#Protagonistas

A história da televisão portuguesa também se escreve com as Produções Clandestinas

|

27 de nov. de 2025, 10:45

Quando, e como, nasceu a Produções Clandestinas (PC)?

Cláudia Rodrigues — A Produção Clandestinas (PC) nasceu em 2008. Na altura, tanto eu, como o Artur Moura e a Dulce Rodrigues já trabalhávamos juntos, há cerca de dez anos, para outras produtoras. A PC, ainda sem nome, era uma ideia que os três tínhamos há algum tempo. No entanto, só a conseguimos concretizar quando, em 2008, nos desvinculámos dos nossos trabalhos (eu e o Artur estávamos na TVI e a Dulce na SIC) para aceitarmos um projecto de media em Angola – que não se concretizou. Perante esse cenário, decidimos meter mãos à obra e criámos a empresa, com um objecto social vasto, não só ligado à televisão, mas também à imprensa e a outros segmentos da Comunicação Social. Nos anos seguintes, ainda trabalhámos para outras produtoras, até que, em 2011, decidimos criar o nosso primeiro formato televisivo.


Cláudia Rodrigues co-fundou a Produções Clandestinas juntamente com Dulce Rodrigues e Artur Moura

O que faltava no mercado televisivo português?

C.R. — À época, as chamadas de valor acrescentado já constituíam uma forte receita para as televisões e decidimos tirar proveito disso. Paralelamente, aqui ao lado, em Espanha, os formatos relacionados com o esoterismo, nomeadamente, o tarô, estavam em alta. Tratavam-se de formatos simples e com investimento relativamente baixo, em comparação com outros. O ideal para tentarmos começar... Juntámos os dois princípios e assim nasceu o programa Cartas da Maya – o Dilema (SIC). Foi um projecto longo, felizmente. E auto-sustentável, isto é, pagava-se a si próprio, o que foi sedutor para a própria estação na hora em que o propusemos. Aquando da saída da Maya para a CMTV, o programa mudou de nome para A Vida nas Cartas – O Dilema e passou a ser conduzido pela taróloga Maria Helena. Viria a terminar a 8 de Setembro de 2017, uma sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, estreávamos Linha Aberta com Hernâni Carvalho, um formato que ainda se mantém e que nos deu também a oportunidade de exercermos a nossa profissão de base que é o Jornalismo. 

São esses os projetos que mais marcaram, até agora, o percurso da PC?

C.R. — Falar do percurso da PC é falar, também, de tudo o que a antecedeu. E falar do passado, implica abordar alguns dos grandes formatos de daytime, em Portugal, que orgulhosamente ajudámos a construir. Somos fundadores de vários, tanto na TVI, como na SIC. Destaco o Você na TV! (TVI), estreado em 2005, e que revelou Cristina Ferreira. Foi um formato muito rico e variado, onde mais crescemos como profissionais de televisão, dada a liberdade de criação que nos foi confiada. Seguiu-se As Tardes da Júlia (TVI, 2009) que também teve um enorme impacto no público e em nós, como profissionais. Mas, obviamente, que os nossos projectos próprios são os que mais orgulho nos dão. Somos uma empresa pequena, inteiramente portuguesa e chegámos a emitir quinze horas semanais na grelha da SIC, durante vários anos, até ao ano passado.


Linha Aberta (SIC), produzido pela Produções Clandestinas, estreou há oito anos


O que aprenderam com cada um desses formatos?

C.R. — Sobretudo, que o esforço e o trabalho compensam. (Sorri) 

Muitos espectadores conhecem os vossos programas, mas poucos conhecem a vossa empresa. Essa discrição foi escolha ou consequência?

C.R. — O símbolo da PC é uma formiga. O lado simbólico implícito combina com a nossa maneira de ser: trabalhadores, mas discretos. Há duas premissas que seguimos à risca: que os nossos clientes conheçam, valorizem e confiem no nosso trabalho e que o público prefira os nossos programas aos da concorrência. 

Fazer televisão é, hoje, diferente de há 20 anos. O que mudou, e como se reinventaram?

