
#Motivação
Daniela Penela: “Podemos delegar o trabalho técnico, mas não a compreensão da nossa empresa”
Depois mais de 15 anos ligada ao ensino universitário de Gestão, Contabilidade e Fiscalidade, Daniela Penela decidiu aproximar esse conhecimento da realidade de quem gere empresas. Criou a Academia da Literacia Empresarial depois de perceber que muitos empresários conhecem profundamente os seus produtos, clientes e mercados, mas continuam a tomar decisões sem dominar conceitos financeiros e fiscais básicos. Nos primeiros meses do projeto, as formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal.
A Daniela passou pela auditoria, construiu uma carreira académica e é, também, empresária. Quando percebeu que queria transformar esse percurso num projeto próprio?
DANIELA PENELA — Sempre gostei muito de empreendedorismo. Sempre fui uma pessoa cheia de ideias, que gostava de criar coisas novas, e quis construir o meu próprio percurso, mesmo em paralelo com a carreira académica. Essa vontade já existia há algum tempo; o que foi condicionando o desenvolvimento foi sobretudo a falta de disponibilidade. A carreira académica exige muito tempo e dedicação e, durante alguns anos, não consegui criar o espaço necessário. A Academia da Literacia Empresarial surge dessa vontade, mas sobretudo da perceção de que havia uma necessidade real à qual eu conseguia responder. Acaba por juntar várias áreas que sempre fizeram parte do meu percurso: Gestão, Contabilidade, Fiscalidade, ensino e, também, o gosto pelo empreendedorismo e por criar algo próprio.
O que é que o contacto direto com empresários lhe mostrou que a universidade não mostrava?
D.P. — Mostrou-me, acima de tudo, que eu tinha uma ideia diferente sobre o nível de conhecimento que existia na realidade empresarial. Quando pensamos num empresário, num CEO ou no dono de uma empresa, quase assumimos automaticamente que essa pessoa conhece bem a área financeira, contabilística e fiscal do negócio. Eu própria partia um pouco desse pressuposto. Na universidade é diferente: quando recebo alunos, parto naturalmente do princípio de que estão ali para aprender. O que fui percebendo é que, em determinadas áreas, a realidade dos empresários e a dos alunos não é assim tão diferente quanto imaginava. Os empresários têm muitas vezes um conhecimento extremamente profundo e prático do seu produto, serviço, clientes e mercado, porque o adquiriram ao longo dos anos. Isso não significa que tenham aprendido Contabilidade, Fiscalidade, Finanças ou Gestão.
Porque delegam essa área?
D.P. — Existem muitas lacunas e, também, alguma dificuldade em encontrar formação suficientemente prática e adaptada a quem gere uma empresa e tem pouco tempo disponível. Há empresários que dominam profundamente a sua profissão e o seu negócio, mas nunca tiveram verdadeiramente oportunidade de aprender a gerir uma empresa do ponto de vista financeiro e fiscal. E isso pode ter um impacto decisivo no rumo do negócio.
Onde encontra as maiores fragilidades desses empresários?
D.P. — Uma das maiores fragilidades começa precisamente na delegação. Contratamos um contabilista, ele trata da contabilidade e dos números da empresa e ficamos descansados porque sentimos que essa parte está entregue. O contabilista deve ser um parceiro do negócio, e é natural recorrermos a ele perante uma dúvida técnica, mas precisamos de ter conhecimento básico suficiente para conversar com esse profissional, perceber aquilo que nos está a explicar e tomar as nossas próprias decisões. Nas empresas, tomamos decisões com base em números. Não podemos deixar de olhar para despesas, lucros, margens, liquidez, rácios ou estrutura financeira.
Existem outras fragilidades?
D.P. — Existe, também, a componente fiscal. O desconhecimento pode levar a decisões pouco vantajosas ou até desastrosas. A compra de uma viatura através da empresa é um exemplo: pode parecer automaticamente uma vantagem fiscal, quando, dependendo da viatura, do valor e das despesas associadas, as limitações fiscais e a tributação autónoma podem tornar a decisão bastante mais cara. Podemos e devemos delegar o trabalho técnico, mas não podemos delegar por completo a compreensão daquilo que se passa na nossa própria empresa.

Daniela Penela fundou a Academia de Literacia Empresarial e mantém o trabalho como docente universitária
As suas primeiras formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal. O que aprendeu com estes primeiros meses?
D.P. — Desde o início, analisei informação fiscal das empresas, nomeadamente declarações Modelo 22, e isso foi uma base importante para perceber o que estava a acontecer na prática. Encontrei problemas bastante transversais: benefícios fiscais de aplicação relativamente generalizada que não estavam a ser utilizados, despesas que não estavam devidamente documentadas e, por isso, não eram fiscalmente aceites ou originavam tributação autónoma, questões relacionadas com ajudas de custo e várias outras situações.
Ficou surpreendida?
D.P. — Surpreendeu-me perceber que pequenas alterações de procedimentos ou um maior conhecimento das regras podiam significar milhares de euros de diferença. Nestes primeiros meses, identificámos mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal, com alguns casos individuais muito significativos. Talvez a principal aprendizagem tenha sido perceber que não estamos a falar de situações isoladas: muitos dos problemas repetem-se em empresas completamente diferentes e de diferentes dimensões. E não é preciso transformar o empresário num especialista em fiscalidade. Muitas vezes, basta dar-lhe conhecimento suficiente para perceber que determinada questão existe, fazer as perguntas certas e discutir alternativas com quem o acompanha.
Aponta a dependência excessiva do contabilista como um dos erros mais frequentes. Que decisões nunca deveria um empresário delegar completamente a terceiros?
