
#Protagonistas
TIAGO PIRES: "Quando um atleta cria projetos, passa também a influenciar pessoas"
Decorreu hoje, na da Praia da Física, em Santa Cruz, mais uma edição do Softboard Heroes, organizado por Tiago "Saca" Pires. O MOTIVO aproveitou a oportunidade para entrevistar o antigo surfista profissional sobre a sua ligação ao mar e muito mais.
O início de junho juntou o Dia Mundial do Ambiente e o Dia Mundial dos Oceanos. Para quem viveu tantos anos dentro de água, que sinais de mudança são hoje mais evidentes nas praias portuguesas?
TIAGO PIRES — A linha de costa já não é tão estável como era e os invernos mais instáveis deixam marcas cada vez mais evidentes na areia e nas dunas. Também se sente alguma instabilidade no mar, seja na temperatura da água ou na forma como certas espécies aparecem em momentos diferentes do habitual. Porém, nem tudo é negativo. Há também um lado positivo nesta nova realidade. Mais consciência ambiental do que há uns anos, e uma geração mais atenta ao impacto que temos no oceano.

Ainda assim, a Associação ZERO anunciou menos oito praias com distinção de “zero poluição” face a 2025. O que é que este dado revela sobre a forma como ainda tratamos o mar?
T.P. — Ainda temos um caminho importante para fazer na forma como cuidamos do mar. Apesar de toda a informação que já existe e de uma maior consciência ambiental, a verdade é que continuamos a ter uma relação demasiado descuidada com o oceano, como se ele tivesse uma capacidade infinita de absorver o impacto humano. A descida no número de praias com distinção de “zero poluição” é um sinal de que essa pressão continua a existir e, em alguns casos, até a aumentar. Ao mesmo tempo, isto também deve servir como alerta e não apenas como um retrato negativo. Significa que há trabalho a fazer em termos de educação e gestão costeira. O mar não é um depósito distante, está ligado a tudo o que fazemos em terra. E quanto mais cedo conseguirmos interiorizar isso de forma prática no dia a dia, mais rapidamente podemos inverter esta tendência e proteger melhor as nossas praias.
A poluição das praias é muitas vezes discutida como problema ambiental, mas para a comunidade surfista, é também um problema diário. Que impacto tem na prática do surf e na relação das pessoas com o oceano?
T.P. — Para quem surfa, é algo que se vê e se sente no dia a dia. Entrar na água e encontrar plásticos ou outros resíduos afeta diretamente a experiência e a ligação que temos ao mar. O oceano é o nosso espaço de liberdade e de contacto com a natureza, portanto é impossível ficar indiferente quando vemos esse ambiente degradado. No entanto, considero que essa problemática também tem despertado uma maior consciência dentro da comunidade surfista. Quem passa muitas horas no mar acaba por desenvolver uma relação de proximidade e respeito pelo oceano e sente uma responsabilidade acrescida em protegê-lo. O surf ensina-nos a depender da saúde dos ecossistemas costeiros e, por isso, muitos surfistas têm sido também agentes de sensibilização e mudança, ajudando a transmitir a importância de cuidar das praias e do mar às gerações mais novas.
O Softboard Heroes regressou hoje à praia da Física, em Santa Cruz, e já angariou quase 100 mil euros para associações nacionais ao longo das edições anteriores. O que torna este evento diferente de uma simples competição de surf?
T.P. — O Softboard Heroes nasceu precisamente da ideia de que o surf pode ser muito mais do que uma simples competição. Claro que há desafios, mas o propósito do evento é juntar pessoas em torno de uma causa maior. Ao longo dos últimos seis anos, conseguimos criar um ambiente onde o surf e a solidariedade andam lado a lado, e isso é o que torna este projeto tão especial. O facto de já termos angariado até mais de 100 mil euros para associações nacionais sem fins lucrativos demonstra que, ao unirmos surfistas e figuras públicas para uma boa causa, é possível gerar um impacto real e duradouro na vida de muitas pessoas. O Softboard Heroes é uma celebração dos valores que o surf me ensinou ao longo da vida, como a partilha, a entreajuda e o respeito pelos outros. No final, o mais importante não são os resultados dentro de água, mas sim a diferença que conseguimos fazer fora dela.

