
#Protagonistas
Seis perguntas a Pedro Andersson
Falar de dinheiro também é falar de medo, comparação, hábitos e decisões tomadas ao longo dos anos que pesam tanto como o salário. No novo livro, Dinheiro à Prova de Crises, Pedro Andersson explica porque organizar as finanças começa muito antes de escolher onde investir. Foi esse o ponto de partida para estas Seis perguntas.
Depois de tantos anos a falar de dinheiro, o que é que ainda o surpreende nas questões que os portugueses lhe fazem?
PEDRO ANDERSSON — Ainda me surpreende perceber que muitas das dúvidas não têm verdadeiramente a ver com dinheiro. Têm a ver com medo, insegurança, culpa, expectativas e comparação com os outros. Às vezes, perguntam-me: “Onde devo investir 10 mil euros?”. Mas, quando começamos a conversar, percebo que a verdadeira pergunta é: “Tenho medo de perder este dinheiro. O que faço?”, “Está toda a gente a investir nisto, também o devo fazer?”. Ou: “Será que estou atrasado em relação aos outros?”. Também continua a surpreender-me a quantidade de pessoas que ganham razoavelmente bem e chegam ao fim do mês sem saber onde gastaram o dinheiro. E o contrário: pessoas com rendimentos muito modestos que conseguem organizar-se extraordinariamente bem. Ao fim destes anos, estou cada vez mais convencido de que literacia financeira não é apenas saber fazer contas. É aprender a tomar decisões e manter o rumo definido.

O título deste novo livro promete dinheiro “à prova de crises”. O que aprendeu, pessoalmente, sobre manter a cabeça fria quando tudo à volta parece instável?
P.A. — Aprendi que a melhor maneira de manter a cabeça fria durante uma crise é preparar as decisões antes da crise chegar. Quando tudo está a correr bem é que devemos construir um fundo de emergência, evitar créditos desnecessários, investir de forma diversificada e perceber quanto risco conseguimos realmente suportar. Porque há uma enorme diferença entre dizer “eu aguento uma queda de 30%” quando a bolsa está a subir, e mais tarde ver, efetivamente, 30% do nosso dinheiro desaparecer do ecrã. Também aprendi que não podemos preparar-nos para uma crise específica. Ninguém sabe qual será a próxima. O que podemos fazer é construir uma vida financeira suficientemente resistente para aguentar vários tipos de imprevistos. É essa a ideia de Dinheiro à Prova de Crises: não é tornar o dinheiro indestrutível. Isso não existe. É estarmos mais preparados quando alguma coisa corre mal, seja qual for a origem. Não nos devemos iludir, é apenas uma questão de tempo.
Porque é que duas pessoas com salários semelhantes podem chegar ao fim do mês em situações financeiras tão diferentes?
P.A. — Porque o salário é apenas uma parte da equação. Duas pessoas podem ganhar 2.000 euros e uma ter 20 mil euros investidos enquanto a outra tem 20 mil euros em créditos. A diferença pode estar nas decisões que tomaram durante 5, 10 ou 20 anos. Há despesas que se transformam em hábitos e depois praticamente deixam de ser questionadas. A casa, o carro, os créditos, as férias, as subscrições, as compras por impulso. Individualmente, parecem pequenas decisões. Somadas durante anos, podem representar dezenas ou centenas de milhares de euros. Por isso, digo muitas vezes que não interessa apenas quanto ganha. Interessa, sobretudo, o que faz com aquilo que ganha. E, obviamente, isto não significa ignorar que há muitas famílias portuguesas com rendimentos tão baixos que praticamente não têm margem de manobra. Não podemos transformar todos os problemas financeiros em problemas de comportamento.
Os seus livros já venderam mais de 100 mil exemplares. O que sente que os leitores procuram em si que nem sempre encontram na linguagem tradicional sobre finanças?
