#Protagonistas

DUARTE LEAL DA COSTA: "O vinho tem de estar associado aos bons momentos"

Defende que o vinho começa muito antes de chegar ao copo e continua depois de a garrafa acabar. O entusiasmo com que conversa é o mesmo com que guia provas e defende o setor. O responsável pela Ervideira, referência do vinho alentejano, fala ao MOTIVO sobre a estratégia dos eventos, o consumo das novas gerações, a cultura da empresa e o equilíbrio entre uma história familiar longa e a necessidade permanente de continuar a inovar.

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9 de set. de 2026, 12:00

A Ervideira organiza iniciativas como a Vindima Noturna, os Sunsets e outros eventos ao longo do ano. O que representam estas experiências para uma marca de vinhos?

DUARTE LEAL DA COSTA — A marca é algo que colocamos num produto, e o nosso produto não é apenas vinho ou uvas. Nós trabalhamos com fruta durante todo o ano e transformamo-la através da fermentação. Quando chegamos ao produto final, estamos a trabalhar com algo que é alimento, história, partilha, prazer, amigos e família. Por isso, não nos podemos limitar a uma garrafa, a uma rolha e a um copo. Há uma história, há conversa, há amigos, há tudo à volta. Os eventos fazem parte do produto em si. Sempre estivemos ligados a eventos. Já estivemos associados a corridas, a ralis e queremos voltar a fazer algumas dessas coisas. O vinho pode estar presente em diferentes momentos e experiências.

Estes eventos funcionam, também, como uma porta de entrada para pessoas que talvez ainda não tenham uma relação próxima com o vinho e com a própria marca?

D.L.C. — Sim. São uma porta de entrada para a experimentação e ajudam-nos também a contrariar a ideia de que o vinho é uma coisa de gente mais velha. Porque é que numa festa se bebe gin, vodka, tequila ou cerveja e o vinho fica de fora? O vinho faz parte de muitos momentos da nossa vida, não apenas das refeições. Também pode fazer parte das festas. Queremos fazer mais festas com vinho e criar experiências ligadas ao vinho em diferentes tipos de atividades. Sempre com moderação. Essa parte é fundamental.



Falou em levar o vinho a outros públicos. Sente uma espécie de missão em torno da Ervideira?

D.L.C. — Eu já nem lhe chamaria missão, porque missão quase parece uma obrigação. Para mim, a Ervideira é prazer. Eu gosto de trabalhar. Gosto de olhar para uma equipa como para um puzzle. Podemos ter um puzzle com 50, 200 ou mil peças: se retirarmos uma, deixa de estar completo. Aqui, somos cerca de 50 pessoas e cada uma é uma peça diferente. Todas fazem falta. O prazer está em conseguir que esse puzzle esteja completo e que, depois, possamos mostrar o resultado lá fora. A pior coisa que me podia acontecer era alguém provar um vinho nosso e sentir que não recebeu valor pelo que pagou. Quero que a pessoa diga: “Gostei deste produto, partilhei-o com os meus amigos, tivemos uma grande noite”. Se depois já nem se lembrar exatamente de qual era a referência, tudo bem. O objetivo é fazer parte dos momentos.

O que diferencia a Ervideira num mercado com tanta oferta?

D.L.C. — Primeiro, o vinho. A pessoa prova e tem de dizer: “Gosto disto”. Temos um objetivo diário de manter um padrão de qualidade elevado. Depois, existe a forma como trabalhamos. Isto é uma empresa e tem de ser gerida com números. Temos salários, impostos, Segurança Social, fornecedores, todas as obrigações de qualquer empresa. É um trabalho exigente. Dentro dessa exigência, podemos trabalhar com prazer ou sem prazer. Aqui, procuramos trabalhar com prazer. Por detrás de uma uva, de uma garrafa e de uma rolha, existe também respeito pelos fornecedores e pelos trabalhadores. Quero que as pessoas gostem de trabalhar aqui. Para mim, isso faz diferença no espírito da Ervideira.


"Temos de continuar a sonhar"


Estamos perante uma marca familiar com uma história longa, que já vai na 4ª e 5ª geração. Como se equilibra esse legado com a necessidade de continuar atual?

