
#Protagonistas
ANTÓNIO PEDRO PINTO: "A cultura de uma empresa não se constrói através do que está escrito numa parede"
O futuro do trabalho já não se discute apenas em torno de tecnologia, produtividade ou novas competências. Para António Pedro Pinto, CEO e fundador do Happiness Camp, a capacidade das empresas para preparar pessoas, proteger o seu bem-estar e gerir a mudança tornou-se uma questão estratégica. Quando falta menos de um mês para a edição de 2026 do evento, no Porto, o responsável explica ao MOTIVO porque acredita que sustentabilidade humana e competitividade terão de avançar lado a lado.
O Happiness Camp apresenta-se como mais do que uma simples conferência. Trata-se de um encontro internacional sobre sustentabilidade humana e futuro do trabalho. O que é que distingue este conceito de uma conversa mais genérica sobre felicidade nas empresas?
ANTÓNIO PEDRO PINTO — O Happiness Camp nasceu de uma ideia simples, mas que, hoje, ganhou uma dimensão muito maior: não podemos falar do futuro das organizações sem falar do futuro das pessoas. Por isso, o conceito evoluiu. Já não estamos apenas a discutir ambientes de trabalho mais positivos ou iniciativas de bem-estar. Estamos a discutir sustentabilidade humana, ou seja, a capacidade de uma organização criar condições para que as pessoas consigam trabalhar, aprender, adaptar-se e evoluir de forma sustentável num contexto de transformação permanente. Inteligência Artificial, automação, novas competências, saúde mental, longevidade, liderança e mudança cultural estão a acontecer simultaneamente. O grande desafio é perceber como é que colocamos tudo isto ao serviço de organizações mais humanas, mas também mais competitivas. É essa interseção entre pessoas, tecnologia e futuro do trabalho que distingue o Happiness Camp.

A 4ª edição do Happiness Camp volta a decorrer na Alfândega do Porto e está marcada para dia 24 de setembro
A edição deste ano acontece num contexto em que as organizações falam cada vez mais de saúde mental, retenção de talento e novas formas de liderança. Que perguntas sente que as empresas já não podem continuar a adiar?
A.P.P. — Há várias perguntas que já não podemos adiar. Como preparar as pessoas para profissões que estão a ser transformadas pela Inteligência Artificial? Como manter desempenho sem normalizar exaustão? Como liderar equipas num contexto em que a mudança deixou de ser exceção e passou a ser permanente? E como garantir que as pessoas percebem que têm um futuro dentro das organizações? Durante muito tempo, falámos de engagement, pertença e retenção. Continuam a ser importantes, mas hoje existe uma pergunta ainda mais profunda: “Tenho futuro aqui?”. Estamos perante aquilo que começa a ser identificado como change fatigue: a fadiga provocada por processos sucessivos de transformação, reorganização e adaptação. Não podemos pedir às pessoas que mudem constantemente sem lhes dar clareza, competências e tempo para absorver essa mudança. As empresas que conseguirem responder a estas questões estarão muito mais preparadas para a próxima década.
O Happiness Camp tem crescido em escala, com participantes de várias nacionalidades e empresas. Do ponto de vista da organização, que desafios existem em transformar um tema tão humano num evento de grande dimensão?
A.P.P. — O maior desafio é crescer sem perder profundidade. Quando falamos de temas humanos, existe sempre o risco de cair em mensagens demasiado simples ou inspiracionais. O nosso objetivo é, precisamente, evitar isso. Queremos trazer para o Porto pessoas que estão a viver e a liderar estas transformações em diferentes geografias e setores. Por isso, temos líderes de grandes empresas, especialistas em saúde, tecnologia, comportamento humano, liderança e inteligência artificial, mas também pessoas com experiências muito diferentes. O desafio é criar escala sem transformar complexidade em slogans. E há outra responsabilidade: representar Portugal, e o Porto, perante uma audiência internacional. Queremos que quem vier ao Happiness Camp não veja apenas um grande evento, mas reconheça o Porto como um lugar onde se discutem algumas das questões mais importantes sobre o futuro do trabalho.

