#Motivação

SALA DE AULA: “Senhores engenheiros, olhem para a realidade”

|

27 de nov. de 2025, 11:00

(A série de reportagens Sala de Aula propõe-se a ser um retrato da próxima geração de empreendedores, de gestores e de profissionais de diferentes áreas. Quem são, o que estão a aprender, quem os está a ensinar, que questões surgem, que respostas obtêm, que promessa representam? Todos os meses, o MOTIVO vai assistir a uma aula numa faculdade portuguesa, como testemunha do futuro.)


Quinta-feira, 14h30, num início de outubro quente. Estamos na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, no polo da Caparica, o maior campus universitário português. A sala 3.19 do edifício 9 começou a encher antes da hora. Entre 45 e 50 alunos de quatro cursos — Engenharia Mecânica, Engenharia Industrial, Engenharia de Materiais e Engenharia de Micro e Nanotecnologias — tiram cadernos e estojos das mochilas, enquanto o professor os observa, paciente, junto ao quadro de ardósia verde. “Durante o semestre, normalmente, consigo manter as salas cheias”, garante o docente. A forma como os trata define o ambiente: “senhores alunos”, na maior parte das vezes; já quando a conversa evoca o futuro: “senhores engenheiros”. José Maria Gomes é professor auxiliar na NOVA FCT desde 2006. Integra o Departamento de Matemática e confidencia ao MOTIVO que, mesmo passados todos estes anos, se sente sobejamente realizado e completo na função.

No quadro, escreve uma equação e anuncia: “Senhores alunos, hoje é a última aula de análise complexa, o que significa que vamos transitar para equações diferenciais”. A lição começa com um gesto simples: recordar a matéria anterior para preparar a seguinte. José Maria Gomes explica como as ideias ganham corpo quando as representamos, e como a matemática abre portas para ver o que estava invisível. Fala de trajetórias, velocidade, aceleração e, de súbito, o grupo de jovens estudantes está a seguir uma partícula que desenha círculos e espirais, como se o quadro fosse o mapa de um planeta com pressa. “Quando vocês veem uma função como uma trajetória, a derivada é a velocidade; a segunda derivada é a aceleração”, sublinha, voz firme, giz decidido.

A matéria vive, embora ninguém esteja ali apenas para a conta certa. A ideia de “equilíbrio” atravessa a sessão: a mola que oscila até assentar, o pêndulo que se acalma, a glicemia que regressa à linha. Exemplos quotidianos para explicar a mesma procura de estabilidade. “A realidade carece de representações para nós agirmos sobre ela”, dirá depois. O que uma boa aula faz é oferecer “uma representação da realidade muito mais rica do que aquilo que nos é dado ao princípio”. Tempo para um exercício.



Há momentos que se colam à memória

No meio de equações, o professor dirige-se até à última fila para responder a um pedido sussurrado: “Professor, não sei como é que isto se faz”. José Maria Gomes aproxima-se. Resolvem juntos o primeiro passo e o aluno segue. “Nesses momentos, eu sinto que cumpro um desígnio pessoal”, confessa, já depois. “Em cada aluno, há um bocadinho de mim, na sua versão mais frágil e desamparada”.

A geração à frente deste académico viveu o ensino secundário sob a nuvem da pandemia. Bloqueios, intermitências, ausências, distâncias. O professor recusa rótulos apressados. “Gosto destes alunos. Trabalham, acreditam no conhecimento, quando lhes é dado o conhecimento. Se apresentarmos o conhecimento como algo de vivo, onde os instintos de vida se manifestam, os alunos aderem”. A prova está nas perguntas que, muitas vezes, “vão mais longe”.

O que se aprende naquela hora tem destino para lá do teste. Na linguagem do professor, a universidade é “um jardim”. Um lugar que ultrapassa a técnica. Um lugar de Sofia (palavra grega para sabedoria). Um espaço que cultiva a compreensão, a memória e o sentido. “É importante que, nos tempos que correm, a sociedade tenha a capacidade de criar redutos reflexivos sobre o que se está a passar. Redutos que acolham as formas divergentes de pensamento”. A informação está em todo o lado. O conhecimento exige contexto, história e responsabilidade.



