#Conhecimento

Onde a Inteligência Artificial se torna desconfortável

Em Madrid, duas amigas estão a organizar encontros para discutir IA do ponto de vista filosófico. Parece confuso? Nós explicamos tudo.

|

25 de fev. de 2026, 12:22

A primeira vez que alguém nos disse, de forma genuína, que tinha começado a dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’ ao ChatGPT, pensámos: 'Ok, está a acontecer algo interessante aqui, e ninguém está a falar disso de forma adequada'”. É deste momento quase banal, alguém a agradecer a um chatbot, que nasce a Sobremesa(tech), fundada pela dupla de amigas Giulia Camargo e Eleanor Manley, em Madrid. Depois dessa constatação, dizem que tudo partiu de uma pergunta simples: “Espera lá, o que é que a IA está a fazer connosco? Como está a mudar a forma de trabalharmos, nos relacionarmos, tomarmos decisões ou cuidarmos uns dos outros?".

A tagline do projeto é: “Where AI gets uncomfortable, in a good way” que, em tradução livre, será: "Onde a IA se torna desconfortável, no bom sentido". Eleanor explica: “O desconforto de que falamos na Sobremesa(tech) não é indignação. É aquele momento silencioso em que algo muda e já não tens a certeza do que pensas”. No fundo, trata-se de abrir espaço. “Não queremos que a discussão termine. Se possível, esperamos que as pessoas saiam a pensar no assunto durante mais tempo".


Giulia Camargo e Eleanor Manley são a dupla por detrás da Sobremesa(tech)


Entre o entusiasmo e o pânico

A Sobremesa(tech) nasce porque faltava um lugar de meio-termo. “A maioria das conversas sobre IA oscila entre o entusiasmo exagerado e o pânico. Nós queríamos o meio confuso”, onde a posição individual deixa de ser evidente.

Se há quem separe técnica de filosofia, o projeto recusa a divisão. “Tentamos não tratar essas dimensões como coisas separadas”. Nas conversas, sentam-se responsáveis de plataformas tecnológicas, investigadores, médicos, psicólogos, artistas e fundadores de diferentes projetos. O que importa não é o cargo, mas “a perspetiva e a relação com a tecnologia”.

Há uma dimensão claramente ética nesta abordagem, e recupera-se uma ideia antiga: participar. “A maioria dos nossos membros está diretamente envolvida na construção, financiamento ou regulação de sistemas de IA. Não estão a comentar à distância nem a tratar o tema como teoria abstrata. Estão dentro dele, o que torna a conversa menos uma questão de opinião e mais uma questão de responsabilidade”. Com isso, dizem, deixa de ser uma conversa especulativa e torna-se comprometida.


O projeto começou em abril de 2025


Pensar juntos, sem palco

O formato da Sobremesa(tech) é parte essencial da proposta. Inspirado, ainda que de forma solta, no método socrático, rejeita o modelo tradicional de conferência. “Ninguém dá uma palestra”. Não há monólogos de 40 minutos. Há perguntas. Há tempo. “A sala pensa em conjunto, em vez de ouvir passivamente. É mais lento, por vezes confuso, mas normalmente, mais honesto”.

A opção por grupos pequenos não é acidental. “Em parte porque estávamos um pouco cansadas dos eventos tradicionais de tecnologia”. Eventos que, segundo admitem, se tornaram performativos. “Toda a gente está subtilmente a posicionar-se, para clientes, para estatuto, para visibilidade”. Nas sessões que Giulia e Eleanor organizam procura-se outra coisa: “Queríamos um espaço onde se possa dizer ‘não tenho a certeza’ sem que isso soe a fraqueza”. O que isso produz é diferente.

"Já tivemos momentos em que alguém entrou com uma posição muito firme […] e saiu genuinamente com dúvidas”. Não porque tenha sido convencido num debate público, mas porque ouviu uma perspetiva que nunca tinha escutado de perto. “Esse tipo de mudança não acontece num painel. Acontece à mesa, ao jantar".


