
#Protagonistas
PAULA PERFEITO: "Um líder mede-se pela distância a que leva os outros"
O trabalho deixou de caber numa definição linear e as carreiras passaram a construir-se entre múltiplas dimensões. Em simultâneo, a ideia de identidade tornou-se mais complexa do que nunca. Para Paula Perfeito, essa complexidade não é um problema a resolver, mas uma realidade a integrar. A atual Diretora de Media, Parcerias e Comunicação do SAPO e Presidente da PWN Lisbon, conta mais de duas décadas de experiência no setor das comunicações. Tem um percurso marcado pela interseção entre liderança, media e impacto social, defendendo que o futuro do trabalho passa por modelos orientados por sentido, aprendizagem contínua e capacidade de adaptação. Nesta grande entrevista ao MOTIVO, reflete sobre liderança em tempos “caóticos”, questiona o valor da “marca pessoal” e explica porque acredita que o verdadeiro impacto se constrói ao longo de uma vida, e nas relações que construímos pelo caminho.
O teu percurso cruza diferentes áreas e papéis. Houve algum momento em que deixaste de pensar em “carreira” de forma linear e passaste a construir um percurso mais híbrido?
PAULA PERFEITO — Hoje, tenho a convicção de que nunca pensei nessa espécie de conceito de “carreira linear”, dado sermos, como seres humanos, retroalimentados por tantas vertentes, e em tantas dimensões, que nos permitem e incitam a uma evolução contínua, mas não forçosamente linear, ao longo da vida. A própria vida é, aliás, muito maior do que uma carreira, beneficiando a carreira, estou também disso convicta, da diversidade de prismas que conseguirmos relacionar em vários campos. Dito isto, já que ter uma vida e, já agora, um trabalho, com sentido – na linha do investigador da NOVA SBE, Milton de Sousa, – é uma necessidade humana fundamental, devem caber do meu ponto de vista no “chapéu” de uma carreira a evolução profissional ancorada em competência e aprendizagens, bem como a dinamização de projetos individuais e coletivos que façam sentido e possam ter impacto social. Isto, para mim, é o pleno. E é neste modelo, de resto, em que acredito estar a chave do futuro do trabalho: para ser pleno de sentido, deve permitir a realização das pessoas nas suas diferentes componentes naturais.
"Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser"
Quando se acumulam várias dimensões, como se evita a fragmentação da identidade? Há um fio condutor claro ou ele constrói-se ao longo do tempo?
P.P. — Conheces alguém que seja apenas um profissional? Ou apenas membro de uma família? Ou que apenas tenha uma vertente individual? Ou que apenas seja um ser social? Somos todos feitos dessa riqueza multidisciplinar que são os nossos múltiplos ambientes individual, familiar, profissional, social... A identidade faz-se, precisamente, dessa multiplicidade de vertentes e, não só não se fragmenta quando nos realizamos de forma combinada nas várias vertentes, como se exponencia, uma vez cosida pelos valores fundacionais, as qualificações e a formação, as experiências e os papéis que vamos ganhando e acumulando e através dos quais vamos criando, lá está, impacto.
Hoje, fala-se muito da ideia de “marca pessoal”. No teu caso, essa construção foi intencional ou foi uma consequência natural do caminho que foste fazendo?
P.P. — Confesso-te que não aprecio particularmente as bengalas da moda, como me parece ser a “marca pessoal”, talvez até um pouco transacional e volátil. Acredito, sim, no impacto que, através do que somos e fazemos em ato contínuo, conseguimos gerar. Ora, isso constrói-se ao longo de uma vida inteira. Lembro-me de, desde pequenina, mobilizada por uma professora primária fora de série, ficar até tarde na escola sistematicamente por querer participar em N atividades extracurriculares; de, na faculdade, estar sempre envolvida em N iniciativas académicas além das aulas; de, no estágio, ter proativamente proposto um trabalho específico e de, a partir daí, não ter parado; de, no campo profissional, estar permanentemente ligada a ações à margem das funções “formais”; e de, a propósito de um compromisso com a criação de impacto em sociedade, ser desafiada para tantos projetos que me têm transformado como pessoa. Perguntar-me-ás se isto é “marca pessoal”… A única diferença é que, com a maturidade e a experiência, passamos a colocar intencionalidade naquilo que talvez sempre tenhamos feito de forma natural. E se isso puder deixar uma herança, no sentido de legado, nos outros… excelente! O que me parece ser uma coisa (bem) diferente da “marca pessoal”.
E, num contexto em que somos chamados a desempenhar múltiplos papéis, como se mantém a coerência, interna e externa, sem cair na pressão de ter de ser tudo ao mesmo tempo?
P.P. — Cada um deve ser o que entenda que faz sentido para si. Existe alguma dúvida sobre isto? E o que faz sentido para cada um de nós evolui ao longo da vida, à medida da nossa própria evolução como seres humanos. Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser. Quando caímos na tentação de ser tudo ao mesmo tempo, já não estaremos, parece-me, a ser o que queremos, mas o que entendemos que esperam que sejamos. E, nesse caso, a nossa agenda sobrecarregada não tem (não pode ter) qualquer sentido. A maturidade também deve, a meu ver, trazer-nos essa clarificação e clareza.

Paula Perfeito fundou, em 2014, a plataforma digital Entre | Vistas, que conta mais de 100 líderes entrevistados, tendo dado origem ao livro As Perguntas que Somos
Que tipo de líder sentes que te tornaste?
P.P. — Não me compete qualificar o meu próprio estilo de liderança. Compete-me, sim, saber enquadrar a liderança no tempo atual, que é caótico. Dizem os especialistas, na linha do antropólogo e futurista norte-americano Jamais Cascio, que assistimos a uma evolução do tempo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) para o tempo BANI (Breakable, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible), em que a experiência que trazemos do passado não chega para interpretar tudo. Ora, este tempo em que atualmente vivemos exige às lideranças que se redefinam e adaptem. E sendo tão importante entregarmos os resultados do curto prazo ao mesmo tempo que mobilizamos as equipas para preparar a organização do amanhã num mundo, precisamente, em mudança e com crises permanentes, a liderança remete-nos – por contraponto com a abordagem transacional, a eficiência e o controlo da gestão – para uma abordagem transformacional, de motivação, mobilização e influência. Dito isto, e em linha com a apologia que temos vindo a consolidar na PWN Lisbon, gosto de pensar na liderança como uma ambição individual ancorada numa visão de impacto social duradouro. Isto, por sua vez, implica 1) saber influenciar os outros a partir de uma ideia de bem maior (carisma); 2) motivar de forma inspiradora (aspiração); 3) estimular intelectualmente (criatividade); 4) e considerar o outro na sua singularidade (reconhecimento). Ora, a visão de liderança como serviço oferece-nos o mapa, precisamente, para cumprir este conjunto de responsabilidades fundamentais. A verdadeira medida de um líder não é a altura do que alcança sozinho, mas a distância ao longo da qual consegue levar os outros consigo, criando um impacto que ecoa além da própria jornada. Talvez tenhamos chegado a líderes quando tivermos superado a fase de querermos ser os melhores da equipa, para passarmos a querer ser aqueles que contribuem para que a equipa seja a melhor a gerar impacto. Em rede, passando de líderes de equipas para os orientadores de equipas de líderes. Esta mudança angular muda tudo!