D.L.C. — O mundo evolui. Tenho uma regra que digo às pessoas que trabalham comigo: quem não sonha não tem espaço para trabalhar aqui. Cada pessoa tem de cumprir a sua função, naturalmente, mas também deve existir espaço para inovação, sonho e realização. Isso aplica-se a todas as áreas. Pode ser o enólogo a pensar num vinho novo, alguém na linha de engarrafamento a procurar uma forma de produzir melhor ou qualquer outra pessoa da equipa a imaginar uma solução diferente. Temos de dar espaço para isso.

Mesmo correndo o risco de existirem erros?

D.L.C. — Quando damos espaço, as pessoas também vão errar. O erro faz parte do trabalho. Errar dez vezes na mesma coisa é que já é outra história. Quem experimenta alguma coisa nova, pode falhar, aprender e melhorar na vez seguinte. Temos de continuar a sonhar, a errar e a criar.

Essa vontade de inovar também aparece nos próprios vinhos?

D.L.C. — Sim. O Invisível é, provavelmente, a nossa referência mais forte no mercado e nasceu dessa vontade de fazer diferente. É um vinho branco produzido a partir de uvas tintas, neste caso: Aragonez. Depois, temos outras referências monocasta e, através da Escolha do Enólogo, podemos lançar vinhos diferentes consoante aquilo que cada colheita nos permite fazer. Já trabalhámos, por exemplo, Moscatel seco, Viognier e Alicante Bouschet. A ideia é que também exista espaço para experimentar e para deixar que determinadas castas se expressem de uma forma mais marcada.



O consumo de vinho está a mudar. Onde gostaria de ver a Ervideira daqui a cinco anos?

D.L.C. — O mercado do vinho está a encolher e os hábitos estão a mudar, sobretudo nas gerações mais novas. Ao mesmo tempo, nós estamos a crescer em vendas. Onde quero estar daqui a cinco anos? Quero que haja mais gente a dizer: “Gosto destes tipos e gosto dos vinhos que eles fazem”. Não quero estar no meio de pessoas que bebem muito vinho. Quero estar no meio de muita gente que gosta de vinho. O vinho tem de estar associado aos bons momentos, ao prazer, à partilha, aos amigos e à conversa. Não pode estar associado ao excesso. É aí que queremos estar.

E como se comunica uma marca a partir dessa ideia?

D.L.C. — Creio que vamos sonhando alegremente. Queremos partilhar através da alegria. A Vindima Noturna é um bom exemplo. Existe uma componente de diversão e de experiência, claro, mas quem participa, vai também perceber que uma vindima é trabalho. Há ritmo, intensidade, é preciso apanhar a uva e fazê-la chegar à adega. A experiência não deve transformar esse trabalho numa encenação. Hoje, grande parte da vindima é mecanizada e isso também trouxe vantagens. A máquina não veio estragar a vindima; contribui para a qualidade das uvas e permite trabalhar a uma escala que seria impossível manter manualmente durante uma campanha inteira. Numa experiência, podemos vindimar à mão durante uma ou duas horas. Fazer uma vindima noturna inteira dessa forma seria outra realidade.

#Protagonistas

DUARTE LEAL DA COSTA: "O vinho tem de estar associado aos bons momentos"

Defende que o vinho começa muito antes de chegar ao copo e continua depois de a garrafa acabar. O entusiasmo com que conversa é o mesmo com que guia provas e defende o setor. O responsável pela Ervideira, referência do vinho alentejano, fala ao MOTIVO sobre a estratégia dos eventos, o consumo das novas gerações, a cultura da empresa e o equilíbrio entre uma história familiar longa e a necessidade permanente de continuar a inovar.

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9 de set. de 2026, 12:00

A Ervideira organiza iniciativas como a Vindima Noturna, os Sunsets e outros eventos ao longo do ano. O que representam estas experiências para uma marca de vinhos?

