Tempo de precisar dos outros

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Autora e consultora de D&I para a deficiência

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10 de fev. de 2026, 10:16

#Motivação
Opinião

Há quem diga que o mês de Janeiro é o mês do ano interminável. Este que passou trouxe consigo mais do que a sensação do tempo que não avança. A vida de demasiadas pessoas foi agitada por uma realidade imprevista: um comboio de tempestades que tem sido a antítese da motivação, do entusiasmo e da alegria. Depressões meteorológicas, com nomes de pessoas, a levar-nos a todos a uma mesma conclusão: este é o tempo de precisar dos outros.

As imagens sucedem-se, há semanas, nos noticiários e nas redes sociais: ruas transformadas em rios, carros submersos, casas devastadas, pessoas retiradas à pressa por bombeiros e militares. A chuva intensa, o vento persistente e incontrolável, os desabamentos de terras, as estradas fraturadas e as cheias que atingiram, principalmente, o centro de Portugal interromperam rotinas, projetos e a falsa sensação de segurança que sustenta o nosso quotidiano.

Entre a lama e a destruição, a imprensa e as testemunhas oculares que nos dão informação no digital, quase em tempo real, têm dado conta de algo que raramente ocupa o centro do discurso público: a resposta imediata e preseverante da sociedade civil. Vizinhos que acolhem vizinhos, associações que organizam pontos de recolha de bens essenciais, igrejas que abrem portas para refeições e abrigo temporário, voluntários anónimos que aparecem com pás, baldes, abraços, agasalhos e tempo para ajudar quem nunca viram antes. Estes gestos, que são de beleza, pela bondade da humanidade, contrastam com a feiura da tragédia que nos tem entrado pelos olhos adentro. Se, por um lado, nos fazem sentir ainda mais pequenos e impotentes perante a natureza enfurecida, por outro, dizem mais sobre quem somos, do que muitos discursos oficiais ou posts nas redes sociais acerca de quem queremos ser.

Revelam uma verdade simples e desconfortável: quando tudo falha, não é a ilusão da autonomia que nos salva, mas a capacidade de depender uns dos outros.

Pessoas que sempre se julgaram independentes descobrem, de repente, que também não conseguem sair sozinhas, que também precisam de ser ajudadas, carregadas, orientadas... E de repente, é como se tivéssemos sido atirados para um tempo em que precisar de alguém não é fraqueza, significa a devolução à nossa condição inicial. Fomos criados para depender, como um bem maior, e não para a auto-suficiência, ainda que teimemos em viver a querer o contrário disto, como se fosse a nossa supra conquista. A nossa disponibilidade em ir ao encontro do próximo, sem mas ou anseio de retorno, é bonança antecipada e aquilo que semeamos na sua resiliência pós tempestade.

Desde que me conheço que me habituei a ser identificada como alguém dependente, por causa da minha quase total incapacidade motora, atestada por uma junta médica. Por causa disso, caibo na caixa com o rótulo “cuidado, frágil!”, como se a fragilidade fosse um atributo exclusivo de alguns corpos. Posso ser olhada como pessoa menor — o que até não é mentira, a julgar pelos meus 97 cm — no sentido de fraqueza. A deficiência é, ainda hoje, encarada socialmente como sinónimo de falta de autonomia (facilmente confundida com liberdade), de maior exposição e permeabilidade aos perigos, de necessidade permanente de ajuda, de pouca eficiência e, consequentemente, sem valor. No entanto, basta uma catástrofe natural para que essa narrativa se desfaça. Quando a água invade casas, quando a eletricidade falha, quando os acessos ficam cortados, a distinção entre “autónomos” e “dependentes” perde sentido.

A dependência, afinal, não é um estado fixo reservado a alguns; é uma condição humana que se manifesta de formas diferentes ao longo da vida.

A deficiência não cria a fragilidade humana. Torna-a visível. Aquilo que em mim é permanente, numa situação de calamidade, com efeitos desta natureza, torna-se comum para todos, independentemente da sua condição. E talvez seja isso que mais incomoda: a deficiência expõe aquilo que a cultura contemporânea tenta esconder — a vulnerabilidade estrutural de todos nós. Vivemos numa sociedade que glorifica a autonomia, a eficiência, a produtividade e o controlo, mas basta um fenómeno natural para recordar que não somos donos de absolutamente nada. A não ser da nossa empatia e compaixão que, neste tempo, são, ainda mais, agentes de esperança.

