#Protagonistas

RUA Map: o mapa que mostra eventos, notícias e iniciativas nos bairros de Lisboa

Há uma sensação cada vez mais comum nas cidades: vivemos rodeados de acontecimentos, iniciativas e oportunidades, mas, muitas vezes, só descobrimos que existiram quando já passaram. É isso que o RUA Map quer combater, apelando à participação da comunidade e mostrando tudo o que está a acontecer.

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4 de mar. de 2026, 09:23

Festas de bairro, encontros comunitários, debates, iniciativas culturais ou ações de voluntariado continuam a existir, mas a informação dispersa-se em redes sociais, calendários fragmentados ou circuitos fechados. O resultado é um paradoxo urbano: muita atividade local, pouca visibilidade.

Foi precisamente para responder a essa falha estrutural que nasceu o RUA Map, uma plataforma digital que pretende mapear, em tempo real, aquilo que acontece nos bairros. Criado pela Rede RUA, uma startup de impacto social fundada por Callie Wentling, o projeto assume-se como um mapa vivo e colaborativo de descoberta local, reunindo notícias, eventos, alertas e oportunidades geolocalizadas. “É uma ferramenta que promove a cultura hiperlocal de cada bairro e quer funcionar como ponte entre informação local e ação local”, explica a fundadora ao MOTIVO.

A ideia é simples na formulação e ambiciosa na execução: permitir que qualquer pessoa consiga perceber, bairro a bairro, o que está a acontecer à sua volta e participar mais ativamente na vida da cidade.


Callie Wentling é a fundadora da REDE Rua, uma startup de impacto social


Quando a informação chega tarde demais

A origem do projeto está numa experiência pessoal que depressa se revelou um problema estrutural. Antes de criar a plataforma, Callie Wentling viveu numa cidade onde o acesso a informação verdadeiramente local era difícil. “Era uma sensação frequente: a informação só nos chegava depois de o evento já ter ocorrido”, recorda.

Esse desfasamento levou-a a aprofundar o tema academicamente. Durante o mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis e Sistemas de Informação Geográfica, na NOVA, decidiu dedicar a sua tese à circulação de informação hiperlocal nas cidades. Terminada a investigação académica, faltava testar uma pergunta fundamental: o problema também existia em Portugal?

Durante três meses, suspendeu o desenvolvimento técnico da ideia e concentrou-se numa investigação de terreno. Fez centenas de entrevistas formais e informais a profissionais de diferentes áreas, a pessoas em cafés, a motoristas de Uber, a qualquer pessoa disponível para conversar.

A conclusão foi clara: a dificuldade em aceder a informação local relevante não era um fenómeno isolado. “Existe uma quebra entre a informação relevante e as pessoas interessadas. A informação local está muitas vezes dispersa, perde-se nos feeds, dilui-se em calendários ou fica escondida em circuitos fechados”, explica.

Esse desencontro cria uma distância difícil de resolver: entre o que se sabe e o que se faz, entre os cidadãos e a visão completa da cidade onde vivem. O RUA Map nasce, precisamente, para tornar visíveis essas camadas.


O RUA Map já está disponível aqui


Um mapa contra os algoritmos

Uma das decisões estruturais do projeto foi evitar a lógica dominante das plataformas digitais: os algoritmos opacos que filtram informação de acordo com preferências individuais.

No RUA Map, a lógica é outra. A informação é organizada sobretudo por proximidade geográfica e temporal. O que aparece primeiro é aquilo que está a acontecer agora e mais perto do utilizador.

Queremos quebrar bolhas e contornar o efeito dos algoritmos que nos mostram versões da realidade dependentes das nossas preferências”, explica Callie Wentling. “No mapa, um evento promovido por uma câmara municipal tem exatamente o mesmo peso que uma iniciativa adicionada por um membro da comunidade”.

Essa opção editorial tenta recuperar algo que se perdeu com a fragmentação digital: uma visão comum do que acontece num território.



