#Protagonistas

Agência do Mês: Cooprativa

Sobre o lema “Zero parra, muita uva”, a Cooprativa é a agência portuguesa de design, branding e publicidade que, a partir de Torres Vedras, chegou aos quatro cantos do mundo e viu o seu talento reconhecido através de mais de 150 prémios e distinções. Antes que agosto acabe, destacamos a Cooprativa como a nossa Agência do Mês.

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24 de ago. de 2026, 11:35

A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.


O escritório da Cooprativa fica na Rua Serpa Pinto, em Torres Vedras, num prédio que já foi ourivesaria e cuja fachada mantém, ainda hoje, o desenho de uma rosa gravada na pedra. É dali que parte tudo, diz-nos André Sousa Moreira, cofundador e Diretor Criativo da agência, mesmo com escritórios em Lisboa e em Braga. "A ligação é sempre aqui, com Torres Vedras", resume, numa conversa que atravessa seis anos passados em Madrid, uma pandemia que mudou as regras do jogo e uma campanha para a WWF que acabaria por dar a volta ao mundo.


De Madrid para Torres Vedras

André Sousa Moreira tem 36 anos de idade. É natural de Torres Vedras, mas a sua criatividade ultrapassava os limites da cidade e levou-o a passar por agências como a Leo Burnett Lisboa e a Brandia Central, antes de se mudar para Espanha, onde viveu seis anos a trabalhar na Lola MullenLowe e na VML. Foi ainda em Lisboa, por volta de 2013, que, tal como muitos outros jovens portugueses, entendeu que as melhores oportunidades estavam lá fora. "Eu era uma pessoa sempre caseira, nunca me tinha passado pela cabeça ser emigrante, mas senti que não tinha nada a perder", recorda.

Essa bagagem, hoje, reconhece-a como decisiva. Entre Lisboa e Madrid, encontrou culturas de trabalho muito distintas, e foi desse contraste que nasceu boa parte da ideia do que queria, e sobretudo do que não queria, para o seu próprio projeto. Destaca a organização e o planeamento que sentiu faltarem-lhe em Espanha, e uma certa desorganização que via afetar diretamente o dia a dia de quem trabalhava nas agências. "Isso acaba por afetar muito a vida dos colaboradores. Era uma coisa que eu sabia que não queria para a nossa vida", diz.


André Sousa Moreira tem 36 anos e é cofundador da Coprativa, onde assume a direção criativa


Torres Vedras nunca foi um risco calculado

Regressar a Torres Vedras foi uma decisão que André Sousa Moreira descreve como natural, quase inevitável. Nunca chegou a equacionar a hipótese de que aquela fosse uma sede provisória, à espera de um dia se mudar para a capital. "Nunca sentimos que tivéssemos de estar em Lisboa. Creio que tivemos aí uma inconsciência saudável, por assim dizer. Não ficámos muito tempo a pensar se ia resultar fora de Lisboa", recorda, orgulhoso.

Essa inconsciência foi posta à prova nos primeiros tempos, quando o conceito de trabalho remoto ainda não estava normalizado nas empresas portuguesas, e a distância a uma grande cidade podia significar, aos olhos de alguns clientes, uma distância à criatividade e ao negócio propriamente ditos. A pandemia, sublinha, tratou de desfazer esse preconceito. "Obrigou a mudar a forma como encaramos o mundo do trabalho e a confiança de como trabalhávamos com pessoas à distância. Mostrou que o afastamento físico não é o que influencia o profissionalismo. Esse, está sempre na entrega do trabalho e na confiança depositada".

Hoje, a Cooprativa tem clientes com quem nunca se sentou fisicamente à mesma mesa, incluindo uma marca em Maputo. Ainda assim, há momentos em que a proximidade física continua a fazer diferença, sobretudo em reuniões presenciais ou em eventos que exigem estar no terreno, como fotografar uma vindima numa adega. A vantagem, nota, é a escala do próprio país. "Está tudo a duas horas de distância. Por isso, também não estamos assim tão longe".


A principal morada da Cooprativa é, desde o primeiro dia, em Torres Vedras


Três escritórios, uma só casa

A carteira de clientes da Cooprativa inclui, além da região Oeste, cadeias de fruta no Norte e uma rede de lojas de animais no Sul, além de muitas outras marcas nacionais e internacionais. Foi essa geografia de clientes, e não um plano de expansão previamente desenhado, que levou à abertura dos escritórios de Lisboa e de Braga, este último nascido para colmatar a distância de um cliente tecnológico ligado a fábricas de inteligência artificial. "Essas aberturas não faziam parte de um plano. Simplesmente aconteceram pela necessidade de estarmos mais próximos de determinados clientes", explica.

Apesar dos três pontos no mapa, a estrutura de gestão nunca se dividiu por geografia. André Sousa Moreira, Tiago Miguel Pimenta e Simão Dias, os três sócios fundadores, continuam centralizados em Torres Vedras. Os escritórios de Lisboa e Braga existem para dar resposta rápida e proximidade a clientes específicos, não para acomodar equipas fixas no dia a dia.


Na foto, da esquerda para a direita, os três sócios da Cooprativa: Tiago Miguel Pimenta, André Sousa Moreira e Simão Dias


Uma estrutura sem hierarquias rígidas

Os três sócios conheceram-se em 2022, por acaso, quando André já trazia consigo a ideia de criar uma agência própria. Foi Tiago quem, pouco depois, apresentou Simão a André. Nem sempre foi fácil encontrar uma linguagem comum: André vinha de estruturas grandes, com processos que os outros dois consideravam, à partida, estranhos para o tamanho do projeto que queriam construir. "Se calhar, hoje, sou um bocado anti-quadros, porque vinha de agências grandes", admite. A fricção inicial deu lugar, com o tempo, a um método de trabalho mais fluido, que os três descrevem como simbiótico.

