
#Protagonistas
Enhanced Fertility: a startup de IA que quer mudar os cuidados de fertilidade
Andreia Trigo tinha 17 anos quando recebeu o diagnóstico que viria a alterar a sua vida pessoal e, mais tarde, o seu percurso profissional. A notícia que começou por fechar uma possibilidade, anos depois, acabou por abrir o caminho para a criação da Enhanced Fertility, uma startup que usa dados e inteligência artificial para ajudar clínicas a acelerar os diagnósticos, organizar tratamentos e acompanhar mais pacientes.
Depois de anos de sintomas desvalorizados e exames invasivos, Andreia Trigo soube que tinha a síndrome de MRKH, uma anomalia congénita rara que afeta o sistema reprodutor feminino, caracterizada pela ausência do útero. “Lembro-me do dia do diagnóstico como se fosse ontem”, conta ao MOTIVO. “A Enhanced Fertility nasceu da minha experiência enquanto paciente e enquanto profissional, para dar sentido à minha dor e aliviar a dor de quem passa por processos de infertilidade”. A empresa foi fundada em 2020, depois de Andreia se ter formado em enfermagem e acompanhado outras pessoas que, apesar de informadas, continuavam perdidas num sistema fragmentado e difícil de navegar.

Andreia Trigo é fundadora da Enhanced Fertility
Um problema global tratado como assunto privado
A infertilidade afeta aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva ao longo da vida. A Organização Mundial da Saúde reconhece, contudo, que o acesso equitativo ao diagnóstico e ao tratamento continua a ser um problema na maioria dos países e que estes cuidados raramente são prioritários nos sistemas públicos de saúde.
Para Andreia Trigo, a falha começa muito antes do tratamento. “A infertilidade continua a ser tratada como um assunto privado, quase envergonhado”, afirma. Entre as barreiras que identifica estão os tempos de diagnóstico, o preço dos tratamentos, a reduzida cobertura pelos seguros, as diferenças legais entre países e a dificuldade dos profissionais em gerir percursos clínicos complexos com ferramentas dispersas.
A oportunidade empresarial surgiu precisamente aí: em vez de criar apenas mais uma aplicação para pacientes, a Enhanced Fertility decidiu intervir na forma como as clínicas trabalham. A empresa desenvolveu o EnhancedDx, apresentado como um sistema operativo clínico capaz de coordenar tarefas que, hoje, passam por diferentes profissionais, aplicações e momentos do tratamento.
“Transformámos mais de 100 guidelines internacionais numa base de conhecimento estruturada”, explica a fundadora. O sistema pode apoiar processos como a recolha do historial clínico, o agendamento, o consentimento informado, a organização de exames, a preparação das consultas, as notas clínicas e a sugestão de diagnósticos que precisam de ser confirmados por um profissional. “Não substituímos o médico nem o enfermeiro: damos-lhes superpoderes para abrir acesso a mais doentes, diagnosticar rapidamente e iniciar tratamento”.

Desde o seu lançamento, em 2020, a Enhanced Fertility já recebeu diversos prémios
A inovação está no que acontece antes e depois da consulta
Grande parte da discussão sobre inteligência artificial na saúde concentra-se na capacidade de interpretar exames ou sugerir diagnósticos. A Enhanced Fertility está a trabalhar também num território menos visível: tudo o que acontece entre a entrada de um paciente numa clínica e a decisão clínica propriamente dita.
O EnhancedDx procura funcionar como uma camada sobre os sistemas já utilizados pelas clínicas, reunindo informação e coordenando tarefas sem substituir os registos clínicos existentes. A empresa afirma que as recomendações são justificadas, as ações ficam registadas e as decisões finais continuam dependentes da validação dos profissionais.
Esta preocupação é particularmente relevante num setor em que a eficiência nunca pode ser separada da confiança. “Constrói-se devagar naquilo que não se pode falhar, e depressa em tudo o resto”, resume Andreia. “A nossa tecnologia assenta em evidência e em guidelines auditáveis e nunca funciona como uma caixa preta: o clínico vê sempre o porquê de cada recomendação”.
A empresa tem certificação ISO 13485 para o sistema de gestão da qualidade associado a dispositivos médicos e diz ter desenvolvido a plataforma de acordo com os requisitos europeus e norte-americanos de privacidade. Um estudo apresentado em 2025 na revista científica Human Reproduction avaliou a utilização do EnhancedDx no apoio à identificação e ao planeamento do tratamento da síndrome dos ovários poliquísticos, combinando inteligência artificial explicável e regras clínicas. Os resultados definitivos e a validação em escala serão decisivos para perceber até onde pode chegar a tecnologia.