O programa da edição deste ano pode ser consultado aqui
O Happiness Camp mistura conferência, festival, masterclasses, zona de bem-estar e área de expositores. Porque é que escolheram afastar-se do formato mais tradicional de evento corporativo?
A.P.P. — Porque acreditamos que o formato também tem de acompanhar a transformação do trabalho. O modelo tradicional de conferência assenta muitas vezes numa pessoa a falar e numa audiência a ouvir. Nós queremos mais interação, mais aprendizagem e mais experiências. O futuro do trabalho é multidisciplinar. Não podemos separar tecnologia de comportamento, liderança de saúde mental ou aprendizagem de inovação. O formato de festival permite, precisamente, esse cruzamento. As pessoas podem assistir a uma grande conversa, participar numa masterclass, conhecer uma nova tecnologia, estabelecer contactos e, ao mesmo tempo, ter momentos para parar e refletir. Queremos que o Happiness Camp seja vivido, e não apenas assistido.
A felicidade no trabalho ainda é, para algumas empresas, vista como um tema “simpático”, mas pouco estratégico. O que é preciso mudar para que passe a ser tratada como parte central da gestão?
A.P.P. — É preciso deixar de tratar estes temas como uma agenda exclusivamente de Recursos Humanos. Estamos a falar de produtividade, inovação, retenção, absentismo, capacidade de adaptação e competitividade. Uma pessoa exausta, permanentemente ansiosa ou sem perspetiva de desenvolvimento, não consegue contribuir da mesma forma para uma organização. E uma empresa que perde continuamente talento porque não consegue criar boas condições para as pessoas, tem um problema de negócio, não apenas um problema de cultura. A sustentabilidade humana tem de entrar na sala onde se tomam as decisões estratégicas. O futuro não será das empresas que escolherem entre pessoas e performance. Será das empresas que perceberem que uma depende da outra.

António Pedro Pinto é o fundador e responsável máximo do Happiness Camp
Quando se fala de organizações mais felizes, há sempre o risco de simplificar problemas complexos. Como se evita transformar a felicidade corporativa num slogan ou numa ação pontual de employer branding?
A.P.P. — Começando por não confundir comunicação com transformação. Uma campanha interna, uma sessão de mindfulness ou um benefício adicional podem ser positivos, mas não resolvem problemas estruturais. Se uma organização fala de bem-estar mas tem lideranças tóxicas, excesso de trabalho, ausência de clareza ou pessoas permanentemente inseguras relativamente ao seu futuro, existe uma contradição. A cultura empresarial não se constrói através do que está escrito numa parede. Constrói-se através da experiência diária das pessoas. Por isso, precisamos de olhar para questões mais difíceis: como lideramos, como avaliamos desempenho, como distribuímos carga de trabalho, como desenvolvemos competências e como comunicamos processos de transformação. O verdadeiro teste é simples: aquilo que uma empresa diz sobre as suas pessoas é reconhecido por essas mesmas pessoas na sua experiência diária?
O Happiness Camp junta líderes, equipas, especialistas e marcas. Que tipo de impacto gostariam que acontecesse depois do dia do evento, dentro das empresas que participam?
A.P.P. — Queremos provocar mudança concreta. Se as pessoas saírem do Happiness Camp apenas inspiradas, mas no dia seguinte tudo continuar exatamente igual, não cumprimos a nossa missão. Gostávamos que um líder regressasse à empresa e fizesse uma pergunta diferente à sua equipa. Que um profissional percebesse que precisa de desenvolver uma nova competência. Que uma organização repensasse a forma como está a implementar Inteligência Artificial. Ou que uma empresa percebesse que está a pedir mais velocidade às pessoas do que capacidade humana para acompanhar essa velocidade. O verdadeiro impacto do Happiness Camp não acontece na Alfândega do Porto. Acontece nos dias e nos meses seguintes, dentro das organizações.

Olhando para o futuro do trabalho, o António acredita que as empresas vão ser avaliadas cada vez mais pela forma como cuidam das pessoas, além dos resultados que apresentam?
A.P.P. — Sim, mas acredito que a questão será ainda mais exigente. As empresas serão avaliadas não apenas pela forma como cuidam das pessoas, mas pela forma como as preparam para o futuro. Resultados continuarão a ser fundamentais. A tecnologia continuará a ser fundamental. A produtividade continuará a ser fundamental. Mas será cada vez mais difícil separar estes fatores da capacidade de uma organização para criar confiança, desenvolver competências e proteger a saúde física, mental e emocional das suas pessoas. Estamos a entrar numa época em que a principal vantagem competitiva poderá não ser simplesmente ter a melhor tecnologia, mas ter pessoas preparadas para trabalhar com essa tecnologia. No fundo, a pergunta que acredito que cada vez mais profissionais vão fazer às empresas é muito simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”. As organizações que conseguirem responder afirmativamente, e demonstrá-lo na prática, estarão muito mais preparadas para o futuro.