No quadro, o tema do equilíbrio reaparece por vias inesperadas. Uma equação descreve tanto o atrito que abranda a bicicleta como o mecanismo que regula a nossa glicémia. Deixa de ser apenas cálculo, é uma gramática para ler o mundo. “A solução matemática para o problema do movimento oscilatório também descreve os níveis de sangue que vocês têm neste momento no vosso corpo”, diz, depois de perguntar aos estudantes se todos almoçaram. O giz desenha uma sinusoidal amortecida; a turma acompanha o traço que desce e estabiliza.

Há também um compromisso com a precisão das palavras. Na aula, a pergunta “como se chama este operador?” desenha silêncios e sorrisos nervosos. Ninguém parece ter ouvido falar de Laplace. A cena rende uma reflexão maior, horas depois: “a memória está ligada a coisas essenciais. A inscrição de um ser humano naquilo que é uma narrativa maior, que é a história da humanidade, é uma das grandes funções da Academia”.

A mesma ética atravessa a conversa sobre avaliação. O professor conta a sua história de estudante e um exercício de Francês guardado décadas por um mestre. O essencial está no que uma avaliação deve significar: espaço para crescimento. “Quem lhes dá notas muito elevadas, além daquilo que é justo, corrompe-os. Quem dá notas muito baixas, maltrata-os”. Para José Maria Gomes, o número importa, mas a formação do caráter sobrepõe-se.

Entra a pergunta inevitável: para que serve tudo isto quando chegarem ao mercado de trabalho, daqui a três ou quatro anos? O professor não pisca os olhos. “Acredito que estes lugares continuam a ser necessários. As salas de aula preparam cérebros e espinhas dorsais. No dia em que um aluno meu de Engenharia tiver que, contra uma pressão de uma empresa, denunciar uma falta de segurança, por exemplo, num funicular, eu sentirei que fiz o meu trabalho”. O conhecimento que interessa é o que ajuda a decidir bem quando o custo é alto.



Voltemos à sala de aula

O giz desliza, o raciocínio abre portas e janelas. As complexas operações matemáticas ligam fenómenos, e os fenómenos contagiam os jovens presentes. As mãos acompanham o pensamento e o tom ganha calor nos pontos em que a intuição precisa de um empurrão. “O conhecimento é sempre um grande momento de pergunta”, atira o docente, meio em desafio, meio em convite. “Não podem ter medo. A Matemática fala connosco, temos de ouvi-la”. A turma escuta.

A reportagem do MOTIVO termina onde começou: numa sala cheia. Há cansaço depois de cerca de noventa minutos de concentração. E há dúvidas. Cerca de uma dezena de alunos dirige-se à secretária de José Maria Gomes, que em nenhum momento se sentou. Trazem os cadernos nas mãos e as dúvidas prontas a serem esclarecidas. O professor vai respondendo às questões enquanto limpa o quadro. Abandonamos aquele espaço e encaminhamo-nos para a saída.

“Eu continuo a vir trabalhar feliz”. É aqui que a próxima geração antecipa o futuro. É aqui que ensaia o gesto que mais conta: olhar a realidade de frente e ter instrumentos para agir. 




A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa é, hoje, um dos maiores campus universitários da Europa, com mais de 8 500 estudantes, 18 centros de investigação e 21 bolsas do European Research Council, consideradas as mais prestigiadas no campo da investigação científica europeia. Conta com mais de 500 docentes e investigadores, 56 deles integrados na World Top 2% Scientist List da Universidade de Stanford, e dispõe de 350 laboratórios equipados com tecnologia de ponta, alguns únicos em Portugal. A vida académica é enriquecida ainda pelos 40 núcleos de estudantes que asseguram um vasto leque de oportunidades de participação e desenvolvimento.