Recentemente, a Enhanced Fertility recebeu uma importante distinção pela Startup Portugal e pela Web Summit
O prémio que tornou a promessa mais visível
Em novembro de 2025, a Enhanced Fertility foi distinguida como a startup mais promissora do Road 2 Web Summit, programa criado pela Startup Portugal e pela Web Summit para apoiar empresas portuguesas em fase inicial. O prémio, apoiado pela Galp, incluiu 15 mil euros e colocou o projeto em destaque entre as 115 empresas que participaram nessa edição.
Para a fundadora, o reconhecimento funcionou como uma mudança de estatuto. “Quando somos uma startup de saúde, liderada por uma mulher, a falar de fertilidade, temos sempre de provar três vezes mais que merecemos estar na sala”, afirma. “Sermos reconhecidos como a startup mais promissora deu-nos uma validação externa que abriu portas que antes custavam meses a abrir”.
Essas portas incluem conversas com clínicas, investidores e parceiros internacionais. O prémio reforçou a credibilidade comercial da empresa, embora Andreia Trigo sublinhe que trouxe também uma expectativa maior: “Quando somos apontados como ‘promessa’, há uma responsabilidade que passamos a carregar: a de entregar. E, no nosso caso, entregar não é só cumprir métricas de negócio”.
O reconhecimento num programa de empreendedorismo pode reduzir o risco percebido por investidores e potenciais clientes. Não substitui, contudo, a evidência científica, a integração nos sistemas das clínicas ou a demonstração de que a tecnologia melhora efetivamente o percurso dos pacientes. Na saúde, um prémio pode inaugurar conversas, mas o mercado precisará sempre de resultados comprovados para ser conquistado.

Além do sistema que já existe em algumas clínicas, a Enhanced Fertility tem desenvolvido outros projetos e participado em dezenas de iniciativas
Crescer com seis pessoas e uma missão
A Enhanced Fertility é atualmente composta por uma equipa de seis pessoas nas áreas clínica, tecnológica e de desenvolvimento de negócio, apoiada por um grupo de conselheiros. Começou com capital dos fundadores, recebeu investimento de investidores-anjo e captou financiamento de um fundo norte-americano, que deverá apoiar a expansão do produto e da operação. A empresa diz já trabalhar com clínicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e noutros mercados europeus.
A dimensão reduzida é apresentada como parte do modelo. Com processos apoiados por inteligência artificial, a equipa afirma conseguir adaptar o sistema às necessidades de uma clínica em poucos dias. A questão será perceber se essa rapidez se mantém à medida que aumenta o número de clientes, os enquadramentos regulatórios e a diversidade dos percursos clínicos.
A origem pessoal da empresa continua a condicionar a forma como Andreia Trigo contrata, desenvolve o produto e mede o sucesso. “Quando a empresa nasce de uma dor vivida, o ‘porquê’ não é uma frase numa apresentação, é o motor”, explica. “Não contrato só por competência técnica, contrato por competência e por causa”.
Essa causa também ajuda a explicar o objetivo mais ambicioso da empresa: contribuir para o nascimento de um milhão de bebés. Andreia recusa tratá-lo como uma frase promocional. “A tecnologia e o negócio são o como. Aquele milhão de vidas é o porquê”.

