
#Protagonistas
TIAGO FORTUNA: "O impacto demora, mas vale a pena"
E o impacto da Access Lab é inegável. Fundada há três anos, esta empresa é já uma referência na prestação de serviços de consultoria e comunicação na área da inclusão de pessoas com deficiência, neurodivergência ou Surdas. Tem contribuído para o debate social e para os avanços políticos, e tem-nos mostrado que o caminho é longo, mas possível.
A Access Lab nasceu com a missão de tornar cultura, desporto e entretenimento acessíveis a pessoas com deficiência, neurodivergência e Surdas. Qual foi o momento “definidor” que vos levou de uma ideia para a criação da empresa?
Tiago Fortuna — Começámos por trocar ideias e pensar num piloto, era um projecto, quase com princípio meio e fim, só que, de repente, percebemos que tínhamos uma identidade e posicionamento diferentes do que existia no meio. Quisemos trazer uma proposta de mercado com impacto, que fosse financeiramente sustentável e socialmente impactante. Foi assim que nos candidatámos a um Fundo de filantropia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, num modelo de negócio que envolvia ainda a compra de serviços por outras empresas, entre elas a Arena Atlântico (que gere a MEO Arena). Implementado o modelo de negócio e de resultados, foi-nos possível multiplicar e começar a crescer.
Porque escolheram o modelo de uma empresa (de impacto social) e não o de uma Associação, por exemplo?
T.F. — Porque acreditamos já existirem Associações suficientes a fazer um bom trabalho em Portugal e achamos que falta uma resposta corporativa competitiva no âmbito da consultoria de serviços e comunicação. Também porque acreditamos nas pessoas com deficiência como potência económica e, nesse sentido, é mais directo com um posicionamento que afirme ter fins lucrativos. São fins lucrativos que precisam, sempre, de ser acompanhados de métricas de impacto.

Tiago Fortuna co-fundou a Access Lab, em 2022, com Jwana Godinho
Como superaram a resistência ou descrença de promotores de eventos ou espaços culturais, quando começaram a apresentar a empresa ao mercado?
T.F. — Com empatia, formação e capacidade de comunicação. O reconhecimento da necessidade de fazer trabalho pela inclusão, de ser uma vantagem competitiva ou uma oportunidade de comunicação foi algo que o mercado rapidamente compreendeu. O que foi mais difícil, e ainda pode ser um desafio, é atribuir a este trabalho um valor, encará-lo como um serviço. Aceitar que uma pessoa com deficiência, que é consultora ou protagonista de uma acção de comunicação, deve ser remunerada por esse trabalho.
A vossa abordagem é muito ampla. Como equilibram a visão global do projeto com a implementação técnica e logística?
T.F. — Com uma equipa multidisciplinar que vive num registo de paridade: temos pessoas com e sem deficiência, de diferentes idades e de diferentes áreas de especialização. Procuramos estar todos alinhados com a missão da Access Lab. Se o fizermos, vamos conseguir que os clientes fiquem satisfeitos e que a comunidade tenha o impacto e avanços de que precisa.
"O mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago"
Que papel têm os dados e o impacto mensurável no vosso modelo de negócio?
T.F. — Os dados são fundamentais. Existem muito poucos em Portugal, é verdade que temos o excelente trabalho do Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos, e sabemos que os Censos colocam a população com deficiência em cerca 10% da população portuguesa (que é discutível, dado que a população mundial situa-se nos 15%). Também é por isso que a Access Lab tem vindo a publicar os seus próprios relatórios, com o apoio da NOVA FCSH. Já publicámos três: sobre a participação no entretenimento, no futebol e sobre a qualidade dos recursos de acessibilidade na RTP. Além disso, trabalhamos com métricas de impacto nos projectos de advocacy, com as conquistas de public policy, de comunicação com a nossa avaliação mediática, entre outros. Fazemos o mesmo com os clientes.
Em termos de sustentabilidade financeira, que desafios enfrentam ao tentar conciliar um projeto de impacto social com a necessidade de rentabilização e escalabilidade?
T.F. — É muito desafiante na medida em que, como referi, o mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago. Essa mudança de mentalidade demora. Mas o nosso trabalho é mostrar o contrário: não estarão as maiores marcas melhor servidas se trabalharem com consultores especializados que fazem casting de protagonistas e os remuneram? E quando uma empresa precisa de cumprir a lei, como está agora a acontecer com a European Accessibility Act, não terá a confiança exponenciada se contratar recursos especializados e sigilosos? Ao compreender isto, trabalhamos todos muito melhor e, na Access Lab, temos tido a oportunidade de encontrar parceiros e clientes que compreendem esta visão quando colaborar connosco.