Existe uma dimensão emocional na liderança que durante muito tempo foi desvalorizada. Como é que isso se manifesta na tua prática diária?
P.P. — A dimensão emocional é absolutamente fundamental quando a liderança consiste na relação com pessoas, sobre cujo desenvolvimento temos, mais uma vez do meu ponto de vista, uma responsabilidade inequívoca. Agora, talvez seja o momento de introduzir a palavra empatia, que não é incompatível com a assertividade que a liderança também exige. Parece-me que o equilíbrio da liderança está, precisamente, nessa combinação harmoniosa entre uma coisa e outra.
"Protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar"
Ao longo do teu percurso, houve decisões que exigiram sair de zonas de conforto muito definidas. Como lidas com o risco e com a incerteza que o acompanha?
P.P. — Tive de sair, efetivamente, de áreas de segurança. Confesso-te: esse foi, por incrível que pareça, o critério para ter arriscado decisões difíceis. Mais uma vez, a maturidade não só nos “descontrai” em certos ambientes de exposição ao risco e ao desconhecido, como nos permite perceber que, quando nos atrevemos a sair para “fora de pé”, tendemos a acelerar significativamente o nosso desenvolvimento, a romper com a visão de túnel e a contrariar limites. E este rasgo é, absolutamente, extraordinário.
Trabalhar em várias frentes pode ser estimulante, mas também exigente. Onde e como encontras equilíbrio?
P.P. — Dividiria em quatro grandes planos e, com esta divisão, mostro como levo o descanso tão a sério. Em primeiro lugar, dedico tempo útil exclusivamente a planear, desenhar e organizar a agenda, o que me facilita muitíssimo toda a organização e gestão do tempo. Em segundo lugar, protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar. Depois, planeio conscientemente o meu equilíbrio, criando dinâmicas de descanso ativo, como a leitura (sou uma leitora compulsiva!), e descanso passivo, como ver conteúdos a gosto. E, por último, tenho na família, nos amigos e na relação com as raízes uma fonte inesgotável e infalível de regeneração de energia.
Há uma narrativa crescente de que devemos fazer apenas o que nos apaixona. A tua experiência confirma essa ideia?
P.P. — Eu sou apaixonada pelo que faço e escolhi, desde cedo, fazer o que gosto. Mas isso não dispensa nem trabalho, nem sacrifícios. É naturalmente muito mais fácil fazermos o que gostamos e aquilo para que entendemos estar vocacionados. Mas o talento, como nos diz a escritora brasileira Clarice Lispector, remete-nos para a intencionalidade que colocamos na vocação. E isso é trabalho, é o como atingir a meta. Como disse Séneca, «há sorte quando a preparação encontra a oportunidade». E para haver preparação, haja gosto e haja muito, muito trabalho… As duas coisas não se desligam. Acrescentaria, ainda, a autenticidade, lembrando um, entre os vários versos sábios, de Paulo Leminski, também brasileiro: «Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além».

Paula Perfeito iniciou a sua atividade profissional como jornalista na TVI
Que aprendizagens é que os diferentes contextos trouxeram para a forma como olhas para o trabalho, hoje?
P.P. — Excelente pergunta! Aqui chegados, clarificamos a complementaridade assegurada pelos diferentes ambientes. Destaco, do espectro corporativo, a estrutura, a escala e a responsabilidade: a clareza de uma missão estratégica, de objetivos e métricas; os processos e metodologias de trabalho que permitem coordenar pessoas e projetos em quantidade e qualidade; e o cumprimento de prazos inerente ao compromisso inevitável com a entrega de resultados. Agregaria todos estes aspetos à luz da necessidade de, em simultâneo, estruturar/organizar e (re)adaptar, dada a velocidade de mudança de todos os setores e áreas de atividade. Do ambiente criativo, que me remete, por exemplo, para o meu site Entre | Vistas, sublinharia a autonomia, a experimentação e o significado: a liberdade para errar, com contexto; a valorização da originalidade e do pensamento crítico; e o trabalho como expressão e relevância, não apenas como execução. Do fórum pessoal e familiar, retiro o equilíbrio, a identidade e o propósito: a centralidade das nossas relações mais nucleares; a saúde mental e física como chave para um bem-estar necessário, fundamental. Combinando tudo, em síntese, reforçaria que o momento híbrido em que nos encontramos enquadra o trabalho no universo líquido a que se refere o sociólogo polaco Zygmunt Bauman. Os CVs do futuro devem preparar para saber, em equilíbrio, viver no caos, para solucionar problemas constantemente, para usar uma cabeça giratória sempre disponível para aprender, para arriscar hipóteses, como os cientistas. Vivemos uma passagem do plano à navegação à vista, do conhecimento estanque à aprendizagem em longevidade. Posto isto, encaro a carreira construída neste contexto como, mais uma vez, não linear e mais adaptativa, com uma cultura de aprendizagem contínua e a ênfase colocada no sentido e no impacto. Numa última ideia: dos três ambientes, retiro a capacidade articulada de organizar, reinventar e questionar o sentido.
"Penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi"
O que é que mudou mais em ti, ao longo deste percurso: a forma como trabalhas ou a forma como te defines?
P.P. — Poria, assim colocada a questão, a tónica na qualidade das relações com as pessoas. No final do dia, o nosso maior balanço passa, do meu ponto de vista, não pelas funções que tivemos, por mais relevantes que sejam, não pelos projetos que liderámos, mas pelas relações que temos a capacidade de construir com as outras pessoas e de como podemos fazer a diferença na sua vida e elas na nossa. Quando olho para trás, penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi e a pessoa em que me tornei. Será tão bom poder criar este impacto nos outros…
E quando olhas para o futuro, sentes necessidade de continuar a expandir essas várias dimensões ou de as consolidar numa ideia mais clara de ti própria?
P.P. — A minha ideia mais clara de mim inclui, como te disse, todas as dimensões de que falámos, ou seja, uma certa polifonia (do grego, “muitas vozes") que, juntas, formam uma mesma música. E imagino, quando olho para o futuro, poder ser ainda mais experimentadora de curiosidades, fazer melhores perguntas e continuar eternamente a aprender e a espantar-me, para usar um dos verbos lúcidos de José Tolentino Mendonça. No espanto, acredito, estará grande parte do motivo [sorriso rasgado].
(C) Vitorino Coragem e D.R.