D.P. — As decisões de investir, contratar, comprar determinado ativo para a empresa ou recorrer a financiamento nunca deveriam ficar completamente dependentes do contabilista. Devemos pedir aconselhamento, e perceber o impacto fiscal e financeiro dessas decisões, mas a decisão tem de ser do empresário.
Que papel deve ter o contabilista nessas situações?
D.P. — O contabilista pode e deve ajudar-nos a compreender as consequências de determinada escolha e fazer, por exemplo, a simulação do imposto a pagar, porque estamos a falar de uma área técnica. Isso não significa que o empresário deva chegar ao final do ano sem qualquer ideia do ponto de situação da empresa. Pode pedir informação, discutir cenários e perceber o impacto das decisões que está a ponderar. Existe uma diferença muito clara entre pedir apoio técnico e delegar a decisão. O contabilista deve ser um parceiro muito importante do negócio, mas investir, contratar, comprar ou financiar são decisões de gestão e a gestão da empresa é responsabilidade do empresário.
Existe uma grande distância entre dominar tecnicamente uma área e conseguir explicá-la de forma útil a quem gere uma empresa. Como encontrou essa linguagem?
D.P. — Comecei a ensinar muito cedo. Em 2008, quando ainda estava na universidade, comecei a dar explicações e tive contacto com pessoas com níveis de conhecimento muito diferentes. Isso obrigou-me, desde cedo, a procurar estratégias diferentes para ajudar cada pessoa a chegar ao mesmo ponto. Ao longo da carreira, também tive turmas muito díspares, incluindo turmas Erasmus, onde às dificuldades técnicas se juntavam dificuldades linguísticas. Acho que foi, sobretudo, a prática que me trouxe essa capacidade.
Também lhe traz desafios a si?
D.P. — Eu própria preciso de visualizar e organizar muito bem a informação: tenho de partir o conceito, perceber o que acontece primeiro, o que acontece depois e qual é o raciocínio que liga as várias partes. Muitas vezes, vou à própria língua portuguesa para explicar conceitos. Quando explico uma perda por imparidade, por exemplo, começo pela palavra “imparidade” e construo o conceito a partir daí. Se começarmos imediatamente com grandes termos técnicos e definições, a pessoa pode decorar naquele momento, mas terá muito mais dificuldade em compreender e reter. Quando existe uma lógica por trás, torna-se muito mais fácil perceber.
Transformar conhecimento especializado num negócio obriga, também, a pensar em produto, preço, comunicação e crescimento. O que tem sido mais desafiante nesta passagem de professora para empreendedora?
D.P. — Diria que praticamente tudo, porque passamos a ter de pensar em dimensões muito diferentes ao mesmo tempo. Desde logo, construir um produto que responda às necessidades do maior número possível de pessoas, seja útil e suficientemente aprofundado. Inicialmente, teria tendência para desenvolver uma formação muito mais pormenorizada, porque venho da área académica e gosto de aprofundar os temas. Depois, percebi que os empresários simplesmente não têm esse tempo disponível e foi necessário adaptar o produto à realidade deles.
Que resultado teve essa decisão?
D.P. — O meu programa principal acabou por ficar estruturado em seis aulas. Também percebi que as pessoas querem esclarecer dúvidas relacionadas com a realidade concreta da sua empresa, por isso, mantive aulas ao vivo. Agora, começa outro desafio: crescer e manter a capacidade de acompanhamento. Grande parte do projeto esteve muito dependente de mim. Já tenho uma consultora a ajudar no acompanhamento de alguns clientes, e estou numa fase em que preciso de formar outras pessoas capazes de prestar esse acompanhamento, com a mesma lógica e qualidade. A passagem de um projeto muito centrado numa pessoa para uma estrutura capaz de crescer é, provavelmente, um dos desafios mais importantes desta fase.

Que dimensão gostaria que a Academia da Literacia Empresarial tivesse daqui a três ou cinco anos, e que lugar quer que este projeto ocupe no seu próprio percurso profissional?
D.P. — Gostaria que a Academia da Literacia Empresarial se tornasse uma referência na formação para empresários e empresas, tanto para quem está a começar como para empresas que já estão em funcionamento e querem dar formação base aos seus gestores. Uma aluna dizia-me, em tom de brincadeira mas com algum fundo de verdade, que eu devia fazer uma parceria com o programa Empresa na Hora para que todos os empresários tivessem de fazer uma formação antes de poderem abrir uma empresa.
Gostou da ideia?
D.P. — Apesar de ser uma brincadeira, traduz um pouco aquilo em que acredito: uma formação base no início pode evitar muitos problemas no futuro, ou até determinar o sucesso ou insucesso do negócio. Gostaria que existisse mais consciência de que abrir uma empresa não significa, apenas, perceber tecnicamente aquilo que se faz naquele negócio. Há conhecimentos mínimos de Gestão, Contabilidade, Fiscalidade e Finanças que podem dar muito mais segurança ao empresário. Quero, também, que a Academia acompanhe as empresas ao longo do crescimento, e não apenas através de formação pontual.
E quanto ao seu percurso?
D.P. — Quanto ao meu percurso, pretendo manter a atividade académica, porque as duas vertentes se enriquecem mutuamente: o ensino e a investigação enriquecem aquilo que faço fora da universidade e o contacto com empresários e problemas reais das empresas também enriquece aquilo que levo para a sala de aula. Quero que a Academia passe a ocupar uma parte muito significativa do meu tempo e percurso profissional, mantendo as minhas responsabilidades enquanto docente universitária.