P.A. — Acho que procuram alguém que fale de dinheiro como uma pessoa normal. Não sou economista, nem gestor de fundos, nem banqueiro. Sou jornalista. A minha profissão é fazer perguntas, tentar perceber as respostas e depois explicá-las de uma maneira que qualquer pessoa consiga entender. Tive também a “vantagem” de ter começado a partir do zero, quando bati com a cabeça na parede com uma crise financeira (em 2007), como as que refiro no livro. Descobri nessa altura que não sabia nada sobre dinheiro. E faço uma coisa que considero importante: experimento todas estas coisas com o meu próprio dinheiro. Tenho Certificados de Aforro, PPR, ETF, ações, ouro, metais preciosos, fundos de investimento, criptomoedas, P2P... Já ganhei dinheiro, já perdi dinheiro e já tomei decisões de que me arrependi. Talvez isso crie uma relação diferente com quem me lê. Não estou a dizer “faça isto porque eu sei mais do que o leitor”. Estou a dizer: “Eu descobri que isto funciona assim. Agora faça as suas contas e decida se faz sentido para si". O meu objetivo nunca foi dizer às pessoas o que devem fazer com o dinheiro. É dar-lhes ferramentas para deixarem de depender dos outros para tomar essas decisões.

Escrever sobre dinheiro obriga-o também a rever os seus próprios hábitos e escolhas? Que conselho já deu muitas vezes e continua a ter de aplicar a si próprio?
P.A. — Constantemente. E ainda bem. Provavelmente o conselho que mais tenho de recordar a mim próprio é que não devemos confundir aquilo que queremos com aquilo de que precisamos. Quando começamos a ganhar mais dinheiro, é muito fácil aumentar automaticamente o nível de vida. Um carro melhor, uma casa melhor, férias melhores, restaurantes melhores. Não há, necessariamente, nada de errado nisso. Trabalhamos, também, para usufruir do dinheiro. O problema começa quando todas as subidas de rendimento são imediatamente absorvidas por novas despesas. Ganhamos mais, mas continuamos sem margem financeira. Também tenho de me lembrar de outra coisa que digo muitas vezes: não precisamos de aproveitar todas as oportunidades de investimento. Às vezes, não fazer nada é uma decisão financeira perfeitamente legítima.
Se tivesse de escolher uma única mudança de comportamento capaz de melhorar a relação de alguém com o dinheiro durante muitos anos, qual seria?
P.A. — Criar o hábito de pagar primeiro a si próprio. No dia em que recebe o salário, uma parte deve desaparecer automaticamente da conta à ordem para uma poupança ou investimento. Antes da prestação da casa, antes das compras, antes dos restaurantes, antes de tudo o resto. Pode começar com 10 euros, 50 euros ou 100 euros. O valor inicial é menos importante do que criar o hábito. Porque há uma diferença enorme entre poupar aquilo que sobra no fim do mês e gastar aquilo que sobra depois de poupar. Se tivesse de resumir quase tudo o que aprendi sobre finanças pessoais numa única ideia, seria esta: não espere ter mais dinheiro para começar a organizar a sua vida financeira. Organize a sua vida financeira para começar a ter mais dinheiro.
(C) Neusa Ayres / Contraponto

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Seis perguntas a Pedro Andersson
Falar de dinheiro também é falar de medo, comparação, hábitos e decisões tomadas ao longo dos anos que pesam tanto como o salário. No novo livro, Dinheiro à Prova de Crises, Pedro Andersson explica porque organizar as finanças começa muito antes de escolher onde investir. Foi esse o ponto de partida para estas Seis perguntas.
Depois de tantos anos a falar de dinheiro, o que é que ainda o surpreende nas questões que os portugueses lhe fazem?
PEDRO ANDERSSON — Ainda me surpreende perceber que muitas das dúvidas não têm verdadeiramente a ver com dinheiro. Têm a ver com medo, insegurança, culpa, expectativas e comparação com os outros. Às vezes, perguntam-me: “Onde devo investir 10 mil euros?”. Mas, quando começamos a conversar, percebo que a verdadeira pergunta é: “Tenho medo de perder este dinheiro. O que faço?”, “Está toda a gente a investir nisto, também o devo fazer?”. Ou: “Será que estou atrasado em relação aos outros?”. Também continua a surpreender-me a quantidade de pessoas que ganham razoavelmente bem e chegam ao fim do mês sem saber onde gastaram o dinheiro. E o contrário: pessoas com rendimentos muito modestos que conseguem organizar-se extraordinariamente bem. Ao fim destes anos, estou cada vez mais convencido de que literacia financeira não é apenas saber fazer contas. É aprender a tomar decisões e manter o rumo definido.

