
Crítica | A ODISSEIA: Nolan contra os deuses
#Motivação
Opinião

Christopher Nolan pega no poema de Homero e capta-o com câmaras IMAX, que nunca antes tinham filmado uma longa-metragem inteira. O espectáculo é colossal, a emoção não falta. Ligarmo-nos às personagens é que, por vezes, fica a meio caminho de casa.
Classificação: ★★★★☆

Sou daqueles que conheceram a Odisseia no sexto ano, no Ulisses, de Maria Alberta Menéres, aquela edição abreviada que andou (e ainda anda) em tantas mochilas escolares. Mas podia tê-la encontrado por outro caminho qualquer — como a adaptação de 1954 de Mario Camerini, com um tal Kirk Douglas no papel principal. O mito sempre soube chegar a diferentes públicos, de diferentes maneiras. O britânico Christopher Nolan também se cruzou com a história em criança, numa peça de escola encenada por alunos mais velhos. Agora, décadas depois, devolve-nos não o poema, mas a leitura moderna que dele faz. A versão resumida dá lugar a quase três horas de experiência cinematográfica, com grandeza e de forma não linear, como já é apanágio da sua filmografia.
Depois de, há dois anos, ter vencido sete Óscares com Oppenheimer, sobre a criação da bomba atómica, o que lhe restava? Uma história ainda mais monumental. Com 250 milhões de dólares de orçamento, o mais caro da sua carreira, pega num poema com quase três mil anos e transforma-o num espectáculo cinematográfico ao seu estilo: elenco estelar, escala colossal e a proeza técnica de ser o primeiro filme da história rodado inteiramente com câmaras IMAX.

A premissa é conhecida. Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca e estratega do cavalo de Tróia, venceu a guerra. Dez anos depois, ainda não voltou a casa. Em Ítaca, acreditando no seu regresso, Penélope (Anne Hathaway) e Telémaco (Tom Holland) resistem a uma matilha de pretendentes, como Antínoo (Robert Pattinson), que quer o trono. Entre eles e o regresso do herói estão deuses e seres míticos, como a ninfa Calipso (Charlize Theron) ou o ciclope Polifemo. Odisseu sofre, mas também saboreia a jornada. A sensualidade e a aventura seduzem-no tanto quanto os perigos, e é aí, nessa dualidade tão humana, que nos prendemos ainda mais a ele. Só que cada prazer é também um entrave, cada demora tem um preço, ao qual acresce a arrogância de um homem que jurou que nada, nem os deuses, se colocariam entre os seus homens e casa.

Nolan conta tudo isto numa já habitual narrativa não linear, em que passado e presente convivem. E é aqui que o filme não resulta tão bem, pelo menos no início. Nos primeiros vinte minutos, recorre aos parceiros do costume, Hoyte van Hoytema e Ludwig Göransson, para nos envolver na sua visão homérica: as imagens são de cortar a respiração, a banda sonora ousada acelera a pulsação, mas o cineasta pressupõe, erradamente, que toda a audiência está familiarizada com as personagens de Homero. Ao fazê-lo, deixa-nos como Odisseu, à deriva.

Acerta depois a rota, ao dissecar a grande vitória de Tróia e a Lei de Zeus (o dever de tratar o outro como gostaríamos de ser tratados), onde o filme encontra as suas bússolas morais. O cavalo, que primeiro vemos como triunfo, regressa mais tarde como tragédia, e a partitura de Göransson muda com ele. É na releitura daquilo que durante séculos se representou como grande vitória militar que Nolan eleva o filme até ao limite, mas nunca chega verdadeiramente ao Olimpo. Apaga fisicamente os deuses, e Zeus e Poséidon sentem-se só na fúria dos elementos. É apenas Atena, numa Zendaya que faz muito com pouco, aparecendo mais como visão e eco do remorso de Odisseu do que divindade a protegê-lo.

O filme ganha em humanidade o que perde em mito. A versão de Nolan defende-se, mas quem vem da leitura recente do poema, no meu caso, da tradução do Professor Frederico Lourenço, dá pela falta daquele Olimpo sobrenatural que empresta a Odisseu parte da sua coragem e magnitude. Isto não significa que lhe falte emoção: Damon carrega a culpa e a perda como poucos, mas ligarmo-nos por inteiro às personagens custa mais, e o regresso a casa comove menos do que a luta pela sobrevivência. O argumento parece então algo divino, em que a conexão emocional é, por vezes, uma mera ilusão.
No entanto, sempre que o argumento parece hesitar, o cinema artesanal de Nolan responde, por vezes de forma inesperada e sufocante, com os encontros do herói com as figuras do Ciclope e da feiticeira Circe (Samantha Morton) a serem cenas de puro terror: expressão artística do cineasta que, há muito, afirma ter a ambição fazer um filme desse género.
Os nomes sonantes no elenco são muitos, mas são os atores que interpretam personagens secundárias que mais impressionam. John Leguizamo (como Eumeu, o fiel pastor de porcos de Odisseu), Samantha Morton (a feiticeira Circe) e Robert Pattinson (como o pretendente Antínoo) destacam-se em todos os minutos em que surgem no ecrã.