#Protagonistas
PAULA PERFEITO: "Um líder mede-se pela distância a que leva os outros"
O trabalho deixou de caber numa definição linear e as carreiras passaram a construir-se entre múltiplas dimensões. Em simultâneo, a ideia de identidade tornou-se mais complexa do que nunca. Para Paula Perfeito, essa complexidade não é um problema a resolver, mas uma realidade a integrar. A atual Diretora de Media, Parcerias e Comunicação do SAPO e Presidente da PWN Lisbon, conta mais de duas décadas de experiência no setor das comunicações. Tem um percurso marcado pela interseção entre liderança, media e impacto social, defendendo que o futuro do trabalho passa por modelos orientados por sentido, aprendizagem contínua e capacidade de adaptação. Nesta grande entrevista ao MOTIVO, reflete sobre liderança em tempos “caóticos”, questiona o valor da “marca pessoal” e explica porque acredita que o verdadeiro impacto se constrói ao longo de uma vida, e nas relações que construímos pelo caminho.
O teu percurso cruza diferentes áreas e papéis. Houve algum momento em que deixaste de pensar em “carreira” de forma linear e passaste a construir um percurso mais híbrido?
PAULA PERFEITO — Hoje, tenho a convicção de que nunca pensei nessa espécie de conceito de “carreira linear”, dado sermos, como seres humanos, retroalimentados por tantas vertentes, e em tantas dimensões, que nos permitem e incitam a uma evolução contínua, mas não forçosamente linear, ao longo da vida. A própria vida é, aliás, muito maior do que uma carreira, beneficiando a carreira, estou também disso convicta, da diversidade de prismas que conseguirmos relacionar em vários campos. Dito isto, já que ter uma vida e, já agora, um trabalho, com sentido – na linha do investigador da NOVA SBE, Milton de Sousa, – é uma necessidade humana fundamental, devem caber do meu ponto de vista no “chapéu” de uma carreira a evolução profissional ancorada em competência e aprendizagens, bem como a dinamização de projetos individuais e coletivos que façam sentido e possam ter impacto social. Isto, para mim, é o pleno. E é neste modelo, de resto, em que acredito estar a chave do futuro do trabalho: para ser pleno de sentido, deve permitir a realização das pessoas nas suas diferentes componentes naturais.
"Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser"
Quando se acumulam várias dimensões, como se evita a fragmentação da identidade? Há um fio condutor claro ou ele constrói-se ao longo do tempo?
P.P. — Conheces alguém que seja apenas um profissional? Ou apenas membro de uma família? Ou que apenas tenha uma vertente individual? Ou que apenas seja um ser social? Somos todos feitos dessa riqueza multidisciplinar que são os nossos múltiplos ambientes individual, familiar, profissional, social... A identidade faz-se, precisamente, dessa multiplicidade de vertentes e, não só não se fragmenta quando nos realizamos de forma combinada nas várias vertentes, como se exponencia, uma vez cosida pelos valores fundacionais, as qualificações e a formação, as experiências e os papéis que vamos ganhando e acumulando e através dos quais vamos criando, lá está, impacto.
Hoje, fala-se muito da ideia de “marca pessoal”. No teu caso, essa construção foi intencional ou foi uma consequência natural do caminho que foste fazendo?
P.P. — Confesso-te que não aprecio particularmente as bengalas da moda, como me parece ser a “marca pessoal”, talvez até um pouco transacional e volátil. Acredito, sim, no impacto que, através do que somos e fazemos em ato contínuo, conseguimos gerar. Ora, isso constrói-se ao longo de uma vida inteira. Lembro-me de, desde pequenina, mobilizada por uma professora primária fora de série, ficar até tarde na escola sistematicamente por querer participar em N atividades extracurriculares; de, na faculdade, estar sempre envolvida em N iniciativas académicas além das aulas; de, no estágio, ter proativamente proposto um trabalho específico e de, a partir daí, não ter parado; de, no campo profissional, estar permanentemente ligada a ações à margem das funções “formais”; e de, a propósito de um compromisso com a criação de impacto em sociedade, ser desafiada para tantos projetos que me têm transformado como pessoa. Perguntar-me-ás se isto é “marca pessoal”… A única diferença é que, com a maturidade e a experiência, passamos a colocar intencionalidade naquilo que talvez sempre tenhamos feito de forma natural. E se isso puder deixar uma herança, no sentido de legado, nos outros… excelente! O que me parece ser uma coisa (bem) diferente da “marca pessoal”.
E, num contexto em que somos chamados a desempenhar múltiplos papéis, como se mantém a coerência, interna e externa, sem cair na pressão de ter de ser tudo ao mesmo tempo?
P.P. — Cada um deve ser o que entenda que faz sentido para si. Existe alguma dúvida sobre isto? E o que faz sentido para cada um de nós evolui ao longo da vida, à medida da nossa própria evolução como seres humanos. Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser. Quando caímos na tentação de ser tudo ao mesmo tempo, já não estaremos, parece-me, a ser o que queremos, mas o que entendemos que esperam que sejamos. E, nesse caso, a nossa agenda sobrecarregada não tem (não pode ter) qualquer sentido. A maturidade também deve, a meu ver, trazer-nos essa clarificação e clareza.

Paula Perfeito fundou, em 2014, a plataforma digital Entre | Vistas, que conta mais de 100 líderes entrevistados, tendo dado origem ao livro As Perguntas que Somos
Que tipo de líder sentes que te tornaste?
P.P. — Não me compete qualificar o meu próprio estilo de liderança. Compete-me, sim, saber enquadrar a liderança no tempo atual, que é caótico. Dizem os especialistas, na linha do antropólogo e futurista norte-americano Jamais Cascio, que assistimos a uma evolução do tempo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) para o tempo BANI (Breakable, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible), em que a experiência que trazemos do passado não chega para interpretar tudo. Ora, este tempo em que atualmente vivemos exige às lideranças que se redefinam e adaptem. E sendo tão importante entregarmos os resultados do curto prazo ao mesmo tempo que mobilizamos as equipas para preparar a organização do amanhã num mundo, precisamente, em mudança e com crises permanentes, a liderança remete-nos – por contraponto com a abordagem transacional, a eficiência e o controlo da gestão – para uma abordagem transformacional, de motivação, mobilização e influência. Dito isto, e em linha com a apologia que temos vindo a consolidar na PWN Lisbon, gosto de pensar na liderança como uma ambição individual ancorada numa visão de impacto social duradouro. Isto, por sua vez, implica 1) saber influenciar os outros a partir de uma ideia de bem maior (carisma); 2) motivar de forma inspiradora (aspiração); 3) estimular intelectualmente (criatividade); 4) e considerar o outro na sua singularidade (reconhecimento). Ora, a visão de liderança como serviço oferece-nos o mapa, precisamente, para cumprir este conjunto de responsabilidades fundamentais. A verdadeira medida de um líder não é a altura do que alcança sozinho, mas a distância ao longo da qual consegue levar os outros consigo, criando um impacto que ecoa além da própria jornada. Talvez tenhamos chegado a líderes quando tivermos superado a fase de querermos ser os melhores da equipa, para passarmos a querer ser aqueles que contribuem para que a equipa seja a melhor a gerar impacto. Em rede, passando de líderes de equipas para os orientadores de equipas de líderes. Esta mudança angular muda tudo!