Essa horizontalidade mantém-se, mesmo com a equipa a crescer. André lidera a componente criativa, ligada ao branding, design e publicidade; Simão divide-se entre a criatividade e a gestão do negócio; Tiago assume a direção executiva, com foco na estratégia e acompanhamento de clientes a curto e longo prazo. A entrada recente de um novo account executive surgiu porque a gestão deixou de caber apenas nos três sócios. Mesmo assim, garantem manter uma proximidade pouco comum em agências maiores. "Isso é bastante diferente do conceito tradicional de agência, onde às vezes se perde o contacto direto com quem tem de se falar", diz André.


"Zero parra, muita uva"

A frase que define a Cooprativa desde o início, "especialistas em ideias com zero parra, muita uva", nasceu de uma vontade simples: dizer que não gostam de excesso, do desnecessário. A expressão tem origem na relação de Torres Vedras com a vinha, mas também na forma de trabalhar da própria agência. "Não gostamos de complicar as coisas. Temos um método diferente em relação às agências mais tradicionais, cheias de processos que depois não chegam ao produto final". Não esconder essa ligação ao território pareceu-lhes, desde cedo, o caminho mais honesto. "Não fazia sentido esconder que é uma região com uma relação muito forte com o vinho. Achámos que podíamos brincar com isso".


De vídeo a agência 360º

A porta de entrada da Cooprativa foi a produção audiovisual, da adaptação de campanhas e filmes até à sua produção integral. Foi essa recusa em entregar apenas parte do processo a terceiros que empurrou a agência para um modelo cada vez mais completo, com controlo sobre toda a cadeia, do conceito à entrega final. O digital tornou-se, entretanto, a área mais constante, com contas geridas mês a mês, enquanto o branding cresce de forma mais orgânica, muitas vezes por recomendação de clientes anteriores.

Questionado sobre novas áreas de negócio, André Sousa Moreira é direto: não há, para já, nenhum serviço em falta. "Estamos numa altura de consolidação. Queremos consolidar os clientes, consolidar as nossas áreas, ver onde podemos melhorar a forma como entregamos e a qualidade com que entregamos. Isso é o mais importante".


A Cooprativa tem vindo a ganhar vários prémios nacionais e internacionais


A prova de fogo chamou-se WWF

A Cooprativa orgulha-se de ter conquistado inúmeros prémios. No site da agência, destacam as distinções do Sapo, dos Prémios M&P Criatividade, do espanhol El Sol, Prémios Lusófonos da Criatividade, Cannes Lions, AdForum PHNX Awards, entre outros. Porém, se há um projeto que André Sousa Moreira aponta como decisivo para a Cooprativa, é a campanha "Amigo de Estimação", desenvolvida para a WWF Portugal e lançada a 3 de março de 2025. 

O convite surgiu depois de a agência ter conquistado a confiança da associação em trabalhos anteriores, o que levou a WWF Portugal a convidar a Cooprativa para um pitch interno, em conjunto com a WWF Internacional. "Foi muito importante para nós ganhar a confiança de uma campanha para dar isto a conhecer à população portuguesa e tocar o coração das pessoas", recorda.

A campanha acabou por ser a maior ativação 360º feita até então pela agência: esteve no cinema, em diversos meios, abriu um telejornal nacional e incluiu uma ativação no Metro de Lisboa. O alcance surpreendeu a própria equipa. "Foi pensada para Portugal e acabou por dar que falar em Espanha, no Brasil, nos Estados Unidos e em França", conta. Chegou a ser considerada a campanha com melhores resultados alguma vez feita por um escritório nacional da WWF, reconhecimento de que a agência ainda hoje fala com evidente orgulho.



Crescer sem perder a proximidade

O crescimento da Cooprativa, sobretudo nos últimos dois anos, trouxe também um cuidado redobrado para não descaracterizar aquilo que a agência sempre foi. "Não nos queremos tornar demasiado grandes ao ponto de perdermos a nossa identidade", afirma André Sousa Moreira, para quem a criação de processos e a delegação de responsabilidades têm de acontecer sem sacrificar a proximidade com o cliente. É essa proximidade, mais do que a criatividade em si, que identifica como o verdadeiro ponto forte. "Todas as agências dizem que a criatividade é o que as distingue. O nosso ponto forte é ter cuidado com a boa entrega e com a proximidade".

Para André Sousa Moreira, viver e trabalhar fora do principal centro de negócios do país, tem vantagens que vão além da distância física. Torres Vedras dá-lhe “espaço para pensar sem estar constantemente a olhar para o que se faz ao lado”, num mercado que, em Lisboa, é mais concentrado, mas também mais ruidoso. É também, defende, “um local onde tem sido possível atrair talento com um percurso próprio”.

Questionado sobre o que diria a um criativo que pense montar o seu próprio projeto fora de uma grande cidade, não hesita dizer em que não há fórmula. "Não há momento certo, não há cidade certa, nem escritório certo, nem cliente certo. Isso é tudo uma questão de agarrar as oportunidades e aprender com isso". E acrescenta uma leitura sobre o momento que vive o setor, entre grandes grupos com estruturas antigas e dificuldade em se adaptarem rapidamente a um mercado em mudança, e agências mais pequenas, como a Cooprativa, que reivindicam nessa agilidade a sua principal vantagem competitiva. "São as estruturas mais pequenas que conseguem responder melhor à crise. É isso que temos visto".