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ANTÓNIO PEDRO PINTO: "A cultura de uma empresa não se constrói através do que está escrito numa parede"
O futuro do trabalho já não se discute apenas em torno de tecnologia, produtividade ou novas competências. Para António Pedro Pinto, CEO e fundador do Happiness Camp, a capacidade das empresas para preparar pessoas, proteger o seu bem-estar e gerir a mudança tornou-se uma questão estratégica. Quando falta menos de um mês para a edição de 2026 do evento, no Porto, o responsável explica ao MOTIVO porque acredita que sustentabilidade humana e competitividade terão de avançar lado a lado.
O Happiness Camp apresenta-se como mais do que uma simples conferência. Trata-se de um encontro internacional sobre sustentabilidade humana e futuro do trabalho. O que é que distingue este conceito de uma conversa mais genérica sobre felicidade nas empresas?
ANTÓNIO PEDRO PINTO — O Happiness Camp nasceu de uma ideia simples, mas que, hoje, ganhou uma dimensão muito maior: não podemos falar do futuro das organizações sem falar do futuro das pessoas. Por isso, o conceito evoluiu. Já não estamos apenas a discutir ambientes de trabalho mais positivos ou iniciativas de bem-estar. Estamos a discutir sustentabilidade humana, ou seja, a capacidade de uma organização criar condições para que as pessoas consigam trabalhar, aprender, adaptar-se e evoluir de forma sustentável num contexto de transformação permanente. Inteligência Artificial, automação, novas competências, saúde mental, longevidade, liderança e mudança cultural estão a acontecer simultaneamente. O grande desafio é perceber como é que colocamos tudo isto ao serviço de organizações mais humanas, mas também mais competitivas. É essa interseção entre pessoas, tecnologia e futuro do trabalho que distingue o Happiness Camp.

A 4ª edição do Happiness Camp volta a decorrer na Alfândega do Porto e está marcada para dia 24 de setembro
A edição deste ano acontece num contexto em que as organizações falam cada vez mais de saúde mental, retenção de talento e novas formas de liderança. Que perguntas sente que as empresas já não podem continuar a adiar?
A.P.P. — Há várias perguntas que já não podemos adiar. Como preparar as pessoas para profissões que estão a ser transformadas pela Inteligência Artificial? Como manter desempenho sem normalizar exaustão? Como liderar equipas num contexto em que a mudança deixou de ser exceção e passou a ser permanente? E como garantir que as pessoas percebem que têm um futuro dentro das organizações? Durante muito tempo, falámos de engagement, pertença e retenção. Continuam a ser importantes, mas hoje existe uma pergunta ainda mais profunda: “Tenho futuro aqui?”. Estamos perante aquilo que começa a ser identificado como change fatigue: a fadiga provocada por processos sucessivos de transformação, reorganização e adaptação. Não podemos pedir às pessoas que mudem constantemente sem lhes dar clareza, competências e tempo para absorver essa mudança. As empresas que conseguirem responder a estas questões estarão muito mais preparadas para a próxima década.
O Happiness Camp tem crescido em escala, com participantes de várias nacionalidades e empresas. Do ponto de vista da organização, que desafios existem em transformar um tema tão humano num evento de grande dimensão?
A.P.P. — O maior desafio é crescer sem perder profundidade. Quando falamos de temas humanos, existe sempre o risco de cair em mensagens demasiado simples ou inspiracionais. O nosso objetivo é, precisamente, evitar isso. Queremos trazer para o Porto pessoas que estão a viver e a liderar estas transformações em diferentes geografias e setores. Por isso, temos líderes de grandes empresas, especialistas em saúde, tecnologia, comportamento humano, liderança e inteligência artificial, mas também pessoas com experiências muito diferentes. O desafio é criar escala sem transformar complexidade em slogans. E há outra responsabilidade: representar Portugal, e o Porto, perante uma audiência internacional. Queremos que quem vier ao Happiness Camp não veja apenas um grande evento, mas reconheça o Porto como um lugar onde se discutem algumas das questões mais importantes sobre o futuro do trabalho.