Um projeto que vive de relações

Para garantir qualidade e consistência na informação, o projeto assenta numa rede de parceiros locais. Em vez de recolher dados automaticamente da internet, a equipa aposta em parcerias diretas com organizações do território.

Entre os primeiros parceiros estão os meios de comunicação Mensagem de Lisboa e Lisbon Project Papers (LPP), que aderiram ao projeto ainda antes do lançamento oficial do mapa.

A lógica é simples: ao associar cada notícia ou iniciativa a um lugar específico da cidade, o conteúdo ganha uma nova dimensão de leitura territorial. Ao mesmo tempo, associações e grupos comunitários passam a ter um canal adicional para divulgar iniciativas.

Segundo Callie Wentling, estas organizações desempenham um papel essencial nos bairros, mas, muitas vezes, trabalham com equipas pequenas e poucos recursos de comunicação. “São equipas que organizam eventos, mantêm espaços comunitários e fazem um trabalho incrível pelo bairro, mas raramente têm cobertura mediática. O mapa pode ajudá-las a amplificar esse impacto”.

A plataforma permite ainda contribuições da própria comunidade. Qualquer pessoa pode submeter informação para o mapa, sujeita a validação. Já associações e organizações podem criar contas verificadas, num modelo baseado em relações de confiança.



Um projeto que começou no bairro

O RUA Map foi oficialmente lançado a 10 de fevereiro de 2026, mas o projeto tem vindo a ser desenvolvido há vários anos. Lisboa é, para já, o território piloto.

Algumas juntas de freguesia, como a da Penha de França e de Arroios, já colaboram com o projeto. A ligação faz sentido: são as instituições mais próximas da vida quotidiana dos bairros.

Ter no mapa alertas, notícias ou iniciativas destas entidades pode ajudar a resolver problemas muito concretos da vida urbana, desde alterações de trânsito até atividades comunitárias.

Com estes parceiros conseguimos que as pessoas acedam a informação que pode melhorar muito a sua vida quotidiana”, explica a fundadora.



Uma plataforma ainda em crescimento

As reações iniciais têm sido positivas, tanto por parte de organizações como do público. Há utilizadores a contribuir diretamente com informação para o mapa e também sugestões para alargar os conteúdos, desde iniciativas culturais a oportunidades de voluntariado.

Nem tudo está ainda completo. Algumas zonas da cidade têm menos conteúdo do que outras. A equipa reconhece essa limitação e vê-a como parte natural de um projeto em crescimento.

Estamos a começar aos poucos. Nascemos a 10 de fevereiro, ainda somos um bebé”, diz Callie Wentling.



O próximo passo

Nos próximos meses, o foco será aumentar a densidade de conteúdo na Área Metropolitana de Lisboa e expandir a rede de parceiros. O objetivo é, depois, levar o projeto ao resto do país.

A médio prazo, a equipa prepara o lançamento do RUA Studio, uma versão white-label da plataforma destinada a instituições públicas e privadas que pretendam comunicar projetos e impacto territorial de forma visual e geográfica. Este modelo deverá tornar-se a principal fonte de financiamento do projeto, permitindo manter o RUA Map gratuito para a comunidade.

Mais à frente, a ambição é transformar o mapa numa ferramenta de análise urbana. Ao mapear eventos, iniciativas e movimentos sociais por bairro, a plataforma pode gerar dados valiosos sobre participação cívica e dinâmicas comunitárias. Esses dados, garante a fundadora, nunca serão extraídos de perfis individuais, mas sim das próprias atividades registadas no território.

Para autarquias e decisores, esta informação pode ajudar a identificar prioridades, perceber quais os temas que mobilizam as comunidades e detetar zonas menos representadas. Em última análise, pode ajudar a aproximar políticas públicas das realidades locais. “Quando conseguimos ver o que está a acontecer nos bairros, conseguimos também perceber melhor as necessidades reais das pessoas”, diz Callie Wentling.