Existe uma dimensão emocional na liderança que durante muito tempo foi desvalorizada. Como é que isso se manifesta na tua prática diária?
P.P. — A dimensão emocional é absolutamente fundamental quando a liderança consiste na relação com pessoas, sobre cujo desenvolvimento temos, mais uma vez do meu ponto de vista, uma responsabilidade inequívoca. Agora, talvez seja o momento de introduzir a palavra empatia, que não é incompatível com a assertividade que a liderança também exige. Parece-me que o equilíbrio da liderança está, precisamente, nessa combinação harmoniosa entre uma coisa e outra.
"Protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar"
Ao longo do teu percurso, houve decisões que exigiram sair de zonas de conforto muito definidas. Como lidas com o risco e com a incerteza que o acompanha?
P.P. — Tive de sair, efetivamente, de áreas de segurança. Confesso-te: esse foi, por incrível que pareça, o critério para ter arriscado decisões difíceis. Mais uma vez, a maturidade não só nos “descontrai” em certos ambientes de exposição ao risco e ao desconhecido, como nos permite perceber que, quando nos atrevemos a sair para “fora de pé”, tendemos a acelerar significativamente o nosso desenvolvimento, a romper com a visão de túnel e a contrariar limites. E este rasgo é, absolutamente, extraordinário.
Trabalhar em várias frentes pode ser estimulante, mas também exigente. Onde e como encontras equilíbrio?
P.P. — Dividiria em quatro grandes planos e, com esta divisão, mostro como levo o descanso tão a sério. Em primeiro lugar, dedico tempo útil exclusivamente a planear, desenhar e organizar a agenda, o que me facilita muitíssimo toda a organização e gestão do tempo. Em segundo lugar, protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar. Depois, planeio conscientemente o meu equilíbrio, criando dinâmicas de descanso ativo, como a leitura (sou uma leitora compulsiva!), e descanso passivo, como ver conteúdos a gosto. E, por último, tenho na família, nos amigos e na relação com as raízes uma fonte inesgotável e infalível de regeneração de energia.
Há uma narrativa crescente de que devemos fazer apenas o que nos apaixona. A tua experiência confirma essa ideia?
P.P. — Eu sou apaixonada pelo que faço e escolhi, desde cedo, fazer o que gosto. Mas isso não dispensa nem trabalho, nem sacrifícios. É naturalmente muito mais fácil fazermos o que gostamos e aquilo para que entendemos estar vocacionados. Mas o talento, como nos diz a escritora brasileira Clarice Lispector, remete-nos para a intencionalidade que colocamos na vocação. E isso é trabalho, é o como atingir a meta. Como disse Séneca, «há sorte quando a preparação encontra a oportunidade». E para haver preparação, haja gosto e haja muito, muito trabalho… As duas coisas não se desligam. Acrescentaria, ainda, a autenticidade, lembrando um, entre os vários versos sábios, de Paulo Leminski, também brasileiro: «Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além».

Paula Perfeito iniciou a sua atividade profissional como jornalista na TVI
Que aprendizagens é que os diferentes contextos trouxeram para a forma como olhas para o trabalho, hoje?
P.P. — Excelente pergunta! Aqui chegados, clarificamos a complementaridade assegurada pelos diferentes ambientes. Destaco, do espectro corporativo, a estrutura, a escala e a responsabilidade: a clareza de uma missão estratégica, de objetivos e métricas; os processos e metodologias de trabalho que permitem coordenar pessoas e projetos em quantidade e qualidade; e o cumprimento de prazos inerente ao compromisso inevitável com a entrega de resultados. Agregaria todos estes aspetos à luz da necessidade de, em simultâneo, estruturar/organizar e (re)adaptar, dada a velocidade de mudança de todos os setores e áreas de atividade. Do ambiente criativo, que me remete, por exemplo, para o meu site Entre | Vistas, sublinharia a autonomia, a experimentação e o significado: a liberdade para errar, com contexto; a valorização da originalidade e do pensamento crítico; e o trabalho como expressão e relevância, não apenas como execução. Do fórum pessoal e familiar, retiro o equilíbrio, a identidade e o propósito: a centralidade das nossas relações mais nucleares; a saúde mental e física como chave para um bem-estar necessário, fundamental. Combinando tudo, em síntese, reforçaria que o momento híbrido em que nos encontramos enquadra o trabalho no universo líquido a que se refere o sociólogo polaco Zygmunt Bauman. Os CVs do futuro devem preparar para saber, em equilíbrio, viver no caos, para solucionar problemas constantemente, para usar uma cabeça giratória sempre disponível para aprender, para arriscar hipóteses, como os cientistas. Vivemos uma passagem do plano à navegação à vista, do conhecimento estanque à aprendizagem em longevidade. Posto isto, encaro a carreira construída neste contexto como, mais uma vez, não linear e mais adaptativa, com uma cultura de aprendizagem contínua e a ênfase colocada no sentido e no impacto. Numa última ideia: dos três ambientes, retiro a capacidade articulada de organizar, reinventar e questionar o sentido.
"Penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi"
O que é que mudou mais em ti, ao longo deste percurso: a forma como trabalhas ou a forma como te defines?
P.P. — Poria, assim colocada a questão, a tónica na qualidade das relações com as pessoas. No final do dia, o nosso maior balanço passa, do meu ponto de vista, não pelas funções que tivemos, por mais relevantes que sejam, não pelos projetos que liderámos, mas pelas relações que temos a capacidade de construir com as outras pessoas e de como podemos fazer a diferença na sua vida e elas na nossa. Quando olho para trás, penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi e a pessoa em que me tornei. Será tão bom poder criar este impacto nos outros…
E quando olhas para o futuro, sentes necessidade de continuar a expandir essas várias dimensões ou de as consolidar numa ideia mais clara de ti própria?
P.P. — A minha ideia mais clara de mim inclui, como te disse, todas as dimensões de que falámos, ou seja, uma certa polifonia (do grego, “muitas vozes") que, juntas, formam uma mesma música. E imagino, quando olho para o futuro, poder ser ainda mais experimentadora de curiosidades, fazer melhores perguntas e continuar eternamente a aprender e a espantar-me, para usar um dos verbos lúcidos de José Tolentino Mendonça. No espanto, acredito, estará grande parte do motivo [sorriso rasgado].
(C) Vitorino Coragem e D.R.