#Motivação
Daniela Penela: “Podemos delegar o trabalho técnico, mas não a compreensão da nossa empresa”
Depois mais de 15 anos ligada ao ensino universitário de Gestão, Contabilidade e Fiscalidade, Daniela Penela decidiu aproximar esse conhecimento da realidade de quem gere empresas. Criou a Academia da Literacia Empresarial depois de perceber que muitos empresários conhecem profundamente os seus produtos, clientes e mercados, mas continuam a tomar decisões sem dominar conceitos financeiros e fiscais básicos. Nos primeiros meses do projeto, as formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal.
A Daniela passou pela auditoria, construiu uma carreira académica e é, também, empresária. Quando percebeu que queria transformar esse percurso num projeto próprio?
DANIELA PENELA — Sempre gostei muito de empreendedorismo. Sempre fui uma pessoa cheia de ideias, que gostava de criar coisas novas, e quis construir o meu próprio percurso, mesmo em paralelo com a carreira académica. Essa vontade já existia há algum tempo; o que foi condicionando o desenvolvimento foi sobretudo a falta de disponibilidade. A carreira académica exige muito tempo e dedicação e, durante alguns anos, não consegui criar o espaço necessário. A Academia da Literacia Empresarial surge dessa vontade, mas sobretudo da perceção de que havia uma necessidade real à qual eu conseguia responder. Acaba por juntar várias áreas que sempre fizeram parte do meu percurso: Gestão, Contabilidade, Fiscalidade, ensino e, também, o gosto pelo empreendedorismo e por criar algo próprio.
O que é que o contacto direto com empresários lhe mostrou que a universidade não mostrava?
D.P. — Mostrou-me, acima de tudo, que eu tinha uma ideia diferente sobre o nível de conhecimento que existia na realidade empresarial. Quando pensamos num empresário, num CEO ou no dono de uma empresa, quase assumimos automaticamente que essa pessoa conhece bem a área financeira, contabilística e fiscal do negócio. Eu própria partia um pouco desse pressuposto. Na universidade é diferente: quando recebo alunos, parto naturalmente do princípio de que estão ali para aprender. O que fui percebendo é que, em determinadas áreas, a realidade dos empresários e a dos alunos não é assim tão diferente quanto imaginava. Os empresários têm muitas vezes um conhecimento extremamente profundo e prático do seu produto, serviço, clientes e mercado, porque o adquiriram ao longo dos anos. Isso não significa que tenham aprendido Contabilidade, Fiscalidade, Finanças ou Gestão.
Porque delegam essa área?
D.P. — Existem muitas lacunas e, também, alguma dificuldade em encontrar formação suficientemente prática e adaptada a quem gere uma empresa e tem pouco tempo disponível. Há empresários que dominam profundamente a sua profissão e o seu negócio, mas nunca tiveram verdadeiramente oportunidade de aprender a gerir uma empresa do ponto de vista financeiro e fiscal. E isso pode ter um impacto decisivo no rumo do negócio.
Onde encontra as maiores fragilidades desses empresários?
D.P. — Uma das maiores fragilidades começa precisamente na delegação. Contratamos um contabilista, ele trata da contabilidade e dos números da empresa e ficamos descansados porque sentimos que essa parte está entregue. O contabilista deve ser um parceiro do negócio, e é natural recorrermos a ele perante uma dúvida técnica, mas precisamos de ter conhecimento básico suficiente para conversar com esse profissional, perceber aquilo que nos está a explicar e tomar as nossas próprias decisões. Nas empresas, tomamos decisões com base em números. Não podemos deixar de olhar para despesas, lucros, margens, liquidez, rácios ou estrutura financeira.
Existem outras fragilidades?
D.P. — Existe, também, a componente fiscal. O desconhecimento pode levar a decisões pouco vantajosas ou até desastrosas. A compra de uma viatura através da empresa é um exemplo: pode parecer automaticamente uma vantagem fiscal, quando, dependendo da viatura, do valor e das despesas associadas, as limitações fiscais e a tributação autónoma podem tornar a decisão bastante mais cara. Podemos e devemos delegar o trabalho técnico, mas não podemos delegar por completo a compreensão daquilo que se passa na nossa própria empresa.

Daniela Penela fundou a Academia de Literacia Empresarial e mantém o trabalho como docente universitária
As suas primeiras formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal. O que aprendeu com estes primeiros meses?
D.P. — Desde o início, analisei informação fiscal das empresas, nomeadamente declarações Modelo 22, e isso foi uma base importante para perceber o que estava a acontecer na prática. Encontrei problemas bastante transversais: benefícios fiscais de aplicação relativamente generalizada que não estavam a ser utilizados, despesas que não estavam devidamente documentadas e, por isso, não eram fiscalmente aceites ou originavam tributação autónoma, questões relacionadas com ajudas de custo e várias outras situações.
Ficou surpreendida?
D.P. — Surpreendeu-me perceber que pequenas alterações de procedimentos ou um maior conhecimento das regras podiam significar milhares de euros de diferença. Nestes primeiros meses, identificámos mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal, com alguns casos individuais muito significativos. Talvez a principal aprendizagem tenha sido perceber que não estamos a falar de situações isoladas: muitos dos problemas repetem-se em empresas completamente diferentes e de diferentes dimensões. E não é preciso transformar o empresário num especialista em fiscalidade. Muitas vezes, basta dar-lhe conhecimento suficiente para perceber que determinada questão existe, fazer as perguntas certas e discutir alternativas com quem o acompanha.
Aponta a dependência excessiva do contabilista como um dos erros mais frequentes. Que decisões nunca deveria um empresário delegar completamente a terceiros?
