
#Protagonistas
Seis perguntas a Patrícia Reis
Acaba de lançar um novo livro, O Lugar da Incerteza, o primeiro na Companhia das Letras, e o sucessor de A Desobediente, a biografia de Maria Teresa Horta, já na oitava edição. Com mais de 30 anos de uma carreira dividida entre o jornalismo, a escrita e projetos editoriais e criativos, a também cronista do MOTIVO respondeu a seis questões sobre o trabalho que chegou esta semana às bancas.
Num mundo com tantas certezas, a incerteza foi um bom terreno de escrita?
PATRÍCIA REIS — A incerteza não foi apenas um terreno, foi o método. Nunca começo um livro a saber exatamente para onde vou, escrevo para descobrir. Se tivesse a história toda resolvida na cabeça, a escrita perderia sentido. Vivemos num tempo que finge certezas: opiniões rápidas, identidades rígidas, trincheiras morais. Mas, por baixo disso, há medo, confusão, fragilidade, e isso raramente é assumido. Interessa-me escrever a partir desse lugar desconfortável, dos abismos que criamos quando deixamos de escutar o outro e quando nos refugiamos em explicações demasiado simples. Esses abismos não são abstratos: atravessam relações, escolhas, afetos e condicionam, de forma muito concreta, a possibilidade de sermos felizes.

N’O Lugar da Incerteza, acompanhamos diferentes vidas, guiados pelos seus medos, arrependimentos, traumas, sonhos e esperanças. As emoções e a condição humana serão sempre um lugar seguro a que gostas de regressar?
P.R. — Não sei se é um lugar seguro, mas é o único que me interessa verdadeiramente. As pessoas são imprevisíveis, contraditórias, muitas vezes incoerentes, e é isso que as torna um objeto de estudo inesgotável. Gosto de observar como se constroem, como falham, como tentam reparar o que partiu, mesmo quando não sabem bem como. Não escrevo para explicar a condição humana, escrevo para a interrogar. E isso implica aceitar zonas de sombra, ambiguidades morais e emoções que nem sempre são bonitas ou confortáveis.
Entre muitos aspetos, este livro também nos faz pensar na fé. Partiste para a escrita com vontade desse debate ou surgiu durante o processo?
P.R. — A fé é uma questão permanente na minha vida, mesmo quando não acredito. É um debate íntimo, insistente, e por isso acaba inevitavelmente na escrita. A frase de Saramago, de que quem vive sem Deus é mais sozinho, persegue-me porque a solidão é um dos meus maiores medos. A personagem do padre nasce desse desconforto: um homem no fim da vida, confrontado com a doença, com a morte iminente e com a possibilidade de o silêncio de Deus ser definitivo. A dúvida não surge apenas quando a fé falha, surge quando a resposta nunca chega. Esse conflito interessa-me porque não tem resolução fácil, nem teológica, nem literária.
"A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele"
Os teus livros têm sempre uma componente de pesquisa por trás. Para este, que caminhos trilhaste?
P.R. — A pesquisa é uma forma de respeito pelo leitor e pelas personagens. Não consigo escrever sobre territórios que desconheço sem os estudar. Neste romance, li bastante sobre psiquiatria e psicanálise, mais do que aquilo que acaba por entrar no livro. Voltei à Bíblia, não como gesto de fé, mas como texto fundador. Falei com mulheres que tentaram engravidar sozinhas, ouvi experiências que me obrigaram a rever ideias feitas. A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele, e essa escuta prévia é essencial para que a ficção não seja apenas um exercício de imaginação irresponsável.
Como te sentes neste regresso ao romance, depois do estrondoso sucesso d’A Desobediente?
P.R. — Sinto-me frágil, e não digo isso como estratégia de humildade. A biografia da Maria Teresa Horta exigiu um rigor, uma responsabilidade e uma contenção muito grandes, e a receção calorosa do livro foi algo que não antecipei. Voltar ao romance é voltar a um lugar mais solitário, onde não há rede nem validação externa imediata. Mas aprendi, ao escrever este livro, que abandonar a ficção não é uma hipótese. Preciso dela para pensar, para ensaiar perguntas, para construir cenários que me ajudem a compreender o mundo. Escrever ficção é também um gesto político: convida o leitor a pensar comigo, a habitar dúvidas, e esse diálogo é talvez o que mais me interessa hoje.

