A cerveja escreve-se no feminino

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Secretária-Geral da Associação Cervejeiros de Portugal

|

5 de mar. de 2026, 13:17

#Protagonistas
Opinião

Às vezes a língua portuguesa sabe mais do que nós. Sempre dissemos a cerveja e a cervejeira no feminino. Talvez só tenhamos demorado um pouco a perceber o que isso significava. Durante décadas, instalou-se uma ideia preguiçosa: cerveja é “coisa de homem”. Um copo na mão, um jogo na televisão, um estereótipo fácil. Mas os estereótipos são como uma cerveja mal tirada: a espuma até impressiona ao início, mas desaparece depressa, quando se vai ao fundo do copo. A verdade é mais antiga - muito mais interessante – e, neste mês da mulher, vale a pena partilhar.


Cerveja, uma receita milenar, a Mãe das bebidas

Historicamente, a cerveja nasceu feminina. Na antiga Mesopotâmia, há mais de seis mil anos, as primeiras mestres cervejeiras eram mulheres. A produção estava ligada às comunidades agrícolas, onde eram elas que dominavam os grãos, a fermentação e os saberes que transformavam ingredientes simples numa bebida nutritiva e social. Séculos depois, na Idade Média, continuavam a ser mulheres a dominar a arte da fermentação. De certa forma, estamos apenas a regressar a uma casa que sempre foi familiar, construída sobre uma receita simples, quase como as das nossas avós: água, cevada, lúpulo e levedura. Quatro ingredientes, milhares de anos de aperfeiçoamento e uma bebida que atravessou civilizações.

Talvez por isso a cerveja seja hoje uma das bebidas mais consumidas no mundo, logo a seguir à água e ao chá, e a bebida alcoólica número um do planeta. Entre as “mães” das bebidas, a cerveja ocupa um lugar muito especial. Ao mesmo tempo, o setor continua a evoluir. Há hoje mais mulheres a trabalhar na cerveja do que nunca, da produção à investigação, da engenharia industrial ao marketing e à gestão. A cerveja tornou-se um verdadeiro ecossistema profissional onde o talento, felizmente, não tem género — e onde a inclusão não é narrativa: é prática.


Cerveja, a Filha complexa, mas descomplexada

Convém também dizer isto com clareza: a cerveja nunca foi uma bebida simplista. É uma bebida que começa na terra. No grão, na cevada resiliente que atravessa secas e invernos. No lúpulo, esse super-ingrediente ainda pouco conhecido, que exige conhecimento agrícola e precisão técnica. Na água, que representa mais de 90% da cerveja.

Depois entra a alquimia. Da engenharia industrial, profundamente criativa, à nova geração de produtores que transformaram a cerveja num território de experimentação sensorial. Hoje existem em Portugal cerca de 110 produtores, muitos deles independentes, que trouxeram novos estilos, novas linguagens e uma riqueza organolética que convida à degustação e à curiosidade. Gosto de pensar nas cervejeiras como filhas de uma linhagem milenar: herdeiras de uma tradição antiga, mas suficientemente livres para reinventar o futuro. Complexas no sabor, mas descomplexadas na atitude. Esta característica foi, aliás, uma das primeiras coisas que me fascinou neste setor, tanto nas pessoas que o constroem como no produto final que chega ao copo.


Cerveja, (a) Prima da moderação e Sobrinha da inovação

A cerveja é também prima - e prima! - pela moderação. Não apenas pelo teor alcoólico moderado de muitos estilos, mas também pela evolução consistente da oferta sem álcool. Num mundo que procura cada vez mais equilíbrio, o setor tem vindo a investir seriamente na diversidade de escolhas para que ninguém fique de fora daquele momento simples e universal: “Ah, uma cerveja fresquinha”.

