#Conhecimento

Desinformação e falta de recursos são os maiores desafios dos jornalistas em 2026

A exatidão, a verificação de factos e o combate à desinformação são apontados por metade dos jornalistas como o maior desafio da profissão. Logo depois surge a escassez de recursos, referida por 49% dos profissionais, num retrato de redações obrigadas a confirmar mais informação, acompanhar mais plataformas e produzir para mais formatos com equipas cada vez mais reduzidas.

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11 de jun. de 2026, 17:09

As conclusões fazem parte do relatório O Estado dos Media 2026, elaborado pela Cision a partir das respostas de 1899 profissionais de 19 mercados, entre os quais Portugal. Os inquéritos foram realizados em janeiro e fevereiro de 2026, e os resultados são globais, pelo que não permitem isolar a realidade portuguesa.


A desinformação chega ao topo das preocupações

A verificação da informação ocupa agora o primeiro lugar entre as dificuldades identificadas pelos jornalistas. Num ambiente marcado por conteúdos manipulados, narrativas de origem pouco clara e produção automatizada de texto, imagem e vídeo, a credibilidade passou a exigir um esforço diário mais intenso.

O relatório refere uma era de “fake news” e conteúdos de baixa qualidade gerados por inteligência artificial, na qual os jornalistas passam mais tempo a confirmar factos e a proteger a confiança do público. O desafio já não consiste apenas em encontrar informação relevante. Inclui também perceber de onde vem, quem a produziu e se existem provas suficientes para a publicar.

A pressão cresce porque a rapidez continua a ser determinante. As redações precisam de responder ao ciclo noticioso, aos algoritmos e às expectativas das audiências, mesmo quando a verificação exige mais tempo. A velocidade e o rigor, dois princípios que nem sempre avançam ao mesmo ritmo, estão cada vez mais em tensão.


As redações trabalham com menos recursos

A escassez de recursos foi referida por 49% dos jornalistas, face aos 29% registados em 2025. O aumento de 20 pontos percentuais mostra até que ponto os cortes de pessoal, a redução de orçamentos e o crescimento da carga de trabalho se tornaram centrais na experiência profissional.

Equipas mais pequenas continuam a ter de assegurar a cobertura noticiosa, alimentar canais digitais, acompanhar redes sociais e responder às exigências de novas audiências. O problema está na dificuldade de garantir profundidade, contexto e verificação quando o tempo disponível diminui.

A combinação entre mais informação e menos recursos cria um paradoxo: quanto maior é o risco de desinformação, maior deveria ser a capacidade de investigação e confirmação. No entanto, muitos jornalistas enfrentam precisamente a situação contrária.


A inteligência artificial acelera tudo e aumenta o risco

O impacto da inteligência artificial no jornalismo é apontado por 43% dos inquiridos como um dos principais desafios. A tecnologia pode acelerar pesquisas, organizar informação e apoiar tarefas rotineiras, embora introduza também novas fontes de erro, conteúdos falsos e dúvidas sobre autoria.

O relatório mostra que a utilização destas ferramentas está a crescer. A percentagem de jornalistas que afirma não usar IA generativa caiu de 33% em 2025 para 21% em 2026. Ainda assim, a maioria recorre-lhe sobretudo como apoio ao processo, e não como substituto da redação final.

Entre os usos mais frequentes estão a procura de ângulos, perguntas de entrevista e títulos, referida por 48% dos profissionais. A pesquisa ou verificação de factos surge com 43%, enquanto 41% usam IA para transcrever ou resumir entrevistas e ficheiros de áudio. Apenas 27% dizem utilizá-la diretamente na criação de conteúdo.

Os dados revelam uma adoção cautelosa. A IA ajuda a fazer mais em menos tempo, embora obrigue a uma nova camada de confirmação. Uma ferramenta que acelera o trabalho pode também produzir respostas incorretas, inventar informação ou repetir preconceitos presentes nos dados com que foi desenvolvida.


As audiências mudaram e os jornalistas têm de acompanhar

A adaptação às mudanças no comportamento do público e nas tendências de consumo é referida por 42% dos jornalistas. As notícias circulam hoje em sites, redes sociais, newsletters, podcasts, vídeos e plataformas controladas por algoritmos, fragmentando a atenção e tornando menos previsível a relação entre publicação e audiência.

O jornalista deixou de trabalhar apenas para um suporte. Precisa de compreender diferentes formatos, adaptar narrativas e acompanhar a forma como cada plataforma distribui os conteúdos. Ao mesmo tempo, enfrenta públicos que esperam rapidez, acesso permanente e informação apresentada de maneira cada vez mais direta.

Esta transformação implica perceber que o contacto com o público também mudou. A notícia concorre com entretenimento, opinião, conteúdo de influenciadores, comunicação de marcas e publicações criadas especificamente para captar a lógica dos algoritmos.


E a concorrência já não vem apenas de outros meios

A concorrência de meios de comunicação e criadores não tradicionais é apontada por 28% dos profissionais. Jornalistas e redações disputam a atenção com criadores independentes, comentadores, newsletters pessoais e contas que publicam diretamente para comunidades próprias.