O programa da edição deste ano pode ser consultado aqui
O Happiness Camp mistura conferência, festival, masterclasses, zona de bem-estar e área de expositores. Porque é que escolheram afastar-se do formato mais tradicional de evento corporativo?
A.P.P. — Porque acreditamos que o formato também tem de acompanhar a transformação do trabalho. O modelo tradicional de conferência assenta muitas vezes numa pessoa a falar e numa audiência a ouvir. Nós queremos mais interação, mais aprendizagem e mais experiências. O futuro do trabalho é multidisciplinar. Não podemos separar tecnologia de comportamento, liderança de saúde mental ou aprendizagem de inovação. O formato de festival permite, precisamente, esse cruzamento. As pessoas podem assistir a uma grande conversa, participar numa masterclass, conhecer uma nova tecnologia, estabelecer contactos e, ao mesmo tempo, ter momentos para parar e refletir. Queremos que o Happiness Camp seja vivido, e não apenas assistido.
A felicidade no trabalho ainda é, para algumas empresas, vista como um tema “simpático”, mas pouco estratégico. O que é preciso mudar para que passe a ser tratada como parte central da gestão?
A.P.P. — É preciso deixar de tratar estes temas como uma agenda exclusivamente de Recursos Humanos. Estamos a falar de produtividade, inovação, retenção, absentismo, capacidade de adaptação e competitividade. Uma pessoa exausta, permanentemente ansiosa ou sem perspetiva de desenvolvimento, não consegue contribuir da mesma forma para uma organização. E uma empresa que perde continuamente talento porque não consegue criar boas condições para as pessoas, tem um problema de negócio, não apenas um problema de cultura. A sustentabilidade humana tem de entrar na sala onde se tomam as decisões estratégicas. O futuro não será das empresas que escolherem entre pessoas e performance. Será das empresas que perceberem que uma depende da outra.

António Pedro Pinto é o fundador e responsável máximo do Happiness Camp
Quando se fala de organizações mais felizes, há sempre o risco de simplificar problemas complexos. Como se evita transformar a felicidade corporativa num slogan ou numa ação pontual de employer branding?
A.P.P. — Começando por não confundir comunicação com transformação. Uma campanha interna, uma sessão de mindfulness ou um benefício adicional podem ser positivos, mas não resolvem problemas estruturais. Se uma organização fala de bem-estar mas tem lideranças tóxicas, excesso de trabalho, ausência de clareza ou pessoas permanentemente inseguras relativamente ao seu futuro, existe uma contradição. A cultura empresarial não se constrói através do que está escrito numa parede. Constrói-se através da experiência diária das pessoas. Por isso, precisamos de olhar para questões mais difíceis: como lideramos, como avaliamos desempenho, como distribuímos carga de trabalho, como desenvolvemos competências e como comunicamos processos de transformação. O verdadeiro teste é simples: aquilo que uma empresa diz sobre as suas pessoas é reconhecido por essas mesmas pessoas na sua experiência diária?
O Happiness Camp junta líderes, equipas, especialistas e marcas. Que tipo de impacto gostariam que acontecesse depois do dia do evento, dentro das empresas que participam?
A.P.P. — Queremos provocar mudança concreta. Se as pessoas saírem do Happiness Camp apenas inspiradas, mas no dia seguinte tudo continuar exatamente igual, não cumprimos a nossa missão. Gostávamos que um líder regressasse à empresa e fizesse uma pergunta diferente à sua equipa. Que um profissional percebesse que precisa de desenvolver uma nova competência. Que uma organização repensasse a forma como está a implementar Inteligência Artificial. Ou que uma empresa percebesse que está a pedir mais velocidade às pessoas do que capacidade humana para acompanhar essa velocidade. O verdadeiro impacto do Happiness Camp não acontece na Alfândega do Porto. Acontece nos dias e nos meses seguintes, dentro das organizações.

Olhando para o futuro do trabalho, o António acredita que as empresas vão ser avaliadas cada vez mais pela forma como cuidam das pessoas, além dos resultados que apresentam?
A.P.P. — Sim, mas acredito que a questão será ainda mais exigente. As empresas serão avaliadas não apenas pela forma como cuidam das pessoas, mas pela forma como as preparam para o futuro. Resultados continuarão a ser fundamentais. A tecnologia continuará a ser fundamental. A produtividade continuará a ser fundamental. Mas será cada vez mais difícil separar estes fatores da capacidade de uma organização para criar confiança, desenvolver competências e proteger a saúde física, mental e emocional das suas pessoas. Estamos a entrar numa época em que a principal vantagem competitiva poderá não ser simplesmente ter a melhor tecnologia, mas ter pessoas preparadas para trabalhar com essa tecnologia. No fundo, a pergunta que acredito que cada vez mais profissionais vão fazer às empresas é muito simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”. As organizações que conseguirem responder afirmativamente, e demonstrá-lo na prática, estarão muito mais preparadas para o futuro.

