#Protagonistas

Seis perguntas a Leonor Poeiras

O silêncio, o pano cru, os materiais, a presença das suas criações numa biblioteca municipal. A comunicadora e artista plástica reflete sobre tudo isso e diz-nos o que podemos esperar da sua segunda exposição individual. Ao sábado, fazemos seis perguntas e a convidada deste fim de semana é Leonor Poeiras. Eis as suas seis respostas.

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25 de jul. de 2026, 09:09

Depois do sucesso de CRU, surge agora CRU II. Em que momento percebeu que a primeira exposição ainda não tinha esgotado tudo aquilo que queria dizer?

LEONOR POEIRAS — A primeira exposição marcou o arranque de uma nova forma de viver os dias. Foi, de facto, um início e, por isso, não sinto que haja algo esgotado. Pelo contrário, é apenas o começo. O convite para esta segunda exposição surgiu ainda durante a primeira. A ideia inicial não era fazer uma nova mostra, mas levar o CRU à rede de bibliotecas de Lisboa, um convite que muito me honrou. Pelo caminho, decidi juntar novos trabalhos, desenvolvidos na residência artística que fiz durante o período em que a primeira exposição esteve patente.



Na apresentação desta exposição fala da procura pelo essencial, através do gesto, da matéria e do despojamento. O que significa, na prática, retirar tudo o que é acessório de uma obra?

L.P. — Interessa-me o que sobra quando a construção cai. No fundo, interessa-me perceber o que fica de nós quando pomos de lado as aprendizagens, as regras, as capas e os filtros. Se retirarem um atleta olímpico do seu ambiente, o que sobra? Que pessoa é aquela? Estou muito mais interessada na pessoa do que nos seus feitos ou medalhas. E isso, na prática, significa pintar no chão, pintar sobre pano cru, sem preparar a tela, misturar materiais pouco convencionais, como cola, cal, areia, que são vulneráveis e estão sujeitos a um desgaste. No final, dispenso acabamentos, vernizes e por vezes a moldura. Tudo ao contrário do que aprendi com os meus professores. Aprender, desaprender, reaprender. E é na reaprendizagem que descobrimos quem realmente somos na nossa essência. 

A cal, os pigmentos, a tinta e, sobretudo, o pano cru voltam a assumir um papel central no seu trabalho. O que encontra nestes materiais que sente que não encontraria noutros?

L.P. — A ideia de perfeição é, para mim, artificial. Vivi-a por 20 anos em televisão. Por isso, procuro materiais que nos representem, que também eles se transformem ao longo do tempo, como nós, como a natureza. A cal, por exemplo, quando é utilizada apenas com água, pode até abrir fendas depois de seca. Os materiais mudam com o tempo e é muito provável que, daqui a 20 anos, estes trabalhos já não estejam exatamente iguais. Essa possibilidade fascina-me. Vejo-nos assim enquanto seres humanos: permeáveis à vida, em constante transformação, marcados pelo tempo e pela experiência. É precisamente nessa verdade imperfeita que encontro a beleza. Valorizo o que é verdadeiro e natural.



Uma das novidades desta exposição é uma peça de grande dimensão, onde o vazio passa a fazer parte da composição. Enquanto artista, como é que se aprende a confiar no vazio e a aceitá-lo como elemento criativo, em vez de sentir necessidade de o preencher? 

L.P. — Desde que comecei a minha prática artística diária, eu experimento. Esse processo de investigação levou-me, naturalmente, a perceber que nem tudo precisa de ser preenchido. A necessidade de deixar parte da tela crua prende-se com o facto de ver no pano um prolongamento daquilo que nós somos. Mais do que um vazio, vejo-o como um silêncio. Acredito que o silêncio é essencial para que aquilo que é verdadeiramente nosso possa vir à superfície. E, nessa obra em particular, o que não está pintado tem tanto significado como aquilo que está. Individualmente a nossa vida começa de forma crua. Nascemos sem estarmos preparados para nada, apenas existimos. É bom voltar a esse silêncio.



Esta mostra acontece numa biblioteca, um espaço habitualmente associado às palavras e à leitura. O que espera que aconteça quando o público encontrar as suas obras neste contexto? 

