
#Protagonistas
Seis perguntas a Margarida Vila-Nova
Foi acabada de chegar de Macau, onde esteve em digressão, que a atriz respondeu às perguntas do MOTIVO, com muita “consciência” e “verdade”. A profissional acaba de se despedir de Teresa, a protagonista de À Primeira Vista, o seu primeiro monólogo, que esgotou todas as sessões com um olhar sobre o tema do consentimento e violência sobre as mulheres. Margarida Villa-Nova diz não ser a mesma pessoa depois deste espectáculo.
Viu a peça em Londres e não desistiu enquanto não conseguiu os direitos para mostrá-la no nosso país. Foi um murro no estômago que quis partilhar com os portugueses?
Depois de ver o espetáculo, e de me debruçar sobre a urgência do tema, tornou-se evidente para mim a necessidade de o trazer para uma sala de teatro em Portugal. Quis provocar diálogo, partilhar um conflito que marca o nosso dia a dia, quer na comunicação social, quer em histórias que permanecem à porta fechada e que, muitas vezes, não chegam a ser denunciadas. São vozes caladas, histórias invisíveis. Pareceu-me o momento certo. Não só pelas situações que, feliz ou infelizmente, se tornaram públicas nos últimos anos, na Europa e no mundo, mas também pela necessidade de trazer esta discussão para o palco e provocar reflexão junto do público. Para mim, isso tornou-se essencial.

Em 2025, foram reportados 25 crimes de violência doméstica e quase 30 mil denúncias, mas há muitos casos sinalizados que continuam a acabar em mortes. Na sua opinião, o que tem urgentemente de mudar?
A violência doméstica, tal como a violência física, sexual, psicológica ou laboral, continua a ser, maioritariamente, praticada contra mulheres. O que tem de acontecer é uma mudança global. Essa mudança implica envolver a sociedade civil, a educação em casa e nas escolas, e também refletir sobre o impacto da arte e da cultura nas nossas vidas, seja na música ou no audiovisual. Não se trata apenas de uma questão judicial ou jurídica. É necessária uma reflexão profunda sobre a violência que é perpetuada ao longo de gerações. Não basta discutir a forma como os tribunais julgam estes casos. É preciso alargar o debate e promover uma mudança estrutural que não se limita a Portugal. Acredito que, na Europa e no mundo, assistiremos a uma transformação na forma como a sociedade encara e combate qualquer tipo de abuso contra as mulheres.
Foi difícil preparar uma personagem que defende agressores mas que depois se torna vítima?
O maior desafio é sempre pôr-mo-nos no lugar do outro. Enquanto Margarida, tive de me afastar de qualquer juízo de valor sobre a personagem, sobre as suas escolhas, a forma como pensa ou age, e defendê-la na sua totalidade. Esse é o grande desafio: anularmo-nos para que a personagem exista por si. Foi um trabalho profundo, que não fiz sozinha. Trabalhei com o Tiago Guedes, encenador, com o Luís Araújo, assistente de encenação, e com toda a equipa artística. Explorámos o texto, as intenções, a tomada de consciência da personagem e os seus conflitos interiores. Foi também um trabalho fisicamente exigente, que exigiu preparação para sustentar esta história durante uma hora e meia em palco.
Acredita que conseguiu chegar a mulheres em risco através deste espetáculo?
Sabíamos, desde o início, que era um espetáculo com forte impacto, como já tinha acontecido em Inglaterra e noutros países. Ainda assim, nunca esperámos que alcançasse o sucesso que teve: mais de 65 mil espectadores e mais de 170 apresentações. O impacto é positivo, na medida em que o espetáculo cria empatia, desconforto e inquietação, e isso é importante. Tocou mulheres e homens, e é essencial convocar ambos para refletirem sobre esta problemática. Várias mulheres vieram agradecer no final, dizendo que se sentiram representadas. O espetáculo não é uma resposta, mas funciona como uma voz para quem passou por situações de abuso e não encontrou justiça. O impacto foi transversal e profundo, tanto em mulheres como em homens.