A diferença está nas regras do jogo. Os meios jornalísticos trabalham com princípios de verificação, responsabilidade editorial e direito de resposta. Os criadores independentes podem atuar com maior velocidade e liberdade, mesmo quando não estão sujeitos aos mesmos mecanismos de controlo.

Esta concorrência contribui para aproximar o jornalista da figura do criador de conteúdo. Já não basta investigar e escrever. É também necessário distribuir, promover, construir uma presença digital e manter uma relação continuada com a audiência.


SEO, algoritmos e conteúdos patrocinados aumentam a pressão

As pressões comerciais são mencionadas por 27% dos jornalistas. SEO, algoritmos e conteúdo patrocinado influenciam decisões editoriais, formatos e prioridades, num setor que procura modelos de negócio sustentáveis enquanto tenta preservar a sua independência.

A necessidade de gerar tráfego pode favorecer títulos mais apelativos, temas com maior procura e conteúdos capazes de circular nas plataformas. O risco surge quando a lógica da distribuição começa a sobrepor-se ao valor informativo.

Os algoritmos introduzem ainda uma dependência difícil de controlar. Uma alteração na forma como uma plataforma recomenda notícias pode reduzir subitamente o alcance de uma publicação, independentemente da qualidade do trabalho produzido. As redações tornam-se, assim, dependentes de sistemas externos para chegar aos seus próprios públicos.


Fazer mais com menos sem perder a confiança

O relatório da Cision descreve uma profissão pressionada pela tecnologia, pela transformação das audiências, pela concorrência e pela falta de recursos. Todos estes fatores convergem num mesmo problema: como preservar a qualidade do jornalismo num ambiente que recompensa a rapidez e exige uma produção constante?

A inteligência artificial poderá aliviar algumas tarefas e aumentar a produtividade. Também obrigará os jornalistas a verificar novas formas de conteúdo e a distinguir informação credível de materiais produzidos ou manipulados automaticamente.

O desafio central permanece a confiança. Perante uma quantidade crescente de informação e uma capacidade limitada para a confirmar, o jornalismo terá de defender aquilo que o distingue: rigor, contexto, responsabilidade e transparência sobre a forma como as histórias são apuradas.

Em 2026, produzir informação já não é suficiente. O verdadeiro trabalho está em provar por que razão essa informação merece ser considerada verdadeira.

Apesar da dependência crescente das relações públicas, a relação continua marcada por um problema de qualidade. A maioria dos jornalistas recebe mais de 50 propostas por semana e 72% considera que apenas um quarto, ou menos, é relevante para a sua área e para o seu público.

A irrelevância é o principal motivo para rejeitar uma proposta, apontado por 82% dos inquiridos. Seguem-se o tom demasiado promocional ou orientado para vendas, com 53%, e a ausência de um ângulo ou ponto de vista claro, com 34%.

Os dados mostram que o excesso de contactos não se traduz necessariamente em melhores oportunidades editoriais. Para jornalistas com pouco tempo, uma proposta genérica, enviada em massa ou sem ligação à publicação representa apenas mais informação para filtrar.

Quando questionados sobre os elementos que mais valorizam, 79% referem a relevância para a sua especialização, público ou área de cobertura. A oportunidade noticiosa surge com 35%, os dados ou estudos credíveis com 33% e o acesso exclusivo a entrevistas, eventos ou produtos com 27%.


O jornalista tornou-se multiplataforma

A redução de recursos não diminuiu o número de tarefas. Além da sua função principal, 47% dos jornalistas contribuem também para um site digital, 35% para canais próprios das organizações, 29% para canais pessoais, 23% para newsletters e 22% para podcasts.

As redes sociais passaram igualmente a integrar o trabalho diário. Mais de metade dos inquiridos, 54%, usa-as para publicar e promover conteúdos. Outros 37% recorrem a estas plataformas para recolher informação e a mesma percentagem para interagir com o público.

O LinkedIn é a rede mais utilizada profissionalmente, referida por 62% dos jornalistas, e também a mais valorizada para o trabalho, escolhida por 33%. Instagram, Facebook, X e YouTube continuam a ter peso, revelando que o jornalista contemporâneo já não se limita a produzir uma peça: também a distribui, promove e adapta a diferentes públicos.

Esta realidade aproxima o trabalho jornalístico do universo dos criadores de conteúdo, embora com exigências adicionais de verificação, independência e responsabilidade editorial.


Uma profissão entre a velocidade e a confiança

O Estado dos Media 2026 descreve um setor obrigado a fazer mais com menos. Há mais canais, mais formatos, mais pressão para captar audiências e mais informação por confirmar. Ao mesmo tempo, há menos recursos disponíveis para investigar, verificar e contextualizar.

A inteligência artificial pode acelerar algumas tarefas, embora também amplifique o risco de erro e desinformação. As relações públicas podem facilitar o acesso a fontes, dados e histórias, embora apenas quando trabalham com relevância, transparência e rigor.

No centro de todas estas mudanças permanece a confiança. É esse o ativo que os jornalistas procuram proteger num ambiente dominado pela velocidade, pelos algoritmos e por conteúdos de origem cada vez mais difícil de identificar.

O desafio do presente e do futuro está em garantir que existe tempo, conhecimento e estrutura para perceber em que informação se pode confiar.


