Recolhendo fragmentos de memória, juntando-os ao que faz sentido, creio que terá sido em 2001 ou 2002, na antiga livraria Village Voice, em Paris, o momento em que assisti a uma conversa com Susan Sontag. Lembro que havia gente a ocupar recantos de todo esse pequeno espaço, ao longo das escadas e dos corredores muito apertados. Lembro que, no final, pedi um autógrafo àquela senhora de cabelo muito negro, trocámos algumas palavras e ela escreveu o seu nome devagar na folha de rosto do romance In America.

Pensei bastante se devia mencionar este episódio que pouco importa aos outros, e que muito me importa a mim. As lembranças pouco nítidas que guardo desse dia não acrescentam muito a quem não as tenha vivido. No entanto, para mim, ao ler as páginas deste volume, evoquei constantemente esse encontro no meu íntimo. Acredito que tal aconteceu porque, embora os ensaios de Susan Sontag, proporcionem a quem os lê um caminho claro nas suas reflexões, somos aqui levados ainda mais para um ambiente íntimo, de convivência direta, pessoal. Li estas páginas de forma muito parecida à maneira como, em 2001 ou 2002, nessa pequena livraria de Paris, fiquei de pé, meio hipnotizado pelo à-vontade daquela mulher, que falava de tudo como se tivesse uma chave que abrisse todos os temas.
Até quando escrevia ficção, Susan Sontag era uma pensadora e uma ensaísta. Há sempre reflexão na forma como olha qualquer assunto, como o descreve. Neste longo diálogo com Jonathan Cott, esse tom está sempre presente, apesar da leveza e, até, da despreocupada diletância de como a conversa evolui. O que consta nestas páginas foi dito em finais da década de setenta em Paris, no 16º arrondissement (não demasiado longe da livraria onde a vi, no 6º arrondissement) e, depois, numa segunda conversa, em Nova Iorque. Ou seja, trata-se de um trabalho jornalístico de outro tempo, no qual o entrevistador não precisava de provocar declarações para clickbait. Havia tempo para falar e paciência para ouvir.
Na história da literatura, a partir de certo ponto, quase todas as pessoas que escrevem acabaram por desenvolver uma voz de entrevistas, além da que apresentam nas suas obras. Por seu lado, essa voz desenvolve uma persona que, nalguns casos, marca a leitura dos próprios textos literários. Mais raro é o que acontece com Susan Sontag: as suas entrevistas são, elas próprias, merecedoras de pertencer à sua obra, quase como se fossem um género literário.
Este é um livro de Jonathan Cott, foi ele que dirigiu a conversa, que colocou as perguntas e, assim, que lhe desenhou um contorno. Mas este é, igualmente, um livro de Susan Sontag, foi também ela que dirigiu a conversa, que deu corpo às ideias que aqui são apresentadas, às vezes partindo de livros seus, sobre a doença, sobre a fotografia, sobre as artes; outras vezes partindo de qualquer pretexto, sempre sobre o ser humano, sempre sobre a vida.
Susan Sontag, A Entrevista Completa da Rolling Stone, Jonathan Cott, Quetzal, 2026
José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.
Recolhendo fragmentos de memória, juntando-os ao que faz sentido, creio que terá sido em 2001 ou 2002, na antiga livraria Village Voice, em Paris, o momento em que assisti a uma conversa com Susan Sontag. Lembro que havia gente a ocupar recantos de todo esse pequeno espaço, ao longo das escadas e dos corredores muito apertados. Lembro que, no final, pedi um autógrafo àquela senhora de cabelo muito negro, trocámos algumas palavras e ela escreveu o seu nome devagar na folha de rosto do romance In America.

Pensei bastante se devia mencionar este episódio que pouco importa aos outros, e que muito me importa a mim. As lembranças pouco nítidas que guardo desse dia não acrescentam muito a quem não as tenha vivido. No entanto, para mim, ao ler as páginas deste volume, evoquei constantemente esse encontro no meu íntimo. Acredito que tal aconteceu porque, embora os ensaios de Susan Sontag, proporcionem a quem os lê um caminho claro nas suas reflexões, somos aqui levados ainda mais para um ambiente íntimo, de convivência direta, pessoal. Li estas páginas de forma muito parecida à maneira como, em 2001 ou 2002, nessa pequena livraria de Paris, fiquei de pé, meio hipnotizado pelo à-vontade daquela mulher, que falava de tudo como se tivesse uma chave que abrisse todos os temas.