#Protagonistas

Agência do Mês: Cooprativa

Sobre o lema “Zero parra, muita uva”, a Cooprativa é a agência portuguesa de design, branding e publicidade que, a partir de Torres Vedras, chegou aos quatro cantos do mundo e viu o seu talento reconhecido através de mais de 150 prémios e distinções. Antes que agosto acabe, destacamos a Cooprativa como a nossa Agência do Mês.

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24 de ago. de 2026, 11:35

A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.


O escritório da Cooprativa fica na Rua Serpa Pinto, em Torres Vedras, num prédio que já foi ourivesaria e cuja fachada mantém, ainda hoje, o desenho de uma rosa gravada na pedra. É dali que parte tudo, diz-nos André Sousa Moreira, cofundador e Diretor Criativo da agência, mesmo com escritórios em Lisboa e em Braga. "A ligação é sempre aqui, com Torres Vedras", resume, numa conversa que atravessa seis anos passados em Madrid, uma pandemia que mudou as regras do jogo e uma campanha para a WWF que acabaria por dar a volta ao mundo.


De Madrid para Torres Vedras

André Sousa Moreira tem 36 anos de idade. É natural de Torres Vedras, mas a sua criatividade ultrapassava os limites da cidade e levou-o a passar por agências como a Leo Burnett Lisboa e a Brandia Central, antes de se mudar para Espanha, onde viveu seis anos a trabalhar na Lola MullenLowe e na VML. Foi ainda em Lisboa, por volta de 2013, que, tal como muitos outros jovens portugueses, entendeu que as melhores oportunidades estavam lá fora. "Eu era uma pessoa sempre caseira, nunca me tinha passado pela cabeça ser emigrante, mas senti que não tinha nada a perder", recorda.

Essa bagagem, hoje, reconhece-a como decisiva. Entre Lisboa e Madrid, encontrou culturas de trabalho muito distintas, e foi desse contraste que nasceu boa parte da ideia do que queria, e sobretudo do que não queria, para o seu próprio projeto. Destaca a organização e o planeamento que sentiu faltarem-lhe em Espanha, e uma certa desorganização que via afetar diretamente o dia a dia de quem trabalhava nas agências. "Isso acaba por afetar muito a vida dos colaboradores. Era uma coisa que eu sabia que não queria para a nossa vida", diz.


André Sousa Moreira tem 36 anos e é cofundador da Coprativa, onde assume a direção criativa


Torres Vedras nunca foi um risco calculado

Regressar a Torres Vedras foi uma decisão que André Sousa Moreira descreve como natural, quase inevitável. Nunca chegou a equacionar a hipótese de que aquela fosse uma sede provisória, à espera de um dia se mudar para a capital. "Nunca sentimos que tivéssemos de estar em Lisboa. Creio que tivemos aí uma inconsciência saudável, por assim dizer. Não ficámos muito tempo a pensar se ia resultar fora de Lisboa", recorda, orgulhoso.

Essa inconsciência foi posta à prova nos primeiros tempos, quando o conceito de trabalho remoto ainda não estava normalizado nas empresas portuguesas, e a distância a uma grande cidade podia significar, aos olhos de alguns clientes, uma distância à criatividade e ao negócio propriamente ditos. A pandemia, sublinha, tratou de desfazer esse preconceito. "Obrigou a mudar a forma como encaramos o mundo do trabalho e a confiança de como trabalhávamos com pessoas à distância. Mostrou que o afastamento físico não é o que influencia o profissionalismo. Esse, está sempre na entrega do trabalho e na confiança depositada".

Hoje, a Cooprativa tem clientes com quem nunca se sentou fisicamente à mesma mesa, incluindo uma marca em Maputo. Ainda assim, há momentos em que a proximidade física continua a fazer diferença, sobretudo em reuniões presenciais ou em eventos que exigem estar no terreno, como fotografar uma vindima numa adega. A vantagem, nota, é a escala do próprio país. "Está tudo a duas horas de distância. Por isso, também não estamos assim tão longe".


A principal morada da Cooprativa é, desde o primeiro dia, em Torres Vedras


Três escritórios, uma só casa

A carteira de clientes da Cooprativa inclui, além da região Oeste, cadeias de fruta no Norte e uma rede de lojas de animais no Sul, além de muitas outras marcas nacionais e internacionais. Foi essa geografia de clientes, e não um plano de expansão previamente desenhado, que levou à abertura dos escritórios de Lisboa e de Braga, este último nascido para colmatar a distância de um cliente tecnológico ligado a fábricas de inteligência artificial. "Essas aberturas não faziam parte de um plano. Simplesmente aconteceram pela necessidade de estarmos mais próximos de determinados clientes", explica.

Apesar dos três pontos no mapa, a estrutura de gestão nunca se dividiu por geografia. André Sousa Moreira, Tiago Miguel Pimenta e Simão Dias, os três sócios fundadores, continuam centralizados em Torres Vedras. Os escritórios de Lisboa e Braga existem para dar resposta rápida e proximidade a clientes específicos, não para acomodar equipas fixas no dia a dia.


Na foto, da esquerda para a direita, os três sócios da Cooprativa: Tiago Miguel Pimenta, André Sousa Moreira e Simão Dias


Uma estrutura sem hierarquias rígidas

Os três sócios conheceram-se em 2022, por acaso, quando André já trazia consigo a ideia de criar uma agência própria. Foi Tiago quem, pouco depois, apresentou Simão a André. Nem sempre foi fácil encontrar uma linguagem comum: André vinha de estruturas grandes, com processos que os outros dois consideravam, à partida, estranhos para o tamanho do projeto que queriam construir. "Se calhar, hoje, sou um bocado anti-quadros, porque vinha de agências grandes", admite. A fricção inicial deu lugar, com o tempo, a um método de trabalho mais fluido, que os três descrevem como simbiótico.