C.R. — Os três sócios da PC começámos a trabalhar em televisão em 1998. Portanto, são quase 30 anos de experiência. A televisão mudou muito, claro. A multiplicação de ecrãs conduziu ao cenário actual que, por sua vez, levou a que o mercado publicitário investisse noutras plataformas. Cada vez se consome menos televisão generalista e o futuro afigura-se-nos um tanto cinzento. Por enquanto, ainda é possível continuar. Prosseguimos, embora com orçamentos cada vez mais baixos, claro. Mas estamos a desenvolver ideias para, em paralelo, prosseguirmos a nossa atividade – que, no fundo, se resume a contar estórias – com novas linguagens, noutras plataformas. 

A PC mantém a mesma estrutura tripartida desde a sua fundação. O que faz uma sociedade durar tanto tempo num setor tão exigente?

C.R. — Não temos dúvidas de que é a discrição, a humildade e o trabalho. 

A vossa história está muito ligada às televisões privadas, sobretudo à SIC, como referiste. Como se constrói e mantém uma parceria com esta longevidade?

C.R. — Temos trabalhado muito e a SIC tem confiado no nosso trabalho. Que mais podemos pedir? (Sorri) 


Domingão (SIC) implica o reforço da equipa da Produções Clandestinas, todos os domingos

Atualmente, a PC tem dois programas no ar, o Linha Aberta e o Domingão, ambos na SIC. De que dimensão estamos a falar, em número de profissionais, estrutura e investimento?

C.R. — São dois formatos totalmente diferentes e que nos dão um imenso orgulho. Gostamos de trabalhar com equipas pequenas, feitas pelas pessoas que estão connosco há muitos anos. No caso do Linha Aberta, – que, desde o início deste ano, é semanal – temos uma equipa composta por dois jornalistas, um repórter de imagem, um editor de imagem e dois elementos de produção. Isto além da equipa de Coordenação que, em qualquer dos nossos programas, é assegurada por mim e pela Dulce Rodrigues. Costumamos dizer, em tom de brincadeira, que não somos produtores “de pastinha”. Não. Nós trabalhamos diariamente e lado a lado com as nossas equipas. Relativamente à estrutura do Domingão, a situação é diferente porque, sobretudo, durante a respetiva emissão, o programa exige uma equipa de produção mais vasta. São cerca de seis horas de emissão semanais, aos domingos. Além da equipa residente, de sete pessoas, contamos com a colaboração de dezenas de outros profissionais, apenas, aos domingos. 

Depois de tantos anos, o que pesa mais: a ambição de criar novos programas ou a necessidade de garantir a continuidade dos existentes?

C.R. — Fazemos por manter os programas que temos, que já ocupam a grelha da SIC há vários anos, tentando reinventar-nos o mais possível, de acordo com os orçamentos que temos. Mas, como referi, também estamos numa fase de reflexão para, eventualmente, trilharmos, em paralelo, novos caminhos. 

O que surpreende, hoje, quem faz televisão?

C.R. — Costumo dizer que todas as histórias já foram contadas. Por isso, é preciso tornar a contá-las de forma diferente; recorrendo, até, a alguns dos recursos estilísticos usados no romance, na literatura. Mas este tema daria pano para mangas… O público que consome televisão é difícil. Dada a multiplicação de plataformas, de géneros televisivos, de mensagens, de conteúdos, a audiência é cada vez mais exigente. 


A sala de produção dos dois programas da Produções Clandestinas para a SIC fica no Parque Holanda, em Carnaxide


Há espaço para novas gerações de criadores e apresentadores na televisão portuguesa? 

C.R. Há sempre espaço para tudo e para todos.

A PC construiu a sua história no daytime. Como olham para o streaming? É mais ameaça, oportunidade ou apenas outra plataforma?

C.R. — Em Portugal, dado que os consumidores de televisão pertencem aos grupos etários mais velhos, pensamos que a televisão generalista ainda pode manter-se durante mais alguns anos. O streaming nunca será uma ameaça, mas sim um espaço sedutor, eventualmente, de conquista. 

Da experiência proveniente de todos os formatos que já produziram, o que faz um programa resistir ao tempo?

C.R. — A surpresa e a emoção. 

Que princípios de gestão foram fundamentais para garantir a continuidade e a reputação da PC?

C.R. — A nossa união e a confiança que transmitimos a quem trabalha connosco.

O que vos entusiasma para a próxima década da PC?

C.R. — O entusiasmo prende-se com uma certa perplexidade sobre, precisamente, o que será o futuro: uma página em branco que já começámos a escrever e que não sabemos como terminará. A próxima década é uma incógnita. E isso é entusiasmante. 