L.P. — Não tenho a pretensão de exigir nada do público, nem acredito que a arte tenha de cumprir uma função ou uma utilidade específica. Mas, se durante alguns instantes conseguir captar a curiosidade de alguém, se as cores, a matéria ou a superfície levarem as pessoa a permanecer ali um pouco, isso já me deixa muito feliz. Desde pequena que fixo o olhar em cores, seja no céu, no mar, num jardim, ou numa obra de arte. Contemplar faz-nos falta, permite-nos parar, não pensar em nada e sentir. Há também uma ligação muito especial ao facto de esta exposição acontecer numa biblioteca. Quem lê, sabe parar. Só depois de sair da televisão me apercebi que estava exausta de uma vida demasiado preenchida. "É preciso sair da ilha para ver a ilha" e enquanto artista procuro uma vida com tempo e com prazer. E acho isso se traduz nos meus trabalhos. 

Do ponto de vista artístico, que caminhos gostava de explorar no futuro?

L.P. — Inscrevo o meu trabalho no campo do expressionismo abstracto e do color field, tendo na minha matriz a influência inequívoca de Helen Frankenthaler e Mark Rothko. A liberdade durante o processo criativo orienta a minha prática: o tempo, os materiais, a cor e a fisicalidade do gesto são elementos centrais do meu trabalho. Um dia gostava de ter um atelier grande o suficiente para poder explorar formatos de maior escala, quem sabe monumentais. Gostava muito.


CRU II pode ser vista na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, até 17 de Agosto
#Protagonistas

Seis perguntas a Leonor Poeiras

O silêncio, o pano cru, os materiais, a presença das suas criações numa biblioteca municipal. A comunicadora e artista plástica reflete sobre tudo isso e diz-nos o que podemos esperar da sua segunda exposição individual. Ao sábado, fazemos seis perguntas e a convidada deste fim de semana é Leonor Poeiras. Eis as suas seis respostas.

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25 de jul. de 2026, 09:09

Depois do sucesso de CRU, surge agora CRU II. Em que momento percebeu que a primeira exposição ainda não tinha esgotado tudo aquilo que queria dizer?

LEONOR POEIRAS — A primeira exposição marcou o arranque de uma nova forma de viver os dias. Foi, de facto, um início e, por isso, não sinto que haja algo esgotado. Pelo contrário, é apenas o começo. O convite para esta segunda exposição surgiu ainda durante a primeira. A ideia inicial não era fazer uma nova mostra, mas levar o CRU à rede de bibliotecas de Lisboa, um convite que muito me honrou. Pelo caminho, decidi juntar novos trabalhos, desenvolvidos na residência artística que fiz durante o período em que a primeira exposição esteve patente.



Na apresentação desta exposição fala da procura pelo essencial, através do gesto, da matéria e do despojamento. O que significa, na prática, retirar tudo o que é acessório de uma obra?

L.P. — Interessa-me o que sobra quando a construção cai. No fundo, interessa-me perceber o que fica de nós quando pomos de lado as aprendizagens, as regras, as capas e os filtros. Se retirarem um atleta olímpico do seu ambiente, o que sobra? Que pessoa é aquela? Estou muito mais interessada na pessoa do que nos seus feitos ou medalhas. E isso, na prática, significa pintar no chão, pintar sobre pano cru, sem preparar a tela, misturar materiais pouco convencionais, como cola, cal, areia, que são vulneráveis e estão sujeitos a um desgaste. No final, dispenso acabamentos, vernizes e por vezes a moldura. Tudo ao contrário do que aprendi com os meus professores. Aprender, desaprender, reaprender. E é na reaprendizagem que descobrimos quem realmente somos na nossa essência. 

A cal, os pigmentos, a tinta e, sobretudo, o pano cru voltam a assumir um papel central no seu trabalho. O que encontra nestes materiais que sente que não encontraria noutros?

L.P. — A ideia de perfeição é, para mim, artificial. Vivi-a por 20 anos em televisão. Por isso, procuro materiais que nos representem, que também eles se transformem ao longo do tempo, como nós, como a natureza. A cal, por exemplo, quando é utilizada apenas com água, pode até abrir fendas depois de seca. Os materiais mudam com o tempo e é muito provável que, daqui a 20 anos, estes trabalhos já não estejam exatamente iguais. Essa possibilidade fascina-me. Vejo-nos assim enquanto seres humanos: permeáveis à vida, em constante transformação, marcados pelo tempo e pela experiência. É precisamente nessa verdade imperfeita que encontro a beleza. Valorizo o que é verdadeiro e natural.



Uma das novidades desta exposição é uma peça de grande dimensão, onde o vazio passa a fazer parte da composição. Enquanto artista, como é que se aprende a confiar no vazio e a aceitá-lo como elemento criativo, em vez de sentir necessidade de o preencher? 