D.P. — As decisões de investir, contratar, comprar determinado ativo para a empresa ou recorrer a financiamento nunca deveriam ficar completamente dependentes do contabilista. Devemos pedir aconselhamento, e perceber o impacto fiscal e financeiro dessas decisões, mas a decisão tem de ser do empresário.
Que papel deve ter o contabilista nessas situações?
D.P. — O contabilista pode e deve ajudar-nos a compreender as consequências de determinada escolha e fazer, por exemplo, a simulação do imposto a pagar, porque estamos a falar de uma área técnica. Isso não significa que o empresário deva chegar ao final do ano sem qualquer ideia do ponto de situação da empresa. Pode pedir informação, discutir cenários e perceber o impacto das decisões que está a ponderar. Existe uma diferença muito clara entre pedir apoio técnico e delegar a decisão. O contabilista deve ser um parceiro muito importante do negócio, mas investir, contratar, comprar ou financiar são decisões de gestão e a gestão da empresa é responsabilidade do empresário.
Existe uma grande distância entre dominar tecnicamente uma área e conseguir explicá-la de forma útil a quem gere uma empresa. Como encontrou essa linguagem?
D.P. — Comecei a ensinar muito cedo. Em 2008, quando ainda estava na universidade, comecei a dar explicações e tive contacto com pessoas com níveis de conhecimento muito diferentes. Isso obrigou-me, desde cedo, a procurar estratégias diferentes para ajudar cada pessoa a chegar ao mesmo ponto. Ao longo da carreira, também tive turmas muito díspares, incluindo turmas Erasmus, onde às dificuldades técnicas se juntavam dificuldades linguísticas. Acho que foi, sobretudo, a prática que me trouxe essa capacidade.
Também lhe traz desafios a si?
D.P. — Eu própria preciso de visualizar e organizar muito bem a informação: tenho de partir o conceito, perceber o que acontece primeiro, o que acontece depois e qual é o raciocínio que liga as várias partes. Muitas vezes, vou à própria língua portuguesa para explicar conceitos. Quando explico uma perda por imparidade, por exemplo, começo pela palavra “imparidade” e construo o conceito a partir daí. Se começarmos imediatamente com grandes termos técnicos e definições, a pessoa pode decorar naquele momento, mas terá muito mais dificuldade em compreender e reter. Quando existe uma lógica por trás, torna-se muito mais fácil perceber.
Transformar conhecimento especializado num negócio obriga, também, a pensar em produto, preço, comunicação e crescimento. O que tem sido mais desafiante nesta passagem de professora para empreendedora?
D.P. — Diria que praticamente tudo, porque passamos a ter de pensar em dimensões muito diferentes ao mesmo tempo. Desde logo, construir um produto que responda às necessidades do maior número possível de pessoas, seja útil e suficientemente aprofundado. Inicialmente, teria tendência para desenvolver uma formação muito mais pormenorizada, porque venho da área académica e gosto de aprofundar os temas. Depois, percebi que os empresários simplesmente não têm esse tempo disponível e foi necessário adaptar o produto à realidade deles.
Que resultado teve essa decisão?
D.P. — O meu programa principal acabou por ficar estruturado em seis aulas. Também percebi que as pessoas querem esclarecer dúvidas relacionadas com a realidade concreta da sua empresa, por isso, mantive aulas ao vivo. Agora, começa outro desafio: crescer e manter a capacidade de acompanhamento. Grande parte do projeto esteve muito dependente de mim. Já tenho uma consultora a ajudar no acompanhamento de alguns clientes, e estou numa fase em que preciso de formar outras pessoas capazes de prestar esse acompanhamento, com a mesma lógica e qualidade. A passagem de um projeto muito centrado numa pessoa para uma estrutura capaz de crescer é, provavelmente, um dos desafios mais importantes desta fase.

Que dimensão gostaria que a Academia da Literacia Empresarial tivesse daqui a três ou cinco anos, e que lugar quer que este projeto ocupe no seu próprio percurso profissional?
D.P. — Gostaria que a Academia da Literacia Empresarial se tornasse uma referência na formação para empresários e empresas, tanto para quem está a começar como para empresas que já estão em funcionamento e querem dar formação base aos seus gestores. Uma aluna dizia-me, em tom de brincadeira mas com algum fundo de verdade, que eu devia fazer uma parceria com o programa Empresa na Hora para que todos os empresários tivessem de fazer uma formação antes de poderem abrir uma empresa.
Gostou da ideia?
D.P. — Apesar de ser uma brincadeira, traduz um pouco aquilo em que acredito: uma formação base no início pode evitar muitos problemas no futuro, ou até determinar o sucesso ou insucesso do negócio. Gostaria que existisse mais consciência de que abrir uma empresa não significa, apenas, perceber tecnicamente aquilo que se faz naquele negócio. Há conhecimentos mínimos de Gestão, Contabilidade, Fiscalidade e Finanças que podem dar muito mais segurança ao empresário. Quero, também, que a Academia acompanhe as empresas ao longo do crescimento, e não apenas através de formação pontual.
E quanto ao seu percurso?
D.P. — Quanto ao meu percurso, pretendo manter a atividade académica, porque as duas vertentes se enriquecem mutuamente: o ensino e a investigação enriquecem aquilo que faço fora da universidade e o contacto com empresários e problemas reais das empresas também enriquece aquilo que levo para a sala de aula. Quero que a Academia passe a ocupar uma parte muito significativa do meu tempo e percurso profissional, mantendo as minhas responsabilidades enquanto docente universitária.