#Protagonistas

A história da televisão portuguesa também se escreve com as Produções Clandestinas

|

27 de nov. de 2025, 10:45

Quando, e como, nasceu a Produções Clandestinas (PC)?

Cláudia Rodrigues — A Produção Clandestinas (PC) nasceu em 2008. Na altura, tanto eu, como o Artur Moura e a Dulce Rodrigues já trabalhávamos juntos, há cerca de dez anos, para outras produtoras. A PC, ainda sem nome, era uma ideia que os três tínhamos há algum tempo. No entanto, só a conseguimos concretizar quando, em 2008, nos desvinculámos dos nossos trabalhos (eu e o Artur estávamos na TVI e a Dulce na SIC) para aceitarmos um projecto de media em Angola – que não se concretizou. Perante esse cenário, decidimos meter mãos à obra e criámos a empresa, com um objecto social vasto, não só ligado à televisão, mas também à imprensa e a outros segmentos da Comunicação Social. Nos anos seguintes, ainda trabalhámos para outras produtoras, até que, em 2011, decidimos criar o nosso primeiro formato televisivo.


Cláudia Rodrigues co-fundou a Produções Clandestinas juntamente com Dulce Rodrigues e Artur Moura

O que faltava no mercado televisivo português?

C.R. — À época, as chamadas de valor acrescentado já constituíam uma forte receita para as televisões e decidimos tirar proveito disso. Paralelamente, aqui ao lado, em Espanha, os formatos relacionados com o esoterismo, nomeadamente, o tarô, estavam em alta. Tratavam-se de formatos simples e com investimento relativamente baixo, em comparação com outros. O ideal para tentarmos começar... Juntámos os dois princípios e assim nasceu o programa Cartas da Maya – o Dilema (SIC). Foi um projecto longo, felizmente. E auto-sustentável, isto é, pagava-se a si próprio, o que foi sedutor para a própria estação na hora em que o propusemos. Aquando da saída da Maya para a CMTV, o programa mudou de nome para A Vida nas Cartas – O Dilema e passou a ser conduzido pela taróloga Maria Helena. Viria a terminar a 8 de Setembro de 2017, uma sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, estreávamos Linha Aberta com Hernâni Carvalho, um formato que ainda se mantém e que nos deu também a oportunidade de exercermos a nossa profissão de base que é o Jornalismo. 

São esses os projetos que mais marcaram, até agora, o percurso da PC?

C.R. — Falar do percurso da PC é falar, também, de tudo o que a antecedeu. E falar do passado, implica abordar alguns dos grandes formatos de daytime, em Portugal, que orgulhosamente ajudámos a construir. Somos fundadores de vários, tanto na TVI, como na SIC. Destaco o Você na TV! (TVI), estreado em 2005, e que revelou Cristina Ferreira. Foi um formato muito rico e variado, onde mais crescemos como profissionais de televisão, dada a liberdade de criação que nos foi confiada. Seguiu-se As Tardes da Júlia (TVI, 2009) que também teve um enorme impacto no público e em nós, como profissionais. Mas, obviamente, que os nossos projectos próprios são os que mais orgulho nos dão. Somos uma empresa pequena, inteiramente portuguesa e chegámos a emitir quinze horas semanais na grelha da SIC, durante vários anos, até ao ano passado.


Linha Aberta (SIC), produzido pela Produções Clandestinas, estreou há oito anos


O que aprenderam com cada um desses formatos?

C.R. — Sobretudo, que o esforço e o trabalho compensam. (Sorri) 

Muitos espectadores conhecem os vossos programas, mas poucos conhecem a vossa empresa. Essa discrição foi escolha ou consequência?

C.R. — O símbolo da PC é uma formiga. O lado simbólico implícito combina com a nossa maneira de ser: trabalhadores, mas discretos. Há duas premissas que seguimos à risca: que os nossos clientes conheçam, valorizem e confiem no nosso trabalho e que o público prefira os nossos programas aos da concorrência. 

Fazer televisão é, hoje, diferente de há 20 anos. O que mudou, e como se reinventaram?

C.R. — Os três sócios da PC começámos a trabalhar em televisão em 1998. Portanto, são quase 30 anos de experiência. A televisão mudou muito, claro. A multiplicação de ecrãs conduziu ao cenário actual que, por sua vez, levou a que o mercado publicitário investisse noutras plataformas. Cada vez se consome menos televisão generalista e o futuro afigura-se-nos um tanto cinzento. Por enquanto, ainda é possível continuar. Prosseguimos, embora com orçamentos cada vez mais baixos, claro. Mas estamos a desenvolver ideias para, em paralelo, prosseguirmos a nossa atividade – que, no fundo, se resume a contar estórias – com novas linguagens, noutras plataformas. 