A que personalidade cheia de certezas darias este teu novo livro a ler?
P.R. — Não creio que alguém cheio de certezas tenha paciência para este livro, provavelmente abandoná-lo-ia cedo. Este romance pede disponibilidade para a dúvida, para a ambiguidade, para o desconforto. Ainda assim, se tivesse de o oferecer a alguém fora do circuito habitual, dá-lo-ia à realizadora Sofia Coppola. Não porque ache que ela seja uma mulher de certezas, mas porque trabalha muito bem o vazio, o silêncio e a solidão contemporânea. Isto sou eu, claro, a fingir que sei exactamente o que estou a fazer! (Risos)

#Protagonistas
Seis perguntas a Patrícia Reis
Acaba de lançar um novo livro, O Lugar da Incerteza, o primeiro na Companhia das Letras, e o sucessor de A Desobediente, a biografia de Maria Teresa Horta, já na oitava edição. Com mais de 30 anos de uma carreira dividida entre o jornalismo, a escrita e projetos editoriais e criativos, a também cronista do MOTIVO respondeu a seis questões sobre o trabalho que chegou esta semana às bancas.
Num mundo com tantas certezas, a incerteza foi um bom terreno de escrita?
PATRÍCIA REIS — A incerteza não foi apenas um terreno, foi o método. Nunca começo um livro a saber exatamente para onde vou, escrevo para descobrir. Se tivesse a história toda resolvida na cabeça, a escrita perderia sentido. Vivemos num tempo que finge certezas: opiniões rápidas, identidades rígidas, trincheiras morais. Mas, por baixo disso, há medo, confusão, fragilidade, e isso raramente é assumido. Interessa-me escrever a partir desse lugar desconfortável, dos abismos que criamos quando deixamos de escutar o outro e quando nos refugiamos em explicações demasiado simples. Esses abismos não são abstratos: atravessam relações, escolhas, afetos e condicionam, de forma muito concreta, a possibilidade de sermos felizes.

N’O Lugar da Incerteza, acompanhamos diferentes vidas, guiados pelos seus medos, arrependimentos, traumas, sonhos e esperanças. As emoções e a condição humana serão sempre um lugar seguro a que gostas de regressar?
P.R. — Não sei se é um lugar seguro, mas é o único que me interessa verdadeiramente. As pessoas são imprevisíveis, contraditórias, muitas vezes incoerentes, e é isso que as torna um objeto de estudo inesgotável. Gosto de observar como se constroem, como falham, como tentam reparar o que partiu, mesmo quando não sabem bem como. Não escrevo para explicar a condição humana, escrevo para a interrogar. E isso implica aceitar zonas de sombra, ambiguidades morais e emoções que nem sempre são bonitas ou confortáveis.
Entre muitos aspetos, este livro também nos faz pensar na fé. Partiste para a escrita com vontade desse debate ou surgiu durante o processo?
P.R. — A fé é uma questão permanente na minha vida, mesmo quando não acredito. É um debate íntimo, insistente, e por isso acaba inevitavelmente na escrita. A frase de Saramago, de que quem vive sem Deus é mais sozinho, persegue-me porque a solidão é um dos meus maiores medos. A personagem do padre nasce desse desconforto: um homem no fim da vida, confrontado com a doença, com a morte iminente e com a possibilidade de o silêncio de Deus ser definitivo. A dúvida não surge apenas quando a fé falha, surge quando a resposta nunca chega. Esse conflito interessa-me porque não tem resolução fácil, nem teológica, nem literária.
"A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele"
Os teus livros têm sempre uma componente de pesquisa por trás. Para este, que caminhos trilhaste?
P.R. — A pesquisa é uma forma de respeito pelo leitor e pelas personagens. Não consigo escrever sobre territórios que desconheço sem os estudar. Neste romance, li bastante sobre psiquiatria e psicanálise, mais do que aquilo que acaba por entrar no livro. Voltei à Bíblia, não como gesto de fé, mas como texto fundador. Falei com mulheres que tentaram engravidar sozinhas, ouvi experiências que me obrigaram a rever ideias feitas. A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele, e essa escuta prévia é essencial para que a ficção não seja apenas um exercício de imaginação irresponsável.
Como te sentes neste regresso ao romance, depois do estrondoso sucesso d’A Desobediente?
P.R. — Sinto-me frágil, e não digo isso como estratégia de humildade. A biografia da Maria Teresa Horta exigiu um rigor, uma responsabilidade e uma contenção muito grandes, e a receção calorosa do livro foi algo que não antecipei. Voltar ao romance é voltar a um lugar mais solitário, onde não há rede nem validação externa imediata. Mas aprendi, ao escrever este livro, que abandonar a ficção não é uma hipótese. Preciso dela para pensar, para ensaiar perguntas, para construir cenários que me ajudem a compreender o mundo. Escrever ficção é também um gesto político: convida o leitor a pensar comigo, a habitar dúvidas, e esse diálogo é talvez o que mais me interessa hoje.