#Motivação

SALA DE AULA: “Senhores engenheiros, olhem para a realidade”

|

27 de nov. de 2025, 11:00

(A série de reportagens Sala de Aula propõe-se a ser um retrato da próxima geração de empreendedores, de gestores e de profissionais de diferentes áreas. Quem são, o que estão a aprender, quem os está a ensinar, que questões surgem, que respostas obtêm, que promessa representam? Todos os meses, o MOTIVO vai assistir a uma aula numa faculdade portuguesa, como testemunha do futuro.)


Quinta-feira, 14h30, num início de outubro quente. Estamos na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, no polo da Caparica, o maior campus universitário português. A sala 3.19 do edifício 9 começou a encher antes da hora. Entre 45 e 50 alunos de quatro cursos — Engenharia Mecânica, Engenharia Industrial, Engenharia de Materiais e Engenharia de Micro e Nanotecnologias — tiram cadernos e estojos das mochilas, enquanto o professor os observa, paciente, junto ao quadro de ardósia verde. “Durante o semestre, normalmente, consigo manter as salas cheias”, garante o docente. A forma como os trata define o ambiente: “senhores alunos”, na maior parte das vezes; já quando a conversa evoca o futuro: “senhores engenheiros”. José Maria Gomes é professor auxiliar na NOVA FCT desde 2006. Integra o Departamento de Matemática e confidencia ao MOTIVO que, mesmo passados todos estes anos, se sente sobejamente realizado e completo na função.

No quadro, escreve uma equação e anuncia: “Senhores alunos, hoje é a última aula de análise complexa, o que significa que vamos transitar para equações diferenciais”. A lição começa com um gesto simples: recordar a matéria anterior para preparar a seguinte. José Maria Gomes explica como as ideias ganham corpo quando as representamos, e como a matemática abre portas para ver o que estava invisível. Fala de trajetórias, velocidade, aceleração e, de súbito, o grupo de jovens estudantes está a seguir uma partícula que desenha círculos e espirais, como se o quadro fosse o mapa de um planeta com pressa. “Quando vocês veem uma função como uma trajetória, a derivada é a velocidade; a segunda derivada é a aceleração”, sublinha, voz firme, giz decidido.

A matéria vive, embora ninguém esteja ali apenas para a conta certa. A ideia de “equilíbrio” atravessa a sessão: a mola que oscila até assentar, o pêndulo que se acalma, a glicemia que regressa à linha. Exemplos quotidianos para explicar a mesma procura de estabilidade. “A realidade carece de representações para nós agirmos sobre ela”, dirá depois. O que uma boa aula faz é oferecer “uma representação da realidade muito mais rica do que aquilo que nos é dado ao princípio”. Tempo para um exercício.



Há momentos que se colam à memória

No meio de equações, o professor dirige-se até à última fila para responder a um pedido sussurrado: “Professor, não sei como é que isto se faz”. José Maria Gomes aproxima-se. Resolvem juntos o primeiro passo e o aluno segue. “Nesses momentos, eu sinto que cumpro um desígnio pessoal”, confessa, já depois. “Em cada aluno, há um bocadinho de mim, na sua versão mais frágil e desamparada”.

A geração à frente deste académico viveu o ensino secundário sob a nuvem da pandemia. Bloqueios, intermitências, ausências, distâncias. O professor recusa rótulos apressados. “Gosto destes alunos. Trabalham, acreditam no conhecimento, quando lhes é dado o conhecimento. Se apresentarmos o conhecimento como algo de vivo, onde os instintos de vida se manifestam, os alunos aderem”. A prova está nas perguntas que, muitas vezes, “vão mais longe”.

O que se aprende naquela hora tem destino para lá do teste. Na linguagem do professor, a universidade é “um jardim”. Um lugar que ultrapassa a técnica. Um lugar de Sofia (palavra grega para sabedoria). Um espaço que cultiva a compreensão, a memória e o sentido. “É importante que, nos tempos que correm, a sociedade tenha a capacidade de criar redutos reflexivos sobre o que se está a passar. Redutos que acolham as formas divergentes de pensamento”. A informação está em todo o lado. O conhecimento exige contexto, história e responsabilidade.