Até quando escrevia ficção, Susan Sontag era uma pensadora e uma ensaísta. Há sempre reflexão na forma como olha qualquer assunto, como o descreve. Neste longo diálogo com Jonathan Cott, esse tom está sempre presente, apesar da leveza e, até, da despreocupada diletância de como a conversa evolui. O que consta nestas páginas foi dito em finais da década de setenta em Paris, no 16º arrondissement (não demasiado longe da livraria onde a vi, no 6º arrondissement) e, depois, numa segunda conversa, em Nova Iorque. Ou seja, trata-se de um trabalho jornalístico de outro tempo, no qual o entrevistador não precisava de provocar declarações para clickbait. Havia tempo para falar e paciência para ouvir.
Na história da literatura, a partir de certo ponto, quase todas as pessoas que escrevem acabaram por desenvolver uma voz de entrevistas, além da que apresentam nas suas obras. Por seu lado, essa voz desenvolve uma persona que, nalguns casos, marca a leitura dos próprios textos literários. Mais raro é o que acontece com Susan Sontag: as suas entrevistas são, elas próprias, merecedoras de pertencer à sua obra, quase como se fossem um género literário.
Este é um livro de Jonathan Cott, foi ele que dirigiu a conversa, que colocou as perguntas e, assim, que lhe desenhou um contorno. Mas este é, igualmente, um livro de Susan Sontag, foi também ela que dirigiu a conversa, que deu corpo às ideias que aqui são apresentadas, às vezes partindo de livros seus, sobre a doença, sobre a fotografia, sobre as artes; outras vezes partindo de qualquer pretexto, sempre sobre o ser humano, sempre sobre a vida.
Susan Sontag, A Entrevista Completa da Rolling Stone, Jonathan Cott, Quetzal, 2026
José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.
Recolhendo fragmentos de memória, juntando-os ao que faz sentido, creio que terá sido em 2001 ou 2002, na antiga livraria Village Voice, em Paris, o momento em que assisti a uma conversa com Susan Sontag. Lembro que havia gente a ocupar recantos de todo esse pequeno espaço, ao longo das escadas e dos corredores muito apertados. Lembro que, no final, pedi um autógrafo àquela senhora de cabelo muito negro, trocámos algumas palavras e ela escreveu o seu nome devagar na folha de rosto do romance In America.

Pensei bastante se devia mencionar este episódio que pouco importa aos outros, e que muito me importa a mim. As lembranças pouco nítidas que guardo desse dia não acrescentam muito a quem não as tenha vivido. No entanto, para mim, ao ler as páginas deste volume, evoquei constantemente esse encontro no meu íntimo. Acredito que tal aconteceu porque, embora os ensaios de Susan Sontag, proporcionem a quem os lê um caminho claro nas suas reflexões, somos aqui levados ainda mais para um ambiente íntimo, de convivência direta, pessoal. Li estas páginas de forma muito parecida à maneira como, em 2001 ou 2002, nessa pequena livraria de Paris, fiquei de pé, meio hipnotizado pelo à-vontade daquela mulher, que falava de tudo como se tivesse uma chave que abrisse todos os temas.
Até quando escrevia ficção, Susan Sontag era uma pensadora e uma ensaísta. Há sempre reflexão na forma como olha qualquer assunto, como o descreve. Neste longo diálogo com Jonathan Cott, esse tom está sempre presente, apesar da leveza e, até, da despreocupada diletância de como a conversa evolui. O que consta nestas páginas foi dito em finais da década de setenta em Paris, no 16º arrondissement (não demasiado longe da livraria onde a vi, no 6º arrondissement) e, depois, numa segunda conversa, em Nova Iorque. Ou seja, trata-se de um trabalho jornalístico de outro tempo, no qual o entrevistador não precisava de provocar declarações para clickbait. Havia tempo para falar e paciência para ouvir.