#Protagonistas
Enhanced Fertility: a startup de IA que quer mudar os cuidados de fertilidade
Andreia Trigo tinha 17 anos quando recebeu o diagnóstico que viria a alterar a sua vida pessoal e, mais tarde, o seu percurso profissional. A notícia que começou por fechar uma possibilidade, anos depois, acabou por abrir o caminho para a criação da Enhanced Fertility, uma startup que usa dados e inteligência artificial para ajudar clínicas a acelerar os diagnósticos, organizar tratamentos e acompanhar mais pacientes.
Depois de anos de sintomas desvalorizados e exames invasivos, Andreia Trigo soube que tinha a síndrome de MRKH, uma anomalia congénita rara que afeta o sistema reprodutor feminino, caracterizada pela ausência do útero. “Lembro-me do dia do diagnóstico como se fosse ontem”, conta ao MOTIVO. “A Enhanced Fertility nasceu da minha experiência enquanto paciente e enquanto profissional, para dar sentido à minha dor e aliviar a dor de quem passa por processos de infertilidade”. A empresa foi fundada em 2020, depois de Andreia se ter formado em enfermagem e acompanhado outras pessoas que, apesar de informadas, continuavam perdidas num sistema fragmentado e difícil de navegar.

Andreia Trigo é fundadora da Enhanced Fertility
Um problema global tratado como assunto privado
A infertilidade afeta aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva ao longo da vida. A Organização Mundial da Saúde reconhece, contudo, que o acesso equitativo ao diagnóstico e ao tratamento continua a ser um problema na maioria dos países e que estes cuidados raramente são prioritários nos sistemas públicos de saúde.
Para Andreia Trigo, a falha começa muito antes do tratamento. “A infertilidade continua a ser tratada como um assunto privado, quase envergonhado”, afirma. Entre as barreiras que identifica estão os tempos de diagnóstico, o preço dos tratamentos, a reduzida cobertura pelos seguros, as diferenças legais entre países e a dificuldade dos profissionais em gerir percursos clínicos complexos com ferramentas dispersas.
A oportunidade empresarial surgiu precisamente aí: em vez de criar apenas mais uma aplicação para pacientes, a Enhanced Fertility decidiu intervir na forma como as clínicas trabalham. A empresa desenvolveu o EnhancedDx, apresentado como um sistema operativo clínico capaz de coordenar tarefas que, hoje, passam por diferentes profissionais, aplicações e momentos do tratamento.
“Transformámos mais de 100 guidelines internacionais numa base de conhecimento estruturada”, explica a fundadora. O sistema pode apoiar processos como a recolha do historial clínico, o agendamento, o consentimento informado, a organização de exames, a preparação das consultas, as notas clínicas e a sugestão de diagnósticos que precisam de ser confirmados por um profissional. “Não substituímos o médico nem o enfermeiro: damos-lhes superpoderes para abrir acesso a mais doentes, diagnosticar rapidamente e iniciar tratamento”.

Desde o seu lançamento, em 2020, a Enhanced Fertility já recebeu diversos prémios
A inovação está no que acontece antes e depois da consulta
Grande parte da discussão sobre inteligência artificial na saúde concentra-se na capacidade de interpretar exames ou sugerir diagnósticos. A Enhanced Fertility está a trabalhar também num território menos visível: tudo o que acontece entre a entrada de um paciente numa clínica e a decisão clínica propriamente dita.
O EnhancedDx procura funcionar como uma camada sobre os sistemas já utilizados pelas clínicas, reunindo informação e coordenando tarefas sem substituir os registos clínicos existentes. A empresa afirma que as recomendações são justificadas, as ações ficam registadas e as decisões finais continuam dependentes da validação dos profissionais.
Esta preocupação é particularmente relevante num setor em que a eficiência nunca pode ser separada da confiança. “Constrói-se devagar naquilo que não se pode falhar, e depressa em tudo o resto”, resume Andreia. “A nossa tecnologia assenta em evidência e em guidelines auditáveis e nunca funciona como uma caixa preta: o clínico vê sempre o porquê de cada recomendação”.
A empresa tem certificação ISO 13485 para o sistema de gestão da qualidade associado a dispositivos médicos e diz ter desenvolvido a plataforma de acordo com os requisitos europeus e norte-americanos de privacidade. Um estudo apresentado em 2025 na revista científica Human Reproduction avaliou a utilização do EnhancedDx no apoio à identificação e ao planeamento do tratamento da síndrome dos ovários poliquísticos, combinando inteligência artificial explicável e regras clínicas. Os resultados definitivos e a validação em escala serão decisivos para perceber até onde pode chegar a tecnologia.