Essa horizontalidade mantém-se, mesmo com a equipa a crescer. André lidera a componente criativa, ligada ao branding, design e publicidade; Simão divide-se entre a criatividade e a gestão do negócio; Tiago assume a direção executiva, com foco na estratégia e acompanhamento de clientes a curto e longo prazo. A entrada recente de um novo account executive surgiu porque a gestão deixou de caber apenas nos três sócios. Mesmo assim, garantem manter uma proximidade pouco comum em agências maiores. "Isso é bastante diferente do conceito tradicional de agência, onde às vezes se perde o contacto direto com quem tem de se falar", diz André.


"Zero parra, muita uva"

A frase que define a Cooprativa desde o início, "especialistas em ideias com zero parra, muita uva", nasceu de uma vontade simples: dizer que não gostam de excesso, do desnecessário. A expressão tem origem na relação de Torres Vedras com a vinha, mas também na forma de trabalhar da própria agência. "Não gostamos de complicar as coisas. Temos um método diferente em relação às agências mais tradicionais, cheias de processos que depois não chegam ao produto final". Não esconder essa ligação ao território pareceu-lhes, desde cedo, o caminho mais honesto. "Não fazia sentido esconder que é uma região com uma relação muito forte com o vinho. Achámos que podíamos brincar com isso".


De vídeo a agência 360º

A porta de entrada da Cooprativa foi a produção audiovisual, da adaptação de campanhas e filmes até à sua produção integral. Foi essa recusa em entregar apenas parte do processo a terceiros que empurrou a agência para um modelo cada vez mais completo, com controlo sobre toda a cadeia, do conceito à entrega final. O digital tornou-se, entretanto, a área mais constante, com contas geridas mês a mês, enquanto o branding cresce de forma mais orgânica, muitas vezes por recomendação de clientes anteriores.

Questionado sobre novas áreas de negócio, André Sousa Moreira é direto: não há, para já, nenhum serviço em falta. "Estamos numa altura de consolidação. Queremos consolidar os clientes, consolidar as nossas áreas, ver onde podemos melhorar a forma como entregamos e a qualidade com que entregamos. Isso é o mais importante".


A Cooprativa tem vindo a ganhar vários prémios nacionais e internacionais


A prova de fogo chamou-se WWF

A Cooprativa orgulha-se de ter conquistado inúmeros prémios. No site da agência, destacam as distinções do Sapo, dos Prémios M&P Criatividade, do espanhol El Sol, Prémios Lusófonos da Criatividade, Cannes Lions, AdForum PHNX Awards, entre outros. Porém, se há um projeto que André Sousa Moreira aponta como decisivo para a Cooprativa, é a campanha "Amigo de Estimação", desenvolvida para a WWF Portugal e lançada a 3 de março de 2025. 

O convite surgiu depois de a agência ter conquistado a confiança da associação em trabalhos anteriores, o que levou a WWF Portugal a convidar a Cooprativa para um pitch interno, em conjunto com a WWF Internacional. "Foi muito importante para nós ganhar a confiança de uma campanha para dar isto a conhecer à população portuguesa e tocar o coração das pessoas", recorda.

A campanha acabou por ser a maior ativação 360º feita até então pela agência: esteve no cinema, em diversos meios, abriu um telejornal nacional e incluiu uma ativação no Metro de Lisboa. O alcance surpreendeu a própria equipa. "Foi pensada para Portugal e acabou por dar que falar em Espanha, no Brasil, nos Estados Unidos e em França", conta. Chegou a ser considerada a campanha com melhores resultados alguma vez feita por um escritório nacional da WWF, reconhecimento de que a agência ainda hoje fala com evidente orgulho.



Crescer sem perder a proximidade

O crescimento da Cooprativa, sobretudo nos últimos dois anos, trouxe também um cuidado redobrado para não descaracterizar aquilo que a agência sempre foi. "Não nos queremos tornar demasiado grandes ao ponto de perdermos a nossa identidade", afirma André Sousa Moreira, para quem a criação de processos e a delegação de responsabilidades têm de acontecer sem sacrificar a proximidade com o cliente. É essa proximidade, mais do que a criatividade em si, que identifica como o verdadeiro ponto forte. "Todas as agências dizem que a criatividade é o que as distingue. O nosso ponto forte é ter cuidado com a boa entrega e com a proximidade".

Para André Sousa Moreira, viver e trabalhar fora do principal centro de negócios do país, tem vantagens que vão além da distância física. Torres Vedras dá-lhe “espaço para pensar sem estar constantemente a olhar para o que se faz ao lado”, num mercado que, em Lisboa, é mais concentrado, mas também mais ruidoso. É também, defende, “um local onde tem sido possível atrair talento com um percurso próprio”.

Questionado sobre o que diria a um criativo que pense montar o seu próprio projeto fora de uma grande cidade, não hesita dizer em que não há fórmula. "Não há momento certo, não há cidade certa, nem escritório certo, nem cliente certo. Isso é tudo uma questão de agarrar as oportunidades e aprender com isso". E acrescenta uma leitura sobre o momento que vive o setor, entre grandes grupos com estruturas antigas e dificuldade em se adaptarem rapidamente a um mercado em mudança, e agências mais pequenas, como a Cooprativa, que reivindicam nessa agilidade a sua principal vantagem competitiva. "São as estruturas mais pequenas que conseguem responder melhor à crise. É isso que temos visto".

#Protagonistas

Agência do Mês: Cooprativa

Sobre o lema “Zero parra, muita uva”, a Cooprativa é a agência portuguesa de design, branding e publicidade que, a partir de Torres Vedras, chegou aos quatro cantos do mundo e viu o seu talento reconhecido através de mais de 150 prémios e distinções. Antes que agosto acabe, destacamos a Cooprativa como a nossa Agência do Mês.

