
#Protagonistas
João Cunha: “As pessoas compram casas às cegas”
Comprar uma casa implica analisar preço, localização, financiamento e documentação, mas o estado técnico do imóvel continua, muitas vezes, fora da equação. Foi a partir dessa lacuna que o engenheiro civil João Cunha e o arquiteto João Luís Carvalho criaram a BLEPO, um projeto de diagnóstico imobiliário que pretende colocar informação técnica independente do lado de quem compra, vende ou arrenda. Neste entrevista ao MOTIVO, ficamos a saber mais sobre o projeto.
A BLEPO nasce de um problema que identificaram no setor imobiliário. Em que momento perceberam que esse problema podia dar origem a um negócio?
JOÃO CUNHA — Não diria que houve um momento em concreto. Fomos constatando que as pessoas compram casas às cegas. Se nós, com experiência e conhecimento de obras e do mercado imobiliário, tínhamos surpresas ao adquirir imóveis, quanto mais quem não tem esses conhecimentos. Há uns anos, comprei uma casa em Lisboa, num prédio recente, e um mês depois fiquei a saber que teria de pagar a pintura do prédio e, no ano seguinte, a instalação da mobilidade elétrica. Foram quotas suplementares de mais de 3.000 euros. Eu não teria deixado de comprar a casa, mas talvez tivesse negociado o valor de forma diferente. Mais tarde, comprei um imóvel para investimento e, poucos dias depois de o arrendar, recebi uma reclamação sobre um roupeiro que cheirava a mofo. Fui verificar e existia uma infiltração na casa de banho que já lá estava quando comprei. O meu sócio viveu situações semelhantes.

Portanto, o ponto de partida da BLEPO são experiências pessoais.
J.C. — Começámos a pesquisar e percebemos que, noutros países, a home inspection já é uma prática comum e que o processo de compra e venda tem muito mais informação associada. Quando olhámos para o panorama nacional, concluímos que existia espaço para profissionalizar a compra de um imóvel e dar mais clareza e informação aos compradores.
Que sinais encontraram de que os compradores estavam realmente dispostos a pagar por uma inspeção técnica antes de comprar casa?
J.C. — O sinal mais claro é a quantidade de vezes que ouvimos: “Devia ter-vos conhecido mais cedo, tinha poupado uns bons euros”. Mais de 90% dos nossos clientes sentiram, segundo a nossa experiência, uma mais-valia em adquirir o serviço: porque negociaram o valor do imóvel com base no relatório, porque perceberam que determinado problema estava circunscrito a uma pequena patologia de simples reparação ou, noutros casos, porque concluíram que aquele imóvel não correspondia ao negócio que procuravam. Importa clarificar que os nossos diagnósticos não dizem se é ou não um bom negócio nem se o cliente deve avançar. Essa decisão não nos cabe. A nossa função é recolher e disponibilizar o máximo de informação possível para que a pessoa possa decidir de forma informada.
O objetivo é democratizar um serviço tradicionalmente mais associado a investidores profissionais, fundos e banca. O que tiveram de simplificar para o adaptar ao comprador comum?
J.C. — Trabalhamos com preços fixos, independentemente do tamanho ou da tipologia do imóvel. Foi a forma que encontrámos de tornar o serviço simples e acessível. Os valores começam nos 300 euros e variam apenas em função do nível de informação que o cliente pretende, e não do tamanho ou da localização da casa. Esta é uma das principais simplificações do modelo. Em média, o serviço representa menos de 1% do valor do imóvel, o que consideramos acessível para quem está a tomar uma decisão financeira desta dimensão.

