
#Protagonistas
Barack Obama em Lisboa: 7 ideias sobre IA, liderança e futuro do trabalho
O antigo Presidente dos EUA passou por Lisboa, ontem, e falou de um mundo que está a mudar mais depressa do que as instituições conseguem acompanhar. Na conversa que aconteceu no Game Changers Forum, Obama abordou temas como inteligência artificial, profissões, educação, liderança, autonomia, relações humanas e o perigo de transformar eficiência no principal critério das nossas escolhas. Eis os 7 destaques do MOTIVO.
1. A inteligência artificial vai transformar o trabalho qualificado, e vai fazê-lo muito depressa
“Da mesma forma que as fábricas foram automatizadas nos anos 1970 e 1980, tornando-se muito mais produtivas e precisando de muito menos pessoas, a inteligência artificial vai fazer o mesmo ao trabalho do conhecimento. Muitas profissões que consideramos altamente qualificadas — advogados, contabilistas, médicos — têm tarefas que pensávamos exigirem profissionais altamente especializados e que estas máquinas vão conseguir fazer. A grande diferença é que esta mudança vai acontecer em dez anos, em vez dos 30 ou 50 anos que outras grandes transformações económicas demoraram. A tecnologia move-se muito depressa e os governos e as sociedades movem-se devagar".
2. Cuidar dos outros pode tornar-se uma das competências mais valiosas
“Existem duas grandes áreas que considero importantes. Uma delas é cuidar de outras pessoas. Há profissões, como ensinar, que são muito mais do que transmitir informação. Um bom professor dá confiança a uma criança e, quando ela cai, consegue dar-lhe um abraço. Um modelo como o ChatGPT pode tornar-se uma ferramenta poderosa para aprender, mas não consegue substituir aquilo que um professor faz por uma criança. O mesmo acontece na enfermagem. Uma máquina pode ajudar a diagnosticar uma doença ou calcular um medicamento, mas isso é diferente de ter uma enfermeira ao lado de um paciente, dizer-lhe que vai ficar bem e perguntar-lhe pela família".
3. As máquinas podem calcular, mas liderar continua a exigir julgamento
“Outra coisa que as máquinas não conseguem fazer, acredito eu, é ter julgamento e sabedoria. Já conseguem programar melhor do que a maioria dos seres humanos, fazer cálculos matemáticos ou jogar xadrez melhor do que nós. Parte daquilo que é exclusivamente humano é ter um sentido de julgamento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo quando é um estranho, ter perspetiva. Uma máquina pode pensar que o seu único objetivo é fazer alguma coisa da forma mais eficiente possível. Só que, por vezes, não queremos eficiência. A democracia, por exemplo, não é eficiente, mas é importante que todas as pessoas sintam que têm uma voz e um papel na sociedade".
4. A próxima geração precisa de ética, literatura e artes, além de competências técnicas
“Quando pensamos em educar e formar a próxima geração, é importante expô-la não apenas a tarefas e competências muito específicas, mas dar-lhe uma educação mais ampla, que inclua ética, valores e uma apreciação por outras culturas e outras pessoas. Conheço muitos dos grandes líderes tecnológicos. São brilhantes e muito inteligentes, mas de uma forma muito estreita. Muitas vezes, não leem romances, não ouvem música ou não pensam nessas coisas como sendo tão importantes para a civilização como o PIB. Essa estreiteza acaba, por vezes, por se refletir nas tecnologias que são construídas. É por isso que considero tão importante continuarmos a valorizar as artes, as humanidades e a literatura".
5. Quem tem o cargo mais importante nem sempre é quem sabe mais
“Nas reuniões, os ministros estavam sentados à mesa e os jovens membros das equipas ficavam atrás, em cadeiras mais pequenas, com as pastas e os documentos, a passar notas aos seus chefes. Nas primeiras semanas como Presidente, vi um jovem passar uma nota e perguntei-lhe: ‘O que é que tu pensas?’. Percebi que, muitas vezes, eles sabiam mais do que os chefes porque eram eles que estavam a fazer todo o trabalho. Isso tornou-se parte da nossa cultura. Dizia àquela pessoa: ‘Tu és importante. Eu vejo-te e vejo a importância daquilo que fazes'”.