O seu percurso mostra que um desportista pode ser também uma marca, um comunicador e um empreendedor. Quando percebeu que a carreira podia continuar para lá da competição?
T.P. — Foi um processo bastante natural. O surf deu-me muito mais do que uma carreira competitiva, deu-me experiências, contactos, aprendizagens e uma forma de olhar para o mundo. Com o passar dos anos fui percebendo que a competição tem um ciclo próprio, mas que a ligação ao surf, e tudo o que construí à sua volta, podia continuar a crescer de outras formas. Nunca encarei o fim da competição como um ponto final. Vi-o antes como uma oportunidade para criar novos projetos, contar histórias, desenvolver ideias e continuar a contribuir para a modalidade que me deu tanto. Hoje, sinto que o papel de um atleta pode ir muito além dos resultados. Pode inspirar pessoas e criar um impacto positivo, seja através de iniciativas solidárias como o Softboard Heroes, da comunicação ou do empreendedorismo.
E que responsabilidade existe quando se transforma uma carreira desportiva numa plataforma de impacto?
T.P. — Quando as pessoas acompanham o nosso percurso, ao longo de muitos anos, acabam por depositar em nós um certo nível de confiança. E essa confiança traz responsabilidade. Quando um atleta cria projetos, eventos ou iniciativas para lá da competição, deixa de representar apenas o seu desempenho desportivo e passa também a influenciar pessoas, comportamentos e até causas. Acredito que é importante usar essa visibilidade com propósito. Não se trata de ter todas as respostas, mas de perceber que as ações têm impacto e que podemos ajudar a mobilizar pessoas para algo positivo. Se o desporto nos dá uma plataforma, então faz sentido aproveitá-la para criar valor para a comunidade, apoiar causas relevantes para a sociedade e deixar uma contribuição que perdure muito além dos resultados ou dos títulos.
Qual é o seu motivo?
T.P. — O meu motivo é simples, mas bastante significativo para mim. O mar deu-me tudo ao longo da vida. Identidade, carreira, oportunidades e, principalmente, uma forma de estar. Por isso, sinto que faz sentido devolver alguma coisa, seja através do surf, de projetos como o Softboard Heroes ou de qualquer iniciativa para pessoas em situações de vulnerabilidade.

#Protagonistas
TIAGO PIRES: "Quando um atleta cria projetos, passa também a influenciar pessoas"
Decorreu hoje, na da Praia da Física, em Santa Cruz, mais uma edição do Softboard Heroes, organizado por Tiago "Saca" Pires. O MOTIVO aproveitou a oportunidade para entrevistar o antigo surfista profissional sobre a sua ligação ao mar e muito mais.
O início de junho juntou o Dia Mundial do Ambiente e o Dia Mundial dos Oceanos. Para quem viveu tantos anos dentro de água, que sinais de mudança são hoje mais evidentes nas praias portuguesas?
TIAGO PIRES — A linha de costa já não é tão estável como era e os invernos mais instáveis deixam marcas cada vez mais evidentes na areia e nas dunas. Também se sente alguma instabilidade no mar, seja na temperatura da água ou na forma como certas espécies aparecem em momentos diferentes do habitual. Porém, nem tudo é negativo. Há também um lado positivo nesta nova realidade. Mais consciência ambiental do que há uns anos, e uma geração mais atenta ao impacto que temos no oceano.

