, o inesperado, o intenso”. No fundo, como se a afinidade criasse o ponto de partida, e a descoberta acrescentasse uma razão para participar.
Até o networking, tantas vezes associado à troca rápida de contactos, está a procurar outros códigos. O Executive Tea Club, cofundado por Raquel Mota Pinto, reúne empresárias, empreendedoras e executivas e coloca deliberadamente as relações antes da concretização imediata de negócios. O chá funciona como ritual e pausa; e os encontros repetidos procuram criar confiança entre pares que reconhecem desafios semelhantes. A experiência da fundadora noutras redes deixou-lhe uma convicção: “uma comunidade só vive com investimento nos laços de confiança e na qualidade das conexões”. Criado há três anos, o clube está presente em Lisboa, Porto e Aveiro e expandiu-se também para o Dubai e Bahrein.
O que têm em comum?
Corrida, literatura, vinho, gastronomia e liderança parecem universos distantes, no entanto, há algo partilhado: interesse, repetição, identificação e pertença. Uma atividade comum resolve uma das partes mais difíceis de conhecer pessoas, porque expressa imediatamente uma afinidade e algo sobre o qual conversar. Regressar, sessão após sessão, começa a criar familiaridade, códigos, memória e reconhecimento. Patrícia Câmara, psicanalista e psicóloga, acrescenta que o encontro presencial também exige permanecer naquele espaço e naquele tempo, sujeito à presença do outro e ao imprevisível da relação.
As marcas estão atentas
Joana Sepúlveda recorda que criar experiências de marca está longe de ser novidade; o que muda é a possibilidade de a marca deixar de se limitar a organizar uma grande ativação e passar a facilitar comportamentos que as pessoas já querem partilhar: correr, cozinhar, ler, caminhar ou treinar. O digital continua a ser fundamental para dar alcance, encontrar pessoas e manter a ligação entre encontros. Já o presencial pode acrescentar ritual, proximidade e uma relação mais profunda.
Convém, ainda assim, não chamar comunidade a tudo. Uma audiência não é uma comunidade. Uma base de dados não é uma comunidade. Cinquenta pessoas numa ativação também não formam automaticamente uma comunidade. Para existir pertença, alguma relação tem de se estabelecer entre os próprios membros, é necessária continuidade e o grupo precisa de conservar valor para quem participa mesmo quando a marca deixa de ocupar o centro. Se o objetivo principal é recolher contactos, gerar conteúdo ou conseguir exposição de produto, podemos estar perante uma boa ação de marketing. Comunidade é outra coisa.
Joana Sepúlveda propõe, por isso, uma pergunta mais para as marcas: em vez de começar por “que experiência podemos criar?”, pensar “que sentimento de pertença podemos ajudar a criar?”. Essa poderá ser a melhor forma de entender o que está a acontecer fora do universo de cada marca.
Construímos ferramentas extraordinárias para encontrar pessoas com os mesmos interesses e manter relações à distância; agora, usamos muitas dessas ferramentas para marcar uma corrida, escolher um livro, combinar um jantar ou sentar-nos à volta de uma chávena de chá. O interesse aproxima-nos e faz-nos aparecer, mas é a pertença que nos faz voltar.