À distância (graças a Deus, a minha localidade foi poupada) não dei comigo a pensar: “E se fosse comigo, conseguiria salvar-me? Seria eu deixada para trás porque não posso fugir pelo meu pé? Como suportaria se a minha cadeira de rodas não pudesse ser evacuada comigo?". A minha segurança nunca é apenas minha. Está literalmente nas mãos de outros. No entanto, a minha reflexão, a roçar alguma aflição, nestes dias, tem sido a de não poder ir fisicamente para o terreno apoiar quem precisa. Em vez de ficar esmagada pela tristeza e pela angústia do que vejo, escolho renovar a esperança na nossa sociedade civil por aquilo que também tenho visto. A resposta social ganhou uma dimensão que ultrapassa a emergência e alivia a pressão, de cada um achar que tem de se valer por si. Quando a comunicação social relata a ação de voluntários, associações locais e comunidades, não está apenas a descrever ajuda pontual. Está a mostrar cidadania em ação. Uma cidadania que não substitui o Estado, mas também não o dispensa; que reconhece que a responsabilidade pelo bem comum é partilhada. Uma cidadania que reconhece que a segurança de cada um depende, inevitavelmente, dos outros.

Precisar não diminui ninguém. O que nos diminui é construir uma sociedade baseada na negação da dependência.

Viver bem não é viver sem ajuda, mas viver numa rede de relações onde pedir e dar apoio não é sinal de fracasso, mas de pertença. Mesmo que ninguém venha a aprender nada depois disto, ou que não tenhamos ficado pessoas melhores (quem se lembra disto?)... a mim, este início de 2026, já sublinhou aquilo que a minha deficiência me tem mostrado: não existem pessoas naturalmente fortes a salvar pessoas naturalmente fracas. Existem pessoas vulneráveis e interdependentes, chamadas a cuidar umas das outras. Reconhecer isso não nos torna menos livres. Torna-nos mais humanos, e mais responsáveis uns pelos outros.


Mafalda Ribeiro assina mensalmente o espaço Acesso Prioritário no MOTIVO.

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10 de fev. de 2026, 10:16

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Há quem diga que o mês de Janeiro é o mês do ano interminável. Este que passou trouxe consigo mais do que a sensação do tempo que não avança. A vida de demasiadas pessoas foi agitada por uma realidade imprevista: um comboio de tempestades que tem sido a antítese da motivação, do entusiasmo e da alegria. Depressões meteorológicas, com nomes de pessoas, a levar-nos a todos a uma mesma conclusão: este é o tempo de precisar dos outros.

As imagens sucedem-se, há semanas, nos noticiários e nas redes sociais: ruas transformadas em rios, carros submersos, casas devastadas, pessoas retiradas à pressa por bombeiros e militares. A chuva intensa, o vento persistente e incontrolável, os desabamentos de terras, as estradas fraturadas e as cheias que atingiram, principalmente, o centro de Portugal interromperam rotinas, projetos e a falsa sensação de segurança que sustenta o nosso quotidiano.

Entre a lama e a destruição, a imprensa e as testemunhas oculares que nos dão informação no digital, quase em tempo real, têm dado conta de algo que raramente ocupa o centro do discurso público: a resposta imediata e preseverante da sociedade civil. Vizinhos que acolhem vizinhos, associações que organizam pontos de recolha de bens essenciais, igrejas que abrem portas para refeições e abrigo temporário, voluntários anónimos que aparecem com pás, baldes, abraços, agasalhos e tempo para ajudar quem nunca viram antes. Estes gestos, que são de beleza, pela bondade da humanidade, contrastam com a feiura da tragédia que nos tem entrado pelos olhos adentro. Se, por um lado, nos fazem sentir ainda mais pequenos e impotentes perante a natureza enfurecida, por outro, dizem mais sobre quem somos, do que muitos discursos oficiais ou posts nas redes sociais acerca de quem queremos ser.

Revelam uma verdade simples e desconfortável: quando tudo falha, não é a ilusão da autonomia que nos salva, mas a capacidade de depender uns dos outros.