Ainda assim, a Associação ZERO anunciou menos oito praias com distinção de “zero poluição” face a 2025. O que é que este dado revela sobre a forma como ainda tratamos o mar?
T.P. — Ainda temos um caminho importante para fazer na forma como cuidamos do mar. Apesar de toda a informação que já existe e de uma maior consciência ambiental, a verdade é que continuamos a ter uma relação demasiado descuidada com o oceano, como se ele tivesse uma capacidade infinita de absorver o impacto humano. A descida no número de praias com distinção de “zero poluição” é um sinal de que essa pressão continua a existir e, em alguns casos, até a aumentar. Ao mesmo tempo, isto também deve servir como alerta e não apenas como um retrato negativo. Significa que há trabalho a fazer em termos de educação e gestão costeira. O mar não é um depósito distante, está ligado a tudo o que fazemos em terra. E quanto mais cedo conseguirmos interiorizar isso de forma prática no dia a dia, mais rapidamente podemos inverter esta tendência e proteger melhor as nossas praias.
A poluição das praias é muitas vezes discutida como problema ambiental, mas para a comunidade surfista, é também um problema diário. Que impacto tem na prática do surf e na relação das pessoas com o oceano?
T.P. — Para quem surfa, é algo que se vê e se sente no dia a dia. Entrar na água e encontrar plásticos ou outros resíduos afeta diretamente a experiência e a ligação que temos ao mar. O oceano é o nosso espaço de liberdade e de contacto com a natureza, portanto é impossível ficar indiferente quando vemos esse ambiente degradado. No entanto, considero que essa problemática também tem despertado uma maior consciência dentro da comunidade surfista. Quem passa muitas horas no mar acaba por desenvolver uma relação de proximidade e respeito pelo oceano e sente uma responsabilidade acrescida em protegê-lo. O surf ensina-nos a depender da saúde dos ecossistemas costeiros e, por isso, muitos surfistas têm sido também agentes de sensibilização e mudança, ajudando a transmitir a importância de cuidar das praias e do mar às gerações mais novas.
O Softboard Heroes regressou hoje à praia da Física, em Santa Cruz, e já angariou quase 100 mil euros para associações nacionais ao longo das edições anteriores. O que torna este evento diferente de uma simples competição de surf?
T.P. — O Softboard Heroes nasceu precisamente da ideia de que o surf pode ser muito mais do que uma simples competição. Claro que há desafios, mas o propósito do evento é juntar pessoas em torno de uma causa maior. Ao longo dos últimos seis anos, conseguimos criar um ambiente onde o surf e a solidariedade andam lado a lado, e isso é o que torna este projeto tão especial. O facto de já termos angariado até mais de 100 mil euros para associações nacionais sem fins lucrativos demonstra que, ao unirmos surfistas e figuras públicas para uma boa causa, é possível gerar um impacto real e duradouro na vida de muitas pessoas. O Softboard Heroes é uma celebração dos valores que o surf me ensinou ao longo da vida, como a partilha, a entreajuda e o respeito pelos outros. No final, o mais importante não são os resultados dentro de água, mas sim a diferença que conseguimos fazer fora dela.

O seu percurso mostra que um desportista pode ser também uma marca, um comunicador e um empreendedor. Quando percebeu que a carreira podia continuar para lá da competição?
T.P. — Foi um processo bastante natural. O surf deu-me muito mais do que uma carreira competitiva, deu-me experiências, contactos, aprendizagens e uma forma de olhar para o mundo. Com o passar dos anos fui percebendo que a competição tem um ciclo próprio, mas que a ligação ao surf, e tudo o que construí à sua volta, podia continuar a crescer de outras formas. Nunca encarei o fim da competição como um ponto final. Vi-o antes como uma oportunidade para criar novos projetos, contar histórias, desenvolver ideias e continuar a contribuir para a modalidade que me deu tanto. Hoje, sinto que o papel de um atleta pode ir muito além dos resultados. Pode inspirar pessoas e criar um impacto positivo, seja através de iniciativas solidárias como o Softboard Heroes, da comunicação ou do empreendedorismo.
E que responsabilidade existe quando se transforma uma carreira desportiva numa plataforma de impacto?
T.P. — Quando as pessoas acompanham o nosso percurso, ao longo de muitos anos, acabam por depositar em nós um certo nível de confiança. E essa confiança traz responsabilidade. Quando um atleta cria projetos, eventos ou iniciativas para lá da competição, deixa de representar apenas o seu desempenho desportivo e passa também a influenciar pessoas, comportamentos e até causas. Acredito que é importante usar essa visibilidade com propósito. Não se trata de ter todas as respostas, mas de perceber que as ações têm impacto e que podemos ajudar a mobilizar pessoas para algo positivo. Se o desporto nos dá uma plataforma, então faz sentido aproveitá-la para criar valor para a comunidade, apoiar causas relevantes para a sociedade e deixar uma contribuição que perdure muito além dos resultados ou dos títulos.
Qual é o seu motivo?
T.P. — O meu motivo é simples, mas bastante significativo para mim. O mar deu-me tudo ao longo da vida. Identidade, carreira, oportunidades e, principalmente, uma forma de estar. Por isso, sinto que faz sentido devolver alguma coisa, seja através do surf, de projetos como o Softboard Heroes ou de qualquer iniciativa para pessoas em situações de vulnerabilidade.