O título deste novo livro promete dinheiro “à prova de crises”. O que aprendeu, pessoalmente, sobre manter a cabeça fria quando tudo à volta parece instável?
P.A. — Aprendi que a melhor maneira de manter a cabeça fria durante uma crise é preparar as decisões antes da crise chegar. Quando tudo está a correr bem é que devemos construir um fundo de emergência, evitar créditos desnecessários, investir de forma diversificada e perceber quanto risco conseguimos realmente suportar. Porque há uma enorme diferença entre dizer “eu aguento uma queda de 30%” quando a bolsa está a subir, e mais tarde ver, efetivamente, 30% do nosso dinheiro desaparecer do ecrã. Também aprendi que não podemos preparar-nos para uma crise específica. Ninguém sabe qual será a próxima. O que podemos fazer é construir uma vida financeira suficientemente resistente para aguentar vários tipos de imprevistos. É essa a ideia de Dinheiro à Prova de Crises: não é tornar o dinheiro indestrutível. Isso não existe. É estarmos mais preparados quando alguma coisa corre mal, seja qual for a origem. Não nos devemos iludir, é apenas uma questão de tempo.
Porque é que duas pessoas com salários semelhantes podem chegar ao fim do mês em situações financeiras tão diferentes?
P.A. — Porque o salário é apenas uma parte da equação. Duas pessoas podem ganhar 2.000 euros e uma ter 20 mil euros investidos enquanto a outra tem 20 mil euros em créditos. A diferença pode estar nas decisões que tomaram durante 5, 10 ou 20 anos. Há despesas que se transformam em hábitos e depois praticamente deixam de ser questionadas. A casa, o carro, os créditos, as férias, as subscrições, as compras por impulso. Individualmente, parecem pequenas decisões. Somadas durante anos, podem representar dezenas ou centenas de milhares de euros. Por isso, digo muitas vezes que não interessa apenas quanto ganha. Interessa, sobretudo, o que faz com aquilo que ganha. E, obviamente, isto não significa ignorar que há muitas famílias portuguesas com rendimentos tão baixos que praticamente não têm margem de manobra. Não podemos transformar todos os problemas financeiros em problemas de comportamento.
Os seus livros já venderam mais de 100 mil exemplares. O que sente que os leitores procuram em si que nem sempre encontram na linguagem tradicional sobre finanças?
P.A. — Acho que procuram alguém que fale de dinheiro como uma pessoa normal. Não sou economista, nem gestor de fundos, nem banqueiro. Sou jornalista. A minha profissão é fazer perguntas, tentar perceber as respostas e depois explicá-las de uma maneira que qualquer pessoa consiga entender. Tive também a “vantagem” de ter começado a partir do zero, quando bati com a cabeça na parede com uma crise financeira (em 2007), como as que refiro no livro. Descobri nessa altura que não sabia nada sobre dinheiro. E faço uma coisa que considero importante: experimento todas estas coisas com o meu próprio dinheiro. Tenho Certificados de Aforro, PPR, ETF, ações, ouro, metais preciosos, fundos de investimento, criptomoedas, P2P... Já ganhei dinheiro, já perdi dinheiro e já tomei decisões de que me arrependi. Talvez isso crie uma relação diferente com quem me lê. Não estou a dizer “faça isto porque eu sei mais do que o leitor”. Estou a dizer: “Eu descobri que isto funciona assim. Agora faça as suas contas e decida se faz sentido para si". O meu objetivo nunca foi dizer às pessoas o que devem fazer com o dinheiro. É dar-lhes ferramentas para deixarem de depender dos outros para tomar essas decisões.