Como co-CEO, geres uma empresa com muitos stakeholders, desde promotores, artistas, pessoas com deficiência, instituições, Estado. Que competências de liderança consideras essenciais neste tipo de missão?
T.F. — É preciso ter uma grande capacidade de adaptação e compreensão do ambiente em que estamos a operar, conhecer os seus códigos sociais e trabalhar em torno deles. Só assim vamos conseguir os resultados que procuramos e, também, levar as pessoas a embarcar na mesma missão. Na nossa abordagem, procuramos não hostilizar. Sou cru, muito assertivo, procuro chamar sempre à atenção para a desigualdade, para o privilégio, mas também criar pontes. Há sempre a possibilidade de criar uma ponte e abrir um diálogo.
Que balanço fazem dos primeiros anos de atividade?
T.F. — Têm sido anos muito trabalhosos mas também muito gratificantes. Temos uma carteira de clientes e parceiros vasta, desde o entretenimento, ao mundo corporativo e estando agora a dar os primeiros passos na educação com o projeto Relatable. Conseguimos agora que o bilhete de acompanhante de pessoas com deficiência se tornasse uma medida global no sector público, estamos a falar de centenas de equipamentos culturais em todo o país. O impacto demora, mas vale a pena.
Que aprendizagens tiram da colaboração com grandes eventos ou festivais?
T.F. — A necessidade de um bom planeamento, da formação, da comunicação com propósito e a existência de recursos especializados. É preciso implementar estratégias robustas e disruptivas se queremos mudar paradigmas, e essas estratégias existem, temos numerosos exemplos internacionais que procuramos seguir em Portugal.
"Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia"
Há quem pense que a consciencialização e o ativismo podem ser incompatíveis com o ritmo e exigência dos negócios. Como mantêm o propósito social vivo dentro da rotina empresarial?
T.F. — Todos os nossos projectos têm uma intenção e objectivos claros. Essa mensagem deve ser clara para a equipa interna da Access Lab e deve, também, fazer parte de um plano maior. Por exemplo, a nossa academia de formação trabalha muito no sector corporativo, de acordo com as necessidades dos clientes, mas, no fim do ano - todas as pessoas que passam pela academia Access Lab, sejam clientes corporativos, equipas de eventos, tutelas ou pessoas com deficiência - todos estão a contribuir para o aumento da literacia sobre a deficiência em Portugal. Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia e existe uma ligação comercial a este impacto. Isso é algo em que acreditamos muito e que vamos continuar a investir, porque é tanto impacto quanto sustentabilidade.
Que conselhos darias a outras startups ou empreendedores que querem usar o negócio como veículo de impacto social, equilibrando missão, viabilidade e autenticidade?
T.F. — Tenham um business plan tão sólido quanto o planeamento de impacto e retorno para os stakeholders no primeiro ano. Façam planeamento estratégico e contemplem cenários menos positivos. É importante estar pronto para o impacto, é preciso persistir sempre.
Qual é a visão de longo prazo da Access Lab? Que impacto gostariam de ter no panorama cultural e social em Portugal, ou até além-fronteiras?
T.F. — Queremos transformar experiências. E isso significa apoiar pessoas com deficiência, Surdas e neurodivergentes a ocuparem espaço público. Sem medos. E fazê-lo em celebração: com todas as partes. Aí entra toda a sociedade, um ecossistema onde a nossa actividade profissional se insere.
"Vale muito a pena ir além"
Que papel podem ter as empresas privadas, as marcas, e as instituições culturais na promoção de acessibilidade, além da regulamentação ou da obrigação legal?
T.F. — A lei, as regulamentações, os prémios são cada vez mais robustos e completos. Vale a pena cumprir, candidatarmo-nos, fazermos a nossa parte. E vale muito a pena ir além: quando tivemos 400 pessoas com deficiência num jogo de futebol e o Cristiano Ronaldo entrou em campo com a Sofia Monteiro; ou quando Dua Lipa gestou a palavra “amor” em Língua Gestual no NOS Alive, e conheceu pessoas surdas; estes são exemplos que vão além da lei e mostram bem que vale a pena incluir. Que somos melhores, mais capazes, que nos superamos enquanto seres humanos e trazemos algo de bom à vida dos outros.
Finalmente: olhando para o teu percurso pessoal e para a Access Lab, que motivo te move todos os dias para continuar este desafio?
T.F. — Ultimamente tenho-me questionado sobre isto, sobre como podia colocar apenas numa frase tudo que tenho feito. E não é fácil. Acho que vou dizer apenas que gosto muito de fazer acontecer. Seguir em frente, não esperar por ninguém.