Além do Sobremesa(tech), a dupla de amigas quer desenvolver outros "capítulos" como Sobremesa(talent) ou Sobremesa(heath)


As perguntas que não nos largam

Os temas levados para os debates seguem inquietações reais. “Normalmente, começa com algo que genuinamente não compreendemos”. A título de exemplo, já existiu uma sessão que foi sobre relações parasociais, inspirada por histórias que pareciam saídas do filme Her: pessoas a criar vínculos emocionais com sistemas de IA. “Não tínhamos uma posição clara. Foi exatamente por isso que organizámos a conversa”.

Se algo parece urgente, é trazido à mesa. Às vezes, nasce de um lançamento tecnológico. Outras vezes, de uma inquietação pessoal. A lógica é simples: conversar antes de cristalizar posições.


Para março, está agendada uma Sobremesa(ibiza). Os eventos podem ser consultados aqui


Não é networking

A comunidade constrói-se também pelo que não é. “Não é um evento de networking. Não é um funil. Não é um negócio”. É, nas palavras das fundadoras, “um hobby entre duas amigas que gostam de juntar pessoas para conversar”.

Num mundo onde tudo é polido, produzido e otimizado, essa informalidade cria outra energia. “Não o tornamos excessivamente polido. Não o sobreproduzimos”. O foco está nas pessoas presentes na sala e na qualidade do pensamento partilhado. “Preocupamo-nos muito em manter um tom generoso, mas rigoroso”.

Madrid já acolhe estas conversas. E Lisboa? “Adoraríamos”. A expansão, quando acontecer, querem que seja orgânica. “Se alguém em Lisboa quiser genuinamente construir uma sala de reflexão, e não apenas um evento, estamos muito disponíveis para isso”.

Num tempo em que a Inteligência Artificial parece oferecer respostas imediatas para quase tudo, a Sobremesa(tech) propõe algo mais demorado. A possibilidade de não saber, de não concluir, de permanecer no desconforto produtivo. E talvez, por momentos, resistir à tentação de perguntar ao chatbot o que devemos pensar.


(C) Foto de Antenna na Unsplash & D.R.

#Conhecimento

Onde a Inteligência Artificial se torna desconfortável

Em Madrid, duas amigas estão a organizar encontros para discutir IA do ponto de vista filosófico. Parece confuso? Nós explicamos tudo.

|

25 de fev. de 2026, 12:22

A primeira vez que alguém nos disse, de forma genuína, que tinha começado a dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’ ao ChatGPT, pensámos: 'Ok, está a acontecer algo interessante aqui, e ninguém está a falar disso de forma adequada'”. É deste momento quase banal, alguém a agradecer a um chatbot, que nasce a Sobremesa(tech), fundada pela dupla de amigas Giulia Camargo e Eleanor Manley, em Madrid. Depois dessa constatação, dizem que tudo partiu de uma pergunta simples: “Espera lá, o que é que a IA está a fazer connosco? Como está a mudar a forma de trabalharmos, nos relacionarmos, tomarmos decisões ou cuidarmos uns dos outros?".

A tagline do projeto é: “Where AI gets uncomfortable, in a good way” que, em tradução livre, será: "Onde a IA se torna desconfortável, no bom sentido". Eleanor explica: “O desconforto de que falamos na Sobremesa(tech) não é indignação. É aquele momento silencioso em que algo muda e já não tens a certeza do que pensas”. No fundo, trata-se de abrir espaço. “Não queremos que a discussão termine. Se possível, esperamos que as pessoas saiam a pensar no assunto durante mais tempo".


Giulia Camargo e Eleanor Manley são a dupla por detrás da Sobremesa(tech)


Entre o entusiasmo e o pânico

A Sobremesa(tech) nasce porque faltava um lugar de meio-termo. “A maioria das conversas sobre IA oscila entre o entusiasmo exagerado e o pânico. Nós queríamos o meio confuso”, onde a posição individual deixa de ser evidente.

Se há quem separe técnica de filosofia, o projeto recusa a divisão. “Tentamos não tratar essas dimensões como coisas separadas”. Nas conversas, sentam-se responsáveis de plataformas tecnológicas, investigadores, médicos, psicólogos, artistas e fundadores de diferentes projetos. O que importa não é o cargo, mas “a perspetiva e a relação com a tecnologia”.