Fotos (C) Inês Costa Monteiro
#Protagonistas

RUA Map: o mapa que mostra eventos, notícias e iniciativas nos bairros de Lisboa

Há uma sensação cada vez mais comum nas cidades: vivemos rodeados de acontecimentos, iniciativas e oportunidades, mas, muitas vezes, só descobrimos que existiram quando já passaram. É isso que o RUA Map quer combater, apelando à participação da comunidade e mostrando tudo o que está a acontecer.

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4 de mar. de 2026, 09:23

Festas de bairro, encontros comunitários, debates, iniciativas culturais ou ações de voluntariado continuam a existir, mas a informação dispersa-se em redes sociais, calendários fragmentados ou circuitos fechados. O resultado é um paradoxo urbano: muita atividade local, pouca visibilidade.

Foi precisamente para responder a essa falha estrutural que nasceu o RUA Map, uma plataforma digital que pretende mapear, em tempo real, aquilo que acontece nos bairros. Criado pela Rede RUA, uma startup de impacto social fundada por Callie Wentling, o projeto assume-se como um mapa vivo e colaborativo de descoberta local, reunindo notícias, eventos, alertas e oportunidades geolocalizadas. “É uma ferramenta que promove a cultura hiperlocal de cada bairro e quer funcionar como ponte entre informação local e ação local”, explica a fundadora ao MOTIVO.

A ideia é simples na formulação e ambiciosa na execução: permitir que qualquer pessoa consiga perceber, bairro a bairro, o que está a acontecer à sua volta e participar mais ativamente na vida da cidade.


Callie Wentling é a fundadora da REDE Rua, uma startup de impacto social


Quando a informação chega tarde demais

A origem do projeto está numa experiência pessoal que depressa se revelou um problema estrutural. Antes de criar a plataforma, Callie Wentling viveu numa cidade onde o acesso a informação verdadeiramente local era difícil. “Era uma sensação frequente: a informação só nos chegava depois de o evento já ter ocorrido”, recorda.

Esse desfasamento levou-a a aprofundar o tema academicamente. Durante o mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis e Sistemas de Informação Geográfica, na NOVA, decidiu dedicar a sua tese à circulação de informação hiperlocal nas cidades. Terminada a investigação académica, faltava testar uma pergunta fundamental: o problema também existia em Portugal?

Durante três meses, suspendeu o desenvolvimento técnico da ideia e concentrou-se numa investigação de terreno. Fez centenas de entrevistas formais e informais a profissionais de diferentes áreas, a pessoas em cafés, a motoristas de Uber, a qualquer pessoa disponível para conversar.

A conclusão foi clara: a dificuldade em aceder a informação local relevante não era um fenómeno isolado. “Existe uma quebra entre a informação relevante e as pessoas interessadas. A informação local está muitas vezes dispersa, perde-se nos feeds, dilui-se em calendários ou fica escondida em circuitos fechados”, explica.

Esse desencontro cria uma distância difícil de resolver: entre o que se sabe e o que se faz, entre os cidadãos e a visão completa da cidade onde vivem. O RUA Map nasce, precisamente, para tornar visíveis essas camadas.


O RUA Map já está disponível aqui


Um mapa contra os algoritmos

Uma das decisões estruturais do projeto foi evitar a lógica dominante das plataformas digitais: os algoritmos opacos que filtram informação de acordo com preferências individuais.

No RUA Map, a lógica é outra. A informação é organizada sobretudo por proximidade geográfica e temporal. O que aparece primeiro é aquilo que está a acontecer agora e mais perto do utilizador.

Queremos quebrar bolhas e contornar o efeito dos algoritmos que nos mostram versões da realidade dependentes das nossas preferências”, explica Callie Wentling. “No mapa, um evento promovido por uma câmara municipal tem exatamente o mesmo peso que uma iniciativa adicionada por um membro da comunidade”.

Essa opção editorial tenta recuperar algo que se perdeu com a fragmentação digital: uma visão comum do que acontece num território.