Fotos (C) Pedro Ruela Berga e Miguel David

#Protagonistas
TIAGO FORTUNA: "O impacto demora, mas vale a pena"
E o impacto da Access Lab é inegável. Fundada há três anos, esta empresa é já uma referência na prestação de serviços de consultoria e comunicação na área da inclusão de pessoas com deficiência, neurodivergência ou Surdas. Tem contribuído para o debate social e para os avanços políticos, e tem-nos mostrado que o caminho é longo, mas possível.
A Access Lab nasceu com a missão de tornar cultura, desporto e entretenimento acessíveis a pessoas com deficiência, neurodivergência e Surdas. Qual foi o momento “definidor” que vos levou de uma ideia para a criação da empresa?
Tiago Fortuna — Começámos por trocar ideias e pensar num piloto, era um projecto, quase com princípio meio e fim, só que, de repente, percebemos que tínhamos uma identidade e posicionamento diferentes do que existia no meio. Quisemos trazer uma proposta de mercado com impacto, que fosse financeiramente sustentável e socialmente impactante. Foi assim que nos candidatámos a um Fundo de filantropia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, num modelo de negócio que envolvia ainda a compra de serviços por outras empresas, entre elas a Arena Atlântico (que gere a MEO Arena). Implementado o modelo de negócio e de resultados, foi-nos possível multiplicar e começar a crescer.
Porque escolheram o modelo de uma empresa (de impacto social) e não o de uma Associação, por exemplo?
T.F. — Porque acreditamos já existirem Associações suficientes a fazer um bom trabalho em Portugal e achamos que falta uma resposta corporativa competitiva no âmbito da consultoria de serviços e comunicação. Também porque acreditamos nas pessoas com deficiência como potência económica e, nesse sentido, é mais directo com um posicionamento que afirme ter fins lucrativos. São fins lucrativos que precisam, sempre, de ser acompanhados de métricas de impacto.

Tiago Fortuna co-fundou a Access Lab, em 2022, com Jwana Godinho
Como superaram a resistência ou descrença de promotores de eventos ou espaços culturais, quando começaram a apresentar a empresa ao mercado?
T.F. — Com empatia, formação e capacidade de comunicação. O reconhecimento da necessidade de fazer trabalho pela inclusão, de ser uma vantagem competitiva ou uma oportunidade de comunicação foi algo que o mercado rapidamente compreendeu. O que foi mais difícil, e ainda pode ser um desafio, é atribuir a este trabalho um valor, encará-lo como um serviço. Aceitar que uma pessoa com deficiência, que é consultora ou protagonista de uma acção de comunicação, deve ser remunerada por esse trabalho.
A vossa abordagem é muito ampla. Como equilibram a visão global do projeto com a implementação técnica e logística?
T.F. — Com uma equipa multidisciplinar que vive num registo de paridade: temos pessoas com e sem deficiência, de diferentes idades e de diferentes áreas de especialização. Procuramos estar todos alinhados com a missão da Access Lab. Se o fizermos, vamos conseguir que os clientes fiquem satisfeitos e que a comunidade tenha o impacto e avanços de que precisa.
"O mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago"
Que papel têm os dados e o impacto mensurável no vosso modelo de negócio?
T.F. — Os dados são fundamentais. Existem muito poucos em Portugal, é verdade que temos o excelente trabalho do Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos, e sabemos que os Censos colocam a população com deficiência em cerca 10% da população portuguesa (que é discutível, dado que a população mundial situa-se nos 15%). Também é por isso que a Access Lab tem vindo a publicar os seus próprios relatórios, com o apoio da NOVA FCSH. Já publicámos três: sobre a participação no entretenimento, no futebol e sobre a qualidade dos recursos de acessibilidade na RTP. Além disso, trabalhamos com métricas de impacto nos projectos de advocacy, com as conquistas de public policy, de comunicação com a nossa avaliação mediática, entre outros. Fazemos o mesmo com os clientes.
Em termos de sustentabilidade financeira, que desafios enfrentam ao tentar conciliar um projeto de impacto social com a necessidade de rentabilização e escalabilidade?
T.F. — É muito desafiante na medida em que, como referi, o mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago. Essa mudança de mentalidade demora. Mas o nosso trabalho é mostrar o contrário: não estarão as maiores marcas melhor servidas se trabalharem com consultores especializados que fazem casting de protagonistas e os remuneram? E quando uma empresa precisa de cumprir a lei, como está agora a acontecer com a European Accessibility Act, não terá a confiança exponenciada se contratar recursos especializados e sigilosos? Ao compreender isto, trabalhamos todos muito melhor e, na Access Lab, temos tido a oportunidade de encontrar parceiros e clientes que compreendem esta visão quando colaborar connosco.