#Protagonistas
TIAGO PIRES: "Quando um atleta cria projetos, passa também a influenciar pessoas"
Decorreu hoje, na da Praia da Física, em Santa Cruz, mais uma edição do Softboard Heroes, organizado por Tiago "Saca" Pires. O MOTIVO aproveitou a oportunidade para entrevistar o antigo surfista profissional sobre a sua ligação ao mar e muito mais.
O início de junho juntou o Dia Mundial do Ambiente e o Dia Mundial dos Oceanos. Para quem viveu tantos anos dentro de água, que sinais de mudança são hoje mais evidentes nas praias portuguesas?
TIAGO PIRES — A linha de costa já não é tão estável como era e os invernos mais instáveis deixam marcas cada vez mais evidentes na areia e nas dunas. Também se sente alguma instabilidade no mar, seja na temperatura da água ou na forma como certas espécies aparecem em momentos diferentes do habitual. Porém, nem tudo é negativo. Há também um lado positivo nesta nova realidade. Mais consciência ambiental do que há uns anos, e uma geração mais atenta ao impacto que temos no oceano.

Ainda assim, a Associação ZERO anunciou menos oito praias com distinção de “zero poluição” face a 2025. O que é que este dado revela sobre a forma como ainda tratamos o mar?
T.P. — Ainda temos um caminho importante para fazer na forma como cuidamos do mar. Apesar de toda a informação que já existe e de uma maior consciência ambiental, a verdade é que continuamos a ter uma relação demasiado descuidada com o oceano, como se ele tivesse uma capacidade infinita de absorver o impacto humano. A descida no número de praias com distinção de “zero poluição” é um sinal de que essa pressão continua a existir e, em alguns casos, até a aumentar. Ao mesmo tempo, isto também deve servir como alerta e não apenas como um retrato negativo. Significa que há trabalho a fazer em termos de educação e gestão costeira. O mar não é um depósito distante, está ligado a tudo o que fazemos em terra. E quanto mais cedo conseguirmos interiorizar isso de forma prática no dia a dia, mais rapidamente podemos inverter esta tendência e proteger melhor as nossas praias.
A poluição das praias é muitas vezes discutida como problema ambiental, mas para a comunidade surfista, é também um problema diário. Que impacto tem na prática do surf e na relação das pessoas com o oceano?
T.P. — Para quem surfa, é algo que se vê e se sente no dia a dia. Entrar na água e encontrar plásticos ou outros resíduos afeta diretamente a experiência e a ligação que temos ao mar. O oceano é o nosso espaço de liberdade e de contacto com a natureza, portanto é impossível ficar indiferente quando vemos esse ambiente degradado. No entanto, considero que essa problemática também tem despertado uma maior consciência dentro da comunidade surfista. Quem passa muitas horas no mar acaba por desenvolver uma relação de proximidade e respeito pelo oceano e sente uma responsabilidade acrescida em protegê-lo. O surf ensina-nos a depender da saúde dos ecossistemas costeiros e, por isso, muitos surfistas têm sido também agentes de sensibilização e mudança, ajudando a transmitir a importância de cuidar das praias e do mar às gerações mais novas.
O Softboard Heroes regressou hoje à praia da Física, em Santa Cruz, e já angariou quase 100 mil euros para associações nacionais ao longo das edições anteriores. O que torna este evento diferente de uma simples competição de surf?
T.P. — O Softboard Heroes nasceu precisamente da ideia de que o surf pode ser muito mais do que uma simples competição. Claro que há desafios, mas o propósito do evento é juntar pessoas em torno de uma causa maior. Ao longo dos últimos seis anos, conseguimos criar um ambiente onde o surf e a solidariedade andam lado a lado, e isso é o que torna este projeto tão especial. O facto de já termos angariado até mais de 100 mil euros para associações nacionais sem fins lucrativos demonstra que, ao unirmos surfistas e figuras públicas para uma boa causa, é possível gerar um impacto real e duradouro na vida de muitas pessoas. O Softboard Heroes é uma celebração dos valores que o surf me ensinou ao longo da vida, como a partilha, a entreajuda e o respeito pelos outros. No final, o mais importante não são os resultados dentro de água, mas sim a diferença que conseguimos fazer fora dela.