Recentemente, a Enhanced Fertility recebeu uma importante distinção pela Startup Portugal e pela Web Summit
O prémio que tornou a promessa mais visível
Em novembro de 2025, a Enhanced Fertility foi distinguida como a startup mais promissora do Road 2 Web Summit, programa criado pela Startup Portugal e pela Web Summit para apoiar empresas portuguesas em fase inicial. O prémio, apoiado pela Galp, incluiu 15 mil euros e colocou o projeto em destaque entre as 115 empresas que participaram nessa edição.
Para a fundadora, o reconhecimento funcionou como uma mudança de estatuto. “Quando somos uma startup de saúde, liderada por uma mulher, a falar de fertilidade, temos sempre de provar três vezes mais que merecemos estar na sala”, afirma. “Sermos reconhecidos como a startup mais promissora deu-nos uma validação externa que abriu portas que antes custavam meses a abrir”.
Essas portas incluem conversas com clínicas, investidores e parceiros internacionais. O prémio reforçou a credibilidade comercial da empresa, embora Andreia Trigo sublinhe que trouxe também uma expectativa maior: “Quando somos apontados como ‘promessa’, há uma responsabilidade que passamos a carregar: a de entregar. E, no nosso caso, entregar não é só cumprir métricas de negócio”.
O reconhecimento num programa de empreendedorismo pode reduzir o risco percebido por investidores e potenciais clientes. Não substitui, contudo, a evidência científica, a integração nos sistemas das clínicas ou a demonstração de que a tecnologia melhora efetivamente o percurso dos pacientes. Na saúde, um prémio pode inaugurar conversas, mas o mercado precisará sempre de resultados comprovados para ser conquistado.

Além do sistema que já existe em algumas clínicas, a Enhanced Fertility tem desenvolvido outros projetos e participado em dezenas de iniciativas
Crescer com seis pessoas e uma missão
A Enhanced Fertility é atualmente composta por uma equipa de seis pessoas nas áreas clínica, tecnológica e de desenvolvimento de negócio, apoiada por um grupo de conselheiros. Começou com capital dos fundadores, recebeu investimento de investidores-anjo e captou financiamento de um fundo norte-americano, que deverá apoiar a expansão do produto e da operação. A empresa diz já trabalhar com clínicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e noutros mercados europeus.
A dimensão reduzida é apresentada como parte do modelo. Com processos apoiados por inteligência artificial, a equipa afirma conseguir adaptar o sistema às necessidades de uma clínica em poucos dias. A questão será perceber se essa rapidez se mantém à medida que aumenta o número de clientes, os enquadramentos regulatórios e a diversidade dos percursos clínicos.
A origem pessoal da empresa continua a condicionar a forma como Andreia Trigo contrata, desenvolve o produto e mede o sucesso. “Quando a empresa nasce de uma dor vivida, o ‘porquê’ não é uma frase numa apresentação, é o motor”, explica. “Não contrato só por competência técnica, contrato por competência e por causa”.
Essa causa também ajuda a explicar o objetivo mais ambicioso da empresa: contribuir para o nascimento de um milhão de bebés. Andreia recusa tratá-lo como uma frase promocional. “A tecnologia e o negócio são o como. Aquele milhão de vidas é o porquê”.