6. Um líder deve fazer as pessoas sentir que conseguem mudar a empresa
“Se eu fosse líder de uma empresa, gostaria que todos os meus gestores pensassem: como é que estamos a fazer estes jovens sentir que aquilo que fazem pode ter impacto na empresa como um todo? Temos de criar oportunidades para as pessoas sentirem que têm algum controlo sobre o ambiente que as rodeia. Isso é verdade na política, é verdade na gestão das empresas e vai tornar-se ainda mais importante, porque, com a inteligência artificial, haverá uma forte tendência para escolher atalhos e deixar simplesmente que as máquinas façam as coisas por nós".
7. Nem tudo na vida precisa de ser rápido ou eficiente
“É muito importante criarmos ambientes que contrariem a ideia de que conveniência e eficiência são sempre as coisas mais importantes. É isso que nos vendem constantemente. Precisamos de criar um pouco mais de fricção. Nem tudo tem de ser eficiente ou rápido o tempo todo. Os prazeres da vida implicam, por vezes, abrandar. Ir ao mercado, conhecer quem vende os produtos, conversar com alguém, cozinhar com os amigos ou com a família. Essas experiências fazem-nos sentir que estamos a produzir alguma coisa, que estamos a interagir com outras pessoas e que temos algum controlo sobre a nossa própria vida”.

Esta última ideia ajuda a explicar o fio condutor que atravessou grande parte da conversa que Barack Obama teve com Ricardo Parreira. Perante uma tecnologia capaz de assumir cada vez mais tarefas, Obama não falou apenas das competências que precisamos de adquirir. Falou, também, daquelas que podemos correr o risco de deixar de praticar.
“Não esperem que outra pessoa faça alguma coisa. Aprendam. Talvez comecem um projeto e percebam que precisam de saber mais. Procurem quem percebe desse assunto, aprendam, façam o trabalho de casa e tentem provocar essa mudança. Se todos tivermos essa atitude de sermos ativos em vez de passivos, é assim que, ao longo do tempo, a mudança acontece".
(C) Nuno Ramos | Game Changers

#Protagonistas
Barack Obama em Lisboa: 7 ideias sobre IA, liderança e futuro do trabalho
O antigo Presidente dos EUA passou por Lisboa, ontem, e falou de um mundo que está a mudar mais depressa do que as instituições conseguem acompanhar. Na conversa que aconteceu no Game Changers Forum, Obama abordou temas como inteligência artificial, profissões, educação, liderança, autonomia, relações humanas e o perigo de transformar eficiência no principal critério das nossas escolhas. Eis os 7 destaques do MOTIVO.
1. A inteligência artificial vai transformar o trabalho qualificado, e vai fazê-lo muito depressa
“Da mesma forma que as fábricas foram automatizadas nos anos 1970 e 1980, tornando-se muito mais produtivas e precisando de muito menos pessoas, a inteligência artificial vai fazer o mesmo ao trabalho do conhecimento. Muitas profissões que consideramos altamente qualificadas — advogados, contabilistas, médicos — têm tarefas que pensávamos exigirem profissionais altamente especializados e que estas máquinas vão conseguir fazer. A grande diferença é que esta mudança vai acontecer em dez anos, em vez dos 30 ou 50 anos que outras grandes transformações económicas demoraram. A tecnologia move-se muito depressa e os governos e as sociedades movem-se devagar".
2. Cuidar dos outros pode tornar-se uma das competências mais valiosas
“Existem duas grandes áreas que considero importantes. Uma delas é cuidar de outras pessoas. Há profissões, como ensinar, que são muito mais do que transmitir informação. Um bom professor dá confiança a uma criança e, quando ela cai, consegue dar-lhe um abraço. Um modelo como o ChatGPT pode tornar-se uma ferramenta poderosa para aprender, mas não consegue substituir aquilo que um professor faz por uma criança. O mesmo acontece na enfermagem. Uma máquina pode ajudar a diagnosticar uma doença ou calcular um medicamento, mas isso é diferente de ter uma enfermeira ao lado de um paciente, dizer-lhe que vai ficar bem e perguntar-lhe pela família".
