#Conhecimento

Burnout: porque as férias podem não chegar para recuperar do esgotamento

As férias podem aliviar o cansaço, mas, por si só, não resolvem uma relação com o trabalho que se tornou insustentável. Entre sinais que se normalizam, culturas de disponibilidade permanente e regressos demasiado rápidos ao mesmo ritmo, o burnout expõe um problema que é simultaneamente individual e organizacional. A partir de um testemunho na primeira pessoa e da análise da psicóloga Luísa Leal, o MOTIVO procura perceber onde termina o stress e começa o esgotamento, e o que pode ser feito antes de se chegar ao limite.

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13 de ago. de 2026, 08:08

Daniela Pontes percebeu que já não estava apenas cansada quando deixou de sentir alegria nas pequenas coisas, como conversar e rir com as colegas. “Todos os dias exigiam um enorme esforço apenas para me levantar, vestir e ir trabalhar”, recorda a jovem de 29 anos, que começou também a ter suores intensos, ataques de pânico, enxaquecas e problemas de sono. Aos poucos, isolou-se, deixou de comunicar com as pessoas e perdeu a motivação.

Procurou ajuda psiquiátrica e iniciou tratamento. Pouco depois, tomou outra decisão: sair daquele emprego. “Percebi que o ambiente de trabalho já não era saudável para mim e que, para recuperar, precisava de me afastar daquilo que estava a contribuir para o meu desgaste”. O regresso posterior ao mercado de trabalho também não foi automático. Daniela descreve-o como um processo difícil, marcado pela perda de confiança e pelo isolamento, que a levou a repensar a forma como se relacionava com o trabalho e com as pessoas à sua volta.


Daniela Pontes tem 29 anos e já lidou com um quadro de burnout


O burnout tem sido tema de estudos, reportagens e entrevistas ao longo de todos os meses, nos últimos anos, mas decidimos trazê-lo para o MOTIVO em agosto, quando milhares de trabalhadores trocam o computador pelas férias com uma frase mais ou menos consciente na cabeça: “Eu preciso é de descansar”. O problema está em perceber quando o descanso é suficiente e quando aquilo que sentimos já ultrapassou uma fase exigente.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenómeno ocupacional resultante de stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso, caracterizado por esgotamento, distanciamento ou cinismo relativamente ao trabalho e redução da eficácia profissional. A OMS não o classifica como uma doença ou condição médica e circunscreve o conceito ao contexto profissional.

Os números ajudam a perceber a dimensão do desgaste. O STADA Health Report, no seu amplo estudo anual, revelou que cerca de 61% dos portugueses sentem-se esgotados ou em risco de burnout.

Para Luísa Leal, psicóloga clínica e neuropsicóloga, uma das dificuldades está precisamente na normalização dos primeiros sinais. “A pessoa começa por pensar: ‘Isto é só uma fase’, ‘quando acabar este projeto passa’, ‘eu preciso é de umas férias’”. Cansaço persistente, dificuldade em desligar, alterações do sono, irritabilidade, problemas de concentração e memória podem juntar-se a mudanças aparentemente banais: deixar de fazer exercício, comer pior, afastar-se dos outros ou trabalhar cada vez mais horas. “Muitas vezes, aquilo que inicialmente parece apenas ‘mau humor’ é já um indicador de que os recursos da pessoa estão a ficar afetados e comprometidos”, avisa a especialista, fundadora do Centro Clínico Dra. Luísa Leal Saúde Mental e Bem-estar.


Luísa Leal é psicóloga clínica e neuropsicóloga e acompanha pacientes com quadros de esgotamento


O burnout também não pode ser reduzido à capacidade individual de suportar pressão. Luísa Leal aponta para culturas empresariais que valorizam a disponibilidade permanente, a produtividade a qualquer custo, objetivos pouco realistas, falta de autonomia e reconhecimento, conflitos ou ausência de apoio das chefias. “Existe uma cultura particularmente perigosa: a de elogiar e enaltecer o excesso de trabalho”. Quando responder a emails de madrugada, nunca tirar férias ou estar sempre disponível se transforma em sinal de dedicação, acrescenta, a organização acaba por transmitir a ideia de que estabelecer limites é incompatível com ser um bom profissional.