Na história da literatura, a partir de certo ponto, quase todas as pessoas que escrevem acabaram por desenvolver uma voz de entrevistas, além da que apresentam nas suas obras. Por seu lado, essa voz desenvolve uma persona que, nalguns casos, marca a leitura dos próprios textos literários. Mais raro é o que acontece com Susan Sontag: as suas entrevistas são, elas próprias, merecedoras de pertencer à sua obra, quase como se fossem um género literário.
Este é um livro de Jonathan Cott, foi ele que dirigiu a conversa, que colocou as perguntas e, assim, que lhe desenhou um contorno. Mas este é, igualmente, um livro de Susan Sontag, foi também ela que dirigiu a conversa, que deu corpo às ideias que aqui são apresentadas, às vezes partindo de livros seus, sobre a doença, sobre a fotografia, sobre as artes; outras vezes partindo de qualquer pretexto, sempre sobre o ser humano, sempre sobre a vida.
Susan Sontag, A Entrevista Completa da Rolling Stone, Jonathan Cott, Quetzal, 2026
José Luís Peixoto assina a rubrica Os Livros Pensam, todos os meses, no MOTIVO. Os textos estão disponíveis aqui.
Recolhendo fragmentos de memória, juntando-os ao que faz sentido, creio que terá sido em 2001 ou 2002, na antiga livraria Village Voice, em Paris, o momento em que assisti a uma conversa com Susan Sontag. Lembro que havia gente a ocupar recantos de todo esse pequeno espaço, ao longo das escadas e dos corredores muito apertados. Lembro que, no final, pedi um autógrafo àquela senhora de cabelo muito negro, trocámos algumas palavras e ela escreveu o seu nome devagar na folha de rosto do romance In America.

Pensei bastante se devia mencionar este episódio que pouco importa aos outros, e que muito me importa a mim. As lembranças pouco nítidas que guardo desse dia não acrescentam muito a quem não as tenha vivido. No entanto, para mim, ao ler as páginas deste volume, evoquei constantemente esse encontro no meu íntimo. Acredito que tal aconteceu porque, embora os ensaios de Susan Sontag, proporcionem a quem os lê um caminho claro nas suas reflexões, somos aqui levados ainda mais para um ambiente íntimo, de convivência direta, pessoal. Li estas páginas de forma muito parecida à maneira como, em 2001 ou 2002, nessa pequena livraria de Paris, fiquei de pé, meio hipnotizado pelo à-vontade daquela mulher, que falava de tudo como se tivesse uma chave que abrisse todos os temas.
Até quando escrevia ficção, Susan Sontag era uma pensadora e uma ensaísta. Há sempre reflexão na forma como olha qualquer assunto, como o descreve. Neste longo diálogo com Jonathan Cott, esse tom está sempre presente, apesar da leveza e, até, da despreocupada diletância de como a conversa evolui. O que consta nestas páginas foi dito em finais da década de setenta em Paris, no 16º arrondissement (não demasiado longe da livraria onde a vi, no 6º arrondissement) e, depois, numa segunda conversa, em Nova Iorque. Ou seja, trata-se de um trabalho jornalístico de outro tempo, no qual o entrevistador não precisava de provocar declarações para clickbait. Havia tempo para falar e paciência para ouvir.
Na história da literatura, a partir de certo ponto, quase todas as pessoas que escrevem acabaram por desenvolver uma voz de entrevistas, além da que apresentam nas suas obras. Por seu lado, essa voz desenvolve uma persona que, nalguns casos, marca a leitura dos próprios textos literários. Mais raro é o que acontece com Susan Sontag: as suas entrevistas são, elas próprias, merecedoras de pertencer à sua obra, quase como se fossem um género literário.
Este é um livro de Jonathan Cott, foi ele que dirigiu a conversa, que colocou as perguntas e, assim, que lhe desenhou um contorno. Mas este é, igualmente, um livro de Susan Sontag, foi também ela que dirigiu a conversa, que deu corpo às ideias que aqui são apresentadas, às vezes partindo de livros seus, sobre a doença, sobre a fotografia, sobre as artes; outras vezes partindo de qualquer pretexto, sempre sobre o ser humano, sempre sobre a vida.
Susan Sontag, A Entrevista Completa da Rolling Stone, Jonathan Cott, Quetzal, 2026