Um projeto que vive de relações

Para garantir qualidade e consistência na informação, o projeto assenta numa rede de parceiros locais. Em vez de recolher dados automaticamente da internet, a equipa aposta em parcerias diretas com organizações do território.

Entre os primeiros parceiros estão os meios de comunicação Mensagem de Lisboa e Lisbon Project Papers (LPP), que aderiram ao projeto ainda antes do lançamento oficial do mapa.

A lógica é simples: ao associar cada notícia ou iniciativa a um lugar específico da cidade, o conteúdo ganha uma nova dimensão de leitura territorial. Ao mesmo tempo, associações e grupos comunitários passam a ter um canal adicional para divulgar iniciativas.

Segundo Callie Wentling, estas organizações desempenham um papel essencial nos bairros, mas, muitas vezes, trabalham com equipas pequenas e poucos recursos de comunicação. “São equipas que organizam eventos, mantêm espaços comunitários e fazem um trabalho incrível pelo bairro, mas raramente têm cobertura mediática. O mapa pode ajudá-las a amplificar esse impacto”.

A plataforma permite ainda contribuições da própria comunidade. Qualquer pessoa pode submeter informação para o mapa, sujeita a validação. Já associações e organizações podem criar contas verificadas, num modelo baseado em relações de confiança.



Um projeto que começou no bairro

O RUA Map foi oficialmente lançado a 10 de fevereiro de 2026, mas o projeto tem vindo a ser desenvolvido há vários anos. Lisboa é, para já, o território piloto.

Algumas juntas de freguesia, como a da Penha de França e de Arroios, já colaboram com o projeto. A ligação faz sentido: são as instituições mais próximas da vida quotidiana dos bairros.

Ter no mapa alertas, notícias ou iniciativas destas entidades pode ajudar a resolver problemas muito concretos da vida urbana, desde alterações de trânsito até atividades comunitárias.

Com estes parceiros conseguimos que as pessoas acedam a informação que pode melhorar muito a sua vida quotidiana”, explica a fundadora.



Uma plataforma ainda em crescimento

As reações iniciais têm sido positivas, tanto por parte de organizações como do público. Há utilizadores a contribuir diretamente com informação para o mapa e também sugestões para alargar os conteúdos, desde iniciativas culturais a oportunidades de voluntariado.

Nem tudo está ainda completo. Algumas zonas da cidade têm menos conteúdo do que outras. A equipa reconhece essa limitação e vê-a como parte natural de um projeto em crescimento.

Estamos a começar aos poucos. Nascemos a 10 de fevereiro, ainda somos um bebé”, diz Callie Wentling.



O próximo passo

Nos próximos meses, o foco será aumentar a densidade de conteúdo na Área Metropolitana de Lisboa e expandir a rede de parceiros. O objetivo é, depois, levar o projeto ao resto do país.

A médio prazo, a equipa prepara o lançamento do RUA Studio, uma versão white-label da plataforma destinada a instituições públicas e privadas que pretendam comunicar projetos e impacto territorial de forma visual e geográfica. Este modelo deverá tornar-se a principal fonte de financiamento do projeto, permitindo manter o RUA Map gratuito para a comunidade.

Mais à frente, a ambição é transformar o mapa numa ferramenta de análise urbana. Ao mapear eventos, iniciativas e movimentos sociais por bairro, a plataforma pode gerar dados valiosos sobre participação cívica e dinâmicas comunitárias. Esses dados, garante a fundadora, nunca serão extraídos de perfis individuais, mas sim das próprias atividades registadas no território.

Para autarquias e decisores, esta informação pode ajudar a identificar prioridades, perceber quais os temas que mobilizam as comunidades e detetar zonas menos representadas. Em última análise, pode ajudar a aproximar políticas públicas das realidades locais. “Quando conseguimos ver o que está a acontecer nos bairros, conseguimos também perceber melhor as necessidades reais das pessoas”, diz Callie Wentling.