Como co-CEO, geres uma empresa com muitos stakeholders, desde promotores, artistas, pessoas com deficiência, instituições, Estado. Que competências de liderança consideras essenciais neste tipo de missão?
T.F. — É preciso ter uma grande capacidade de adaptação e compreensão do ambiente em que estamos a operar, conhecer os seus códigos sociais e trabalhar em torno deles. Só assim vamos conseguir os resultados que procuramos e, também, levar as pessoas a embarcar na mesma missão. Na nossa abordagem, procuramos não hostilizar. Sou cru, muito assertivo, procuro chamar sempre à atenção para a desigualdade, para o privilégio, mas também criar pontes. Há sempre a possibilidade de criar uma ponte e abrir um diálogo.
Que balanço fazem dos primeiros anos de atividade?
T.F. — Têm sido anos muito trabalhosos mas também muito gratificantes. Temos uma carteira de clientes e parceiros vasta, desde o entretenimento, ao mundo corporativo e estando agora a dar os primeiros passos na educação com o projeto Relatable. Conseguimos agora que o bilhete de acompanhante de pessoas com deficiência se tornasse uma medida global no sector público, estamos a falar de centenas de equipamentos culturais em todo o país. O impacto demora, mas vale a pena.
Que aprendizagens tiram da colaboração com grandes eventos ou festivais?
T.F. — A necessidade de um bom planeamento, da formação, da comunicação com propósito e a existência de recursos especializados. É preciso implementar estratégias robustas e disruptivas se queremos mudar paradigmas, e essas estratégias existem, temos numerosos exemplos internacionais que procuramos seguir em Portugal.
"Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia"
Há quem pense que a consciencialização e o ativismo podem ser incompatíveis com o ritmo e exigência dos negócios. Como mantêm o propósito social vivo dentro da rotina empresarial?
T.F. — Todos os nossos projectos têm uma intenção e objectivos claros. Essa mensagem deve ser clara para a equipa interna da Access Lab e deve, também, fazer parte de um plano maior. Por exemplo, a nossa academia de formação trabalha muito no sector corporativo, de acordo com as necessidades dos clientes, mas, no fim do ano - todas as pessoas que passam pela academia Access Lab, sejam clientes corporativos, equipas de eventos, tutelas ou pessoas com deficiência - todos estão a contribuir para o aumento da literacia sobre a deficiência em Portugal. Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia e existe uma ligação comercial a este impacto. Isso é algo em que acreditamos muito e que vamos continuar a investir, porque é tanto impacto quanto sustentabilidade.
Que conselhos darias a outras startups ou empreendedores que querem usar o negócio como veículo de impacto social, equilibrando missão, viabilidade e autenticidade?
T.F. — Tenham um business plan tão sólido quanto o planeamento de impacto e retorno para os stakeholders no primeiro ano. Façam planeamento estratégico e contemplem cenários menos positivos. É importante estar pronto para o impacto, é preciso persistir sempre.
Qual é a visão de longo prazo da Access Lab? Que impacto gostariam de ter no panorama cultural e social em Portugal, ou até além-fronteiras?
T.F. — Queremos transformar experiências. E isso significa apoiar pessoas com deficiência, Surdas e neurodivergentes a ocuparem espaço público. Sem medos. E fazê-lo em celebração: com todas as partes. Aí entra toda a sociedade, um ecossistema onde a nossa actividade profissional se insere.
"Vale muito a pena ir além"
Que papel podem ter as empresas privadas, as marcas, e as instituições culturais na promoção de acessibilidade, além da regulamentação ou da obrigação legal?
T.F. — A lei, as regulamentações, os prémios são cada vez mais robustos e completos. Vale a pena cumprir, candidatarmo-nos, fazermos a nossa parte. E vale muito a pena ir além: quando tivemos 400 pessoas com deficiência num jogo de futebol e o Cristiano Ronaldo entrou em campo com a Sofia Monteiro; ou quando Dua Lipa gestou a palavra “amor” em Língua Gestual no NOS Alive, e conheceu pessoas surdas; estes são exemplos que vão além da lei e mostram bem que vale a pena incluir. Que somos melhores, mais capazes, que nos superamos enquanto seres humanos e trazemos algo de bom à vida dos outros.
Finalmente: olhando para o teu percurso pessoal e para a Access Lab, que motivo te move todos os dias para continuar este desafio?
T.F. — Ultimamente tenho-me questionado sobre isto, sobre como podia colocar apenas numa frase tudo que tenho feito. E não é fácil. Acho que vou dizer apenas que gosto muito de fazer acontecer. Seguir em frente, não esperar por ninguém.