No final, A Odisseia de Nolan parece ser literalmente contra os deuses, não espelhando a sensação de fantasia humanista presente na obra imensa de Homero, que aproxima homens e divindades. Mas não deixa de ser uma jornada tecnicamente deslumbrante, do início ao fim. Numa era dominada pelo streaming, é de aplaudir um realizador que insiste em pensar e fazer filmes para serem experienciados por inteiro numa sala de cinema. Só por isso, já merecia a viagem. No horizonte, tem os Óscares de 2027, e é provável que, ao contrário de Odisseu, este regresso a "casa" não demore dez anos.
OUTRAS CRÍTICAS DE CINEMA, ASSINADAS POR DIOGO MARQUES, AQUI.
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Christopher Nolan pega no poema de Homero e capta-o com câmaras IMAX, que nunca antes tinham filmado uma longa-metragem inteira. O espectáculo é colossal, a emoção não falta. Ligarmo-nos às personagens é que, por vezes, fica a meio caminho de casa.
Classificação: ★★★★☆

Sou daqueles que conheceram a Odisseia no sexto ano, no Ulisses, de Maria Alberta Menéres, aquela edição abreviada que andou (e ainda anda) em tantas mochilas escolares. Mas podia tê-la encontrado por outro caminho qualquer — como a adaptação de 1954 de Mario Camerini, com um tal Kirk Douglas no papel principal. O mito sempre soube chegar a diferentes públicos, de diferentes maneiras. O britânico Christopher Nolan também se cruzou com a história em criança, numa peça de escola encenada por alunos mais velhos. Agora, décadas depois, devolve-nos não o poema, mas a leitura moderna que dele faz. A versão resumida dá lugar a quase três horas de experiência cinematográfica, com grandeza e de forma não linear, como já é apanágio da sua filmografia.
Depois de, há dois anos, ter vencido sete Óscares com Oppenheimer, sobre a criação da bomba atómica, o que lhe restava? Uma história ainda mais monumental. Com 250 milhões de dólares de orçamento, o mais caro da sua carreira, pega num poema com quase três mil anos e transforma-o num espectáculo cinematográfico ao seu estilo: elenco estelar, escala colossal e a proeza técnica de ser o primeiro filme da história rodado inteiramente com câmaras IMAX.

A premissa é conhecida. Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca e estratega do cavalo de Tróia, venceu a guerra. Dez anos depois, ainda não voltou a casa. Em Ítaca, acreditando no seu regresso, Penélope (Anne Hathaway) e Telémaco (Tom Holland) resistem a uma matilha de pretendentes, como Antínoo (Robert Pattinson), que quer o trono. Entre eles e o regresso do herói estão deuses e seres míticos, como a ninfa Calipso (Charlize Theron) ou o ciclope Polifemo. Odisseu sofre, mas também saboreia a jornada. A sensualidade e a aventura seduzem-no tanto quanto os perigos, e é aí, nessa dualidade tão humana, que nos prendemos ainda mais a ele. Só que cada prazer é também um entrave, cada demora tem um preço, ao qual acresce a arrogância de um homem que jurou que nada, nem os deuses, se colocariam entre os seus homens e casa.

Nolan conta tudo isto numa já habitual narrativa não linear, em que passado e presente convivem. E é aqui que o filme não resulta tão bem, pelo menos no início. Nos primeiros vinte minutos, recorre aos parceiros do costume, Hoyte van Hoytema e Ludwig Göransson, para nos envolver na sua visão homérica: as imagens são de cortar a respiração, a banda sonora ousada acelera a pulsação, mas o cineasta pressupõe, erradamente, que toda a audiência está familiarizada com as personagens de Homero. Ao fazê-lo, deixa-nos como Odisseu, à deriva.