A PC mantém a mesma estrutura tripartida desde a sua fundação. O que faz uma sociedade durar tanto tempo num setor tão exigente?

C.R. — Não temos dúvidas de que é a discrição, a humildade e o trabalho. 

A vossa história está muito ligada às televisões privadas, sobretudo à SIC, como referiste. Como se constrói e mantém uma parceria com esta longevidade?

C.R. — Temos trabalhado muito e a SIC tem confiado no nosso trabalho. Que mais podemos pedir? (Sorri) 


Domingão (SIC) implica o reforço da equipa da Produções Clandestinas, todos os domingos

Atualmente, a PC tem dois programas no ar, o Linha Aberta e o Domingão, ambos na SIC. De que dimensão estamos a falar, em número de profissionais, estrutura e investimento?

C.R. — São dois formatos totalmente diferentes e que nos dão um imenso orgulho. Gostamos de trabalhar com equipas pequenas, feitas pelas pessoas que estão connosco há muitos anos. No caso do Linha Aberta, – que, desde o início deste ano, é semanal – temos uma equipa composta por dois jornalistas, um repórter de imagem, um editor de imagem e dois elementos de produção. Isto além da equipa de Coordenação que, em qualquer dos nossos programas, é assegurada por mim e pela Dulce Rodrigues. Costumamos dizer, em tom de brincadeira, que não somos produtores “de pastinha”. Não. Nós trabalhamos diariamente e lado a lado com as nossas equipas. Relativamente à estrutura do Domingão, a situação é diferente porque, sobretudo, durante a respetiva emissão, o programa exige uma equipa de produção mais vasta. São cerca de seis horas de emissão semanais, aos domingos. Além da equipa residente, de sete pessoas, contamos com a colaboração de dezenas de outros profissionais, apenas, aos domingos. 

Depois de tantos anos, o que pesa mais: a ambição de criar novos programas ou a necessidade de garantir a continuidade dos existentes?

C.R. — Fazemos por manter os programas que temos, que já ocupam a grelha da SIC há vários anos, tentando reinventar-nos o mais possível, de acordo com os orçamentos que temos. Mas, como referi, também estamos numa fase de reflexão para, eventualmente, trilharmos, em paralelo, novos caminhos. 

O que surpreende, hoje, quem faz televisão?

C.R. — Costumo dizer que todas as histórias já foram contadas. Por isso, é preciso tornar a contá-las de forma diferente; recorrendo, até, a alguns dos recursos estilísticos usados no romance, na literatura. Mas este tema daria pano para mangas… O público que consome televisão é difícil. Dada a multiplicação de plataformas, de géneros televisivos, de mensagens, de conteúdos, a audiência é cada vez mais exigente. 


A sala de produção dos dois programas da Produções Clandestinas para a SIC fica no Parque Holanda, em Carnaxide


Há espaço para novas gerações de criadores e apresentadores na televisão portuguesa? 

C.R. Há sempre espaço para tudo e para todos.

A PC construiu a sua história no daytime. Como olham para o streaming? É mais ameaça, oportunidade ou apenas outra plataforma?

C.R. — Em Portugal, dado que os consumidores de televisão pertencem aos grupos etários mais velhos, pensamos que a televisão generalista ainda pode manter-se durante mais alguns anos. O streaming nunca será uma ameaça, mas sim um espaço sedutor, eventualmente, de conquista. 

Da experiência proveniente de todos os formatos que já produziram, o que faz um programa resistir ao tempo?

C.R. — A surpresa e a emoção. 

Que princípios de gestão foram fundamentais para garantir a continuidade e a reputação da PC?

C.R. — A nossa união e a confiança que transmitimos a quem trabalha connosco.

O que vos entusiasma para a próxima década da PC?

C.R. — O entusiasmo prende-se com uma certa perplexidade sobre, precisamente, o que será o futuro: uma página em branco que já começámos a escrever e que não sabemos como terminará. A próxima década é uma incógnita. E isso é entusiasmante. 

#Protagonistas

A história da televisão portuguesa também se escreve com as Produções Clandestinas

|

27 de nov. de 2025, 10:45

Quando, e como, nasceu a Produções Clandestinas (PC)?