Os fundadores da BLEPO: João Luís Carvalho e João Cunha
Que riscos consegue um comprador conhecer antes da compra que, normalmente, escapariam a uma visita convencional?
J.C. — Mais do que os riscos, fica a conhecer o estado real do imóvel. Podemos olhar para a própria localização — perceber, por exemplo, se existe exposição a ruído ou se está numa zona de cheia —, mas também para o estado e a funcionalidade do edifício. Comprar uma fração é também comprar uma parte do prédio. Depois, analisamos a própria habitação: águas, esgotos, eletricidade, humidade nas paredes, iluminação, ventilação e até questões relacionadas com a saúde ambiental da casa.
Comprar casa já implica muitos custos. Como se convence alguém de que este é um investimento necessário e não apenas mais uma despesa?
J.C. — Um diagnóstico técnico pode evitar despesas de milhares de euros. Esse é o ponto que queremos que o consumidor perceba. O que é mais caro: um diagnóstico BLEPO de 600 euros, já com IVA, em que verificamos o estado do imóvel, a existência de humidades ou se as tomadas funcionam, ou descobrir uma semana depois da compra que existe uma infiltração na casa de banho que obriga a uma remodelação de 5.000 euros ou mais? Mesmo quando a casa está impecável, o cliente fica com informação adicional sobre aquilo que está a comprar. Na minha opinião, é sobretudo uma questão de segurança numa decisão de valor muito elevado.
A BLEPO trabalha com uma rede de arquitetos e engenheiros independentes. Como garantem consistência à medida que a operação cresce?
J.C. — Os nossos técnicos seguem a metodologia BLEPO em todas as inspeções. É a primeira forma de garantir que o processo se mantém uniforme, independentemente de quem o executa. Além disso, todos têm inscrição válida na respetiva ordem profissional e são os próprios técnicos que assinam os diagnósticos que elaboram. A conjugação desses dois pontos permite manter um workflow comum e procurar uma experiência consistente para o cliente.

Onde é que a inteligência artificial acrescenta realmente valor neste serviço?
J.C. — A IA já está presente na operação diária da BLEPO. A nossa plataforma recolhe e compila informação sobre a localização do imóvel com a ajuda desta tecnologia. Isso permite simplificar o processo de elaboração do diagnóstico e apoiar o técnico, que continua a ser quem elabora e valida o documento. O objetivo é tornar o processo mais rápido e eficiente e conseguirmos cumprir o nosso SLA de 48 horas para a entrega do diagnóstico.
O que precisa de mudar no mercado imobiliário português para tornar a inspeção técnica pré-compra tão natural como uma avaliação bancária?
J.C. — Essa é mais uma missão do que uma ambição, porque estamos a falar de trazer informação para um negócio de valores muito elevados. Em vários países, com diferentes modelos e graus de exigência, este tipo de diagnóstico já faz parte do processo habitual. Acredito que o mercado imobiliário português está a mudar e que o diagnóstico pode ajudar a profissionalizar ainda mais o setor. A ideia não é atrapalhar a venda. Pelo contrário: é ajudar, facilitar, desbloquear e trazer clareza e transparência para todos os intervenientes. Quando falamos com departamentos jurídicos de imobiliárias, ouvimos muitas vezes que um diagnóstico técnico poderia ter evitado determinada reclamação. No final, aquilo que defendemos é simples: ver melhor é decidir melhor.

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João Cunha: “As pessoas compram casas às cegas”
Comprar uma casa implica analisar preço, localização, financiamento e documentação, mas o estado técnico do imóvel continua, muitas vezes, fora da equação. Foi a partir dessa lacuna que o engenheiro civil João Cunha e o arquiteto João Luís Carvalho criaram a BLEPO, um projeto de diagnóstico imobiliário que pretende colocar informação técnica independente do lado de quem compra, vende ou arrenda. Neste entrevista ao MOTIVO, ficamos a saber mais sobre o projeto.
A BLEPO nasce de um problema que identificaram no setor imobiliário. Em que momento perceberam que esse problema podia dar origem a um negócio?
JOÃO CUNHA — Não diria que houve um momento em concreto. Fomos constatando que as pessoas compram casas às cegas. Se nós, com experiência e conhecimento de obras e do mercado imobiliário, tínhamos surpresas ao adquirir imóveis, quanto mais quem não tem esses conhecimentos. Há uns anos, comprei uma casa em Lisboa, num prédio recente, e um mês depois fiquei a saber que teria de pagar a pintura do prédio e, no ano seguinte, a instalação da mobilidade elétrica. Foram quotas suplementares de mais de 3.000 euros. Eu não teria deixado de comprar a casa, mas talvez tivesse negociado o valor de forma diferente. Mais tarde, comprei um imóvel para investimento e, poucos dias depois de o arrendar, recebi uma reclamação sobre um roupeiro que cheirava a mofo. Fui verificar e existia uma infiltração na casa de banho que já lá estava quando comprei. O meu sócio viveu situações semelhantes.