Acerta depois a rota, ao dissecar a grande vitória de Tróia e a Lei de Zeus (o dever de tratar o outro como gostaríamos de ser tratados), onde o filme encontra as suas bússolas morais. O cavalo, que primeiro vemos como triunfo, regressa mais tarde como tragédia, e a partitura de Göransson muda com ele. É na releitura daquilo que durante séculos se representou como grande vitória militar que Nolan eleva o filme até ao limite, mas nunca chega verdadeiramente ao Olimpo. Apaga fisicamente os deuses, e Zeus e Poséidon sentem-se só na fúria dos elementos. É apenas Atena, numa Zendaya que faz muito com pouco, aparecendo mais como visão e eco do remorso de Odisseu do que divindade a protegê-lo.

O filme ganha em humanidade o que perde em mito. A versão de Nolan defende-se, mas quem vem da leitura recente do poema, no meu caso, da tradução do Professor Frederico Lourenço, dá pela falta daquele Olimpo sobrenatural que empresta a Odisseu parte da sua coragem e magnitude. Isto não significa que lhe falte emoção: Damon carrega a culpa e a perda como poucos, mas ligarmo-nos por inteiro às personagens custa mais, e o regresso a casa comove menos do que a luta pela sobrevivência. O argumento parece então algo divino, em que a conexão emocional é, por vezes, uma mera ilusão.
No entanto, sempre que o argumento parece hesitar, o cinema artesanal de Nolan responde, por vezes de forma inesperada e sufocante, com os encontros do herói com as figuras do Ciclope e da feiticeira Circe (Samantha Morton) a serem cenas de puro terror: expressão artística do cineasta que, há muito, afirma ter a ambição fazer um filme desse género.
Os nomes sonantes no elenco são muitos, mas são os atores que interpretam personagens secundárias que mais impressionam. John Leguizamo (como Eumeu, o fiel pastor de porcos de Odisseu), Samantha Morton (a feiticeira Circe) e Robert Pattinson (como o pretendente Antínoo) destacam-se em todos os minutos em que surgem no ecrã.

No final, A Odisseia de Nolan parece ser literalmente contra os deuses, não espelhando a sensação de fantasia humanista presente na obra imensa de Homero, que aproxima homens e divindades. Mas não deixa de ser uma jornada tecnicamente deslumbrante, do início ao fim. Numa era dominada pelo streaming, é de aplaudir um realizador que insiste em pensar e fazer filmes para serem experienciados por inteiro numa sala de cinema. Só por isso, já merecia a viagem. No horizonte, tem os Óscares de 2027, e é provável que, ao contrário de Odisseu, este regresso a "casa" não demore dez anos.
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Crítica | A ODISSEIA: Nolan contra os deuses
#Motivação
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Christopher Nolan pega no poema de Homero e capta-o com câmaras IMAX, que nunca antes tinham filmado uma longa-metragem inteira. O espectáculo é colossal, a emoção não falta. Ligarmo-nos às personagens é que, por vezes, fica a meio caminho de casa.
Classificação: ★★★★☆

Sou daqueles que conheceram a Odisseia no sexto ano, no Ulisses, de Maria Alberta Menéres, aquela edição abreviada que andou (e ainda anda) em tantas mochilas escolares. Mas podia tê-la encontrado por outro caminho qualquer — como a adaptação de 1954 de Mario Camerini, com um tal Kirk Douglas no papel principal. O mito sempre soube chegar a diferentes públicos, de diferentes maneiras. O britânico Christopher Nolan também se cruzou com a história em criança, numa peça de escola encenada por alunos mais velhos. Agora, décadas depois, devolve-nos não o poema, mas a leitura moderna que dele faz. A versão resumida dá lugar a quase três horas de experiência cinematográfica, com grandeza e de forma não linear, como já é apanágio da sua filmografia.
Depois de, há dois anos, ter vencido sete Óscares com Oppenheimer, sobre a criação da bomba atómica, o que lhe restava? Uma história ainda mais monumental. Com 250 milhões de dólares de orçamento, o mais caro da sua carreira, pega num poema com quase três mil anos e transforma-o num espectáculo cinematográfico ao seu estilo: elenco estelar, escala colossal e a proeza técnica de ser o primeiro filme da história rodado inteiramente com câmaras IMAX.

A premissa é conhecida. Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca e estratega do cavalo de Tróia, venceu a guerra. Dez anos depois, ainda não voltou a casa. Em Ítaca, acreditando no seu regresso, Penélope (Anne Hathaway) e Telémaco (Tom Holland) resistem a uma matilha de pretendentes, como Antínoo (Robert Pattinson), que quer o trono. Entre eles e o regresso do herói estão deuses e seres míticos, como a ninfa Calipso (Charlize Theron) ou o ciclope Polifemo. Odisseu sofre, mas também saboreia a jornada. A sensualidade e a aventura seduzem-no tanto quanto os perigos, e é aí, nessa dualidade tão humana, que nos prendemos ainda mais a ele. Só que cada prazer é também um entrave, cada demora tem um preço, ao qual acresce a arrogância de um homem que jurou que nada, nem os deuses, se colocariam entre os seus homens e casa.