Pessoas que sempre se julgaram independentes descobrem, de repente, que também não conseguem sair sozinhas, que também precisam de ser ajudadas, carregadas, orientadas... E de repente, é como se tivéssemos sido atirados para um tempo em que precisar de alguém não é fraqueza, significa a devolução à nossa condição inicial. Fomos criados para depender, como um bem maior, e não para a auto-suficiência, ainda que teimemos em viver a querer o contrário disto, como se fosse a nossa supra conquista. A nossa disponibilidade em ir ao encontro do próximo, sem mas ou anseio de retorno, é bonança antecipada e aquilo que semeamos na sua resiliência pós tempestade.

Desde que me conheço que me habituei a ser identificada como alguém dependente, por causa da minha quase total incapacidade motora, atestada por uma junta médica. Por causa disso, caibo na caixa com o rótulo “cuidado, frágil!”, como se a fragilidade fosse um atributo exclusivo de alguns corpos. Posso ser olhada como pessoa menor — o que até não é mentira, a julgar pelos meus 97 cm — no sentido de fraqueza. A deficiência é, ainda hoje, encarada socialmente como sinónimo de falta de autonomia (facilmente confundida com liberdade), de maior exposição e permeabilidade aos perigos, de necessidade permanente de ajuda, de pouca eficiência e, consequentemente, sem valor. No entanto, basta uma catástrofe natural para que essa narrativa se desfaça. Quando a água invade casas, quando a eletricidade falha, quando os acessos ficam cortados, a distinção entre “autónomos” e “dependentes” perde sentido.

A dependência, afinal, não é um estado fixo reservado a alguns; é uma condição humana que se manifesta de formas diferentes ao longo da vida.

A deficiência não cria a fragilidade humana. Torna-a visível. Aquilo que em mim é permanente, numa situação de calamidade, com efeitos desta natureza, torna-se comum para todos, independentemente da sua condição. E talvez seja isso que mais incomoda: a deficiência expõe aquilo que a cultura contemporânea tenta esconder — a vulnerabilidade estrutural de todos nós. Vivemos numa sociedade que glorifica a autonomia, a eficiência, a produtividade e o controlo, mas basta um fenómeno natural para recordar que não somos donos de absolutamente nada. A não ser da nossa empatia e compaixão que, neste tempo, são, ainda mais, agentes de esperança.

À distância (graças a Deus, a minha localidade foi poupada) não dei comigo a pensar: “E se fosse comigo, conseguiria salvar-me? Seria eu deixada para trás porque não posso fugir pelo meu pé? Como suportaria se a minha cadeira de rodas não pudesse ser evacuada comigo?". A minha segurança nunca é apenas minha. Está literalmente nas mãos de outros. No entanto, a minha reflexão, a roçar alguma aflição, nestes dias, tem sido a de não poder ir fisicamente para o terreno apoiar quem precisa. Em vez de ficar esmagada pela tristeza e pela angústia do que vejo, escolho renovar a esperança na nossa sociedade civil por aquilo que também tenho visto. A resposta social ganhou uma dimensão que ultrapassa a emergência e alivia a pressão, de cada um achar que tem de se valer por si. Quando a comunicação social relata a ação de voluntários, associações locais e comunidades, não está apenas a descrever ajuda pontual. Está a mostrar cidadania em ação. Uma cidadania que não substitui o Estado, mas também não o dispensa; que reconhece que a responsabilidade pelo bem comum é partilhada. Uma cidadania que reconhece que a segurança de cada um depende, inevitavelmente, dos outros.

Precisar não diminui ninguém. O que nos diminui é construir uma sociedade baseada na negação da dependência.

Viver bem não é viver sem ajuda, mas viver numa rede de relações onde pedir e dar apoio não é sinal de fracasso, mas de pertença. Mesmo que ninguém venha a aprender nada depois disto, ou que não tenhamos ficado pessoas melhores (quem se lembra disto?)... a mim, este início de 2026, já sublinhou aquilo que a minha deficiência me tem mostrado: não existem pessoas naturalmente fortes a salvar pessoas naturalmente fracas. Existem pessoas vulneráveis e interdependentes, chamadas a cuidar umas das outras. Reconhecer isso não nos torna menos livres. Torna-nos mais humanos, e mais responsáveis uns pelos outros.