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24 de ago. de 2026, 11:35

A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.


O escritório da Cooprativa fica na Rua Serpa Pinto, em Torres Vedras, num prédio que já foi ourivesaria e cuja fachada mantém, ainda hoje, o desenho de uma rosa gravada na pedra. É dali que parte tudo, diz-nos André Sousa Moreira, cofundador e Diretor Criativo da agência, mesmo com escritórios em Lisboa e em Braga. "A ligação é sempre aqui, com Torres Vedras", resume, numa conversa que atravessa seis anos passados em Madrid, uma pandemia que mudou as regras do jogo e uma campanha para a WWF que acabaria por dar a volta ao mundo.


De Madrid para Torres Vedras

André Sousa Moreira tem 36 anos de idade. É natural de Torres Vedras, mas a sua criatividade ultrapassava os limites da cidade e levou-o a passar por agências como a Leo Burnett Lisboa e a Brandia Central, antes de se mudar para Espanha, onde viveu seis anos a trabalhar na Lola MullenLowe e na VML. Foi ainda em Lisboa, por volta de 2013, que, tal como muitos outros jovens portugueses, entendeu que as melhores oportunidades estavam lá fora. "Eu era uma pessoa sempre caseira, nunca me tinha passado pela cabeça ser emigrante, mas senti que não tinha nada a perder", recorda.

Essa bagagem, hoje, reconhece-a como decisiva. Entre Lisboa e Madrid, encontrou culturas de trabalho muito distintas, e foi desse contraste que nasceu boa parte da ideia do que queria, e sobretudo do que não queria, para o seu próprio projeto. Destaca a organização e o planeamento que sentiu faltarem-lhe em Espanha, e uma certa desorganização que via afetar diretamente o dia a dia de quem trabalhava nas agências. "Isso acaba por afetar muito a vida dos colaboradores. Era uma coisa que eu sabia que não queria para a nossa vida", diz.


André Sousa Moreira tem 36 anos e é cofundador da Coprativa, onde assume a direção criativa


Torres Vedras nunca foi um risco calculado

Regressar a Torres Vedras foi uma decisão que André Sousa Moreira descreve como natural, quase inevitável. Nunca chegou a equacionar a hipótese de que aquela fosse uma sede provisória, à espera de um dia se mudar para a capital. "Nunca sentimos que tivéssemos de estar em Lisboa. Creio que tivemos aí uma inconsciência saudável, por assim dizer. Não ficámos muito tempo a pensar se ia resultar fora de Lisboa", recorda, orgulhoso.

Essa inconsciência foi posta à prova nos primeiros tempos, quando o conceito de trabalho remoto ainda não estava normalizado nas empresas portuguesas, e a distância a uma grande cidade podia significar, aos olhos de alguns clientes, uma distância à criatividade e ao negócio propriamente ditos. A pandemia, sublinha, tratou de desfazer esse preconceito. "Obrigou a mudar a forma como encaramos o mundo do trabalho e a confiança de como trabalhávamos com pessoas à distância. Mostrou que o afastamento físico não é o que influencia o profissionalismo. Esse, está sempre na entrega do trabalho e na confiança depositada".

Hoje, a Cooprativa tem clientes com quem nunca se sentou fisicamente à mesma mesa, incluindo uma marca em Maputo. Ainda assim, há momentos em que a proximidade física continua a fazer diferença, sobretudo em reuniões presenciais ou em eventos que exigem estar no terreno, como fotografar uma vindima numa adega. A vantagem, nota, é a escala do próprio país. "Está tudo a duas horas de distância. Por isso, também não estamos assim tão longe".


A principal morada da Cooprativa é, desde o primeiro dia, em Torres Vedras


Três escritórios, uma só casa

A carteira de clientes da Cooprativa inclui, além da região Oeste, cadeias de fruta no Norte e uma rede de lojas de animais no Sul, além de muitas outras marcas nacionais e internacionais. Foi essa geografia de clientes, e não um plano de expansão previamente desenhado, que levou à abertura dos escritórios de Lisboa e de Braga, este último nascido para colmatar a distância de um cliente tecnológico ligado a fábricas de inteligência artificial. "Essas aberturas não faziam parte de um plano. Simplesmente aconteceram pela necessidade de estarmos mais próximos de determinados clientes", explica.

Apesar dos três pontos no mapa, a estrutura de gestão nunca se dividiu por geografia. André Sousa Moreira, Tiago Miguel Pimenta e Simão Dias, os três sócios fundadores, continuam centralizados em Torres Vedras. Os escritórios de Lisboa e Braga existem para dar resposta rápida e proximidade a clientes específicos, não para acomodar equipas fixas no dia a dia.


Na foto, da esquerda para a direita, os três sócios da Cooprativa: Tiago Miguel Pimenta, André Sousa Moreira e Simão Dias


Uma estrutura sem hierarquias rígidas

Os três sócios conheceram-se em 2022, por acaso, quando André já trazia consigo a ideia de criar uma agência própria. Foi Tiago quem, pouco depois, apresentou Simão a André. Nem sempre foi fácil encontrar uma linguagem comum: André vinha de estruturas grandes, com processos que os outros dois consideravam, à partida, estranhos para o tamanho do projeto que queriam construir. "Se calhar, hoje, sou um bocado anti-quadros, porque vinha de agências grandes", admite. A fricção inicial deu lugar, com o tempo, a um método de trabalho mais fluido, que os três descrevem como simbiótico.