No quadro, o tema do equilíbrio reaparece por vias inesperadas. Uma equação descreve tanto o atrito que abranda a bicicleta como o mecanismo que regula a nossa glicémia. Deixa de ser apenas cálculo, é uma gramática para ler o mundo. “A solução matemática para o problema do movimento oscilatório também descreve os níveis de sangue que vocês têm neste momento no vosso corpo”, diz, depois de perguntar aos estudantes se todos almoçaram. O giz desenha uma sinusoidal amortecida; a turma acompanha o traço que desce e estabiliza.

Há também um compromisso com a precisão das palavras. Na aula, a pergunta “como se chama este operador?” desenha silêncios e sorrisos nervosos. Ninguém parece ter ouvido falar de Laplace. A cena rende uma reflexão maior, horas depois: “a memória está ligada a coisas essenciais. A inscrição de um ser humano naquilo que é uma narrativa maior, que é a história da humanidade, é uma das grandes funções da Academia”.

A mesma ética atravessa a conversa sobre avaliação. O professor conta a sua história de estudante e um exercício de Francês guardado décadas por um mestre. O essencial está no que uma avaliação deve significar: espaço para crescimento. “Quem lhes dá notas muito elevadas, além daquilo que é justo, corrompe-os. Quem dá notas muito baixas, maltrata-os”. Para José Maria Gomes, o número importa, mas a formação do caráter sobrepõe-se.

Entra a pergunta inevitável: para que serve tudo isto quando chegarem ao mercado de trabalho, daqui a três ou quatro anos? O professor não pisca os olhos. “Acredito que estes lugares continuam a ser necessários. As salas de aula preparam cérebros e espinhas dorsais. No dia em que um aluno meu de Engenharia tiver que, contra uma pressão de uma empresa, denunciar uma falta de segurança, por exemplo, num funicular, eu sentirei que fiz o meu trabalho”. O conhecimento que interessa é o que ajuda a decidir bem quando o custo é alto.



Voltemos à sala de aula

O giz desliza, o raciocínio abre portas e janelas. As complexas operações matemáticas ligam fenómenos, e os fenómenos contagiam os jovens presentes. As mãos acompanham o pensamento e o tom ganha calor nos pontos em que a intuição precisa de um empurrão. “O conhecimento é sempre um grande momento de pergunta”, atira o docente, meio em desafio, meio em convite. “Não podem ter medo. A Matemática fala connosco, temos de ouvi-la”. A turma escuta.

A reportagem do MOTIVO termina onde começou: numa sala cheia. Há cansaço depois de cerca de noventa minutos de concentração. E há dúvidas. Cerca de uma dezena de alunos dirige-se à secretária de José Maria Gomes, que em nenhum momento se sentou. Trazem os cadernos nas mãos e as dúvidas prontas a serem esclarecidas. O professor vai respondendo às questões enquanto limpa o quadro. Abandonamos aquele espaço e encaminhamo-nos para a saída.

“Eu continuo a vir trabalhar feliz”. É aqui que a próxima geração antecipa o futuro. É aqui que ensaia o gesto que mais conta: olhar a realidade de frente e ter instrumentos para agir. 




A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa é, hoje, um dos maiores campus universitários da Europa, com mais de 8 500 estudantes, 18 centros de investigação e 21 bolsas do European Research Council, consideradas as mais prestigiadas no campo da investigação científica europeia. Conta com mais de 500 docentes e investigadores, 56 deles integrados na World Top 2% Scientist List da Universidade de Stanford, e dispõe de 350 laboratórios equipados com tecnologia de ponta, alguns únicos em Portugal. A vida académica é enriquecida ainda pelos 40 núcleos de estudantes que asseguram um vasto leque de oportunidades de participação e desenvolvimento.