(C) Foto de Annie Spratt na Unsplash
#Conhecimento

Desinformação e falta de recursos são os maiores desafios dos jornalistas em 2026

A exatidão, a verificação de factos e o combate à desinformação são apontados por metade dos jornalistas como o maior desafio da profissão. Logo depois surge a escassez de recursos, referida por 49% dos profissionais, num retrato de redações obrigadas a confirmar mais informação, acompanhar mais plataformas e produzir para mais formatos com equipas cada vez mais reduzidas.

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11 de jun. de 2026, 17:09

As conclusões fazem parte do relatório O Estado dos Media 2026, elaborado pela Cision a partir das respostas de 1899 profissionais de 19 mercados, entre os quais Portugal. Os inquéritos foram realizados em janeiro e fevereiro de 2026, e os resultados são globais, pelo que não permitem isolar a realidade portuguesa.


A desinformação chega ao topo das preocupações

A verificação da informação ocupa agora o primeiro lugar entre as dificuldades identificadas pelos jornalistas. Num ambiente marcado por conteúdos manipulados, narrativas de origem pouco clara e produção automatizada de texto, imagem e vídeo, a credibilidade passou a exigir um esforço diário mais intenso.

O relatório refere uma era de “fake news” e conteúdos de baixa qualidade gerados por inteligência artificial, na qual os jornalistas passam mais tempo a confirmar factos e a proteger a confiança do público. O desafio já não consiste apenas em encontrar informação relevante. Inclui também perceber de onde vem, quem a produziu e se existem provas suficientes para a publicar.

A pressão cresce porque a rapidez continua a ser determinante. As redações precisam de responder ao ciclo noticioso, aos algoritmos e às expectativas das audiências, mesmo quando a verificação exige mais tempo. A velocidade e o rigor, dois princípios que nem sempre avançam ao mesmo ritmo, estão cada vez mais em tensão.


As redações trabalham com menos recursos

A escassez de recursos foi referida por 49% dos jornalistas, face aos 29% registados em 2025. O aumento de 20 pontos percentuais mostra até que ponto os cortes de pessoal, a redução de orçamentos e o crescimento da carga de trabalho se tornaram centrais na experiência profissional.

Equipas mais pequenas continuam a ter de assegurar a cobertura noticiosa, alimentar canais digitais, acompanhar redes sociais e responder às exigências de novas audiências. O problema está na dificuldade de garantir profundidade, contexto e verificação quando o tempo disponível diminui.

A combinação entre mais informação e menos recursos cria um paradoxo: quanto maior é o risco de desinformação, maior deveria ser a capacidade de investigação e confirmação. No entanto, muitos jornalistas enfrentam precisamente a situação contrária.


A inteligência artificial acelera tudo e aumenta o risco

O impacto da inteligência artificial no jornalismo é apontado por 43% dos inquiridos como um dos principais desafios. A tecnologia pode acelerar pesquisas, organizar informação e apoiar tarefas rotineiras, embora introduza também novas fontes de erro, conteúdos falsos e dúvidas sobre autoria.

O relatório mostra que a utilização destas ferramentas está a crescer. A percentagem de jornalistas que afirma não usar IA generativa caiu de 33% em 2025 para 21% em 2026. Ainda assim, a maioria recorre-lhe sobretudo como apoio ao processo, e não como substituto da redação final.

Entre os usos mais frequentes estão a procura de ângulos, perguntas de entrevista e títulos, referida por 48% dos profissionais. A pesquisa ou verificação de factos surge com 43%, enquanto 41% usam IA para transcrever ou resumir entrevistas e ficheiros de áudio. Apenas 27% dizem utilizá-la diretamente na criação de conteúdo.

Os dados revelam uma adoção cautelosa. A IA ajuda a fazer mais em menos tempo, embora obrigue a uma nova camada de confirmação. Uma ferramenta que acelera o trabalho pode também produzir respostas incorretas, inventar informação ou repetir preconceitos presentes nos dados com que foi desenvolvida.


As audiências mudaram e os jornalistas têm de acompanhar

A adaptação às mudanças no comportamento do público e nas tendências de consumo é referida por 42% dos jornalistas. As notícias circulam hoje em sites, redes sociais, newsletters, podcasts, vídeos e plataformas controladas por algoritmos, fragmentando a atenção e tornando menos previsível a relação entre publicação e audiência.

O jornalista deixou de trabalhar apenas para um suporte. Precisa de compreender diferentes formatos, adaptar narrativas e acompanhar a forma como cada plataforma distribui os conteúdos. Ao mesmo tempo, enfrenta públicos que esperam rapidez, acesso permanente e informação apresentada de maneira cada vez mais direta.

Esta transformação implica perceber que o contacto com o público também mudou. A notícia concorre com entretenimento, opinião, conteúdo de influenciadores, comunicação de marcas e publicações criadas especificamente para captar a lógica dos algoritmos.


E a concorrência já não vem apenas de outros meios

A concorrência de meios de comunicação e criadores não tradicionais é apontada por 28% dos profissionais. Jornalistas e redações disputam a atenção com criadores independentes, comentadores, newsletters pessoais e contas que publicam diretamente para comunidades próprias.