DUARTE LEAL DA COSTA — A marca é algo que colocamos num produto, e o nosso produto não é apenas vinho ou uvas. Nós trabalhamos com fruta durante todo o ano e transformamo-la através da fermentação. Quando chegamos ao produto final, estamos a trabalhar com algo que é alimento, história, partilha, prazer, amigos e família. Por isso, não nos podemos limitar a uma garrafa, a uma rolha e a um copo. Há uma história, há conversa, há amigos, há tudo à volta. Os eventos fazem parte do produto em si. Sempre estivemos ligados a eventos. Já estivemos associados a corridas, a ralis e queremos voltar a fazer algumas dessas coisas. O vinho pode estar presente em diferentes momentos e experiências.

Estes eventos funcionam, também, como uma porta de entrada para pessoas que talvez ainda não tenham uma relação próxima com o vinho e com a própria marca?

D.L.C. — Sim. São uma porta de entrada para a experimentação e ajudam-nos também a contrariar a ideia de que o vinho é uma coisa de gente mais velha. Porque é que numa festa se bebe gin, vodka, tequila ou cerveja e o vinho fica de fora? O vinho faz parte de muitos momentos da nossa vida, não apenas das refeições. Também pode fazer parte das festas. Queremos fazer mais festas com vinho e criar experiências ligadas ao vinho em diferentes tipos de atividades. Sempre com moderação. Essa parte é fundamental.



Falou em levar o vinho a outros públicos. Sente uma espécie de missão em torno da Ervideira?

D.L.C. — Eu já nem lhe chamaria missão, porque missão quase parece uma obrigação. Para mim, a Ervideira é prazer. Eu gosto de trabalhar. Gosto de olhar para uma equipa como para um puzzle. Podemos ter um puzzle com 50, 200 ou mil peças: se retirarmos uma, deixa de estar completo. Aqui, somos cerca de 50 pessoas e cada uma é uma peça diferente. Todas fazem falta. O prazer está em conseguir que esse puzzle esteja completo e que, depois, possamos mostrar o resultado lá fora. A pior coisa que me podia acontecer era alguém provar um vinho nosso e sentir que não recebeu valor pelo que pagou. Quero que a pessoa diga: “Gostei deste produto, partilhei-o com os meus amigos, tivemos uma grande noite”. Se depois já nem se lembrar exatamente de qual era a referência, tudo bem. O objetivo é fazer parte dos momentos.

O que diferencia a Ervideira num mercado com tanta oferta?

D.L.C. — Primeiro, o vinho. A pessoa prova e tem de dizer: “Gosto disto”. Temos um objetivo diário de manter um padrão de qualidade elevado. Depois, existe a forma como trabalhamos. Isto é uma empresa e tem de ser gerida com números. Temos salários, impostos, Segurança Social, fornecedores, todas as obrigações de qualquer empresa. É um trabalho exigente. Dentro dessa exigência, podemos trabalhar com prazer ou sem prazer. Aqui, procuramos trabalhar com prazer. Por detrás de uma uva, de uma garrafa e de uma rolha, existe também respeito pelos fornecedores e pelos trabalhadores. Quero que as pessoas gostem de trabalhar aqui. Para mim, isso faz diferença no espírito da Ervideira.


"Temos de continuar a sonhar"


Estamos perante uma marca familiar com uma história longa, que já vai na 4ª e 5ª geração. Como se equilibra esse legado com a necessidade de continuar atual?

D.L.C. — O mundo evolui. Tenho uma regra que digo às pessoas que trabalham comigo: quem não sonha não tem espaço para trabalhar aqui. Cada pessoa tem de cumprir a sua função, naturalmente, mas também deve existir espaço para inovação, sonho e realização. Isso aplica-se a todas as áreas. Pode ser o enólogo a pensar num vinho novo, alguém na linha de engarrafamento a procurar uma forma de produzir melhor ou qualquer outra pessoa da equipa a imaginar uma solução diferente. Temos de dar espaço para isso.

Mesmo correndo o risco de existirem erros?

D.L.C. — Quando damos espaço, as pessoas também vão errar. O erro faz parte do trabalho. Errar dez vezes na mesma coisa é que já é outra história. Quem experimenta alguma coisa nova, pode falhar, aprender e melhorar na vez seguinte. Temos de continuar a sonhar, a errar e a criar.

Essa vontade de inovar também aparece nos próprios vinhos?