L.P. — Desde que comecei a minha prática artística diária, eu experimento. Esse processo de investigação levou-me, naturalmente, a perceber que nem tudo precisa de ser preenchido. A necessidade de deixar parte da tela crua prende-se com o facto de ver no pano um prolongamento daquilo que nós somos. Mais do que um vazio, vejo-o como um silêncio. Acredito que o silêncio é essencial para que aquilo que é verdadeiramente nosso possa vir à superfície. E, nessa obra em particular, o que não está pintado tem tanto significado como aquilo que está. Individualmente a nossa vida começa de forma crua. Nascemos sem estarmos preparados para nada, apenas existimos. É bom voltar a esse silêncio.



Esta mostra acontece numa biblioteca, um espaço habitualmente associado às palavras e à leitura. O que espera que aconteça quando o público encontrar as suas obras neste contexto? 

L.P. — Não tenho a pretensão de exigir nada do público, nem acredito que a arte tenha de cumprir uma função ou uma utilidade específica. Mas, se durante alguns instantes conseguir captar a curiosidade de alguém, se as cores, a matéria ou a superfície levarem as pessoa a permanecer ali um pouco, isso já me deixa muito feliz. Desde pequena que fixo o olhar em cores, seja no céu, no mar, num jardim, ou numa obra de arte. Contemplar faz-nos falta, permite-nos parar, não pensar em nada e sentir. Há também uma ligação muito especial ao facto de esta exposição acontecer numa biblioteca. Quem lê, sabe parar. Só depois de sair da televisão me apercebi que estava exausta de uma vida demasiado preenchida. "É preciso sair da ilha para ver a ilha" e enquanto artista procuro uma vida com tempo e com prazer. E acho isso se traduz nos meus trabalhos. 

Do ponto de vista artístico, que caminhos gostava de explorar no futuro?

L.P. — Inscrevo o meu trabalho no campo do expressionismo abstracto e do color field, tendo na minha matriz a influência inequívoca de Helen Frankenthaler e Mark Rothko. A liberdade durante o processo criativo orienta a minha prática: o tempo, os materiais, a cor e a fisicalidade do gesto são elementos centrais do meu trabalho. Um dia gostava de ter um atelier grande o suficiente para poder explorar formatos de maior escala, quem sabe monumentais. Gostava muito.


CRU II pode ser vista na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, até 17 de Agosto

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Seis perguntas a Leonor Poeiras

O silêncio, o pano cru, os materiais, a presença das suas criações numa biblioteca municipal. A comunicadora e artista plástica reflete sobre tudo isso e diz-nos o que podemos esperar da sua segunda exposição individual. Ao sábado, fazemos seis perguntas e a convidada deste fim de semana é Leonor Poeiras. Eis as suas seis respostas.

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25 de jul. de 2026, 09:09

Depois do sucesso de CRU, surge agora CRU II. Em que momento percebeu que a primeira exposição ainda não tinha esgotado tudo aquilo que queria dizer?

LEONOR POEIRAS — A primeira exposição marcou o arranque de uma nova forma de viver os dias. Foi, de facto, um início e, por isso, não sinto que haja algo esgotado. Pelo contrário, é apenas o começo. O convite para esta segunda exposição surgiu ainda durante a primeira. A ideia inicial não era fazer uma nova mostra, mas levar o CRU à rede de bibliotecas de Lisboa, um convite que muito me honrou. Pelo caminho, decidi juntar novos trabalhos, desenvolvidos na residência artística que fiz durante o período em que a primeira exposição esteve patente.



Na apresentação desta exposição fala da procura pelo essencial, através do gesto, da matéria e do despojamento. O que significa, na prática, retirar tudo o que é acessório de uma obra?

L.P. — Interessa-me o que sobra quando a construção cai. No fundo, interessa-me perceber o que fica de nós quando pomos de lado as aprendizagens, as regras, as capas e os filtros. Se retirarem um atleta olímpico do seu ambiente, o que sobra? Que pessoa é aquela? Estou muito mais interessada na pessoa do que nos seus feitos ou medalhas. E isso, na prática, significa pintar no chão, pintar sobre pano cru, sem preparar a tela, misturar materiais pouco convencionais, como cola, cal, areia, que são vulneráveis e estão sujeitos a um desgaste. No final, dispenso acabamentos, vernizes e por vezes a moldura. Tudo ao contrário do que aprendi com os meus professores. Aprender, desaprender, reaprender. E é na reaprendizagem que descobrimos quem realmente somos na nossa essência. 