Há uma dimensão claramente ética nesta abordagem, e recupera-se uma ideia antiga: participar. “A maioria dos nossos membros está diretamente envolvida na construção, financiamento ou regulação de sistemas de IA. Não estão a comentar à distância nem a tratar o tema como teoria abstrata. Estão dentro dele, o que torna a conversa menos uma questão de opinião e mais uma questão de responsabilidade”. Com isso, dizem, deixa de ser uma conversa especulativa e torna-se comprometida.


O projeto começou em abril de 2025


Pensar juntos, sem palco

O formato da Sobremesa(tech) é parte essencial da proposta. Inspirado, ainda que de forma solta, no método socrático, rejeita o modelo tradicional de conferência. “Ninguém dá uma palestra”. Não há monólogos de 40 minutos. Há perguntas. Há tempo. “A sala pensa em conjunto, em vez de ouvir passivamente. É mais lento, por vezes confuso, mas normalmente, mais honesto”.

A opção por grupos pequenos não é acidental. “Em parte porque estávamos um pouco cansadas dos eventos tradicionais de tecnologia”. Eventos que, segundo admitem, se tornaram performativos. “Toda a gente está subtilmente a posicionar-se, para clientes, para estatuto, para visibilidade”. Nas sessões que Giulia e Eleanor organizam procura-se outra coisa: “Queríamos um espaço onde se possa dizer ‘não tenho a certeza’ sem que isso soe a fraqueza”. O que isso produz é diferente.

"Já tivemos momentos em que alguém entrou com uma posição muito firme […] e saiu genuinamente com dúvidas”. Não porque tenha sido convencido num debate público, mas porque ouviu uma perspetiva que nunca tinha escutado de perto. “Esse tipo de mudança não acontece num painel. Acontece à mesa, ao jantar".


Além do Sobremesa(tech), a dupla de amigas quer desenvolver outros "capítulos" como Sobremesa(talent) ou Sobremesa(heath)


As perguntas que não nos largam

Os temas levados para os debates seguem inquietações reais. “Normalmente, começa com algo que genuinamente não compreendemos”. A título de exemplo, já existiu uma sessão que foi sobre relações parasociais, inspirada por histórias que pareciam saídas do filme Her: pessoas a criar vínculos emocionais com sistemas de IA. “Não tínhamos uma posição clara. Foi exatamente por isso que organizámos a conversa”.

Se algo parece urgente, é trazido à mesa. Às vezes, nasce de um lançamento tecnológico. Outras vezes, de uma inquietação pessoal. A lógica é simples: conversar antes de cristalizar posições.


Para março, está agendada uma Sobremesa(ibiza). Os eventos podem ser consultados aqui


Não é networking

A comunidade constrói-se também pelo que não é. “Não é um evento de networking. Não é um funil. Não é um negócio”. É, nas palavras das fundadoras, “um hobby entre duas amigas que gostam de juntar pessoas para conversar”.

Num mundo onde tudo é polido, produzido e otimizado, essa informalidade cria outra energia. “Não o tornamos excessivamente polido. Não o sobreproduzimos”. O foco está nas pessoas presentes na sala e na qualidade do pensamento partilhado. “Preocupamo-nos muito em manter um tom generoso, mas rigoroso”.

Madrid já acolhe estas conversas. E Lisboa? “Adoraríamos”. A expansão, quando acontecer, querem que seja orgânica. “Se alguém em Lisboa quiser genuinamente construir uma sala de reflexão, e não apenas um evento, estamos muito disponíveis para isso”.

Num tempo em que a Inteligência Artificial parece oferecer respostas imediatas para quase tudo, a Sobremesa(tech) propõe algo mais demorado. A possibilidade de não saber, de não concluir, de permanecer no desconforto produtivo. E talvez, por momentos, resistir à tentação de perguntar ao chatbot o que devemos pensar.


(C) Foto de Antenna na Unsplash & D.R.