A diferença está nas regras do jogo. Os meios jornalísticos trabalham com princípios de verificação, responsabilidade editorial e direito de resposta. Os criadores independentes podem atuar com maior velocidade e liberdade, mesmo quando não estão sujeitos aos mesmos mecanismos de controlo.

Esta concorrência contribui para aproximar o jornalista da figura do criador de conteúdo. Já não basta investigar e escrever. É também necessário distribuir, promover, construir uma presença digital e manter uma relação continuada com a audiência.


SEO, algoritmos e conteúdos patrocinados aumentam a pressão

As pressões comerciais são mencionadas por 27% dos jornalistas. SEO, algoritmos e conteúdo patrocinado influenciam decisões editoriais, formatos e prioridades, num setor que procura modelos de negócio sustentáveis enquanto tenta preservar a sua independência.

A necessidade de gerar tráfego pode favorecer títulos mais apelativos, temas com maior procura e conteúdos capazes de circular nas plataformas. O risco surge quando a lógica da distribuição começa a sobrepor-se ao valor informativo.

Os algoritmos introduzem ainda uma dependência difícil de controlar. Uma alteração na forma como uma plataforma recomenda notícias pode reduzir subitamente o alcance de uma publicação, independentemente da qualidade do trabalho produzido. As redações tornam-se, assim, dependentes de sistemas externos para chegar aos seus próprios públicos.


Fazer mais com menos sem perder a confiança

O relatório da Cision descreve uma profissão pressionada pela tecnologia, pela transformação das audiências, pela concorrência e pela falta de recursos. Todos estes fatores convergem num mesmo problema: como preservar a qualidade do jornalismo num ambiente que recompensa a rapidez e exige uma produção constante?

A inteligência artificial poderá aliviar algumas tarefas e aumentar a produtividade. Também obrigará os jornalistas a verificar novas formas de conteúdo e a distinguir informação credível de materiais produzidos ou manipulados automaticamente.

O desafio central permanece a confiança. Perante uma quantidade crescente de informação e uma capacidade limitada para a confirmar, o jornalismo terá de defender aquilo que o distingue: rigor, contexto, responsabilidade e transparência sobre a forma como as histórias são apuradas.

Em 2026, produzir informação já não é suficiente. O verdadeiro trabalho está em provar por que razão essa informação merece ser considerada verdadeira.

Apesar da dependência crescente das relações públicas, a relação continua marcada por um problema de qualidade. A maioria dos jornalistas recebe mais de 50 propostas por semana e 72% considera que apenas um quarto, ou menos, é relevante para a sua área e para o seu público.

A irrelevância é o principal motivo para rejeitar uma proposta, apontado por 82% dos inquiridos. Seguem-se o tom demasiado promocional ou orientado para vendas, com 53%, e a ausência de um ângulo ou ponto de vista claro, com 34%.

Os dados mostram que o excesso de contactos não se traduz necessariamente em melhores oportunidades editoriais. Para jornalistas com pouco tempo, uma proposta genérica, enviada em massa ou sem ligação à publicação representa apenas mais informação para filtrar.

Quando questionados sobre os elementos que mais valorizam, 79% referem a relevância para a sua especialização, público ou área de cobertura. A oportunidade noticiosa surge com 35%, os dados ou estudos credíveis com 33% e o acesso exclusivo a entrevistas, eventos ou produtos com 27%.


O jornalista tornou-se multiplataforma

A redução de recursos não diminuiu o número de tarefas. Além da sua função principal, 47% dos jornalistas contribuem também para um site digital, 35% para canais próprios das organizações, 29% para canais pessoais, 23% para newsletters e 22% para podcasts.

As redes sociais passaram igualmente a integrar o trabalho diário. Mais de metade dos inquiridos, 54%, usa-as para publicar e promover conteúdos. Outros 37% recorrem a estas plataformas para recolher informação e a mesma percentagem para interagir com o público.

O LinkedIn é a rede mais utilizada profissionalmente, referida por 62% dos jornalistas, e também a mais valorizada para o trabalho, escolhida por 33%. Instagram, Facebook, X e YouTube continuam a ter peso, revelando que o jornalista contemporâneo já não se limita a produzir uma peça: também a distribui, promove e adapta a diferentes públicos.

Esta realidade aproxima o trabalho jornalístico do universo dos criadores de conteúdo, embora com exigências adicionais de verificação, independência e responsabilidade editorial.


Uma profissão entre a velocidade e a confiança

O Estado dos Media 2026 descreve um setor obrigado a fazer mais com menos. Há mais canais, mais formatos, mais pressão para captar audiências e mais informação por confirmar. Ao mesmo tempo, há menos recursos disponíveis para investigar, verificar e contextualizar.

A inteligência artificial pode acelerar algumas tarefas, embora também amplifique o risco de erro e desinformação. As relações públicas podem facilitar o acesso a fontes, dados e histórias, embora apenas quando trabalham com relevância, transparência e rigor.

No centro de todas estas mudanças permanece a confiança. É esse o ativo que os jornalistas procuram proteger num ambiente dominado pela velocidade, pelos algoritmos e por conteúdos de origem cada vez mais difícil de identificar.

O desafio do presente e do futuro está em garantir que existe tempo, conhecimento e estrutura para perceber em que informação se pode confiar.


