Há um cansaço que não se resolve com férias

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Psicóloga Clínica

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30 de jun. de 2026, 09:33

#Protagonistas
Opinião

Todos os anos repetimos o mesmo ritual. Contamos os dias para as férias, idealizamos o descanso, prometemos a nós próprios que, desta vez, vamos mesmo desligar. Imaginamos manhãs lentas, menos notificações, mais tempo. E, ainda assim, não é raro regressarmos com uma sensação estranha: descansámos, mas continuamos cansados.

Existem formas de cansaço que não vêm – apenas – do excesso de trabalho.

Durante muito tempo, associámos o esgotamento às horas acumuladas, às agendas sobrelotadas, às reuniões intermináveis ou às tarefas que parecem não ter fim. E tudo isto pode gerar muito cansaço, porém, o desgaste psicológico raramente se mede apenas em horas. Há um cansaço mais silencioso, mais difícil de identificar, que se instala quando a vida profissional deixa de ocupar apenas uma parte do dia e passa a ocupar um espaço mental permanente.

É o cansaço de estar sempre disponível. De responder rapidamente. De acompanhar tudo. De não deixar mensagens por ler. De estar presente nas reuniões, nos grupos de trabalho, nas plataformas digitais, nas redes sociais profissionais e, ao mesmo tempo, manter a energia necessária para ser um bom colega, um bom líder, um bom pai, uma boa mãe, um bom amigo e uma pessoa emocionalmente equilibrada.

Vivemos numa época que transformou a disponibilidade numa virtude. A rapidez numa competência. A produtividade numa medida de valor pessoal.

A pergunta que se impõe já não é apenas "o que fizeste hoje?", mas quase "quanto produziste?", "quanto avançaste?", "quantas oportunidades aproveitaste?". Como se existir não fosse suficiente. Como se fosse necessário justificar permanentemente o nosso lugar através do desempenho.

A cultura atual assente na performance tem uma característica particularmente exigente, que não pede apenas resultados, pede entusiasmo constante. Não exige apenas competência, exige paixão. Não espera apenas que trabalhemos, espera que gostemos de trabalhar, que nos realizemos através disso e que o façamos com um sorriso.

E é, precisamente, aqui que muitas pessoas começam a esgotar-se. Porque o esforço constante de corresponder a múltiplas expectativas consome recursos. Não apenas físicos, mas psicológicos e emocionais. Exige autorregulação contínua, adaptação permanente e uma vigilância quase constante sobre aquilo que fazemos e sobre a forma como somos vistos pelos outros.

Há quem passe o dia inteiro a trabalhar e chegue ao final da tarde cansado. No entanto, há também quem passe o dia inteiro a gerir preocupações, antecipar problemas, tentar não falhar, controlar a ansiedade, responder às necessidades dos outros e manter uma imagem de competência. E esse cansaço, apesar de invisível, pode ser igualmente extenuante.

A ansiedade tem aqui um papel importante.

Muitas vezes não surge como um estado de alerta evidente ou como uma crise facilmente identificável. Surge sob a forma de pensamentos persistentes, de uma dificuldade em desligar, de uma sensação permanente de que há sempre mais alguma coisa para fazer. Mesmo quando não estamos a trabalhar, continuamos mentalmente ligados ao trabalho. O corpo está de férias, mas a mente continua “ao serviço”.

Este pode ser, precisamente, um dos motivos pelo qual tantas pessoas sentem culpa quando descansam.

Parar tornou-se desconfortável. O silêncio parece improdutivo. O vazio da agenda gera inquietação. Descansar deixou de ser uma necessidade humana para passar a ser, por vezes, algo que sentimos ter de merecer.

Como psicóloga, encontro frequentemente pessoas que chegam ao consultório convencidas de que precisam de mais energia. Porém, aquilo que muitas realmente precisam é de menos exigência. Menos pressão para estar sempre disponíveis. Menos obrigação de corresponder a todas as expectativas. Menos dificuldade em reconhecer os próprios limites.

Importa lembrar que os limites não são sinais de fraqueza, são mecanismos de proteção.

O maior desafio é que aprendemos a respeitar os sinais do corpo muito depois de ele começar a gritar. Ignoramos o cansaço, relativizamos a irritabilidade, normalizamos a insónia, minimizamos a ansiedade e continuamos. Até ao momento em que já não conseguimos continuar.

Existe uma tendência cultural para valorizar quem aguenta tudo, quem faz mais, quem nunca pára. Mas raramente admiramos quem sabe parar a tempo.