A que personalidade cheia de certezas darias este teu novo livro a ler?
P.R. — Não creio que alguém cheio de certezas tenha paciência para este livro, provavelmente abandoná-lo-ia cedo. Este romance pede disponibilidade para a dúvida, para a ambiguidade, para o desconforto. Ainda assim, se tivesse de o oferecer a alguém fora do circuito habitual, dá-lo-ia à realizadora Sofia Coppola. Não porque ache que ela seja uma mulher de certezas, mas porque trabalha muito bem o vazio, o silêncio e a solidão contemporânea. Isto sou eu, claro, a fingir que sei exactamente o que estou a fazer! (Risos)

#Protagonistas
Seis perguntas a Patrícia Reis
Acaba de lançar um novo livro, O Lugar da Incerteza, o primeiro na Companhia das Letras, e o sucessor de A Desobediente, a biografia de Maria Teresa Horta, já na oitava edição. Com mais de 30 anos de uma carreira dividida entre o jornalismo, a escrita e projetos editoriais e criativos, a também cronista do MOTIVO respondeu a seis questões sobre o trabalho que chegou esta semana às bancas.
Num mundo com tantas certezas, a incerteza foi um bom terreno de escrita?
PATRÍCIA REIS — A incerteza não foi apenas um terreno, foi o método. Nunca começo um livro a saber exatamente para onde vou, escrevo para descobrir. Se tivesse a história toda resolvida na cabeça, a escrita perderia sentido. Vivemos num tempo que finge certezas: opiniões rápidas, identidades rígidas, trincheiras morais. Mas, por baixo disso, há medo, confusão, fragilidade, e isso raramente é assumido. Interessa-me escrever a partir desse lugar desconfortável, dos abismos que criamos quando deixamos de escutar o outro e quando nos refugiamos em explicações demasiado simples. Esses abismos não são abstratos: atravessam relações, escolhas, afetos e condicionam, de forma muito concreta, a possibilidade de sermos felizes.