3. As máquinas podem calcular, mas liderar continua a exigir julgamento
“Outra coisa que as máquinas não conseguem fazer, acredito eu, é ter julgamento e sabedoria. Já conseguem programar melhor do que a maioria dos seres humanos, fazer cálculos matemáticos ou jogar xadrez melhor do que nós. Parte daquilo que é exclusivamente humano é ter um sentido de julgamento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo quando é um estranho, ter perspetiva. Uma máquina pode pensar que o seu único objetivo é fazer alguma coisa da forma mais eficiente possível. Só que, por vezes, não queremos eficiência. A democracia, por exemplo, não é eficiente, mas é importante que todas as pessoas sintam que têm uma voz e um papel na sociedade".
4. A próxima geração precisa de ética, literatura e artes, além de competências técnicas
“Quando pensamos em educar e formar a próxima geração, é importante expô-la não apenas a tarefas e competências muito específicas, mas dar-lhe uma educação mais ampla, que inclua ética, valores e uma apreciação por outras culturas e outras pessoas. Conheço muitos dos grandes líderes tecnológicos. São brilhantes e muito inteligentes, mas de uma forma muito estreita. Muitas vezes, não leem romances, não ouvem música ou não pensam nessas coisas como sendo tão importantes para a civilização como o PIB. Essa estreiteza acaba, por vezes, por se refletir nas tecnologias que são construídas. É por isso que considero tão importante continuarmos a valorizar as artes, as humanidades e a literatura".
5. Quem tem o cargo mais importante nem sempre é quem sabe mais
“Nas reuniões, os ministros estavam sentados à mesa e os jovens membros das equipas ficavam atrás, em cadeiras mais pequenas, com as pastas e os documentos, a passar notas aos seus chefes. Nas primeiras semanas como Presidente, vi um jovem passar uma nota e perguntei-lhe: ‘O que é que tu pensas?’. Percebi que, muitas vezes, eles sabiam mais do que os chefes porque eram eles que estavam a fazer todo o trabalho. Isso tornou-se parte da nossa cultura. Dizia àquela pessoa: ‘Tu és importante. Eu vejo-te e vejo a importância daquilo que fazes'”.
6. Um líder deve fazer as pessoas sentir que conseguem mudar a empresa
“Se eu fosse líder de uma empresa, gostaria que todos os meus gestores pensassem: como é que estamos a fazer estes jovens sentir que aquilo que fazem pode ter impacto na empresa como um todo? Temos de criar oportunidades para as pessoas sentirem que têm algum controlo sobre o ambiente que as rodeia. Isso é verdade na política, é verdade na gestão das empresas e vai tornar-se ainda mais importante, porque, com a inteligência artificial, haverá uma forte tendência para escolher atalhos e deixar simplesmente que as máquinas façam as coisas por nós".
7. Nem tudo na vida precisa de ser rápido ou eficiente
“É muito importante criarmos ambientes que contrariem a ideia de que conveniência e eficiência são sempre as coisas mais importantes. É isso que nos vendem constantemente. Precisamos de criar um pouco mais de fricção. Nem tudo tem de ser eficiente ou rápido o tempo todo. Os prazeres da vida implicam, por vezes, abrandar. Ir ao mercado, conhecer quem vende os produtos, conversar com alguém, cozinhar com os amigos ou com a família. Essas experiências fazem-nos sentir que estamos a produzir alguma coisa, que estamos a interagir com outras pessoas e que temos algum controlo sobre a nossa própria vida”.

Esta última ideia ajuda a explicar o fio condutor que atravessou grande parte da conversa que Barack Obama teve com Ricardo Parreira. Perante uma tecnologia capaz de assumir cada vez mais tarefas, Obama não falou apenas das competências que precisamos de adquirir. Falou, também, daquelas que podemos correr o risco de deixar de praticar.
“Não esperem que outra pessoa faça alguma coisa. Aprendam. Talvez comecem um projeto e percebam que precisam de saber mais. Procurem quem percebe desse assunto, aprendam, façam o trabalho de casa e tentem provocar essa mudança. Se todos tivermos essa atitude de sermos ativos em vez de passivos, é assim que, ao longo do tempo, a mudança acontece".