Escrever sobre dinheiro obriga-o também a rever os seus próprios hábitos e escolhas? Que conselho já deu muitas vezes e continua a ter de aplicar a si próprio?
P.A. — Constantemente. E ainda bem. Provavelmente o conselho que mais tenho de recordar a mim próprio é que não devemos confundir aquilo que queremos com aquilo de que precisamos. Quando começamos a ganhar mais dinheiro, é muito fácil aumentar automaticamente o nível de vida. Um carro melhor, uma casa melhor, férias melhores, restaurantes melhores. Não há, necessariamente, nada de errado nisso. Trabalhamos, também, para usufruir do dinheiro. O problema começa quando todas as subidas de rendimento são imediatamente absorvidas por novas despesas. Ganhamos mais, mas continuamos sem margem financeira. Também tenho de me lembrar de outra coisa que digo muitas vezes: não precisamos de aproveitar todas as oportunidades de investimento. Às vezes, não fazer nada é uma decisão financeira perfeitamente legítima.
Se tivesse de escolher uma única mudança de comportamento capaz de melhorar a relação de alguém com o dinheiro durante muitos anos, qual seria?
P.A. — Criar o hábito de pagar primeiro a si próprio. No dia em que recebe o salário, uma parte deve desaparecer automaticamente da conta à ordem para uma poupança ou investimento. Antes da prestação da casa, antes das compras, antes dos restaurantes, antes de tudo o resto. Pode começar com 10 euros, 50 euros ou 100 euros. O valor inicial é menos importante do que criar o hábito. Porque há uma diferença enorme entre poupar aquilo que sobra no fim do mês e gastar aquilo que sobra depois de poupar. Se tivesse de resumir quase tudo o que aprendi sobre finanças pessoais numa única ideia, seria esta: não espere ter mais dinheiro para começar a organizar a sua vida financeira. Organize a sua vida financeira para começar a ter mais dinheiro.
(C) Neusa Ayres / Contraponto

#Protagonistas
Seis perguntas a Pedro Andersson
Falar de dinheiro também é falar de medo, comparação, hábitos e decisões tomadas ao longo dos anos que pesam tanto como o salário. No novo livro, Dinheiro à Prova de Crises, Pedro Andersson explica porque organizar as finanças começa muito antes de escolher onde investir. Foi esse o ponto de partida para estas Seis perguntas.
Depois de tantos anos a falar de dinheiro, o que é que ainda o surpreende nas questões que os portugueses lhe fazem?
PEDRO ANDERSSON — Ainda me surpreende perceber que muitas das dúvidas não têm verdadeiramente a ver com dinheiro. Têm a ver com medo, insegurança, culpa, expectativas e comparação com os outros. Às vezes, perguntam-me: “Onde devo investir 10 mil euros?”. Mas, quando começamos a conversar, percebo que a verdadeira pergunta é: “Tenho medo de perder este dinheiro. O que faço?”, “Está toda a gente a investir nisto, também o devo fazer?”. Ou: “Será que estou atrasado em relação aos outros?”. Também continua a surpreender-me a quantidade de pessoas que ganham razoavelmente bem e chegam ao fim do mês sem saber onde gastaram o dinheiro. E o contrário: pessoas com rendimentos muito modestos que conseguem organizar-se extraordinariamente bem. Ao fim destes anos, estou cada vez mais convencido de que literacia financeira não é apenas saber fazer contas. É aprender a tomar decisões e manter o rumo definido.

O título deste novo livro promete dinheiro “à prova de crises”. O que aprendeu, pessoalmente, sobre manter a cabeça fria quando tudo à volta parece instável?