Nolan conta tudo isto numa já habitual narrativa não linear, em que passado e presente convivem. E é aqui que o filme não resulta tão bem, pelo menos no início. Nos primeiros vinte minutos, recorre aos parceiros do costume, Hoyte van Hoytema e Ludwig Göransson, para nos envolver na sua visão homérica: as imagens são de cortar a respiração, a banda sonora ousada acelera a pulsação, mas o cineasta pressupõe, erradamente, que toda a audiência está familiarizada com as personagens de Homero. Ao fazê-lo, deixa-nos como Odisseu, à deriva.

Acerta depois a rota, ao dissecar a grande vitória de Tróia e a Lei de Zeus (o dever de tratar o outro como gostaríamos de ser tratados), onde o filme encontra as suas bússolas morais. O cavalo, que primeiro vemos como triunfo, regressa mais tarde como tragédia, e a partitura de Göransson muda com ele. É na releitura daquilo que durante séculos se representou como grande vitória militar que Nolan eleva o filme até ao limite, mas nunca chega verdadeiramente ao Olimpo. Apaga fisicamente os deuses, e Zeus e Poséidon sentem-se só na fúria dos elementos. É apenas Atena, numa Zendaya que faz muito com pouco, aparecendo mais como visão e eco do remorso de Odisseu do que divindade a protegê-lo.

O filme ganha em humanidade o que perde em mito. A versão de Nolan defende-se, mas quem vem da leitura recente do poema, no meu caso, da tradução do Professor Frederico Lourenço, dá pela falta daquele Olimpo sobrenatural que empresta a Odisseu parte da sua coragem e magnitude. Isto não significa que lhe falte emoção: Damon carrega a culpa e a perda como poucos, mas ligarmo-nos por inteiro às personagens custa mais, e o regresso a casa comove menos do que a luta pela sobrevivência. O argumento parece então algo divino, em que a conexão emocional é, por vezes, uma mera ilusão.
No entanto, sempre que o argumento parece hesitar, o cinema artesanal de Nolan responde, por vezes de forma inesperada e sufocante, com os encontros do herói com as figuras do Ciclope e da feiticeira Circe (Samantha Morton) a serem cenas de puro terror: expressão artística do cineasta que, há muito, afirma ter a ambição fazer um filme desse género.
Os nomes sonantes no elenco são muitos, mas são os atores que interpretam personagens secundárias que mais impressionam. John Leguizamo (como Eumeu, o fiel pastor de porcos de Odisseu), Samantha Morton (a feiticeira Circe) e Robert Pattinson (como o pretendente Antínoo) destacam-se em todos os minutos em que surgem no ecrã.

No final, A Odisseia de Nolan parece ser literalmente contra os deuses, não espelhando a sensação de fantasia humanista presente na obra imensa de Homero, que aproxima homens e divindades. Mas não deixa de ser uma jornada tecnicamente deslumbrante, do início ao fim. Numa era dominada pelo streaming, é de aplaudir um realizador que insiste em pensar e fazer filmes para serem experienciados por inteiro numa sala de cinema. Só por isso, já merecia a viagem. No horizonte, tem os Óscares de 2027, e é provável que, ao contrário de Odisseu, este regresso a "casa" não demore dez anos.
OUTRAS CRÍTICAS DE CINEMA, ASSINADAS POR DIOGO MARQUES, AQUI.
Crítica | A ODISSEIA: Nolan contra os deuses
#Motivação
Opinião

Christopher Nolan pega no poema de Homero e capta-o com câmaras IMAX, que nunca antes tinham filmado uma longa-metragem inteira. O espectáculo é colossal, a emoção não falta. Ligarmo-nos às personagens é que, por vezes, fica a meio caminho de casa.
Classificação: ★★★★☆

Sou daqueles que conheceram a Odisseia no sexto ano, no Ulisses, de Maria Alberta Menéres, aquela edição abreviada que andou (e ainda anda) em tantas mochilas escolares. Mas podia tê-la encontrado por outro caminho qualquer — como a adaptação de 1954 de Mario Camerini, com um tal Kirk Douglas no papel principal. O mito sempre soube chegar a diferentes públicos, de diferentes maneiras. O britânico Christopher Nolan também se cruzou com a história em criança, numa peça de escola encenada por alunos mais velhos. Agora, décadas depois, devolve-nos não o poema, mas a leitura moderna que dele faz. A versão resumida dá lugar a quase três horas de experiência cinematográfica, com grandeza e de forma não linear, como já é apanágio da sua filmografia.
Depois de, há dois anos, ter vencido sete Óscares com Oppenheimer, sobre a criação da bomba atómica, o que lhe restava? Uma história ainda mais monumental. Com 250 milhões de dólares de orçamento, o mais caro da sua carreira, pega num poema com quase três mil anos e transforma-o num espectáculo cinematográfico ao seu estilo: elenco estelar, escala colossal e a proeza técnica de ser o primeiro filme da história rodado inteiramente com câmaras IMAX.