#Protagonistas
PAULA PERFEITO: "Um líder mede-se pela distância a que leva os outros"
O trabalho deixou de caber numa definição linear e as carreiras passaram a construir-se entre múltiplas dimensões. Em simultâneo, a ideia de identidade tornou-se mais complexa do que nunca. Para Paula Perfeito, essa complexidade não é um problema a resolver, mas uma realidade a integrar. A atual Diretora de Media, Parcerias e Comunicação do SAPO e Presidente da PWN Lisbon, conta mais de duas décadas de experiência no setor das comunicações. Tem um percurso marcado pela interseção entre liderança, media e impacto social, defendendo que o futuro do trabalho passa por modelos orientados por sentido, aprendizagem contínua e capacidade de adaptação. Nesta grande entrevista ao MOTIVO, reflete sobre liderança em tempos “caóticos”, questiona o valor da “marca pessoal” e explica porque acredita que o verdadeiro impacto se constrói ao longo de uma vida, e nas relações que construímos pelo caminho.
O teu percurso cruza diferentes áreas e papéis. Houve algum momento em que deixaste de pensar em “carreira” de forma linear e passaste a construir um percurso mais híbrido?
PAULA PERFEITO — Hoje, tenho a convicção de que nunca pensei nessa espécie de conceito de “carreira linear”, dado sermos, como seres humanos, retroalimentados por tantas vertentes, e em tantas dimensões, que nos permitem e incitam a uma evolução contínua, mas não forçosamente linear, ao longo da vida. A própria vida é, aliás, muito maior do que uma carreira, beneficiando a carreira, estou também disso convicta, da diversidade de prismas que conseguirmos relacionar em vários campos. Dito isto, já que ter uma vida e, já agora, um trabalho, com sentido – na linha do investigador da NOVA SBE, Milton de Sousa, – é uma necessidade humana fundamental, devem caber do meu ponto de vista no “chapéu” de uma carreira a evolução profissional ancorada em competência e aprendizagens, bem como a dinamização de projetos individuais e coletivos que façam sentido e possam ter impacto social. Isto, para mim, é o pleno. E é neste modelo, de resto, em que acredito estar a chave do futuro do trabalho: para ser pleno de sentido, deve permitir a realização das pessoas nas suas diferentes componentes naturais.
"Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser"
Quando se acumulam várias dimensões, como se evita a fragmentação da identidade? Há um fio condutor claro ou ele constrói-se ao longo do tempo?
P.P. — Conheces alguém que seja apenas um profissional? Ou apenas membro de uma família? Ou que apenas tenha uma vertente individual? Ou que apenas seja um ser social? Somos todos feitos dessa riqueza multidisciplinar que são os nossos múltiplos ambientes individual, familiar, profissional, social... A identidade faz-se, precisamente, dessa multiplicidade de vertentes e, não só não se fragmenta quando nos realizamos de forma combinada nas várias vertentes, como se exponencia, uma vez cosida pelos valores fundacionais, as qualificações e a formação, as experiências e os papéis que vamos ganhando e acumulando e através dos quais vamos criando, lá está, impacto.
Hoje, fala-se muito da ideia de “marca pessoal”. No teu caso, essa construção foi intencional ou foi uma consequência natural do caminho que foste fazendo?
P.P. — Confesso-te que não aprecio particularmente as bengalas da moda, como me parece ser a “marca pessoal”, talvez até um pouco transacional e volátil. Acredito, sim, no impacto que, através do que somos e fazemos em ato contínuo, conseguimos gerar. Ora, isso constrói-se ao longo de uma vida inteira. Lembro-me de, desde pequenina, mobilizada por uma professora primária fora de série, ficar até tarde na escola sistematicamente por querer participar em N atividades extracurriculares; de, na faculdade, estar sempre envolvida em N iniciativas académicas além das aulas; de, no estágio, ter proativamente proposto um trabalho específico e de, a partir daí, não ter parado; de, no campo profissional, estar permanentemente ligada a ações à margem das funções “formais”; e de, a propósito de um compromisso com a criação de impacto em sociedade, ser desafiada para tantos projetos que me têm transformado como pessoa. Perguntar-me-ás se isto é “marca pessoal”… A única diferença é que, com a maturidade e a experiência, passamos a colocar intencionalidade naquilo que talvez sempre tenhamos feito de forma natural. E se isso puder deixar uma herança, no sentido de legado, nos outros… excelente! O que me parece ser uma coisa (bem) diferente da “marca pessoal”.
E, num contexto em que somos chamados a desempenhar múltiplos papéis, como se mantém a coerência, interna e externa, sem cair na pressão de ter de ser tudo ao mesmo tempo?
P.P. — Cada um deve ser o que entenda que faz sentido para si. Existe alguma dúvida sobre isto? E o que faz sentido para cada um de nós evolui ao longo da vida, à medida da nossa própria evolução como seres humanos. Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser. Quando caímos na tentação de ser tudo ao mesmo tempo, já não estaremos, parece-me, a ser o que queremos, mas o que entendemos que esperam que sejamos. E, nesse caso, a nossa agenda sobrecarregada não tem (não pode ter) qualquer sentido. A maturidade também deve, a meu ver, trazer-nos essa clarificação e clareza.

Paula Perfeito fundou, em 2014, a plataforma digital Entre | Vistas, que conta mais de 100 líderes entrevistados, tendo dado origem ao livro As Perguntas que Somos
Que tipo de líder sentes que te tornaste?
P.P. — Não me compete qualificar o meu próprio estilo de liderança. Compete-me, sim, saber enquadrar a liderança no tempo atual, que é caótico. Dizem os especialistas, na linha do antropólogo e futurista norte-americano Jamais Cascio, que assistimos a uma evolução do tempo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) para o tempo BANI (Breakable, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible), em que a experiência que trazemos do passado não chega para interpretar tudo. Ora, este tempo em que atualmente vivemos exige às lideranças que se redefinam e adaptem. E sendo tão importante entregarmos os resultados do curto prazo ao mesmo tempo que mobilizamos as equipas para preparar a organização do amanhã num mundo, precisamente, em mudança e com crises permanentes, a liderança remete-nos – por contraponto com a abordagem transacional, a eficiência e o controlo da gestão – para uma abordagem transformacional, de motivação, mobilização e influência. Dito isto, e em linha com a apologia que temos vindo a consolidar na PWN Lisbon, gosto de pensar na liderança como uma ambição individual ancorada numa visão de impacto social duradouro. Isto, por sua vez, implica 1) saber influenciar os outros a partir de uma ideia de bem maior (carisma); 2) motivar de forma inspiradora (aspiração); 3) estimular intelectualmente (criatividade); 4) e considerar o outro na sua singularidade (reconhecimento). Ora, a visão de liderança como serviço oferece-nos o mapa, precisamente, para cumprir este conjunto de responsabilidades fundamentais. A verdadeira medida de um líder não é a altura do que alcança sozinho, mas a distância ao longo da qual consegue levar os outros consigo, criando um impacto que ecoa além da própria jornada. Talvez tenhamos chegado a líderes quando tivermos superado a fase de querermos ser os melhores da equipa, para passarmos a querer ser aqueles que contribuem para que a equipa seja a melhor a gerar impacto. Em rede, passando de líderes de equipas para os orientadores de equipas de líderes. Esta mudança angular muda tudo!