O seu percurso mostra que um desportista pode ser também uma marca, um comunicador e um empreendedor. Quando percebeu que a carreira podia continuar para lá da competição?
T.P. — Foi um processo bastante natural. O surf deu-me muito mais do que uma carreira competitiva, deu-me experiências, contactos, aprendizagens e uma forma de olhar para o mundo. Com o passar dos anos fui percebendo que a competição tem um ciclo próprio, mas que a ligação ao surf, e tudo o que construí à sua volta, podia continuar a crescer de outras formas. Nunca encarei o fim da competição como um ponto final. Vi-o antes como uma oportunidade para criar novos projetos, contar histórias, desenvolver ideias e continuar a contribuir para a modalidade que me deu tanto. Hoje, sinto que o papel de um atleta pode ir muito além dos resultados. Pode inspirar pessoas e criar um impacto positivo, seja através de iniciativas solidárias como o Softboard Heroes, da comunicação ou do empreendedorismo.
E que responsabilidade existe quando se transforma uma carreira desportiva numa plataforma de impacto?
T.P. — Quando as pessoas acompanham o nosso percurso, ao longo de muitos anos, acabam por depositar em nós um certo nível de confiança. E essa confiança traz responsabilidade. Quando um atleta cria projetos, eventos ou iniciativas para lá da competição, deixa de representar apenas o seu desempenho desportivo e passa também a influenciar pessoas, comportamentos e até causas. Acredito que é importante usar essa visibilidade com propósito. Não se trata de ter todas as respostas, mas de perceber que as ações têm impacto e que podemos ajudar a mobilizar pessoas para algo positivo. Se o desporto nos dá uma plataforma, então faz sentido aproveitá-la para criar valor para a comunidade, apoiar causas relevantes para a sociedade e deixar uma contribuição que perdure muito além dos resultados ou dos títulos.
Qual é o seu motivo?
T.P. — O meu motivo é simples, mas bastante significativo para mim. O mar deu-me tudo ao longo da vida. Identidade, carreira, oportunidades e, principalmente, uma forma de estar. Por isso, sinto que faz sentido devolver alguma coisa, seja através do surf, de projetos como o Softboard Heroes ou de qualquer iniciativa para pessoas em situações de vulnerabilidade.

#Protagonistas
TIAGO PIRES: "Quando um atleta cria projetos, passa também a influenciar pessoas"
Decorreu hoje, na da Praia da Física, em Santa Cruz, mais uma edição do Softboard Heroes, organizado por Tiago "Saca" Pires. O MOTIVO aproveitou a oportunidade para entrevistar o antigo surfista profissional sobre a sua ligação ao mar e muito mais.
O início de junho juntou o Dia Mundial do Ambiente e o Dia Mundial dos Oceanos. Para quem viveu tantos anos dentro de água, que sinais de mudança são hoje mais evidentes nas praias portuguesas?
TIAGO PIRES — A linha de costa já não é tão estável como era e os invernos mais instáveis deixam marcas cada vez mais evidentes na areia e nas dunas. Também se sente alguma instabilidade no mar, seja na temperatura da água ou na forma como certas espécies aparecem em momentos diferentes do habitual. Porém, nem tudo é negativo. Há também um lado positivo nesta nova realidade. Mais consciência ambiental do que há uns anos, e uma geração mais atenta ao impacto que temos no oceano.