Fotos (C) Inês Costa Monteiro

#Protagonistas

RUA Map: o mapa que mostra eventos, notícias e iniciativas nos bairros de Lisboa

Há uma sensação cada vez mais comum nas cidades: vivemos rodeados de acontecimentos, iniciativas e oportunidades, mas, muitas vezes, só descobrimos que existiram quando já passaram. É isso que o RUA Map quer combater, apelando à participação da comunidade e mostrando tudo o que está a acontecer.

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4 de mar. de 2026, 09:23

Festas de bairro, encontros comunitários, debates, iniciativas culturais ou ações de voluntariado continuam a existir, mas a informação dispersa-se em redes sociais, calendários fragmentados ou circuitos fechados. O resultado é um paradoxo urbano: muita atividade local, pouca visibilidade.

Foi precisamente para responder a essa falha estrutural que nasceu o RUA Map, uma plataforma digital que pretende mapear, em tempo real, aquilo que acontece nos bairros. Criado pela Rede RUA, uma startup de impacto social fundada por Callie Wentling, o projeto assume-se como um mapa vivo e colaborativo de descoberta local, reunindo notícias, eventos, alertas e oportunidades geolocalizadas. “É uma ferramenta que promove a cultura hiperlocal de cada bairro e quer funcionar como ponte entre informação local e ação local”, explica a fundadora ao MOTIVO.

A ideia é simples na formulação e ambiciosa na execução: permitir que qualquer pessoa consiga perceber, bairro a bairro, o que está a acontecer à sua volta e participar mais ativamente na vida da cidade.


Callie Wentling é a fundadora da REDE Rua, uma startup de impacto social


Quando a informação chega tarde demais

A origem do projeto está numa experiência pessoal que depressa se revelou um problema estrutural. Antes de criar a plataforma, Callie Wentling viveu numa cidade onde o acesso a informação verdadeiramente local era difícil. “Era uma sensação frequente: a informação só nos chegava depois de o evento já ter ocorrido”, recorda.

Esse desfasamento levou-a a aprofundar o tema academicamente. Durante o mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis e Sistemas de Informação Geográfica, na NOVA, decidiu dedicar a sua tese à circulação de informação hiperlocal nas cidades. Terminada a investigação académica, faltava testar uma pergunta fundamental: o problema também existia em Portugal?

Durante três meses, suspendeu o desenvolvimento técnico da ideia e concentrou-se numa investigação de terreno. Fez centenas de entrevistas formais e informais a profissionais de diferentes áreas, a pessoas em cafés, a motoristas de Uber, a qualquer pessoa disponível para conversar.

A conclusão foi clara: a dificuldade em aceder a informação local relevante não era um fenómeno isolado. “Existe uma quebra entre a informação relevante e as pessoas interessadas. A informação local está muitas vezes dispersa, perde-se nos feeds, dilui-se em calendários ou fica escondida em circuitos fechados”, explica.

Esse desencontro cria uma distância difícil de resolver: entre o que se sabe e o que se faz, entre os cidadãos e a visão completa da cidade onde vivem. O RUA Map nasce, precisamente, para tornar visíveis essas camadas.


O RUA Map já está disponível aqui


Um mapa contra os algoritmos

Uma das decisões estruturais do projeto foi evitar a lógica dominante das plataformas digitais: os algoritmos opacos que filtram informação de acordo com preferências individuais.

No RUA Map, a lógica é outra. A informação é organizada sobretudo por proximidade geográfica e temporal. O que aparece primeiro é aquilo que está a acontecer agora e mais perto do utilizador.

Queremos quebrar bolhas e contornar o efeito dos algoritmos que nos mostram versões da realidade dependentes das nossas preferências”, explica Callie Wentling. “No mapa, um evento promovido por uma câmara municipal tem exatamente o mesmo peso que uma iniciativa adicionada por um membro da comunidade”.

Essa opção editorial tenta recuperar algo que se perdeu com a fragmentação digital: uma visão comum do que acontece num território.