Este foi o seu primeiro monólogo. O que vai guardar em si?
Talvez tenha sido o primeiro e o último. (Risos) Nunca tive a pretensão de fazer um monólogo. Sempre achei que estar sozinha em palco era algo desolador, sem contracena, sem um parceiro. Este foi um desafio inesperado, que ultrapassou a minha forma de ver o teatro. Guardo este espetáculo com enorme carinho. Atravessou dois anos da minha vida e transformou-me. Somos pessoas diferentes consoante o momento que atravessamos, na vida pessoal, familiar, profissional. Não sou a mesma pessoa que estreou este espetáculo há dois anos. Talvez, daqui a algum tempo, consiga perceber melhor o impacto que teve em mim, mas sei que saio desta experiência profundamente transformada.
Como fica a Margarida depois desta Teresa?
Este espetáculo levou-me a questionar profundamente os limites. O abuso não é apenas físico ou sexual; existe de muitas formas e atravessa as nossas relações quotidianas. Fez-me refletir enquanto mulher, mãe e atriz sobre os meus próprios limites, e sobre a importância de dizer não. Sobre pôr-me em primeiro lugar, escutar o corpo, o cansaço, as vontades e os desejos. Vivemos a um ritmo exigente, e é fundamental sabermos parar e escutar-nos. Não me refiro apenas às grandes decisões. São também as pequenas escolhas do dia a dia que podem fazer a diferença.

#Protagonistas
Seis perguntas a Margarida Vila-Nova
Foi acabada de chegar de Macau, onde esteve em digressão, que a atriz respondeu às perguntas do MOTIVO, com muita “consciência” e “verdade”. A profissional acaba de se despedir de Teresa, a protagonista de À Primeira Vista, o seu primeiro monólogo, que esgotou todas as sessões com um olhar sobre o tema do consentimento e violência sobre as mulheres. Margarida Villa-Nova diz não ser a mesma pessoa depois deste espectáculo.
Viu a peça em Londres e não desistiu enquanto não conseguiu os direitos para mostrá-la no nosso país. Foi um murro no estômago que quis partilhar com os portugueses?
Depois de ver o espetáculo, e de me debruçar sobre a urgência do tema, tornou-se evidente para mim a necessidade de o trazer para uma sala de teatro em Portugal. Quis provocar diálogo, partilhar um conflito que marca o nosso dia a dia, quer na comunicação social, quer em histórias que permanecem à porta fechada e que, muitas vezes, não chegam a ser denunciadas. São vozes caladas, histórias invisíveis. Pareceu-me o momento certo. Não só pelas situações que, feliz ou infelizmente, se tornaram públicas nos últimos anos, na Europa e no mundo, mas também pela necessidade de trazer esta discussão para o palco e provocar reflexão junto do público. Para mim, isso tornou-se essencial.

Em 2025, foram reportados 25 crimes de violência doméstica e quase 30 mil denúncias, mas há muitos casos sinalizados que continuam a acabar em mortes. Na sua opinião, o que tem urgentemente de mudar?
A violência doméstica, tal como a violência física, sexual, psicológica ou laboral, continua a ser, maioritariamente, praticada contra mulheres. O que tem de acontecer é uma mudança global. Essa mudança implica envolver a sociedade civil, a educação em casa e nas escolas, e também refletir sobre o impacto da arte e da cultura nas nossas vidas, seja na música ou no audiovisual. Não se trata apenas de uma questão judicial ou jurídica. É necessária uma reflexão profunda sobre a violência que é perpetuada ao longo de gerações. Não basta discutir a forma como os tribunais julgam estes casos. É preciso alargar o debate e promover uma mudança estrutural que não se limita a Portugal. Acredito que, na Europa e no mundo, assistiremos a uma transformação na forma como a sociedade encara e combate qualquer tipo de abuso contra as mulheres.
Foi difícil preparar uma personagem que defende agressores mas que depois se torna vítima?
O maior desafio é sempre pôr-mo-nos no lugar do outro. Enquanto Margarida, tive de me afastar de qualquer juízo de valor sobre a personagem, sobre as suas escolhas, a forma como pensa ou age, e defendê-la na sua totalidade. Esse é o grande desafio: anularmo-nos para que a personagem exista por si. Foi um trabalho profundo, que não fiz sozinha. Trabalhei com o Tiago Guedes, encenador, com o Luís Araújo, assistente de encenação, e com toda a equipa artística. Explorámos o texto, as intenções, a tomada de consciência da personagem e os seus conflitos interiores. Foi também um trabalho fisicamente exigente, que exigiu preparação para sustentar esta história durante uma hora e meia em palco.
Acredita que conseguiu chegar a mulheres em risco através deste espetáculo?
Sabíamos, desde o início, que era um espetáculo com forte impacto, como já tinha acontecido em Inglaterra e noutros países. Ainda assim, nunca esperámos que alcançasse o sucesso que teve: mais de 65 mil espectadores e mais de 170 apresentações. O impacto é positivo, na medida em que o espetáculo cria empatia, desconforto e inquietação, e isso é importante. Tocou mulheres e homens, e é essencial convocar ambos para refletirem sobre esta problemática. Várias mulheres vieram agradecer no final, dizendo que se sentiram representadas. O espetáculo não é uma resposta, mas funciona como uma voz para quem passou por situações de abuso e não encontrou justiça. O impacto foi transversal e profundo, tanto em mulheres como em homens.