Talvez porque parar nos confronte com uma verdade desconfortável: a de que somos finitos. Temos energia limitada, atenção limitada, tempo limitado. E reconhecer isto implica aceitar que não podemos estar sempre disponíveis, sempre produtivos e sempre emocionalmente inteiros.

Diria que o verdadeiro Autocuidado não esteja apenas nas férias que marcamos, mas nas pausas que permitimos antes de precisar delas desesperadamente. Talvez esteja na capacidade de fechar o computador sem culpa, de não responder imediatamente, de dizer que não quando é não que faz sentido dizer, de descansar sem justificar. Há um cansaço que não se resolve com uma semana longe do trabalho, resolve-se quando deixamos de viver como se fôssemos máquinas eficientes e voltamos a lembrar-nos que somos pessoas.

E as pessoas não quebram de um dia para o outro. Vão-se desgastando devagar, enquanto tentam acompanhar um ritmo que nunca foi feito à medida de um ser humano.


DA MESMA AUTORA:

Helena Paixão é Psicóloga Clínica e dá consultas em Lisboa, na Clínica que fundou. Está no Instagram com o tag: @helenapaixao.psicologa

Há um cansaço que não se resolve com férias

Psicóloga Clínica

30 de jun. de 2026, 09:33

#Protagonistas

Opinião

Todos os anos repetimos o mesmo ritual. Contamos os dias para as férias, idealizamos o descanso, prometemos a nós próprios que, desta vez, vamos mesmo desligar. Imaginamos manhãs lentas, menos notificações, mais tempo. E, ainda assim, não é raro regressarmos com uma sensação estranha: descansámos, mas continuamos cansados.

Existem formas de cansaço que não vêm – apenas – do excesso de trabalho.

Durante muito tempo, associámos o esgotamento às horas acumuladas, às agendas sobrelotadas, às reuniões intermináveis ou às tarefas que parecem não ter fim. E tudo isto pode gerar muito cansaço, porém, o desgaste psicológico raramente se mede apenas em horas. Há um cansaço mais silencioso, mais difícil de identificar, que se instala quando a vida profissional deixa de ocupar apenas uma parte do dia e passa a ocupar um espaço mental permanente.

É o cansaço de estar sempre disponível. De responder rapidamente. De acompanhar tudo. De não deixar mensagens por ler. De estar presente nas reuniões, nos grupos de trabalho, nas plataformas digitais, nas redes sociais profissionais e, ao mesmo tempo, manter a energia necessária para ser um bom colega, um bom líder, um bom pai, uma boa mãe, um bom amigo e uma pessoa emocionalmente equilibrada.

Vivemos numa época que transformou a disponibilidade numa virtude. A rapidez numa competência. A produtividade numa medida de valor pessoal.

A pergunta que se impõe já não é apenas "o que fizeste hoje?", mas quase "quanto produziste?", "quanto avançaste?", "quantas oportunidades aproveitaste?". Como se existir não fosse suficiente. Como se fosse necessário justificar permanentemente o nosso lugar através do desempenho.

A cultura atual assente na performance tem uma característica particularmente exigente, que não pede apenas resultados, pede entusiasmo constante. Não exige apenas competência, exige paixão. Não espera apenas que trabalhemos, espera que gostemos de trabalhar, que nos realizemos através disso e que o façamos com um sorriso.

E é, precisamente, aqui que muitas pessoas começam a esgotar-se. Porque o esforço constante de corresponder a múltiplas expectativas consome recursos. Não apenas físicos, mas psicológicos e emocionais. Exige autorregulação contínua, adaptação permanente e uma vigilância quase constante sobre aquilo que fazemos e sobre a forma como somos vistos pelos outros.

Há quem passe o dia inteiro a trabalhar e chegue ao final da tarde cansado. No entanto, há também quem passe o dia inteiro a gerir preocupações, antecipar problemas, tentar não falhar, controlar a ansiedade, responder às necessidades dos outros e manter uma imagem de competência. E esse cansaço, apesar de invisível, pode ser igualmente extenuante.

A ansiedade tem aqui um papel importante.

Muitas vezes não surge como um estado de alerta evidente ou como uma crise facilmente identificável. Surge sob a forma de pensamentos persistentes, de uma dificuldade em desligar, de uma sensação permanente de que há sempre mais alguma coisa para fazer. Mesmo quando não estamos a trabalhar, continuamos mentalmente ligados ao trabalho. O corpo está de férias, mas a mente continua “ao serviço”.