A tecnologia tornou essa fronteira ainda mais fácil de atravessar. O teletrabalho, esclarece a psicóloga, pode trazer autonomia e flexibilidade, mas o risco aumenta quando essa flexibilidade se converte em disponibilidade permanente. “Descansar não significa apenas não estar a trabalhar. Descansar implica, também, conseguir desligar psicologicamente do trabalho”. O email noturno, a mensagem ao fim de semana ou a expectativa de resposta imediata mantêm a ligação ao trabalho mesmo quando o computador já está desligado.

E é precisamente aqui que entram as férias. Para quem ainda não chegou a uma situação extrema, Luísa Leal vê o regresso como “um momento de prevenção”: em vez de recuperar durante duas semanas e regressar em dois ou três dias exatamente ao mesmo ritmo, vale a pena perguntar “o que é que me levava a um limite antes das férias?” e “o que posso mudar já?”. Horários mais claros, menor disponibilidade fora do período de trabalho, prioridades realistas e proteção efetiva do tempo de descanso são algumas das mudanças possíveis.


Sentirmo-nos melhor na praia, numa viagem ou simplesmente longe das notificações também não significa que o problema anterior tenha desaparecido. “As férias podem ajudar-nos a recuperar energia, mas não devem ser usadas como um tratamento para uma organização de trabalho que continua a ser insustentável”, alerta Luísa Leal. Se a exaustão, irritabilidade, desmotivação, alterações do sono, dificuldades cognitivas ou sintomas físicos persistirem apesar do descanso, a psicóloga recomenda procurar avaliação profissional.

A responsabilidade também chega às empresas. Perante uma equipa onde se acumulam exaustão, irritabilidade, absentismo ou perda de desempenho, a primeira pergunta deveria dirigir-se às condições em que aquelas pessoas estão a trabalhar. Luísa Leal alerta para o risco de responder ao problema exclusivamente com iniciativas pontuais de bem-estar enquanto se mantêm cargas, horários e práticas que produziram o desgaste: “A intervenção individual é importante, mas não substitui a intervenção organizacional e vice-versa”.

Daniela Pontes continua a carregar marcas da experiência, embora tenha reconstruído a relação com o trabalho. Diz que hoje investe mais nas suas competências, procura consistência e valoriza uma comunicação mais saudável e próxima. Antes das férias, ou no momento do recomeço, vale a pena pensar sobre o tipo de vida profissional que queremos, e agir em torno disso, procurando ajuda, se necessário, mas garantindo que a saúde e o bem-estar estão acima dos resultados e da pressão profissional.


(C) Foto de Markus Winkler na Unsplash
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Burnout: porque as férias podem não chegar para recuperar do esgotamento

As férias podem aliviar o cansaço, mas, por si só, não resolvem uma relação com o trabalho que se tornou insustentável. Entre sinais que se normalizam, culturas de disponibilidade permanente e regressos demasiado rápidos ao mesmo ritmo, o burnout expõe um problema que é simultaneamente individual e organizacional. A partir de um testemunho na primeira pessoa e da análise da psicóloga Luísa Leal, o MOTIVO procura perceber onde termina o stress e começa o esgotamento, e o que pode ser feito antes de se chegar ao limite.

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13 de ago. de 2026, 08:08

Daniela Pontes percebeu que já não estava apenas cansada quando deixou de sentir alegria nas pequenas coisas, como conversar e rir com as colegas. “Todos os dias exigiam um enorme esforço apenas para me levantar, vestir e ir trabalhar”, recorda a jovem de 29 anos, que começou também a ter suores intensos, ataques de pânico, enxaquecas e problemas de sono. Aos poucos, isolou-se, deixou de comunicar com as pessoas e perdeu a motivação.