(C) Foto de Annie Spratt na Unsplash

#Conhecimento

Desinformação e falta de recursos são os maiores desafios dos jornalistas em 2026

A exatidão, a verificação de factos e o combate à desinformação são apontados por metade dos jornalistas como o maior desafio da profissão. Logo depois surge a escassez de recursos, referida por 49% dos profissionais, num retrato de redações obrigadas a confirmar mais informação, acompanhar mais plataformas e produzir para mais formatos com equipas cada vez mais reduzidas.

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11 de jun. de 2026, 17:09

As conclusões fazem parte do relatório O Estado dos Media 2026, elaborado pela Cision a partir das respostas de 1899 profissionais de 19 mercados, entre os quais Portugal. Os inquéritos foram realizados em janeiro e fevereiro de 2026, e os resultados são globais, pelo que não permitem isolar a realidade portuguesa.


A desinformação chega ao topo das preocupações

A verificação da informação ocupa agora o primeiro lugar entre as dificuldades identificadas pelos jornalistas. Num ambiente marcado por conteúdos manipulados, narrativas de origem pouco clara e produção automatizada de texto, imagem e vídeo, a credibilidade passou a exigir um esforço diário mais intenso.

O relatório refere uma era de “fake news” e conteúdos de baixa qualidade gerados por inteligência artificial, na qual os jornalistas passam mais tempo a confirmar factos e a proteger a confiança do público. O desafio já não consiste apenas em encontrar informação relevante. Inclui também perceber de onde vem, quem a produziu e se existem provas suficientes para a publicar.

A pressão cresce porque a rapidez continua a ser determinante. As redações precisam de responder ao ciclo noticioso, aos algoritmos e às expectativas das audiências, mesmo quando a verificação exige mais tempo. A velocidade e o rigor, dois princípios que nem sempre avançam ao mesmo ritmo, estão cada vez mais em tensão.


As redações trabalham com menos recursos

A escassez de recursos foi referida por 49% dos jornalistas, face aos 29% registados em 2025. O aumento de 20 pontos percentuais mostra até que ponto os cortes de pessoal, a redução de orçamentos e o crescimento da carga de trabalho se tornaram centrais na experiência profissional.

Equipas mais pequenas continuam a ter de assegurar a cobertura noticiosa, alimentar canais digitais, acompanhar redes sociais e responder às exigências de novas audiências. O problema está na dificuldade de garantir profundidade, contexto e verificação quando o tempo disponível diminui.

A combinação entre mais informação e menos recursos cria um paradoxo: quanto maior é o risco de desinformação, maior deveria ser a capacidade de investigação e confirmação. No entanto, muitos jornalistas enfrentam precisamente a situação contrária.


A inteligência artificial acelera tudo e aumenta o risco

O impacto da inteligência artificial no jornalismo é apontado por 43% dos inquiridos como um dos principais desafios. A tecnologia pode acelerar pesquisas, organizar informação e apoiar tarefas rotineiras, embora introduza também novas fontes de erro, conteúdos falsos e dúvidas sobre autoria.

O relatório mostra que a utilização destas ferramentas está a crescer. A percentagem de jornalistas que afirma não usar IA generativa caiu de 33% em 2025 para 21% em 2026. Ainda assim, a maioria recorre-lhe sobretudo como apoio ao processo, e não como substituto da redação final.

Entre os usos mais frequentes estão a procura de ângulos, perguntas de entrevista e títulos, referida por 48% dos profissionais. A pesquisa ou verificação de factos surge com 43%, enquanto 41% usam IA para transcrever ou resumir entrevistas e ficheiros de áudio. Apenas 27% dizem utilizá-la diretamente na criação de conteúdo.

Os dados revelam uma adoção cautelosa. A IA ajuda a fazer mais em menos tempo, embora obrigue a uma nova camada de confirmação. Uma ferramenta que acelera o trabalho pode também produzir respostas incorretas, inventar informação ou repetir preconceitos presentes nos dados com que foi desenvolvida.


As audiências mudaram e os jornalistas têm de acompanhar

A adaptação às mudanças no comportamento do público e nas tendências de consumo é referida por 42% dos jornalistas. As notícias circulam hoje em sites, redes sociais, newsletters, podcasts, vídeos e plataformas controladas por algoritmos, fragmentando a atenção e tornando menos previsível a relação entre publicação e audiência.

O jornalista deixou de trabalhar apenas para um suporte. Precisa de compreender diferentes formatos, adaptar narrativas e acompanhar a forma como cada plataforma distribui os conteúdos. Ao mesmo tempo, enfrenta públicos que esperam rapidez, acesso permanente e informação apresentada de maneira cada vez mais direta.

Esta transformação implica perceber que o contacto com o público também mudou. A notícia concorre com entretenimento, opinião, conteúdo de influenciadores, comunicação de marcas e publicações criadas especificamente para captar a lógica dos algoritmos.


E a concorrência já não vem apenas de outros meios

A concorrência de meios de comunicação e criadores não tradicionais é apontada por 28% dos profissionais. Jornalistas e redações disputam a atenção com criadores independentes, comentadores, newsletters pessoais e contas que publicam diretamente para comunidades próprias.