Ainda assim, a Associação ZERO anunciou menos oito praias com distinção de “zero poluição” face a 2025. O que é que este dado revela sobre a forma como ainda tratamos o mar?
T.P. — Ainda temos um caminho importante para fazer na forma como cuidamos do mar. Apesar de toda a informação que já existe e de uma maior consciência ambiental, a verdade é que continuamos a ter uma relação demasiado descuidada com o oceano, como se ele tivesse uma capacidade infinita de absorver o impacto humano. A descida no número de praias com distinção de “zero poluição” é um sinal de que essa pressão continua a existir e, em alguns casos, até a aumentar. Ao mesmo tempo, isto também deve servir como alerta e não apenas como um retrato negativo. Significa que há trabalho a fazer em termos de educação e gestão costeira. O mar não é um depósito distante, está ligado a tudo o que fazemos em terra. E quanto mais cedo conseguirmos interiorizar isso de forma prática no dia a dia, mais rapidamente podemos inverter esta tendência e proteger melhor as nossas praias.
A poluição das praias é muitas vezes discutida como problema ambiental, mas para a comunidade surfista, é também um problema diário. Que impacto tem na prática do surf e na relação das pessoas com o oceano?
T.P. — Para quem surfa, é algo que se vê e se sente no dia a dia. Entrar na água e encontrar plásticos ou outros resíduos afeta diretamente a experiência e a ligação que temos ao mar. O oceano é o nosso espaço de liberdade e de contacto com a natureza, portanto é impossível ficar indiferente quando vemos esse ambiente degradado. No entanto, considero que essa problemática também tem despertado uma maior consciência dentro da comunidade surfista. Quem passa muitas horas no mar acaba por desenvolver uma relação de proximidade e respeito pelo oceano e sente uma responsabilidade acrescida em protegê-lo. O surf ensina-nos a depender da saúde dos ecossistemas costeiros e, por isso, muitos surfistas têm sido também agentes de sensibilização e mudança, ajudando a transmitir a importância de cuidar das praias e do mar às gerações mais novas.
O Softboard Heroes regressou hoje à praia da Física, em Santa Cruz, e já angariou quase 100 mil euros para associações nacionais ao longo das edições anteriores. O que torna este evento diferente de uma simples competição de surf?
T.P. — O Softboard Heroes nasceu precisamente da ideia de que o surf pode ser muito mais do que uma simples competição. Claro que há desafios, mas o propósito do evento é juntar pessoas em torno de uma causa maior. Ao longo dos últimos seis anos, conseguimos criar um ambiente onde o surf e a solidariedade andam lado a lado, e isso é o que torna este projeto tão especial. O facto de já termos angariado até mais de 100 mil euros para associações nacionais sem fins lucrativos demonstra que, ao unirmos surfistas e figuras públicas para uma boa causa, é possível gerar um impacto real e duradouro na vida de muitas pessoas. O Softboard Heroes é uma celebração dos valores que o surf me ensinou ao longo da vida, como a partilha, a entreajuda e o respeito pelos outros. No final, o mais importante não são os resultados dentro de água, mas sim a diferença que conseguimos fazer fora dela.

O seu percurso mostra que um desportista pode ser também uma marca, um comunicador e um empreendedor. Quando percebeu que a carreira podia continuar para lá da competição?
T.P. — Foi um processo bastante natural. O surf deu-me muito mais do que uma carreira competitiva, deu-me experiências, contactos, aprendizagens e uma forma de olhar para o mundo. Com o passar dos anos fui percebendo que a competição tem um ciclo próprio, mas que a ligação ao surf, e tudo o que construí à sua volta, podia continuar a crescer de outras formas. Nunca encarei o fim da competição como um ponto final. Vi-o antes como uma oportunidade para criar novos projetos, contar histórias, desenvolver ideias e continuar a contribuir para a modalidade que me deu tanto. Hoje, sinto que o papel de um atleta pode ir muito além dos resultados. Pode inspirar pessoas e criar um impacto positivo, seja através de iniciativas solidárias como o Softboard Heroes, da comunicação ou do empreendedorismo.
E que responsabilidade existe quando se transforma uma carreira desportiva numa plataforma de impacto?
T.P. — Quando as pessoas acompanham o nosso percurso, ao longo de muitos anos, acabam por depositar em nós um certo nível de confiança. E essa confiança traz responsabilidade. Quando um atleta cria projetos, eventos ou iniciativas para lá da competição, deixa de representar apenas o seu desempenho desportivo e passa também a influenciar pessoas, comportamentos e até causas. Acredito que é importante usar essa visibilidade com propósito. Não se trata de ter todas as respostas, mas de perceber que as ações têm impacto e que podemos ajudar a mobilizar pessoas para algo positivo. Se o desporto nos dá uma plataforma, então faz sentido aproveitá-la para criar valor para a comunidade, apoiar causas relevantes para a sociedade e deixar uma contribuição que perdure muito além dos resultados ou dos títulos.
Qual é o seu motivo?
T.P. — O meu motivo é simples, mas bastante significativo para mim. O mar deu-me tudo ao longo da vida. Identidade, carreira, oportunidades e, principalmente, uma forma de estar. Por isso, sinto que faz sentido devolver alguma coisa, seja através do surf, de projetos como o Softboard Heroes ou de qualquer iniciativa para pessoas em situações de vulnerabilidade.