Procurou ajuda psiquiátrica e iniciou tratamento. Pouco depois, tomou outra decisão: sair daquele emprego. “Percebi que o ambiente de trabalho já não era saudável para mim e que, para recuperar, precisava de me afastar daquilo que estava a contribuir para o meu desgaste”. O regresso posterior ao mercado de trabalho também não foi automático. Daniela descreve-o como um processo difícil, marcado pela perda de confiança e pelo isolamento, que a levou a repensar a forma como se relacionava com o trabalho e com as pessoas à sua volta.


Daniela Pontes tem 29 anos e já lidou com um quadro de burnout


O burnout tem sido tema de estudos, reportagens e entrevistas ao longo de todos os meses, nos últimos anos, mas decidimos trazê-lo para o MOTIVO em agosto, quando milhares de trabalhadores trocam o computador pelas férias com uma frase mais ou menos consciente na cabeça: “Eu preciso é de descansar”. O problema está em perceber quando o descanso é suficiente e quando aquilo que sentimos já ultrapassou uma fase exigente.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenómeno ocupacional resultante de stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso, caracterizado por esgotamento, distanciamento ou cinismo relativamente ao trabalho e redução da eficácia profissional. A OMS não o classifica como uma doença ou condição médica e circunscreve o conceito ao contexto profissional.

Os números ajudam a perceber a dimensão do desgaste. O STADA Health Report, no seu amplo estudo anual, revelou que cerca de 61% dos portugueses sentem-se esgotados ou em risco de burnout.

Para Luísa Leal, psicóloga clínica e neuropsicóloga, uma das dificuldades está precisamente na normalização dos primeiros sinais. “A pessoa começa por pensar: ‘Isto é só uma fase’, ‘quando acabar este projeto passa’, ‘eu preciso é de umas férias’”. Cansaço persistente, dificuldade em desligar, alterações do sono, irritabilidade, problemas de concentração e memória podem juntar-se a mudanças aparentemente banais: deixar de fazer exercício, comer pior, afastar-se dos outros ou trabalhar cada vez mais horas. “Muitas vezes, aquilo que inicialmente parece apenas ‘mau humor’ é já um indicador de que os recursos da pessoa estão a ficar afetados e comprometidos”, avisa a especialista, fundadora do Centro Clínico Dra. Luísa Leal Saúde Mental e Bem-estar.


Luísa Leal é psicóloga clínica e neuropsicóloga e acompanha pacientes com quadros de esgotamento


O burnout também não pode ser reduzido à capacidade individual de suportar pressão. Luísa Leal aponta para culturas empresariais que valorizam a disponibilidade permanente, a produtividade a qualquer custo, objetivos pouco realistas, falta de autonomia e reconhecimento, conflitos ou ausência de apoio das chefias. “Existe uma cultura particularmente perigosa: a de elogiar e enaltecer o excesso de trabalho”. Quando responder a emails de madrugada, nunca tirar férias ou estar sempre disponível se transforma em sinal de dedicação, acrescenta, a organização acaba por transmitir a ideia de que estabelecer limites é incompatível com ser um bom profissional.

A tecnologia tornou essa fronteira ainda mais fácil de atravessar. O teletrabalho, esclarece a psicóloga, pode trazer autonomia e flexibilidade, mas o risco aumenta quando essa flexibilidade se converte em disponibilidade permanente. “Descansar não significa apenas não estar a trabalhar. Descansar implica, também, conseguir desligar psicologicamente do trabalho”. O email noturno, a mensagem ao fim de semana ou a expectativa de resposta imediata mantêm a ligação ao trabalho mesmo quando o computador já está desligado.