Fotos (C) Pedro Ruela Berga e Miguel David

#Protagonistas
TIAGO FORTUNA: "O impacto demora, mas vale a pena"
E o impacto da Access Lab é inegável. Fundada há três anos, esta empresa é já uma referência na prestação de serviços de consultoria e comunicação na área da inclusão de pessoas com deficiência, neurodivergência ou Surdas. Tem contribuído para o debate social e para os avanços políticos, e tem-nos mostrado que o caminho é longo, mas possível.
A Access Lab nasceu com a missão de tornar cultura, desporto e entretenimento acessíveis a pessoas com deficiência, neurodivergência e Surdas. Qual foi o momento “definidor” que vos levou de uma ideia para a criação da empresa?
Tiago Fortuna — Começámos por trocar ideias e pensar num piloto, era um projecto, quase com princípio meio e fim, só que, de repente, percebemos que tínhamos uma identidade e posicionamento diferentes do que existia no meio. Quisemos trazer uma proposta de mercado com impacto, que fosse financeiramente sustentável e socialmente impactante. Foi assim que nos candidatámos a um Fundo de filantropia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, num modelo de negócio que envolvia ainda a compra de serviços por outras empresas, entre elas a Arena Atlântico (que gere a MEO Arena). Implementado o modelo de negócio e de resultados, foi-nos possível multiplicar e começar a crescer.
Porque escolheram o modelo de uma empresa (de impacto social) e não o de uma Associação, por exemplo?
T.F. — Porque acreditamos já existirem Associações suficientes a fazer um bom trabalho em Portugal e achamos que falta uma resposta corporativa competitiva no âmbito da consultoria de serviços e comunicação. Também porque acreditamos nas pessoas com deficiência como potência económica e, nesse sentido, é mais directo com um posicionamento que afirme ter fins lucrativos. São fins lucrativos que precisam, sempre, de ser acompanhados de métricas de impacto.

Tiago Fortuna co-fundou a Access Lab, em 2022, com Jwana Godinho
Como superaram a resistência ou descrença de promotores de eventos ou espaços culturais, quando começaram a apresentar a empresa ao mercado?
T.F. — Com empatia, formação e capacidade de comunicação. O reconhecimento da necessidade de fazer trabalho pela inclusão, de ser uma vantagem competitiva ou uma oportunidade de comunicação foi algo que o mercado rapidamente compreendeu. O que foi mais difícil, e ainda pode ser um desafio, é atribuir a este trabalho um valor, encará-lo como um serviço. Aceitar que uma pessoa com deficiência, que é consultora ou protagonista de uma acção de comunicação, deve ser remunerada por esse trabalho.
A vossa abordagem é muito ampla. Como equilibram a visão global do projeto com a implementação técnica e logística?
T.F. — Com uma equipa multidisciplinar que vive num registo de paridade: temos pessoas com e sem deficiência, de diferentes idades e de diferentes áreas de especialização. Procuramos estar todos alinhados com a missão da Access Lab. Se o fizermos, vamos conseguir que os clientes fiquem satisfeitos e que a comunidade tenha o impacto e avanços de que precisa.
"O mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago"
Que papel têm os dados e o impacto mensurável no vosso modelo de negócio?
T.F. — Os dados são fundamentais. Existem muito poucos em Portugal, é verdade que temos o excelente trabalho do Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos, e sabemos que os Censos colocam a população com deficiência em cerca 10% da população portuguesa (que é discutível, dado que a população mundial situa-se nos 15%). Também é por isso que a Access Lab tem vindo a publicar os seus próprios relatórios, com o apoio da NOVA FCSH. Já publicámos três: sobre a participação no entretenimento, no futebol e sobre a qualidade dos recursos de acessibilidade na RTP. Além disso, trabalhamos com métricas de impacto nos projectos de advocacy, com as conquistas de public policy, de comunicação com a nossa avaliação mediática, entre outros. Fazemos o mesmo com os clientes.
Em termos de sustentabilidade financeira, que desafios enfrentam ao tentar conciliar um projeto de impacto social com a necessidade de rentabilização e escalabilidade?
T.F. — É muito desafiante na medida em que, como referi, o mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago. Essa mudança de mentalidade demora. Mas o nosso trabalho é mostrar o contrário: não estarão as maiores marcas melhor servidas se trabalharem com consultores especializados que fazem casting de protagonistas e os remuneram? E quando uma empresa precisa de cumprir a lei, como está agora a acontecer com a European Accessibility Act, não terá a confiança exponenciada se contratar recursos especializados e sigilosos? Ao compreender isto, trabalhamos todos muito melhor e, na Access Lab, temos tido a oportunidade de encontrar parceiros e clientes que compreendem esta visão quando colaborar connosco.