#Conhecimento

Onde a Inteligência Artificial se torna desconfortável

Em Madrid, duas amigas estão a organizar encontros para discutir IA do ponto de vista filosófico. Parece confuso? Nós explicamos tudo.

|

25 de fev. de 2026, 12:22

A primeira vez que alguém nos disse, de forma genuína, que tinha começado a dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’ ao ChatGPT, pensámos: 'Ok, está a acontecer algo interessante aqui, e ninguém está a falar disso de forma adequada'”. É deste momento quase banal, alguém a agradecer a um chatbot, que nasce a Sobremesa(tech), fundada pela dupla de amigas Giulia Camargo e Eleanor Manley, em Madrid. Depois dessa constatação, dizem que tudo partiu de uma pergunta simples: “Espera lá, o que é que a IA está a fazer connosco? Como está a mudar a forma de trabalharmos, nos relacionarmos, tomarmos decisões ou cuidarmos uns dos outros?".

A tagline do projeto é: “Where AI gets uncomfortable, in a good way” que, em tradução livre, será: "Onde a IA se torna desconfortável, no bom sentido". Eleanor explica: “O desconforto de que falamos na Sobremesa(tech) não é indignação. É aquele momento silencioso em que algo muda e já não tens a certeza do que pensas”. No fundo, trata-se de abrir espaço. “Não queremos que a discussão termine. Se possível, esperamos que as pessoas saiam a pensar no assunto durante mais tempo".


Giulia Camargo e Eleanor Manley são a dupla por detrás da Sobremesa(tech)


Entre o entusiasmo e o pânico

A Sobremesa(tech) nasce porque faltava um lugar de meio-termo. “A maioria das conversas sobre IA oscila entre o entusiasmo exagerado e o pânico. Nós queríamos o meio confuso”, onde a posição individual deixa de ser evidente.

Se há quem separe técnica de filosofia, o projeto recusa a divisão. “Tentamos não tratar essas dimensões como coisas separadas”. Nas conversas, sentam-se responsáveis de plataformas tecnológicas, investigadores, médicos, psicólogos, artistas e fundadores de diferentes projetos. O que importa não é o cargo, mas “a perspetiva e a relação com a tecnologia”.

Há uma dimensão claramente ética nesta abordagem, e recupera-se uma ideia antiga: participar. “A maioria dos nossos membros está diretamente envolvida na construção, financiamento ou regulação de sistemas de IA. Não estão a comentar à distância nem a tratar o tema como teoria abstrata. Estão dentro dele, o que torna a conversa menos uma questão de opinião e mais uma questão de responsabilidade”. Com isso, dizem, deixa de ser uma conversa especulativa e torna-se comprometida.


O projeto começou em abril de 2025


Pensar juntos, sem palco

O formato da Sobremesa(tech) é parte essencial da proposta. Inspirado, ainda que de forma solta, no método socrático, rejeita o modelo tradicional de conferência. “Ninguém dá uma palestra”. Não há monólogos de 40 minutos. Há perguntas. Há tempo. “A sala pensa em conjunto, em vez de ouvir passivamente. É mais lento, por vezes confuso, mas normalmente, mais honesto”.

A opção por grupos pequenos não é acidental. “Em parte porque estávamos um pouco cansadas dos eventos tradicionais de tecnologia”. Eventos que, segundo admitem, se tornaram performativos. “Toda a gente está subtilmente a posicionar-se, para clientes, para estatuto, para visibilidade”. Nas sessões que Giulia e Eleanor organizam procura-se outra coisa: “Queríamos um espaço onde se possa dizer ‘não tenho a certeza’ sem que isso soe a fraqueza”. O que isso produz é diferente.

"Já tivemos momentos em que alguém entrou com uma posição muito firme […] e saiu genuinamente com dúvidas”. Não porque tenha sido convencido num debate público, mas porque ouviu uma perspetiva que nunca tinha escutado de perto. “Esse tipo de mudança não acontece num painel. Acontece à mesa, ao jantar".