Essa horizontalidade mantém-se, mesmo com a equipa a crescer. André lidera a componente criativa, ligada ao branding, design e publicidade; Simão divide-se entre a criatividade e a gestão do negócio; Tiago assume a direção executiva, com foco na estratégia e acompanhamento de clientes a curto e longo prazo. A entrada recente de um novo account executive surgiu porque a gestão deixou de caber apenas nos três sócios. Mesmo assim, garantem manter uma proximidade pouco comum em agências maiores. "Isso é bastante diferente do conceito tradicional de agência, onde às vezes se perde o contacto direto com quem tem de se falar", diz André.


"Zero parra, muita uva"

A frase que define a Cooprativa desde o início, "especialistas em ideias com zero parra, muita uva", nasceu de uma vontade simples: dizer que não gostam de excesso, do desnecessário. A expressão tem origem na relação de Torres Vedras com a vinha, mas também na forma de trabalhar da própria agência. "Não gostamos de complicar as coisas. Temos um método diferente em relação às agências mais tradicionais, cheias de processos que depois não chegam ao produto final". Não esconder essa ligação ao território pareceu-lhes, desde cedo, o caminho mais honesto. "Não fazia sentido esconder que é uma região com uma relação muito forte com o vinho. Achámos que podíamos brincar com isso".


De vídeo a agência 360º

A porta de entrada da Cooprativa foi a produção audiovisual, da adaptação de campanhas e filmes até à sua produção integral. Foi essa recusa em entregar apenas parte do processo a terceiros que empurrou a agência para um modelo cada vez mais completo, com controlo sobre toda a cadeia, do conceito à entrega final. O digital tornou-se, entretanto, a área mais constante, com contas geridas mês a mês, enquanto o branding cresce de forma mais orgânica, muitas vezes por recomendação de clientes anteriores.

Questionado sobre novas áreas de negócio, André Sousa Moreira é direto: não há, para já, nenhum serviço em falta. "Estamos numa altura de consolidação. Queremos consolidar os clientes, consolidar as nossas áreas, ver onde podemos melhorar a forma como entregamos e a qualidade com que entregamos. Isso é o mais importante".


A Cooprativa tem vindo a ganhar vários prémios nacionais e internacionais


A prova de fogo chamou-se WWF

A Cooprativa orgulha-se de ter conquistado inúmeros prémios. No site da agência, destacam as distinções do Sapo, dos Prémios M&P Criatividade, do espanhol El Sol, Prémios Lusófonos da Criatividade, Cannes Lions, AdForum PHNX Awards, entre outros. Porém, se há um projeto que André Sousa Moreira aponta como decisivo para a Cooprativa, é a campanha "Amigo de Estimação", desenvolvida para a WWF Portugal e lançada a 3 de março de 2025. 

O convite surgiu depois de a agência ter conquistado a confiança da associação em trabalhos anteriores, o que levou a WWF Portugal a convidar a Cooprativa para um pitch interno, em conjunto com a WWF Internacional. "Foi muito importante para nós ganhar a confiança de uma campanha para dar isto a conhecer à população portuguesa e tocar o coração das pessoas", recorda.

A campanha acabou por ser a maior ativação 360º feita até então pela agência: esteve no cinema, em diversos meios, abriu um telejornal nacional e incluiu uma ativação no Metro de Lisboa. O alcance surpreendeu a própria equipa. "Foi pensada para Portugal e acabou por dar que falar em Espanha, no Brasil, nos Estados Unidos e em França", conta. Chegou a ser considerada a campanha com melhores resultados alguma vez feita por um escritório nacional da WWF, reconhecimento de que a agência ainda hoje fala com evidente orgulho.



Crescer sem perder a proximidade

O crescimento da Cooprativa, sobretudo nos últimos dois anos, trouxe também um cuidado redobrado para não descaracterizar aquilo que a agência sempre foi. "Não nos queremos tornar demasiado grandes ao ponto de perdermos a nossa identidade", afirma André Sousa Moreira, para quem a criação de processos e a delegação de responsabilidades têm de acontecer sem sacrificar a proximidade com o cliente. É essa proximidade, mais do que a criatividade em si, que identifica como o verdadeiro ponto forte. "Todas as agências dizem que a criatividade é o que as distingue. O nosso ponto forte é ter cuidado com a boa entrega e com a proximidade".

Para André Sousa Moreira, viver e trabalhar fora do principal centro de negócios do país, tem vantagens que vão além da distância física. Torres Vedras dá-lhe “espaço para pensar sem estar constantemente a olhar para o que se faz ao lado”, num mercado que, em Lisboa, é mais concentrado, mas também mais ruidoso. É também, defende, “um local onde tem sido possível atrair talento com um percurso próprio”.

Questionado sobre o que diria a um criativo que pense montar o seu próprio projeto fora de uma grande cidade, não hesita dizer em que não há fórmula. "Não há momento certo, não há cidade certa, nem escritório certo, nem cliente certo. Isso é tudo uma questão de agarrar as oportunidades e aprender com isso". E acrescenta uma leitura sobre o momento que vive o setor, entre grandes grupos com estruturas antigas e dificuldade em se adaptarem rapidamente a um mercado em mudança, e agências mais pequenas, como a Cooprativa, que reivindicam nessa agilidade a sua principal vantagem competitiva. "São as estruturas mais pequenas que conseguem responder melhor à crise. É isso que temos visto".

#Protagonistas

Agência do Mês: Cooprativa

Sobre o lema “Zero parra, muita uva”, a Cooprativa é a agência portuguesa de design, branding e publicidade que, a partir de Torres Vedras, chegou aos quatro cantos do mundo e viu o seu talento reconhecido através de mais de 150 prémios e distinções. Antes que agosto acabe, destacamos a Cooprativa como a nossa Agência do Mês.