Importa lembrar que esta aposta não nasceu de uma moda recente. Apesar de se escrever no feminino, não é “maquilhagem”. Já na década de 1990 -  quando a Internet ainda parecia quase imaginária, em Portugal, e a música se ouvia em walkmans - a indústria cervejeira começava a desenvolver as primeiras opções sem álcool. Não por tendência, mas por convicção: oferecer mais escolhas e promover uma cultura de consumo responsável. A moderação não é, por isso, uma imposição recente. É, no setor, uma história que começou muito antes da legislação.


Cerveja, Irmã e Companheira dos bons momentos

Talvez por isso a cerveja continue a ser, acima de tudo, uma bebida social. É companheira de mesa, capaz de atravessar estilos, sabores e ocasiões. Harmoniza com gastronomias distintas, aproxima pessoas e cria aquele pequeno ritual coletivo que um simples brinde consegue provocar.

Em Portugal, cerca de 70% da cerveja é consumida no canal da restauração, lugares onde as conversas acontecem, onde se fazem acordos, desabafos, onde as cidades respiram e onde a vida se encontra. Por trás desse copo servido fresco existe um setor inteiro a trabalhar: mais de 50 mil pessoas em Portugal, direta e indiretamente ligadas à cadeia cervejeira. 


Mais uma cadeira à mesa da Cerveja

Aceitei o desafio de defender e promover este setor por todas estas razões: a sua história, responsabilidade que assume perante a sociedade e pela energia que continua a trazer a cada novo capítulo, fez-me arrastar a cadeira e juntar-me à mesa do setor. A cerveja é daqueles universos que, quando se conhece por dentro, já não sai de nós, como ADN. Talvez por isso tenha falado de mães, avós, primas e tias ao longo deste texto. A cerveja sempre teve qualquer coisa de família, de herança partilhada, de receita transmitida e de mesa cheia.

E como em qualquer boa família portuguesa há uma regra que continua a cumprir-se com rigor: um brinde é para todos e todas, com ou sem álcool. Mas neste Mês da Mulher, este copo fresquinho levanta-se com especial entusiasmo para as mulheres do setor e para quem gosta de cerveja. Porque nesta família, felizmente, também são elas que ajudam a servir a próxima rodada. 

Afinal, a língua portuguesa já sabia: a cerveja escreve-se no feminino.

A cerveja escreve-se no feminino

Secretária-Geral da Associação Cervejeiros de Portugal

5 de mar. de 2026, 13:17

#Protagonistas

Opinião

Às vezes a língua portuguesa sabe mais do que nós. Sempre dissemos a cerveja e a cervejeira no feminino. Talvez só tenhamos demorado um pouco a perceber o que isso significava. Durante décadas, instalou-se uma ideia preguiçosa: cerveja é “coisa de homem”. Um copo na mão, um jogo na televisão, um estereótipo fácil. Mas os estereótipos são como uma cerveja mal tirada: a espuma até impressiona ao início, mas desaparece depressa, quando se vai ao fundo do copo. A verdade é mais antiga - muito mais interessante – e, neste mês da mulher, vale a pena partilhar.


Cerveja, uma receita milenar, a Mãe das bebidas

Historicamente, a cerveja nasceu feminina. Na antiga Mesopotâmia, há mais de seis mil anos, as primeiras mestres cervejeiras eram mulheres. A produção estava ligada às comunidades agrícolas, onde eram elas que dominavam os grãos, a fermentação e os saberes que transformavam ingredientes simples numa bebida nutritiva e social. Séculos depois, na Idade Média, continuavam a ser mulheres a dominar a arte da fermentação. De certa forma, estamos apenas a regressar a uma casa que sempre foi familiar, construída sobre uma receita simples, quase como as das nossas avós: água, cevada, lúpulo e levedura. Quatro ingredientes, milhares de anos de aperfeiçoamento e uma bebida que atravessou civilizações.

Talvez por isso a cerveja seja hoje uma das bebidas mais consumidas no mundo, logo a seguir à água e ao chá, e a bebida alcoólica número um do planeta. Entre as “mães” das bebidas, a cerveja ocupa um lugar muito especial. Ao mesmo tempo, o setor continua a evoluir. Há hoje mais mulheres a trabalhar na cerveja do que nunca, da produção à investigação, da engenharia industrial ao marketing e à gestão. A cerveja tornou-se um verdadeiro ecossistema profissional onde o talento, felizmente, não tem género — e onde a inclusão não é narrativa: é prática.