Portanto, o ponto de partida da BLEPO são experiências pessoais.
J.C. — Começámos a pesquisar e percebemos que, noutros países, a home inspection já é uma prática comum e que o processo de compra e venda tem muito mais informação associada. Quando olhámos para o panorama nacional, concluímos que existia espaço para profissionalizar a compra de um imóvel e dar mais clareza e informação aos compradores.
Que sinais encontraram de que os compradores estavam realmente dispostos a pagar por uma inspeção técnica antes de comprar casa?
J.C. — O sinal mais claro é a quantidade de vezes que ouvimos: “Devia ter-vos conhecido mais cedo, tinha poupado uns bons euros”. Mais de 90% dos nossos clientes sentiram, segundo a nossa experiência, uma mais-valia em adquirir o serviço: porque negociaram o valor do imóvel com base no relatório, porque perceberam que determinado problema estava circunscrito a uma pequena patologia de simples reparação ou, noutros casos, porque concluíram que aquele imóvel não correspondia ao negócio que procuravam. Importa clarificar que os nossos diagnósticos não dizem se é ou não um bom negócio nem se o cliente deve avançar. Essa decisão não nos cabe. A nossa função é recolher e disponibilizar o máximo de informação possível para que a pessoa possa decidir de forma informada.
O objetivo é democratizar um serviço tradicionalmente mais associado a investidores profissionais, fundos e banca. O que tiveram de simplificar para o adaptar ao comprador comum?
J.C. — Trabalhamos com preços fixos, independentemente do tamanho ou da tipologia do imóvel. Foi a forma que encontrámos de tornar o serviço simples e acessível. Os valores começam nos 300 euros e variam apenas em função do nível de informação que o cliente pretende, e não do tamanho ou da localização da casa. Esta é uma das principais simplificações do modelo. Em média, o serviço representa menos de 1% do valor do imóvel, o que consideramos acessível para quem está a tomar uma decisão financeira desta dimensão.

Os fundadores da BLEPO: João Luís Carvalho e João Cunha
Que riscos consegue um comprador conhecer antes da compra que, normalmente, escapariam a uma visita convencional?
J.C. — Mais do que os riscos, fica a conhecer o estado real do imóvel. Podemos olhar para a própria localização — perceber, por exemplo, se existe exposição a ruído ou se está numa zona de cheia —, mas também para o estado e a funcionalidade do edifício. Comprar uma fração é também comprar uma parte do prédio. Depois, analisamos a própria habitação: águas, esgotos, eletricidade, humidade nas paredes, iluminação, ventilação e até questões relacionadas com a saúde ambiental da casa.
Comprar casa já implica muitos custos. Como se convence alguém de que este é um investimento necessário e não apenas mais uma despesa?
J.C. — Um diagnóstico técnico pode evitar despesas de milhares de euros. Esse é o ponto que queremos que o consumidor perceba. O que é mais caro: um diagnóstico BLEPO de 600 euros, já com IVA, em que verificamos o estado do imóvel, a existência de humidades ou se as tomadas funcionam, ou descobrir uma semana depois da compra que existe uma infiltração na casa de banho que obriga a uma remodelação de 5.000 euros ou mais? Mesmo quando a casa está impecável, o cliente fica com informação adicional sobre aquilo que está a comprar. Na minha opinião, é sobretudo uma questão de segurança numa decisão de valor muito elevado.
A BLEPO trabalha com uma rede de arquitetos e engenheiros independentes. Como garantem consistência à medida que a operação cresce?
J.C. — Os nossos técnicos seguem a metodologia BLEPO em todas as inspeções. É a primeira forma de garantir que o processo se mantém uniforme, independentemente de quem o executa. Além disso, todos têm inscrição válida na respetiva ordem profissional e são os próprios técnicos que assinam os diagnósticos que elaboram. A conjugação desses dois pontos permite manter um workflow comum e procurar uma experiência consistente para o cliente.