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Autora e consultora de D&I para a deficiência

10 de fev. de 2026, 10:16

#Motivação

Opinião

Há quem diga que o mês de Janeiro é o mês do ano interminável. Este que passou trouxe consigo mais do que a sensação do tempo que não avança. A vida de demasiadas pessoas foi agitada por uma realidade imprevista: um comboio de tempestades que tem sido a antítese da motivação, do entusiasmo e da alegria. Depressões meteorológicas, com nomes de pessoas, a levar-nos a todos a uma mesma conclusão: este é o tempo de precisar dos outros.

As imagens sucedem-se, há semanas, nos noticiários e nas redes sociais: ruas transformadas em rios, carros submersos, casas devastadas, pessoas retiradas à pressa por bombeiros e militares. A chuva intensa, o vento persistente e incontrolável, os desabamentos de terras, as estradas fraturadas e as cheias que atingiram, principalmente, o centro de Portugal interromperam rotinas, projetos e a falsa sensação de segurança que sustenta o nosso quotidiano.

Entre a lama e a destruição, a imprensa e as testemunhas oculares que nos dão informação no digital, quase em tempo real, têm dado conta de algo que raramente ocupa o centro do discurso público: a resposta imediata e preseverante da sociedade civil. Vizinhos que acolhem vizinhos, associações que organizam pontos de recolha de bens essenciais, igrejas que abrem portas para refeições e abrigo temporário, voluntários anónimos que aparecem com pás, baldes, abraços, agasalhos e tempo para ajudar quem nunca viram antes. Estes gestos, que são de beleza, pela bondade da humanidade, contrastam com a feiura da tragédia que nos tem entrado pelos olhos adentro. Se, por um lado, nos fazem sentir ainda mais pequenos e impotentes perante a natureza enfurecida, por outro, dizem mais sobre quem somos, do que muitos discursos oficiais ou posts nas redes sociais acerca de quem queremos ser.

Revelam uma verdade simples e desconfortável: quando tudo falha, não é a ilusão da autonomia que nos salva, mas a capacidade de depender uns dos outros.

Pessoas que sempre se julgaram independentes descobrem, de repente, que também não conseguem sair sozinhas, que também precisam de ser ajudadas, carregadas, orientadas... E de repente, é como se tivéssemos sido atirados para um tempo em que precisar de alguém não é fraqueza, significa a devolução à nossa condição inicial. Fomos criados para depender, como um bem maior, e não para a auto-suficiência, ainda que teimemos em viver a querer o contrário disto, como se fosse a nossa supra conquista. A nossa disponibilidade em ir ao encontro do próximo, sem mas ou anseio de retorno, é bonança antecipada e aquilo que semeamos na sua resiliência pós tempestade.

Desde que me conheço que me habituei a ser identificada como alguém dependente, por causa da minha quase total incapacidade motora, atestada por uma junta médica. Por causa disso, caibo na caixa com o rótulo “cuidado, frágil!”, como se a fragilidade fosse um atributo exclusivo de alguns corpos. Posso ser olhada como pessoa menor — o que até não é mentira, a julgar pelos meus 97 cm — no sentido de fraqueza. A deficiência é, ainda hoje, encarada socialmente como sinónimo de falta de autonomia (facilmente confundida com liberdade), de maior exposição e permeabilidade aos perigos, de necessidade permanente de ajuda, de pouca eficiência e, consequentemente, sem valor. No entanto, basta uma catástrofe natural para que essa narrativa se desfaça. Quando a água invade casas, quando a eletricidade falha, quando os acessos ficam cortados, a distinção entre “autónomos” e “dependentes” perde sentido.

A dependência, afinal, não é um estado fixo reservado a alguns; é uma condição humana que se manifesta de formas diferentes ao longo da vida.

A deficiência não cria a fragilidade humana. Torna-a visível. Aquilo que em mim é permanente, numa situação de calamidade, com efeitos desta natureza, torna-se comum para todos, independentemente da sua condição. E talvez seja isso que mais incomoda: a deficiência expõe aquilo que a cultura contemporânea tenta esconder — a vulnerabilidade estrutural de todos nós. Vivemos numa sociedade que glorifica a autonomia, a eficiência, a produtividade e o controlo, mas basta um fenómeno natural para recordar que não somos donos de absolutamente nada. A não ser da nossa empatia e compaixão que, neste tempo, são, ainda mais, agentes de esperança.