Cerveja, a Filha complexa, mas descomplexada

Convém também dizer isto com clareza: a cerveja nunca foi uma bebida simplista. É uma bebida que começa na terra. No grão, na cevada resiliente que atravessa secas e invernos. No lúpulo, esse super-ingrediente ainda pouco conhecido, que exige conhecimento agrícola e precisão técnica. Na água, que representa mais de 90% da cerveja.

Depois entra a alquimia. Da engenharia industrial, profundamente criativa, à nova geração de produtores que transformaram a cerveja num território de experimentação sensorial. Hoje existem em Portugal cerca de 110 produtores, muitos deles independentes, que trouxeram novos estilos, novas linguagens e uma riqueza organolética que convida à degustação e à curiosidade. Gosto de pensar nas cervejeiras como filhas de uma linhagem milenar: herdeiras de uma tradição antiga, mas suficientemente livres para reinventar o futuro. Complexas no sabor, mas descomplexadas na atitude. Esta característica foi, aliás, uma das primeiras coisas que me fascinou neste setor, tanto nas pessoas que o constroem como no produto final que chega ao copo.


Cerveja, (a) Prima da moderação e Sobrinha da inovação

A cerveja é também prima - e prima! - pela moderação. Não apenas pelo teor alcoólico moderado de muitos estilos, mas também pela evolução consistente da oferta sem álcool. Num mundo que procura cada vez mais equilíbrio, o setor tem vindo a investir seriamente na diversidade de escolhas para que ninguém fique de fora daquele momento simples e universal: “Ah, uma cerveja fresquinha”.

Importa lembrar que esta aposta não nasceu de uma moda recente. Apesar de se escrever no feminino, não é “maquilhagem”. Já na década de 1990 -  quando a Internet ainda parecia quase imaginária, em Portugal, e a música se ouvia em walkmans - a indústria cervejeira começava a desenvolver as primeiras opções sem álcool. Não por tendência, mas por convicção: oferecer mais escolhas e promover uma cultura de consumo responsável. A moderação não é, por isso, uma imposição recente. É, no setor, uma história que começou muito antes da legislação.


Cerveja, Irmã e Companheira dos bons momentos

Talvez por isso a cerveja continue a ser, acima de tudo, uma bebida social. É companheira de mesa, capaz de atravessar estilos, sabores e ocasiões. Harmoniza com gastronomias distintas, aproxima pessoas e cria aquele pequeno ritual coletivo que um simples brinde consegue provocar.

Em Portugal, cerca de 70% da cerveja é consumida no canal da restauração, lugares onde as conversas acontecem, onde se fazem acordos, desabafos, onde as cidades respiram e onde a vida se encontra. Por trás desse copo servido fresco existe um setor inteiro a trabalhar: mais de 50 mil pessoas em Portugal, direta e indiretamente ligadas à cadeia cervejeira. 


Mais uma cadeira à mesa da Cerveja

Aceitei o desafio de defender e promover este setor por todas estas razões: a sua história, responsabilidade que assume perante a sociedade e pela energia que continua a trazer a cada novo capítulo, fez-me arrastar a cadeira e juntar-me à mesa do setor. A cerveja é daqueles universos que, quando se conhece por dentro, já não sai de nós, como ADN. Talvez por isso tenha falado de mães, avós, primas e tias ao longo deste texto. A cerveja sempre teve qualquer coisa de família, de herança partilhada, de receita transmitida e de mesa cheia.

E como em qualquer boa família portuguesa há uma regra que continua a cumprir-se com rigor: um brinde é para todos e todas, com ou sem álcool. Mas neste Mês da Mulher, este copo fresquinho levanta-se com especial entusiasmo para as mulheres do setor e para quem gosta de cerveja. Porque nesta família, felizmente, também são elas que ajudam a servir a próxima rodada. 