#Motivação
Daniela Penela: “Podemos delegar o trabalho técnico, mas não a compreensão da nossa empresa”
Depois mais de 15 anos ligada ao ensino universitário de Gestão, Contabilidade e Fiscalidade, Daniela Penela decidiu aproximar esse conhecimento da realidade de quem gere empresas. Criou a Academia da Literacia Empresarial depois de perceber que muitos empresários conhecem profundamente os seus produtos, clientes e mercados, mas continuam a tomar decisões sem dominar conceitos financeiros e fiscais básicos. Nos primeiros meses do projeto, as formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal.
A Daniela passou pela auditoria, construiu uma carreira académica e é, também, empresária. Quando percebeu que queria transformar esse percurso num projeto próprio?
DANIELA PENELA — Sempre gostei muito de empreendedorismo. Sempre fui uma pessoa cheia de ideias, que gostava de criar coisas novas, e quis construir o meu próprio percurso, mesmo em paralelo com a carreira académica. Essa vontade já existia há algum tempo; o que foi condicionando o desenvolvimento foi sobretudo a falta de disponibilidade. A carreira académica exige muito tempo e dedicação e, durante alguns anos, não consegui criar o espaço necessário. A Academia da Literacia Empresarial surge dessa vontade, mas sobretudo da perceção de que havia uma necessidade real à qual eu conseguia responder. Acaba por juntar várias áreas que sempre fizeram parte do meu percurso: Gestão, Contabilidade, Fiscalidade, ensino e, também, o gosto pelo empreendedorismo e por criar algo próprio.
O que é que o contacto direto com empresários lhe mostrou que a universidade não mostrava?
D.P. — Mostrou-me, acima de tudo, que eu tinha uma ideia diferente sobre o nível de conhecimento que existia na realidade empresarial. Quando pensamos num empresário, num CEO ou no dono de uma empresa, quase assumimos automaticamente que essa pessoa conhece bem a área financeira, contabilística e fiscal do negócio. Eu própria partia um pouco desse pressuposto. Na universidade é diferente: quando recebo alunos, parto naturalmente do princípio de que estão ali para aprender. O que fui percebendo é que, em determinadas áreas, a realidade dos empresários e a dos alunos não é assim tão diferente quanto imaginava. Os empresários têm muitas vezes um conhecimento extremamente profundo e prático do seu produto, serviço, clientes e mercado, porque o adquiriram ao longo dos anos. Isso não significa que tenham aprendido Contabilidade, Fiscalidade, Finanças ou Gestão.
Porque delegam essa área?
D.P. — Existem muitas lacunas e, também, alguma dificuldade em encontrar formação suficientemente prática e adaptada a quem gere uma empresa e tem pouco tempo disponível. Há empresários que dominam profundamente a sua profissão e o seu negócio, mas nunca tiveram verdadeiramente oportunidade de aprender a gerir uma empresa do ponto de vista financeiro e fiscal. E isso pode ter um impacto decisivo no rumo do negócio.
Onde encontra as maiores fragilidades desses empresários?
D.P. — Uma das maiores fragilidades começa precisamente na delegação. Contratamos um contabilista, ele trata da contabilidade e dos números da empresa e ficamos descansados porque sentimos que essa parte está entregue. O contabilista deve ser um parceiro do negócio, e é natural recorrermos a ele perante uma dúvida técnica, mas precisamos de ter conhecimento básico suficiente para conversar com esse profissional, perceber aquilo que nos está a explicar e tomar as nossas próprias decisões. Nas empresas, tomamos decisões com base em números. Não podemos deixar de olhar para despesas, lucros, margens, liquidez, rácios ou estrutura financeira.
Existem outras fragilidades?
D.P. — Existe, também, a componente fiscal. O desconhecimento pode levar a decisões pouco vantajosas ou até desastrosas. A compra de uma viatura através da empresa é um exemplo: pode parecer automaticamente uma vantagem fiscal, quando, dependendo da viatura, do valor e das despesas associadas, as limitações fiscais e a tributação autónoma podem tornar a decisão bastante mais cara. Podemos e devemos delegar o trabalho técnico, mas não podemos delegar por completo a compreensão daquilo que se passa na nossa própria empresa.

Daniela Penela fundou a Academia de Literacia Empresarial e mantém o trabalho como docente universitária
As suas primeiras formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal. O que aprendeu com estes primeiros meses?
D.P. — Desde o início, analisei informação fiscal das empresas, nomeadamente declarações Modelo 22, e isso foi uma base importante para perceber o que estava a acontecer na prática. Encontrei problemas bastante transversais: benefícios fiscais de aplicação relativamente generalizada que não estavam a ser utilizados, despesas que não estavam devidamente documentadas e, por isso, não eram fiscalmente aceites ou originavam tributação autónoma, questões relacionadas com ajudas de custo e várias outras situações.
Ficou surpreendida?
D.P. — Surpreendeu-me perceber que pequenas alterações de procedimentos ou um maior conhecimento das regras podiam significar milhares de euros de diferença. Nestes primeiros meses, identificámos mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal, com alguns casos individuais muito significativos. Talvez a principal aprendizagem tenha sido perceber que não estamos a falar de situações isoladas: muitos dos problemas repetem-se em empresas completamente diferentes e de diferentes dimensões. E não é preciso transformar o empresário num especialista em fiscalidade. Muitas vezes, basta dar-lhe conhecimento suficiente para perceber que determinada questão existe, fazer as perguntas certas e discutir alternativas com quem o acompanha.
Aponta a dependência excessiva do contabilista como um dos erros mais frequentes. Que decisões nunca deveria um empresário delegar completamente a terceiros?