#Protagonistas
ANTÓNIO PEDRO PINTO: "A cultura de uma empresa não se constrói através do que está escrito numa parede"
O futuro do trabalho já não se discute apenas em torno de tecnologia, produtividade ou novas competências. Para António Pedro Pinto, CEO e fundador do Happiness Camp, a capacidade das empresas para preparar pessoas, proteger o seu bem-estar e gerir a mudança tornou-se uma questão estratégica. Quando falta menos de um mês para a edição de 2026 do evento, no Porto, o responsável explica ao MOTIVO porque acredita que sustentabilidade humana e competitividade terão de avançar lado a lado.
O Happiness Camp apresenta-se como mais do que uma simples conferência. Trata-se de um encontro internacional sobre sustentabilidade humana e futuro do trabalho. O que é que distingue este conceito de uma conversa mais genérica sobre felicidade nas empresas?
ANTÓNIO PEDRO PINTO — O Happiness Camp nasceu de uma ideia simples, mas que, hoje, ganhou uma dimensão muito maior: não podemos falar do futuro das organizações sem falar do futuro das pessoas. Por isso, o conceito evoluiu. Já não estamos apenas a discutir ambientes de trabalho mais positivos ou iniciativas de bem-estar. Estamos a discutir sustentabilidade humana, ou seja, a capacidade de uma organização criar condições para que as pessoas consigam trabalhar, aprender, adaptar-se e evoluir de forma sustentável num contexto de transformação permanente. Inteligência Artificial, automação, novas competências, saúde mental, longevidade, liderança e mudança cultural estão a acontecer simultaneamente. O grande desafio é perceber como é que colocamos tudo isto ao serviço de organizações mais humanas, mas também mais competitivas. É essa interseção entre pessoas, tecnologia e futuro do trabalho que distingue o Happiness Camp.

A 4ª edição do Happiness Camp volta a decorrer na Alfândega do Porto e está marcada para dia 24 de setembro
A edição deste ano acontece num contexto em que as organizações falam cada vez mais de saúde mental, retenção de talento e novas formas de liderança. Que perguntas sente que as empresas já não podem continuar a adiar?
A.P.P. — Há várias perguntas que já não podemos adiar. Como preparar as pessoas para profissões que estão a ser transformadas pela Inteligência Artificial? Como manter desempenho sem normalizar exaustão? Como liderar equipas num contexto em que a mudança deixou de ser exceção e passou a ser permanente? E como garantir que as pessoas percebem que têm um futuro dentro das organizações? Durante muito tempo, falámos de engagement, pertença e retenção. Continuam a ser importantes, mas hoje existe uma pergunta ainda mais profunda: “Tenho futuro aqui?”. Estamos perante aquilo que começa a ser identificado como change fatigue: a fadiga provocada por processos sucessivos de transformação, reorganização e adaptação. Não podemos pedir às pessoas que mudem constantemente sem lhes dar clareza, competências e tempo para absorver essa mudança. As empresas que conseguirem responder a estas questões estarão muito mais preparadas para a próxima década.
O Happiness Camp tem crescido em escala, com participantes de várias nacionalidades e empresas. Do ponto de vista da organização, que desafios existem em transformar um tema tão humano num evento de grande dimensão?
A.P.P. — O maior desafio é crescer sem perder profundidade. Quando falamos de temas humanos, existe sempre o risco de cair em mensagens demasiado simples ou inspiracionais. O nosso objetivo é, precisamente, evitar isso. Queremos trazer para o Porto pessoas que estão a viver e a liderar estas transformações em diferentes geografias e setores. Por isso, temos líderes de grandes empresas, especialistas em saúde, tecnologia, comportamento humano, liderança e inteligência artificial, mas também pessoas com experiências muito diferentes. O desafio é criar escala sem transformar complexidade em slogans. E há outra responsabilidade: representar Portugal, e o Porto, perante uma audiência internacional. Queremos que quem vier ao Happiness Camp não veja apenas um grande evento, mas reconheça o Porto como um lugar onde se discutem algumas das questões mais importantes sobre o futuro do trabalho.