Existe uma dimensão emocional na liderança que durante muito tempo foi desvalorizada. Como é que isso se manifesta na tua prática diária?
P.P. — A dimensão emocional é absolutamente fundamental quando a liderança consiste na relação com pessoas, sobre cujo desenvolvimento temos, mais uma vez do meu ponto de vista, uma responsabilidade inequívoca. Agora, talvez seja o momento de introduzir a palavra empatia, que não é incompatível com a assertividade que a liderança também exige. Parece-me que o equilíbrio da liderança está, precisamente, nessa combinação harmoniosa entre uma coisa e outra.
"Protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar"
Ao longo do teu percurso, houve decisões que exigiram sair de zonas de conforto muito definidas. Como lidas com o risco e com a incerteza que o acompanha?
P.P. — Tive de sair, efetivamente, de áreas de segurança. Confesso-te: esse foi, por incrível que pareça, o critério para ter arriscado decisões difíceis. Mais uma vez, a maturidade não só nos “descontrai” em certos ambientes de exposição ao risco e ao desconhecido, como nos permite perceber que, quando nos atrevemos a sair para “fora de pé”, tendemos a acelerar significativamente o nosso desenvolvimento, a romper com a visão de túnel e a contrariar limites. E este rasgo é, absolutamente, extraordinário.
Trabalhar em várias frentes pode ser estimulante, mas também exigente. Onde e como encontras equilíbrio?
P.P. — Dividiria em quatro grandes planos e, com esta divisão, mostro como levo o descanso tão a sério. Em primeiro lugar, dedico tempo útil exclusivamente a planear, desenhar e organizar a agenda, o que me facilita muitíssimo toda a organização e gestão do tempo. Em segundo lugar, protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar. Depois, planeio conscientemente o meu equilíbrio, criando dinâmicas de descanso ativo, como a leitura (sou uma leitora compulsiva!), e descanso passivo, como ver conteúdos a gosto. E, por último, tenho na família, nos amigos e na relação com as raízes uma fonte inesgotável e infalível de regeneração de energia.
Há uma narrativa crescente de que devemos fazer apenas o que nos apaixona. A tua experiência confirma essa ideia?
P.P. — Eu sou apaixonada pelo que faço e escolhi, desde cedo, fazer o que gosto. Mas isso não dispensa nem trabalho, nem sacrifícios. É naturalmente muito mais fácil fazermos o que gostamos e aquilo para que entendemos estar vocacionados. Mas o talento, como nos diz a escritora brasileira Clarice Lispector, remete-nos para a intencionalidade que colocamos na vocação. E isso é trabalho, é o como atingir a meta. Como disse Séneca, «há sorte quando a preparação encontra a oportunidade». E para haver preparação, haja gosto e haja muito, muito trabalho… As duas coisas não se desligam. Acrescentaria, ainda, a autenticidade, lembrando um, entre os vários versos sábios, de Paulo Leminski, também brasileiro: «Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além».

Paula Perfeito iniciou a sua atividade profissional como jornalista na TVI
Que aprendizagens é que os diferentes contextos trouxeram para a forma como olhas para o trabalho, hoje?
P.P. — Excelente pergunta! Aqui chegados, clarificamos a complementaridade assegurada pelos diferentes ambientes. Destaco, do espectro corporativo, a estrutura, a escala e a responsabilidade: a clareza de uma missão estratégica, de objetivos e métricas; os processos e metodologias de trabalho que permitem coordenar pessoas e projetos em quantidade e qualidade; e o cumprimento de prazos inerente ao compromisso inevitável com a entrega de resultados. Agregaria todos estes aspetos à luz da necessidade de, em simultâneo, estruturar/organizar e (re)adaptar, dada a velocidade de mudança de todos os setores e áreas de atividade. Do ambiente criativo, que me remete, por exemplo, para o meu site Entre | Vistas, sublinharia a autonomia, a experimentação e o significado: a liberdade para errar, com contexto; a valorização da originalidade e do pensamento crítico; e o trabalho como expressão e relevância, não apenas como execução. Do fórum pessoal e familiar, retiro o equilíbrio, a identidade e o propósito: a centralidade das nossas relações mais nucleares; a saúde mental e física como chave para um bem-estar necessário, fundamental. Combinando tudo, em síntese, reforçaria que o momento híbrido em que nos encontramos enquadra o trabalho no universo líquido a que se refere o sociólogo polaco Zygmunt Bauman. Os CVs do futuro devem preparar para saber, em equilíbrio, viver no caos, para solucionar problemas constantemente, para usar uma cabeça giratória sempre disponível para aprender, para arriscar hipóteses, como os cientistas. Vivemos uma passagem do plano à navegação à vista, do conhecimento estanque à aprendizagem em longevidade. Posto isto, encaro a carreira construída neste contexto como, mais uma vez, não linear e mais adaptativa, com uma cultura de aprendizagem contínua e a ênfase colocada no sentido e no impacto. Numa última ideia: dos três ambientes, retiro a capacidade articulada de organizar, reinventar e questionar o sentido.
"Penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi"
O que é que mudou mais em ti, ao longo deste percurso: a forma como trabalhas ou a forma como te defines?
P.P. — Poria, assim colocada a questão, a tónica na qualidade das relações com as pessoas. No final do dia, o nosso maior balanço passa, do meu ponto de vista, não pelas funções que tivemos, por mais relevantes que sejam, não pelos projetos que liderámos, mas pelas relações que temos a capacidade de construir com as outras pessoas e de como podemos fazer a diferença na sua vida e elas na nossa. Quando olho para trás, penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi e a pessoa em que me tornei. Será tão bom poder criar este impacto nos outros…
E quando olhas para o futuro, sentes necessidade de continuar a expandir essas várias dimensões ou de as consolidar numa ideia mais clara de ti própria?
P.P. — A minha ideia mais clara de mim inclui, como te disse, todas as dimensões de que falámos, ou seja, uma certa polifonia (do grego, “muitas vozes") que, juntas, formam uma mesma música. E imagino, quando olho para o futuro, poder ser ainda mais experimentadora de curiosidades, fazer melhores perguntas e continuar eternamente a aprender e a espantar-me, para usar um dos verbos lúcidos de José Tolentino Mendonça. No espanto, acredito, estará grande parte do motivo [sorriso rasgado].
(C) Vitorino Coragem e D.R.