Cláudia Rodrigues — A Produção Clandestinas (PC) nasceu em 2008. Na altura, tanto eu, como o Artur Moura e a Dulce Rodrigues já trabalhávamos juntos, há cerca de dez anos, para outras produtoras. A PC, ainda sem nome, era uma ideia que os três tínhamos há algum tempo. No entanto, só a conseguimos concretizar quando, em 2008, nos desvinculámos dos nossos trabalhos (eu e o Artur estávamos na TVI e a Dulce na SIC) para aceitarmos um projecto de media em Angola – que não se concretizou. Perante esse cenário, decidimos meter mãos à obra e criámos a empresa, com um objecto social vasto, não só ligado à televisão, mas também à imprensa e a outros segmentos da Comunicação Social. Nos anos seguintes, ainda trabalhámos para outras produtoras, até que, em 2011, decidimos criar o nosso primeiro formato televisivo.


Cláudia Rodrigues co-fundou a Produções Clandestinas juntamente com Dulce Rodrigues e Artur Moura

O que faltava no mercado televisivo português?

C.R. — À época, as chamadas de valor acrescentado já constituíam uma forte receita para as televisões e decidimos tirar proveito disso. Paralelamente, aqui ao lado, em Espanha, os formatos relacionados com o esoterismo, nomeadamente, o tarô, estavam em alta. Tratavam-se de formatos simples e com investimento relativamente baixo, em comparação com outros. O ideal para tentarmos começar... Juntámos os dois princípios e assim nasceu o programa Cartas da Maya – o Dilema (SIC). Foi um projecto longo, felizmente. E auto-sustentável, isto é, pagava-se a si próprio, o que foi sedutor para a própria estação na hora em que o propusemos. Aquando da saída da Maya para a CMTV, o programa mudou de nome para A Vida nas Cartas – O Dilema e passou a ser conduzido pela taróloga Maria Helena. Viria a terminar a 8 de Setembro de 2017, uma sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, estreávamos Linha Aberta com Hernâni Carvalho, um formato que ainda se mantém e que nos deu também a oportunidade de exercermos a nossa profissão de base que é o Jornalismo. 

São esses os projetos que mais marcaram, até agora, o percurso da PC?

C.R. — Falar do percurso da PC é falar, também, de tudo o que a antecedeu. E falar do passado, implica abordar alguns dos grandes formatos de daytime, em Portugal, que orgulhosamente ajudámos a construir. Somos fundadores de vários, tanto na TVI, como na SIC. Destaco o Você na TV! (TVI), estreado em 2005, e que revelou Cristina Ferreira. Foi um formato muito rico e variado, onde mais crescemos como profissionais de televisão, dada a liberdade de criação que nos foi confiada. Seguiu-se As Tardes da Júlia (TVI, 2009) que também teve um enorme impacto no público e em nós, como profissionais. Mas, obviamente, que os nossos projectos próprios são os que mais orgulho nos dão. Somos uma empresa pequena, inteiramente portuguesa e chegámos a emitir quinze horas semanais na grelha da SIC, durante vários anos, até ao ano passado.


Linha Aberta (SIC), produzido pela Produções Clandestinas, estreou há oito anos


O que aprenderam com cada um desses formatos?

C.R. — Sobretudo, que o esforço e o trabalho compensam. (Sorri) 

Muitos espectadores conhecem os vossos programas, mas poucos conhecem a vossa empresa. Essa discrição foi escolha ou consequência?

C.R. — O símbolo da PC é uma formiga. O lado simbólico implícito combina com a nossa maneira de ser: trabalhadores, mas discretos. Há duas premissas que seguimos à risca: que os nossos clientes conheçam, valorizem e confiem no nosso trabalho e que o público prefira os nossos programas aos da concorrência. 

Fazer televisão é, hoje, diferente de há 20 anos. O que mudou, e como se reinventaram?

C.R. — Os três sócios da PC começámos a trabalhar em televisão em 1998. Portanto, são quase 30 anos de experiência. A televisão mudou muito, claro. A multiplicação de ecrãs conduziu ao cenário actual que, por sua vez, levou a que o mercado publicitário investisse noutras plataformas. Cada vez se consome menos televisão generalista e o futuro afigura-se-nos um tanto cinzento. Por enquanto, ainda é possível continuar. Prosseguimos, embora com orçamentos cada vez mais baixos, claro. Mas estamos a desenvolver ideias para, em paralelo, prosseguirmos a nossa atividade – que, no fundo, se resume a contar estórias – com novas linguagens, noutras plataformas. 