À distância (graças a Deus, a minha localidade foi poupada) não dei comigo a pensar: “E se fosse comigo, conseguiria salvar-me? Seria eu deixada para trás porque não posso fugir pelo meu pé? Como suportaria se a minha cadeira de rodas não pudesse ser evacuada comigo?". A minha segurança nunca é apenas minha. Está literalmente nas mãos de outros. No entanto, a minha reflexão, a roçar alguma aflição, nestes dias, tem sido a de não poder ir fisicamente para o terreno apoiar quem precisa. Em vez de ficar esmagada pela tristeza e pela angústia do que vejo, escolho renovar a esperança na nossa sociedade civil por aquilo que também tenho visto. A resposta social ganhou uma dimensão que ultrapassa a emergência e alivia a pressão, de cada um achar que tem de se valer por si. Quando a comunicação social relata a ação de voluntários, associações locais e comunidades, não está apenas a descrever ajuda pontual. Está a mostrar cidadania em ação. Uma cidadania que não substitui o Estado, mas também não o dispensa; que reconhece que a responsabilidade pelo bem comum é partilhada. Uma cidadania que reconhece que a segurança de cada um depende, inevitavelmente, dos outros.

Precisar não diminui ninguém. O que nos diminui é construir uma sociedade baseada na negação da dependência.

Viver bem não é viver sem ajuda, mas viver numa rede de relações onde pedir e dar apoio não é sinal de fracasso, mas de pertença. Mesmo que ninguém venha a aprender nada depois disto, ou que não tenhamos ficado pessoas melhores (quem se lembra disto?)... a mim, este início de 2026, já sublinhou aquilo que a minha deficiência me tem mostrado: não existem pessoas naturalmente fortes a salvar pessoas naturalmente fracas. Existem pessoas vulneráveis e interdependentes, chamadas a cuidar umas das outras. Reconhecer isso não nos torna menos livres. Torna-nos mais humanos, e mais responsáveis uns pelos outros.


Mafalda Ribeiro assina mensalmente o espaço Acesso Prioritário no MOTIVO.

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10 de fev. de 2026, 10:16

#Motivação

Opinião

Há quem diga que o mês de Janeiro é o mês do ano interminável. Este que passou trouxe consigo mais do que a sensação do tempo que não avança. A vida de demasiadas pessoas foi agitada por uma realidade imprevista: um comboio de tempestades que tem sido a antítese da motivação, do entusiasmo e da alegria. Depressões meteorológicas, com nomes de pessoas, a levar-nos a todos a uma mesma conclusão: este é o tempo de precisar dos outros.

As imagens sucedem-se, há semanas, nos noticiários e nas redes sociais: ruas transformadas em rios, carros submersos, casas devastadas, pessoas retiradas à pressa por bombeiros e militares. A chuva intensa, o vento persistente e incontrolável, os desabamentos de terras, as estradas fraturadas e as cheias que atingiram, principalmente, o centro de Portugal interromperam rotinas, projetos e a falsa sensação de segurança que sustenta o nosso quotidiano.

Entre a lama e a destruição, a imprensa e as testemunhas oculares que nos dão informação no digital, quase em tempo real, têm dado conta de algo que raramente ocupa o centro do discurso público: a resposta imediata e preseverante da sociedade civil. Vizinhos que acolhem vizinhos, associações que organizam pontos de recolha de bens essenciais, igrejas que abrem portas para refeições e abrigo temporário, voluntários anónimos que aparecem com pás, baldes, abraços, agasalhos e tempo para ajudar quem nunca viram antes. Estes gestos, que são de beleza, pela bondade da humanidade, contrastam com a feiura da tragédia que nos tem entrado pelos olhos adentro. Se, por um lado, nos fazem sentir ainda mais pequenos e impotentes perante a natureza enfurecida, por outro, dizem mais sobre quem somos, do que muitos discursos oficiais ou posts nas redes sociais acerca de quem queremos ser.

Revelam uma verdade simples e desconfortável: quando tudo falha, não é a ilusão da autonomia que nos salva, mas a capacidade de depender uns dos outros.