(C) Nuno Ramos | Game Changers

#Protagonistas
Barack Obama em Lisboa: 7 ideias sobre IA, liderança e futuro do trabalho
O antigo Presidente dos EUA passou por Lisboa, ontem, e falou de um mundo que está a mudar mais depressa do que as instituições conseguem acompanhar. Na conversa que aconteceu no Game Changers Forum, Obama abordou temas como inteligência artificial, profissões, educação, liderança, autonomia, relações humanas e o perigo de transformar eficiência no principal critério das nossas escolhas. Eis os 7 destaques do MOTIVO.
1. A inteligência artificial vai transformar o trabalho qualificado, e vai fazê-lo muito depressa
“Da mesma forma que as fábricas foram automatizadas nos anos 1970 e 1980, tornando-se muito mais produtivas e precisando de muito menos pessoas, a inteligência artificial vai fazer o mesmo ao trabalho do conhecimento. Muitas profissões que consideramos altamente qualificadas — advogados, contabilistas, médicos — têm tarefas que pensávamos exigirem profissionais altamente especializados e que estas máquinas vão conseguir fazer. A grande diferença é que esta mudança vai acontecer em dez anos, em vez dos 30 ou 50 anos que outras grandes transformações económicas demoraram. A tecnologia move-se muito depressa e os governos e as sociedades movem-se devagar".
2. Cuidar dos outros pode tornar-se uma das competências mais valiosas
“Existem duas grandes áreas que considero importantes. Uma delas é cuidar de outras pessoas. Há profissões, como ensinar, que são muito mais do que transmitir informação. Um bom professor dá confiança a uma criança e, quando ela cai, consegue dar-lhe um abraço. Um modelo como o ChatGPT pode tornar-se uma ferramenta poderosa para aprender, mas não consegue substituir aquilo que um professor faz por uma criança. O mesmo acontece na enfermagem. Uma máquina pode ajudar a diagnosticar uma doença ou calcular um medicamento, mas isso é diferente de ter uma enfermeira ao lado de um paciente, dizer-lhe que vai ficar bem e perguntar-lhe pela família".
3. As máquinas podem calcular, mas liderar continua a exigir julgamento
“Outra coisa que as máquinas não conseguem fazer, acredito eu, é ter julgamento e sabedoria. Já conseguem programar melhor do que a maioria dos seres humanos, fazer cálculos matemáticos ou jogar xadrez melhor do que nós. Parte daquilo que é exclusivamente humano é ter um sentido de julgamento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo quando é um estranho, ter perspetiva. Uma máquina pode pensar que o seu único objetivo é fazer alguma coisa da forma mais eficiente possível. Só que, por vezes, não queremos eficiência. A democracia, por exemplo, não é eficiente, mas é importante que todas as pessoas sintam que têm uma voz e um papel na sociedade".
4. A próxima geração precisa de ética, literatura e artes, além de competências técnicas
“Quando pensamos em educar e formar a próxima geração, é importante expô-la não apenas a tarefas e competências muito específicas, mas dar-lhe uma educação mais ampla, que inclua ética, valores e uma apreciação por outras culturas e outras pessoas. Conheço muitos dos grandes líderes tecnológicos. São brilhantes e muito inteligentes, mas de uma forma muito estreita. Muitas vezes, não leem romances, não ouvem música ou não pensam nessas coisas como sendo tão importantes para a civilização como o PIB. Essa estreiteza acaba, por vezes, por se refletir nas tecnologias que são construídas. É por isso que considero tão importante continuarmos a valorizar as artes, as humanidades e a literatura".
5. Quem tem o cargo mais importante nem sempre é quem sabe mais
“Nas reuniões, os ministros estavam sentados à mesa e os jovens membros das equipas ficavam atrás, em cadeiras mais pequenas, com as pastas e os documentos, a passar notas aos seus chefes. Nas primeiras semanas como Presidente, vi um jovem passar uma nota e perguntei-lhe: ‘O que é que tu pensas?’. Percebi que, muitas vezes, eles sabiam mais do que os chefes porque eram eles que estavam a fazer todo o trabalho. Isso tornou-se parte da nossa cultura. Dizia àquela pessoa: ‘Tu és importante. Eu vejo-te e vejo a importância daquilo que fazes'”.