A PC mantém a mesma estrutura tripartida desde a sua fundação. O que faz uma sociedade durar tanto tempo num setor tão exigente?

C.R. — Não temos dúvidas de que é a discrição, a humildade e o trabalho. 

A vossa história está muito ligada às televisões privadas, sobretudo à SIC, como referiste. Como se constrói e mantém uma parceria com esta longevidade?

C.R. — Temos trabalhado muito e a SIC tem confiado no nosso trabalho. Que mais podemos pedir? (Sorri) 


Domingão (SIC) implica o reforço da equipa da Produções Clandestinas, todos os domingos

Atualmente, a PC tem dois programas no ar, o Linha Aberta e o Domingão, ambos na SIC. De que dimensão estamos a falar, em número de profissionais, estrutura e investimento?

C.R. — São dois formatos totalmente diferentes e que nos dão um imenso orgulho. Gostamos de trabalhar com equipas pequenas, feitas pelas pessoas que estão connosco há muitos anos. No caso do Linha Aberta, – que, desde o início deste ano, é semanal – temos uma equipa composta por dois jornalistas, um repórter de imagem, um editor de imagem e dois elementos de produção. Isto além da equipa de Coordenação que, em qualquer dos nossos programas, é assegurada por mim e pela Dulce Rodrigues. Costumamos dizer, em tom de brincadeira, que não somos produtores “de pastinha”. Não. Nós trabalhamos diariamente e lado a lado com as nossas equipas. Relativamente à estrutura do Domingão, a situação é diferente porque, sobretudo, durante a respetiva emissão, o programa exige uma equipa de produção mais vasta. São cerca de seis horas de emissão semanais, aos domingos. Além da equipa residente, de sete pessoas, contamos com a colaboração de dezenas de outros profissionais, apenas, aos domingos. 

Depois de tantos anos, o que pesa mais: a ambição de criar novos programas ou a necessidade de garantir a continuidade dos existentes?

C.R. — Fazemos por manter os programas que temos, que já ocupam a grelha da SIC há vários anos, tentando reinventar-nos o mais possível, de acordo com os orçamentos que temos. Mas, como referi, também estamos numa fase de reflexão para, eventualmente, trilharmos, em paralelo, novos caminhos. 

O que surpreende, hoje, quem faz televisão?

C.R. — Costumo dizer que todas as histórias já foram contadas. Por isso, é preciso tornar a contá-las de forma diferente; recorrendo, até, a alguns dos recursos estilísticos usados no romance, na literatura. Mas este tema daria pano para mangas… O público que consome televisão é difícil. Dada a multiplicação de plataformas, de géneros televisivos, de mensagens, de conteúdos, a audiência é cada vez mais exigente. 


A sala de produção dos dois programas da Produções Clandestinas para a SIC fica no Parque Holanda, em Carnaxide


Há espaço para novas gerações de criadores e apresentadores na televisão portuguesa? 

C.R. Há sempre espaço para tudo e para todos.

A PC construiu a sua história no daytime. Como olham para o streaming? É mais ameaça, oportunidade ou apenas outra plataforma?

C.R. — Em Portugal, dado que os consumidores de televisão pertencem aos grupos etários mais velhos, pensamos que a televisão generalista ainda pode manter-se durante mais alguns anos. O streaming nunca será uma ameaça, mas sim um espaço sedutor, eventualmente, de conquista. 

Da experiência proveniente de todos os formatos que já produziram, o que faz um programa resistir ao tempo?

C.R. — A surpresa e a emoção. 

Que princípios de gestão foram fundamentais para garantir a continuidade e a reputação da PC?

C.R. — A nossa união e a confiança que transmitimos a quem trabalha connosco.

O que vos entusiasma para a próxima década da PC?

C.R. — O entusiasmo prende-se com uma certa perplexidade sobre, precisamente, o que será o futuro: uma página em branco que já começámos a escrever e que não sabemos como terminará. A próxima década é uma incógnita. E isso é entusiasmante. 