O programa da edição deste ano pode ser consultado aqui
O Happiness Camp mistura conferência, festival, masterclasses, zona de bem-estar e área de expositores. Porque é que escolheram afastar-se do formato mais tradicional de evento corporativo?
A.P.P. — Porque acreditamos que o formato também tem de acompanhar a transformação do trabalho. O modelo tradicional de conferência assenta muitas vezes numa pessoa a falar e numa audiência a ouvir. Nós queremos mais interação, mais aprendizagem e mais experiências. O futuro do trabalho é multidisciplinar. Não podemos separar tecnologia de comportamento, liderança de saúde mental ou aprendizagem de inovação. O formato de festival permite, precisamente, esse cruzamento. As pessoas podem assistir a uma grande conversa, participar numa masterclass, conhecer uma nova tecnologia, estabelecer contactos e, ao mesmo tempo, ter momentos para parar e refletir. Queremos que o Happiness Camp seja vivido, e não apenas assistido.
A felicidade no trabalho ainda é, para algumas empresas, vista como um tema “simpático”, mas pouco estratégico. O que é preciso mudar para que passe a ser tratada como parte central da gestão?
A.P.P. — É preciso deixar de tratar estes temas como uma agenda exclusivamente de Recursos Humanos. Estamos a falar de produtividade, inovação, retenção, absentismo, capacidade de adaptação e competitividade. Uma pessoa exausta, permanentemente ansiosa ou sem perspetiva de desenvolvimento, não consegue contribuir da mesma forma para uma organização. E uma empresa que perde continuamente talento porque não consegue criar boas condições para as pessoas, tem um problema de negócio, não apenas um problema de cultura. A sustentabilidade humana tem de entrar na sala onde se tomam as decisões estratégicas. O futuro não será das empresas que escolherem entre pessoas e performance. Será das empresas que perceberem que uma depende da outra.

António Pedro Pinto é o fundador e responsável máximo do Happiness Camp
Quando se fala de organizações mais felizes, há sempre o risco de simplificar problemas complexos. Como se evita transformar a felicidade corporativa num slogan ou numa ação pontual de employer branding?
A.P.P. — Começando por não confundir comunicação com transformação. Uma campanha interna, uma sessão de mindfulness ou um benefício adicional podem ser positivos, mas não resolvem problemas estruturais. Se uma organização fala de bem-estar mas tem lideranças tóxicas, excesso de trabalho, ausência de clareza ou pessoas permanentemente inseguras relativamente ao seu futuro, existe uma contradição. A cultura empresarial não se constrói através do que está escrito numa parede. Constrói-se através da experiência diária das pessoas. Por isso, precisamos de olhar para questões mais difíceis: como lideramos, como avaliamos desempenho, como distribuímos carga de trabalho, como desenvolvemos competências e como comunicamos processos de transformação. O verdadeiro teste é simples: aquilo que uma empresa diz sobre as suas pessoas é reconhecido por essas mesmas pessoas na sua experiência diária?
O Happiness Camp junta líderes, equipas, especialistas e marcas. Que tipo de impacto gostariam que acontecesse depois do dia do evento, dentro das empresas que participam?
A.P.P. — Queremos provocar mudança concreta. Se as pessoas saírem do Happiness Camp apenas inspiradas, mas no dia seguinte tudo continuar exatamente igual, não cumprimos a nossa missão. Gostávamos que um líder regressasse à empresa e fizesse uma pergunta diferente à sua equipa. Que um profissional percebesse que precisa de desenvolver uma nova competência. Que uma organização repensasse a forma como está a implementar Inteligência Artificial. Ou que uma empresa percebesse que está a pedir mais velocidade às pessoas do que capacidade humana para acompanhar essa velocidade. O verdadeiro impacto do Happiness Camp não acontece na Alfândega do Porto. Acontece nos dias e nos meses seguintes, dentro das organizações.

Olhando para o futuro do trabalho, o António acredita que as empresas vão ser avaliadas cada vez mais pela forma como cuidam das pessoas, além dos resultados que apresentam?
A.P.P. — Sim, mas acredito que a questão será ainda mais exigente. As empresas serão avaliadas não apenas pela forma como cuidam das pessoas, mas pela forma como as preparam para o futuro. Resultados continuarão a ser fundamentais. A tecnologia continuará a ser fundamental. A produtividade continuará a ser fundamental. Mas será cada vez mais difícil separar estes fatores da capacidade de uma organização para criar confiança, desenvolver competências e proteger a saúde física, mental e emocional das suas pessoas. Estamos a entrar numa época em que a principal vantagem competitiva poderá não ser simplesmente ter a melhor tecnologia, mas ter pessoas preparadas para trabalhar com essa tecnologia. No fundo, a pergunta que acredito que cada vez mais profissionais vão fazer às empresas é muito simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”. As organizações que conseguirem responder afirmativamente, e demonstrá-lo na prática, estarão muito mais preparadas para o futuro.