D.P. — As decisões de investir, contratar, comprar determinado ativo para a empresa ou recorrer a financiamento nunca deveriam ficar completamente dependentes do contabilista. Devemos pedir aconselhamento, e perceber o impacto fiscal e financeiro dessas decisões, mas a decisão tem de ser do empresário.
Que papel deve ter o contabilista nessas situações?
D.P. — O contabilista pode e deve ajudar-nos a compreender as consequências de determinada escolha e fazer, por exemplo, a simulação do imposto a pagar, porque estamos a falar de uma área técnica. Isso não significa que o empresário deva chegar ao final do ano sem qualquer ideia do ponto de situação da empresa. Pode pedir informação, discutir cenários e perceber o impacto das decisões que está a ponderar. Existe uma diferença muito clara entre pedir apoio técnico e delegar a decisão. O contabilista deve ser um parceiro muito importante do negócio, mas investir, contratar, comprar ou financiar são decisões de gestão e a gestão da empresa é responsabilidade do empresário.
Existe uma grande distância entre dominar tecnicamente uma área e conseguir explicá-la de forma útil a quem gere uma empresa. Como encontrou essa linguagem?
D.P. — Comecei a ensinar muito cedo. Em 2008, quando ainda estava na universidade, comecei a dar explicações e tive contacto com pessoas com níveis de conhecimento muito diferentes. Isso obrigou-me, desde cedo, a procurar estratégias diferentes para ajudar cada pessoa a chegar ao mesmo ponto. Ao longo da carreira, também tive turmas muito díspares, incluindo turmas Erasmus, onde às dificuldades técnicas se juntavam dificuldades linguísticas. Acho que foi, sobretudo, a prática que me trouxe essa capacidade.
Também lhe traz desafios a si?
D.P. — Eu própria preciso de visualizar e organizar muito bem a informação: tenho de partir o conceito, perceber o que acontece primeiro, o que acontece depois e qual é o raciocínio que liga as várias partes. Muitas vezes, vou à própria língua portuguesa para explicar conceitos. Quando explico uma perda por imparidade, por exemplo, começo pela palavra “imparidade” e construo o conceito a partir daí. Se começarmos imediatamente com grandes termos técnicos e definições, a pessoa pode decorar naquele momento, mas terá muito mais dificuldade em compreender e reter. Quando existe uma lógica por trás, torna-se muito mais fácil perceber.
Transformar conhecimento especializado num negócio obriga, também, a pensar em produto, preço, comunicação e crescimento. O que tem sido mais desafiante nesta passagem de professora para empreendedora?
D.P. — Diria que praticamente tudo, porque passamos a ter de pensar em dimensões muito diferentes ao mesmo tempo. Desde logo, construir um produto que responda às necessidades do maior número possível de pessoas, seja útil e suficientemente aprofundado. Inicialmente, teria tendência para desenvolver uma formação muito mais pormenorizada, porque venho da área académica e gosto de aprofundar os temas. Depois, percebi que os empresários simplesmente não têm esse tempo disponível e foi necessário adaptar o produto à realidade deles.
Que resultado teve essa decisão?
D.P. — O meu programa principal acabou por ficar estruturado em seis aulas. Também percebi que as pessoas querem esclarecer dúvidas relacionadas com a realidade concreta da sua empresa, por isso, mantive aulas ao vivo. Agora, começa outro desafio: crescer e manter a capacidade de acompanhamento. Grande parte do projeto esteve muito dependente de mim. Já tenho uma consultora a ajudar no acompanhamento de alguns clientes, e estou numa fase em que preciso de formar outras pessoas capazes de prestar esse acompanhamento, com a mesma lógica e qualidade. A passagem de um projeto muito centrado numa pessoa para uma estrutura capaz de crescer é, provavelmente, um dos desafios mais importantes desta fase.

Que dimensão gostaria que a Academia da Literacia Empresarial tivesse daqui a três ou cinco anos, e que lugar quer que este projeto ocupe no seu próprio percurso profissional?
D.P. — Gostaria que a Academia da Literacia Empresarial se tornasse uma referência na formação para empresários e empresas, tanto para quem está a começar como para empresas que já estão em funcionamento e querem dar formação base aos seus gestores. Uma aluna dizia-me, em tom de brincadeira mas com algum fundo de verdade, que eu devia fazer uma parceria com o programa Empresa na Hora para que todos os empresários tivessem de fazer uma formação antes de poderem abrir uma empresa.
Gostou da ideia?
D.P. — Apesar de ser uma brincadeira, traduz um pouco aquilo em que acredito: uma formação base no início pode evitar muitos problemas no futuro, ou até determinar o sucesso ou insucesso do negócio. Gostaria que existisse mais consciência de que abrir uma empresa não significa, apenas, perceber tecnicamente aquilo que se faz naquele negócio. Há conhecimentos mínimos de Gestão, Contabilidade, Fiscalidade e Finanças que podem dar muito mais segurança ao empresário. Quero, também, que a Academia acompanhe as empresas ao longo do crescimento, e não apenas através de formação pontual.
E quanto ao seu percurso?
D.P. — Quanto ao meu percurso, pretendo manter a atividade académica, porque as duas vertentes se enriquecem mutuamente: o ensino e a investigação enriquecem aquilo que faço fora da universidade e o contacto com empresários e problemas reais das empresas também enriquece aquilo que levo para a sala de aula. Quero que a Academia passe a ocupar uma parte muito significativa do meu tempo e percurso profissional, mantendo as minhas responsabilidades enquanto docente universitária.