#Protagonistas

A história da televisão portuguesa também se escreve com as Produções Clandestinas

É uma das produtoras mais regulares na antena da SIC, responsável por formatos líderes de audiência. O MOTIVO conversou com Cláudia Rodrigues, sócia-fundadora, jornalista, autora e orgulhosa produtora sobre o caminho trilhado, o mercado atual e o futuro do audiovisual em Portugal.

|

27 de nov. de 2025, 10:45

Quando, e como, nasceu a Produções Clandestinas (PC)?

Cláudia Rodrigues — A Produção Clandestinas (PC) nasceu em 2008. Na altura, tanto eu, como o Artur Moura e a Dulce Rodrigues já trabalhávamos juntos, há cerca de dez anos, para outras produtoras. A PC, ainda sem nome, era uma ideia que os três tínhamos há algum tempo. No entanto, só a conseguimos concretizar quando, em 2008, nos desvinculámos dos nossos trabalhos (eu e o Artur estávamos na TVI e a Dulce na SIC) para aceitarmos um projecto de media em Angola – que não se concretizou. Perante esse cenário, decidimos meter mãos à obra e criámos a empresa, com um objecto social vasto, não só ligado à televisão, mas também à imprensa e a outros segmentos da Comunicação Social. Nos anos seguintes, ainda trabalhámos para outras produtoras, até que, em 2011, decidimos criar o nosso primeiro formato televisivo.


Cláudia Rodrigues co-fundou a Produções Clandestinas juntamente com Dulce Rodrigues e Artur Moura

O que faltava no mercado televisivo português?

C.R. — À época, as chamadas de valor acrescentado já constituíam uma forte receita para as televisões e decidimos tirar proveito disso. Paralelamente, aqui ao lado, em Espanha, os formatos relacionados com o esoterismo, nomeadamente, o tarô, estavam em alta. Tratavam-se de formatos simples e com investimento relativamente baixo, em comparação com outros. O ideal para tentarmos começar... Juntámos os dois princípios e assim nasceu o programa Cartas da Maya – o Dilema (SIC). Foi um projecto longo, felizmente. E auto-sustentável, isto é, pagava-se a si próprio, o que foi sedutor para a própria estação na hora em que o propusemos. Aquando da saída da Maya para a CMTV, o programa mudou de nome para A Vida nas Cartas – O Dilema e passou a ser conduzido pela taróloga Maria Helena. Viria a terminar a 8 de Setembro de 2017, uma sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, estreávamos Linha Aberta com Hernâni Carvalho, um formato que ainda se mantém e que nos deu também a oportunidade de exercermos a nossa profissão de base que é o Jornalismo. 

São esses os projetos que mais marcaram, até agora, o percurso da PC?

C.R. — Falar do percurso da PC é falar, também, de tudo o que a antecedeu. E falar do passado, implica abordar alguns dos grandes formatos de daytime, em Portugal, que orgulhosamente ajudámos a construir. Somos fundadores de vários, tanto na TVI, como na SIC. Destaco o Você na TV! (TVI), estreado em 2005, e que revelou Cristina Ferreira. Foi um formato muito rico e variado, onde mais crescemos como profissionais de televisão, dada a liberdade de criação que nos foi confiada. Seguiu-se As Tardes da Júlia (TVI, 2009) que também teve um enorme impacto no público e em nós, como profissionais. Mas, obviamente, que os nossos projectos próprios são os que mais orgulho nos dão. Somos uma empresa pequena, inteiramente portuguesa e chegámos a emitir quinze horas semanais na grelha da SIC, durante vários anos, até ao ano passado.


Linha Aberta (SIC), produzido pela Produções Clandestinas, estreou há oito anos


O que aprenderam com cada um desses formatos?

C.R. — Sobretudo, que o esforço e o trabalho compensam. (Sorri) 

Muitos espectadores conhecem os vossos programas, mas poucos conhecem a vossa empresa. Essa discrição foi escolha ou consequência?

C.R. — O símbolo da PC é uma formiga. O lado simbólico implícito combina com a nossa maneira de ser: trabalhadores, mas discretos. Há duas premissas que seguimos à risca: que os nossos clientes conheçam, valorizem e confiem no nosso trabalho e que o público prefira os nossos programas aos da concorrência. 

Fazer televisão é, hoje, diferente de há 20 anos. O que mudou, e como se reinventaram?