#Protagonistas
Enhanced Fertility: a startup de IA que quer mudar os cuidados de fertilidade
Andreia Trigo tinha 17 anos quando recebeu o diagnóstico que viria a alterar a sua vida pessoal e, mais tarde, o seu percurso profissional. A notícia que começou por fechar uma possibilidade, anos depois, acabou por abrir o caminho para a criação da Enhanced Fertility, uma startup que usa dados e inteligência artificial para ajudar clínicas a acelerar os diagnósticos, organizar tratamentos e acompanhar mais pacientes.
Depois de anos de sintomas desvalorizados e exames invasivos, Andreia Trigo soube que tinha a síndrome de MRKH, uma anomalia congénita rara que afeta o sistema reprodutor feminino, caracterizada pela ausência do útero. “Lembro-me do dia do diagnóstico como se fosse ontem”, conta ao MOTIVO. “A Enhanced Fertility nasceu da minha experiência enquanto paciente e enquanto profissional, para dar sentido à minha dor e aliviar a dor de quem passa por processos de infertilidade”. A empresa foi fundada em 2020, depois de Andreia se ter formado em enfermagem e acompanhado outras pessoas que, apesar de informadas, continuavam perdidas num sistema fragmentado e difícil de navegar.

Andreia Trigo é fundadora da Enhanced Fertility
Um problema global tratado como assunto privado
A infertilidade afeta aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva ao longo da vida. A Organização Mundial da Saúde reconhece, contudo, que o acesso equitativo ao diagnóstico e ao tratamento continua a ser um problema na maioria dos países e que estes cuidados raramente são prioritários nos sistemas públicos de saúde.
Para Andreia Trigo, a falha começa muito antes do tratamento. “A infertilidade continua a ser tratada como um assunto privado, quase envergonhado”, afirma. Entre as barreiras que identifica estão os tempos de diagnóstico, o preço dos tratamentos, a reduzida cobertura pelos seguros, as diferenças legais entre países e a dificuldade dos profissionais em gerir percursos clínicos complexos com ferramentas dispersas.
A oportunidade empresarial surgiu precisamente aí: em vez de criar apenas mais uma aplicação para pacientes, a Enhanced Fertility decidiu intervir na forma como as clínicas trabalham. A empresa desenvolveu o EnhancedDx, apresentado como um sistema operativo clínico capaz de coordenar tarefas que, hoje, passam por diferentes profissionais, aplicações e momentos do tratamento.
“Transformámos mais de 100 guidelines internacionais numa base de conhecimento estruturada”, explica a fundadora. O sistema pode apoiar processos como a recolha do historial clínico, o agendamento, o consentimento informado, a organização de exames, a preparação das consultas, as notas clínicas e a sugestão de diagnósticos que precisam de ser confirmados por um profissional. “Não substituímos o médico nem o enfermeiro: damos-lhes superpoderes para abrir acesso a mais doentes, diagnosticar rapidamente e iniciar tratamento”.

Desde o seu lançamento, em 2020, a Enhanced Fertility já recebeu diversos prémios
A inovação está no que acontece antes e depois da consulta
Grande parte da discussão sobre inteligência artificial na saúde concentra-se na capacidade de interpretar exames ou sugerir diagnósticos. A Enhanced Fertility está a trabalhar também num território menos visível: tudo o que acontece entre a entrada de um paciente numa clínica e a decisão clínica propriamente dita.
O EnhancedDx procura funcionar como uma camada sobre os sistemas já utilizados pelas clínicas, reunindo informação e coordenando tarefas sem substituir os registos clínicos existentes. A empresa afirma que as recomendações são justificadas, as ações ficam registadas e as decisões finais continuam dependentes da validação dos profissionais.
Esta preocupação é particularmente relevante num setor em que a eficiência nunca pode ser separada da confiança. “Constrói-se devagar naquilo que não se pode falhar, e depressa em tudo o resto”, resume Andreia. “A nossa tecnologia assenta em evidência e em guidelines auditáveis e nunca funciona como uma caixa preta: o clínico vê sempre o porquê de cada recomendação”.
A empresa tem certificação ISO 13485 para o sistema de gestão da qualidade associado a dispositivos médicos e diz ter desenvolvido a plataforma de acordo com os requisitos europeus e norte-americanos de privacidade. Um estudo apresentado em 2025 na revista científica Human Reproduction avaliou a utilização do EnhancedDx no apoio à identificação e ao planeamento do tratamento da síndrome dos ovários poliquísticos, combinando inteligência artificial explicável e regras clínicas. Os resultados definitivos e a validação em escala serão decisivos para perceber até onde pode chegar a tecnologia.