A diferença está nas regras do jogo. Os meios jornalísticos trabalham com princípios de verificação, responsabilidade editorial e direito de resposta. Os criadores independentes podem atuar com maior velocidade e liberdade, mesmo quando não estão sujeitos aos mesmos mecanismos de controlo.

Esta concorrência contribui para aproximar o jornalista da figura do criador de conteúdo. Já não basta investigar e escrever. É também necessário distribuir, promover, construir uma presença digital e manter uma relação continuada com a audiência.


SEO, algoritmos e conteúdos patrocinados aumentam a pressão

As pressões comerciais são mencionadas por 27% dos jornalistas. SEO, algoritmos e conteúdo patrocinado influenciam decisões editoriais, formatos e prioridades, num setor que procura modelos de negócio sustentáveis enquanto tenta preservar a sua independência.

A necessidade de gerar tráfego pode favorecer títulos mais apelativos, temas com maior procura e conteúdos capazes de circular nas plataformas. O risco surge quando a lógica da distribuição começa a sobrepor-se ao valor informativo.

Os algoritmos introduzem ainda uma dependência difícil de controlar. Uma alteração na forma como uma plataforma recomenda notícias pode reduzir subitamente o alcance de uma publicação, independentemente da qualidade do trabalho produzido. As redações tornam-se, assim, dependentes de sistemas externos para chegar aos seus próprios públicos.


Fazer mais com menos sem perder a confiança

O relatório da Cision descreve uma profissão pressionada pela tecnologia, pela transformação das audiências, pela concorrência e pela falta de recursos. Todos estes fatores convergem num mesmo problema: como preservar a qualidade do jornalismo num ambiente que recompensa a rapidez e exige uma produção constante?

A inteligência artificial poderá aliviar algumas tarefas e aumentar a produtividade. Também obrigará os jornalistas a verificar novas formas de conteúdo e a distinguir informação credível de materiais produzidos ou manipulados automaticamente.

O desafio central permanece a confiança. Perante uma quantidade crescente de informação e uma capacidade limitada para a confirmar, o jornalismo terá de defender aquilo que o distingue: rigor, contexto, responsabilidade e transparência sobre a forma como as histórias são apuradas.

Em 2026, produzir informação já não é suficiente. O verdadeiro trabalho está em provar por que razão essa informação merece ser considerada verdadeira.

Apesar da dependência crescente das relações públicas, a relação continua marcada por um problema de qualidade. A maioria dos jornalistas recebe mais de 50 propostas por semana e 72% considera que apenas um quarto, ou menos, é relevante para a sua área e para o seu público.

A irrelevância é o principal motivo para rejeitar uma proposta, apontado por 82% dos inquiridos. Seguem-se o tom demasiado promocional ou orientado para vendas, com 53%, e a ausência de um ângulo ou ponto de vista claro, com 34%.

Os dados mostram que o excesso de contactos não se traduz necessariamente em melhores oportunidades editoriais. Para jornalistas com pouco tempo, uma proposta genérica, enviada em massa ou sem ligação à publicação representa apenas mais informação para filtrar.

Quando questionados sobre os elementos que mais valorizam, 79% referem a relevância para a sua especialização, público ou área de cobertura. A oportunidade noticiosa surge com 35%, os dados ou estudos credíveis com 33% e o acesso exclusivo a entrevistas, eventos ou produtos com 27%.


O jornalista tornou-se multiplataforma

A redução de recursos não diminuiu o número de tarefas. Além da sua função principal, 47% dos jornalistas contribuem também para um site digital, 35% para canais próprios das organizações, 29% para canais pessoais, 23% para newsletters e 22% para podcasts.

As redes sociais passaram igualmente a integrar o trabalho diário. Mais de metade dos inquiridos, 54%, usa-as para publicar e promover conteúdos. Outros 37% recorrem a estas plataformas para recolher informação e a mesma percentagem para interagir com o público.

O LinkedIn é a rede mais utilizada profissionalmente, referida por 62% dos jornalistas, e também a mais valorizada para o trabalho, escolhida por 33%. Instagram, Facebook, X e YouTube continuam a ter peso, revelando que o jornalista contemporâneo já não se limita a produzir uma peça: também a distribui, promove e adapta a diferentes públicos.

Esta realidade aproxima o trabalho jornalístico do universo dos criadores de conteúdo, embora com exigências adicionais de verificação, independência e responsabilidade editorial.


Uma profissão entre a velocidade e a confiança

O Estado dos Media 2026 descreve um setor obrigado a fazer mais com menos. Há mais canais, mais formatos, mais pressão para captar audiências e mais informação por confirmar. Ao mesmo tempo, há menos recursos disponíveis para investigar, verificar e contextualizar.

A inteligência artificial pode acelerar algumas tarefas, embora também amplifique o risco de erro e desinformação. As relações públicas podem facilitar o acesso a fontes, dados e histórias, embora apenas quando trabalham com relevância, transparência e rigor.

No centro de todas estas mudanças permanece a confiança. É esse o ativo que os jornalistas procuram proteger num ambiente dominado pela velocidade, pelos algoritmos e por conteúdos de origem cada vez mais difícil de identificar.

O desafio do presente e do futuro está em garantir que existe tempo, conhecimento e estrutura para perceber em que informação se pode confiar.