P.A. — Aprendi que a melhor maneira de manter a cabeça fria durante uma crise é preparar as decisões antes da crise chegar. Quando tudo está a correr bem é que devemos construir um fundo de emergência, evitar créditos desnecessários, investir de forma diversificada e perceber quanto risco conseguimos realmente suportar. Porque há uma enorme diferença entre dizer “eu aguento uma queda de 30%” quando a bolsa está a subir, e mais tarde ver, efetivamente, 30% do nosso dinheiro desaparecer do ecrã. Também aprendi que não podemos preparar-nos para uma crise específica. Ninguém sabe qual será a próxima. O que podemos fazer é construir uma vida financeira suficientemente resistente para aguentar vários tipos de imprevistos. É essa a ideia de Dinheiro à Prova de Crises: não é tornar o dinheiro indestrutível. Isso não existe. É estarmos mais preparados quando alguma coisa corre mal, seja qual for a origem. Não nos devemos iludir, é apenas uma questão de tempo.
Porque é que duas pessoas com salários semelhantes podem chegar ao fim do mês em situações financeiras tão diferentes?
P.A. — Porque o salário é apenas uma parte da equação. Duas pessoas podem ganhar 2.000 euros e uma ter 20 mil euros investidos enquanto a outra tem 20 mil euros em créditos. A diferença pode estar nas decisões que tomaram durante 5, 10 ou 20 anos. Há despesas que se transformam em hábitos e depois praticamente deixam de ser questionadas. A casa, o carro, os créditos, as férias, as subscrições, as compras por impulso. Individualmente, parecem pequenas decisões. Somadas durante anos, podem representar dezenas ou centenas de milhares de euros. Por isso, digo muitas vezes que não interessa apenas quanto ganha. Interessa, sobretudo, o que faz com aquilo que ganha. E, obviamente, isto não significa ignorar que há muitas famílias portuguesas com rendimentos tão baixos que praticamente não têm margem de manobra. Não podemos transformar todos os problemas financeiros em problemas de comportamento.
Os seus livros já venderam mais de 100 mil exemplares. O que sente que os leitores procuram em si que nem sempre encontram na linguagem tradicional sobre finanças?
P.A. — Acho que procuram alguém que fale de dinheiro como uma pessoa normal. Não sou economista, nem gestor de fundos, nem banqueiro. Sou jornalista. A minha profissão é fazer perguntas, tentar perceber as respostas e depois explicá-las de uma maneira que qualquer pessoa consiga entender. Tive também a “vantagem” de ter começado a partir do zero, quando bati com a cabeça na parede com uma crise financeira (em 2007), como as que refiro no livro. Descobri nessa altura que não sabia nada sobre dinheiro. E faço uma coisa que considero importante: experimento todas estas coisas com o meu próprio dinheiro. Tenho Certificados de Aforro, PPR, ETF, ações, ouro, metais preciosos, fundos de investimento, criptomoedas, P2P... Já ganhei dinheiro, já perdi dinheiro e já tomei decisões de que me arrependi. Talvez isso crie uma relação diferente com quem me lê. Não estou a dizer “faça isto porque eu sei mais do que o leitor”. Estou a dizer: “Eu descobri que isto funciona assim. Agora faça as suas contas e decida se faz sentido para si". O meu objetivo nunca foi dizer às pessoas o que devem fazer com o dinheiro. É dar-lhes ferramentas para deixarem de depender dos outros para tomar essas decisões.

Escrever sobre dinheiro obriga-o também a rever os seus próprios hábitos e escolhas? Que conselho já deu muitas vezes e continua a ter de aplicar a si próprio?
P.A. — Constantemente. E ainda bem. Provavelmente o conselho que mais tenho de recordar a mim próprio é que não devemos confundir aquilo que queremos com aquilo de que precisamos. Quando começamos a ganhar mais dinheiro, é muito fácil aumentar automaticamente o nível de vida. Um carro melhor, uma casa melhor, férias melhores, restaurantes melhores. Não há, necessariamente, nada de errado nisso. Trabalhamos, também, para usufruir do dinheiro. O problema começa quando todas as subidas de rendimento são imediatamente absorvidas por novas despesas. Ganhamos mais, mas continuamos sem margem financeira. Também tenho de me lembrar de outra coisa que digo muitas vezes: não precisamos de aproveitar todas as oportunidades de investimento. Às vezes, não fazer nada é uma decisão financeira perfeitamente legítima.