E é precisamente aqui que entram as férias. Para quem ainda não chegou a uma situação extrema, Luísa Leal vê o regresso como “um momento de prevenção”: em vez de recuperar durante duas semanas e regressar em dois ou três dias exatamente ao mesmo ritmo, vale a pena perguntar “o que é que me levava a um limite antes das férias?” e “o que posso mudar já?”. Horários mais claros, menor disponibilidade fora do período de trabalho, prioridades realistas e proteção efetiva do tempo de descanso são algumas das mudanças possíveis.


Sentirmo-nos melhor na praia, numa viagem ou simplesmente longe das notificações também não significa que o problema anterior tenha desaparecido. “As férias podem ajudar-nos a recuperar energia, mas não devem ser usadas como um tratamento para uma organização de trabalho que continua a ser insustentável”, alerta Luísa Leal. Se a exaustão, irritabilidade, desmotivação, alterações do sono, dificuldades cognitivas ou sintomas físicos persistirem apesar do descanso, a psicóloga recomenda procurar avaliação profissional.

A responsabilidade também chega às empresas. Perante uma equipa onde se acumulam exaustão, irritabilidade, absentismo ou perda de desempenho, a primeira pergunta deveria dirigir-se às condições em que aquelas pessoas estão a trabalhar. Luísa Leal alerta para o risco de responder ao problema exclusivamente com iniciativas pontuais de bem-estar enquanto se mantêm cargas, horários e práticas que produziram o desgaste: “A intervenção individual é importante, mas não substitui a intervenção organizacional e vice-versa”.

Daniela Pontes continua a carregar marcas da experiência, embora tenha reconstruído a relação com o trabalho. Diz que hoje investe mais nas suas competências, procura consistência e valoriza uma comunicação mais saudável e próxima. Antes das férias, ou no momento do recomeço, vale a pena pensar sobre o tipo de vida profissional que queremos, e agir em torno disso, procurando ajuda, se necessário, mas garantindo que a saúde e o bem-estar estão acima dos resultados e da pressão profissional.


(C) Foto de Markus Winkler na Unsplash

#Conhecimento

Burnout: porque as férias podem não chegar para recuperar do esgotamento

As férias podem aliviar o cansaço, mas, por si só, não resolvem uma relação com o trabalho que se tornou insustentável. Entre sinais que se normalizam, culturas de disponibilidade permanente e regressos demasiado rápidos ao mesmo ritmo, o burnout expõe um problema que é simultaneamente individual e organizacional. A partir de um testemunho na primeira pessoa e da análise da psicóloga Luísa Leal, o MOTIVO procura perceber onde termina o stress e começa o esgotamento, e o que pode ser feito antes de se chegar ao limite.

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13 de ago. de 2026, 08:08

Daniela Pontes percebeu que já não estava apenas cansada quando deixou de sentir alegria nas pequenas coisas, como conversar e rir com as colegas. “Todos os dias exigiam um enorme esforço apenas para me levantar, vestir e ir trabalhar”, recorda a jovem de 29 anos, que começou também a ter suores intensos, ataques de pânico, enxaquecas e problemas de sono. Aos poucos, isolou-se, deixou de comunicar com as pessoas e perdeu a motivação.

Procurou ajuda psiquiátrica e iniciou tratamento. Pouco depois, tomou outra decisão: sair daquele emprego. “Percebi que o ambiente de trabalho já não era saudável para mim e que, para recuperar, precisava de me afastar daquilo que estava a contribuir para o meu desgaste”. O regresso posterior ao mercado de trabalho também não foi automático. Daniela descreve-o como um processo difícil, marcado pela perda de confiança e pelo isolamento, que a levou a repensar a forma como se relacionava com o trabalho e com as pessoas à sua volta.