D.L.C. — Sim. O Invisível é, provavelmente, a nossa referência mais forte no mercado e nasceu dessa vontade de fazer diferente. É um vinho branco produzido a partir de uvas tintas, neste caso: Aragonez. Depois, temos outras referências monocasta e, através da Escolha do Enólogo, podemos lançar vinhos diferentes consoante aquilo que cada colheita nos permite fazer. Já trabalhámos, por exemplo, Moscatel seco, Viognier e Alicante Bouschet. A ideia é que também exista espaço para experimentar e para deixar que determinadas castas se expressem de uma forma mais marcada.



O consumo de vinho está a mudar. Onde gostaria de ver a Ervideira daqui a cinco anos?

D.L.C. — O mercado do vinho está a encolher e os hábitos estão a mudar, sobretudo nas gerações mais novas. Ao mesmo tempo, nós estamos a crescer em vendas. Onde quero estar daqui a cinco anos? Quero que haja mais gente a dizer: “Gosto destes tipos e gosto dos vinhos que eles fazem”. Não quero estar no meio de pessoas que bebem muito vinho. Quero estar no meio de muita gente que gosta de vinho. O vinho tem de estar associado aos bons momentos, ao prazer, à partilha, aos amigos e à conversa. Não pode estar associado ao excesso. É aí que queremos estar.

E como se comunica uma marca a partir dessa ideia?

D.L.C. — Creio que vamos sonhando alegremente. Queremos partilhar através da alegria. A Vindima Noturna é um bom exemplo. Existe uma componente de diversão e de experiência, claro, mas quem participa, vai também perceber que uma vindima é trabalho. Há ritmo, intensidade, é preciso apanhar a uva e fazê-la chegar à adega. A experiência não deve transformar esse trabalho numa encenação. Hoje, grande parte da vindima é mecanizada e isso também trouxe vantagens. A máquina não veio estragar a vindima; contribui para a qualidade das uvas e permite trabalhar a uma escala que seria impossível manter manualmente durante uma campanha inteira. Numa experiência, podemos vindimar à mão durante uma ou duas horas. Fazer uma vindima noturna inteira dessa forma seria outra realidade.

#Protagonistas

DUARTE LEAL DA COSTA: "O vinho tem de estar associado aos bons momentos"

Defende que o vinho começa muito antes de chegar ao copo e continua depois de a garrafa acabar. O entusiasmo com que conversa é o mesmo com que guia provas e defende o setor. O responsável pela Ervideira, referência do vinho alentejano, fala ao MOTIVO sobre a estratégia dos eventos, o consumo das novas gerações, a cultura da empresa e o equilíbrio entre uma história familiar longa e a necessidade permanente de continuar a inovar.

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9 de set. de 2026, 12:00

A Ervideira organiza iniciativas como a Vindima Noturna, os Sunsets e outros eventos ao longo do ano. O que representam estas experiências para uma marca de vinhos?

DUARTE LEAL DA COSTA — A marca é algo que colocamos num produto, e o nosso produto não é apenas vinho ou uvas. Nós trabalhamos com fruta durante todo o ano e transformamo-la através da fermentação. Quando chegamos ao produto final, estamos a trabalhar com algo que é alimento, história, partilha, prazer, amigos e família. Por isso, não nos podemos limitar a uma garrafa, a uma rolha e a um copo. Há uma história, há conversa, há amigos, há tudo à volta. Os eventos fazem parte do produto em si. Sempre estivemos ligados a eventos. Já estivemos associados a corridas, a ralis e queremos voltar a fazer algumas dessas coisas. O vinho pode estar presente em diferentes momentos e experiências.

Estes eventos funcionam, também, como uma porta de entrada para pessoas que talvez ainda não tenham uma relação próxima com o vinho e com a própria marca?

D.L.C. — Sim. São uma porta de entrada para a experimentação e ajudam-nos também a contrariar a ideia de que o vinho é uma coisa de gente mais velha. Porque é que numa festa se bebe gin, vodka, tequila ou cerveja e o vinho fica de fora? O vinho faz parte de muitos momentos da nossa vida, não apenas das refeições. Também pode fazer parte das festas. Queremos fazer mais festas com vinho e criar experiências ligadas ao vinho em diferentes tipos de atividades. Sempre com moderação. Essa parte é fundamental.