Um projeto que vive de relações

Para garantir qualidade e consistência na informação, o projeto assenta numa rede de parceiros locais. Em vez de recolher dados automaticamente da internet, a equipa aposta em parcerias diretas com organizações do território.

Entre os primeiros parceiros estão os meios de comunicação Mensagem de Lisboa e Lisbon Project Papers (LPP), que aderiram ao projeto ainda antes do lançamento oficial do mapa.

A lógica é simples: ao associar cada notícia ou iniciativa a um lugar específico da cidade, o conteúdo ganha uma nova dimensão de leitura territorial. Ao mesmo tempo, associações e grupos comunitários passam a ter um canal adicional para divulgar iniciativas.

Segundo Callie Wentling, estas organizações desempenham um papel essencial nos bairros, mas, muitas vezes, trabalham com equipas pequenas e poucos recursos de comunicação. “São equipas que organizam eventos, mantêm espaços comunitários e fazem um trabalho incrível pelo bairro, mas raramente têm cobertura mediática. O mapa pode ajudá-las a amplificar esse impacto”.

A plataforma permite ainda contribuições da própria comunidade. Qualquer pessoa pode submeter informação para o mapa, sujeita a validação. Já associações e organizações podem criar contas verificadas, num modelo baseado em relações de confiança.



Um projeto que começou no bairro

O RUA Map foi oficialmente lançado a 10 de fevereiro de 2026, mas o projeto tem vindo a ser desenvolvido há vários anos. Lisboa é, para já, o território piloto.

Algumas juntas de freguesia, como a da Penha de França e de Arroios, já colaboram com o projeto. A ligação faz sentido: são as instituições mais próximas da vida quotidiana dos bairros.

Ter no mapa alertas, notícias ou iniciativas destas entidades pode ajudar a resolver problemas muito concretos da vida urbana, desde alterações de trânsito até atividades comunitárias.

Com estes parceiros conseguimos que as pessoas acedam a informação que pode melhorar muito a sua vida quotidiana”, explica a fundadora.



Uma plataforma ainda em crescimento

As reações iniciais têm sido positivas, tanto por parte de organizações como do público. Há utilizadores a contribuir diretamente com informação para o mapa e também sugestões para alargar os conteúdos, desde iniciativas culturais a oportunidades de voluntariado.

Nem tudo está ainda completo. Algumas zonas da cidade têm menos conteúdo do que outras. A equipa reconhece essa limitação e vê-a como parte natural de um projeto em crescimento.

Estamos a começar aos poucos. Nascemos a 10 de fevereiro, ainda somos um bebé”, diz Callie Wentling.



O próximo passo

Nos próximos meses, o foco será aumentar a densidade de conteúdo na Área Metropolitana de Lisboa e expandir a rede de parceiros. O objetivo é, depois, levar o projeto ao resto do país.

A médio prazo, a equipa prepara o lançamento do RUA Studio, uma versão white-label da plataforma destinada a instituições públicas e privadas que pretendam comunicar projetos e impacto territorial de forma visual e geográfica. Este modelo deverá tornar-se a principal fonte de financiamento do projeto, permitindo manter o RUA Map gratuito para a comunidade.

Mais à frente, a ambição é transformar o mapa numa ferramenta de análise urbana. Ao mapear eventos, iniciativas e movimentos sociais por bairro, a plataforma pode gerar dados valiosos sobre participação cívica e dinâmicas comunitárias. Esses dados, garante a fundadora, nunca serão extraídos de perfis individuais, mas sim das próprias atividades registadas no território.

Para autarquias e decisores, esta informação pode ajudar a identificar prioridades, perceber quais os temas que mobilizam as comunidades e detetar zonas menos representadas. Em última análise, pode ajudar a aproximar políticas públicas das realidades locais. “Quando conseguimos ver o que está a acontecer nos bairros, conseguimos também perceber melhor as necessidades reais das pessoas”, diz Callie Wentling.