Daniela Pontes tem 29 anos e já lidou com um quadro de burnout


O burnout tem sido tema de estudos, reportagens e entrevistas ao longo de todos os meses, nos últimos anos, mas decidimos trazê-lo para o MOTIVO em agosto, quando milhares de trabalhadores trocam o computador pelas férias com uma frase mais ou menos consciente na cabeça: “Eu preciso é de descansar”. O problema está em perceber quando o descanso é suficiente e quando aquilo que sentimos já ultrapassou uma fase exigente.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenómeno ocupacional resultante de stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso, caracterizado por esgotamento, distanciamento ou cinismo relativamente ao trabalho e redução da eficácia profissional. A OMS não o classifica como uma doença ou condição médica e circunscreve o conceito ao contexto profissional.

Os números ajudam a perceber a dimensão do desgaste. O STADA Health Report, no seu amplo estudo anual, revelou que cerca de 61% dos portugueses sentem-se esgotados ou em risco de burnout.

Para Luísa Leal, psicóloga clínica e neuropsicóloga, uma das dificuldades está precisamente na normalização dos primeiros sinais. “A pessoa começa por pensar: ‘Isto é só uma fase’, ‘quando acabar este projeto passa’, ‘eu preciso é de umas férias’”. Cansaço persistente, dificuldade em desligar, alterações do sono, irritabilidade, problemas de concentração e memória podem juntar-se a mudanças aparentemente banais: deixar de fazer exercício, comer pior, afastar-se dos outros ou trabalhar cada vez mais horas. “Muitas vezes, aquilo que inicialmente parece apenas ‘mau humor’ é já um indicador de que os recursos da pessoa estão a ficar afetados e comprometidos”, avisa a especialista, fundadora do Centro Clínico Dra. Luísa Leal Saúde Mental e Bem-estar.


Luísa Leal é psicóloga clínica e neuropsicóloga e acompanha pacientes com quadros de esgotamento


O burnout também não pode ser reduzido à capacidade individual de suportar pressão. Luísa Leal aponta para culturas empresariais que valorizam a disponibilidade permanente, a produtividade a qualquer custo, objetivos pouco realistas, falta de autonomia e reconhecimento, conflitos ou ausência de apoio das chefias. “Existe uma cultura particularmente perigosa: a de elogiar e enaltecer o excesso de trabalho”. Quando responder a emails de madrugada, nunca tirar férias ou estar sempre disponível se transforma em sinal de dedicação, acrescenta, a organização acaba por transmitir a ideia de que estabelecer limites é incompatível com ser um bom profissional.

A tecnologia tornou essa fronteira ainda mais fácil de atravessar. O teletrabalho, esclarece a psicóloga, pode trazer autonomia e flexibilidade, mas o risco aumenta quando essa flexibilidade se converte em disponibilidade permanente. “Descansar não significa apenas não estar a trabalhar. Descansar implica, também, conseguir desligar psicologicamente do trabalho”. O email noturno, a mensagem ao fim de semana ou a expectativa de resposta imediata mantêm a ligação ao trabalho mesmo quando o computador já está desligado.

E é precisamente aqui que entram as férias. Para quem ainda não chegou a uma situação extrema, Luísa Leal vê o regresso como “um momento de prevenção”: em vez de recuperar durante duas semanas e regressar em dois ou três dias exatamente ao mesmo ritmo, vale a pena perguntar “o que é que me levava a um limite antes das férias?” e “o que posso mudar já?”. Horários mais claros, menor disponibilidade fora do período de trabalho, prioridades realistas e proteção efetiva do tempo de descanso são algumas das mudanças possíveis.


Sentirmo-nos melhor na praia, numa viagem ou simplesmente longe das notificações também não significa que o problema anterior tenha desaparecido. “As férias podem ajudar-nos a recuperar energia, mas não devem ser usadas como um tratamento para uma organização de trabalho que continua a ser insustentável”, alerta Luísa Leal. Se a exaustão, irritabilidade, desmotivação, alterações do sono, dificuldades cognitivas ou sintomas físicos persistirem apesar do descanso, a psicóloga recomenda procurar avaliação profissional.