Recentemente, a Enhanced Fertility recebeu uma importante distinção pela Startup Portugal e pela Web Summit
O prémio que tornou a promessa mais visível
Em novembro de 2025, a Enhanced Fertility foi distinguida como a startup mais promissora do Road 2 Web Summit, programa criado pela Startup Portugal e pela Web Summit para apoiar empresas portuguesas em fase inicial. O prémio, apoiado pela Galp, incluiu 15 mil euros e colocou o projeto em destaque entre as 115 empresas que participaram nessa edição.
Para a fundadora, o reconhecimento funcionou como uma mudança de estatuto. “Quando somos uma startup de saúde, liderada por uma mulher, a falar de fertilidade, temos sempre de provar três vezes mais que merecemos estar na sala”, afirma. “Sermos reconhecidos como a startup mais promissora deu-nos uma validação externa que abriu portas que antes custavam meses a abrir”.
Essas portas incluem conversas com clínicas, investidores e parceiros internacionais. O prémio reforçou a credibilidade comercial da empresa, embora Andreia Trigo sublinhe que trouxe também uma expectativa maior: “Quando somos apontados como ‘promessa’, há uma responsabilidade que passamos a carregar: a de entregar. E, no nosso caso, entregar não é só cumprir métricas de negócio”.
O reconhecimento num programa de empreendedorismo pode reduzir o risco percebido por investidores e potenciais clientes. Não substitui, contudo, a evidência científica, a integração nos sistemas das clínicas ou a demonstração de que a tecnologia melhora efetivamente o percurso dos pacientes. Na saúde, um prémio pode inaugurar conversas, mas o mercado precisará sempre de resultados comprovados para ser conquistado.

Além do sistema que já existe em algumas clínicas, a Enhanced Fertility tem desenvolvido outros projetos e participado em dezenas de iniciativas
Crescer com seis pessoas e uma missão
A Enhanced Fertility é atualmente composta por uma equipa de seis pessoas nas áreas clínica, tecnológica e de desenvolvimento de negócio, apoiada por um grupo de conselheiros. Começou com capital dos fundadores, recebeu investimento de investidores-anjo e captou financiamento de um fundo norte-americano, que deverá apoiar a expansão do produto e da operação. A empresa diz já trabalhar com clínicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e noutros mercados europeus.
A dimensão reduzida é apresentada como parte do modelo. Com processos apoiados por inteligência artificial, a equipa afirma conseguir adaptar o sistema às necessidades de uma clínica em poucos dias. A questão será perceber se essa rapidez se mantém à medida que aumenta o número de clientes, os enquadramentos regulatórios e a diversidade dos percursos clínicos.
A origem pessoal da empresa continua a condicionar a forma como Andreia Trigo contrata, desenvolve o produto e mede o sucesso. “Quando a empresa nasce de uma dor vivida, o ‘porquê’ não é uma frase numa apresentação, é o motor”, explica. “Não contrato só por competência técnica, contrato por competência e por causa”.
Essa causa também ajuda a explicar o objetivo mais ambicioso da empresa: contribuir para o nascimento de um milhão de bebés. Andreia recusa tratá-lo como uma frase promocional. “A tecnologia e o negócio são o como. Aquele milhão de vidas é o porquê”.