Onde é que a inteligência artificial acrescenta realmente valor neste serviço?
J.C. — A IA já está presente na operação diária da BLEPO. A nossa plataforma recolhe e compila informação sobre a localização do imóvel com a ajuda desta tecnologia. Isso permite simplificar o processo de elaboração do diagnóstico e apoiar o técnico, que continua a ser quem elabora e valida o documento. O objetivo é tornar o processo mais rápido e eficiente e conseguirmos cumprir o nosso SLA de 48 horas para a entrega do diagnóstico.
O que precisa de mudar no mercado imobiliário português para tornar a inspeção técnica pré-compra tão natural como uma avaliação bancária?
J.C. — Essa é mais uma missão do que uma ambição, porque estamos a falar de trazer informação para um negócio de valores muito elevados. Em vários países, com diferentes modelos e graus de exigência, este tipo de diagnóstico já faz parte do processo habitual. Acredito que o mercado imobiliário português está a mudar e que o diagnóstico pode ajudar a profissionalizar ainda mais o setor. A ideia não é atrapalhar a venda. Pelo contrário: é ajudar, facilitar, desbloquear e trazer clareza e transparência para todos os intervenientes. Quando falamos com departamentos jurídicos de imobiliárias, ouvimos muitas vezes que um diagnóstico técnico poderia ter evitado determinada reclamação. No final, aquilo que defendemos é simples: ver melhor é decidir melhor.

#Protagonistas
João Cunha: “As pessoas compram casas às cegas”
Comprar uma casa implica analisar preço, localização, financiamento e documentação, mas o estado técnico do imóvel continua, muitas vezes, fora da equação. Foi a partir dessa lacuna que o engenheiro civil João Cunha e o arquiteto João Luís Carvalho criaram a BLEPO, um projeto de diagnóstico imobiliário que pretende colocar informação técnica independente do lado de quem compra, vende ou arrenda. Neste entrevista ao MOTIVO, ficamos a saber mais sobre o projeto.
A BLEPO nasce de um problema que identificaram no setor imobiliário. Em que momento perceberam que esse problema podia dar origem a um negócio?
JOÃO CUNHA — Não diria que houve um momento em concreto. Fomos constatando que as pessoas compram casas às cegas. Se nós, com experiência e conhecimento de obras e do mercado imobiliário, tínhamos surpresas ao adquirir imóveis, quanto mais quem não tem esses conhecimentos. Há uns anos, comprei uma casa em Lisboa, num prédio recente, e um mês depois fiquei a saber que teria de pagar a pintura do prédio e, no ano seguinte, a instalação da mobilidade elétrica. Foram quotas suplementares de mais de 3.000 euros. Eu não teria deixado de comprar a casa, mas talvez tivesse negociado o valor de forma diferente. Mais tarde, comprei um imóvel para investimento e, poucos dias depois de o arrendar, recebi uma reclamação sobre um roupeiro que cheirava a mofo. Fui verificar e existia uma infiltração na casa de banho que já lá estava quando comprei. O meu sócio viveu situações semelhantes.