#Protagonistas
ANTÓNIO PEDRO PINTO: "A cultura de uma empresa não se constrói através do que está escrito numa parede"
O futuro do trabalho já não se discute apenas em torno de tecnologia, produtividade ou novas competências. Para António Pedro Pinto, CEO e fundador do Happiness Camp, a capacidade das empresas para preparar pessoas, proteger o seu bem-estar e gerir a mudança tornou-se uma questão estratégica. Quando falta menos de um mês para a edição de 2026 do evento, no Porto, o responsável explica ao MOTIVO porque acredita que sustentabilidade humana e competitividade terão de avançar lado a lado.
O Happiness Camp apresenta-se como mais do que uma simples conferência. Trata-se de um encontro internacional sobre sustentabilidade humana e futuro do trabalho. O que é que distingue este conceito de uma conversa mais genérica sobre felicidade nas empresas?
ANTÓNIO PEDRO PINTO — O Happiness Camp nasceu de uma ideia simples, mas que, hoje, ganhou uma dimensão muito maior: não podemos falar do futuro das organizações sem falar do futuro das pessoas. Por isso, o conceito evoluiu. Já não estamos apenas a discutir ambientes de trabalho mais positivos ou iniciativas de bem-estar. Estamos a discutir sustentabilidade humana, ou seja, a capacidade de uma organização criar condições para que as pessoas consigam trabalhar, aprender, adaptar-se e evoluir de forma sustentável num contexto de transformação permanente. Inteligência Artificial, automação, novas competências, saúde mental, longevidade, liderança e mudança cultural estão a acontecer simultaneamente. O grande desafio é perceber como é que colocamos tudo isto ao serviço de organizações mais humanas, mas também mais competitivas. É essa interseção entre pessoas, tecnologia e futuro do trabalho que distingue o Happiness Camp.

A 4ª edição do Happiness Camp volta a decorrer na Alfândega do Porto e está marcada para dia 24 de setembro
A edição deste ano acontece num contexto em que as organizações falam cada vez mais de saúde mental, retenção de talento e novas formas de liderança. Que perguntas sente que as empresas já não podem continuar a adiar?
A.P.P. — Há várias perguntas que já não podemos adiar. Como preparar as pessoas para profissões que estão a ser transformadas pela Inteligência Artificial? Como manter desempenho sem normalizar exaustão? Como liderar equipas num contexto em que a mudança deixou de ser exceção e passou a ser permanente? E como garantir que as pessoas percebem que têm um futuro dentro das organizações? Durante muito tempo, falámos de engagement, pertença e retenção. Continuam a ser importantes, mas hoje existe uma pergunta ainda mais profunda: “Tenho futuro aqui?”. Estamos perante aquilo que começa a ser identificado como change fatigue: a fadiga provocada por processos sucessivos de transformação, reorganização e adaptação. Não podemos pedir às pessoas que mudem constantemente sem lhes dar clareza, competências e tempo para absorver essa mudança. As empresas que conseguirem responder a estas questões estarão muito mais preparadas para a próxima década.
O Happiness Camp tem crescido em escala, com participantes de várias nacionalidades e empresas. Do ponto de vista da organização, que desafios existem em transformar um tema tão humano num evento de grande dimensão?
A.P.P. — O maior desafio é crescer sem perder profundidade. Quando falamos de temas humanos, existe sempre o risco de cair em mensagens demasiado simples ou inspiracionais. O nosso objetivo é, precisamente, evitar isso. Queremos trazer para o Porto pessoas que estão a viver e a liderar estas transformações em diferentes geografias e setores. Por isso, temos líderes de grandes empresas, especialistas em saúde, tecnologia, comportamento humano, liderança e inteligência artificial, mas também pessoas com experiências muito diferentes. O desafio é criar escala sem transformar complexidade em slogans. E há outra responsabilidade: representar Portugal, e o Porto, perante uma audiência internacional. Queremos que quem vier ao Happiness Camp não veja apenas um grande evento, mas reconheça o Porto como um lugar onde se discutem algumas das questões mais importantes sobre o futuro do trabalho.