Este pode ser, precisamente, um dos motivos pelo qual tantas pessoas sentem culpa quando descansam.

Parar tornou-se desconfortável. O silêncio parece improdutivo. O vazio da agenda gera inquietação. Descansar deixou de ser uma necessidade humana para passar a ser, por vezes, algo que sentimos ter de merecer.

Como psicóloga, encontro frequentemente pessoas que chegam ao consultório convencidas de que precisam de mais energia. Porém, aquilo que muitas realmente precisam é de menos exigência. Menos pressão para estar sempre disponíveis. Menos obrigação de corresponder a todas as expectativas. Menos dificuldade em reconhecer os próprios limites.

Importa lembrar que os limites não são sinais de fraqueza, são mecanismos de proteção.

O maior desafio é que aprendemos a respeitar os sinais do corpo muito depois de ele começar a gritar. Ignoramos o cansaço, relativizamos a irritabilidade, normalizamos a insónia, minimizamos a ansiedade e continuamos. Até ao momento em que já não conseguimos continuar.

Existe uma tendência cultural para valorizar quem aguenta tudo, quem faz mais, quem nunca pára. Mas raramente admiramos quem sabe parar a tempo.

Talvez porque parar nos confronte com uma verdade desconfortável: a de que somos finitos. Temos energia limitada, atenção limitada, tempo limitado. E reconhecer isto implica aceitar que não podemos estar sempre disponíveis, sempre produtivos e sempre emocionalmente inteiros.

Diria que o verdadeiro Autocuidado não esteja apenas nas férias que marcamos, mas nas pausas que permitimos antes de precisar delas desesperadamente. Talvez esteja na capacidade de fechar o computador sem culpa, de não responder imediatamente, de dizer que não quando é não que faz sentido dizer, de descansar sem justificar. Há um cansaço que não se resolve com uma semana longe do trabalho, resolve-se quando deixamos de viver como se fôssemos máquinas eficientes e voltamos a lembrar-nos que somos pessoas.

E as pessoas não quebram de um dia para o outro. Vão-se desgastando devagar, enquanto tentam acompanhar um ritmo que nunca foi feito à medida de um ser humano.


DA MESMA AUTORA:

Helena Paixão é Psicóloga Clínica e dá consultas em Lisboa, na Clínica que fundou. Está no Instagram com o tag: @helenapaixao.psicologa

Há um cansaço que não se resolve com férias

Psicóloga Clínica

30 de jun. de 2026, 09:33

#Protagonistas

Opinião

Todos os anos repetimos o mesmo ritual. Contamos os dias para as férias, idealizamos o descanso, prometemos a nós próprios que, desta vez, vamos mesmo desligar. Imaginamos manhãs lentas, menos notificações, mais tempo. E, ainda assim, não é raro regressarmos com uma sensação estranha: descansámos, mas continuamos cansados.

Existem formas de cansaço que não vêm – apenas – do excesso de trabalho.

Durante muito tempo, associámos o esgotamento às horas acumuladas, às agendas sobrelotadas, às reuniões intermináveis ou às tarefas que parecem não ter fim. E tudo isto pode gerar muito cansaço, porém, o desgaste psicológico raramente se mede apenas em horas. Há um cansaço mais silencioso, mais difícil de identificar, que se instala quando a vida profissional deixa de ocupar apenas uma parte do dia e passa a ocupar um espaço mental permanente.

É o cansaço de estar sempre disponível. De responder rapidamente. De acompanhar tudo. De não deixar mensagens por ler. De estar presente nas reuniões, nos grupos de trabalho, nas plataformas digitais, nas redes sociais profissionais e, ao mesmo tempo, manter a energia necessária para ser um bom colega, um bom líder, um bom pai, uma boa mãe, um bom amigo e uma pessoa emocionalmente equilibrada.

Vivemos numa época que transformou a disponibilidade numa virtude. A rapidez numa competência. A produtividade numa medida de valor pessoal.

A pergunta que se impõe já não é apenas "o que fizeste hoje?", mas quase "quanto produziste?", "quanto avançaste?", "quantas oportunidades aproveitaste?". Como se existir não fosse suficiente. Como se fosse necessário justificar permanentemente o nosso lugar através do desempenho.

A cultura atual assente na performance tem uma característica particularmente exigente, que não pede apenas resultados, pede entusiasmo constante. Não exige apenas competência, exige paixão. Não espera apenas que trabalhemos, espera que gostemos de trabalhar, que nos realizemos através disso e que o façamos com um sorriso.