Portanto, o ponto de partida da BLEPO são experiências pessoais.
J.C. — Começámos a pesquisar e percebemos que, noutros países, a home inspection já é uma prática comum e que o processo de compra e venda tem muito mais informação associada. Quando olhámos para o panorama nacional, concluímos que existia espaço para profissionalizar a compra de um imóvel e dar mais clareza e informação aos compradores.
Que sinais encontraram de que os compradores estavam realmente dispostos a pagar por uma inspeção técnica antes de comprar casa?
J.C. — O sinal mais claro é a quantidade de vezes que ouvimos: “Devia ter-vos conhecido mais cedo, tinha poupado uns bons euros”. Mais de 90% dos nossos clientes sentiram, segundo a nossa experiência, uma mais-valia em adquirir o serviço: porque negociaram o valor do imóvel com base no relatório, porque perceberam que determinado problema estava circunscrito a uma pequena patologia de simples reparação ou, noutros casos, porque concluíram que aquele imóvel não correspondia ao negócio que procuravam. Importa clarificar que os nossos diagnósticos não dizem se é ou não um bom negócio nem se o cliente deve avançar. Essa decisão não nos cabe. A nossa função é recolher e disponibilizar o máximo de informação possível para que a pessoa possa decidir de forma informada.
O objetivo é democratizar um serviço tradicionalmente mais associado a investidores profissionais, fundos e banca. O que tiveram de simplificar para o adaptar ao comprador comum?
J.C. — Trabalhamos com preços fixos, independentemente do tamanho ou da tipologia do imóvel. Foi a forma que encontrámos de tornar o serviço simples e acessível. Os valores começam nos 300 euros e variam apenas em função do nível de informação que o cliente pretende, e não do tamanho ou da localização da casa. Esta é uma das principais simplificações do modelo. Em média, o serviço representa menos de 1% do valor do imóvel, o que consideramos acessível para quem está a tomar uma decisão financeira desta dimensão.

Os fundadores da BLEPO: João Luís Carvalho e João Cunha
Que riscos consegue um comprador conhecer antes da compra que, normalmente, escapariam a uma visita convencional?
J.C. — Mais do que os riscos, fica a conhecer o estado real do imóvel. Podemos olhar para a própria localização — perceber, por exemplo, se existe exposição a ruído ou se está numa zona de cheia —, mas também para o estado e a funcionalidade do edifício. Comprar uma fração é também comprar uma parte do prédio. Depois, analisamos a própria habitação: águas, esgotos, eletricidade, humidade nas paredes, iluminação, ventilação e até questões relacionadas com a saúde ambiental da casa.
Comprar casa já implica muitos custos. Como se convence alguém de que este é um investimento necessário e não apenas mais uma despesa?
J.C. — Um diagnóstico técnico pode evitar despesas de milhares de euros. Esse é o ponto que queremos que o consumidor perceba. O que é mais caro: um diagnóstico BLEPO de 600 euros, já com IVA, em que verificamos o estado do imóvel, a existência de humidades ou se as tomadas funcionam, ou descobrir uma semana depois da compra que existe uma infiltração na casa de banho que obriga a uma remodelação de 5.000 euros ou mais? Mesmo quando a casa está impecável, o cliente fica com informação adicional sobre aquilo que está a comprar. Na minha opinião, é sobretudo uma questão de segurança numa decisão de valor muito elevado.
A BLEPO trabalha com uma rede de arquitetos e engenheiros independentes. Como garantem consistência à medida que a operação cresce?
J.C. — Os nossos técnicos seguem a metodologia BLEPO em todas as inspeções. É a primeira forma de garantir que o processo se mantém uniforme, independentemente de quem o executa. Além disso, todos têm inscrição válida na respetiva ordem profissional e são os próprios técnicos que assinam os diagnósticos que elaboram. A conjugação desses dois pontos permite manter um workflow comum e procurar uma experiência consistente para o cliente.