Falou em levar o vinho a outros públicos. Sente uma espécie de missão em torno da Ervideira?

D.L.C. — Eu já nem lhe chamaria missão, porque missão quase parece uma obrigação. Para mim, a Ervideira é prazer. Eu gosto de trabalhar. Gosto de olhar para uma equipa como para um puzzle. Podemos ter um puzzle com 50, 200 ou mil peças: se retirarmos uma, deixa de estar completo. Aqui, somos cerca de 50 pessoas e cada uma é uma peça diferente. Todas fazem falta. O prazer está em conseguir que esse puzzle esteja completo e que, depois, possamos mostrar o resultado lá fora. A pior coisa que me podia acontecer era alguém provar um vinho nosso e sentir que não recebeu valor pelo que pagou. Quero que a pessoa diga: “Gostei deste produto, partilhei-o com os meus amigos, tivemos uma grande noite”. Se depois já nem se lembrar exatamente de qual era a referência, tudo bem. O objetivo é fazer parte dos momentos.

O que diferencia a Ervideira num mercado com tanta oferta?

D.L.C. — Primeiro, o vinho. A pessoa prova e tem de dizer: “Gosto disto”. Temos um objetivo diário de manter um padrão de qualidade elevado. Depois, existe a forma como trabalhamos. Isto é uma empresa e tem de ser gerida com números. Temos salários, impostos, Segurança Social, fornecedores, todas as obrigações de qualquer empresa. É um trabalho exigente. Dentro dessa exigência, podemos trabalhar com prazer ou sem prazer. Aqui, procuramos trabalhar com prazer. Por detrás de uma uva, de uma garrafa e de uma rolha, existe também respeito pelos fornecedores e pelos trabalhadores. Quero que as pessoas gostem de trabalhar aqui. Para mim, isso faz diferença no espírito da Ervideira.


"Temos de continuar a sonhar"


Estamos perante uma marca familiar com uma história longa, que já vai na 4ª e 5ª geração. Como se equilibra esse legado com a necessidade de continuar atual?

D.L.C. — O mundo evolui. Tenho uma regra que digo às pessoas que trabalham comigo: quem não sonha não tem espaço para trabalhar aqui. Cada pessoa tem de cumprir a sua função, naturalmente, mas também deve existir espaço para inovação, sonho e realização. Isso aplica-se a todas as áreas. Pode ser o enólogo a pensar num vinho novo, alguém na linha de engarrafamento a procurar uma forma de produzir melhor ou qualquer outra pessoa da equipa a imaginar uma solução diferente. Temos de dar espaço para isso.

Mesmo correndo o risco de existirem erros?

D.L.C. — Quando damos espaço, as pessoas também vão errar. O erro faz parte do trabalho. Errar dez vezes na mesma coisa é que já é outra história. Quem experimenta alguma coisa nova, pode falhar, aprender e melhorar na vez seguinte. Temos de continuar a sonhar, a errar e a criar.

Essa vontade de inovar também aparece nos próprios vinhos?

D.L.C. — Sim. O Invisível é, provavelmente, a nossa referência mais forte no mercado e nasceu dessa vontade de fazer diferente. É um vinho branco produzido a partir de uvas tintas, neste caso: Aragonez. Depois, temos outras referências monocasta e, através da Escolha do Enólogo, podemos lançar vinhos diferentes consoante aquilo que cada colheita nos permite fazer. Já trabalhámos, por exemplo, Moscatel seco, Viognier e Alicante Bouschet. A ideia é que também exista espaço para experimentar e para deixar que determinadas castas se expressem de uma forma mais marcada.



O consumo de vinho está a mudar. Onde gostaria de ver a Ervideira daqui a cinco anos?

D.L.C. — O mercado do vinho está a encolher e os hábitos estão a mudar, sobretudo nas gerações mais novas. Ao mesmo tempo, nós estamos a crescer em vendas. Onde quero estar daqui a cinco anos? Quero que haja mais gente a dizer: “Gosto destes tipos e gosto dos vinhos que eles fazem”. Não quero estar no meio de pessoas que bebem muito vinho. Quero estar no meio de muita gente que gosta de vinho. O vinho tem de estar associado aos bons momentos, ao prazer, à partilha, aos amigos e à conversa. Não pode estar associado ao excesso. É aí que queremos estar.