#Motivação

SALA DE AULA: “Senhores engenheiros, olhem para a realidade”

|

27 de nov. de 2025, 11:00

(A série de reportagens Sala de Aula propõe-se a ser um retrato da próxima geração de empreendedores, de gestores e de profissionais de diferentes áreas. Quem são, o que estão a aprender, quem os está a ensinar, que questões surgem, que respostas obtêm, que promessa representam? Todos os meses, o MOTIVO vai assistir a uma aula numa faculdade portuguesa, como testemunha do futuro.)


Quinta-feira, 14h30, num início de outubro quente. Estamos na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, no polo da Caparica, o maior campus universitário português. A sala 3.19 do edifício 9 começou a encher antes da hora. Entre 45 e 50 alunos de quatro cursos — Engenharia Mecânica, Engenharia Industrial, Engenharia de Materiais e Engenharia de Micro e Nanotecnologias — tiram cadernos e estojos das mochilas, enquanto o professor os observa, paciente, junto ao quadro de ardósia verde. “Durante o semestre, normalmente, consigo manter as salas cheias”, garante o docente. A forma como os trata define o ambiente: “senhores alunos”, na maior parte das vezes; já quando a conversa evoca o futuro: “senhores engenheiros”. José Maria Gomes é professor auxiliar na NOVA FCT desde 2006. Integra o Departamento de Matemática e confidencia ao MOTIVO que, mesmo passados todos estes anos, se sente sobejamente realizado e completo na função.

No quadro, escreve uma equação e anuncia: “Senhores alunos, hoje é a última aula de análise complexa, o que significa que vamos transitar para equações diferenciais”. A lição começa com um gesto simples: recordar a matéria anterior para preparar a seguinte. José Maria Gomes explica como as ideias ganham corpo quando as representamos, e como a matemática abre portas para ver o que estava invisível. Fala de trajetórias, velocidade, aceleração e, de súbito, o grupo de jovens estudantes está a seguir uma partícula que desenha círculos e espirais, como se o quadro fosse o mapa de um planeta com pressa. “Quando vocês veem uma função como uma trajetória, a derivada é a velocidade; a segunda derivada é a aceleração”, sublinha, voz firme, giz decidido.

A matéria vive, embora ninguém esteja ali apenas para a conta certa. A ideia de “equilíbrio” atravessa a sessão: a mola que oscila até assentar, o pêndulo que se acalma, a glicemia que regressa à linha. Exemplos quotidianos para explicar a mesma procura de estabilidade. “A realidade carece de representações para nós agirmos sobre ela”, dirá depois. O que uma boa aula faz é oferecer “uma representação da realidade muito mais rica do que aquilo que nos é dado ao princípio”. Tempo para um exercício.



Há momentos que se colam à memória

No meio de equações, o professor dirige-se até à última fila para responder a um pedido sussurrado: “Professor, não sei como é que isto se faz”. José Maria Gomes aproxima-se. Resolvem juntos o primeiro passo e o aluno segue. “Nesses momentos, eu sinto que cumpro um desígnio pessoal”, confessa, já depois. “Em cada aluno, há um bocadinho de mim, na sua versão mais frágil e desamparada”.

A geração à frente deste académico viveu o ensino secundário sob a nuvem da pandemia. Bloqueios, intermitências, ausências, distâncias. O professor recusa rótulos apressados. “Gosto destes alunos. Trabalham, acreditam no conhecimento, quando lhes é dado o conhecimento. Se apresentarmos o conhecimento como algo de vivo, onde os instintos de vida se manifestam, os alunos aderem”. A prova está nas perguntas que, muitas vezes, “vão mais longe”.

O que se aprende naquela hora tem destino para lá do teste. Na linguagem do professor, a universidade é “um jardim”. Um lugar que ultrapassa a técnica. Um lugar de Sofia (palavra grega para sabedoria). Um espaço que cultiva a compreensão, a memória e o sentido. “É importante que, nos tempos que correm, a sociedade tenha a capacidade de criar redutos reflexivos sobre o que se está a passar. Redutos que acolham as formas divergentes de pensamento”. A informação está em todo o lado. O conhecimento exige contexto, história e responsabilidade.