Onde é que a inteligência artificial acrescenta realmente valor neste serviço?
J.C. — A IA já está presente na operação diária da BLEPO. A nossa plataforma recolhe e compila informação sobre a localização do imóvel com a ajuda desta tecnologia. Isso permite simplificar o processo de elaboração do diagnóstico e apoiar o técnico, que continua a ser quem elabora e valida o documento. O objetivo é tornar o processo mais rápido e eficiente e conseguirmos cumprir o nosso SLA de 48 horas para a entrega do diagnóstico.
O que precisa de mudar no mercado imobiliário português para tornar a inspeção técnica pré-compra tão natural como uma avaliação bancária?
J.C. — Essa é mais uma missão do que uma ambição, porque estamos a falar de trazer informação para um negócio de valores muito elevados. Em vários países, com diferentes modelos e graus de exigência, este tipo de diagnóstico já faz parte do processo habitual. Acredito que o mercado imobiliário português está a mudar e que o diagnóstico pode ajudar a profissionalizar ainda mais o setor. A ideia não é atrapalhar a venda. Pelo contrário: é ajudar, facilitar, desbloquear e trazer clareza e transparência para todos os intervenientes. Quando falamos com departamentos jurídicos de imobiliárias, ouvimos muitas vezes que um diagnóstico técnico poderia ter evitado determinada reclamação. No final, aquilo que defendemos é simples: ver melhor é decidir melhor.

#Protagonistas
João Cunha: “As pessoas compram casas às cegas”
Comprar uma casa implica analisar preço, localização, financiamento e documentação, mas o estado técnico do imóvel continua, muitas vezes, fora da equação. Foi a partir dessa lacuna que o engenheiro civil João Cunha e o arquiteto João Luís Carvalho criaram a BLEPO, um projeto de diagnóstico imobiliário que pretende colocar informação técnica independente do lado de quem compra, vende ou arrenda. Neste entrevista ao MOTIVO, ficamos a saber mais sobre o projeto.
A BLEPO nasce de um problema que identificaram no setor imobiliário. Em que momento perceberam que esse problema podia dar origem a um negócio?
JOÃO CUNHA — Não diria que houve um momento em concreto. Fomos constatando que as pessoas compram casas às cegas. Se nós, com experiência e conhecimento de obras e do mercado imobiliário, tínhamos surpresas ao adquirir imóveis, quanto mais quem não tem esses conhecimentos. Há uns anos, comprei uma casa em Lisboa, num prédio recente, e um mês depois fiquei a saber que teria de pagar a pintura do prédio e, no ano seguinte, a instalação da mobilidade elétrica. Foram quotas suplementares de mais de 3.000 euros. Eu não teria deixado de comprar a casa, mas talvez tivesse negociado o valor de forma diferente. Mais tarde, comprei um imóvel para investimento e, poucos dias depois de o arrendar, recebi uma reclamação sobre um roupeiro que cheirava a mofo. Fui verificar e existia uma infiltração na casa de banho que já lá estava quando comprei. O meu sócio viveu situações semelhantes.

Portanto, o ponto de partida da BLEPO são experiências pessoais.
J.C. — Começámos a pesquisar e percebemos que, noutros países, a home inspection já é uma prática comum e que o processo de compra e venda tem muito mais informação associada. Quando olhámos para o panorama nacional, concluímos que existia espaço para profissionalizar a compra de um imóvel e dar mais clareza e informação aos compradores.
Que sinais encontraram de que os compradores estavam realmente dispostos a pagar por uma inspeção técnica antes de comprar casa?
J.C. — O sinal mais claro é a quantidade de vezes que ouvimos: “Devia ter-vos conhecido mais cedo, tinha poupado uns bons euros”. Mais de 90% dos nossos clientes sentiram, segundo a nossa experiência, uma mais-valia em adquirir o serviço: porque negociaram o valor do imóvel com base no relatório, porque perceberam que determinado problema estava circunscrito a uma pequena patologia de simples reparação ou, noutros casos, porque concluíram que aquele imóvel não correspondia ao negócio que procuravam. Importa clarificar que os nossos diagnósticos não dizem se é ou não um bom negócio nem se o cliente deve avançar. Essa decisão não nos cabe. A nossa função é recolher e disponibilizar o máximo de informação possível para que a pessoa possa decidir de forma informada.
O objetivo é democratizar um serviço tradicionalmente mais associado a investidores profissionais, fundos e banca. O que tiveram de simplificar para o adaptar ao comprador comum?
J.C. — Trabalhamos com preços fixos, independentemente do tamanho ou da tipologia do imóvel. Foi a forma que encontrámos de tornar o serviço simples e acessível. Os valores começam nos 300 euros e variam apenas em função do nível de informação que o cliente pretende, e não do tamanho ou da localização da casa. Esta é uma das principais simplificações do modelo. Em média, o serviço representa menos de 1% do valor do imóvel, o que consideramos acessível para quem está a tomar uma decisão financeira desta dimensão.