Como co-CEO, geres uma empresa com muitos stakeholders, desde promotores, artistas, pessoas com deficiência, instituições, Estado. Que competências de liderança consideras essenciais neste tipo de missão?
T.F. — É preciso ter uma grande capacidade de adaptação e compreensão do ambiente em que estamos a operar, conhecer os seus códigos sociais e trabalhar em torno deles. Só assim vamos conseguir os resultados que procuramos e, também, levar as pessoas a embarcar na mesma missão. Na nossa abordagem, procuramos não hostilizar. Sou cru, muito assertivo, procuro chamar sempre à atenção para a desigualdade, para o privilégio, mas também criar pontes. Há sempre a possibilidade de criar uma ponte e abrir um diálogo.
Que balanço fazem dos primeiros anos de atividade?
T.F. — Têm sido anos muito trabalhosos mas também muito gratificantes. Temos uma carteira de clientes e parceiros vasta, desde o entretenimento, ao mundo corporativo e estando agora a dar os primeiros passos na educação com o projeto Relatable. Conseguimos agora que o bilhete de acompanhante de pessoas com deficiência se tornasse uma medida global no sector público, estamos a falar de centenas de equipamentos culturais em todo o país. O impacto demora, mas vale a pena.
Que aprendizagens tiram da colaboração com grandes eventos ou festivais?
T.F. — A necessidade de um bom planeamento, da formação, da comunicação com propósito e a existência de recursos especializados. É preciso implementar estratégias robustas e disruptivas se queremos mudar paradigmas, e essas estratégias existem, temos numerosos exemplos internacionais que procuramos seguir em Portugal.
"Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia"
Há quem pense que a consciencialização e o ativismo podem ser incompatíveis com o ritmo e exigência dos negócios. Como mantêm o propósito social vivo dentro da rotina empresarial?
T.F. — Todos os nossos projectos têm uma intenção e objectivos claros. Essa mensagem deve ser clara para a equipa interna da Access Lab e deve, também, fazer parte de um plano maior. Por exemplo, a nossa academia de formação trabalha muito no sector corporativo, de acordo com as necessidades dos clientes, mas, no fim do ano - todas as pessoas que passam pela academia Access Lab, sejam clientes corporativos, equipas de eventos, tutelas ou pessoas com deficiência - todos estão a contribuir para o aumento da literacia sobre a deficiência em Portugal. Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia e existe uma ligação comercial a este impacto. Isso é algo em que acreditamos muito e que vamos continuar a investir, porque é tanto impacto quanto sustentabilidade.
Que conselhos darias a outras startups ou empreendedores que querem usar o negócio como veículo de impacto social, equilibrando missão, viabilidade e autenticidade?
T.F. — Tenham um business plan tão sólido quanto o planeamento de impacto e retorno para os stakeholders no primeiro ano. Façam planeamento estratégico e contemplem cenários menos positivos. É importante estar pronto para o impacto, é preciso persistir sempre.
Qual é a visão de longo prazo da Access Lab? Que impacto gostariam de ter no panorama cultural e social em Portugal, ou até além-fronteiras?
T.F. — Queremos transformar experiências. E isso significa apoiar pessoas com deficiência, Surdas e neurodivergentes a ocuparem espaço público. Sem medos. E fazê-lo em celebração: com todas as partes. Aí entra toda a sociedade, um ecossistema onde a nossa actividade profissional se insere.
"Vale muito a pena ir além"
Que papel podem ter as empresas privadas, as marcas, e as instituições culturais na promoção de acessibilidade, além da regulamentação ou da obrigação legal?
T.F. — A lei, as regulamentações, os prémios são cada vez mais robustos e completos. Vale a pena cumprir, candidatarmo-nos, fazermos a nossa parte. E vale muito a pena ir além: quando tivemos 400 pessoas com deficiência num jogo de futebol e o Cristiano Ronaldo entrou em campo com a Sofia Monteiro; ou quando Dua Lipa gestou a palavra “amor” em Língua Gestual no NOS Alive, e conheceu pessoas surdas; estes são exemplos que vão além da lei e mostram bem que vale a pena incluir. Que somos melhores, mais capazes, que nos superamos enquanto seres humanos e trazemos algo de bom à vida dos outros.
Finalmente: olhando para o teu percurso pessoal e para a Access Lab, que motivo te move todos os dias para continuar este desafio?
T.F. — Ultimamente tenho-me questionado sobre isto, sobre como podia colocar apenas numa frase tudo que tenho feito. E não é fácil. Acho que vou dizer apenas que gosto muito de fazer acontecer. Seguir em frente, não esperar por ninguém.