Afinal, a língua portuguesa já sabia: a cerveja escreve-se no feminino.

A cerveja escreve-se no feminino

Secretária-Geral da Associação Cervejeiros de Portugal

5 de mar. de 2026, 13:17

#Protagonistas

Opinião

Às vezes a língua portuguesa sabe mais do que nós. Sempre dissemos a cerveja e a cervejeira no feminino. Talvez só tenhamos demorado um pouco a perceber o que isso significava. Durante décadas, instalou-se uma ideia preguiçosa: cerveja é “coisa de homem”. Um copo na mão, um jogo na televisão, um estereótipo fácil. Mas os estereótipos são como uma cerveja mal tirada: a espuma até impressiona ao início, mas desaparece depressa, quando se vai ao fundo do copo. A verdade é mais antiga - muito mais interessante – e, neste mês da mulher, vale a pena partilhar.


Cerveja, uma receita milenar, a Mãe das bebidas

Historicamente, a cerveja nasceu feminina. Na antiga Mesopotâmia, há mais de seis mil anos, as primeiras mestres cervejeiras eram mulheres. A produção estava ligada às comunidades agrícolas, onde eram elas que dominavam os grãos, a fermentação e os saberes que transformavam ingredientes simples numa bebida nutritiva e social. Séculos depois, na Idade Média, continuavam a ser mulheres a dominar a arte da fermentação. De certa forma, estamos apenas a regressar a uma casa que sempre foi familiar, construída sobre uma receita simples, quase como as das nossas avós: água, cevada, lúpulo e levedura. Quatro ingredientes, milhares de anos de aperfeiçoamento e uma bebida que atravessou civilizações.

Talvez por isso a cerveja seja hoje uma das bebidas mais consumidas no mundo, logo a seguir à água e ao chá, e a bebida alcoólica número um do planeta. Entre as “mães” das bebidas, a cerveja ocupa um lugar muito especial. Ao mesmo tempo, o setor continua a evoluir. Há hoje mais mulheres a trabalhar na cerveja do que nunca, da produção à investigação, da engenharia industrial ao marketing e à gestão. A cerveja tornou-se um verdadeiro ecossistema profissional onde o talento, felizmente, não tem género — e onde a inclusão não é narrativa: é prática.


Cerveja, a Filha complexa, mas descomplexada

Convém também dizer isto com clareza: a cerveja nunca foi uma bebida simplista. É uma bebida que começa na terra. No grão, na cevada resiliente que atravessa secas e invernos. No lúpulo, esse super-ingrediente ainda pouco conhecido, que exige conhecimento agrícola e precisão técnica. Na água, que representa mais de 90% da cerveja.

Depois entra a alquimia. Da engenharia industrial, profundamente criativa, à nova geração de produtores que transformaram a cerveja num território de experimentação sensorial. Hoje existem em Portugal cerca de 110 produtores, muitos deles independentes, que trouxeram novos estilos, novas linguagens e uma riqueza organolética que convida à degustação e à curiosidade. Gosto de pensar nas cervejeiras como filhas de uma linhagem milenar: herdeiras de uma tradição antiga, mas suficientemente livres para reinventar o futuro. Complexas no sabor, mas descomplexadas na atitude. Esta característica foi, aliás, uma das primeiras coisas que me fascinou neste setor, tanto nas pessoas que o constroem como no produto final que chega ao copo.


Cerveja, (a) Prima da moderação e Sobrinha da inovação

A cerveja é também prima - e prima! - pela moderação. Não apenas pelo teor alcoólico moderado de muitos estilos, mas também pela evolução consistente da oferta sem álcool. Num mundo que procura cada vez mais equilíbrio, o setor tem vindo a investir seriamente na diversidade de escolhas para que ninguém fique de fora daquele momento simples e universal: “Ah, uma cerveja fresquinha”.