#Motivação
Daniela Penela: “Podemos delegar o trabalho técnico, mas não a compreensão da nossa empresa”
Depois mais de 15 anos ligada ao ensino universitário de Gestão, Contabilidade e Fiscalidade, Daniela Penela decidiu aproximar esse conhecimento da realidade de quem gere empresas. Criou a Academia da Literacia Empresarial depois de perceber que muitos empresários conhecem profundamente os seus produtos, clientes e mercados, mas continuam a tomar decisões sem dominar conceitos financeiros e fiscais básicos. Nos primeiros meses do projeto, as formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal.
A Daniela passou pela auditoria, construiu uma carreira académica e é, também, empresária. Quando percebeu que queria transformar esse percurso num projeto próprio?
DANIELA PENELA — Sempre gostei muito de empreendedorismo. Sempre fui uma pessoa cheia de ideias, que gostava de criar coisas novas, e quis construir o meu próprio percurso, mesmo em paralelo com a carreira académica. Essa vontade já existia há algum tempo; o que foi condicionando o desenvolvimento foi sobretudo a falta de disponibilidade. A carreira académica exige muito tempo e dedicação e, durante alguns anos, não consegui criar o espaço necessário. A Academia da Literacia Empresarial surge dessa vontade, mas sobretudo da perceção de que havia uma necessidade real à qual eu conseguia responder. Acaba por juntar várias áreas que sempre fizeram parte do meu percurso: Gestão, Contabilidade, Fiscalidade, ensino e, também, o gosto pelo empreendedorismo e por criar algo próprio.
O que é que o contacto direto com empresários lhe mostrou que a universidade não mostrava?
D.P. — Mostrou-me, acima de tudo, que eu tinha uma ideia diferente sobre o nível de conhecimento que existia na realidade empresarial. Quando pensamos num empresário, num CEO ou no dono de uma empresa, quase assumimos automaticamente que essa pessoa conhece bem a área financeira, contabilística e fiscal do negócio. Eu própria partia um pouco desse pressuposto. Na universidade é diferente: quando recebo alunos, parto naturalmente do princípio de que estão ali para aprender. O que fui percebendo é que, em determinadas áreas, a realidade dos empresários e a dos alunos não é assim tão diferente quanto imaginava. Os empresários têm muitas vezes um conhecimento extremamente profundo e prático do seu produto, serviço, clientes e mercado, porque o adquiriram ao longo dos anos. Isso não significa que tenham aprendido Contabilidade, Fiscalidade, Finanças ou Gestão.
Porque delegam essa área?
D.P. — Existem muitas lacunas e, também, alguma dificuldade em encontrar formação suficientemente prática e adaptada a quem gere uma empresa e tem pouco tempo disponível. Há empresários que dominam profundamente a sua profissão e o seu negócio, mas nunca tiveram verdadeiramente oportunidade de aprender a gerir uma empresa do ponto de vista financeiro e fiscal. E isso pode ter um impacto decisivo no rumo do negócio.
Onde encontra as maiores fragilidades desses empresários?
D.P. — Uma das maiores fragilidades começa precisamente na delegação. Contratamos um contabilista, ele trata da contabilidade e dos números da empresa e ficamos descansados porque sentimos que essa parte está entregue. O contabilista deve ser um parceiro do negócio, e é natural recorrermos a ele perante uma dúvida técnica, mas precisamos de ter conhecimento básico suficiente para conversar com esse profissional, perceber aquilo que nos está a explicar e tomar as nossas próprias decisões. Nas empresas, tomamos decisões com base em números. Não podemos deixar de olhar para despesas, lucros, margens, liquidez, rácios ou estrutura financeira.
Existem outras fragilidades?
D.P. — Existe, também, a componente fiscal. O desconhecimento pode levar a decisões pouco vantajosas ou até desastrosas. A compra de uma viatura através da empresa é um exemplo: pode parecer automaticamente uma vantagem fiscal, quando, dependendo da viatura, do valor e das despesas associadas, as limitações fiscais e a tributação autónoma podem tornar a decisão bastante mais cara. Podemos e devemos delegar o trabalho técnico, mas não podemos delegar por completo a compreensão daquilo que se passa na nossa própria empresa.

Daniela Penela fundou a Academia de Literacia Empresarial e mantém o trabalho como docente universitária
As suas primeiras formações chegaram a 198 empresários e permitiram identificar mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal. O que aprendeu com estes primeiros meses?
D.P. — Desde o início, analisei informação fiscal das empresas, nomeadamente declarações Modelo 22, e isso foi uma base importante para perceber o que estava a acontecer na prática. Encontrei problemas bastante transversais: benefícios fiscais de aplicação relativamente generalizada que não estavam a ser utilizados, despesas que não estavam devidamente documentadas e, por isso, não eram fiscalmente aceites ou originavam tributação autónoma, questões relacionadas com ajudas de custo e várias outras situações.
Ficou surpreendida?
D.P. — Surpreendeu-me perceber que pequenas alterações de procedimentos ou um maior conhecimento das regras podiam significar milhares de euros de diferença. Nestes primeiros meses, identificámos mais de 280 mil euros em oportunidades de poupança fiscal, com alguns casos individuais muito significativos. Talvez a principal aprendizagem tenha sido perceber que não estamos a falar de situações isoladas: muitos dos problemas repetem-se em empresas completamente diferentes e de diferentes dimensões. E não é preciso transformar o empresário num especialista em fiscalidade. Muitas vezes, basta dar-lhe conhecimento suficiente para perceber que determinada questão existe, fazer as perguntas certas e discutir alternativas com quem o acompanha.
Aponta a dependência excessiva do contabilista como um dos erros mais frequentes. Que decisões nunca deveria um empresário delegar completamente a terceiros?