(C) Foto de Annie Spratt na Unsplash
#Conhecimento

Desinformação e falta de recursos são os maiores desafios dos jornalistas em 2026

A exatidão, a verificação de factos e o combate à desinformação são apontados por metade dos jornalistas como o maior desafio da profissão. Logo depois surge a escassez de recursos, referida por 49% dos profissionais, num retrato de redações obrigadas a confirmar mais informação, acompanhar mais plataformas e produzir para mais formatos com equipas cada vez mais reduzidas.

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11 de jun. de 2026, 17:09

As conclusões fazem parte do relatório O Estado dos Media 2026, elaborado pela Cision a partir das respostas de 1899 profissionais de 19 mercados, entre os quais Portugal. Os inquéritos foram realizados em janeiro e fevereiro de 2026, e os resultados são globais, pelo que não permitem isolar a realidade portuguesa.


A desinformação chega ao topo das preocupações

A verificação da informação ocupa agora o primeiro lugar entre as dificuldades identificadas pelos jornalistas. Num ambiente marcado por conteúdos manipulados, narrativas de origem pouco clara e produção automatizada de texto, imagem e vídeo, a credibilidade passou a exigir um esforço diário mais intenso.

O relatório refere uma era de “fake news” e conteúdos de baixa qualidade gerados por inteligência artificial, na qual os jornalistas passam mais tempo a confirmar factos e a proteger a confiança do público. O desafio já não consiste apenas em encontrar informação relevante. Inclui também perceber de onde vem, quem a produziu e se existem provas suficientes para a publicar.

A pressão cresce porque a rapidez continua a ser determinante. As redações precisam de responder ao ciclo noticioso, aos algoritmos e às expectativas das audiências, mesmo quando a verificação exige mais tempo. A velocidade e o rigor, dois princípios que nem sempre avançam ao mesmo ritmo, estão cada vez mais em tensão.


As redações trabalham com menos recursos

A escassez de recursos foi referida por 49% dos jornalistas, face aos 29% registados em 2025. O aumento de 20 pontos percentuais mostra até que ponto os cortes de pessoal, a redução de orçamentos e o crescimento da carga de trabalho se tornaram centrais na experiência profissional.

Equipas mais pequenas continuam a ter de assegurar a cobertura noticiosa, alimentar canais digitais, acompanhar redes sociais e responder às exigências de novas audiências. O problema está na dificuldade de garantir profundidade, contexto e verificação quando o tempo disponível diminui.

A combinação entre mais informação e menos recursos cria um paradoxo: quanto maior é o risco de desinformação, maior deveria ser a capacidade de investigação e confirmação. No entanto, muitos jornalistas enfrentam precisamente a situação contrária.


A inteligência artificial acelera tudo e aumenta o risco

O impacto da inteligência artificial no jornalismo é apontado por 43% dos inquiridos como um dos principais desafios. A tecnologia pode acelerar pesquisas, organizar informação e apoiar tarefas rotineiras, embora introduza também novas fontes de erro, conteúdos falsos e dúvidas sobre autoria.

O relatório mostra que a utilização destas ferramentas está a crescer. A percentagem de jornalistas que afirma não usar IA generativa caiu de 33% em 2025 para 21% em 2026. Ainda assim, a maioria recorre-lhe sobretudo como apoio ao processo, e não como substituto da redação final.

Entre os usos mais frequentes estão a procura de ângulos, perguntas de entrevista e títulos, referida por 48% dos profissionais. A pesquisa ou verificação de factos surge com 43%, enquanto 41% usam IA para transcrever ou resumir entrevistas e ficheiros de áudio. Apenas 27% dizem utilizá-la diretamente na criação de conteúdo.

Os dados revelam uma adoção cautelosa. A IA ajuda a fazer mais em menos tempo, embora obrigue a uma nova camada de confirmação. Uma ferramenta que acelera o trabalho pode também produzir respostas incorretas, inventar informação ou repetir preconceitos presentes nos dados com que foi desenvolvida.


As audiências mudaram e os jornalistas têm de acompanhar

A adaptação às mudanças no comportamento do público e nas tendências de consumo é referida por 42% dos jornalistas. As notícias circulam hoje em sites, redes sociais, newsletters, podcasts, vídeos e plataformas controladas por algoritmos, fragmentando a atenção e tornando menos previsível a relação entre publicação e audiência.

O jornalista deixou de trabalhar apenas para um suporte. Precisa de compreender diferentes formatos, adaptar narrativas e acompanhar a forma como cada plataforma distribui os conteúdos. Ao mesmo tempo, enfrenta públicos que esperam rapidez, acesso permanente e informação apresentada de maneira cada vez mais direta.

Esta transformação implica perceber que o contacto com o público também mudou. A notícia concorre com entretenimento, opinião, conteúdo de influenciadores, comunicação de marcas e publicações criadas especificamente para captar a lógica dos algoritmos.


E a concorrência já não vem apenas de outros meios

A concorrência de meios de comunicação e criadores não tradicionais é apontada por 28% dos profissionais. Jornalistas e redações disputam a atenção com criadores independentes, comentadores, newsletters pessoais e contas que publicam diretamente para comunidades próprias.