Importa lembrar que esta aposta não nasceu de uma moda recente. Apesar de se escrever no feminino, não é “maquilhagem”. Já na década de 1990 -  quando a Internet ainda parecia quase imaginária, em Portugal, e a música se ouvia em walkmans - a indústria cervejeira começava a desenvolver as primeiras opções sem álcool. Não por tendência, mas por convicção: oferecer mais escolhas e promover uma cultura de consumo responsável. A moderação não é, por isso, uma imposição recente. É, no setor, uma história que começou muito antes da legislação.


Cerveja, Irmã e Companheira dos bons momentos

Talvez por isso a cerveja continue a ser, acima de tudo, uma bebida social. É companheira de mesa, capaz de atravessar estilos, sabores e ocasiões. Harmoniza com gastronomias distintas, aproxima pessoas e cria aquele pequeno ritual coletivo que um simples brinde consegue provocar.

Em Portugal, cerca de 70% da cerveja é consumida no canal da restauração, lugares onde as conversas acontecem, onde se fazem acordos, desabafos, onde as cidades respiram e onde a vida se encontra. Por trás desse copo servido fresco existe um setor inteiro a trabalhar: mais de 50 mil pessoas em Portugal, direta e indiretamente ligadas à cadeia cervejeira. 


Mais uma cadeira à mesa da Cerveja

Aceitei o desafio de defender e promover este setor por todas estas razões: a sua história, responsabilidade que assume perante a sociedade e pela energia que continua a trazer a cada novo capítulo, fez-me arrastar a cadeira e juntar-me à mesa do setor. A cerveja é daqueles universos que, quando se conhece por dentro, já não sai de nós, como ADN. Talvez por isso tenha falado de mães, avós, primas e tias ao longo deste texto. A cerveja sempre teve qualquer coisa de família, de herança partilhada, de receita transmitida e de mesa cheia.

E como em qualquer boa família portuguesa há uma regra que continua a cumprir-se com rigor: um brinde é para todos e todas, com ou sem álcool. Mas neste Mês da Mulher, este copo fresquinho levanta-se com especial entusiasmo para as mulheres do setor e para quem gosta de cerveja. Porque nesta família, felizmente, também são elas que ajudam a servir a próxima rodada. 

Afinal, a língua portuguesa já sabia: a cerveja escreve-se no feminino.

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5 de mar. de 2026, 13:17

#Protagonistas

Opinião

Às vezes a língua portuguesa sabe mais do que nós. Sempre dissemos a cerveja e a cervejeira no feminino. Talvez só tenhamos demorado um pouco a perceber o que isso significava. Durante décadas, instalou-se uma ideia preguiçosa: cerveja é “coisa de homem”. Um copo na mão, um jogo na televisão, um estereótipo fácil. Mas os estereótipos são como uma cerveja mal tirada: a espuma até impressiona ao início, mas desaparece depressa, quando se vai ao fundo do copo. A verdade é mais antiga - muito mais interessante – e, neste mês da mulher, vale a pena partilhar.


Cerveja, uma receita milenar, a Mãe das bebidas

Historicamente, a cerveja nasceu feminina. Na antiga Mesopotâmia, há mais de seis mil anos, as primeiras mestres cervejeiras eram mulheres. A produção estava ligada às comunidades agrícolas, onde eram elas que dominavam os grãos, a fermentação e os saberes que transformavam ingredientes simples numa bebida nutritiva e social. Séculos depois, na Idade Média, continuavam a ser mulheres a dominar a arte da fermentação. De certa forma, estamos apenas a regressar a uma casa que sempre foi familiar, construída sobre uma receita simples, quase como as das nossas avós: água, cevada, lúpulo e levedura. Quatro ingredientes, milhares de anos de aperfeiçoamento e uma bebida que atravessou civilizações.

Talvez por isso a cerveja seja hoje uma das bebidas mais consumidas no mundo, logo a seguir à água e ao chá, e a bebida alcoólica número um do planeta. Entre as “mães” das bebidas, a cerveja ocupa um lugar muito especial. Ao mesmo tempo, o setor continua a evoluir. Há hoje mais mulheres a trabalhar na cerveja do que nunca, da produção à investigação, da engenharia industrial ao marketing e à gestão. A cerveja tornou-se um verdadeiro ecossistema profissional onde o talento, felizmente, não tem género — e onde a inclusão não é narrativa: é prática.