A premissa é conhecida. Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca e estratega do cavalo de Tróia, venceu a guerra. Dez anos depois, ainda não voltou a casa. Em Ítaca, acreditando no seu regresso, Penélope (Anne Hathaway) e Telémaco (Tom Holland) resistem a uma matilha de pretendentes, como Antínoo (Robert Pattinson), que quer o trono. Entre eles e o regresso do herói estão deuses e seres míticos, como a ninfa Calipso (Charlize Theron) ou o ciclope Polifemo. Odisseu sofre, mas também saboreia a jornada. A sensualidade e a aventura seduzem-no tanto quanto os perigos, e é aí, nessa dualidade tão humana, que nos prendemos ainda mais a ele. Só que cada prazer é também um entrave, cada demora tem um preço, ao qual acresce a arrogância de um homem que jurou que nada, nem os deuses, se colocariam entre os seus homens e casa.

Nolan conta tudo isto numa já habitual narrativa não linear, em que passado e presente convivem. E é aqui que o filme não resulta tão bem, pelo menos no início. Nos primeiros vinte minutos, recorre aos parceiros do costume, Hoyte van Hoytema e Ludwig Göransson, para nos envolver na sua visão homérica: as imagens são de cortar a respiração, a banda sonora ousada acelera a pulsação, mas o cineasta pressupõe, erradamente, que toda a audiência está familiarizada com as personagens de Homero. Ao fazê-lo, deixa-nos como Odisseu, à deriva.

Acerta depois a rota, ao dissecar a grande vitória de Tróia e a Lei de Zeus (o dever de tratar o outro como gostaríamos de ser tratados), onde o filme encontra as suas bússolas morais. O cavalo, que primeiro vemos como triunfo, regressa mais tarde como tragédia, e a partitura de Göransson muda com ele. É na releitura daquilo que durante séculos se representou como grande vitória militar que Nolan eleva o filme até ao limite, mas nunca chega verdadeiramente ao Olimpo. Apaga fisicamente os deuses, e Zeus e Poséidon sentem-se só na fúria dos elementos. É apenas Atena, numa Zendaya que faz muito com pouco, aparecendo mais como visão e eco do remorso de Odisseu do que divindade a protegê-lo.

O filme ganha em humanidade o que perde em mito. A versão de Nolan defende-se, mas quem vem da leitura recente do poema, no meu caso, da tradução do Professor Frederico Lourenço, dá pela falta daquele Olimpo sobrenatural que empresta a Odisseu parte da sua coragem e magnitude. Isto não significa que lhe falte emoção: Damon carrega a culpa e a perda como poucos, mas ligarmo-nos por inteiro às personagens custa mais, e o regresso a casa comove menos do que a luta pela sobrevivência. O argumento parece então algo divino, em que a conexão emocional é, por vezes, uma mera ilusão.
No entanto, sempre que o argumento parece hesitar, o cinema artesanal de Nolan responde, por vezes de forma inesperada e sufocante, com os encontros do herói com as figuras do Ciclope e da feiticeira Circe (Samantha Morton) a serem cenas de puro terror: expressão artística do cineasta que, há muito, afirma ter a ambição fazer um filme desse género.
Os nomes sonantes no elenco são muitos, mas são os atores que interpretam personagens secundárias que mais impressionam. John Leguizamo (como Eumeu, o fiel pastor de porcos de Odisseu), Samantha Morton (a feiticeira Circe) e Robert Pattinson (como o pretendente Antínoo) destacam-se em todos os minutos em que surgem no ecrã.

No final, A Odisseia de Nolan parece ser literalmente contra os deuses, não espelhando a sensação de fantasia humanista presente na obra imensa de Homero, que aproxima homens e divindades. Mas não deixa de ser uma jornada tecnicamente deslumbrante, do início ao fim. Numa era dominada pelo streaming, é de aplaudir um realizador que insiste em pensar e fazer filmes para serem experienciados por inteiro numa sala de cinema. Só por isso, já merecia a viagem. No horizonte, tem os Óscares de 2027, e é provável que, ao contrário de Odisseu, este regresso a "casa" não demore dez anos.