Este foi o seu primeiro monólogo. O que vai guardar em si?
Talvez tenha sido o primeiro e o último. (Risos) Nunca tive a pretensão de fazer um monólogo. Sempre achei que estar sozinha em palco era algo desolador, sem contracena, sem um parceiro. Este foi um desafio inesperado, que ultrapassou a minha forma de ver o teatro. Guardo este espetáculo com enorme carinho. Atravessou dois anos da minha vida e transformou-me. Somos pessoas diferentes consoante o momento que atravessamos, na vida pessoal, familiar, profissional. Não sou a mesma pessoa que estreou este espetáculo há dois anos. Talvez, daqui a algum tempo, consiga perceber melhor o impacto que teve em mim, mas sei que saio desta experiência profundamente transformada.
Como fica a Margarida depois desta Teresa?
Este espetáculo levou-me a questionar profundamente os limites. O abuso não é apenas físico ou sexual; existe de muitas formas e atravessa as nossas relações quotidianas. Fez-me refletir enquanto mulher, mãe e atriz sobre os meus próprios limites, e sobre a importância de dizer não. Sobre pôr-me em primeiro lugar, escutar o corpo, o cansaço, as vontades e os desejos. Vivemos a um ritmo exigente, e é fundamental sabermos parar e escutar-nos. Não me refiro apenas às grandes decisões. São também as pequenas escolhas do dia a dia que podem fazer a diferença.

#Protagonistas
Seis perguntas a Margarida Vila-Nova
Foi acabada de chegar de Macau, onde esteve em digressão, que a atriz respondeu às perguntas do MOTIVO, com muita “consciência” e “verdade”. A profissional acaba de se despedir de Teresa, a protagonista de À Primeira Vista, o seu primeiro monólogo, que esgotou todas as sessões com um olhar sobre o tema do consentimento e violência sobre as mulheres. Margarida Villa-Nova diz não ser a mesma pessoa depois deste espectáculo.
Viu a peça em Londres e não desistiu enquanto não conseguiu os direitos para mostrá-la no nosso país. Foi um murro no estômago que quis partilhar com os portugueses?
Depois de ver o espetáculo, e de me debruçar sobre a urgência do tema, tornou-se evidente para mim a necessidade de o trazer para uma sala de teatro em Portugal. Quis provocar diálogo, partilhar um conflito que marca o nosso dia a dia, quer na comunicação social, quer em histórias que permanecem à porta fechada e que, muitas vezes, não chegam a ser denunciadas. São vozes caladas, histórias invisíveis. Pareceu-me o momento certo. Não só pelas situações que, feliz ou infelizmente, se tornaram públicas nos últimos anos, na Europa e no mundo, mas também pela necessidade de trazer esta discussão para o palco e provocar reflexão junto do público. Para mim, isso tornou-se essencial.