Além do Sobremesa(tech), a dupla de amigas quer desenvolver outros "capítulos" como Sobremesa(talent) ou Sobremesa(heath)


As perguntas que não nos largam

Os temas levados para os debates seguem inquietações reais. “Normalmente, começa com algo que genuinamente não compreendemos”. A título de exemplo, já existiu uma sessão que foi sobre relações parasociais, inspirada por histórias que pareciam saídas do filme Her: pessoas a criar vínculos emocionais com sistemas de IA. “Não tínhamos uma posição clara. Foi exatamente por isso que organizámos a conversa”.

Se algo parece urgente, é trazido à mesa. Às vezes, nasce de um lançamento tecnológico. Outras vezes, de uma inquietação pessoal. A lógica é simples: conversar antes de cristalizar posições.


Para março, está agendada uma Sobremesa(ibiza). Os eventos podem ser consultados aqui


Não é networking

A comunidade constrói-se também pelo que não é. “Não é um evento de networking. Não é um funil. Não é um negócio”. É, nas palavras das fundadoras, “um hobby entre duas amigas que gostam de juntar pessoas para conversar”.

Num mundo onde tudo é polido, produzido e otimizado, essa informalidade cria outra energia. “Não o tornamos excessivamente polido. Não o sobreproduzimos”. O foco está nas pessoas presentes na sala e na qualidade do pensamento partilhado. “Preocupamo-nos muito em manter um tom generoso, mas rigoroso”.

Madrid já acolhe estas conversas. E Lisboa? “Adoraríamos”. A expansão, quando acontecer, querem que seja orgânica. “Se alguém em Lisboa quiser genuinamente construir uma sala de reflexão, e não apenas um evento, estamos muito disponíveis para isso”.

Num tempo em que a Inteligência Artificial parece oferecer respostas imediatas para quase tudo, a Sobremesa(tech) propõe algo mais demorado. A possibilidade de não saber, de não concluir, de permanecer no desconforto produtivo. E talvez, por momentos, resistir à tentação de perguntar ao chatbot o que devemos pensar.


(C) Foto de Antenna na Unsplash & D.R.

#Conhecimento

Onde a Inteligência Artificial se torna desconfortável

Em Madrid, duas amigas estão a organizar encontros para discutir IA do ponto de vista filosófico. Parece confuso? Nós explicamos tudo.

|

25 de fev. de 2026, 12:22

A primeira vez que alguém nos disse, de forma genuína, que tinha começado a dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’ ao ChatGPT, pensámos: 'Ok, está a acontecer algo interessante aqui, e ninguém está a falar disso de forma adequada'”. É deste momento quase banal, alguém a agradecer a um chatbot, que nasce a Sobremesa(tech), fundada pela dupla de amigas Giulia Camargo e Eleanor Manley, em Madrid. Depois dessa constatação, dizem que tudo partiu de uma pergunta simples: “Espera lá, o que é que a IA está a fazer connosco? Como está a mudar a forma de trabalharmos, nos relacionarmos, tomarmos decisões ou cuidarmos uns dos outros?".

A tagline do projeto é: “Where AI gets uncomfortable, in a good way” que, em tradução livre, será: "Onde a IA se torna desconfortável, no bom sentido". Eleanor explica: “O desconforto de que falamos na Sobremesa(tech) não é indignação. É aquele momento silencioso em que algo muda e já não tens a certeza do que pensas”. No fundo, trata-se de abrir espaço. “Não queremos que a discussão termine. Se possível, esperamos que as pessoas saiam a pensar no assunto durante mais tempo".


Giulia Camargo e Eleanor Manley são a dupla por detrás da Sobremesa(tech)


Entre o entusiasmo e o pânico

A Sobremesa(tech) nasce porque faltava um lugar de meio-termo. “A maioria das conversas sobre IA oscila entre o entusiasmo exagerado e o pânico. Nós queríamos o meio confuso”, onde a posição individual deixa de ser evidente.

Se há quem separe técnica de filosofia, o projeto recusa a divisão. “Tentamos não tratar essas dimensões como coisas separadas”. Nas conversas, sentam-se responsáveis de plataformas tecnológicas, investigadores, médicos, psicólogos, artistas e fundadores de diferentes projetos. O que importa não é o cargo, mas “a perspetiva e a relação com a tecnologia”.