#Protagonistas
PAULA PERFEITO: "Um líder mede-se pela distância a que leva os outros"
O trabalho deixou de caber numa definição linear e as carreiras passaram a construir-se entre múltiplas dimensões. Em simultâneo, a ideia de identidade tornou-se mais complexa do que nunca. Para Paula Perfeito, essa complexidade não é um problema a resolver, mas uma realidade a integrar. A atual Diretora de Media, Parcerias e Comunicação do SAPO e Presidente da PWN Lisbon, conta mais de duas décadas de experiência no setor das comunicações. Tem um percurso marcado pela interseção entre liderança, media e impacto social, defendendo que o futuro do trabalho passa por modelos orientados por sentido, aprendizagem contínua e capacidade de adaptação. Nesta grande entrevista ao MOTIVO, reflete sobre liderança em tempos “caóticos”, questiona o valor da “marca pessoal” e explica porque acredita que o verdadeiro impacto se constrói ao longo de uma vida, e nas relações que construímos pelo caminho.
O teu percurso cruza diferentes áreas e papéis. Houve algum momento em que deixaste de pensar em “carreira” de forma linear e passaste a construir um percurso mais híbrido?
PAULA PERFEITO — Hoje, tenho a convicção de que nunca pensei nessa espécie de conceito de “carreira linear”, dado sermos, como seres humanos, retroalimentados por tantas vertentes, e em tantas dimensões, que nos permitem e incitam a uma evolução contínua, mas não forçosamente linear, ao longo da vida. A própria vida é, aliás, muito maior do que uma carreira, beneficiando a carreira, estou também disso convicta, da diversidade de prismas que conseguirmos relacionar em vários campos. Dito isto, já que ter uma vida e, já agora, um trabalho, com sentido – na linha do investigador da NOVA SBE, Milton de Sousa, – é uma necessidade humana fundamental, devem caber do meu ponto de vista no “chapéu” de uma carreira a evolução profissional ancorada em competência e aprendizagens, bem como a dinamização de projetos individuais e coletivos que façam sentido e possam ter impacto social. Isto, para mim, é o pleno. E é neste modelo, de resto, em que acredito estar a chave do futuro do trabalho: para ser pleno de sentido, deve permitir a realização das pessoas nas suas diferentes componentes naturais.
"Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser"
Quando se acumulam várias dimensões, como se evita a fragmentação da identidade? Há um fio condutor claro ou ele constrói-se ao longo do tempo?
P.P. — Conheces alguém que seja apenas um profissional? Ou apenas membro de uma família? Ou que apenas tenha uma vertente individual? Ou que apenas seja um ser social? Somos todos feitos dessa riqueza multidisciplinar que são os nossos múltiplos ambientes individual, familiar, profissional, social... A identidade faz-se, precisamente, dessa multiplicidade de vertentes e, não só não se fragmenta quando nos realizamos de forma combinada nas várias vertentes, como se exponencia, uma vez cosida pelos valores fundacionais, as qualificações e a formação, as experiências e os papéis que vamos ganhando e acumulando e através dos quais vamos criando, lá está, impacto.
Hoje, fala-se muito da ideia de “marca pessoal”. No teu caso, essa construção foi intencional ou foi uma consequência natural do caminho que foste fazendo?
P.P. — Confesso-te que não aprecio particularmente as bengalas da moda, como me parece ser a “marca pessoal”, talvez até um pouco transacional e volátil. Acredito, sim, no impacto que, através do que somos e fazemos em ato contínuo, conseguimos gerar. Ora, isso constrói-se ao longo de uma vida inteira. Lembro-me de, desde pequenina, mobilizada por uma professora primária fora de série, ficar até tarde na escola sistematicamente por querer participar em N atividades extracurriculares; de, na faculdade, estar sempre envolvida em N iniciativas académicas além das aulas; de, no estágio, ter proativamente proposto um trabalho específico e de, a partir daí, não ter parado; de, no campo profissional, estar permanentemente ligada a ações à margem das funções “formais”; e de, a propósito de um compromisso com a criação de impacto em sociedade, ser desafiada para tantos projetos que me têm transformado como pessoa. Perguntar-me-ás se isto é “marca pessoal”… A única diferença é que, com a maturidade e a experiência, passamos a colocar intencionalidade naquilo que talvez sempre tenhamos feito de forma natural. E se isso puder deixar uma herança, no sentido de legado, nos outros… excelente! O que me parece ser uma coisa (bem) diferente da “marca pessoal”.
E, num contexto em que somos chamados a desempenhar múltiplos papéis, como se mantém a coerência, interna e externa, sem cair na pressão de ter de ser tudo ao mesmo tempo?
P.P. — Cada um deve ser o que entenda que faz sentido para si. Existe alguma dúvida sobre isto? E o que faz sentido para cada um de nós evolui ao longo da vida, à medida da nossa própria evolução como seres humanos. Devemos ser nós a indicar-nos a medida do que queremos ser. Quando caímos na tentação de ser tudo ao mesmo tempo, já não estaremos, parece-me, a ser o que queremos, mas o que entendemos que esperam que sejamos. E, nesse caso, a nossa agenda sobrecarregada não tem (não pode ter) qualquer sentido. A maturidade também deve, a meu ver, trazer-nos essa clarificação e clareza.

Paula Perfeito fundou, em 2014, a plataforma digital Entre | Vistas, que conta mais de 100 líderes entrevistados, tendo dado origem ao livro As Perguntas que Somos
Que tipo de líder sentes que te tornaste?
P.P. — Não me compete qualificar o meu próprio estilo de liderança. Compete-me, sim, saber enquadrar a liderança no tempo atual, que é caótico. Dizem os especialistas, na linha do antropólogo e futurista norte-americano Jamais Cascio, que assistimos a uma evolução do tempo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) para o tempo BANI (Breakable, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible), em que a experiência que trazemos do passado não chega para interpretar tudo. Ora, este tempo em que atualmente vivemos exige às lideranças que se redefinam e adaptem. E sendo tão importante entregarmos os resultados do curto prazo ao mesmo tempo que mobilizamos as equipas para preparar a organização do amanhã num mundo, precisamente, em mudança e com crises permanentes, a liderança remete-nos – por contraponto com a abordagem transacional, a eficiência e o controlo da gestão – para uma abordagem transformacional, de motivação, mobilização e influência. Dito isto, e em linha com a apologia que temos vindo a consolidar na PWN Lisbon, gosto de pensar na liderança como uma ambição individual ancorada numa visão de impacto social duradouro. Isto, por sua vez, implica 1) saber influenciar os outros a partir de uma ideia de bem maior (carisma); 2) motivar de forma inspiradora (aspiração); 3) estimular intelectualmente (criatividade); 4) e considerar o outro na sua singularidade (reconhecimento). Ora, a visão de liderança como serviço oferece-nos o mapa, precisamente, para cumprir este conjunto de responsabilidades fundamentais. A verdadeira medida de um líder não é a altura do que alcança sozinho, mas a distância ao longo da qual consegue levar os outros consigo, criando um impacto que ecoa além da própria jornada. Talvez tenhamos chegado a líderes quando tivermos superado a fase de querermos ser os melhores da equipa, para passarmos a querer ser aqueles que contribuem para que a equipa seja a melhor a gerar impacto. Em rede, passando de líderes de equipas para os orientadores de equipas de líderes. Esta mudança angular muda tudo!