Em 2025, foram reportados 25 crimes de violência doméstica e quase 30 mil denúncias, mas há muitos casos sinalizados que continuam a acabar em mortes. Na sua opinião, o que tem urgentemente de mudar?
A violência doméstica, tal como a violência física, sexual, psicológica ou laboral, continua a ser, maioritariamente, praticada contra mulheres. O que tem de acontecer é uma mudança global. Essa mudança implica envolver a sociedade civil, a educação em casa e nas escolas, e também refletir sobre o impacto da arte e da cultura nas nossas vidas, seja na música ou no audiovisual. Não se trata apenas de uma questão judicial ou jurídica. É necessária uma reflexão profunda sobre a violência que é perpetuada ao longo de gerações. Não basta discutir a forma como os tribunais julgam estes casos. É preciso alargar o debate e promover uma mudança estrutural que não se limita a Portugal. Acredito que, na Europa e no mundo, assistiremos a uma transformação na forma como a sociedade encara e combate qualquer tipo de abuso contra as mulheres.
Foi difícil preparar uma personagem que defende agressores mas que depois se torna vítima?
O maior desafio é sempre pôr-mo-nos no lugar do outro. Enquanto Margarida, tive de me afastar de qualquer juízo de valor sobre a personagem, sobre as suas escolhas, a forma como pensa ou age, e defendê-la na sua totalidade. Esse é o grande desafio: anularmo-nos para que a personagem exista por si. Foi um trabalho profundo, que não fiz sozinha. Trabalhei com o Tiago Guedes, encenador, com o Luís Araújo, assistente de encenação, e com toda a equipa artística. Explorámos o texto, as intenções, a tomada de consciência da personagem e os seus conflitos interiores. Foi também um trabalho fisicamente exigente, que exigiu preparação para sustentar esta história durante uma hora e meia em palco.
Acredita que conseguiu chegar a mulheres em risco através deste espetáculo?
Sabíamos, desde o início, que era um espetáculo com forte impacto, como já tinha acontecido em Inglaterra e noutros países. Ainda assim, nunca esperámos que alcançasse o sucesso que teve: mais de 65 mil espectadores e mais de 170 apresentações. O impacto é positivo, na medida em que o espetáculo cria empatia, desconforto e inquietação, e isso é importante. Tocou mulheres e homens, e é essencial convocar ambos para refletirem sobre esta problemática. Várias mulheres vieram agradecer no final, dizendo que se sentiram representadas. O espetáculo não é uma resposta, mas funciona como uma voz para quem passou por situações de abuso e não encontrou justiça. O impacto foi transversal e profundo, tanto em mulheres como em homens.

Este foi o seu primeiro monólogo. O que vai guardar em si?
Talvez tenha sido o primeiro e o último. (Risos) Nunca tive a pretensão de fazer um monólogo. Sempre achei que estar sozinha em palco era algo desolador, sem contracena, sem um parceiro. Este foi um desafio inesperado, que ultrapassou a minha forma de ver o teatro. Guardo este espetáculo com enorme carinho. Atravessou dois anos da minha vida e transformou-me. Somos pessoas diferentes consoante o momento que atravessamos, na vida pessoal, familiar, profissional. Não sou a mesma pessoa que estreou este espetáculo há dois anos. Talvez, daqui a algum tempo, consiga perceber melhor o impacto que teve em mim, mas sei que saio desta experiência profundamente transformada.
Como fica a Margarida depois desta Teresa?
Este espetáculo levou-me a questionar profundamente os limites. O abuso não é apenas físico ou sexual; existe de muitas formas e atravessa as nossas relações quotidianas. Fez-me refletir enquanto mulher, mãe e atriz sobre os meus próprios limites, e sobre a importância de dizer não. Sobre pôr-me em primeiro lugar, escutar o corpo, o cansaço, as vontades e os desejos. Vivemos a um ritmo exigente, e é fundamental sabermos parar e escutar-nos. Não me refiro apenas às grandes decisões. São também as pequenas escolhas do dia a dia que podem fazer a diferença.

#Protagonistas
Seis perguntas a Margarida Vila-Nova
Foi acabada de chegar de Macau, onde esteve em digressão, que a atriz respondeu às perguntas do MOTIVO, com muita “consciência” e “verdade”. A profissional acaba de se despedir de Teresa, a protagonista de À Primeira Vista, o seu primeiro monólogo, que esgotou todas as sessões com um olhar sobre o tema do consentimento e violência sobre as mulheres. Margarida Villa-Nova diz não ser a mesma pessoa depois deste espectáculo.
Viu a peça em Londres e não desistiu enquanto não conseguiu os direitos para mostrá-la no nosso país. Foi um murro no estômago que quis partilhar com os portugueses?
Depois de ver o espetáculo, e de me debruçar sobre a urgência do tema, tornou-se evidente para mim a necessidade de o trazer para uma sala de teatro em Portugal. Quis provocar diálogo, partilhar um conflito que marca o nosso dia a dia, quer na comunicação social, quer em histórias que permanecem à porta fechada e que, muitas vezes, não chegam a ser denunciadas. São vozes caladas, histórias invisíveis. Pareceu-me o momento certo. Não só pelas situações que, feliz ou infelizmente, se tornaram públicas nos últimos anos, na Europa e no mundo, mas também pela necessidade de trazer esta discussão para o palco e provocar reflexão junto do público. Para mim, isso tornou-se essencial.