Há uma dimensão claramente ética nesta abordagem, e recupera-se uma ideia antiga: participar. “A maioria dos nossos membros está diretamente envolvida na construção, financiamento ou regulação de sistemas de IA. Não estão a comentar à distância nem a tratar o tema como teoria abstrata. Estão dentro dele, o que torna a conversa menos uma questão de opinião e mais uma questão de responsabilidade”. Com isso, dizem, deixa de ser uma conversa especulativa e torna-se comprometida.


O projeto começou em abril de 2025


Pensar juntos, sem palco

O formato da Sobremesa(tech) é parte essencial da proposta. Inspirado, ainda que de forma solta, no método socrático, rejeita o modelo tradicional de conferência. “Ninguém dá uma palestra”. Não há monólogos de 40 minutos. Há perguntas. Há tempo. “A sala pensa em conjunto, em vez de ouvir passivamente. É mais lento, por vezes confuso, mas normalmente, mais honesto”.

A opção por grupos pequenos não é acidental. “Em parte porque estávamos um pouco cansadas dos eventos tradicionais de tecnologia”. Eventos que, segundo admitem, se tornaram performativos. “Toda a gente está subtilmente a posicionar-se, para clientes, para estatuto, para visibilidade”. Nas sessões que Giulia e Eleanor organizam procura-se outra coisa: “Queríamos um espaço onde se possa dizer ‘não tenho a certeza’ sem que isso soe a fraqueza”. O que isso produz é diferente.

"Já tivemos momentos em que alguém entrou com uma posição muito firme […] e saiu genuinamente com dúvidas”. Não porque tenha sido convencido num debate público, mas porque ouviu uma perspetiva que nunca tinha escutado de perto. “Esse tipo de mudança não acontece num painel. Acontece à mesa, ao jantar".


Além do Sobremesa(tech), a dupla de amigas quer desenvolver outros "capítulos" como Sobremesa(talent) ou Sobremesa(heath)


As perguntas que não nos largam

Os temas levados para os debates seguem inquietações reais. “Normalmente, começa com algo que genuinamente não compreendemos”. A título de exemplo, já existiu uma sessão que foi sobre relações parasociais, inspirada por histórias que pareciam saídas do filme Her: pessoas a criar vínculos emocionais com sistemas de IA. “Não tínhamos uma posição clara. Foi exatamente por isso que organizámos a conversa”.

Se algo parece urgente, é trazido à mesa. Às vezes, nasce de um lançamento tecnológico. Outras vezes, de uma inquietação pessoal. A lógica é simples: conversar antes de cristalizar posições.


Para março, está agendada uma Sobremesa(ibiza). Os eventos podem ser consultados aqui


Não é networking

A comunidade constrói-se também pelo que não é. “Não é um evento de networking. Não é um funil. Não é um negócio”. É, nas palavras das fundadoras, “um hobby entre duas amigas que gostam de juntar pessoas para conversar”.

Num mundo onde tudo é polido, produzido e otimizado, essa informalidade cria outra energia. “Não o tornamos excessivamente polido. Não o sobreproduzimos”. O foco está nas pessoas presentes na sala e na qualidade do pensamento partilhado. “Preocupamo-nos muito em manter um tom generoso, mas rigoroso”.

Madrid já acolhe estas conversas. E Lisboa? “Adoraríamos”. A expansão, quando acontecer, querem que seja orgânica. “Se alguém em Lisboa quiser genuinamente construir uma sala de reflexão, e não apenas um evento, estamos muito disponíveis para isso”.

Num tempo em que a Inteligência Artificial parece oferecer respostas imediatas para quase tudo, a Sobremesa(tech) propõe algo mais demorado. A possibilidade de não saber, de não concluir, de permanecer no desconforto produtivo. E talvez, por momentos, resistir à tentação de perguntar ao chatbot o que devemos pensar.


(C) Foto de Antenna na Unsplash & D.R.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.