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24 de ago. de 2026, 11:35

A série de reportagens Agência do Mês parte do imaginário norte-americano do Employee of The Month para destacar o trabalho de uma agência portuguesa. Não é um ranking. Não é um prémio. É um mergulho mais demorado nas estruturas que se revelam essenciais a tantos negócios e que, quase sempre, permanecem na sombra. É o reconhecimento do MOTIVO ao trabalho que desenvolvem. E é mais uma oportunidade de dar a conhecer empresas que merecem.


O escritório da Cooprativa fica na Rua Serpa Pinto, em Torres Vedras, num prédio que já foi ourivesaria e cuja fachada mantém, ainda hoje, o desenho de uma rosa gravada na pedra. É dali que parte tudo, diz-nos André Sousa Moreira, cofundador e Diretor Criativo da agência, mesmo com escritórios em Lisboa e em Braga. "A ligação é sempre aqui, com Torres Vedras", resume, numa conversa que atravessa seis anos passados em Madrid, uma pandemia que mudou as regras do jogo e uma campanha para a WWF que acabaria por dar a volta ao mundo.


De Madrid para Torres Vedras

André Sousa Moreira tem 36 anos de idade. É natural de Torres Vedras, mas a sua criatividade ultrapassava os limites da cidade e levou-o a passar por agências como a Leo Burnett Lisboa e a Brandia Central, antes de se mudar para Espanha, onde viveu seis anos a trabalhar na Lola MullenLowe e na VML. Foi ainda em Lisboa, por volta de 2013, que, tal como muitos outros jovens portugueses, entendeu que as melhores oportunidades estavam lá fora. "Eu era uma pessoa sempre caseira, nunca me tinha passado pela cabeça ser emigrante, mas senti que não tinha nada a perder", recorda.

Essa bagagem, hoje, reconhece-a como decisiva. Entre Lisboa e Madrid, encontrou culturas de trabalho muito distintas, e foi desse contraste que nasceu boa parte da ideia do que queria, e sobretudo do que não queria, para o seu próprio projeto. Destaca a organização e o planeamento que sentiu faltarem-lhe em Espanha, e uma certa desorganização que via afetar diretamente o dia a dia de quem trabalhava nas agências. "Isso acaba por afetar muito a vida dos colaboradores. Era uma coisa que eu sabia que não queria para a nossa vida", diz.


André Sousa Moreira tem 36 anos e é cofundador da Coprativa, onde assume a direção criativa


Torres Vedras nunca foi um risco calculado

Regressar a Torres Vedras foi uma decisão que André Sousa Moreira descreve como natural, quase inevitável. Nunca chegou a equacionar a hipótese de que aquela fosse uma sede provisória, à espera de um dia se mudar para a capital. "Nunca sentimos que tivéssemos de estar em Lisboa. Creio que tivemos aí uma inconsciência saudável, por assim dizer. Não ficámos muito tempo a pensar se ia resultar fora de Lisboa", recorda, orgulhoso.

Essa inconsciência foi posta à prova nos primeiros tempos, quando o conceito de trabalho remoto ainda não estava normalizado nas empresas portuguesas, e a distância a uma grande cidade podia significar, aos olhos de alguns clientes, uma distância à criatividade e ao negócio propriamente ditos. A pandemia, sublinha, tratou de desfazer esse preconceito. "Obrigou a mudar a forma como encaramos o mundo do trabalho e a confiança de como trabalhávamos com pessoas à distância. Mostrou que o afastamento físico não é o que influencia o profissionalismo. Esse, está sempre na entrega do trabalho e na confiança depositada".

Hoje, a Cooprativa tem clientes com quem nunca se sentou fisicamente à mesma mesa, incluindo uma marca em Maputo. Ainda assim, há momentos em que a proximidade física continua a fazer diferença, sobretudo em reuniões presenciais ou em eventos que exigem estar no terreno, como fotografar uma vindima numa adega. A vantagem, nota, é a escala do próprio país. "Está tudo a duas horas de distância. Por isso, também não estamos assim tão longe".


A principal morada da Cooprativa é, desde o primeiro dia, em Torres Vedras


Três escritórios, uma só casa

A carteira de clientes da Cooprativa inclui, além da região Oeste, cadeias de fruta no Norte e uma rede de lojas de animais no Sul, além de muitas outras marcas nacionais e internacionais. Foi essa geografia de clientes, e não um plano de expansão previamente desenhado, que levou à abertura dos escritórios de Lisboa e de Braga, este último nascido para colmatar a distância de um cliente tecnológico ligado a fábricas de inteligência artificial. "Essas aberturas não faziam parte de um plano. Simplesmente aconteceram pela necessidade de estarmos mais próximos de determinados clientes", explica.

Apesar dos três pontos no mapa, a estrutura de gestão nunca se dividiu por geografia. André Sousa Moreira, Tiago Miguel Pimenta e Simão Dias, os três sócios fundadores, continuam centralizados em Torres Vedras. Os escritórios de Lisboa e Braga existem para dar resposta rápida e proximidade a clientes específicos, não para acomodar equipas fixas no dia a dia.


Na foto, da esquerda para a direita, os três sócios da Cooprativa: Tiago Miguel Pimenta, André Sousa Moreira e Simão Dias


Uma estrutura sem hierarquias rígidas

Os três sócios conheceram-se em 2022, por acaso, quando André já trazia consigo a ideia de criar uma agência própria. Foi Tiago quem, pouco depois, apresentou Simão a André. Nem sempre foi fácil encontrar uma linguagem comum: André vinha de estruturas grandes, com processos que os outros dois consideravam, à partida, estranhos para o tamanho do projeto que queriam construir. "Se calhar, hoje, sou um bocado anti-quadros, porque vinha de agências grandes", admite. A fricção inicial deu lugar, com o tempo, a um método de trabalho mais fluido, que os três descrevem como simbiótico.