Fotos (C) Inês Costa Monteiro
#Protagonistas

RUA Map: o mapa que mostra eventos, notícias e iniciativas nos bairros de Lisboa

Há uma sensação cada vez mais comum nas cidades: vivemos rodeados de acontecimentos, iniciativas e oportunidades, mas, muitas vezes, só descobrimos que existiram quando já passaram. É isso que o RUA Map quer combater, apelando à participação da comunidade e mostrando tudo o que está a acontecer.

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4 de mar. de 2026, 09:23

Festas de bairro, encontros comunitários, debates, iniciativas culturais ou ações de voluntariado continuam a existir, mas a informação dispersa-se em redes sociais, calendários fragmentados ou circuitos fechados. O resultado é um paradoxo urbano: muita atividade local, pouca visibilidade.

Foi precisamente para responder a essa falha estrutural que nasceu o RUA Map, uma plataforma digital que pretende mapear, em tempo real, aquilo que acontece nos bairros. Criado pela Rede RUA, uma startup de impacto social fundada por Callie Wentling, o projeto assume-se como um mapa vivo e colaborativo de descoberta local, reunindo notícias, eventos, alertas e oportunidades geolocalizadas. “É uma ferramenta que promove a cultura hiperlocal de cada bairro e quer funcionar como ponte entre informação local e ação local”, explica a fundadora ao MOTIVO.

A ideia é simples na formulação e ambiciosa na execução: permitir que qualquer pessoa consiga perceber, bairro a bairro, o que está a acontecer à sua volta e participar mais ativamente na vida da cidade.


Callie Wentling é a fundadora da REDE Rua, uma startup de impacto social


Quando a informação chega tarde demais

A origem do projeto está numa experiência pessoal que depressa se revelou um problema estrutural. Antes de criar a plataforma, Callie Wentling viveu numa cidade onde o acesso a informação verdadeiramente local era difícil. “Era uma sensação frequente: a informação só nos chegava depois de o evento já ter ocorrido”, recorda.

Esse desfasamento levou-a a aprofundar o tema academicamente. Durante o mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis e Sistemas de Informação Geográfica, na NOVA, decidiu dedicar a sua tese à circulação de informação hiperlocal nas cidades. Terminada a investigação académica, faltava testar uma pergunta fundamental: o problema também existia em Portugal?

Durante três meses, suspendeu o desenvolvimento técnico da ideia e concentrou-se numa investigação de terreno. Fez centenas de entrevistas formais e informais a profissionais de diferentes áreas, a pessoas em cafés, a motoristas de Uber, a qualquer pessoa disponível para conversar.

A conclusão foi clara: a dificuldade em aceder a informação local relevante não era um fenómeno isolado. “Existe uma quebra entre a informação relevante e as pessoas interessadas. A informação local está muitas vezes dispersa, perde-se nos feeds, dilui-se em calendários ou fica escondida em circuitos fechados”, explica.

Esse desencontro cria uma distância difícil de resolver: entre o que se sabe e o que se faz, entre os cidadãos e a visão completa da cidade onde vivem. O RUA Map nasce, precisamente, para tornar visíveis essas camadas.


O RUA Map já está disponível aqui


Um mapa contra os algoritmos

Uma das decisões estruturais do projeto foi evitar a lógica dominante das plataformas digitais: os algoritmos opacos que filtram informação de acordo com preferências individuais.

No RUA Map, a lógica é outra. A informação é organizada sobretudo por proximidade geográfica e temporal. O que aparece primeiro é aquilo que está a acontecer agora e mais perto do utilizador.

Queremos quebrar bolhas e contornar o efeito dos algoritmos que nos mostram versões da realidade dependentes das nossas preferências”, explica Callie Wentling. “No mapa, um evento promovido por uma câmara municipal tem exatamente o mesmo peso que uma iniciativa adicionada por um membro da comunidade”.

Essa opção editorial tenta recuperar algo que se perdeu com a fragmentação digital: uma visão comum do que acontece num território.