A responsabilidade também chega às empresas. Perante uma equipa onde se acumulam exaustão, irritabilidade, absentismo ou perda de desempenho, a primeira pergunta deveria dirigir-se às condições em que aquelas pessoas estão a trabalhar. Luísa Leal alerta para o risco de responder ao problema exclusivamente com iniciativas pontuais de bem-estar enquanto se mantêm cargas, horários e práticas que produziram o desgaste: “A intervenção individual é importante, mas não substitui a intervenção organizacional e vice-versa”.

Daniela Pontes continua a carregar marcas da experiência, embora tenha reconstruído a relação com o trabalho. Diz que hoje investe mais nas suas competências, procura consistência e valoriza uma comunicação mais saudável e próxima. Antes das férias, ou no momento do recomeço, vale a pena pensar sobre o tipo de vida profissional que queremos, e agir em torno disso, procurando ajuda, se necessário, mas garantindo que a saúde e o bem-estar estão acima dos resultados e da pressão profissional.


(C) Foto de Markus Winkler na Unsplash
#Conhecimento

Burnout: porque as férias podem não chegar para recuperar do esgotamento

As férias podem aliviar o cansaço, mas, por si só, não resolvem uma relação com o trabalho que se tornou insustentável. Entre sinais que se normalizam, culturas de disponibilidade permanente e regressos demasiado rápidos ao mesmo ritmo, o burnout expõe um problema que é simultaneamente individual e organizacional. A partir de um testemunho na primeira pessoa e da análise da psicóloga Luísa Leal, o MOTIVO procura perceber onde termina o stress e começa o esgotamento, e o que pode ser feito antes de se chegar ao limite.

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13 de ago. de 2026, 08:08

Daniela Pontes percebeu que já não estava apenas cansada quando deixou de sentir alegria nas pequenas coisas, como conversar e rir com as colegas. “Todos os dias exigiam um enorme esforço apenas para me levantar, vestir e ir trabalhar”, recorda a jovem de 29 anos, que começou também a ter suores intensos, ataques de pânico, enxaquecas e problemas de sono. Aos poucos, isolou-se, deixou de comunicar com as pessoas e perdeu a motivação.

Procurou ajuda psiquiátrica e iniciou tratamento. Pouco depois, tomou outra decisão: sair daquele emprego. “Percebi que o ambiente de trabalho já não era saudável para mim e que, para recuperar, precisava de me afastar daquilo que estava a contribuir para o meu desgaste”. O regresso posterior ao mercado de trabalho também não foi automático. Daniela descreve-o como um processo difícil, marcado pela perda de confiança e pelo isolamento, que a levou a repensar a forma como se relacionava com o trabalho e com as pessoas à sua volta.


Daniela Pontes tem 29 anos e já lidou com um quadro de burnout


O burnout tem sido tema de estudos, reportagens e entrevistas ao longo de todos os meses, nos últimos anos, mas decidimos trazê-lo para o MOTIVO em agosto, quando milhares de trabalhadores trocam o computador pelas férias com uma frase mais ou menos consciente na cabeça: “Eu preciso é de descansar”. O problema está em perceber quando o descanso é suficiente e quando aquilo que sentimos já ultrapassou uma fase exigente.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenómeno ocupacional resultante de stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso, caracterizado por esgotamento, distanciamento ou cinismo relativamente ao trabalho e redução da eficácia profissional. A OMS não o classifica como uma doença ou condição médica e circunscreve o conceito ao contexto profissional.

Os números ajudam a perceber a dimensão do desgaste. O STADA Health Report, no seu amplo estudo anual, revelou que cerca de 61% dos portugueses sentem-se esgotados ou em risco de burnout.