O programa da edição deste ano pode ser consultado aqui
O Happiness Camp mistura conferência, festival, masterclasses, zona de bem-estar e área de expositores. Porque é que escolheram afastar-se do formato mais tradicional de evento corporativo?
A.P.P. — Porque acreditamos que o formato também tem de acompanhar a transformação do trabalho. O modelo tradicional de conferência assenta muitas vezes numa pessoa a falar e numa audiência a ouvir. Nós queremos mais interação, mais aprendizagem e mais experiências. O futuro do trabalho é multidisciplinar. Não podemos separar tecnologia de comportamento, liderança de saúde mental ou aprendizagem de inovação. O formato de festival permite, precisamente, esse cruzamento. As pessoas podem assistir a uma grande conversa, participar numa masterclass, conhecer uma nova tecnologia, estabelecer contactos e, ao mesmo tempo, ter momentos para parar e refletir. Queremos que o Happiness Camp seja vivido, e não apenas assistido.
A felicidade no trabalho ainda é, para algumas empresas, vista como um tema “simpático”, mas pouco estratégico. O que é preciso mudar para que passe a ser tratada como parte central da gestão?
A.P.P. — É preciso deixar de tratar estes temas como uma agenda exclusivamente de Recursos Humanos. Estamos a falar de produtividade, inovação, retenção, absentismo, capacidade de adaptação e competitividade. Uma pessoa exausta, permanentemente ansiosa ou sem perspetiva de desenvolvimento, não consegue contribuir da mesma forma para uma organização. E uma empresa que perde continuamente talento porque não consegue criar boas condições para as pessoas, tem um problema de negócio, não apenas um problema de cultura. A sustentabilidade humana tem de entrar na sala onde se tomam as decisões estratégicas. O futuro não será das empresas que escolherem entre pessoas e performance. Será das empresas que perceberem que uma depende da outra.

António Pedro Pinto é o fundador e responsável máximo do Happiness Camp
Quando se fala de organizações mais felizes, há sempre o risco de simplificar problemas complexos. Como se evita transformar a felicidade corporativa num slogan ou numa ação pontual de employer branding?
A.P.P. — Começando por não confundir comunicação com transformação. Uma campanha interna, uma sessão de mindfulness ou um benefício adicional podem ser positivos, mas não resolvem problemas estruturais. Se uma organização fala de bem-estar mas tem lideranças tóxicas, excesso de trabalho, ausência de clareza ou pessoas permanentemente inseguras relativamente ao seu futuro, existe uma contradição. A cultura empresarial não se constrói através do que está escrito numa parede. Constrói-se através da experiência diária das pessoas. Por isso, precisamos de olhar para questões mais difíceis: como lideramos, como avaliamos desempenho, como distribuímos carga de trabalho, como desenvolvemos competências e como comunicamos processos de transformação. O verdadeiro teste é simples: aquilo que uma empresa diz sobre as suas pessoas é reconhecido por essas mesmas pessoas na sua experiência diária?
O Happiness Camp junta líderes, equipas, especialistas e marcas. Que tipo de impacto gostariam que acontecesse depois do dia do evento, dentro das empresas que participam?
A.P.P. — Queremos provocar mudança concreta. Se as pessoas saírem do Happiness Camp apenas inspiradas, mas no dia seguinte tudo continuar exatamente igual, não cumprimos a nossa missão. Gostávamos que um líder regressasse à empresa e fizesse uma pergunta diferente à sua equipa. Que um profissional percebesse que precisa de desenvolver uma nova competência. Que uma organização repensasse a forma como está a implementar Inteligência Artificial. Ou que uma empresa percebesse que está a pedir mais velocidade às pessoas do que capacidade humana para acompanhar essa velocidade. O verdadeiro impacto do Happiness Camp não acontece na Alfândega do Porto. Acontece nos dias e nos meses seguintes, dentro das organizações.

Olhando para o futuro do trabalho, o António acredita que as empresas vão ser avaliadas cada vez mais pela forma como cuidam das pessoas, além dos resultados que apresentam?
A.P.P. — Sim, mas acredito que a questão será ainda mais exigente. As empresas serão avaliadas não apenas pela forma como cuidam das pessoas, mas pela forma como as preparam para o futuro. Resultados continuarão a ser fundamentais. A tecnologia continuará a ser fundamental. A produtividade continuará a ser fundamental. Mas será cada vez mais difícil separar estes fatores da capacidade de uma organização para criar confiança, desenvolver competências e proteger a saúde física, mental e emocional das suas pessoas. Estamos a entrar numa época em que a principal vantagem competitiva poderá não ser simplesmente ter a melhor tecnologia, mas ter pessoas preparadas para trabalhar com essa tecnologia. No fundo, a pergunta que acredito que cada vez mais profissionais vão fazer às empresas é muito simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”. As organizações que conseguirem responder afirmativamente, e demonstrá-lo na prática, estarão muito mais preparadas para o futuro.