Um projeto que vive de relações

Para garantir qualidade e consistência na informação, o projeto assenta numa rede de parceiros locais. Em vez de recolher dados automaticamente da internet, a equipa aposta em parcerias diretas com organizações do território.

Entre os primeiros parceiros estão os meios de comunicação Mensagem de Lisboa e Lisbon Project Papers (LPP), que aderiram ao projeto ainda antes do lançamento oficial do mapa.

A lógica é simples: ao associar cada notícia ou iniciativa a um lugar específico da cidade, o conteúdo ganha uma nova dimensão de leitura territorial. Ao mesmo tempo, associações e grupos comunitários passam a ter um canal adicional para divulgar iniciativas.

Segundo Callie Wentling, estas organizações desempenham um papel essencial nos bairros, mas, muitas vezes, trabalham com equipas pequenas e poucos recursos de comunicação. “São equipas que organizam eventos, mantêm espaços comunitários e fazem um trabalho incrível pelo bairro, mas raramente têm cobertura mediática. O mapa pode ajudá-las a amplificar esse impacto”.

A plataforma permite ainda contribuições da própria comunidade. Qualquer pessoa pode submeter informação para o mapa, sujeita a validação. Já associações e organizações podem criar contas verificadas, num modelo baseado em relações de confiança.



Um projeto que começou no bairro

O RUA Map foi oficialmente lançado a 10 de fevereiro de 2026, mas o projeto tem vindo a ser desenvolvido há vários anos. Lisboa é, para já, o território piloto.

Algumas juntas de freguesia, como a da Penha de França e de Arroios, já colaboram com o projeto. A ligação faz sentido: são as instituições mais próximas da vida quotidiana dos bairros.

Ter no mapa alertas, notícias ou iniciativas destas entidades pode ajudar a resolver problemas muito concretos da vida urbana, desde alterações de trânsito até atividades comunitárias.

Com estes parceiros conseguimos que as pessoas acedam a informação que pode melhorar muito a sua vida quotidiana”, explica a fundadora.



Uma plataforma ainda em crescimento

As reações iniciais têm sido positivas, tanto por parte de organizações como do público. Há utilizadores a contribuir diretamente com informação para o mapa e também sugestões para alargar os conteúdos, desde iniciativas culturais a oportunidades de voluntariado.

Nem tudo está ainda completo. Algumas zonas da cidade têm menos conteúdo do que outras. A equipa reconhece essa limitação e vê-a como parte natural de um projeto em crescimento.

Estamos a começar aos poucos. Nascemos a 10 de fevereiro, ainda somos um bebé”, diz Callie Wentling.



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Nos próximos meses, o foco será aumentar a densidade de conteúdo na Área Metropolitana de Lisboa e expandir a rede de parceiros. O objetivo é, depois, levar o projeto ao resto do país.

A médio prazo, a equipa prepara o lançamento do RUA Studio, uma versão white-label da plataforma destinada a instituições públicas e privadas que pretendam comunicar projetos e impacto territorial de forma visual e geográfica. Este modelo deverá tornar-se a principal fonte de financiamento do projeto, permitindo manter o RUA Map gratuito para a comunidade.

Mais à frente, a ambição é transformar o mapa numa ferramenta de análise urbana. Ao mapear eventos, iniciativas e movimentos sociais por bairro, a plataforma pode gerar dados valiosos sobre participação cívica e dinâmicas comunitárias. Esses dados, garante a fundadora, nunca serão extraídos de perfis individuais, mas sim das próprias atividades registadas no território.

Para autarquias e decisores, esta informação pode ajudar a identificar prioridades, perceber quais os temas que mobilizam as comunidades e detetar zonas menos representadas. Em última análise, pode ajudar a aproximar políticas públicas das realidades locais. “Quando conseguimos ver o que está a acontecer nos bairros, conseguimos também perceber melhor as necessidades reais das pessoas”, diz Callie Wentling.



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