No quadro, o tema do equilíbrio reaparece por vias inesperadas. Uma equação descreve tanto o atrito que abranda a bicicleta como o mecanismo que regula a nossa glicémia. Deixa de ser apenas cálculo, é uma gramática para ler o mundo. “A solução matemática para o problema do movimento oscilatório também descreve os níveis de sangue que vocês têm neste momento no vosso corpo”, diz, depois de perguntar aos estudantes se todos almoçaram. O giz desenha uma sinusoidal amortecida; a turma acompanha o traço que desce e estabiliza.

Há também um compromisso com a precisão das palavras. Na aula, a pergunta “como se chama este operador?” desenha silêncios e sorrisos nervosos. Ninguém parece ter ouvido falar de Laplace. A cena rende uma reflexão maior, horas depois: “a memória está ligada a coisas essenciais. A inscrição de um ser humano naquilo que é uma narrativa maior, que é a história da humanidade, é uma das grandes funções da Academia”.

A mesma ética atravessa a conversa sobre avaliação. O professor conta a sua história de estudante e um exercício de Francês guardado décadas por um mestre. O essencial está no que uma avaliação deve significar: espaço para crescimento. “Quem lhes dá notas muito elevadas, além daquilo que é justo, corrompe-os. Quem dá notas muito baixas, maltrata-os”. Para José Maria Gomes, o número importa, mas a formação do caráter sobrepõe-se.

Entra a pergunta inevitável: para que serve tudo isto quando chegarem ao mercado de trabalho, daqui a três ou quatro anos? O professor não pisca os olhos. “Acredito que estes lugares continuam a ser necessários. As salas de aula preparam cérebros e espinhas dorsais. No dia em que um aluno meu de Engenharia tiver que, contra uma pressão de uma empresa, denunciar uma falta de segurança, por exemplo, num funicular, eu sentirei que fiz o meu trabalho”. O conhecimento que interessa é o que ajuda a decidir bem quando o custo é alto.



Voltemos à sala de aula

O giz desliza, o raciocínio abre portas e janelas. As complexas operações matemáticas ligam fenómenos, e os fenómenos contagiam os jovens presentes. As mãos acompanham o pensamento e o tom ganha calor nos pontos em que a intuição precisa de um empurrão. “O conhecimento é sempre um grande momento de pergunta”, atira o docente, meio em desafio, meio em convite. “Não podem ter medo. A Matemática fala connosco, temos de ouvi-la”. A turma escuta.

A reportagem do MOTIVO termina onde começou: numa sala cheia. Há cansaço depois de cerca de noventa minutos de concentração. E há dúvidas. Cerca de uma dezena de alunos dirige-se à secretária de José Maria Gomes, que em nenhum momento se sentou. Trazem os cadernos nas mãos e as dúvidas prontas a serem esclarecidas. O professor vai respondendo às questões enquanto limpa o quadro. Abandonamos aquele espaço e encaminhamo-nos para a saída.

“Eu continuo a vir trabalhar feliz”. É aqui que a próxima geração antecipa o futuro. É aqui que ensaia o gesto que mais conta: olhar a realidade de frente e ter instrumentos para agir. 




A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa é, hoje, um dos maiores campus universitários da Europa, com mais de 8 500 estudantes, 18 centros de investigação e 21 bolsas do European Research Council, consideradas as mais prestigiadas no campo da investigação científica europeia. Conta com mais de 500 docentes e investigadores, 56 deles integrados na World Top 2% Scientist List da Universidade de Stanford, e dispõe de 350 laboratórios equipados com tecnologia de ponta, alguns únicos em Portugal. A vida académica é enriquecida ainda pelos 40 núcleos de estudantes que asseguram um vasto leque de oportunidades de participação e desenvolvimento.