Os fundadores da BLEPO: João Luís Carvalho e João Cunha
Que riscos consegue um comprador conhecer antes da compra que, normalmente, escapariam a uma visita convencional?
J.C. — Mais do que os riscos, fica a conhecer o estado real do imóvel. Podemos olhar para a própria localização — perceber, por exemplo, se existe exposição a ruído ou se está numa zona de cheia —, mas também para o estado e a funcionalidade do edifício. Comprar uma fração é também comprar uma parte do prédio. Depois, analisamos a própria habitação: águas, esgotos, eletricidade, humidade nas paredes, iluminação, ventilação e até questões relacionadas com a saúde ambiental da casa.
Comprar casa já implica muitos custos. Como se convence alguém de que este é um investimento necessário e não apenas mais uma despesa?
J.C. — Um diagnóstico técnico pode evitar despesas de milhares de euros. Esse é o ponto que queremos que o consumidor perceba. O que é mais caro: um diagnóstico BLEPO de 600 euros, já com IVA, em que verificamos o estado do imóvel, a existência de humidades ou se as tomadas funcionam, ou descobrir uma semana depois da compra que existe uma infiltração na casa de banho que obriga a uma remodelação de 5.000 euros ou mais? Mesmo quando a casa está impecável, o cliente fica com informação adicional sobre aquilo que está a comprar. Na minha opinião, é sobretudo uma questão de segurança numa decisão de valor muito elevado.
A BLEPO trabalha com uma rede de arquitetos e engenheiros independentes. Como garantem consistência à medida que a operação cresce?
J.C. — Os nossos técnicos seguem a metodologia BLEPO em todas as inspeções. É a primeira forma de garantir que o processo se mantém uniforme, independentemente de quem o executa. Além disso, todos têm inscrição válida na respetiva ordem profissional e são os próprios técnicos que assinam os diagnósticos que elaboram. A conjugação desses dois pontos permite manter um workflow comum e procurar uma experiência consistente para o cliente.

Onde é que a inteligência artificial acrescenta realmente valor neste serviço?
J.C. — A IA já está presente na operação diária da BLEPO. A nossa plataforma recolhe e compila informação sobre a localização do imóvel com a ajuda desta tecnologia. Isso permite simplificar o processo de elaboração do diagnóstico e apoiar o técnico, que continua a ser quem elabora e valida o documento. O objetivo é tornar o processo mais rápido e eficiente e conseguirmos cumprir o nosso SLA de 48 horas para a entrega do diagnóstico.
O que precisa de mudar no mercado imobiliário português para tornar a inspeção técnica pré-compra tão natural como uma avaliação bancária?
J.C. — Essa é mais uma missão do que uma ambição, porque estamos a falar de trazer informação para um negócio de valores muito elevados. Em vários países, com diferentes modelos e graus de exigência, este tipo de diagnóstico já faz parte do processo habitual. Acredito que o mercado imobiliário português está a mudar e que o diagnóstico pode ajudar a profissionalizar ainda mais o setor. A ideia não é atrapalhar a venda. Pelo contrário: é ajudar, facilitar, desbloquear e trazer clareza e transparência para todos os intervenientes. Quando falamos com departamentos jurídicos de imobiliárias, ouvimos muitas vezes que um diagnóstico técnico poderia ter evitado determinada reclamação. No final, aquilo que defendemos é simples: ver melhor é decidir melhor.