Em 2025, foram reportados 25 crimes de violência doméstica e quase 30 mil denúncias, mas há muitos casos sinalizados que continuam a acabar em mortes. Na sua opinião, o que tem urgentemente de mudar?
A violência doméstica, tal como a violência física, sexual, psicológica ou laboral, continua a ser, maioritariamente, praticada contra mulheres. O que tem de acontecer é uma mudança global. Essa mudança implica envolver a sociedade civil, a educação em casa e nas escolas, e também refletir sobre o impacto da arte e da cultura nas nossas vidas, seja na música ou no audiovisual. Não se trata apenas de uma questão judicial ou jurídica. É necessária uma reflexão profunda sobre a violência que é perpetuada ao longo de gerações. Não basta discutir a forma como os tribunais julgam estes casos. É preciso alargar o debate e promover uma mudança estrutural que não se limita a Portugal. Acredito que, na Europa e no mundo, assistiremos a uma transformação na forma como a sociedade encara e combate qualquer tipo de abuso contra as mulheres.
Foi difícil preparar uma personagem que defende agressores mas que depois se torna vítima?
O maior desafio é sempre pôr-mo-nos no lugar do outro. Enquanto Margarida, tive de me afastar de qualquer juízo de valor sobre a personagem, sobre as suas escolhas, a forma como pensa ou age, e defendê-la na sua totalidade. Esse é o grande desafio: anularmo-nos para que a personagem exista por si. Foi um trabalho profundo, que não fiz sozinha. Trabalhei com o Tiago Guedes, encenador, com o Luís Araújo, assistente de encenação, e com toda a equipa artística. Explorámos o texto, as intenções, a tomada de consciência da personagem e os seus conflitos interiores. Foi também um trabalho fisicamente exigente, que exigiu preparação para sustentar esta história durante uma hora e meia em palco.
Acredita que conseguiu chegar a mulheres em risco através deste espetáculo?
Sabíamos, desde o início, que era um espetáculo com forte impacto, como já tinha acontecido em Inglaterra e noutros países. Ainda assim, nunca esperámos que alcançasse o sucesso que teve: mais de 65 mil espectadores e mais de 170 apresentações. O impacto é positivo, na medida em que o espetáculo cria empatia, desconforto e inquietação, e isso é importante. Tocou mulheres e homens, e é essencial convocar ambos para refletirem sobre esta problemática. Várias mulheres vieram agradecer no final, dizendo que se sentiram representadas. O espetáculo não é uma resposta, mas funciona como uma voz para quem passou por situações de abuso e não encontrou justiça. O impacto foi transversal e profundo, tanto em mulheres como em homens.

Este foi o seu primeiro monólogo. O que vai guardar em si?
Talvez tenha sido o primeiro e o último. (Risos) Nunca tive a pretensão de fazer um monólogo. Sempre achei que estar sozinha em palco era algo desolador, sem contracena, sem um parceiro. Este foi um desafio inesperado, que ultrapassou a minha forma de ver o teatro. Guardo este espetáculo com enorme carinho. Atravessou dois anos da minha vida e transformou-me. Somos pessoas diferentes consoante o momento que atravessamos, na vida pessoal, familiar, profissional. Não sou a mesma pessoa que estreou este espetáculo há dois anos. Talvez, daqui a algum tempo, consiga perceber melhor o impacto que teve em mim, mas sei que saio desta experiência profundamente transformada.
Como fica a Margarida depois desta Teresa?
Este espetáculo levou-me a questionar profundamente os limites. O abuso não é apenas físico ou sexual; existe de muitas formas e atravessa as nossas relações quotidianas. Fez-me refletir enquanto mulher, mãe e atriz sobre os meus próprios limites, e sobre a importância de dizer não. Sobre pôr-me em primeiro lugar, escutar o corpo, o cansaço, as vontades e os desejos. Vivemos a um ritmo exigente, e é fundamental sabermos parar e escutar-nos. Não me refiro apenas às grandes decisões. São também as pequenas escolhas do dia a dia que podem fazer a diferença.