E como se comunica uma marca a partir dessa ideia?

D.L.C. — Creio que vamos sonhando alegremente. Queremos partilhar através da alegria. A Vindima Noturna é um bom exemplo. Existe uma componente de diversão e de experiência, claro, mas quem participa, vai também perceber que uma vindima é trabalho. Há ritmo, intensidade, é preciso apanhar a uva e fazê-la chegar à adega. A experiência não deve transformar esse trabalho numa encenação. Hoje, grande parte da vindima é mecanizada e isso também trouxe vantagens. A máquina não veio estragar a vindima; contribui para a qualidade das uvas e permite trabalhar a uma escala que seria impossível manter manualmente durante uma campanha inteira. Numa experiência, podemos vindimar à mão durante uma ou duas horas. Fazer uma vindima noturna inteira dessa forma seria outra realidade.

#Protagonistas

DUARTE LEAL DA COSTA: "O vinho tem de estar associado aos bons momentos"

Defende que o vinho começa muito antes de chegar ao copo e continua depois de a garrafa acabar. O entusiasmo com que conversa é o mesmo com que guia provas e defende o setor. O responsável pela Ervideira, referência do vinho alentejano, fala ao MOTIVO sobre a estratégia dos eventos, o consumo das novas gerações, a cultura da empresa e o equilíbrio entre uma história familiar longa e a necessidade permanente de continuar a inovar.

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9 de set. de 2026, 12:00

A Ervideira organiza iniciativas como a Vindima Noturna, os Sunsets e outros eventos ao longo do ano. O que representam estas experiências para uma marca de vinhos?

DUARTE LEAL DA COSTA — A marca é algo que colocamos num produto, e o nosso produto não é apenas vinho ou uvas. Nós trabalhamos com fruta durante todo o ano e transformamo-la através da fermentação. Quando chegamos ao produto final, estamos a trabalhar com algo que é alimento, história, partilha, prazer, amigos e família. Por isso, não nos podemos limitar a uma garrafa, a uma rolha e a um copo. Há uma história, há conversa, há amigos, há tudo à volta. Os eventos fazem parte do produto em si. Sempre estivemos ligados a eventos. Já estivemos associados a corridas, a ralis e queremos voltar a fazer algumas dessas coisas. O vinho pode estar presente em diferentes momentos e experiências.

Estes eventos funcionam, também, como uma porta de entrada para pessoas que talvez ainda não tenham uma relação próxima com o vinho e com a própria marca?

D.L.C. — Sim. São uma porta de entrada para a experimentação e ajudam-nos também a contrariar a ideia de que o vinho é uma coisa de gente mais velha. Porque é que numa festa se bebe gin, vodka, tequila ou cerveja e o vinho fica de fora? O vinho faz parte de muitos momentos da nossa vida, não apenas das refeições. Também pode fazer parte das festas. Queremos fazer mais festas com vinho e criar experiências ligadas ao vinho em diferentes tipos de atividades. Sempre com moderação. Essa parte é fundamental.



Falou em levar o vinho a outros públicos. Sente uma espécie de missão em torno da Ervideira?

D.L.C. — Eu já nem lhe chamaria missão, porque missão quase parece uma obrigação. Para mim, a Ervideira é prazer. Eu gosto de trabalhar. Gosto de olhar para uma equipa como para um puzzle. Podemos ter um puzzle com 50, 200 ou mil peças: se retirarmos uma, deixa de estar completo. Aqui, somos cerca de 50 pessoas e cada uma é uma peça diferente. Todas fazem falta. O prazer está em conseguir que esse puzzle esteja completo e que, depois, possamos mostrar o resultado lá fora. A pior coisa que me podia acontecer era alguém provar um vinho nosso e sentir que não recebeu valor pelo que pagou. Quero que a pessoa diga: “Gostei deste produto, partilhei-o com os meus amigos, tivemos uma grande noite”. Se depois já nem se lembrar exatamente de qual era a referência, tudo bem. O objetivo é fazer parte dos momentos.