D.P. — As decisões de investir, contratar, comprar determinado ativo para a empresa ou recorrer a financiamento nunca deveriam ficar completamente dependentes do contabilista. Devemos pedir aconselhamento, e perceber o impacto fiscal e financeiro dessas decisões, mas a decisão tem de ser do empresário.
Que papel deve ter o contabilista nessas situações?
D.P. — O contabilista pode e deve ajudar-nos a compreender as consequências de determinada escolha e fazer, por exemplo, a simulação do imposto a pagar, porque estamos a falar de uma área técnica. Isso não significa que o empresário deva chegar ao final do ano sem qualquer ideia do ponto de situação da empresa. Pode pedir informação, discutir cenários e perceber o impacto das decisões que está a ponderar. Existe uma diferença muito clara entre pedir apoio técnico e delegar a decisão. O contabilista deve ser um parceiro muito importante do negócio, mas investir, contratar, comprar ou financiar são decisões de gestão e a gestão da empresa é responsabilidade do empresário.
Existe uma grande distância entre dominar tecnicamente uma área e conseguir explicá-la de forma útil a quem gere uma empresa. Como encontrou essa linguagem?
D.P. — Comecei a ensinar muito cedo. Em 2008, quando ainda estava na universidade, comecei a dar explicações e tive contacto com pessoas com níveis de conhecimento muito diferentes. Isso obrigou-me, desde cedo, a procurar estratégias diferentes para ajudar cada pessoa a chegar ao mesmo ponto. Ao longo da carreira, também tive turmas muito díspares, incluindo turmas Erasmus, onde às dificuldades técnicas se juntavam dificuldades linguísticas. Acho que foi, sobretudo, a prática que me trouxe essa capacidade.
Também lhe traz desafios a si?
D.P. — Eu própria preciso de visualizar e organizar muito bem a informação: tenho de partir o conceito, perceber o que acontece primeiro, o que acontece depois e qual é o raciocínio que liga as várias partes. Muitas vezes, vou à própria língua portuguesa para explicar conceitos. Quando explico uma perda por imparidade, por exemplo, começo pela palavra “imparidade” e construo o conceito a partir daí. Se começarmos imediatamente com grandes termos técnicos e definições, a pessoa pode decorar naquele momento, mas terá muito mais dificuldade em compreender e reter. Quando existe uma lógica por trás, torna-se muito mais fácil perceber.
Transformar conhecimento especializado num negócio obriga, também, a pensar em produto, preço, comunicação e crescimento. O que tem sido mais desafiante nesta passagem de professora para empreendedora?
D.P. — Diria que praticamente tudo, porque passamos a ter de pensar em dimensões muito diferentes ao mesmo tempo. Desde logo, construir um produto que responda às necessidades do maior número possível de pessoas, seja útil e suficientemente aprofundado. Inicialmente, teria tendência para desenvolver uma formação muito mais pormenorizada, porque venho da área académica e gosto de aprofundar os temas. Depois, percebi que os empresários simplesmente não têm esse tempo disponível e foi necessário adaptar o produto à realidade deles.
Que resultado teve essa decisão?
D.P. — O meu programa principal acabou por ficar estruturado em seis aulas. Também percebi que as pessoas querem esclarecer dúvidas relacionadas com a realidade concreta da sua empresa, por isso, mantive aulas ao vivo. Agora, começa outro desafio: crescer e manter a capacidade de acompanhamento. Grande parte do projeto esteve muito dependente de mim. Já tenho uma consultora a ajudar no acompanhamento de alguns clientes, e estou numa fase em que preciso de formar outras pessoas capazes de prestar esse acompanhamento, com a mesma lógica e qualidade. A passagem de um projeto muito centrado numa pessoa para uma estrutura capaz de crescer é, provavelmente, um dos desafios mais importantes desta fase.

Que dimensão gostaria que a Academia da Literacia Empresarial tivesse daqui a três ou cinco anos, e que lugar quer que este projeto ocupe no seu próprio percurso profissional?
D.P. — Gostaria que a Academia da Literacia Empresarial se tornasse uma referência na formação para empresários e empresas, tanto para quem está a começar como para empresas que já estão em funcionamento e querem dar formação base aos seus gestores. Uma aluna dizia-me, em tom de brincadeira mas com algum fundo de verdade, que eu devia fazer uma parceria com o programa Empresa na Hora para que todos os empresários tivessem de fazer uma formação antes de poderem abrir uma empresa.
Gostou da ideia?
D.P. — Apesar de ser uma brincadeira, traduz um pouco aquilo em que acredito: uma formação base no início pode evitar muitos problemas no futuro, ou até determinar o sucesso ou insucesso do negócio. Gostaria que existisse mais consciência de que abrir uma empresa não significa, apenas, perceber tecnicamente aquilo que se faz naquele negócio. Há conhecimentos mínimos de Gestão, Contabilidade, Fiscalidade e Finanças que podem dar muito mais segurança ao empresário. Quero, também, que a Academia acompanhe as empresas ao longo do crescimento, e não apenas através de formação pontual.
E quanto ao seu percurso?
D.P. — Quanto ao meu percurso, pretendo manter a atividade académica, porque as duas vertentes se enriquecem mutuamente: o ensino e a investigação enriquecem aquilo que faço fora da universidade e o contacto com empresários e problemas reais das empresas também enriquece aquilo que levo para a sala de aula. Quero que a Academia passe a ocupar uma parte muito significativa do meu tempo e percurso profissional, mantendo as minhas responsabilidades enquanto docente universitária.