C.R. — Os três sócios da PC começámos a trabalhar em televisão em 1998. Portanto, são quase 30 anos de experiência. A televisão mudou muito, claro. A multiplicação de ecrãs conduziu ao cenário actual que, por sua vez, levou a que o mercado publicitário investisse noutras plataformas. Cada vez se consome menos televisão generalista e o futuro afigura-se-nos um tanto cinzento. Por enquanto, ainda é possível continuar. Prosseguimos, embora com orçamentos cada vez mais baixos, claro. Mas estamos a desenvolver ideias para, em paralelo, prosseguirmos a nossa atividade – que, no fundo, se resume a contar estórias – com novas linguagens, noutras plataformas. 

A PC mantém a mesma estrutura tripartida desde a sua fundação. O que faz uma sociedade durar tanto tempo num setor tão exigente?

C.R. — Não temos dúvidas de que é a discrição, a humildade e o trabalho. 

A vossa história está muito ligada às televisões privadas, sobretudo à SIC, como referiste. Como se constrói e mantém uma parceria com esta longevidade?

C.R. — Temos trabalhado muito e a SIC tem confiado no nosso trabalho. Que mais podemos pedir? (Sorri) 


Domingão (SIC) implica o reforço da equipa da Produções Clandestinas, todos os domingos

Atualmente, a PC tem dois programas no ar, o Linha Aberta e o Domingão, ambos na SIC. De que dimensão estamos a falar, em número de profissionais, estrutura e investimento?

C.R. — São dois formatos totalmente diferentes e que nos dão um imenso orgulho. Gostamos de trabalhar com equipas pequenas, feitas pelas pessoas que estão connosco há muitos anos. No caso do Linha Aberta, – que, desde o início deste ano, é semanal – temos uma equipa composta por dois jornalistas, um repórter de imagem, um editor de imagem e dois elementos de produção. Isto além da equipa de Coordenação que, em qualquer dos nossos programas, é assegurada por mim e pela Dulce Rodrigues. Costumamos dizer, em tom de brincadeira, que não somos produtores “de pastinha”. Não. Nós trabalhamos diariamente e lado a lado com as nossas equipas. Relativamente à estrutura do Domingão, a situação é diferente porque, sobretudo, durante a respetiva emissão, o programa exige uma equipa de produção mais vasta. São cerca de seis horas de emissão semanais, aos domingos. Além da equipa residente, de sete pessoas, contamos com a colaboração de dezenas de outros profissionais, apenas, aos domingos. 

Depois de tantos anos, o que pesa mais: a ambição de criar novos programas ou a necessidade de garantir a continuidade dos existentes?

C.R. — Fazemos por manter os programas que temos, que já ocupam a grelha da SIC há vários anos, tentando reinventar-nos o mais possível, de acordo com os orçamentos que temos. Mas, como referi, também estamos numa fase de reflexão para, eventualmente, trilharmos, em paralelo, novos caminhos. 

O que surpreende, hoje, quem faz televisão?

C.R. — Costumo dizer que todas as histórias já foram contadas. Por isso, é preciso tornar a contá-las de forma diferente; recorrendo, até, a alguns dos recursos estilísticos usados no romance, na literatura. Mas este tema daria pano para mangas… O público que consome televisão é difícil. Dada a multiplicação de plataformas, de géneros televisivos, de mensagens, de conteúdos, a audiência é cada vez mais exigente. 


A sala de produção dos dois programas da Produções Clandestinas para a SIC fica no Parque Holanda, em Carnaxide


Há espaço para novas gerações de criadores e apresentadores na televisão portuguesa? 

C.R. Há sempre espaço para tudo e para todos.

A PC construiu a sua história no daytime. Como olham para o streaming? É mais ameaça, oportunidade ou apenas outra plataforma?

C.R. — Em Portugal, dado que os consumidores de televisão pertencem aos grupos etários mais velhos, pensamos que a televisão generalista ainda pode manter-se durante mais alguns anos. O streaming nunca será uma ameaça, mas sim um espaço sedutor, eventualmente, de conquista. 

Da experiência proveniente de todos os formatos que já produziram, o que faz um programa resistir ao tempo?

C.R. — A surpresa e a emoção. 

Que princípios de gestão foram fundamentais para garantir a continuidade e a reputação da PC?

C.R. — A nossa união e a confiança que transmitimos a quem trabalha connosco.

O que vos entusiasma para a próxima década da PC?

C.R. — O entusiasmo prende-se com uma certa perplexidade sobre, precisamente, o que será o futuro: uma página em branco que já começámos a escrever e que não sabemos como terminará. A próxima década é uma incógnita. E isso é entusiasmante. 

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.