A cal, os pigmentos, a tinta e, sobretudo, o pano cru voltam a assumir um papel central no seu trabalho. O que encontra nestes materiais que sente que não encontraria noutros?

L.P. — A ideia de perfeição é, para mim, artificial. Vivi-a por 20 anos em televisão. Por isso, procuro materiais que nos representem, que também eles se transformem ao longo do tempo, como nós, como a natureza. A cal, por exemplo, quando é utilizada apenas com água, pode até abrir fendas depois de seca. Os materiais mudam com o tempo e é muito provável que, daqui a 20 anos, estes trabalhos já não estejam exatamente iguais. Essa possibilidade fascina-me. Vejo-nos assim enquanto seres humanos: permeáveis à vida, em constante transformação, marcados pelo tempo e pela experiência. É precisamente nessa verdade imperfeita que encontro a beleza. Valorizo o que é verdadeiro e natural.



Uma das novidades desta exposição é uma peça de grande dimensão, onde o vazio passa a fazer parte da composição. Enquanto artista, como é que se aprende a confiar no vazio e a aceitá-lo como elemento criativo, em vez de sentir necessidade de o preencher? 

L.P. — Desde que comecei a minha prática artística diária, eu experimento. Esse processo de investigação levou-me, naturalmente, a perceber que nem tudo precisa de ser preenchido. A necessidade de deixar parte da tela crua prende-se com o facto de ver no pano um prolongamento daquilo que nós somos. Mais do que um vazio, vejo-o como um silêncio. Acredito que o silêncio é essencial para que aquilo que é verdadeiramente nosso possa vir à superfície. E, nessa obra em particular, o que não está pintado tem tanto significado como aquilo que está. Individualmente a nossa vida começa de forma crua. Nascemos sem estarmos preparados para nada, apenas existimos. É bom voltar a esse silêncio.



Esta mostra acontece numa biblioteca, um espaço habitualmente associado às palavras e à leitura. O que espera que aconteça quando o público encontrar as suas obras neste contexto? 

L.P. — Não tenho a pretensão de exigir nada do público, nem acredito que a arte tenha de cumprir uma função ou uma utilidade específica. Mas, se durante alguns instantes conseguir captar a curiosidade de alguém, se as cores, a matéria ou a superfície levarem as pessoa a permanecer ali um pouco, isso já me deixa muito feliz. Desde pequena que fixo o olhar em cores, seja no céu, no mar, num jardim, ou numa obra de arte. Contemplar faz-nos falta, permite-nos parar, não pensar em nada e sentir. Há também uma ligação muito especial ao facto de esta exposição acontecer numa biblioteca. Quem lê, sabe parar. Só depois de sair da televisão me apercebi que estava exausta de uma vida demasiado preenchida. "É preciso sair da ilha para ver a ilha" e enquanto artista procuro uma vida com tempo e com prazer. E acho isso se traduz nos meus trabalhos. 

Do ponto de vista artístico, que caminhos gostava de explorar no futuro?

L.P. — Inscrevo o meu trabalho no campo do expressionismo abstracto e do color field, tendo na minha matriz a influência inequívoca de Helen Frankenthaler e Mark Rothko. A liberdade durante o processo criativo orienta a minha prática: o tempo, os materiais, a cor e a fisicalidade do gesto são elementos centrais do meu trabalho. Um dia gostava de ter um atelier grande o suficiente para poder explorar formatos de maior escala, quem sabe monumentais. Gostava muito.


CRU II pode ser vista na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, até 17 de Agosto
#Protagonistas

Seis perguntas a Leonor Poeiras

O silêncio, o pano cru, os materiais, a presença das suas criações numa biblioteca municipal. A comunicadora e artista plástica reflete sobre tudo isso e diz-nos o que podemos esperar da sua segunda exposição individual. Ao sábado, fazemos seis perguntas e a convidada deste fim de semana é Leonor Poeiras. Eis as suas seis respostas.

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25 de jul. de 2026, 09:09

Depois do sucesso de CRU, surge agora CRU II. Em que momento percebeu que a primeira exposição ainda não tinha esgotado tudo aquilo que queria dizer?

LEONOR POEIRAS — A primeira exposição marcou o arranque de uma nova forma de viver os dias. Foi, de facto, um início e, por isso, não sinto que haja algo esgotado. Pelo contrário, é apenas o começo. O convite para esta segunda exposição surgiu ainda durante a primeira. A ideia inicial não era fazer uma nova mostra, mas levar o CRU à rede de bibliotecas de Lisboa, um convite que muito me honrou. Pelo caminho, decidi juntar novos trabalhos, desenvolvidos na residência artística que fiz durante o período em que a primeira exposição esteve patente.