Se tivesse de escolher uma única mudança de comportamento capaz de melhorar a relação de alguém com o dinheiro durante muitos anos, qual seria?
P.A. — Criar o hábito de pagar primeiro a si próprio. No dia em que recebe o salário, uma parte deve desaparecer automaticamente da conta à ordem para uma poupança ou investimento. Antes da prestação da casa, antes das compras, antes dos restaurantes, antes de tudo o resto. Pode começar com 10 euros, 50 euros ou 100 euros. O valor inicial é menos importante do que criar o hábito. Porque há uma diferença enorme entre poupar aquilo que sobra no fim do mês e gastar aquilo que sobra depois de poupar. Se tivesse de resumir quase tudo o que aprendi sobre finanças pessoais numa única ideia, seria esta: não espere ter mais dinheiro para começar a organizar a sua vida financeira. Organize a sua vida financeira para começar a ter mais dinheiro.
(C) Neusa Ayres / Contraponto

#Protagonistas
Seis perguntas a Pedro Andersson
Falar de dinheiro também é falar de medo, comparação, hábitos e decisões tomadas ao longo dos anos que pesam tanto como o salário. No novo livro, Dinheiro à Prova de Crises, Pedro Andersson explica porque organizar as finanças começa muito antes de escolher onde investir. Foi esse o ponto de partida para estas Seis perguntas.
Depois de tantos anos a falar de dinheiro, o que é que ainda o surpreende nas questões que os portugueses lhe fazem?
PEDRO ANDERSSON — Ainda me surpreende perceber que muitas das dúvidas não têm verdadeiramente a ver com dinheiro. Têm a ver com medo, insegurança, culpa, expectativas e comparação com os outros. Às vezes, perguntam-me: “Onde devo investir 10 mil euros?”. Mas, quando começamos a conversar, percebo que a verdadeira pergunta é: “Tenho medo de perder este dinheiro. O que faço?”, “Está toda a gente a investir nisto, também o devo fazer?”. Ou: “Será que estou atrasado em relação aos outros?”. Também continua a surpreender-me a quantidade de pessoas que ganham razoavelmente bem e chegam ao fim do mês sem saber onde gastaram o dinheiro. E o contrário: pessoas com rendimentos muito modestos que conseguem organizar-se extraordinariamente bem. Ao fim destes anos, estou cada vez mais convencido de que literacia financeira não é apenas saber fazer contas. É aprender a tomar decisões e manter o rumo definido.

O título deste novo livro promete dinheiro “à prova de crises”. O que aprendeu, pessoalmente, sobre manter a cabeça fria quando tudo à volta parece instável?
P.A. — Aprendi que a melhor maneira de manter a cabeça fria durante uma crise é preparar as decisões antes da crise chegar. Quando tudo está a correr bem é que devemos construir um fundo de emergência, evitar créditos desnecessários, investir de forma diversificada e perceber quanto risco conseguimos realmente suportar. Porque há uma enorme diferença entre dizer “eu aguento uma queda de 30%” quando a bolsa está a subir, e mais tarde ver, efetivamente, 30% do nosso dinheiro desaparecer do ecrã. Também aprendi que não podemos preparar-nos para uma crise específica. Ninguém sabe qual será a próxima. O que podemos fazer é construir uma vida financeira suficientemente resistente para aguentar vários tipos de imprevistos. É essa a ideia de Dinheiro à Prova de Crises: não é tornar o dinheiro indestrutível. Isso não existe. É estarmos mais preparados quando alguma coisa corre mal, seja qual for a origem. Não nos devemos iludir, é apenas uma questão de tempo.
Porque é que duas pessoas com salários semelhantes podem chegar ao fim do mês em situações financeiras tão diferentes?