Fotos (C) Pedro Ruela Berga e Miguel David

#Protagonistas
TIAGO FORTUNA: "O impacto demora, mas vale a pena"
E o impacto da Access Lab é inegável. Fundada há três anos, esta empresa é já uma referência na prestação de serviços de consultoria e comunicação na área da inclusão de pessoas com deficiência, neurodivergência ou Surdas. Tem contribuído para o debate social e para os avanços políticos, e tem-nos mostrado que o caminho é longo, mas possível.
A Access Lab nasceu com a missão de tornar cultura, desporto e entretenimento acessíveis a pessoas com deficiência, neurodivergência e Surdas. Qual foi o momento “definidor” que vos levou de uma ideia para a criação da empresa?
Tiago Fortuna — Começámos por trocar ideias e pensar num piloto, era um projecto, quase com princípio meio e fim, só que, de repente, percebemos que tínhamos uma identidade e posicionamento diferentes do que existia no meio. Quisemos trazer uma proposta de mercado com impacto, que fosse financeiramente sustentável e socialmente impactante. Foi assim que nos candidatámos a um Fundo de filantropia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, num modelo de negócio que envolvia ainda a compra de serviços por outras empresas, entre elas a Arena Atlântico (que gere a MEO Arena). Implementado o modelo de negócio e de resultados, foi-nos possível multiplicar e começar a crescer.
Porque escolheram o modelo de uma empresa (de impacto social) e não o de uma Associação, por exemplo?
T.F. — Porque acreditamos já existirem Associações suficientes a fazer um bom trabalho em Portugal e achamos que falta uma resposta corporativa competitiva no âmbito da consultoria de serviços e comunicação. Também porque acreditamos nas pessoas com deficiência como potência económica e, nesse sentido, é mais directo com um posicionamento que afirme ter fins lucrativos. São fins lucrativos que precisam, sempre, de ser acompanhados de métricas de impacto.

Tiago Fortuna co-fundou a Access Lab, em 2022, com Jwana Godinho
Como superaram a resistência ou descrença de promotores de eventos ou espaços culturais, quando começaram a apresentar a empresa ao mercado?
T.F. — Com empatia, formação e capacidade de comunicação. O reconhecimento da necessidade de fazer trabalho pela inclusão, de ser uma vantagem competitiva ou uma oportunidade de comunicação foi algo que o mercado rapidamente compreendeu. O que foi mais difícil, e ainda pode ser um desafio, é atribuir a este trabalho um valor, encará-lo como um serviço. Aceitar que uma pessoa com deficiência, que é consultora ou protagonista de uma acção de comunicação, deve ser remunerada por esse trabalho.
A vossa abordagem é muito ampla. Como equilibram a visão global do projeto com a implementação técnica e logística?
T.F. — Com uma equipa multidisciplinar que vive num registo de paridade: temos pessoas com e sem deficiência, de diferentes idades e de diferentes áreas de especialização. Procuramos estar todos alinhados com a missão da Access Lab. Se o fizermos, vamos conseguir que os clientes fiquem satisfeitos e que a comunidade tenha o impacto e avanços de que precisa.
"O mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago"
Que papel têm os dados e o impacto mensurável no vosso modelo de negócio?
T.F. — Os dados são fundamentais. Existem muito poucos em Portugal, é verdade que temos o excelente trabalho do Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos, e sabemos que os Censos colocam a população com deficiência em cerca 10% da população portuguesa (que é discutível, dado que a população mundial situa-se nos 15%). Também é por isso que a Access Lab tem vindo a publicar os seus próprios relatórios, com o apoio da NOVA FCSH. Já publicámos três: sobre a participação no entretenimento, no futebol e sobre a qualidade dos recursos de acessibilidade na RTP. Além disso, trabalhamos com métricas de impacto nos projectos de advocacy, com as conquistas de public policy, de comunicação com a nossa avaliação mediática, entre outros. Fazemos o mesmo com os clientes.
Em termos de sustentabilidade financeira, que desafios enfrentam ao tentar conciliar um projeto de impacto social com a necessidade de rentabilização e escalabilidade?
T.F. — É muito desafiante na medida em que, como referi, o mercado não estava habituado a ver esta consultoria especializada como um serviço pago. Essa mudança de mentalidade demora. Mas o nosso trabalho é mostrar o contrário: não estarão as maiores marcas melhor servidas se trabalharem com consultores especializados que fazem casting de protagonistas e os remuneram? E quando uma empresa precisa de cumprir a lei, como está agora a acontecer com a European Accessibility Act, não terá a confiança exponenciada se contratar recursos especializados e sigilosos? Ao compreender isto, trabalhamos todos muito melhor e, na Access Lab, temos tido a oportunidade de encontrar parceiros e clientes que compreendem esta visão quando colaborar connosco.