#Motivação

SALA DE AULA: “Senhores engenheiros, olhem para a realidade”

Fomos assistir a uma lição de Análise Matemática 3 na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa. Não nos demorámos na equações, mas observámos a atenção dos alunos, as suas questões e o entusiasmo com que enfrentaram os problemas.

|

27 de nov. de 2025, 11:00

(A série de reportagens Sala de Aula propõe-se a ser um retrato da próxima geração de empreendedores, de gestores e de profissionais de diferentes áreas. Quem são, o que estão a aprender, quem os está a ensinar, que questões surgem, que respostas obtêm, que promessa representam? Todos os meses, o MOTIVO vai assistir a uma aula numa faculdade portuguesa, como testemunha do futuro.)


Quinta-feira, 14h30, num início de outubro quente. Estamos na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, no polo da Caparica, o maior campus universitário português. A sala 3.19 do edifício 9 começou a encher antes da hora. Entre 45 e 50 alunos de quatro cursos — Engenharia Mecânica, Engenharia Industrial, Engenharia de Materiais e Engenharia de Micro e Nanotecnologias — tiram cadernos e estojos das mochilas, enquanto o professor os observa, paciente, junto ao quadro de ardósia verde. “Durante o semestre, normalmente, consigo manter as salas cheias”, garante o docente. A forma como os trata define o ambiente: “senhores alunos”, na maior parte das vezes; já quando a conversa evoca o futuro: “senhores engenheiros”. José Maria Gomes é professor auxiliar na NOVA FCT desde 2006. Integra o Departamento de Matemática e confidencia ao MOTIVO que, mesmo passados todos estes anos, se sente sobejamente realizado e completo na função.

No quadro, escreve uma equação e anuncia: “Senhores alunos, hoje é a última aula de análise complexa, o que significa que vamos transitar para equações diferenciais”. A lição começa com um gesto simples: recordar a matéria anterior para preparar a seguinte. José Maria Gomes explica como as ideias ganham corpo quando as representamos, e como a matemática abre portas para ver o que estava invisível. Fala de trajetórias, velocidade, aceleração e, de súbito, o grupo de jovens estudantes está a seguir uma partícula que desenha círculos e espirais, como se o quadro fosse o mapa de um planeta com pressa. “Quando vocês veem uma função como uma trajetória, a derivada é a velocidade; a segunda derivada é a aceleração”, sublinha, voz firme, giz decidido.

A matéria vive, embora ninguém esteja ali apenas para a conta certa. A ideia de “equilíbrio” atravessa a sessão: a mola que oscila até assentar, o pêndulo que se acalma, a glicemia que regressa à linha. Exemplos quotidianos para explicar a mesma procura de estabilidade. “A realidade carece de representações para nós agirmos sobre ela”, dirá depois. O que uma boa aula faz é oferecer “uma representação da realidade muito mais rica do que aquilo que nos é dado ao princípio”. Tempo para um exercício.



Há momentos que se colam à memória

No meio de equações, o professor dirige-se até à última fila para responder a um pedido sussurrado: “Professor, não sei como é que isto se faz”. José Maria Gomes aproxima-se. Resolvem juntos o primeiro passo e o aluno segue. “Nesses momentos, eu sinto que cumpro um desígnio pessoal”, confessa, já depois. “Em cada aluno, há um bocadinho de mim, na sua versão mais frágil e desamparada”.

A geração à frente deste académico viveu o ensino secundário sob a nuvem da pandemia. Bloqueios, intermitências, ausências, distâncias. O professor recusa rótulos apressados. “Gosto destes alunos. Trabalham, acreditam no conhecimento, quando lhes é dado o conhecimento. Se apresentarmos o conhecimento como algo de vivo, onde os instintos de vida se manifestam, os alunos aderem”. A prova está nas perguntas que, muitas vezes, “vão mais longe”.

O que se aprende naquela hora tem destino para lá do teste. Na linguagem do professor, a universidade é “um jardim”. Um lugar que ultrapassa a técnica. Um lugar de Sofia (palavra grega para sabedoria). Um espaço que cultiva a compreensão, a memória e o sentido. “É importante que, nos tempos que correm, a sociedade tenha a capacidade de criar redutos reflexivos sobre o que se está a passar. Redutos que acolham as formas divergentes de pensamento”. A informação está em todo o lado. O conhecimento exige contexto, história e responsabilidade.