#Protagonistas
Enhanced Fertility: a startup de IA que quer mudar os cuidados de fertilidade
Andreia Trigo tinha 17 anos quando recebeu o diagnóstico que viria a alterar a sua vida pessoal e, mais tarde, o seu percurso profissional. A notícia que começou por fechar uma possibilidade, anos depois, acabou por abrir o caminho para a criação da Enhanced Fertility, uma startup que usa dados e inteligência artificial para ajudar clínicas a acelerar os diagnósticos, organizar tratamentos e acompanhar mais pacientes.
Depois de anos de sintomas desvalorizados e exames invasivos, Andreia Trigo soube que tinha a síndrome de MRKH, uma anomalia congénita rara que afeta o sistema reprodutor feminino, caracterizada pela ausência do útero. “Lembro-me do dia do diagnóstico como se fosse ontem”, conta ao MOTIVO. “A Enhanced Fertility nasceu da minha experiência enquanto paciente e enquanto profissional, para dar sentido à minha dor e aliviar a dor de quem passa por processos de infertilidade”. A empresa foi fundada em 2020, depois de Andreia se ter formado em enfermagem e acompanhado outras pessoas que, apesar de informadas, continuavam perdidas num sistema fragmentado e difícil de navegar.

Andreia Trigo é fundadora da Enhanced Fertility
Um problema global tratado como assunto privado
A infertilidade afeta aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva ao longo da vida. A Organização Mundial da Saúde reconhece, contudo, que o acesso equitativo ao diagnóstico e ao tratamento continua a ser um problema na maioria dos países e que estes cuidados raramente são prioritários nos sistemas públicos de saúde.
Para Andreia Trigo, a falha começa muito antes do tratamento. “A infertilidade continua a ser tratada como um assunto privado, quase envergonhado”, afirma. Entre as barreiras que identifica estão os tempos de diagnóstico, o preço dos tratamentos, a reduzida cobertura pelos seguros, as diferenças legais entre países e a dificuldade dos profissionais em gerir percursos clínicos complexos com ferramentas dispersas.
A oportunidade empresarial surgiu precisamente aí: em vez de criar apenas mais uma aplicação para pacientes, a Enhanced Fertility decidiu intervir na forma como as clínicas trabalham. A empresa desenvolveu o EnhancedDx, apresentado como um sistema operativo clínico capaz de coordenar tarefas que, hoje, passam por diferentes profissionais, aplicações e momentos do tratamento.
“Transformámos mais de 100 guidelines internacionais numa base de conhecimento estruturada”, explica a fundadora. O sistema pode apoiar processos como a recolha do historial clínico, o agendamento, o consentimento informado, a organização de exames, a preparação das consultas, as notas clínicas e a sugestão de diagnósticos que precisam de ser confirmados por um profissional. “Não substituímos o médico nem o enfermeiro: damos-lhes superpoderes para abrir acesso a mais doentes, diagnosticar rapidamente e iniciar tratamento”.

Desde o seu lançamento, em 2020, a Enhanced Fertility já recebeu diversos prémios
A inovação está no que acontece antes e depois da consulta
Grande parte da discussão sobre inteligência artificial na saúde concentra-se na capacidade de interpretar exames ou sugerir diagnósticos. A Enhanced Fertility está a trabalhar também num território menos visível: tudo o que acontece entre a entrada de um paciente numa clínica e a decisão clínica propriamente dita.
O EnhancedDx procura funcionar como uma camada sobre os sistemas já utilizados pelas clínicas, reunindo informação e coordenando tarefas sem substituir os registos clínicos existentes. A empresa afirma que as recomendações são justificadas, as ações ficam registadas e as decisões finais continuam dependentes da validação dos profissionais.
Esta preocupação é particularmente relevante num setor em que a eficiência nunca pode ser separada da confiança. “Constrói-se devagar naquilo que não se pode falhar, e depressa em tudo o resto”, resume Andreia. “A nossa tecnologia assenta em evidência e em guidelines auditáveis e nunca funciona como uma caixa preta: o clínico vê sempre o porquê de cada recomendação”.
A empresa tem certificação ISO 13485 para o sistema de gestão da qualidade associado a dispositivos médicos e diz ter desenvolvido a plataforma de acordo com os requisitos europeus e norte-americanos de privacidade. Um estudo apresentado em 2025 na revista científica Human Reproduction avaliou a utilização do EnhancedDx no apoio à identificação e ao planeamento do tratamento da síndrome dos ovários poliquísticos, combinando inteligência artificial explicável e regras clínicas. Os resultados definitivos e a validação em escala serão decisivos para perceber até onde pode chegar a tecnologia.