Existe uma dimensão emocional na liderança que durante muito tempo foi desvalorizada. Como é que isso se manifesta na tua prática diária?
P.P. — A dimensão emocional é absolutamente fundamental quando a liderança consiste na relação com pessoas, sobre cujo desenvolvimento temos, mais uma vez do meu ponto de vista, uma responsabilidade inequívoca. Agora, talvez seja o momento de introduzir a palavra empatia, que não é incompatível com a assertividade que a liderança também exige. Parece-me que o equilíbrio da liderança está, precisamente, nessa combinação harmoniosa entre uma coisa e outra.
"Protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar"
Ao longo do teu percurso, houve decisões que exigiram sair de zonas de conforto muito definidas. Como lidas com o risco e com a incerteza que o acompanha?
P.P. — Tive de sair, efetivamente, de áreas de segurança. Confesso-te: esse foi, por incrível que pareça, o critério para ter arriscado decisões difíceis. Mais uma vez, a maturidade não só nos “descontrai” em certos ambientes de exposição ao risco e ao desconhecido, como nos permite perceber que, quando nos atrevemos a sair para “fora de pé”, tendemos a acelerar significativamente o nosso desenvolvimento, a romper com a visão de túnel e a contrariar limites. E este rasgo é, absolutamente, extraordinário.
Trabalhar em várias frentes pode ser estimulante, mas também exigente. Onde e como encontras equilíbrio?
P.P. — Dividiria em quatro grandes planos e, com esta divisão, mostro como levo o descanso tão a sério. Em primeiro lugar, dedico tempo útil exclusivamente a planear, desenhar e organizar a agenda, o que me facilita muitíssimo toda a organização e gestão do tempo. Em segundo lugar, protejo o sono como uma prioridade (quase) escolar. Depois, planeio conscientemente o meu equilíbrio, criando dinâmicas de descanso ativo, como a leitura (sou uma leitora compulsiva!), e descanso passivo, como ver conteúdos a gosto. E, por último, tenho na família, nos amigos e na relação com as raízes uma fonte inesgotável e infalível de regeneração de energia.
Há uma narrativa crescente de que devemos fazer apenas o que nos apaixona. A tua experiência confirma essa ideia?
P.P. — Eu sou apaixonada pelo que faço e escolhi, desde cedo, fazer o que gosto. Mas isso não dispensa nem trabalho, nem sacrifícios. É naturalmente muito mais fácil fazermos o que gostamos e aquilo para que entendemos estar vocacionados. Mas o talento, como nos diz a escritora brasileira Clarice Lispector, remete-nos para a intencionalidade que colocamos na vocação. E isso é trabalho, é o como atingir a meta. Como disse Séneca, «há sorte quando a preparação encontra a oportunidade». E para haver preparação, haja gosto e haja muito, muito trabalho… As duas coisas não se desligam. Acrescentaria, ainda, a autenticidade, lembrando um, entre os vários versos sábios, de Paulo Leminski, também brasileiro: «Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além».

Paula Perfeito iniciou a sua atividade profissional como jornalista na TVI
Que aprendizagens é que os diferentes contextos trouxeram para a forma como olhas para o trabalho, hoje?
P.P. — Excelente pergunta! Aqui chegados, clarificamos a complementaridade assegurada pelos diferentes ambientes. Destaco, do espectro corporativo, a estrutura, a escala e a responsabilidade: a clareza de uma missão estratégica, de objetivos e métricas; os processos e metodologias de trabalho que permitem coordenar pessoas e projetos em quantidade e qualidade; e o cumprimento de prazos inerente ao compromisso inevitável com a entrega de resultados. Agregaria todos estes aspetos à luz da necessidade de, em simultâneo, estruturar/organizar e (re)adaptar, dada a velocidade de mudança de todos os setores e áreas de atividade. Do ambiente criativo, que me remete, por exemplo, para o meu site Entre | Vistas, sublinharia a autonomia, a experimentação e o significado: a liberdade para errar, com contexto; a valorização da originalidade e do pensamento crítico; e o trabalho como expressão e relevância, não apenas como execução. Do fórum pessoal e familiar, retiro o equilíbrio, a identidade e o propósito: a centralidade das nossas relações mais nucleares; a saúde mental e física como chave para um bem-estar necessário, fundamental. Combinando tudo, em síntese, reforçaria que o momento híbrido em que nos encontramos enquadra o trabalho no universo líquido a que se refere o sociólogo polaco Zygmunt Bauman. Os CVs do futuro devem preparar para saber, em equilíbrio, viver no caos, para solucionar problemas constantemente, para usar uma cabeça giratória sempre disponível para aprender, para arriscar hipóteses, como os cientistas. Vivemos uma passagem do plano à navegação à vista, do conhecimento estanque à aprendizagem em longevidade. Posto isto, encaro a carreira construída neste contexto como, mais uma vez, não linear e mais adaptativa, com uma cultura de aprendizagem contínua e a ênfase colocada no sentido e no impacto. Numa última ideia: dos três ambientes, retiro a capacidade articulada de organizar, reinventar e questionar o sentido.
"Penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi"
O que é que mudou mais em ti, ao longo deste percurso: a forma como trabalhas ou a forma como te defines?
P.P. — Poria, assim colocada a questão, a tónica na qualidade das relações com as pessoas. No final do dia, o nosso maior balanço passa, do meu ponto de vista, não pelas funções que tivemos, por mais relevantes que sejam, não pelos projetos que liderámos, mas pelas relações que temos a capacidade de construir com as outras pessoas e de como podemos fazer a diferença na sua vida e elas na nossa. Quando olho para trás, penso na quantidade de pessoas que contribuíram para as coisas que aprendi e a pessoa em que me tornei. Será tão bom poder criar este impacto nos outros…
E quando olhas para o futuro, sentes necessidade de continuar a expandir essas várias dimensões ou de as consolidar numa ideia mais clara de ti própria?
P.P. — A minha ideia mais clara de mim inclui, como te disse, todas as dimensões de que falámos, ou seja, uma certa polifonia (do grego, “muitas vozes") que, juntas, formam uma mesma música. E imagino, quando olho para o futuro, poder ser ainda mais experimentadora de curiosidades, fazer melhores perguntas e continuar eternamente a aprender e a espantar-me, para usar um dos verbos lúcidos de José Tolentino Mendonça. No espanto, acredito, estará grande parte do motivo [sorriso rasgado].