Como co-CEO, geres uma empresa com muitos stakeholders, desde promotores, artistas, pessoas com deficiência, instituições, Estado. Que competências de liderança consideras essenciais neste tipo de missão?
T.F. — É preciso ter uma grande capacidade de adaptação e compreensão do ambiente em que estamos a operar, conhecer os seus códigos sociais e trabalhar em torno deles. Só assim vamos conseguir os resultados que procuramos e, também, levar as pessoas a embarcar na mesma missão. Na nossa abordagem, procuramos não hostilizar. Sou cru, muito assertivo, procuro chamar sempre à atenção para a desigualdade, para o privilégio, mas também criar pontes. Há sempre a possibilidade de criar uma ponte e abrir um diálogo.
Que balanço fazem dos primeiros anos de atividade?
T.F. — Têm sido anos muito trabalhosos mas também muito gratificantes. Temos uma carteira de clientes e parceiros vasta, desde o entretenimento, ao mundo corporativo e estando agora a dar os primeiros passos na educação com o projeto Relatable. Conseguimos agora que o bilhete de acompanhante de pessoas com deficiência se tornasse uma medida global no sector público, estamos a falar de centenas de equipamentos culturais em todo o país. O impacto demora, mas vale a pena.
Que aprendizagens tiram da colaboração com grandes eventos ou festivais?
T.F. — A necessidade de um bom planeamento, da formação, da comunicação com propósito e a existência de recursos especializados. É preciso implementar estratégias robustas e disruptivas se queremos mudar paradigmas, e essas estratégias existem, temos numerosos exemplos internacionais que procuramos seguir em Portugal.
"Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia"
Há quem pense que a consciencialização e o ativismo podem ser incompatíveis com o ritmo e exigência dos negócios. Como mantêm o propósito social vivo dentro da rotina empresarial?
T.F. — Todos os nossos projectos têm uma intenção e objectivos claros. Essa mensagem deve ser clara para a equipa interna da Access Lab e deve, também, fazer parte de um plano maior. Por exemplo, a nossa academia de formação trabalha muito no sector corporativo, de acordo com as necessidades dos clientes, mas, no fim do ano - todas as pessoas que passam pela academia Access Lab, sejam clientes corporativos, equipas de eventos, tutelas ou pessoas com deficiência - todos estão a contribuir para o aumento da literacia sobre a deficiência em Portugal. Em 2025, mais de 4000 pessoas passaram pela nossa academia e existe uma ligação comercial a este impacto. Isso é algo em que acreditamos muito e que vamos continuar a investir, porque é tanto impacto quanto sustentabilidade.
Que conselhos darias a outras startups ou empreendedores que querem usar o negócio como veículo de impacto social, equilibrando missão, viabilidade e autenticidade?
T.F. — Tenham um business plan tão sólido quanto o planeamento de impacto e retorno para os stakeholders no primeiro ano. Façam planeamento estratégico e contemplem cenários menos positivos. É importante estar pronto para o impacto, é preciso persistir sempre.
Qual é a visão de longo prazo da Access Lab? Que impacto gostariam de ter no panorama cultural e social em Portugal, ou até além-fronteiras?
T.F. — Queremos transformar experiências. E isso significa apoiar pessoas com deficiência, Surdas e neurodivergentes a ocuparem espaço público. Sem medos. E fazê-lo em celebração: com todas as partes. Aí entra toda a sociedade, um ecossistema onde a nossa actividade profissional se insere.
"Vale muito a pena ir além"
Que papel podem ter as empresas privadas, as marcas, e as instituições culturais na promoção de acessibilidade, além da regulamentação ou da obrigação legal?
T.F. — A lei, as regulamentações, os prémios são cada vez mais robustos e completos. Vale a pena cumprir, candidatarmo-nos, fazermos a nossa parte. E vale muito a pena ir além: quando tivemos 400 pessoas com deficiência num jogo de futebol e o Cristiano Ronaldo entrou em campo com a Sofia Monteiro; ou quando Dua Lipa gestou a palavra “amor” em Língua Gestual no NOS Alive, e conheceu pessoas surdas; estes são exemplos que vão além da lei e mostram bem que vale a pena incluir. Que somos melhores, mais capazes, que nos superamos enquanto seres humanos e trazemos algo de bom à vida dos outros.
Finalmente: olhando para o teu percurso pessoal e para a Access Lab, que motivo te move todos os dias para continuar este desafio?
T.F. — Ultimamente tenho-me questionado sobre isto, sobre como podia colocar apenas numa frase tudo que tenho feito. E não é fácil. Acho que vou dizer apenas que gosto muito de fazer acontecer. Seguir em frente, não esperar por ninguém.