N’O Lugar da Incerteza, acompanhamos diferentes vidas, guiados pelos seus medos, arrependimentos, traumas, sonhos e esperanças. As emoções e a condição humana serão sempre um lugar seguro a que gostas de regressar?
P.R. — Não sei se é um lugar seguro, mas é o único que me interessa verdadeiramente. As pessoas são imprevisíveis, contraditórias, muitas vezes incoerentes, e é isso que as torna um objeto de estudo inesgotável. Gosto de observar como se constroem, como falham, como tentam reparar o que partiu, mesmo quando não sabem bem como. Não escrevo para explicar a condição humana, escrevo para a interrogar. E isso implica aceitar zonas de sombra, ambiguidades morais e emoções que nem sempre são bonitas ou confortáveis.
Entre muitos aspetos, este livro também nos faz pensar na fé. Partiste para a escrita com vontade desse debate ou surgiu durante o processo?
P.R. — A fé é uma questão permanente na minha vida, mesmo quando não acredito. É um debate íntimo, insistente, e por isso acaba inevitavelmente na escrita. A frase de Saramago, de que quem vive sem Deus é mais sozinho, persegue-me porque a solidão é um dos meus maiores medos. A personagem do padre nasce desse desconforto: um homem no fim da vida, confrontado com a doença, com a morte iminente e com a possibilidade de o silêncio de Deus ser definitivo. A dúvida não surge apenas quando a fé falha, surge quando a resposta nunca chega. Esse conflito interessa-me porque não tem resolução fácil, nem teológica, nem literária.
"A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele"
Os teus livros têm sempre uma componente de pesquisa por trás. Para este, que caminhos trilhaste?
P.R. — A pesquisa é uma forma de respeito pelo leitor e pelas personagens. Não consigo escrever sobre territórios que desconheço sem os estudar. Neste romance, li bastante sobre psiquiatria e psicanálise, mais do que aquilo que acaba por entrar no livro. Voltei à Bíblia, não como gesto de fé, mas como texto fundador. Falei com mulheres que tentaram engravidar sozinhas, ouvi experiências que me obrigaram a rever ideias feitas. A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele, e essa escuta prévia é essencial para que a ficção não seja apenas um exercício de imaginação irresponsável.
Como te sentes neste regresso ao romance, depois do estrondoso sucesso d’A Desobediente?
P.R. — Sinto-me frágil, e não digo isso como estratégia de humildade. A biografia da Maria Teresa Horta exigiu um rigor, uma responsabilidade e uma contenção muito grandes, e a receção calorosa do livro foi algo que não antecipei. Voltar ao romance é voltar a um lugar mais solitário, onde não há rede nem validação externa imediata. Mas aprendi, ao escrever este livro, que abandonar a ficção não é uma hipótese. Preciso dela para pensar, para ensaiar perguntas, para construir cenários que me ajudem a compreender o mundo. Escrever ficção é também um gesto político: convida o leitor a pensar comigo, a habitar dúvidas, e esse diálogo é talvez o que mais me interessa hoje.

A que personalidade cheia de certezas darias este teu novo livro a ler?
P.R. — Não creio que alguém cheio de certezas tenha paciência para este livro, provavelmente abandoná-lo-ia cedo. Este romance pede disponibilidade para a dúvida, para a ambiguidade, para o desconforto. Ainda assim, se tivesse de o oferecer a alguém fora do circuito habitual, dá-lo-ia à realizadora Sofia Coppola. Não porque ache que ela seja uma mulher de certezas, mas porque trabalha muito bem o vazio, o silêncio e a solidão contemporânea. Isto sou eu, claro, a fingir que sei exactamente o que estou a fazer! (Risos)

#Protagonistas
Seis perguntas a Patrícia Reis
Acaba de lançar um novo livro, O Lugar da Incerteza, o primeiro na Companhia das Letras, e o sucessor de A Desobediente, a biografia de Maria Teresa Horta, já na oitava edição. Com mais de 30 anos de uma carreira dividida entre o jornalismo, a escrita e projetos editoriais e criativos, a também cronista do MOTIVO respondeu a seis questões sobre o trabalho que chegou esta semana às bancas.
Num mundo com tantas certezas, a incerteza foi um bom terreno de escrita?
PATRÍCIA REIS — A incerteza não foi apenas um terreno, foi o método. Nunca começo um livro a saber exatamente para onde vou, escrevo para descobrir. Se tivesse a história toda resolvida na cabeça, a escrita perderia sentido. Vivemos num tempo que finge certezas: opiniões rápidas, identidades rígidas, trincheiras morais. Mas, por baixo disso, há medo, confusão, fragilidade, e isso raramente é assumido. Interessa-me escrever a partir desse lugar desconfortável, dos abismos que criamos quando deixamos de escutar o outro e quando nos refugiamos em explicações demasiado simples. Esses abismos não são abstratos: atravessam relações, escolhas, afetos e condicionam, de forma muito concreta, a possibilidade de sermos felizes.