E é, precisamente, aqui que muitas pessoas começam a esgotar-se. Porque o esforço constante de corresponder a múltiplas expectativas consome recursos. Não apenas físicos, mas psicológicos e emocionais. Exige autorregulação contínua, adaptação permanente e uma vigilância quase constante sobre aquilo que fazemos e sobre a forma como somos vistos pelos outros.

Há quem passe o dia inteiro a trabalhar e chegue ao final da tarde cansado. No entanto, há também quem passe o dia inteiro a gerir preocupações, antecipar problemas, tentar não falhar, controlar a ansiedade, responder às necessidades dos outros e manter uma imagem de competência. E esse cansaço, apesar de invisível, pode ser igualmente extenuante.

A ansiedade tem aqui um papel importante.

Muitas vezes não surge como um estado de alerta evidente ou como uma crise facilmente identificável. Surge sob a forma de pensamentos persistentes, de uma dificuldade em desligar, de uma sensação permanente de que há sempre mais alguma coisa para fazer. Mesmo quando não estamos a trabalhar, continuamos mentalmente ligados ao trabalho. O corpo está de férias, mas a mente continua “ao serviço”.

Este pode ser, precisamente, um dos motivos pelo qual tantas pessoas sentem culpa quando descansam.

Parar tornou-se desconfortável. O silêncio parece improdutivo. O vazio da agenda gera inquietação. Descansar deixou de ser uma necessidade humana para passar a ser, por vezes, algo que sentimos ter de merecer.

Como psicóloga, encontro frequentemente pessoas que chegam ao consultório convencidas de que precisam de mais energia. Porém, aquilo que muitas realmente precisam é de menos exigência. Menos pressão para estar sempre disponíveis. Menos obrigação de corresponder a todas as expectativas. Menos dificuldade em reconhecer os próprios limites.

Importa lembrar que os limites não são sinais de fraqueza, são mecanismos de proteção.

O maior desafio é que aprendemos a respeitar os sinais do corpo muito depois de ele começar a gritar. Ignoramos o cansaço, relativizamos a irritabilidade, normalizamos a insónia, minimizamos a ansiedade e continuamos. Até ao momento em que já não conseguimos continuar.

Existe uma tendência cultural para valorizar quem aguenta tudo, quem faz mais, quem nunca pára. Mas raramente admiramos quem sabe parar a tempo.

Talvez porque parar nos confronte com uma verdade desconfortável: a de que somos finitos. Temos energia limitada, atenção limitada, tempo limitado. E reconhecer isto implica aceitar que não podemos estar sempre disponíveis, sempre produtivos e sempre emocionalmente inteiros.

Diria que o verdadeiro Autocuidado não esteja apenas nas férias que marcamos, mas nas pausas que permitimos antes de precisar delas desesperadamente. Talvez esteja na capacidade de fechar o computador sem culpa, de não responder imediatamente, de dizer que não quando é não que faz sentido dizer, de descansar sem justificar. Há um cansaço que não se resolve com uma semana longe do trabalho, resolve-se quando deixamos de viver como se fôssemos máquinas eficientes e voltamos a lembrar-nos que somos pessoas.

E as pessoas não quebram de um dia para o outro. Vão-se desgastando devagar, enquanto tentam acompanhar um ritmo que nunca foi feito à medida de um ser humano.


DA MESMA AUTORA:

Helena Paixão é Psicóloga Clínica e dá consultas em Lisboa, na Clínica que fundou. Está no Instagram com o tag: @helenapaixao.psicologa

Há um cansaço que não se resolve com férias

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30 de jun. de 2026, 09:33

#Protagonistas

Opinião

Todos os anos repetimos o mesmo ritual. Contamos os dias para as férias, idealizamos o descanso, prometemos a nós próprios que, desta vez, vamos mesmo desligar. Imaginamos manhãs lentas, menos notificações, mais tempo. E, ainda assim, não é raro regressarmos com uma sensação estranha: descansámos, mas continuamos cansados.

Existem formas de cansaço que não vêm – apenas – do excesso de trabalho.

Durante muito tempo, associámos o esgotamento às horas acumuladas, às agendas sobrelotadas, às reuniões intermináveis ou às tarefas que parecem não ter fim. E tudo isto pode gerar muito cansaço, porém, o desgaste psicológico raramente se mede apenas em horas. Há um cansaço mais silencioso, mais difícil de identificar, que se instala quando a vida profissional deixa de ocupar apenas uma parte do dia e passa a ocupar um espaço mental permanente.