Para Luísa Leal, psicóloga clínica e neuropsicóloga, uma das dificuldades está precisamente na normalização dos primeiros sinais. “A pessoa começa por pensar: ‘Isto é só uma fase’, ‘quando acabar este projeto passa’, ‘eu preciso é de umas férias’”. Cansaço persistente, dificuldade em desligar, alterações do sono, irritabilidade, problemas de concentração e memória podem juntar-se a mudanças aparentemente banais: deixar de fazer exercício, comer pior, afastar-se dos outros ou trabalhar cada vez mais horas. “Muitas vezes, aquilo que inicialmente parece apenas ‘mau humor’ é já um indicador de que os recursos da pessoa estão a ficar afetados e comprometidos”, avisa a especialista, fundadora do Centro Clínico Dra. Luísa Leal Saúde Mental e Bem-estar.


Luísa Leal é psicóloga clínica e neuropsicóloga e acompanha pacientes com quadros de esgotamento


O burnout também não pode ser reduzido à capacidade individual de suportar pressão. Luísa Leal aponta para culturas empresariais que valorizam a disponibilidade permanente, a produtividade a qualquer custo, objetivos pouco realistas, falta de autonomia e reconhecimento, conflitos ou ausência de apoio das chefias. “Existe uma cultura particularmente perigosa: a de elogiar e enaltecer o excesso de trabalho”. Quando responder a emails de madrugada, nunca tirar férias ou estar sempre disponível se transforma em sinal de dedicação, acrescenta, a organização acaba por transmitir a ideia de que estabelecer limites é incompatível com ser um bom profissional.

A tecnologia tornou essa fronteira ainda mais fácil de atravessar. O teletrabalho, esclarece a psicóloga, pode trazer autonomia e flexibilidade, mas o risco aumenta quando essa flexibilidade se converte em disponibilidade permanente. “Descansar não significa apenas não estar a trabalhar. Descansar implica, também, conseguir desligar psicologicamente do trabalho”. O email noturno, a mensagem ao fim de semana ou a expectativa de resposta imediata mantêm a ligação ao trabalho mesmo quando o computador já está desligado.

E é precisamente aqui que entram as férias. Para quem ainda não chegou a uma situação extrema, Luísa Leal vê o regresso como “um momento de prevenção”: em vez de recuperar durante duas semanas e regressar em dois ou três dias exatamente ao mesmo ritmo, vale a pena perguntar “o que é que me levava a um limite antes das férias?” e “o que posso mudar já?”. Horários mais claros, menor disponibilidade fora do período de trabalho, prioridades realistas e proteção efetiva do tempo de descanso são algumas das mudanças possíveis.


Sentirmo-nos melhor na praia, numa viagem ou simplesmente longe das notificações também não significa que o problema anterior tenha desaparecido. “As férias podem ajudar-nos a recuperar energia, mas não devem ser usadas como um tratamento para uma organização de trabalho que continua a ser insustentável”, alerta Luísa Leal. Se a exaustão, irritabilidade, desmotivação, alterações do sono, dificuldades cognitivas ou sintomas físicos persistirem apesar do descanso, a psicóloga recomenda procurar avaliação profissional.

A responsabilidade também chega às empresas. Perante uma equipa onde se acumulam exaustão, irritabilidade, absentismo ou perda de desempenho, a primeira pergunta deveria dirigir-se às condições em que aquelas pessoas estão a trabalhar. Luísa Leal alerta para o risco de responder ao problema exclusivamente com iniciativas pontuais de bem-estar enquanto se mantêm cargas, horários e práticas que produziram o desgaste: “A intervenção individual é importante, mas não substitui a intervenção organizacional e vice-versa”.

Daniela Pontes continua a carregar marcas da experiência, embora tenha reconstruído a relação com o trabalho. Diz que hoje investe mais nas suas competências, procura consistência e valoriza uma comunicação mais saudável e próxima. Antes das férias, ou no momento do recomeço, vale a pena pensar sobre o tipo de vida profissional que queremos, e agir em torno disso, procurando ajuda, se necessário, mas garantindo que a saúde e o bem-estar estão acima dos resultados e da pressão profissional.


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