N’O Lugar da Incerteza, acompanhamos diferentes vidas, guiados pelos seus medos, arrependimentos, traumas, sonhos e esperanças. As emoções e a condição humana serão sempre um lugar seguro a que gostas de regressar?
P.R. — Não sei se é um lugar seguro, mas é o único que me interessa verdadeiramente. As pessoas são imprevisíveis, contraditórias, muitas vezes incoerentes, e é isso que as torna um objeto de estudo inesgotável. Gosto de observar como se constroem, como falham, como tentam reparar o que partiu, mesmo quando não sabem bem como. Não escrevo para explicar a condição humana, escrevo para a interrogar. E isso implica aceitar zonas de sombra, ambiguidades morais e emoções que nem sempre são bonitas ou confortáveis.
Entre muitos aspetos, este livro também nos faz pensar na fé. Partiste para a escrita com vontade desse debate ou surgiu durante o processo?
P.R. — A fé é uma questão permanente na minha vida, mesmo quando não acredito. É um debate íntimo, insistente, e por isso acaba inevitavelmente na escrita. A frase de Saramago, de que quem vive sem Deus é mais sozinho, persegue-me porque a solidão é um dos meus maiores medos. A personagem do padre nasce desse desconforto: um homem no fim da vida, confrontado com a doença, com a morte iminente e com a possibilidade de o silêncio de Deus ser definitivo. A dúvida não surge apenas quando a fé falha, surge quando a resposta nunca chega. Esse conflito interessa-me porque não tem resolução fácil, nem teológica, nem literária.
"A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele"
Os teus livros têm sempre uma componente de pesquisa por trás. Para este, que caminhos trilhaste?
P.R. — A pesquisa é uma forma de respeito pelo leitor e pelas personagens. Não consigo escrever sobre territórios que desconheço sem os estudar. Neste romance, li bastante sobre psiquiatria e psicanálise, mais do que aquilo que acaba por entrar no livro. Voltei à Bíblia, não como gesto de fé, mas como texto fundador. Falei com mulheres que tentaram engravidar sozinhas, ouvi experiências que me obrigaram a rever ideias feitas. A escrita não substitui o conhecimento, dialoga com ele, e essa escuta prévia é essencial para que a ficção não seja apenas um exercício de imaginação irresponsável.
Como te sentes neste regresso ao romance, depois do estrondoso sucesso d’A Desobediente?
P.R. — Sinto-me frágil, e não digo isso como estratégia de humildade. A biografia da Maria Teresa Horta exigiu um rigor, uma responsabilidade e uma contenção muito grandes, e a receção calorosa do livro foi algo que não antecipei. Voltar ao romance é voltar a um lugar mais solitário, onde não há rede nem validação externa imediata. Mas aprendi, ao escrever este livro, que abandonar a ficção não é uma hipótese. Preciso dela para pensar, para ensaiar perguntas, para construir cenários que me ajudem a compreender o mundo. Escrever ficção é também um gesto político: convida o leitor a pensar comigo, a habitar dúvidas, e esse diálogo é talvez o que mais me interessa hoje.

A que personalidade cheia de certezas darias este teu novo livro a ler?
P.R. — Não creio que alguém cheio de certezas tenha paciência para este livro, provavelmente abandoná-lo-ia cedo. Este romance pede disponibilidade para a dúvida, para a ambiguidade, para o desconforto. Ainda assim, se tivesse de o oferecer a alguém fora do circuito habitual, dá-lo-ia à realizadora Sofia Coppola. Não porque ache que ela seja uma mulher de certezas, mas porque trabalha muito bem o vazio, o silêncio e a solidão contemporânea. Isto sou eu, claro, a fingir que sei exactamente o que estou a fazer! (Risos)