P.A. — Porque o salário é apenas uma parte da equação. Duas pessoas podem ganhar 2.000 euros e uma ter 20 mil euros investidos enquanto a outra tem 20 mil euros em créditos. A diferença pode estar nas decisões que tomaram durante 5, 10 ou 20 anos. Há despesas que se transformam em hábitos e depois praticamente deixam de ser questionadas. A casa, o carro, os créditos, as férias, as subscrições, as compras por impulso. Individualmente, parecem pequenas decisões. Somadas durante anos, podem representar dezenas ou centenas de milhares de euros. Por isso, digo muitas vezes que não interessa apenas quanto ganha. Interessa, sobretudo, o que faz com aquilo que ganha. E, obviamente, isto não significa ignorar que há muitas famílias portuguesas com rendimentos tão baixos que praticamente não têm margem de manobra. Não podemos transformar todos os problemas financeiros em problemas de comportamento.
Os seus livros já venderam mais de 100 mil exemplares. O que sente que os leitores procuram em si que nem sempre encontram na linguagem tradicional sobre finanças?
P.A. — Acho que procuram alguém que fale de dinheiro como uma pessoa normal. Não sou economista, nem gestor de fundos, nem banqueiro. Sou jornalista. A minha profissão é fazer perguntas, tentar perceber as respostas e depois explicá-las de uma maneira que qualquer pessoa consiga entender. Tive também a “vantagem” de ter começado a partir do zero, quando bati com a cabeça na parede com uma crise financeira (em 2007), como as que refiro no livro. Descobri nessa altura que não sabia nada sobre dinheiro. E faço uma coisa que considero importante: experimento todas estas coisas com o meu próprio dinheiro. Tenho Certificados de Aforro, PPR, ETF, ações, ouro, metais preciosos, fundos de investimento, criptomoedas, P2P... Já ganhei dinheiro, já perdi dinheiro e já tomei decisões de que me arrependi. Talvez isso crie uma relação diferente com quem me lê. Não estou a dizer “faça isto porque eu sei mais do que o leitor”. Estou a dizer: “Eu descobri que isto funciona assim. Agora faça as suas contas e decida se faz sentido para si". O meu objetivo nunca foi dizer às pessoas o que devem fazer com o dinheiro. É dar-lhes ferramentas para deixarem de depender dos outros para tomar essas decisões.

Escrever sobre dinheiro obriga-o também a rever os seus próprios hábitos e escolhas? Que conselho já deu muitas vezes e continua a ter de aplicar a si próprio?
P.A. — Constantemente. E ainda bem. Provavelmente o conselho que mais tenho de recordar a mim próprio é que não devemos confundir aquilo que queremos com aquilo de que precisamos. Quando começamos a ganhar mais dinheiro, é muito fácil aumentar automaticamente o nível de vida. Um carro melhor, uma casa melhor, férias melhores, restaurantes melhores. Não há, necessariamente, nada de errado nisso. Trabalhamos, também, para usufruir do dinheiro. O problema começa quando todas as subidas de rendimento são imediatamente absorvidas por novas despesas. Ganhamos mais, mas continuamos sem margem financeira. Também tenho de me lembrar de outra coisa que digo muitas vezes: não precisamos de aproveitar todas as oportunidades de investimento. Às vezes, não fazer nada é uma decisão financeira perfeitamente legítima.
Se tivesse de escolher uma única mudança de comportamento capaz de melhorar a relação de alguém com o dinheiro durante muitos anos, qual seria?
P.A. — Criar o hábito de pagar primeiro a si próprio. No dia em que recebe o salário, uma parte deve desaparecer automaticamente da conta à ordem para uma poupança ou investimento. Antes da prestação da casa, antes das compras, antes dos restaurantes, antes de tudo o resto. Pode começar com 10 euros, 50 euros ou 100 euros. O valor inicial é menos importante do que criar o hábito. Porque há uma diferença enorme entre poupar aquilo que sobra no fim do mês e gastar aquilo que sobra depois de poupar. Se tivesse de resumir quase tudo o que aprendi sobre finanças pessoais numa única ideia, seria esta: não espere ter mais dinheiro para começar a organizar a sua vida financeira. Organize a sua vida financeira para começar a ter mais dinheiro.