Essa horizontalidade mantém-se, mesmo com a equipa a crescer. André lidera a componente criativa, ligada ao branding, design e publicidade; Simão divide-se entre a criatividade e a gestão do negócio; Tiago assume a direção executiva, com foco na estratégia e acompanhamento de clientes a curto e longo prazo. A entrada recente de um novo account executive surgiu porque a gestão deixou de caber apenas nos três sócios. Mesmo assim, garantem manter uma proximidade pouco comum em agências maiores. "Isso é bastante diferente do conceito tradicional de agência, onde às vezes se perde o contacto direto com quem tem de se falar", diz André.


"Zero parra, muita uva"

A frase que define a Cooprativa desde o início, "especialistas em ideias com zero parra, muita uva", nasceu de uma vontade simples: dizer que não gostam de excesso, do desnecessário. A expressão tem origem na relação de Torres Vedras com a vinha, mas também na forma de trabalhar da própria agência. "Não gostamos de complicar as coisas. Temos um método diferente em relação às agências mais tradicionais, cheias de processos que depois não chegam ao produto final". Não esconder essa ligação ao território pareceu-lhes, desde cedo, o caminho mais honesto. "Não fazia sentido esconder que é uma região com uma relação muito forte com o vinho. Achámos que podíamos brincar com isso".


De vídeo a agência 360º

A porta de entrada da Cooprativa foi a produção audiovisual, da adaptação de campanhas e filmes até à sua produção integral. Foi essa recusa em entregar apenas parte do processo a terceiros que empurrou a agência para um modelo cada vez mais completo, com controlo sobre toda a cadeia, do conceito à entrega final. O digital tornou-se, entretanto, a área mais constante, com contas geridas mês a mês, enquanto o branding cresce de forma mais orgânica, muitas vezes por recomendação de clientes anteriores.

Questionado sobre novas áreas de negócio, André Sousa Moreira é direto: não há, para já, nenhum serviço em falta. "Estamos numa altura de consolidação. Queremos consolidar os clientes, consolidar as nossas áreas, ver onde podemos melhorar a forma como entregamos e a qualidade com que entregamos. Isso é o mais importante".


A Cooprativa tem vindo a ganhar vários prémios nacionais e internacionais


A prova de fogo chamou-se WWF

A Cooprativa orgulha-se de ter conquistado inúmeros prémios. No site da agência, destacam as distinções do Sapo, dos Prémios M&P Criatividade, do espanhol El Sol, Prémios Lusófonos da Criatividade, Cannes Lions, AdForum PHNX Awards, entre outros. Porém, se há um projeto que André Sousa Moreira aponta como decisivo para a Cooprativa, é a campanha "Amigo de Estimação", desenvolvida para a WWF Portugal e lançada a 3 de março de 2025. 

O convite surgiu depois de a agência ter conquistado a confiança da associação em trabalhos anteriores, o que levou a WWF Portugal a convidar a Cooprativa para um pitch interno, em conjunto com a WWF Internacional. "Foi muito importante para nós ganhar a confiança de uma campanha para dar isto a conhecer à população portuguesa e tocar o coração das pessoas", recorda.

A campanha acabou por ser a maior ativação 360º feita até então pela agência: esteve no cinema, em diversos meios, abriu um telejornal nacional e incluiu uma ativação no Metro de Lisboa. O alcance surpreendeu a própria equipa. "Foi pensada para Portugal e acabou por dar que falar em Espanha, no Brasil, nos Estados Unidos e em França", conta. Chegou a ser considerada a campanha com melhores resultados alguma vez feita por um escritório nacional da WWF, reconhecimento de que a agência ainda hoje fala com evidente orgulho.



Crescer sem perder a proximidade

O crescimento da Cooprativa, sobretudo nos últimos dois anos, trouxe também um cuidado redobrado para não descaracterizar aquilo que a agência sempre foi. "Não nos queremos tornar demasiado grandes ao ponto de perdermos a nossa identidade", afirma André Sousa Moreira, para quem a criação de processos e a delegação de responsabilidades têm de acontecer sem sacrificar a proximidade com o cliente. É essa proximidade, mais do que a criatividade em si, que identifica como o verdadeiro ponto forte. "Todas as agências dizem que a criatividade é o que as distingue. O nosso ponto forte é ter cuidado com a boa entrega e com a proximidade".

Para André Sousa Moreira, viver e trabalhar fora do principal centro de negócios do país, tem vantagens que vão além da distância física. Torres Vedras dá-lhe “espaço para pensar sem estar constantemente a olhar para o que se faz ao lado”, num mercado que, em Lisboa, é mais concentrado, mas também mais ruidoso. É também, defende, “um local onde tem sido possível atrair talento com um percurso próprio”.

Questionado sobre o que diria a um criativo que pense montar o seu próprio projeto fora de uma grande cidade, não hesita dizer em que não há fórmula. "Não há momento certo, não há cidade certa, nem escritório certo, nem cliente certo. Isso é tudo uma questão de agarrar as oportunidades e aprender com isso". E acrescenta uma leitura sobre o momento que vive o setor, entre grandes grupos com estruturas antigas e dificuldade em se adaptarem rapidamente a um mercado em mudança, e agências mais pequenas, como a Cooprativa, que reivindicam nessa agilidade a sua principal vantagem competitiva. "São as estruturas mais pequenas que conseguem responder melhor à crise. É isso que temos visto".

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