Cerveja, a Filha complexa, mas descomplexada

Convém também dizer isto com clareza: a cerveja nunca foi uma bebida simplista. É uma bebida que começa na terra. No grão, na cevada resiliente que atravessa secas e invernos. No lúpulo, esse super-ingrediente ainda pouco conhecido, que exige conhecimento agrícola e precisão técnica. Na água, que representa mais de 90% da cerveja.

Depois entra a alquimia. Da engenharia industrial, profundamente criativa, à nova geração de produtores que transformaram a cerveja num território de experimentação sensorial. Hoje existem em Portugal cerca de 110 produtores, muitos deles independentes, que trouxeram novos estilos, novas linguagens e uma riqueza organolética que convida à degustação e à curiosidade. Gosto de pensar nas cervejeiras como filhas de uma linhagem milenar: herdeiras de uma tradição antiga, mas suficientemente livres para reinventar o futuro. Complexas no sabor, mas descomplexadas na atitude. Esta característica foi, aliás, uma das primeiras coisas que me fascinou neste setor, tanto nas pessoas que o constroem como no produto final que chega ao copo.


Cerveja, (a) Prima da moderação e Sobrinha da inovação

A cerveja é também prima - e prima! - pela moderação. Não apenas pelo teor alcoólico moderado de muitos estilos, mas também pela evolução consistente da oferta sem álcool. Num mundo que procura cada vez mais equilíbrio, o setor tem vindo a investir seriamente na diversidade de escolhas para que ninguém fique de fora daquele momento simples e universal: “Ah, uma cerveja fresquinha”.

Importa lembrar que esta aposta não nasceu de uma moda recente. Apesar de se escrever no feminino, não é “maquilhagem”. Já na década de 1990 -  quando a Internet ainda parecia quase imaginária, em Portugal, e a música se ouvia em walkmans - a indústria cervejeira começava a desenvolver as primeiras opções sem álcool. Não por tendência, mas por convicção: oferecer mais escolhas e promover uma cultura de consumo responsável. A moderação não é, por isso, uma imposição recente. É, no setor, uma história que começou muito antes da legislação.


Cerveja, Irmã e Companheira dos bons momentos

Talvez por isso a cerveja continue a ser, acima de tudo, uma bebida social. É companheira de mesa, capaz de atravessar estilos, sabores e ocasiões. Harmoniza com gastronomias distintas, aproxima pessoas e cria aquele pequeno ritual coletivo que um simples brinde consegue provocar.

Em Portugal, cerca de 70% da cerveja é consumida no canal da restauração, lugares onde as conversas acontecem, onde se fazem acordos, desabafos, onde as cidades respiram e onde a vida se encontra. Por trás desse copo servido fresco existe um setor inteiro a trabalhar: mais de 50 mil pessoas em Portugal, direta e indiretamente ligadas à cadeia cervejeira. 


Mais uma cadeira à mesa da Cerveja

Aceitei o desafio de defender e promover este setor por todas estas razões: a sua história, responsabilidade que assume perante a sociedade e pela energia que continua a trazer a cada novo capítulo, fez-me arrastar a cadeira e juntar-me à mesa do setor. A cerveja é daqueles universos que, quando se conhece por dentro, já não sai de nós, como ADN. Talvez por isso tenha falado de mães, avós, primas e tias ao longo deste texto. A cerveja sempre teve qualquer coisa de família, de herança partilhada, de receita transmitida e de mesa cheia.

E como em qualquer boa família portuguesa há uma regra que continua a cumprir-se com rigor: um brinde é para todos e todas, com ou sem álcool. Mas neste Mês da Mulher, este copo fresquinho levanta-se com especial entusiasmo para as mulheres do setor e para quem gosta de cerveja. Porque nesta família, felizmente, também são elas que ajudam a servir a próxima rodada. 

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