6. Um líder deve fazer as pessoas sentir que conseguem mudar a empresa
“Se eu fosse líder de uma empresa, gostaria que todos os meus gestores pensassem: como é que estamos a fazer estes jovens sentir que aquilo que fazem pode ter impacto na empresa como um todo? Temos de criar oportunidades para as pessoas sentirem que têm algum controlo sobre o ambiente que as rodeia. Isso é verdade na política, é verdade na gestão das empresas e vai tornar-se ainda mais importante, porque, com a inteligência artificial, haverá uma forte tendência para escolher atalhos e deixar simplesmente que as máquinas façam as coisas por nós".
7. Nem tudo na vida precisa de ser rápido ou eficiente
“É muito importante criarmos ambientes que contrariem a ideia de que conveniência e eficiência são sempre as coisas mais importantes. É isso que nos vendem constantemente. Precisamos de criar um pouco mais de fricção. Nem tudo tem de ser eficiente ou rápido o tempo todo. Os prazeres da vida implicam, por vezes, abrandar. Ir ao mercado, conhecer quem vende os produtos, conversar com alguém, cozinhar com os amigos ou com a família. Essas experiências fazem-nos sentir que estamos a produzir alguma coisa, que estamos a interagir com outras pessoas e que temos algum controlo sobre a nossa própria vida”.

Esta última ideia ajuda a explicar o fio condutor que atravessou grande parte da conversa que Barack Obama teve com Ricardo Parreira. Perante uma tecnologia capaz de assumir cada vez mais tarefas, Obama não falou apenas das competências que precisamos de adquirir. Falou, também, daquelas que podemos correr o risco de deixar de praticar.
“Não esperem que outra pessoa faça alguma coisa. Aprendam. Talvez comecem um projeto e percebam que precisam de saber mais. Procurem quem percebe desse assunto, aprendam, façam o trabalho de casa e tentem provocar essa mudança. Se todos tivermos essa atitude de sermos ativos em vez de passivos, é assim que, ao longo do tempo, a mudança acontece".
(C) Nuno Ramos | Game Changers

#Protagonistas
Barack Obama em Lisboa: 7 ideias sobre IA, liderança e futuro do trabalho
O antigo Presidente dos EUA passou por Lisboa, ontem, e falou de um mundo que está a mudar mais depressa do que as instituições conseguem acompanhar. Na conversa que aconteceu no Game Changers Forum, Obama abordou temas como inteligência artificial, profissões, educação, liderança, autonomia, relações humanas e o perigo de transformar eficiência no principal critério das nossas escolhas. Eis os 7 destaques do MOTIVO.
1. A inteligência artificial vai transformar o trabalho qualificado, e vai fazê-lo muito depressa
“Da mesma forma que as fábricas foram automatizadas nos anos 1970 e 1980, tornando-se muito mais produtivas e precisando de muito menos pessoas, a inteligência artificial vai fazer o mesmo ao trabalho do conhecimento. Muitas profissões que consideramos altamente qualificadas — advogados, contabilistas, médicos — têm tarefas que pensávamos exigirem profissionais altamente especializados e que estas máquinas vão conseguir fazer. A grande diferença é que esta mudança vai acontecer em dez anos, em vez dos 30 ou 50 anos que outras grandes transformações económicas demoraram. A tecnologia move-se muito depressa e os governos e as sociedades movem-se devagar".
2. Cuidar dos outros pode tornar-se uma das competências mais valiosas
“Existem duas grandes áreas que considero importantes. Uma delas é cuidar de outras pessoas. Há profissões, como ensinar, que são muito mais do que transmitir informação. Um bom professor dá confiança a uma criança e, quando ela cai, consegue dar-lhe um abraço. Um modelo como o ChatGPT pode tornar-se uma ferramenta poderosa para aprender, mas não consegue substituir aquilo que um professor faz por uma criança. O mesmo acontece na enfermagem. Uma máquina pode ajudar a diagnosticar uma doença ou calcular um medicamento, mas isso é diferente de ter uma enfermeira ao lado de um paciente, dizer-lhe que vai ficar bem e perguntar-lhe pela família".