O que diferencia a Ervideira num mercado com tanta oferta?

D.L.C. — Primeiro, o vinho. A pessoa prova e tem de dizer: “Gosto disto”. Temos um objetivo diário de manter um padrão de qualidade elevado. Depois, existe a forma como trabalhamos. Isto é uma empresa e tem de ser gerida com números. Temos salários, impostos, Segurança Social, fornecedores, todas as obrigações de qualquer empresa. É um trabalho exigente. Dentro dessa exigência, podemos trabalhar com prazer ou sem prazer. Aqui, procuramos trabalhar com prazer. Por detrás de uma uva, de uma garrafa e de uma rolha, existe também respeito pelos fornecedores e pelos trabalhadores. Quero que as pessoas gostem de trabalhar aqui. Para mim, isso faz diferença no espírito da Ervideira.


"Temos de continuar a sonhar"


Estamos perante uma marca familiar com uma história longa, que já vai na 4ª e 5ª geração. Como se equilibra esse legado com a necessidade de continuar atual?

D.L.C. — O mundo evolui. Tenho uma regra que digo às pessoas que trabalham comigo: quem não sonha não tem espaço para trabalhar aqui. Cada pessoa tem de cumprir a sua função, naturalmente, mas também deve existir espaço para inovação, sonho e realização. Isso aplica-se a todas as áreas. Pode ser o enólogo a pensar num vinho novo, alguém na linha de engarrafamento a procurar uma forma de produzir melhor ou qualquer outra pessoa da equipa a imaginar uma solução diferente. Temos de dar espaço para isso.

Mesmo correndo o risco de existirem erros?

D.L.C. — Quando damos espaço, as pessoas também vão errar. O erro faz parte do trabalho. Errar dez vezes na mesma coisa é que já é outra história. Quem experimenta alguma coisa nova, pode falhar, aprender e melhorar na vez seguinte. Temos de continuar a sonhar, a errar e a criar.

Essa vontade de inovar também aparece nos próprios vinhos?

D.L.C. — Sim. O Invisível é, provavelmente, a nossa referência mais forte no mercado e nasceu dessa vontade de fazer diferente. É um vinho branco produzido a partir de uvas tintas, neste caso: Aragonez. Depois, temos outras referências monocasta e, através da Escolha do Enólogo, podemos lançar vinhos diferentes consoante aquilo que cada colheita nos permite fazer. Já trabalhámos, por exemplo, Moscatel seco, Viognier e Alicante Bouschet. A ideia é que também exista espaço para experimentar e para deixar que determinadas castas se expressem de uma forma mais marcada.



O consumo de vinho está a mudar. Onde gostaria de ver a Ervideira daqui a cinco anos?

D.L.C. — O mercado do vinho está a encolher e os hábitos estão a mudar, sobretudo nas gerações mais novas. Ao mesmo tempo, nós estamos a crescer em vendas. Onde quero estar daqui a cinco anos? Quero que haja mais gente a dizer: “Gosto destes tipos e gosto dos vinhos que eles fazem”. Não quero estar no meio de pessoas que bebem muito vinho. Quero estar no meio de muita gente que gosta de vinho. O vinho tem de estar associado aos bons momentos, ao prazer, à partilha, aos amigos e à conversa. Não pode estar associado ao excesso. É aí que queremos estar.

E como se comunica uma marca a partir dessa ideia?

D.L.C. — Creio que vamos sonhando alegremente. Queremos partilhar através da alegria. A Vindima Noturna é um bom exemplo. Existe uma componente de diversão e de experiência, claro, mas quem participa, vai também perceber que uma vindima é trabalho. Há ritmo, intensidade, é preciso apanhar a uva e fazê-la chegar à adega. A experiência não deve transformar esse trabalho numa encenação. Hoje, grande parte da vindima é mecanizada e isso também trouxe vantagens. A máquina não veio estragar a vindima; contribui para a qualidade das uvas e permite trabalhar a uma escala que seria impossível manter manualmente durante uma campanha inteira. Numa experiência, podemos vindimar à mão durante uma ou duas horas. Fazer uma vindima noturna inteira dessa forma seria outra realidade.

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