A diferença está nas regras do jogo. Os meios jornalísticos trabalham com princípios de verificação, responsabilidade editorial e direito de resposta. Os criadores independentes podem atuar com maior velocidade e liberdade, mesmo quando não estão sujeitos aos mesmos mecanismos de controlo.

Esta concorrência contribui para aproximar o jornalista da figura do criador de conteúdo. Já não basta investigar e escrever. É também necessário distribuir, promover, construir uma presença digital e manter uma relação continuada com a audiência.


SEO, algoritmos e conteúdos patrocinados aumentam a pressão

As pressões comerciais são mencionadas por 27% dos jornalistas. SEO, algoritmos e conteúdo patrocinado influenciam decisões editoriais, formatos e prioridades, num setor que procura modelos de negócio sustentáveis enquanto tenta preservar a sua independência.

A necessidade de gerar tráfego pode favorecer títulos mais apelativos, temas com maior procura e conteúdos capazes de circular nas plataformas. O risco surge quando a lógica da distribuição começa a sobrepor-se ao valor informativo.

Os algoritmos introduzem ainda uma dependência difícil de controlar. Uma alteração na forma como uma plataforma recomenda notícias pode reduzir subitamente o alcance de uma publicação, independentemente da qualidade do trabalho produzido. As redações tornam-se, assim, dependentes de sistemas externos para chegar aos seus próprios públicos.


Fazer mais com menos sem perder a confiança

O relatório da Cision descreve uma profissão pressionada pela tecnologia, pela transformação das audiências, pela concorrência e pela falta de recursos. Todos estes fatores convergem num mesmo problema: como preservar a qualidade do jornalismo num ambiente que recompensa a rapidez e exige uma produção constante?

A inteligência artificial poderá aliviar algumas tarefas e aumentar a produtividade. Também obrigará os jornalistas a verificar novas formas de conteúdo e a distinguir informação credível de materiais produzidos ou manipulados automaticamente.

O desafio central permanece a confiança. Perante uma quantidade crescente de informação e uma capacidade limitada para a confirmar, o jornalismo terá de defender aquilo que o distingue: rigor, contexto, responsabilidade e transparência sobre a forma como as histórias são apuradas.

Em 2026, produzir informação já não é suficiente. O verdadeiro trabalho está em provar por que razão essa informação merece ser considerada verdadeira.

Apesar da dependência crescente das relações públicas, a relação continua marcada por um problema de qualidade. A maioria dos jornalistas recebe mais de 50 propostas por semana e 72% considera que apenas um quarto, ou menos, é relevante para a sua área e para o seu público.

A irrelevância é o principal motivo para rejeitar uma proposta, apontado por 82% dos inquiridos. Seguem-se o tom demasiado promocional ou orientado para vendas, com 53%, e a ausência de um ângulo ou ponto de vista claro, com 34%.

Os dados mostram que o excesso de contactos não se traduz necessariamente em melhores oportunidades editoriais. Para jornalistas com pouco tempo, uma proposta genérica, enviada em massa ou sem ligação à publicação representa apenas mais informação para filtrar.

Quando questionados sobre os elementos que mais valorizam, 79% referem a relevância para a sua especialização, público ou área de cobertura. A oportunidade noticiosa surge com 35%, os dados ou estudos credíveis com 33% e o acesso exclusivo a entrevistas, eventos ou produtos com 27%.


O jornalista tornou-se multiplataforma

A redução de recursos não diminuiu o número de tarefas. Além da sua função principal, 47% dos jornalistas contribuem também para um site digital, 35% para canais próprios das organizações, 29% para canais pessoais, 23% para newsletters e 22% para podcasts.

As redes sociais passaram igualmente a integrar o trabalho diário. Mais de metade dos inquiridos, 54%, usa-as para publicar e promover conteúdos. Outros 37% recorrem a estas plataformas para recolher informação e a mesma percentagem para interagir com o público.

O LinkedIn é a rede mais utilizada profissionalmente, referida por 62% dos jornalistas, e também a mais valorizada para o trabalho, escolhida por 33%. Instagram, Facebook, X e YouTube continuam a ter peso, revelando que o jornalista contemporâneo já não se limita a produzir uma peça: também a distribui, promove e adapta a diferentes públicos.

Esta realidade aproxima o trabalho jornalístico do universo dos criadores de conteúdo, embora com exigências adicionais de verificação, independência e responsabilidade editorial.


Uma profissão entre a velocidade e a confiança

O Estado dos Media 2026 descreve um setor obrigado a fazer mais com menos. Há mais canais, mais formatos, mais pressão para captar audiências e mais informação por confirmar. Ao mesmo tempo, há menos recursos disponíveis para investigar, verificar e contextualizar.

A inteligência artificial pode acelerar algumas tarefas, embora também amplifique o risco de erro e desinformação. As relações públicas podem facilitar o acesso a fontes, dados e histórias, embora apenas quando trabalham com relevância, transparência e rigor.

No centro de todas estas mudanças permanece a confiança. É esse o ativo que os jornalistas procuram proteger num ambiente dominado pela velocidade, pelos algoritmos e por conteúdos de origem cada vez mais difícil de identificar.

O desafio do presente e do futuro está em garantir que existe tempo, conhecimento e estrutura para perceber em que informação se pode confiar.


(C) Foto de Annie Spratt na Unsplash

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