Recentemente, a Enhanced Fertility recebeu uma importante distinção pela Startup Portugal e pela Web Summit
O prémio que tornou a promessa mais visível
Em novembro de 2025, a Enhanced Fertility foi distinguida como a startup mais promissora do Road 2 Web Summit, programa criado pela Startup Portugal e pela Web Summit para apoiar empresas portuguesas em fase inicial. O prémio, apoiado pela Galp, incluiu 15 mil euros e colocou o projeto em destaque entre as 115 empresas que participaram nessa edição.
Para a fundadora, o reconhecimento funcionou como uma mudança de estatuto. “Quando somos uma startup de saúde, liderada por uma mulher, a falar de fertilidade, temos sempre de provar três vezes mais que merecemos estar na sala”, afirma. “Sermos reconhecidos como a startup mais promissora deu-nos uma validação externa que abriu portas que antes custavam meses a abrir”.
Essas portas incluem conversas com clínicas, investidores e parceiros internacionais. O prémio reforçou a credibilidade comercial da empresa, embora Andreia Trigo sublinhe que trouxe também uma expectativa maior: “Quando somos apontados como ‘promessa’, há uma responsabilidade que passamos a carregar: a de entregar. E, no nosso caso, entregar não é só cumprir métricas de negócio”.
O reconhecimento num programa de empreendedorismo pode reduzir o risco percebido por investidores e potenciais clientes. Não substitui, contudo, a evidência científica, a integração nos sistemas das clínicas ou a demonstração de que a tecnologia melhora efetivamente o percurso dos pacientes. Na saúde, um prémio pode inaugurar conversas, mas o mercado precisará sempre de resultados comprovados para ser conquistado.

Além do sistema que já existe em algumas clínicas, a Enhanced Fertility tem desenvolvido outros projetos e participado em dezenas de iniciativas
Crescer com seis pessoas e uma missão
A Enhanced Fertility é atualmente composta por uma equipa de seis pessoas nas áreas clínica, tecnológica e de desenvolvimento de negócio, apoiada por um grupo de conselheiros. Começou com capital dos fundadores, recebeu investimento de investidores-anjo e captou financiamento de um fundo norte-americano, que deverá apoiar a expansão do produto e da operação. A empresa diz já trabalhar com clínicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e noutros mercados europeus.
A dimensão reduzida é apresentada como parte do modelo. Com processos apoiados por inteligência artificial, a equipa afirma conseguir adaptar o sistema às necessidades de uma clínica em poucos dias. A questão será perceber se essa rapidez se mantém à medida que aumenta o número de clientes, os enquadramentos regulatórios e a diversidade dos percursos clínicos.
A origem pessoal da empresa continua a condicionar a forma como Andreia Trigo contrata, desenvolve o produto e mede o sucesso. “Quando a empresa nasce de uma dor vivida, o ‘porquê’ não é uma frase numa apresentação, é o motor”, explica. “Não contrato só por competência técnica, contrato por competência e por causa”.
Essa causa também ajuda a explicar o objetivo mais ambicioso da empresa: contribuir para o nascimento de um milhão de bebés. Andreia recusa tratá-lo como uma frase promocional. “A tecnologia e o negócio são o como. Aquele milhão de vidas é o porquê”.