Pessoas que sempre se julgaram independentes descobrem, de repente, que também não conseguem sair sozinhas, que também precisam de ser ajudadas, carregadas, orientadas... E de repente, é como se tivéssemos sido atirados para um tempo em que precisar de alguém não é fraqueza, significa a devolução à nossa condição inicial. Fomos criados para depender, como um bem maior, e não para a auto-suficiência, ainda que teimemos em viver a querer o contrário disto, como se fosse a nossa supra conquista. A nossa disponibilidade em ir ao encontro do próximo, sem mas ou anseio de retorno, é bonança antecipada e aquilo que semeamos na sua resiliência pós tempestade.

Desde que me conheço que me habituei a ser identificada como alguém dependente, por causa da minha quase total incapacidade motora, atestada por uma junta médica. Por causa disso, caibo na caixa com o rótulo “cuidado, frágil!”, como se a fragilidade fosse um atributo exclusivo de alguns corpos. Posso ser olhada como pessoa menor — o que até não é mentira, a julgar pelos meus 97 cm — no sentido de fraqueza. A deficiência é, ainda hoje, encarada socialmente como sinónimo de falta de autonomia (facilmente confundida com liberdade), de maior exposição e permeabilidade aos perigos, de necessidade permanente de ajuda, de pouca eficiência e, consequentemente, sem valor. No entanto, basta uma catástrofe natural para que essa narrativa se desfaça. Quando a água invade casas, quando a eletricidade falha, quando os acessos ficam cortados, a distinção entre “autónomos” e “dependentes” perde sentido.

A dependência, afinal, não é um estado fixo reservado a alguns; é uma condição humana que se manifesta de formas diferentes ao longo da vida.

A deficiência não cria a fragilidade humana. Torna-a visível. Aquilo que em mim é permanente, numa situação de calamidade, com efeitos desta natureza, torna-se comum para todos, independentemente da sua condição. E talvez seja isso que mais incomoda: a deficiência expõe aquilo que a cultura contemporânea tenta esconder — a vulnerabilidade estrutural de todos nós. Vivemos numa sociedade que glorifica a autonomia, a eficiência, a produtividade e o controlo, mas basta um fenómeno natural para recordar que não somos donos de absolutamente nada. A não ser da nossa empatia e compaixão que, neste tempo, são, ainda mais, agentes de esperança.

À distância (graças a Deus, a minha localidade foi poupada) não dei comigo a pensar: “E se fosse comigo, conseguiria salvar-me? Seria eu deixada para trás porque não posso fugir pelo meu pé? Como suportaria se a minha cadeira de rodas não pudesse ser evacuada comigo?". A minha segurança nunca é apenas minha. Está literalmente nas mãos de outros. No entanto, a minha reflexão, a roçar alguma aflição, nestes dias, tem sido a de não poder ir fisicamente para o terreno apoiar quem precisa. Em vez de ficar esmagada pela tristeza e pela angústia do que vejo, escolho renovar a esperança na nossa sociedade civil por aquilo que também tenho visto. A resposta social ganhou uma dimensão que ultrapassa a emergência e alivia a pressão, de cada um achar que tem de se valer por si. Quando a comunicação social relata a ação de voluntários, associações locais e comunidades, não está apenas a descrever ajuda pontual. Está a mostrar cidadania em ação. Uma cidadania que não substitui o Estado, mas também não o dispensa; que reconhece que a responsabilidade pelo bem comum é partilhada. Uma cidadania que reconhece que a segurança de cada um depende, inevitavelmente, dos outros.

Precisar não diminui ninguém. O que nos diminui é construir uma sociedade baseada na negação da dependência.

Viver bem não é viver sem ajuda, mas viver numa rede de relações onde pedir e dar apoio não é sinal de fracasso, mas de pertença. Mesmo que ninguém venha a aprender nada depois disto, ou que não tenhamos ficado pessoas melhores (quem se lembra disto?)... a mim, este início de 2026, já sublinhou aquilo que a minha deficiência me tem mostrado: não existem pessoas naturalmente fortes a salvar pessoas naturalmente fracas. Existem pessoas vulneráveis e interdependentes, chamadas a cuidar umas das outras. Reconhecer isso não nos torna menos livres. Torna-nos mais humanos, e mais responsáveis uns pelos outros.


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