É o cansaço de estar sempre disponível. De responder rapidamente. De acompanhar tudo. De não deixar mensagens por ler. De estar presente nas reuniões, nos grupos de trabalho, nas plataformas digitais, nas redes sociais profissionais e, ao mesmo tempo, manter a energia necessária para ser um bom colega, um bom líder, um bom pai, uma boa mãe, um bom amigo e uma pessoa emocionalmente equilibrada.

Vivemos numa época que transformou a disponibilidade numa virtude. A rapidez numa competência. A produtividade numa medida de valor pessoal.

A pergunta que se impõe já não é apenas "o que fizeste hoje?", mas quase "quanto produziste?", "quanto avançaste?", "quantas oportunidades aproveitaste?". Como se existir não fosse suficiente. Como se fosse necessário justificar permanentemente o nosso lugar através do desempenho.

A cultura atual assente na performance tem uma característica particularmente exigente, que não pede apenas resultados, pede entusiasmo constante. Não exige apenas competência, exige paixão. Não espera apenas que trabalhemos, espera que gostemos de trabalhar, que nos realizemos através disso e que o façamos com um sorriso.

E é, precisamente, aqui que muitas pessoas começam a esgotar-se. Porque o esforço constante de corresponder a múltiplas expectativas consome recursos. Não apenas físicos, mas psicológicos e emocionais. Exige autorregulação contínua, adaptação permanente e uma vigilância quase constante sobre aquilo que fazemos e sobre a forma como somos vistos pelos outros.

Há quem passe o dia inteiro a trabalhar e chegue ao final da tarde cansado. No entanto, há também quem passe o dia inteiro a gerir preocupações, antecipar problemas, tentar não falhar, controlar a ansiedade, responder às necessidades dos outros e manter uma imagem de competência. E esse cansaço, apesar de invisível, pode ser igualmente extenuante.

A ansiedade tem aqui um papel importante.

Muitas vezes não surge como um estado de alerta evidente ou como uma crise facilmente identificável. Surge sob a forma de pensamentos persistentes, de uma dificuldade em desligar, de uma sensação permanente de que há sempre mais alguma coisa para fazer. Mesmo quando não estamos a trabalhar, continuamos mentalmente ligados ao trabalho. O corpo está de férias, mas a mente continua “ao serviço”.

Este pode ser, precisamente, um dos motivos pelo qual tantas pessoas sentem culpa quando descansam.

Parar tornou-se desconfortável. O silêncio parece improdutivo. O vazio da agenda gera inquietação. Descansar deixou de ser uma necessidade humana para passar a ser, por vezes, algo que sentimos ter de merecer.

Como psicóloga, encontro frequentemente pessoas que chegam ao consultório convencidas de que precisam de mais energia. Porém, aquilo que muitas realmente precisam é de menos exigência. Menos pressão para estar sempre disponíveis. Menos obrigação de corresponder a todas as expectativas. Menos dificuldade em reconhecer os próprios limites.

Importa lembrar que os limites não são sinais de fraqueza, são mecanismos de proteção.

O maior desafio é que aprendemos a respeitar os sinais do corpo muito depois de ele começar a gritar. Ignoramos o cansaço, relativizamos a irritabilidade, normalizamos a insónia, minimizamos a ansiedade e continuamos. Até ao momento em que já não conseguimos continuar.

Existe uma tendência cultural para valorizar quem aguenta tudo, quem faz mais, quem nunca pára. Mas raramente admiramos quem sabe parar a tempo.

Talvez porque parar nos confronte com uma verdade desconfortável: a de que somos finitos. Temos energia limitada, atenção limitada, tempo limitado. E reconhecer isto implica aceitar que não podemos estar sempre disponíveis, sempre produtivos e sempre emocionalmente inteiros.

Diria que o verdadeiro Autocuidado não esteja apenas nas férias que marcamos, mas nas pausas que permitimos antes de precisar delas desesperadamente. Talvez esteja na capacidade de fechar o computador sem culpa, de não responder imediatamente, de dizer que não quando é não que faz sentido dizer, de descansar sem justificar. Há um cansaço que não se resolve com uma semana longe do trabalho, resolve-se quando deixamos de viver como se fôssemos máquinas eficientes e voltamos a lembrar-nos que somos pessoas.

E as pessoas não quebram de um dia para o outro. Vão-se desgastando devagar, enquanto tentam acompanhar um ritmo que nunca foi feito à medida de um ser humano.


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