Na apresentação desta exposição fala da procura pelo essencial, através do gesto, da matéria e do despojamento. O que significa, na prática, retirar tudo o que é acessório de uma obra?

L.P. — Interessa-me o que sobra quando a construção cai. No fundo, interessa-me perceber o que fica de nós quando pomos de lado as aprendizagens, as regras, as capas e os filtros. Se retirarem um atleta olímpico do seu ambiente, o que sobra? Que pessoa é aquela? Estou muito mais interessada na pessoa do que nos seus feitos ou medalhas. E isso, na prática, significa pintar no chão, pintar sobre pano cru, sem preparar a tela, misturar materiais pouco convencionais, como cola, cal, areia, que são vulneráveis e estão sujeitos a um desgaste. No final, dispenso acabamentos, vernizes e por vezes a moldura. Tudo ao contrário do que aprendi com os meus professores. Aprender, desaprender, reaprender. E é na reaprendizagem que descobrimos quem realmente somos na nossa essência. 

A cal, os pigmentos, a tinta e, sobretudo, o pano cru voltam a assumir um papel central no seu trabalho. O que encontra nestes materiais que sente que não encontraria noutros?

L.P. — A ideia de perfeição é, para mim, artificial. Vivi-a por 20 anos em televisão. Por isso, procuro materiais que nos representem, que também eles se transformem ao longo do tempo, como nós, como a natureza. A cal, por exemplo, quando é utilizada apenas com água, pode até abrir fendas depois de seca. Os materiais mudam com o tempo e é muito provável que, daqui a 20 anos, estes trabalhos já não estejam exatamente iguais. Essa possibilidade fascina-me. Vejo-nos assim enquanto seres humanos: permeáveis à vida, em constante transformação, marcados pelo tempo e pela experiência. É precisamente nessa verdade imperfeita que encontro a beleza. Valorizo o que é verdadeiro e natural.



Uma das novidades desta exposição é uma peça de grande dimensão, onde o vazio passa a fazer parte da composição. Enquanto artista, como é que se aprende a confiar no vazio e a aceitá-lo como elemento criativo, em vez de sentir necessidade de o preencher? 

L.P. — Desde que comecei a minha prática artística diária, eu experimento. Esse processo de investigação levou-me, naturalmente, a perceber que nem tudo precisa de ser preenchido. A necessidade de deixar parte da tela crua prende-se com o facto de ver no pano um prolongamento daquilo que nós somos. Mais do que um vazio, vejo-o como um silêncio. Acredito que o silêncio é essencial para que aquilo que é verdadeiramente nosso possa vir à superfície. E, nessa obra em particular, o que não está pintado tem tanto significado como aquilo que está. Individualmente a nossa vida começa de forma crua. Nascemos sem estarmos preparados para nada, apenas existimos. É bom voltar a esse silêncio.



Esta mostra acontece numa biblioteca, um espaço habitualmente associado às palavras e à leitura. O que espera que aconteça quando o público encontrar as suas obras neste contexto? 

L.P. — Não tenho a pretensão de exigir nada do público, nem acredito que a arte tenha de cumprir uma função ou uma utilidade específica. Mas, se durante alguns instantes conseguir captar a curiosidade de alguém, se as cores, a matéria ou a superfície levarem as pessoa a permanecer ali um pouco, isso já me deixa muito feliz. Desde pequena que fixo o olhar em cores, seja no céu, no mar, num jardim, ou numa obra de arte. Contemplar faz-nos falta, permite-nos parar, não pensar em nada e sentir. Há também uma ligação muito especial ao facto de esta exposição acontecer numa biblioteca. Quem lê, sabe parar. Só depois de sair da televisão me apercebi que estava exausta de uma vida demasiado preenchida. "É preciso sair da ilha para ver a ilha" e enquanto artista procuro uma vida com tempo e com prazer. E acho isso se traduz nos meus trabalhos. 

Do ponto de vista artístico, que caminhos gostava de explorar no futuro?

L.P. — Inscrevo o meu trabalho no campo do expressionismo abstracto e do color field, tendo na minha matriz a influência inequívoca de Helen Frankenthaler e Mark Rothko. A liberdade durante o processo criativo orienta a minha prática: o tempo, os materiais, a cor e a fisicalidade do gesto são elementos centrais do meu trabalho. Um dia gostava de ter um atelier grande o suficiente para poder explorar formatos de maior escala, quem sabe monumentais. Gostava muito.


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