No quadro, o tema do equilíbrio reaparece por vias inesperadas. Uma equação descreve tanto o atrito que abranda a bicicleta como o mecanismo que regula a nossa glicémia. Deixa de ser apenas cálculo, é uma gramática para ler o mundo. “A solução matemática para o problema do movimento oscilatório também descreve os níveis de sangue que vocês têm neste momento no vosso corpo”, diz, depois de perguntar aos estudantes se todos almoçaram. O giz desenha uma sinusoidal amortecida; a turma acompanha o traço que desce e estabiliza.

Há também um compromisso com a precisão das palavras. Na aula, a pergunta “como se chama este operador?” desenha silêncios e sorrisos nervosos. Ninguém parece ter ouvido falar de Laplace. A cena rende uma reflexão maior, horas depois: “a memória está ligada a coisas essenciais. A inscrição de um ser humano naquilo que é uma narrativa maior, que é a história da humanidade, é uma das grandes funções da Academia”.

A mesma ética atravessa a conversa sobre avaliação. O professor conta a sua história de estudante e um exercício de Francês guardado décadas por um mestre. O essencial está no que uma avaliação deve significar: espaço para crescimento. “Quem lhes dá notas muito elevadas, além daquilo que é justo, corrompe-os. Quem dá notas muito baixas, maltrata-os”. Para José Maria Gomes, o número importa, mas a formação do caráter sobrepõe-se.

Entra a pergunta inevitável: para que serve tudo isto quando chegarem ao mercado de trabalho, daqui a três ou quatro anos? O professor não pisca os olhos. “Acredito que estes lugares continuam a ser necessários. As salas de aula preparam cérebros e espinhas dorsais. No dia em que um aluno meu de Engenharia tiver que, contra uma pressão de uma empresa, denunciar uma falta de segurança, por exemplo, num funicular, eu sentirei que fiz o meu trabalho”. O conhecimento que interessa é o que ajuda a decidir bem quando o custo é alto.



Voltemos à sala de aula

O giz desliza, o raciocínio abre portas e janelas. As complexas operações matemáticas ligam fenómenos, e os fenómenos contagiam os jovens presentes. As mãos acompanham o pensamento e o tom ganha calor nos pontos em que a intuição precisa de um empurrão. “O conhecimento é sempre um grande momento de pergunta”, atira o docente, meio em desafio, meio em convite. “Não podem ter medo. A Matemática fala connosco, temos de ouvi-la”. A turma escuta.

A reportagem do MOTIVO termina onde começou: numa sala cheia. Há cansaço depois de cerca de noventa minutos de concentração. E há dúvidas. Cerca de uma dezena de alunos dirige-se à secretária de José Maria Gomes, que em nenhum momento se sentou. Trazem os cadernos nas mãos e as dúvidas prontas a serem esclarecidas. O professor vai respondendo às questões enquanto limpa o quadro. Abandonamos aquele espaço e encaminhamo-nos para a saída.

“Eu continuo a vir trabalhar feliz”. É aqui que a próxima geração antecipa o futuro. É aqui que ensaia o gesto que mais conta: olhar a realidade de frente e ter instrumentos para agir. 




A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa é, hoje, um dos maiores campus universitários da Europa, com mais de 8 500 estudantes, 18 centros de investigação e 21 bolsas do European Research Council, consideradas as mais prestigiadas no campo da investigação científica europeia. Conta com mais de 500 docentes e investigadores, 56 deles integrados na World Top 2% Scientist List da Universidade de Stanford, e dispõe de 350 laboratórios equipados com tecnologia de ponta, alguns únicos em Portugal. A vida académica é enriquecida ainda pelos 40 núcleos de estudantes que asseguram um vasto leque de oportunidades de participação e desenvolvimento.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.

Newsletter

Tenha acesso exclusivo à entrevista semanal em vídeo e a outros conteúdos em primeira mão. A Newsletter do MOTIVO é gratuita, sai às segundas-feiras de manhã e vai dar-lhe muitas razões para começar a semana com a motivação certa.