3. As máquinas podem calcular, mas liderar continua a exigir julgamento
“Outra coisa que as máquinas não conseguem fazer, acredito eu, é ter julgamento e sabedoria. Já conseguem programar melhor do que a maioria dos seres humanos, fazer cálculos matemáticos ou jogar xadrez melhor do que nós. Parte daquilo que é exclusivamente humano é ter um sentido de julgamento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo quando é um estranho, ter perspetiva. Uma máquina pode pensar que o seu único objetivo é fazer alguma coisa da forma mais eficiente possível. Só que, por vezes, não queremos eficiência. A democracia, por exemplo, não é eficiente, mas é importante que todas as pessoas sintam que têm uma voz e um papel na sociedade".
4. A próxima geração precisa de ética, literatura e artes, além de competências técnicas
“Quando pensamos em educar e formar a próxima geração, é importante expô-la não apenas a tarefas e competências muito específicas, mas dar-lhe uma educação mais ampla, que inclua ética, valores e uma apreciação por outras culturas e outras pessoas. Conheço muitos dos grandes líderes tecnológicos. São brilhantes e muito inteligentes, mas de uma forma muito estreita. Muitas vezes, não leem romances, não ouvem música ou não pensam nessas coisas como sendo tão importantes para a civilização como o PIB. Essa estreiteza acaba, por vezes, por se refletir nas tecnologias que são construídas. É por isso que considero tão importante continuarmos a valorizar as artes, as humanidades e a literatura".
5. Quem tem o cargo mais importante nem sempre é quem sabe mais
“Nas reuniões, os ministros estavam sentados à mesa e os jovens membros das equipas ficavam atrás, em cadeiras mais pequenas, com as pastas e os documentos, a passar notas aos seus chefes. Nas primeiras semanas como Presidente, vi um jovem passar uma nota e perguntei-lhe: ‘O que é que tu pensas?’. Percebi que, muitas vezes, eles sabiam mais do que os chefes porque eram eles que estavam a fazer todo o trabalho. Isso tornou-se parte da nossa cultura. Dizia àquela pessoa: ‘Tu és importante. Eu vejo-te e vejo a importância daquilo que fazes'”.
6. Um líder deve fazer as pessoas sentir que conseguem mudar a empresa
“Se eu fosse líder de uma empresa, gostaria que todos os meus gestores pensassem: como é que estamos a fazer estes jovens sentir que aquilo que fazem pode ter impacto na empresa como um todo? Temos de criar oportunidades para as pessoas sentirem que têm algum controlo sobre o ambiente que as rodeia. Isso é verdade na política, é verdade na gestão das empresas e vai tornar-se ainda mais importante, porque, com a inteligência artificial, haverá uma forte tendência para escolher atalhos e deixar simplesmente que as máquinas façam as coisas por nós".
7. Nem tudo na vida precisa de ser rápido ou eficiente
“É muito importante criarmos ambientes que contrariem a ideia de que conveniência e eficiência são sempre as coisas mais importantes. É isso que nos vendem constantemente. Precisamos de criar um pouco mais de fricção. Nem tudo tem de ser eficiente ou rápido o tempo todo. Os prazeres da vida implicam, por vezes, abrandar. Ir ao mercado, conhecer quem vende os produtos, conversar com alguém, cozinhar com os amigos ou com a família. Essas experiências fazem-nos sentir que estamos a produzir alguma coisa, que estamos a interagir com outras pessoas e que temos algum controlo sobre a nossa própria vida”.

Esta última ideia ajuda a explicar o fio condutor que atravessou grande parte da conversa que Barack Obama teve com Ricardo Parreira. Perante uma tecnologia capaz de assumir cada vez mais tarefas, Obama não falou apenas das competências que precisamos de adquirir. Falou, também, daquelas que podemos correr o risco de deixar de praticar.
“Não esperem que outra pessoa faça alguma coisa. Aprendam. Talvez comecem um projeto e percebam que precisam de saber mais. Procurem quem percebe desse assunto, aprendam, façam o trabalho de casa e tentem provocar essa mudança. Se todos tivermos essa atitude de sermos ativos em vez de passivos, é assim que, ao longo do tempo, a mudança acontece".




